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    DIANA GABALDON
    
    
Titulo original: Druns of Autumn
    
    
    
    
    Prlogo
       
       Nunca tive medo aos fantasmas. depois de tudo, vivo com eles cada dia. Quando me Miro em um espelho, os olhos de minha me me devolvem o olhar e minha boca se curva com o sorriso que seduziu a meu bisav para que eu tivesse meu destino.
       Como vou temer o roce dessas mos que se desvanecem, que se detm sobre mim com um amor desconhecido?. Como vou ter medo daqueles que moldaram minha carne, deixando seu rastro para viver muito alm da morte?.
       Menos ainda poderia temer a esses fantasmas que roam meus pensamentos ao passar. Todas as bibliotecas esto cheias deles. Posso agarrar um livro das prateleiras poeirentas e me apanharo os pensamentos de algum morto faz tempo, mas ainda vivo em sua mortalha de palavras.
        obvio, no so os ordinrios e acostumados fantasmas que turvam o sonho e aterram ao insone. Olhe para trs e acenda uma lanterna para iluminar os rinces apartados na escurido. Escute as pisadas que ressonam detrs quando caminha sozinho.
       Continuamente, os fantasmas revoam e passar atravs de ns, ocultando-se no futuro. Olhamos no espelho e vemos as sombras de outros rostos olhando atravs dos anos; vemos a silhueta da memria, erguida com firmeza na soleira vazia da porta. Por sangue e por eleio, criamos nossos fantasmas, perseguimos a ns mesmos.
       Cada fantasma sai espontaneamente dos terrenos confusos do sonho e o silncio.
       Nossa mente racional diz: "No, no  assim".
       Mas outra parte, uma parte mais antiga, sempre repete brandamente na escurido: "Sim, mas poderia ser".
       Vamos e vamos pelo mistrio, tratando de esquecer. Mas quando uma rajada de ar passa por uma habitao e agita meu cabelo, acredito que  minha me.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
    PRIMEIRA PARTE
    MARAVILHOSO NOVO MUNDO
       
       1
       Um enforcado em den
       
       
       Charleston, junho de 1.767
       
       Escutei os tambores muito antes de poder v-los. Os golpes ressonavam na boca de meu estmago como se eu tambm estivesse oca. As cabeas se voltavam e a gente ficava em silncio olhando a rua East Bay, que se estendia da estrutura em construo da nova alfndega at os jardins do White Point.
       O dia era caloroso inclusive para o Charleston no ms de junho. Os melhores sites estavam no dique, onde o ar circulava, mas aqui embaixo era como cozer-se vivo.
       Naquele momento, era morbosamente consciente dos pescoos. Coloquei uma mo no meu e o percorri com os dedos. O pulso de minhas artrias cartidas pulsava ao mesmo ritmo que os tambores e, ao respirar, o ar mido e quente obstrua minha garganta, me afogando. Baixei a mo e respirei profundamente. Foi um engano. O homem que tinha em frente no se banhou em meses. Tambm havia vrios meninos, estirando-se boquiabertos para olhar para a rua enquanto seus pais, ansiosos, chamavam-nos. A menina mais prxima a mim tinha o pescoo como a parte branca de um caule de erva, elstico e suculento.
       produziu-se um estremecimento entre a multido quando a procisso da forca apareceu ao final da rua. Os tambores soaram mais forte.
       -Onde est? -murmurou Fergus, estirando o pescoo para poder ver-. Sabia que teria que ter ido com ele!
       -Tem que estar aqui.
       Quis me pr nas pontas dos ps, mas no me pareceu digno para o momento. Segui procurando ao redor. Sempre podia localizar ao Jamie entre a multido; sua cabea e ombros se sobressaam por cima da maioria dos homens e seu cabelo refletia a luz como um brilho de ouro avermelhado. Entretanto, no havia rastro dele. 
       Primeiro apareceram as bandeiras, ondulando sobre as cabeas da agitada multido, com as insgnias de Gr-Bretanha, da Real Colnia da Carolina do Sul e o escudo da famlia do lorde governador da colnia. Logo chegaram os tambores, partindo de dois em dois e alternando um golpe forte com outro mais amortecido. Era uma marcha lenta, sombria e inexorvel. Uma marcha fnebre, assim chamavam a aquela cadncia em particular, muito adequada para as circunstncias. O resto dos rudos ficavam apagados pelo som dos tambores. A seguir partia o peloto de casacas vermelhas, em meio dos quais se encontravam os prisioneiros. Eram trs, com as mos atadas por diante e unidos por uma cadeia que os unca os pescoos com argolas de ferro.
       -Esse  Gavin Hayes? Parece doente -murmurei ao Fergus.
       -Est bbado.
       A voz suave vinha de minhas costas; dava-me a volta rapidamente e descobri ao Jamie com os olhos cravados na deprimente procisso.
       A falta de equilbrio do homenzinho entorpecia o progresso da marcha; seus tropees obrigavam aos outros dois homens encadeados com ele a ziguezaguear para no cair. A impresso que davam era de trs bbados voltando para casa do botequim.
       -Foi voc? -perguntei em voz baixa para no chamar a ateno, embora poderia ter gritado e agitado os braos pois ningum tinha olhos mais que para a cena que se desenvolvia ante ns.
       -Pediu-me isso -respondeu-. E foi o melhor que pude fazer por ele.
       -Brandy ou usque? -perguntou Fergus.
       -O homem  escocs, pequeno Fergus.
       A voz do Jamie era to tranqila como a expresso de seu rosto, mas notei a tenso que ocultava.
       -Uma eleio muito sbia. Com sorte, nem sequer se dar conta quando o enforcarem -murmurou Fergus.
       O capito do guarda tinha o rosto avermelhado pelo sol e a fria; brilhava entre o branco de sua peruca e o metal de sua garganta. Gritou uma ordem enquanto os tambores continuavam seu sombrio rufo, e um soldado se apressou a desencadear aos prisioneiros. Hayes foi levantado sem cerimnia alguma por duas soldados e a procisso continuou mais ordenada.
       Quando chegaram  forca, um carro com uma mula baixo os ramos de um grande carvalho, ningum ria.
       -No precisa olhar -sussurrou Jamie-. Retorna ao carro.
       Seu olhar estava cravado no Hayes, que se retorcia sujeito pelos soldados enquanto olhava confundido.
       Quo ltimo desejava era olhar. Mas tampouco ia deixar que Jamie passasse sozinho por tudo aquilo. Estava ali por causa do Gavin Hayes e eu estava por ele. Toquei-lhe a mo.
       -Me vou ficar.
       Jamie se ergueu, endireitando os ombros. Deu um passo adiante para ser visvel em meio da gente. Se Hayes ainda estava sbrio para ver algo, quo ltimo veria neste mundo seria o rosto de um amigo.
       Podia ver, pois enquanto o subiam ao carro torcia o pescoo com desespero.
       -Gabhainn! A charaid! -gritou de repente Jamie.
       Os olhos do Hayes o encontraram e deixou de lutar. Ento os tambores comearam outra vez, com rufos parecidos.
       O verdugo passou o lao pela cabea calva e ajustou o n, colocando-o debaixo da orelha. O capito do guarda permaneceu erguido, com o sabre levantado.
       de repente, o homem condenado se endireitou. Fixou os olhos no Jamie e abriu a boca como se fora a falar.
       A espada brilhou com o sol da manh e os tambores se detiveram com um rufo final.
       Olhei ao Jamie; tinha o rosto plido e os olhos muito abertos. De reojo pude ver o balano da soga e o espasmo de um monto de roupa. Um forte aroma de urina e excrementos alagou o ar pesado. A um lado, Fergus observava impvido.
       -Suponho que, depois de tudo, deu-se conta -murmurou com pena.
       O corpo pendurava oscilando ligeiramente como um prumo.
       No tinha conhecido ao Gavin Hayes e no sentia dor pessoal por sua morte, mas me alegrava que tivesse sido rpida.
       Olhei de esguelha, com a estranha sensao de ser uma intrusa.
       O capito do guarda, satisfeito ao comprovar que Hayes tinha morrido, fez um gesto com a espada para que subissem ao seguinte. Vi seu olhar percorrendo a fila e como se transformava em uma expresso ultrajada no mesmo momento em que se ouvia um grito entre a multido e uma corrente de excitao se estendia com rapidez. As cabeas se voltavam e todos tratavam de ver.
       -escapa!
       -por ali!
       -Detenham-no!
       Era o terceiro prisioneiro, um homem jovem e alto, que aproveitou o momento da morte do Gavin para escapar. Os guardas que o vigiavam no tinham podido resistir  fascinao do linchamento.
       O capito do guarda gritava com o rosto congestionado; sua voz era apenas audvel no meio do escndalo. O prisioneiro que ficava, muito assombrado, foi levado a quartel; depois os soldados comearam a organizar-se baixo as ordens do capito.
       Jamie me passou um brao pela cintura e me arrastou fora da mar humana.
       -Ser melhor procurar o Ian -disse Jamie. Lanou um olhar ao Fergus e torceu a cabea para o patbulo e seu triste carrega. -Reclama o corpo, quer? Encontraremo-nos mais tarde no botequim do Salgueiro.
       -Crie que o apanharo? -perguntei enquanto nos abramos passo entre a gente.
       -Isso espero. Onde poderia ir?
       -Hayes tinha famlia? -perguntei.
       Jamie negou com a cabea.
       -O perguntei quando lhe levei o usque. Disse-me que podia ser que um irmo seu ainda vivesse, mas no tinha idia de onde estava. Foi deportado a Virginia, conforme acreditava Gavin, mas nunca soube nada.
       -Duncan! -gritou Jamie; um homem alto e magro se voltou e levantou uma mo.
       -MAC Duhh -disse, inclinando a cabea para saudar o Jamie-. Senhora Claire.
       Seu rosto alargado estava cheio de tristeza. O tambm tinha estado prisioneiro no Ardsmuir, com o Hayes e Jamie. Perdida-a de um brao por uma infeco evitou que o deportassem com os outros. Como no podiam vend-lo para trabalhar, foi perdoado e posto em liberdade para que morrera de fome, mas Jamie o encontrou antes de que isto ocorresse.
       -Deus acolha em seu seio ao pobre Gavin -disse Duncan, sacudindo a cabea com pena.
       Jamie murmurou uma resposta em galico.
       -Assim seja. Bem, tenho que ir ao mole para arrumar o da passagem do Ian e logo pensaremos no enterro do Gavin. Primeiro tenho que encontrar ao moo.
       Encaminhamo-nos para o mole. Uma coluna de casacas vermelhas partia rapidamente pela outra ponta, abrindo-se passo entre a multido.
       -Cuida seu moedeiro, Sassenach -murmurou Jamie em meu ouvido, me empurrando entre um escravo com turbante e um pregador guia de ruas subido a uma caixa.
       Falava sobre o pecado e o arrependimento, mas o rudo lhe superava.
       -Tenho-o costurado. -Tranqilizei-lhe enquanto tocava a bolsita que pendurava em minha coxa-, E o teu?
       Sorriu zombador e se jogou o chapu fazia diante.
       -Est onde deveria estar meu embornal. Enquanto no me encontre com uma prostituta de dedos rpidos, estar a salvo.
       Olhei o ligeiro vulto da parte dianteira de seus cales e logo o observei. Alto, de costas largas, com faces bem definidas e o porte orgulhoso dos montanheses; atraa os olhares de todas as mulheres que passavam, at com seu brilhante cabelo coberto pelo discreto tricornio azul. Os cales, emprestados, eram muito ajustados e no faziam mais que melhorar seu aspecto geral, efeito que aumentava pelo fato de que Jamie no se dava conta.
       - uma tentao andante para as prostitutas -pinjente-. Fique perto, eu te protegerei.
       Riu e me agarrou do brao enquanto nos detnhamos em um pequeno espao livre.
       -Ian! -gritou ao divisar a seu sobrinho entre a multido.
       Ao momento, um moo alto e fraco, com ar distrado, saiu de entre a gente, apartando uma mecha de cabelo castanho que lhe tampava os olhos e sonriendo alegremente.
       -Tio Jaime, acreditei que nunca te encontraria! -exclamou-. Diabos, h muita mais gente aqui que no mercado do Edimburgo.
       -Ian, sua alegria  indecente depois de ver enforcar a um homem.
       -Ah, no, tio Jamie -disse-. No vi como o penduravam.
       -Duncan levantou uma sobrancelha e o moo se ruborizou-. No  que tivesse medo, mas... queria fazer outra coisa.
       Jamie sorriu e aplaudiu as costas do Ian.
       -No se preocupe, Ian; eu tambm tivesse desejado no v-lo, mas Gavin era um amigo.
       -Sei, tio. Lamento-o. -Uma fasca de compreenso iluminou os grandes olhos marrons do jovem, o nico realmente bonito de sua cara. voltou-se para mim-. Foi muito horrvel, tia?
       -Sim -respondi-, mas j terminou.
       -Vamos -interveio Jamie-. O navio deve estar ao final do mole.
       Ian se encolheu de ombros, olhou-me e me ofereceu o brao.
       Seguimos ao Jamie entre os depsitos, esquivando marinheiros, escravos, estivadores, passageiros, compradores e toda classe de vendedores. Charleston era um porto importante e os negcios deviam prosperar, a julgar pela quantidade de navios que foram e voltavam para a Europa durante a temporada.
       O Bonnie Mary pertencia a um amigo do sobressaio do Jamie, Jared Fraser, quem se tinha instalado na Frana para fazer fortuna com o comrcio do vinho e tinha tido muito xito.
       Se tnhamos sorte, o capito permitiria que Ian viajasse at o Edimburgo pagando sua passagem trabalhando de grumete.
       Ian no estava entusiasmado com a perspectiva, mas Jaime tinha decidido embarcar a seu sobrinho para Esccia  primeira oportunidade. Procurar um navio no Charleston foi, entre outras preocupaes, a causa de que deixssemos Georgia, onde tnhamos chegado dois meses antes por acidente.
       -Ainda esto a salvo as jias da famlia?-murmurei.
       -Incmodas, mas seguras -assegurou-me com uma careta-. Acredito que tivesse sido melhor que as escondesse em meu traseiro.
       As jias da famlia eram exatamente isso. Um furaco nos tinha miservel at a costa da Georgia e o nico que ficava era um punhado de pedras preciosas de grande tamanho e valor. Confiava em que o capito do Bonnie Mary apreciasse o suficiente ao Jared Fraser para aceitar ao Ian como grumete porque, de no ser assim, teria dificuldades com a passagem. Em teoria, o embornal do Jamie e meu bolsita continham uma fortuna considervel. Mas na prtica, as pedras preciosas poderiam ser calhaus. Era uma forma fcil de transportar uma fortuna, mas o problema era as trocar por dinheiro.
       Charleston era a primeira cidade com suficiente quantidade de comerciantes e banqueiros para poder trocar parte de nossa congelada fortuna.
       Embora era difcil que algo permanecesse congelado durante muito tempo no Charleston e no vero, refleti.
       As gotas de suor corriam por meu pescoo e molhavam minha regata.
       Apesar de suas negativas, Jamie tinha insistido em entregar uma de nossas pedras ao senhor e a senhora Olivier, a bondosa gente que nos tinha agasalhado em sua casa, em sinal de agradecimento. Tinham-nos proporcionado o carro, dois cavalos, roupa limpa para a viagem, comida e um pouco de dinheiro.
       Na bolsa j s ficavam seis xelins e trs peniques, todo nosso dinheiro disponvel.
       -por aqui, tio Jamie -disse Ian-. Tenho algo que te ensinar.
       -Do que se trata? -perguntou Jamie, esquivando a um grupo de suarentos escravos-. E como o conseguiste, seja o que seja, se no ter dinheiro?
       -No, no tenho dinheiro; foi com os jogo de dados.
       -Jogo de dados! Ian, pelo amor de Deus, no pode jogar quando no tem nem um penique.
       -Voc o faz sempre, tio Jamie -assinalou o moo, detendo-se para nos esperar-. Tem-no feito em tudo os botequins e estalagens onde paramos.
       -Mas eram cartas, Ian, no jogo de dados! E eu sei o que fao!
       -Eu tambm -respondeu com ar presumido-. Ganhei, no?
       -Pelo amor de Deus, Ian, me alegro de que no lhe tenham quebrado a cabea at agora. me prometa que no jogar com os marinheiros. Em um navio no teria escapatria.
       Mas Ian no lhe emprestava ateno; tinha chegado at um vulto escuro pacote com uma corda.
       - um co -disse com orgulho.
       -Ian -disse-, no  um co.  um lobo.  um lobo muito grande, e acredito que deveria te liberar dele antes de que te remoa o traseiro.
       O lobo dobrou uma orelha em minha direo com ar indiferente e a deixou cair. Seguiu ofegando pelo calor, com os grandes olhos de cor amarela fixas no Ian com uma intensidade que poderia tomar por devoo algum que no se encontrou antes com um lobo. Eu o tinha feito.
       Sem preocupar-se, Jamie inspecionou ao animal.
       -No  exatamente um lobo, verdade? -Muito interessado, estendeu a mo para o suposto co para que farejasse seus ndulos-.  um animal muito bonito, Ian -afirmou, arranhando aquela costure com familiaridade debaixo do focinho. Os olhos amarelos se entrecerraron, possivelmente pelo prazer da carcia ou, segundo meu ponto de vista, antecipando uma dentada no nariz do Jamie-. Embora seja maior que um lobo: tem as patas mais largas e a cabea e o peito mais largos.
       -Sua me era um galgo irlands. -Ian estava agachado ao lado do Jamie, explicando laborioso, enquanto lhe acariciava o enorme lombo de cor castanha com tons cinzentos-. escapou ao bosque estando em zelo e quando retornou para parir...
       -OH, sim, j vejo.
       Jamie cantarolava em galico, levantava uma das patas do monstro e examinava seus pezuas peludas. As unhas eram curvas e mediam mais de cinco centmetros.
       Olhei de esguelha ao Duncan, quem levantou as sobrancelhas, encolheu-se de ombros e suspirou. Ao Duncan no interessavam os ces.
       -Jamie -pinjente.
       -Balach Boidheach -disse Jamie ao lobo-.  um formoso animal.
       -O que comer? -perguntei, em voz mais alta do que tivesse querido.
       Jamie deixou de acariciar ao animal.
       -Temo-me que sua tia tem razo, Ian. Como o vamos alimentar?
       -Isso no  problema, tio Jamie -assegurou Ian-. Caa para comer.
       -Aqui? -Joguei um olhar aos depsitos-. Que caa? Meninos?
       - obvio que no, tia -respondeu ofendido-. Peixes.
       Ao ver trs rostos que o observavam com cepticismo, Ian abriu o focinho do animal com as duas mos.
       -Juro que  assim, tio Jamie! Pode cheirar seu flego.
       -Mm... vou aceitar sua palavra, Ian. Mas de todos os modos, tome cuidado com seus dedos, moo!
       Ian tinha solto o focinho do co e das fauces lhe caa um jorro de saliva.
       -Estou bem, tio -disse alegremente Ian, secando-as mos nos cales-. Estou seguro de que no me vai morder. Seu nome  Cilindro.
       -Bom, no importa como se chame, nem o que vrgula; no acredito que o capito aceite o ter entre sua tripulao.
       Ian no respondeu, mas a expresso de alegria de seu rosto no trocou. Em realidade, aumentou. Jamie lhe olhou, notou seu regozijo e ficou petrificado.
       -No -disse, horrorizado-, OH, no!
       -Sim -respondeu Ian. Um amplo sorriso de satisfao se estendeu por seu rosto ossudo-. Partiu faz trs dias, tio. chegamos muito tarde.
       Jamie disse algo em galico que no entendi, mas que escandalizou ao Duncan.
       -Sinto muito, tio. Tentarei no causar problemas, de verdade; posso trabalhar e ganhar o necessrio para pagar minha comida.
       O rosto do Jamie se adoou ao olhar a seu sobrinho. Suspirou profundamente e lhe aplaudiu as costas.
       -No  que eu no queira, Ian. Sabe que nada eu gostaria mais que te ter comigo. Mas que diabos dir sua me?
       O brilho retornou ao rosto do moo.
       -No sei, tio -respondeu-, mas o dir em Esccia e ns estamos aqui.
       agachou-se para abraar a Cilindro. O lobo pareceu surpreso pelo gesto mas em seguida tirou sua larga lngua rosada e lambeu a orelha do Ian. Provando seu sabor, pensei com cinismo.
       -Alm disso -acrescentou o moo-, ela sabe que estou bem; voc lhe escreveu desde a Georgia para lhe avisar de que estava contigo.
       Jamie se permitiu um sorriso zombador.
       -No acredito que isso a reconforte. Conhece-me faz muito, sabe?
       Suspirou, colocou-se o chapu e se voltou para mim.
       -Necessito um gole, Sassenach. vamos procurar esse botequim.
       O botequim do Salgueiro era escura e com menos gente poderia ter sido fresca. Cilindro demonstrou imediatamente sua utilidade, abrindo-se passo entre a multido com um leve grunhido. Era evidente que conhecia os botequins pois, depois de nos conseguir uma mesa em um rinco, ps-se a dormir.
       Longe do calor do sol e com uma grande jarra de cerveja negra, Jamie recuperou rapidamente seu aprumo.
       -Temos duas possibilidades -disse, tornando-se para trs o cabelo suado-. Podemos ficar no Charleston o tempo suficiente para tratar de encontrar comprador para uma das pedras e talvez uma passagem para o Ian em outro navio. Ou podemos seguir pelo norte, para Cape Fear, e procurar um navio no Wilmington ou New Bern.
       -Eu digo que vamos ao norte -disse Duncan sem vacilar-. Tem parentes em Cape Fear, no? Eu no gosto da idia de ficar muito tempo entre desconhecidos.
       -Vamos ao norte, tio! -interveio Ian antes de que Jaime pudesse responder-. A viagem pode ser perigoso e necessitar um homem mais como amparo, no  certo?
       Jamie ocultou sua expresso com a jarra, mas eu vi que se estremecia. Realmente queria muito a seu sobrinho. O que acontecia era que Ian era o tipo de pessoa a que sempre lhe acontecia algo.
       Um ano antes tinha sido seqestrado por uns piratas e a necessidade de nos resgat-lo tinha feito empreender a viagem at a Amrica. No lhe tinha acontecido nada ultimamente, mas sabia que Jamie estava ansioso por mandar a seu sobrinho, de quinze anos, a Esccia com sua me antes de que ocorresse qualquer outra coisa.
       -Ah... seguro, Ian -disse Jamie, evitando me olhar embora pude detectar um sorriso-. Ser de grande ajuda, estou seguro, mas...
       -Ao melhor encontramos com os corte vermelhas! - exclamou Ian com os olhos dilatados-. Ou com animais selvagens, como ursos ou pumas, ou isso que os ndios chamam mofetas.
       Engasguei-me com a cerveja.
       -Est bem, tia?
       Ian se inclinou ansioso por me ajudar.
       -Muito bem. -Ento captei uma expresso de preocupao no rosto do Jamie-. As mofetas no so perigosas-murmur, apoiando uma mo sobre seu joelho.
       Embora era um caador valente e habilidoso em suas montanhas nativas, ao Jamie preocupava a fauna desconhecida do Novo Mundo.
       -Mmm. -A preocupao quase se apagou de seu rosto-. Pode ser. Mas e os outros animais? No acredito que eu gostasse de me enfrentar a um urso ou a um grupo de selvagens s com isto -disse tocando o comprido faca que pendurava de seu cinturo.
       A falta de armas tinha preocupado ao Jamie durante nossa viagem desde a Georgia e agora Ian havia tornado a lhe recordar o tema. Alm disso da faca do Jamie, Fergus tinha uma pequena navalha que servia para cortar cordas. A viagem ao norte se fazia imprescindvel, j que no tnhamos dinheiro. Cape Fear era o assentamento escocs maior das colnias, com muitos povos formados por imigrantes dos ltimos vinte anos. E entre eles estavam os parentes do Jamie, que nos ofereceriam refgio: um teto, uma cama e tempo para nos estabelecer neste novo lugar.
       Jamie bebeu outro gole e fez um gesto ao Duncan.
       -Devo dizer que estou de acordo contigo, Duncan. -tornou-se para trs apoiando-se contra a parede e Lanou um olhar indiferente pelo lugar-. No sente uns olhos em suas costas?
       -Os olhos de quem? -perguntei com um olhar nervoso.
       -De qualquer, Sassenach -respondeu Jamie. Me olhou de esguelha e sorriu-. No ponha cara de medo. No estamos em perigo. Aqui no.
       -Ainda no -disse Innes, servindo-se outra jarra de cerveja-. MAC Dubh chamou o Gavin quando o foram pendurar. Alguns tm que hav-lo notado, no  to pequeno -acrescentou.
       -E os granjeiros que vieram conosco desde a Georgia j teriam vendido sua mercadoria e devem estar em alguma botequim. Todos so homens honrados, mas falaro, Sassenach.  uma boa histria, no? Os que apareceram com o furaco. E quantas so as possibilidades de que, ao menos um, pergunte-se o que trazamos?
       -J vejo -murmurei.
       Tnhamos atrado a ateno pblica por nossa relao com um criminoso e j no podamos passar por viajantes comuns.
       Jamie levantou sua jarra e bebeu um bom gole, logo a deixou com um suspiro.
       -No, no seria inteligente ficar na cidade. vamos ocupar nos de enterrar decentemente ao Gavin e logo procuraremos um lugar seguro no bosque para dormir. Amanh decidiremos se vamos ou ficamos.
       A porta do botequim se abriu de repente e quatro casacas vermelhas se abriram passo entre a gente. Levavam o uniforme completo e o fuzil com a baioneta imerso fazia evidente que no estavam ali para tomar uma cerveja ou jogar aos jogo de dados.
       Jamie parecia tranqilo bebendo sua cerveja, mas a mo apoiada em minha coxa se esticou. Duncan, com mais dificuldade para dissimular seus sentimentos, inclinou a cabea para ocultar sua expresso. Nenhum homem se sentia cmodo ante a presena dos casacas vermelhas, por muitas e boas razes.
       Quando os soldados se dirigiam para a sada, a magra figura do Fergus se apertou contra a porta para evitar que o empurrassem.
       Um dos soldados observou com interesse o brilho do gancho de ferro que Fergus usava para substituir sua mo esquerda. O olhou de esguelha e seguiu a seus companheiros.
       Fergus caminhou entre a gente e se deixou cair no banco, ao lado do Ian. Estava irritado e acalorado.
       -Asqueroso salaud-disse sem prembulos.
       Jamie arqueou as sobrancelhas.
       -O clrigo -explicou Fergus agarrando a jarra que Ian empurrava em sua direo para, ato seguido, esvazi-la-. Quer dez xelins por enterr-lo no cemitrio.  uma igreja anglicana,  obvio, aqui no h Iglesias catlicas.Imundo agiota! Sabe que no temos opo. O corpo agentar at pr-do-sol.
       Fez gestos para atrair a ateno da mulher que servia.
       -Disse a esse gordo seboso que voc decidiria se pagaramos ou no. depois de tudo, poderamos enterr-lo no bosque. Embora teramos que conseguir uma p -acrescentou com o rosto carrancudo-. Todos esses camponeses sabem que somos estrangeiros e trataro de nos tirar at a ltima moeda.
       A ltima moeda, um pouco perigosamente prximo  verdade. Tinha dinheiro suficiente para pagar uma comida decente e mantimentos para a viagem, talvez at para pagar um par de noites em uma estalagem. Isso era tudo. Vi o olhar do Jamie percorrendo o lugar, calculando as possibilidades de ganhar um pouco de dinheiro no jogo.
       -O que tem feito com o Gavin? -perguntou Jamie.
       Fergus moveu um ombro.
       -Est no carro. Troquei as roupas que levava por um sudrio e a trapera aceitou lavar o corpo como parte do trato.
       -Sorriu fracamente-. No se preocupe, senhor, est bem. por agora -acrescentou, levando a jarra a sua boca.
       -Pobre Gavin.
       Duncan Innes levantou sua jarra como uma saudao a seu camarada morto.
       -Slainte -respondeu Jamie e levantou sua jarra.
       -No gostaria que o enterrassem no bosque.
       -por que? -perguntei intrigada-. Acreditava que lhe daria o mesmo uma coisa que outra.
       -OH, no, no podemos fazer isso, senhora Claire.
       Duncan sacudia a cabea com nfase.
       -Tinha-lhe medo  escurido -explicou brandamente Jamie.
       Voltei-me para olh-lo e me sorriu-. Vivi com o Gavin Hayes quase tanto tempo como contigo, Sassenach, e em lugares com muito menos espao.
       -Tinha medo de estar sozinho na escurido -interveio Duncan-. Tinha um medo mortal aos tannagach, os espritos.
       Seu comprido rosto sombrio mostrava uma expresso reflexiva e soube que estava rememorando a cela que tinha compartilhado com o Gavin e outros quarenta homens durante trs largos anos.
       -Recorda, MAC Dubh, o que nos contou uma noite sobre seu encontro com o tannasq?.
       - claro que sim, Duncan, e desejaria no faz-lo. -Jamie se estremeceu pese ao calor-. Fiquei acordado parte da noite, depois de que terminasse sua histria.
       -E como foi, tio?
       Ian o observava com os olhos muito abertos.
       -Ah, bom, era a finais de um frio outono, nas montanhas, justo quando troca a estao e o ar anuncia que gelar ao amanhecer. No como aqui. Bom, o filho do Gavin encerrou as vacas aquela noite, mas faltava uma; o moo a buscou pelas colinas e ladeiras, mas no pde encontr-la. Ento Gavin o enviou a ordenhar s outras e saiu a procur-la. "Andou certa distncia e a cabana, que estava a suas costas, desapareceu; no podia ver a luz da janela e o nico som era o do vento. meteu-se em um bosquecillo que viu atravs da nvoa pensando que a vaca podia haver-se refugiado ali. Mas em realidade, era um crculo de rvores, com um montculo de pedras no centro.
       Embora no botequim fazia calor, senti como me gelava as costas. Tinha visto aqueles antigos montculos nas montanhas de Esccia e eram fantasmales at em pleno dia.
       -Gavin disse que se sentiu muito estranho. Conhecia o lugar; todos o conheciam e se mantinham afastados dali. Era um lugar estranho e parecia mais lgubre pela escurido e o frio. Estava feito com placas de rochas rodeadas de pedras que lhe deixavam ver a abertura negra da tumba. "Sabia que era um lugar onde os homens no deviam ir. No tinha nenhum amuleto, unicamente uma cruz de madeira pendurando do pescoo; fez o sinal da cruz se com ela e se voltou para ir-se.
       Jamie fez uma pausa para beber.
       -Mas quando Gavin se afastava do montculo, ouviu passos a suas costas.
       Ian tragou com dificuldade.
       -No se deu a volta para olhar -continuou Jamie-, mas sim seguiu caminhando enquanto os passos ressonavam detrs dele. Caminhou e caminhou atravs da noite escura e fria, procurando a luz da janela onde sua esposa sempre deixava uma vela acesa. Mas no aparecia e comeou a temer que se perdeu. Os passos seguiam ressonando, at que finalmente no pde suport-lo mais e, sujeitando o crucifixo, deu-se a volta com um grito, disposto a enfrentar-se com o que fora.
       -O que  o que viu?
       Ian tinha as pupilas dilatadas, obscurecidas pelo lcool e o assombro. Jamie fez um gesto ao Duncan para que continuasse o relato.
       -Disse que era a silhueta de um homem, mas sem corpo -explicou Duncan-. Tudo branco, como feito com nvoa e com grandes buracos no lugar dos olhos, por onde lhe arrancariam a alma do corpo.
       -Levantou a cruz ante sua cara e rezou em voz alta  a Santa Virgem -disse Jamie retomando a histria-. E aquele ser no se aproximou mais, mas sim ficou ali, observando-o. Ento comeou a caminhar para trs, sem d-la volta. No sabia quanto caminhou, mas lhe tremiam as pernas pela fadiga quando finalmente divisou uma luz entre a bruma; ali estava sua cabana, com a vela na janela. Gritou de alegria e se dirigiu  porta, mas aquilo era mais rpido e lhe adiantou. Sua esposa o tinha estado esperando e quando lhe ouviu gritar, foi at a porta. Gavin, a gritos, disse-lhe que no sasse, que pelo amor de Deus procurasse um talism para afastar o tannasq. Rpida como o vento, tirou a panela que estava debaixo da cama e um ramo de mirto pacote com uma cinta negra e vermelha, que tinha preparado para benzer as vacas. Arrojou a gua contra a porta e aquilo retrocedeu. Gavin correu e, ao entrar, trancou a porta e permaneceu abraado a sua esposa at o amanhecer. Deixaram que a vela ardesse toda a noite e Gavin no voltou a sair de sua casa depois da queda do sol; at que partiu para lutar pelo prncipe Tearlach. Agora, Gavin se foi  escurido -concluiu Jamie-. Mas no o deixaremos fora do cemitrio.
       -Encontraram a vaca? -perguntou Fergus, com seu praticamente.
       Jamie levantou uma sobrancelha para que Duncan respondesse.
       -Ah, sim, fizeram-no!  manh seguinte encontraram ao pobre animal talher de barro e pedras, com o olhar enlouquecido e os lombos machucados. -Nos olhou de esguelha antes de continuar-. Gavin dizia que parecia como se houvesse tornado do inferno.
       -O que aconteceu com eles? -Ian deixou sua jarra sobre a mesa-.  esposa e ao filho do Gavin?
       Os olhos do Jamie se encontraram com minha e sua mo me tocou a coxa. Sabia, sem que ningum me houvesse isso dito, acontecido-o com a famlia do Hayes. Sem o valor e a determinao do Jamie, o mesmo me tivesse ocorrido e a nossa filha Brianna.
       -Gavin no soube -disse Jamie com calma-. Nunca soube nada de sua esposa; deveu morrer de fome ou de frio. Seu filho desapareceu no Culloden. Sempre perguntava a todos pelo Archie Hayes, mas nunca obteve resposta sobre seu destino.
       Jamie bebeu um gole de cerveja com os olhos fixos em um par de oficiais britnicos que estavam em um rinco.
       -s vezes confiava em que o moo tivesse sido capturado e deportado. Como seu irmo.
       -No havia nada nas listas? Eles tinham listas, no?
       - claro que sim -respondeu Jamie sem deixar de olhar aos soldados. Um pequeno sorriso de amargura apareceu em seu rosto-. Uma dessas listas me salvou, depois do Culloden, quando me perguntaram meu nome antes de me fuzilar. Mas um homem como Gavin no tinha possibilidades de ver as listas de mortos dos ingleses. E acredito que de ter podido, no o tivesse feito. Preferiria inteirar-se, se fosse seu filho?
       Neguei com a cabea e sorriu enquanto oprimia minha mo. depois de tudo, nossa filha estava a salvo. Fez um gesto a jovem garonete, quem nos trouxe a comida evitando tropear com Cilindro. Ao not-lo, Jamie Lanou um olhar dbio ao animal que chamavam co.
       -Ter fome? Tenho que pedir pescado para ele?
       -Ah, no, tio -assegurou Ian-. Cilindro procura seus prprios peixes.
       Jamie arqueou as sobrancelhas e com um olhar a Cilindro, serve-se um prato de ostras cozidas.
       -Que lstima que um homem como Gavin terminasse assim -lamentou-se Duncan, j quase bbado-. Sem famlia que o chore, em uma terra selvagem, pendurado como um criminoso e a ponto de ser enterrado em qualquer site. Nem sequer ter uma orao fnebre... Bom, ter um caithris por que no? -disse, olhando desafiante a seus companheiros. 
       Jamie no estava bbado, mas tampouco totalmente sbrio. Sorriu ao Duncan e levantou sua jarra.
       -por que no? Mas ter que cantar voc, Duncan. O resto no conhecia o Gavin e eu canto muito mal.
       Duncan assentiu com autoridade e, sem prvio aviso, jogou a cabea para trs e emitiu um horrvel uivo. Saltei de meu assento, me atirando cerveja sobre a saia. Os paroquianos moveram seus bancos, ficaram em p e tiraram as armas. Cilindro despertou com um ruidoso grunhido e olhou com olhos ferozes e ensinando os dentes.
       Duncan cantou com sua ensurdecedora voz de bartono; o pouco que sabia de galico me permitiu traduzir: "Reunimo-nos para gemer e chorar aos cus a perda de nosso amigo, Gavin Hayes".
       O coro repetia: "Escutem!". Ao Jamie, uniram-se Ian e Fergus.
       Cilindro parecia indiferente aos cantos e ficou com as orelhas papa enquanto seu amo lhe acariciava a cabea lhe acalmando.
       A gente, ao ver que no havia nenhuma ameaa de violncia, decidiu desfrutar de do espetculo e acompanhar o coro.
       Duncan, cada vez mais bbado, Lanou um olhar maligno para os soldados da mesa prxima e comeou a cantar insultos em galico contra os ingleses: "Malditos ces estrangeiros, comiles de carne morta que riem e regozijam pela morte de um homem bom. Que o mesmo diabo lhes busque na hora da morte para lhes levar direitos ao inferno".
       Ian ficou plido e Jamie Lanou um olhar ao Duncan, mas seguiram cantando o estribilho com o resto dos paroquianos.
       Fergus, com uma sbita inspirao, levantou-se e passou o chapu entre os clientes, quem, alegres pela cerveja, atiravam-lhe moedas, pagando pelo privilgio de que os condenassem ao inferno.
       Eu tenho to boa cabea para a bebida como a maioria dos homens, mas uma bexiga mais pequena. Com a cabea cheia de fumaa e rudo, tanto como de lcool, levantei-me para sair ao ar fresco do entardecer.
       Dentro, o canto do Duncan tinha terminado. Uma voz de tenor, doce mas turvada pelo lcool, cantava uma melodia familiar que se ouvia por cima das conversaes.
       Uma vez que esvaziei minha taa, fiquei imvel, esperando a que sassem os homens.
       
       2
       Quando nos encontramos
       um fantasma
       
       -Dez, onze, doze... e dois, e seis... uma libra, oito xelins, seis peniques e dois quartos de penique. -Fergus deixou cair, ceremoniosamente, a ltima moeda na bolsa, ajustou os cordes e a entregou ao Jaime-. E trs botes -acrescentou-, mas me fico.
       -J arrumaste com o patro o de nossa comida? -perguntou Jamie, sopesando a bolsita.
       -Sim -disse-. Ficam quatro xelins e seis peniques, alm do que juntou Fergus.
       Este sorria com modstia.
       -Ento temos o dinheiro necessrio para o enterro -disse-. Levamos agora ao Monsieur Hayes ao clrigo, ou esperamos at manh?
       Jamie olhou o carro com o cenho franzido.
       -No acredito que esteja acordado a esta hora -comentou, olhando a lua-. Entretanto...
       -No quero ser grosseira -pinjente, com uma desculpa dirigida ao carro-. Mas se formos dormir no bosque, o aroma...
       -A tia Claire tem razo -opinou Ian, esfregando-a nariz-. E se o deixamos na porta da estalagem, envolto no sudrio?
       A boca do Jamie se curvou em uma careta de diverso.
       -No -respondeu-. No o vamos deixar aqui.
       Balanou a bolsita e a guardou em seu casaco com gesto decidido.
       -Enterraremo-lo ns mesmos -afirmou-. Fergus, pode ir ver se conseguir uma p troca?
       A curta viagem para a igreja, atravs das tranqilas ruas do Charleston, foi menos solene que os habituais cortejos fnebres, apesar da insistente repetio do Duncan das partes mais interessantes de seu canto fnebre.
       A igreja estava situada em uma rua tranqila, a certa distncia da casa mais prxima. Isso estava bem para evitar que nos vissem, mas tambm significava que o cemitrio careceria de luz.
       Grandes magnlias se sobressaam por cima da entrada. Caminhar por ali era como passar entre cortinas de veludo negro, perfumadas pelo aroma dos pinheiros reaquecidos pelo sol. Nada mais afastado do ar puro das montanhas de Esccia. Alguns farrapos de nvoa tampavam as escuras paredes de tijolo e desejei no recordar to vividamente a histria do Jamie sobre o fantasma.
       -vamos procurar um lugar adequado. Fique e te ocupe dos cavalos, Duncan.
       Jamie se baixou do carro e me agarrou do brao.
       -Podemos encontrar um bom site ao lado do muro -disse, me guiando para a entrada-. Ian e eu cavaremos, voc sustentar a luz e Fergus far guarda.
       -E Duncan? -perguntei, olhando para trs.
       -Ser o diretor dos solenes cantos fnebres -respondeu Jamie com um toque de humor-. Cuidado com sua cabea, Sassenach.
       Automaticamente baixei a cabea ante um ramo de magnolio; no sabia se Jamie podia ver realmente na escurido ou se o fazia por instinto, mas nunca o vi tropear, por escuro que estivesse.
       -No crie que algum suspeitar ao ver uma tumba recm cavada?
       -Pode ser. Mas se o clrigo queria dinheiro para enterrar ao Gavin, no acredito que se incomode em desenterr-lo grtis, no crie?
       O jovem Ian apareceu de repente a meu lado, me sobressaltando.
       -H um espao aberto ao lado da parede norte, tio Jaime -disse, falando em voz baixa-. Est muito escuro aqui, no?
       A voz do moo soava insegura.
       -Assim , mas tenho um cabo de vela que me levei do botequim; espera um pouco.
       ouviu-se o rudo do pederneira e o yesquero.
       - como a viglia de Pscoa -disse Jamie-. Uma vez assisti ao servio, no Notre me D de Paris. Cuidado, Ian, h uma pedra! A igreja estava escura -continuou Jamie-, e quando j acreditava que no ia suportar o silncio e a quantidade de gente o sacerdote comeou a cantar Lumen Christi da porta, e os coroinhas, depois de acender o grande crio, foram acendendo suas velas. -J podia ver suas mos pelos brilhos do pederneira-. Ento a igreja reviveu pelos milhares de velas acesas, mas foi o crio o que quebrou a escurido.
       Levantou a vela acesa, iluminando as tumbas.
       -Lumen Christi -disse brandamente, inclinando a cabea para uma coluna de granito com uma cruz- et requiescat in pasta, amice.
       Sua voz j no tinha tom de brincadeira, falava com total seriedade e me senti extraamente reconfortada. Sorriu-me e me entregou a vela.
       -Busca um pau para fazer uma tocha, Sassenach -disse-. Ian e eu cavaremos por turnos.
       No estava nervosa, mas seguia me sentindo como uma profanadora de tumbas, sustentando a tocha baixo um pinheiro enquanto Ian e Jamie cavavam com as costas nuas brilhando pelo suor.
       -Os estudantes de medicina estavam acostumada pagar para que lhes roubassem cadveres recentes dos cemitrios -comentei, alcanando meu leno ao Jamie enquanto se endireitava ofegando pelo esforo-. Era a nica forma de poder fazer disecciones.
       -Faziam-no ou o fazem?
       Jamie me dirigiu um rpido olhar zombador. Por sorte, estava muito escuro para que o jovem Ian notasse meu intenso rubor. No era a primeira vez que me equivocava, nem seria a ltima.
       -Imagino que ainda o fazem -admiti.
       -Tambm usam aos pobres e aos criminosos das prises -interveio o jovem Ian, aproveitando para tomar uma pausa-. Papai me contou que uma vez o prenderam, levaram-no ao Edimburgo e o tiveram no Tolbooth. Estava na cela com outros trs e algum se estava morrendo de inanio. Deixou de tossir e pensaram que tinha morrido. Papai estava to cansado, que rezou uma orao por sua alma e ficou dormido.
       O moo fez uma pausa e se esfregou o nariz.
       -despertou quando algum lhe atirava das pernas e outro o levantava pelos braos. liberou-se, descobrindo a um mdico e a dois homens que o tinham levado a hospital,  sala de diseccin. Papai dizia que no sabia quem estava mais horrorizado, se ele ou os que o tinham levado. Mas que o mdico estava aborrecido porque lhe interessava seu corpo, com sua perna atalho.
       Jamie riu, estirando os braos para descansar suas costas.
       -Sim, conhecia essa histria. depois disso, Ian dizia que todos os mdicos eram uns ladres de cadveres e que no queria saber nada deles.
       Sorriu-me; em meu tempo, eu era mdica cirurgi, mas aqui no era mais que uma curandeira com habilidade para usar ervas.
       -Por sorte, no lhe tenho medo aos curandeiros -disse, inclinando-se para me beijar. Logo se endireitou e se deu a volta com um sorriso envergonhado.
       No o esperava mas,  obvio, reconheci-o. Era comum um sbito ataque de luxria como resposta  presena da morte.
       Jamie me tocou nas costas e me sobressaltei, agitando a tocha.
       -Sente-se, Sassenach -disse, assinalando uma lpide-. No deve permanecer tanto tempo em p.
       Tinha-me fraturado a morna durante o naufrgio e embora se curou rapidamente, a perna ainda me doa.
       -Estou bem -pinjente, mas me dirigi para a lpide, roando-o ao passar.
       Embora irradiava calor e podia cheirar seu suor quando se evaporava, suas costas nua estava fria ao tato
       Sua mo ficou em meu cotovelo ao me ajudar a me sentar sobre a pedra. Cilindro estava jogado; ao ofegar deixava cair gotas de saliva que brilhavam  luz da tocha. Os olhos amarelos me observavam com ateno.
       -Nem te ocorra pens-lo -disse-lhe, lhe devolvendo o olhar-. Se me remoer, colocarei-te o sapato na garganta at te afogar.
       Respondeu-me com um grunhido surdo e seguiu atento a qualquer rudo.
       Ian cravava a p na terra e se secava o suor da cara. Deixou escapar um profundo suspiro e olhou ao Jamie com expresso de esgotamento.
       -Est bem, espero que seja bastante profunda -respondeu Jamie ante o gesto do moo-. vou trazer para o Gavin.
       O rosto do Fergus se crispou com um gesto de preocupao.
       -No te faz falta ajuda para trazer o corpo?
       Seu desgosto era evidente. Jamie lhe sorriu com ironia.
       -Arrumarei-me isso -disse-. Gavin era um homem pequeno. Mas pode trazer a tocha para nos iluminar.
       -Eu tambm vou, tio! -Ian saiu do fosso com prontido; suas costas ossuda brilhava pelo suor-. Se por acaso necessita ajuda -acrescentou ofegante.
       -Tem medo da escurido? -perguntou Fergus com sarcasmo.
       -Pois fui-dijo simplesmente Ian-. Voc no?
       Fergus abriu a boca, com as sobrancelhas levantadas; logo se deu a volta e partiu sem responder.
       -No te parece que este lugar  terrvel, tia? -murmurou Ian aproximando-se de mim enquanto seguamos o resplendor da tocha do Fergus-. No posso deixar de pensar na histria que contou tio Jamie. Penso que agora que Gavin est morto, talvez a coisa geada..., quero dizer... Crie que poderia... vir a busc-lo?
       -No -disse em um tom mais forte do normal. Aferrei a seu brao, nem tanto para me sustentar para lhe dar confiana-. Seguro que no.
       Chegamos com bastante alivio ao crculo de luz que formava a tocha. Fazia calor, mas o ar era mais puro e se respirava melhor.
       Para minha surpresa, Duncan seguia acordado. Reprimi um bocejo. Desejava terminar com aquela triste tarefa e ir dormir, embora fora sobre um monto de folhas.
       Meu corao deu um salto. Todos gritaram ao mesmo tempo e os cavalos se moveram, sacudindo o carro. Cilindro lanou um grunhido, Ian uma exclamao de espanto e, quando olhei para onde assinalava, gritei. Uma plida figura apareceu do carro, balanando-se.
       No pude ver mais, porque os acontecimentos se precipitaram. Cilindro se lanou a perseguir a figura, animado pelos gritos do Ian e Jaime. Logo se ouviu o grito do fantasma. A minhas costas, Fergus amaldioava em francs enquanto corria a procurar sua navalha. Jamie tinha deixado cair a tocha, que parecia a ponto de apagar-se. Ca de joelhos, em um intento desesperado por conservar a luz.
       Fergus surgiu da escurido com a navalha na mo e golpeou ao intruso na cabea. Logo se voltou para o Ian e Cilindro.
       -Voc tambm, quieto! -ameaou Fergus ao co-. Quieto ou te rompo a cabea!
       Cilindro soprou, mostrando os dentes com um gesto que eu interpretei como "Voc e quantos mais?", mas foi detido pelo Ian, quem o agarrou por cangote.
       -De onde saiu? -perguntou Ian surpreso, tratando de olhar ao cansado sem soltar a Cilindro.
       -Do inferno -afirmou Fergus-. E ali o convido a que volte.
       -Do inferno, no, da forca. No sabe quem ?
       Jamie ficou em p lentamente, limpando o p dos cales. Respirava com dificuldade, mas no estava ferido. Olhou ao redor e perguntou:
       -Onde est Duncan?
       -Aqui, MAC Duhh -disse uma voz rouca na parte dianteira do carro-. Os cavalos no estavam muito contentes com a presena do Gavin e se incomodaram muito com a perspectiva da ressurreio. Eu tambm me surpreendi um pouco -acrescentou com sinceridade. Olhou a figura atirada no cho e aplaudiu a um dos cavalos-. Ah, no  mais que um patife!
       Tinha-lhe entregue a tocha ao Ian e me ajoelhei para inspecionar as feridas de nosso visitante. Jamie tinha razo era o homem que se escapou para que no o enforcassem. Tinha uns trinta anos e um corpo forte e musculoso. Cheirava a priso e a medo prolongado. O qual no tinha nada de estranho.
       Agarrei-o de um brao e lhe ajudei a sentar-se. Gemeu e se levou uma mo  cabea, entreabrindo os olhos ante a luz.
       -Est bem? -perguntei.
       - voc muito amvel, senhora, mas poderia estar melhor.
       Tinha um ligeiro acento irlands em sua voz suave e profunda.
       -Quanto faz que est no carro? -quis saber Duncan.
       -Desde esta tarde. -O homem ficou de joelhos, enjoado pelos efeitos do golpe. voltou-se a tocar a cabea e gemeu-. Subi-me pouco depois de que o gabacho colocasse ao pobre Gavin.
       -E onde esteve antes? -perguntou Ian.
       -Escondido debaixo da carreta da forca. Foi o nico lugar onde pensei que no me buscariam. -ficou em p com dificuldade e olhou ao Jamie-. Stephen Bonnet. Para lhe servir, senhor.
       No fez ameaa de estender a mo e Jamie tampouco.
       -Senhor Bonnet...
       Jamie lhe devolveu a inclinao de cabea com rosto inexpressivo.
       Bonnet tinha o que a gente chama "boa planta": alto, s uns centmetros mais baixo que Jamie, fornido, com faces angulosas e arrumado. Estava tranqilo, mas com os punhos semicerrados em gesto de alerta.
       -por que crime lhe tinham condenado, senhor Bonnet? -perguntou Jamie.
       Tambm parecia tranqilo, embora tinha uma expresso de alerta muito semelhante a do Bonnet. Eram como dois ces que se observassem com as orelhas papa antes de decidir-se a brigar.
       -Contrabando -respondeu Bonnet.
       Jamie no respondeu e inclinou ligeiramente a cabea. Arqueou uma sobrancelha a modo de pergunta.
       -E pirataria.
       Um msculo de sua boca se crispou em um intento de sorriso ou um involuntrio rictus de medo.
       -E matou alguma vez ao cometer seus delitos, senhor Bonnet?
       O rosto do Jamie era inexpressivo, salvo por seus olhos atentos. Parece-me que duas vezes, dizia simplesmente seu olhar. Talvez trs.
       -A ningum que no tratasse de me matar a mim primeiro -respondeu Bonnet.
       Jamie contemplou ao Bonnet durante um momento, at que assentiu e deu um passo atrs.
       -Ento pode ir-se -disse com calma-. Ns no vamos impedir o.
       Bonnet respirou aliviado e pude ver como se relaxava.
       -Muito obrigado -disse. passou-se uma mo pela cara e voltou a respirar profundamente. Seus olhos verdes se moveram com rapidez, me percorrendo a mim, ao Fergus e ao Duncan-. Talvez queiram me ajudar.
       Duncan, tranqilizado pelas palavras do Jamie, lanou um grunhido de surpresa.
       -lhe ajudar? A um ladro?
       -me ajudar -repetiu Bonnet-. Esta noite os soldados me vo procurar pelos caminhos. -Fez um gesto para o carro-. Vocs podem me esconder, se quiserem. -voltou-se para olhar ao Jamie e endireitou os ombros-. Estou-lhes pedindo ajuda, senhor, em nome do Gavin Hayes, que foi meu amigo, como o de vocs, e um ladro, como eu.
       Os homens lhe contemplaram em silncio, assimilando a informao. Fergus olhou interrogativamente ao Jamie. A deciso era dela.
       Jamie, depois de contemplar ao Bonnet, voltou-se para o Duncan.
       -O que te parece, Duncan?
       -Pela memria do Gavin -respondeu e se dirigiu para a entrada.
       -Muito bem -disse Jamie.
       Suspirou e se apartou o cabelo da cara.
       -nos ajude a enterrar ao Gavin -disse a nossa novo hspede- e logo iremos.
       Uma hora mais tarde, a tumba do Gavin era um retngulo de terra recm removida.
       -Tem que figurar seu nome -disse Jamie.
       Com a ponta de sua faca, marcou cuidadosamente as letras do nome do Gavin e as datas em uma pedra branda.
       Depois a esfreguei com fuligem da tocha e Ian a colocou entre uns calhaus. Jamie ps em cima o cabo de vela que tinha pego do botequim.
       Estvamos incmodos, sem saber como nos despedir, at que Jamie fez um gesto ao Fergus, quem acendeu uma ramita de pinheiro com minha tocha e prendeu a vela.
       -Rquiem aeternam doa ei, et lux perptua luceat ei... -disse Jamie com voz pausada.
       O jovem Ian repetiu o mesmo em ingls e logo, sem uma palavra mais, samos do cemitrio.
       
       A lua estava alta no cu quando chegamos ao posto de controle militar, fora das muralhas da cidade. J tnhamos encontrado vrios postos similares no caminho, entre o Savannah e Charleston, a maioria compostos por soldados aborrecidos que nos saudavam sem incomodar-se em controlar os passes que trazamos da Georgia. Embora estvamos sujos e esfarrapados passvamos inadvertidos, j que muito poucos viajantes tinham melhor aspecto.
       Entretanto, aquela noite era diferente. Havia oito soldados no posto de vigilncia, no dois como era habitual, e todos estavam armados e alerta. As baionetas brilharam  luz da lua ao grito de "Alto! Nome e destino!". Um farol iluminou minha cara, me cegando por um momento.
       -James Fraser, rumo ao Wilmington, com minha famlia e servidores.
       A voz do Jamie era tranqila e suas mos sustentavam as rdeas com firmeza quando me entregou isso para procurar os passes em seu casaco.
       Mantive a cabea baixa, tratando de parecer cansada e indiferente.
       -Viram a algum pelo caminho, senhor?
       O "senhor" foi dito a contra gosto, pois nossa roupa gasta destacava  luz do farol.
       -Uma carruagem que se cruzou conosco. Vinha do povo e suponho que o tero visto -respondeu Jamie.
       O sargento grunhiu e revisou com cuidado os documentos.
       -O que  o que levam?
       Devolveu-nos os passes e fez um gesto a um de seus subordinados para que revisasse o carro.
       -Costure para a casa -respondeu Jamie, sempre com calma-. Meio veado e uma bolsa de sal. E um cadver.
       O soldado que tinha comeado a revisar o carro se deteve de repente. O sargento levantou a cabea bruscamente.
       -Um qu?
       -O corpo do homem que penduraram esta tarde. Conhecia-o e pedi permisso ao coronel Franklin para levar-lhe a seus parentes, no norte. Por isso viajamos de noite -acrescentou sutilmente.
       -J vejo. -O sargento aproximou o farol e olhou pensativo ao Jamie. Logo assentiu-. J recordo. Voc lhe chamou no ltimo momento. Um amigo, ento?
       -Conheci-o faz tempo. Faz alguns anos.
       O sargento assentiu sem deixar de olhar ao Jamie e fez um gesto a seu subordinado.
       -Joga uma olhada, Griswold.
       Griswold, de uns quatorze anos, demonstrou uma notvel falta de entusiasmo ante a ordem, mas apartou a lona e levantou o farol para olhar no interior do carro. Tive que fazer um esforo para no me dar a volta e olhar.
       -Sim, senhor,  um corpo -informou Griswold-. Com uma mortalha.
       Deixou cair a lona com alvio e respirou profundamente.
       -Baa a baioneta e crava-o -ordenou o sargento sem tirar os olhos do Jamie.
       Devi me mover, porque o sargento me olhou de esguelha.
       -vo sujar meu carro -queixou-se Jamie-. O homem estar bastante chateado depois de um dia ao sol, no crie?
       O sargento soprou com impacincia.
       -Ento crava-o na perna. Vamos, Griswold!
       Com um marcado ar de desgosto, Griswold preparou sua baioneta e ficou nas pontas dos ps para cumprir sua tarefa.
       -Senhor, est bem morto -informou com alivio Griswold-. cravei com fora a baioneta e no se moveu.
       -Muito bem. -Despediu-se do jovem soldado com um gesto e se dirigiu ao Jamie-. Siga adiante, senhor Fraser. Mas, no futuro escolha seus amigos com mais cuidado.
       Os ndulos do Jamie ficaram brancos pela tenso.
       Cobrimos uma distncia bastante larga antes de que algum falasse.
       -Est ferido, senhor Bonnet? -sussurrou Ian.
       -Sim, esse maldito cachorrinho me cravou na coxa. -A voz do Bonnet era baixa mas tranqila-. Graas a Deus, afastou-se antes de ver o sangue. Os mortos no sangram.
       -Est ferido gravemente? Quer que v examinar lhe?
       -No, muito obrigado, senhora. Enfaixei-me com o meia trs-quartos e espero que seja suficiente.
       -Acredita que poder caminhar?
       Jamie reduziu a marcha dos cavalos e se deu a volta para olhar a nossa hspede.
       -Com facilidade, no. Sinto muito, senhor.
       Bonnet se dava conta do desejo do Jamie de livrar-se dele. Com alguma dificuldade, endireitou-se no carro, levantando o joelho da perna s. Na escurido quase no podia v-lo, mas podia cheirar o sangue, mais forte que o aroma que despedia a mortalha do Gavin.
       -Uma sugesto, senhor Fraser. Em trs milhas chegaremos ao caminho do embarcadero. Mais  frente do caminho transversal h outro que leva a costa. Este nos levar at o bordo de um riacho com sada para mar. meus scios ancoraro ali esta semana. Se me derem algumas provises poderei esper-los com razovel segurana.
       -Scios? Quer dizer piratas?
       O tom do Ian tinha algo de chateio. depois de que os piratas o seqestrassem em Esccia no os considerava nada romnticos, como tivesse sido normal aos quinze anos.
       -Isso depende de como o olhe, moo -respondeu Bonnet com humor-. Os governadores da Carolina seguro que nos consideram assim; os comerciantes do Wilmington e Charleston talvez nos olhem de outra forma.
       Jamie soprou com desprezo.
       -Contrabandistas, n? E com o que comercializam seus scios?
       -Com algo que tenha um preo que faa que valha a pena o risco. -O tom do Bonnet continuava sendo divertido mas agora estava tingido de cinismo-. Deseja algum premio por sua ajuda? Isso pode arrumar-se.
       -No o busco -respondeu Jamie com frieza-. Ajudei-lhe pela memria do Gavin e porque quis. No vou procurar uma recompensa por esse servio.
       -No quis lhe ofender, senhor.
       -No o fez -respondeu Jamie, cortante.
       depois deste intercmbio, a conversao terminou, embora Bonnet seguiu ajoelhado na parte de atrs, olhando por cima de meu ombro para o caminho escuro.
       Jamie agarrou as rdeas com sua mo esquerda e me passou o outro brao para que descansasse sobre seu ombro. como sempre, sentia-me segura quando o tocava. Imediatamente me amodorr, conseqncia da combinao de profundo esgotamento e a impossibilidade de estar deitada.
       Abri os olhos em uma ocasio e vi o Duncan Innes caminhando ao lado do carro, com a cabea inclinada, sumido em profundos pensamentos. Logo os fechei novamente, mesclando os sucessos do dia com fragmentos de sonhos dispersos.
       Despertei quando Jamie me sacudiu brandamente.
       -Ser melhor que v atrs e te deite, Sassenach-disse-. Move-te muito e temo que termine dormindo no caminho.
       Aceitei dormitada e me coloquei atrs, trocando o site ao Bonnet para me pr perto do jovem Ian. Cheirava a umidade e a coisas piores. Ian tinha a cabea apoiada em uma parte de veado, envolto com sua pele. Cilindro estava melhor, descansando sua cabea sobre o estmago do Ian. Eu escolhi a bolsa de couro com sal. O couro me raspava a bochecha mas ao menos no cheirava mau.
       No posso dizer quanto tempo dormi, com um sonho profundo, esgotada pelo calor e todos os esforos do dia. Despertei quando trocou o ritmo do carro.
       Bonnet e Jamie conversavam sobre voz baixa, com mais afabilidade, passada a primeira desconfiana.
       -Voc disse que me tinha salvado pela memria do Gavin e porque tinha querido -dizia Bonnet com voz suave mas audvel por cima do rudo das rodas-. Se me perdoar a pergunta, o que quis dizer com isso, senhor?
       Jamie no respondeu em seguida; quase voltei a dormir antes de que falasse.
       -Ontem  noite no deveu dormir muito, no? Sabendo o que lhe esperava durante o dia...
       Bonnet riu pelo baixo, sem muitas vontades.
       -Certo -disse-, duvido que o esquea.
       -Eu tampouco. -Jamie disse algo em galico aos cavalos e diminuram a marcha-. Em uma ocasio passei uma noite assim, sabendo que me foram pendurar pela manh. E entretanto vivi, graas a algum que correu um grande risco para me salvar.
       -J vejo -murmurou Bonnet-. Ento voc  um asgina ageli.
       -Sim? Gesso o que ?
       - um trmino que usam os ndios, os cherokee das montanhas. Aprendi-o de um que me servia de guia. Quer dizer "meio fantasma", algum que devia morrer mas segue na terra: uma mulher que sobrevive a uma enfermidade mortal, um homem que escapa das mos de seus inimigos. Dizem que tem um p na terra e o outro no mundo dos espritos. Pode falar com eles e ver os nunnahee, a Gente Pequena.
       -Gente Pequena? Como os duendes?
       Jamie parecia surpreso.
       -Algo pelo estilo. Os indgenas dizem que os nunnahee vivem dentro das rochas, nas montanhas, e saem para ajudar a sua gente em tempo de guerra ou outras desgraas.
       -Parecem os contos das montanhas de Esccia, o antigo folclore.
       -Em efeito -respondeu divertido Bonnet-. Bom, por isso ouvi sobre os montanheses de Esccia, no h muita diferena entre sua conduta Brbara e a dos corte vermelhas.
       -Tolices -disse Jamie, sem indcio de ofensa-. Os selvagens se comem o corao de seus inimigos, conforme ouvi. Eu prefiro um bom prato de aveia cozida.
       -Voc  das montanhas de Esccia? Bom, devo dizer que, para ser um brbaro, encontro-o muito civilizado -assegurou Bonnet com voz risonha.
       -Sinto-me extremamente agradecido por sua opinio, senhor -respondeu Jamie com a mesma amabilidade.
       Quando nos detivemos, a lua estava por debaixo das rvores.
       -Busca um lugar para dormir, Sassenach -disse Jamie, me ajudando a baixar do carro-. vou ocupar me das provises de nossa hspede para que fique em caminho, e de que os animais possam pastar.
       -No poderei dormir at que me banhe -pinjente, tocando minha roupa suja e suada-. Sinto-me horrvel. 
       Meu cabelo estava pego pelo suor e me picava todo o corpo pela sujeira. A gua, embora escura, parecia fria e tentadora. Jamie olhou o rio.
       -No posso dizer que te culpe. Mas v com cuidado; Bonnet diz que o canal  muito profundo e a corrente muito forte.
       -Ficarei perto da borda. -Assinalei uma curva do rio-. V esse lugar? A deve haver um remanso.
       -Est bem. V com cuidado -disse outra vez e me apertou o brao a modo de despedida.
       Quando ia partir me, uma figura apareceu ante mim; era nossa hspede, com uma das pernas das calas manchada de sangre seca.
       -Para servi-la, senhora -disse, fazendo uma incrvel reverencia em que pese a sua perna ferida-. Posso lhe dizer agora adeus?
       Estava mais perto de mim do que tivesse querido e tive que reprimir minha necessidade de dar um passo atrs.
       -Sim, claro -pinjente-. Boa sorte, senhor Bonnet.
       -Agradeo-lhe seus bons desejos -respondeu brandamente-. Mas tenho descoberto que, freqentemente,  o homem o que se busca sua boa sorte. boa noite, senhora.
       inclinou-se uma vez mais e partiu.
       Jamie grunhiu para si.
       -Bom, reconheo que tive minhas dvidas com esse homem -disse como se respondesse uma pergunta que eu no lhe tinha feito-. Espero ter sido bando de corao e no falto de julgamento, por lhe ajudar.
       -depois de tudo, no podia deixar que lhe pendurassem -pinjente.
       -OH, sim. Podia -disse, me surpreendendo-. A Coroa no sempre se equivoca, Sassenach. A maioria das vezes, o homem que termina pendurado da corda  porque o merec. E eu no gostaria de pensar que ajudei a que um malfeitor ficasse em liberdade. -encolheu-se de ombros, apartando o cabelo da cara-. Bom, j parece. v banhar te, Sassenach. Irei contigo logo que possa.
       Pu-me nas pontas dos ps para beij-lo e senti seu sorriso.
       -Poder esperar desperta, Sassenach?
       -Todo o tempo que seja necessrio -assegurei-. Mas date pressa, quer?
       
       Baixo os salgueiros havia uma pequena esplanada coberta de erva. Tirei-me a roupa com lentido, desfrutando da brisa, at que fiquei nua em meio da noite. Entrei na gua com cuidado. Estava surpreendentemente fria, geada em contraste com o ar caloroso da noite. O fundo baixo meus ps era de barro, mas se transformava em areia fina. A gua era fresca e doce. Bebi e me molhei a cara, limpando o p de minha garganta e meu nariz.
       Podia sentir o suave movimento da corrente golpeando minhas pantorrilhas e me empurrando para a borda. Mas ainda no estava lista para sair. No tinha sabo; pu-me de joelhos, enxagei-me o cabelo vrias vezes e me esfreguei o corpo com areia at que minha pele ficou resplandecente.
       Finalmente subi a uma plataforma rochosa e fiquei recostada, como uma sereia  luz da lua. O ar quente e as pedras reaquecidas pelo sol eram um delicioso alvio para meu corpo gelado. Sentia-me muito cansada e, ao mesmo tempo, muito viva, em um estado de semiconsciencia onde o pensamento diminui e as pequenas sensaes fsicas se magnificam.
       O lugar parecia mgico. Um suave chapinho me fez olhar para a gua. Nada se movia na superfcie salvo os dbeis resplendores das estrelas, como vaga-lumes apanhadas no tecido de uma aranha.
       Enquanto observava, uma grande cabea surgiu da gua. Havia um peixe nas fauces de Cilindro, agitando-se at que o co sacudiu a cabea e o partiu. O enorme co nadou lentamente at a borda, sacudiu sua pelagem e se afastou com o jantar pendurando da boca. deteve-se um momento, me olhando.
       Como uma pintura primitiva, pensei; um pouco do Rousseau, com o contraste de sua profunda selvageria e uma imobilidade total.
       O co desapareceu e na borda no ficaram mais que as rvores, escondendo o que estivesse oculto atrs deles. E o que podia ser?, perguntei-me. Mais rvores, respondeu a parte lgica de minha mente. E muitas coisas mais.
       depois de tudo, era um mundo novo, livre de temores e cheio de alegria agora que Jaime e eu estvamos juntos, com toda nossa vida por diante. Separao e dor ficavam atrs. Nem sequer pensar na Brianna me causava pesadumbre.
       Sentia saudades muitssimo e pensava nela continuamente, mas sabia que se encontrava a salvo em seu prprio tempo e isso convertia sua ausncia em algo fcil de suportar.
       Os insetos eram uma praga constante. Inspecionava a pele do Jaime cada manh, tirava-lhe carrapatos vorazes e pulgas e lubrificava generosamente aos homens com suco de poleo e folhas de tabaco amassadas. Isso impedia que fossem devorados vivos pelas nuvens de mosquitos e zancudos, mas no repelia as hordas de insetos que os enlouqueciam metendo-se em orelhas, olhos, narizes e bocas.
       Por estranho que parea, a maioria dos insetos me deixavam tranqila. Ian brincava, dizendo que o forte aroma das ervas que levava pendurando devia recha-los. Mas eu pensava que era por outra coisa; mesmo que estava recm banhada, os insetos no mostravam interesse por mim.
       Mas bem acreditava que era devido a uma particular manifestao da evoluo que, supunha, protegia-me de resfriados e outras doenas menores.
       -Ou possivelmente Ian tenha razo -disse em voz alta- e simplesmente tenho um aroma horrvel.
       Desejava que Jamie chegasse logo. Aqueles dias de viagem em carro, sentada a seu lado, observando as mudanas de seu corpo enquanto conduzia, os ngulos de seu rosto enquanto falava e sorria, eram suficientes para fazer que as mos me ardessem pelo desejo de toc-lo. Fazia vrios dias que no fazamos o amor.
       Fechei os olhos, me acariciando com suavidade, desfrutando da sensao de crescente desejo.
       -Onde diabos est, Jamie Fraser? -murmurei.
       -Aqui -chegou a resposta de sua voz rouca.
       Sobressaltei-me e abri os olhos de par em par. Estava parado em meio da corrente, a uns dois metros, com as coxas na gua e os genitlias rgidos, escuros em contraste com o plido brilho de seu corpo. Tinha o cabelo solto sobre os ombros, emoldurando um rosto plido como o osso, com o olhar to fixo e intenso como a do co lobo. Uma profunda selvageria e uma imobilidade total.
       Ento se moveu para aproximar-se. Suas coxas estavam frios como a gua quando me tocou, mas em poucos segundos se esquentou e aumentou seu ardor. Quando suas mos tocaram minha pele, a clida umidade molhou meus seios, que se incharam ao sentir a dureza de seu peito.
       -Sua boca  mida e escorregadia como seu sexo -murmurou e moveu a lngua para lamber as gotitas de minha cara.
       Notava a dureza da rocha que tinha debaixo.
       -No posso esperar -ofegou.
       -No o faa -respondi, rodeando sua cintura com minhas pernas-. Tinha ouvido falar de derreter-se de paixo -pinjente ofegando-, mas isto  ridculo.
       Levantou a cabea de meus peitos, fazendo um dbil som ao apartar sua bochecha molhada. Riu e se voltou de lado.
       -A puta, que calor faz!
       Passou-me os braos ao redor e girou com a graa pesada de um tronco; rodamos pelo bordo da plataforma at cair  gua.
       
       Atiramo-nos sobre a rocha, frescos e midos, quase sem nos tocar, enquanto as ltimas gotas de gua se evaporavam de nossa pele. Ao outro lado do riacho, os salgueiros arrastavam suas folhas pela gua, como ondulantes coroa negras contra o ocaso da lua.
       Jamie viu que olhava o bosque e adivinhou meus pensamentos.
       -Suponho que j no  como a ltima vez que esteve aqui.
       -Bom, sim, um pouco. -Enlacei nossas mos e acariciei seus ossudos ndulos com o polegar-. Os caminhos estavam asfaltados, no empedrados, talheres de uma matria Lisa e dura, inventada por um escocs chamado MacAdam.
       Grunhiu e me olhou com expresso zombadora.
       -Ento, haver escoceses na Amrica? Fabuloso.
       Passei por cima seu comentrio e continuei.
       -Haver muita classe de gente. Tudo estar ocupado, daqui at um lugar chamado Califrnia, na costa Oeste.
       Mas por agora -estremeci-me, pese ao ar quente- so quarenta e oito mil quilmetros de terra virgem.
       -Bom, nada, salvo milhares de selvagens sedentos de sangue -disse com praticamente-. E sem esquecer aos estranhos animais selvagens.
       -Bom, sim, suponho que tambm -aceitei.
       Era uma idia inquietante.  obvio que sabia, de forma vaga e acadmica, que os bosques estavam povoados por ndios, ursos e outros habitantes do lugar; mas essa noo geral se via repentinamente substituda pela particular sensao de que podamos, fcil e inesperadamente, nos encontrar cara a cara com algum daqueles residentes.
       -O que aconteceu com eles? Com os ndios selvagens? -perguntou Jamie com curiosidade enquanto, como eu, tratava de adivinhar o futuro entre as sombras-. Derrotaram-nos e os jogaram, no?
       Senti outro calafrio e meus ps se crisparam.
       -Sim, assim foi -respondi-. Mataram a muitssimos e outros foram encarcerados.
       -Bom, isso est bem.
       -Suponho que depende do ponto de vista -disse com tom cortante-. No acredito que os ndios pensassem o mesmo.
       -No o duvido -respondeu-. Mas quando um maldito louco tenta me arrancar o couro cabeludo, no me preocupa muito seu ponto de vista, Sassenach.
       -Bom, mas realmente no pode lhes culpar -protestei.
       -Claro que posso -assegurou-me-. Se um desses brutos te arrancasse o couro cabeludo,  obvio que o culparia.
       -Ah... mmm -esclareci-me garganta-. Bom, e se um grupo de desconhecidos aparece, trata de te matar e de te tirar a terra onde viveste sempre?
       -Fizeram-no -afirmou com dureza-. Se no o tivessem feito, ainda estaria em Esccia, no  assim?
       -Bom... -disse com certa insegurana-. Mas o que quero dizer  que, nessas circunstncias, voc tambm lutaria. Ou no?
       Aspirou profundamente e soltou o ar pelo nariz.
       -Se um ingls vier a minha casa e comea a me perseguir -disse cuidadosamente-, claro que brigarei contra ele. E no vacilarei em mat-lo. Mas no lhe arrancaria o cabelo, nem tampouco comeria suas partes ntimas. No sou um selvagem, Sassenach.
       -Eu no disse que fosse -protestei-. Tudo o que pinjente foi...
       -Por outra parte -acrescentou com uma lgica inexorvel-, no tenho intenes de matar a nenhum ndio. Se no se meterem comigo, eu tampouco lhes incomodarei.
       -Estou segura de que se sentiro aliviados quando o souberem -murmurei.
       -Crie que te cansar de mim quando nos instalarmos? -murmurou.
       -Estava-me perguntando o mesmo, sobre ti.
       -No. -E pude sentir o sorriso em sua voz-. Isso no passar, Sassenach.
       -Como sabe? -perguntei.
       -No sabia -fez notar-. Mas estivemos casados trs anos, e te desejei tanto o ltimo dia como o primeiro. Talvez mais -disse brandamente, pensando, como eu, na ltima vez que tnhamos feito o amor, antes de cair  gua.
       Inclinei-me para beij-lo. Tinha um gosto limpo e fresco, com um leve aroma a sexo.
       -Eu tambm.
       -Ento, no se preocupe por isso, Sassenach; eu tampouco o farei. -Acariciou-me o cabelo, apartando os cachos molhados de minha frente-. Embora te conhecesse de toda a vida acredito que sempre te amaria. E apesar de todas as vezes que temos feito o amor, ainda me surpreende, como esta noite.
       -Ah, sim? Mas o que  o que tenho feito? -contemplei-lhe, surpreendida.
       -Ah... bom. Quero dizer...  que...
       De repente, parecia tmido.
       -Mmm?
       Beijei a ponta de sua orelha.
       -N... quando cheguei a seu lado... o que estava fazendo... quero dizer... Estava fazendo o que penso?
       Sorri na escurido.
       -Suponho que isso depende do que pense, no?
       -Voc sabe bem o que penso, Sassenach.
       -Sei. E voc sabe perfeitamente o que estava fazendo. Assim para que perguntas?
       -Bom,  que... no acreditava que as mulheres fizessem essas coisas.
       -Bom, os homens o fazem -assinalei-. Ou, ao menos, voc o fazia. Contou-me que quando estava na priso, voc...
       -Isso  diferente! depois de tudo, no podia fazer outra coisa.
       -No o tem feito em outras ocasies?
       -Sim, bom -murmurou, ruborizando-se-. Suponho que sim.
       -Um sbito pensamento fez que seus olhos se dilatassem ao me olhar-. Tem-no feito... muitas vezes?
       -Suponho que depende do que queira dizer com "muitas" -respondi com um toque de aspereza-. Sabe que fui viva durante dois anos.
       esfregou-se a boca com os ndulos, me examinando com interesse.
       -Assim  isso.  s que, bem, no tinha pensado que as mulheres fizessem essas coisas. -A fascinao ultrapassava sua surpresa-. Pode terminar? Quero dizer, sem um homem?
       Lancei uma gargalhada cujos ecos ressonaram entre as rvores.
       -Sim, mas  muito mais bonito com um homem -assegurei.
       Estirei-me para lhe tocar o peito e beij-lo-. Muito mais -acrescentei com suavidade.
       -Ah! -disse com alegria-. Isso est bem, verdade?
       -Sinto-me como Eva -murmurei, observando a lua sobre a escurido do bosque-. No Jardim do den.
       Sua risada zombadora soou perto de meu umbigo.
       -Ento, suponho que eu sou Ado -disse Jamie- nas portas do Paraso. -Voltou a cabea para olhar com saudade para o desconhecido e logo apoiou a bochecha sobre meu ventre-. Mas desejaria saber se estou entrando ou saindo.
       Ri-me, surpreendendo-o. Ento, agarrei-lhe das orelhas lhe obrigando a cobrir meu corpo.
       -Entrando -pinjente-. E depois de tudo, no vejo um anjo com sua espada levantada.
       deixou-se cair sobre meu corpo, com sua pele calenturienta, e me estremeci.
       -No? -murmurou-. Suponho que no olhaste bem.
       Ento a espada entrou em meu corpo e me alagou com seu fogo. Os dois formamos uma fogueira, to brilhante como as estrelas em uma noite do vero.
       
       SEGUNDA PARTE
       PRETERITO IMPERFEITO
       
       3
       O gato do clrigo
       
       Boston, Massachusetts, junho de 1969
       
       -Brianna?
       -N? -incorporou-se, com o corao palpitante e o som de seu nome ressonando no ouvido-. Quem... o que?
       -Estava dormida. Maldio, sabia que tinha mal a hora. Sinto muito. Chamo-te depois?
       -Roger! -A descarga de adrenalina produzida pelo sbito despertar diminuiu, mas seu corao ainda pulsava apressado-. No, no pendure! J estou acordada.
       esfregou-se a cara, tratando de endireitar o cordo do telefone e arrumar os lenis.
       -Est segura? Que hora  a?
       -No sei, est muito escuro para ver o relgio -disse, ainda dormitada. Chegou-lhe uma risada entrecortada como resposta.
       -Sinto-o muito; tratei de calcular a diferena horaria, mas me saiu mau. No queria despertar.
       -Est bem, de todos os modos tinha que despertar para atender o telefone -assegurou e ps-se a rir.
       -De acordo. Bem... -pde sentir o sorriso em sua voz.
       -Me alegro de ouvir sua voz, Roger -disse com suavidade.
       Estava surpreendida de descobrir quanto gostava.
       -A tua tambm eu gosto. -Parecia um pouco tmido-, Olhe, tenho a oportunidade de ir a uma conferncia o ms prximo a Boston. Pensei em ir, se... maldio, no encontro a forma de lhe dizer isso Voc gostaria de lombriga?
       A moa apertou com fora o telefone enquanto seu corao dava um salto.
       -Sinto muito -disse imediatamente Roger antes de que respondesse-. Estou-te pondo em um compromisso, no? Olhe, me diga diretamente se no ter vontades.
       - obvio que quero verte.
       -Ah. Ento, no te incomoda?  que no respondeu minha carta. Acreditei que talvez havia dito algo...
       -No, no o fez. Lamento-o.  que justo...
       -Est bem, no queria...
       Suas frases se interromperam e ambos esperaram, com sbito acanhamento.
       -No queria te pressionar...
       -No queria ser...
       Aconteceu de novo e, esta vez, Roger riu.
       -Est tudo bem, ento -disse Roger com firmeza-. De acordo?
       A jovem no respondeu, fechando os olhos com uma indefinvel sensao de alvio. Roger Wakefield era, provavelmente, a nica pessoa no mundo que podia entend-la; pelo que no se deu conta antes, era de quo importante era que lhe compreendessem.
       -Estava sonhando quando soou o telefone.
       -Sim?
       -Com meu pai. -Lhe fez um n na garganta, como cada vez que pronunciava essa palavra. O mesmo lhe ocorria com "me"-. No podia ver sua cara. Caminhava com ele por um bosque, em algum lugar. Eu lhe seguia e ele me falava, mas tampouco podia ouvir o que me estava dizendo; apressava-me, tratando de lhe alcanar para poder ouvir, mas no o conseguia.
       -Mas sabia que era seu pai?
       -Sim, ou talvez acreditei, porque subia pelas montanhas. Estava acostumado a fazer isso com papai.
       -Fazia-o? Eu tambm estava acostumado a faz-lo com meu pai. Se alguma vez voltar para Esccia, levarei-te a um munro.
       -Levar-me onde?
       Roger riu e de repente comeou a recordar, tornando-se para trs o cabelo negro, que no se cortava muito freqentemente, com os olhos verde musgo entrecerrados. deu-se conta de que se esfregava o lbio com o polegar e se conteve. Tinha-a beijado ao despedir-se.
       -Um munro  qualquer cpula em Esccia, sempre que tiver mais de novecentos metros. H tantas, que se trata de ver quantas pode subir. Os moos as colecionam, como figuritas ou caixas de fsforos.
       -Onde est agora, em Esccia ou na Inglaterra? -perguntou interrompendo antes de que pudesse lhe responder-. No, me deixe ver se posso adivinhar. Est em... Esccia. Est no Inverness.
       -Certo. -A surpresa era evidente em sua voz-. Como sabe?
       -Pronuncia mais os res quando fala com escoceses -disse-. No o faz quando fala com ingleses. Dava-me conta disso quando fomos a Londres.
       -E eu que tinha acreditado que tinha poderes psquicos -disse rendo.
       -Desejaria que estivesse aqui, agora -disse, impulsiva.
       -Srio? -Pareceu surpreso e com um sbito acanhamento-. Ah, bom... Isso est bem, verdade?
       -Roger, a causa pela que no te respondi...
       -No tem que preocupar-se por isso -disse rapidamente-. Estarei a dentro de um ms e ento poderemos falar. Bri, eu...
       -Sim?
       -Me alegro de que haja dito que sim.
       
       depois de cortar a comunicao no pde voltar a dormir; inquieta, baixou da cama e se dirigiu  cozinha do pequeno apartamento para procurar um copo de leite. S depois de vrios minutos de olhar ausente, frente  geladeira aberta, deu-se conta de que no estava vendo uma fila de potes de molho de tomate e latas semivacas. O que via eram pedras negras no plido cu do amanhecer.
       endireitou-se com uma pequena exclamao de impacincia e fechou a porta de repente. Teria que lhe haver escrito. De fato, tinha escrito, tinha-o feito vrias vezes, intentos inconclusos que terminaram no cesto de papis.
       Sabia a causa, ou acreditava que sabia. Explicar-lhe com coerncia ao Roger era outra coisa.
       Estava o simples instinto do animal ferido; o impulso de correr e esconder-se para no ser machucado. Acontecido-o no ano anterior no era absolutamente culpa do Roger, mas estava intrinsecamente ligado a tudo.
       Tinha sido muito tenro e bom depois, tratando-a como se estivesse de luto, que era como se sentia. Mas que estranho luto! Sua me se foi para sempre, embora (era sua esperana) no tinha morrido. E entretanto, em alguns momentos, era como quando morreu seu pai; acreditar em uma vida ditosa depois da morte, confiando, de todo corao, em que o ser amado estivesse seguro e contente, mas sem deixar de sofrer os torturas da perda e a solido. Rezava por eles todos os dias, por sua me e seu pai, seus pais. Essa era a outra parte. Seu tio Joe sabia a verdade sobre seu pai, mas s Roger podia entender verdadeiramente o acontecido; s Roger tinha ouvido as pedras.
       Ningum podia passar por uma experincia assim sem ficar marcado. Nem ele, nem ela. depois de que Claire se fora, Roger queria que ela ficasse, mas no pde. Tinha-lhe explicado que tinha coisas que fazer na Amrica, ocupar-se de alguns assuntos, terminar seus estudos... Era verdade, mas o mais importante era que tinha que afastar-se; apartar-se de Esccia e do crculo de pedras, retornar a um lugar onde pudesse curar-se e comear a reconstruir sua vida. Se ficava com o Roger, no poderia esquecer o acontecido, nem sequer por um momento. E essa era a ltima razo, a pea final de seus quebra-cabeas.
       Roger a tinha protegido e dado carinho. Sua me a deixou a seu cuidado e Roger tinha completo com esse dever. Mas o tinha feito para cumprir com sua promessa ao Claire, ou porque de verdade lhe importava?
       -te afaste, assim poder retornar e fazer as coisas bem -murmurou, fazendo uma careta ante essas palavras.
       Desejava deixar atrs os sucessos do ms de novembro. Quando passasse o tempo suficiente, talvez eles poderiam voltar a encontrar-se. No como atores secundrios no drama da vida de seus pais, mas sim como protagonistas da obra que eles mesmos escolhessem.
       Assim, se algo tinha que acontecer ela e Roger Wakefield, decididamente seria por sua prpria eleio. Agora que parecia que ia ter a possibilidade de escolher, a perspectiva lhe produzia uma sensao de excitao na boca do estmago. passou-se a mo pela cara; j que no podia dormir, ficaria a trabalhar.
       Acendeu o abajur do escritrio e abriu os livros de clculo. Uma pequena e inesperada gratificao por sua mudana de carreira foi o descobrimento dos efeitos calmantes das matemtica.
       Quando retornou a Boston, s na universidade, a engenharia lhe pareceu uma eleio muito mais segura que a histria. Era algo slido, imutvel, tranqilizador e ligado aos fatos da realidade. E, acima de tudo, controlvel.
       Lentamente, a lgica inexorvel dos nmeros foi construindo uma telaraa dentro de sua cabea, apanhando todos os pensamentos fortuitos e envolvendo as emoes turbadoras como se fossem moscas. S um pequeno pensamento tinha ficado livre, batendo as asas em sua mente como uma brilhante e diminuta mariposa: "Me alegro de que haja dito que sim". Ela tambm se alegrava.
       
       Julho de 1969
       
       -Fala como os Beatles? Ai, morro se fala como John Lennon! J sabe como . me volta louca!
       -No tem nada que ver com o John Lennon! -exclamou Brianna. Esquadrinhou o lugar, mas a porta de chegadas internacionais ainda estava vazia-. No conhece a diferena entre algum do Liverpool e um escocs?
       -No -disse despreocupadamente seu amiga Gayie enquanto agitava seu cabelo loiro-. Para mim, todos os ingleses falam igual. Poderia-os escutar toda a vida!
       -No  ingls! J te disse que  escocs!
       Gayie lanou um olhar ao Claire que dava a entender que, evidentemente, seu amiga estava louca.
       -Esccia  parte da Inglaterra, busquei-o no mapa.
       -Esccia  parte de Gr-Bretanha, no da Inglaterra.
       -Qual  a diferena? por que o esperamos aqui? Nunca nos ver.
       Brianna se alisou o cabelo. Estavam detrs de uma coluna porque no estava segura de se desejava que ele as visse.
       Deixou que Gayie a levasse at a zona principal de recepo, enquanto seguia falando sem tom nem som. A lngua de seu amiga tinha uma dobro vida; em classe, Gayie era capaz de elaborar um discurso frio e lgico, mas em sua vida social tagarelava sem cessar. Essa era a causa pela que Brianna tinha pedido ao Gayie que a acompanhasse ao aeroporto a procurar o Roger; evitaria silncios incmodos na conversao.
       -J o tem feito com ele?
       Olhou ao Gayie, sobressaltada.
       -Se j tiver feito o que?
       Gayie fechou os olhos.
       -Jogar a colocar a pelotita no fossa. Francamente, Bri!
       -No.  obvio que no -disse, ruborizando-se.
       -Bom, e o vais fazer?
       -Gayie!
       -Bom, tem seu prprio apartamento e ningum vai A...
       Naquele incmodo momento apareceu Roger Wakefield, vestindo uma camisa branca e algum nos cubra gastos. Brianna ficou to rgida ao lhe ver que Gayie voltou a cabea para descobrir o motivo.
       -Aaah -disse, encantada-.  ele? Parece um pirata!
       Assim era; a Brianna tremeram os joelhos. Roger era o que sua me chamava um celta negro, com a pele cor oliva claro, o cabelo negro, pestanas negras entupidas e os olhos, que um esperava de cor azul, de um surpreendente verde profundo. Com o cabelo bastante largo, despenteado e barbudo, no s parecia um libertino, mas tambm tambm um ser perigoso.
       Ento Roger a viu e seu rosto se iluminou. A seu pesar, Brianna sentiu que sua cara se enchia com um grande sorriso. Esquecendo suas dvidas, correu esquivando meninos e carros com bagagens.
       encontraram-se a metade do caminho e quase a levantou do cho ao abra-la com tanta fora para lhe romper as costelas. Beijou-a, deteve-se, beijou-a outra vez raspando-a com a barba. Cheirava a sabo e a suor e tinha sabor de usque escocs. Brianna no queria que se detivera.
       Soltou-a quando os dois ficaram sem flego.
       -Ejem -disse uma voz perto da Brianna.
       separou-se do Roger e descobriu ao Gayie sonriendo angelicalmente.
       -Hoo-laa -disse-. Voc deve ser Roger, porque se no fora assim, Roger sofreria uma comoo ao verte, no?
       Olhou-o de cima abaixo, com evidente aprovao.
       -E alm disso toca o violo?
       Brianna no tinha reparado no estojo que havia no cho. Roger o levantou, pendurando-lhe do ombro.
       -Bom, estes so os feijes de minha viagem -disse dirigindo um sorriso ao Gayie, quem se levou uma mo ao corao em um simulado gesto de xtase.
       -Repete isso! -disse Gayie.
       -Que repita o que? -Roger parecia intrigado.
       -Feijes -interveio Brianna, pendurando do ombro uma das bolsas-. Quer ouvir seu acento. Gayie tem paixo pelo acento britnico. Ela  Gayie.
       Assinalou a seu amiga com gesto de resignao.
       -Ah, j me dou conta. -Roger se esclareceu garganta e olhando fixamente ao Gayie, disse uma frase com tudo os res, em seu acento escocs-, Est bem assim?
       -Querem terminar com isso? -Brianna olhou zangada a seu amiga, que se tinha desabado teatralmente em uma das cadeiras de plstico-. No faa conta -advertiu ao Roger, dirigindo-se para a porta-. O que quiseste dizer com o dos feijes? -perguntou, tratando de retomar uma conversao mais normal.
       Roger riu, um pouco presunoso.
    -Bom, a conferncia sobre histria me paga a viagem, mas no se fazem cargo dos gastos. Assim que me arrumei isso para conseguir um trabalho com o que me costear isso 
       -Tocando o violo?
       -Durante o dia, o respeitvel historiador Roger Wakefield  um inofensivo acadmico de Oxford. Mas, de noite, tira seu tartn e se converte no animado Roger MacKenzie!
       -Quem?
       Sorriu ante sua surpresa.
       -Bom, interpreto canes folclricas escocesas em festivais e recitais. vou cantar em um festival celta, nas montanhas, este fim de semana. Isso  tudo.
       -Canes escocesas? Usa kilt quando canta? -Gayie ia ao outro lado do Roger.
       -claro que sim. Como saberiam ento que sou escocs se no o usasse?
       -eu adoro os joelhos peludos -disse Gayie, sonhando-. Agora, me diga,  verdade isso que dizem de que os escoceses...
       -v procurar o carro -ordenou Brianna, entregando com brutalidade as chaves a seu amiga.
       
       Gayie apoiou o queixo no guich do carro, observando ao Roger, que entrava no hotel.
       -Caramba, espero que no se barbeie antes de comer. eu adoro o aspecto dos homens quando esto um tempo sem barbear-se. O que ser essa caixa to grande?
       - seu bodhran -respondeu Brianna.
       -Seu o que?
       - um tambor de guerra celta. Toca-o com alguma de suas canes.
       Gayie juntou os lbios com gesto dbio.
       -No querer que eu lhe leve a esse festival, no? Quero dizer, voc tem muitas coisas que fazer Y...
       -Ja, ja. Crie que te vou deixar estar perto dele quando ficar seu kilt?.
       Gayie suspirou e colocou a cabea dentro do carro enquanto Brianna arrancava.
       -Bom, talvez haja outros homens com kilt.
       - muito possvel.
       Gayie se apoiou no respaldo e olhou de esguelha a seu amiga.
       -Ento o vais fazer?
       -Como vou ou seja o?.
       Mas o sangue bulia baixo sua pele e a roupa lhe incomodava
       -Bom, se no o fizer -disse Gayie, convencida-,  que est louca.
       
       -O gato do clrigo  um... gato andrgino.
       -O gato do clrigo  um... gato andarilho.
       Brianna o olhou com uma sobrancelha levantada.
       - um jogo escocs -explicou Roger-, agora  seu turno com a letra "b".
       -Est bem. O gato do clrigo ...
       -Espera -interrompeu Roger, assinalando-.  por ali.
       Com lentido, Brianna saiu da estreita estrada para introduzir-se em um caminho mais estreito, com uma flecha em vermelho e branco que indicava "Festival Celta".
       - um encanto por me haver trazido at aqui acima -disse Roger-. No sabia que estava to longe, do contrrio no lhe teria pedido isso.
       A jovem lhe lanou um olhar divertido.
       -No est to longe.
       -So uns trezentos quilmetros!
       Brianna sorriu com um toque zombador.
       -Meu pai dizia que a diferena entre um norte-americano e um ingls  que um ingls acredita que cem quilmetros  um comprido caminho e um norte-americano acredita que cem anos  muito tempo.
       Roger riu, surpreso.
       -Vale, est bem. Ento voc  a norte-americana, suponho.
       -Suponho -mas seu sorriso se desvaneceu.
       O mesmo aconteceu com a conversao. Continuaram em silencio durante uns minutos, sem outro rudo que o do motor e o vento. Era um formoso dia de um caloroso vero.
       -O gato do clrigo  um gato distante -disse finalmente Roger, com voz suave-. Hei dito algo mau?
       Dirigiu-lhe um rpido olhar triste e um leve sorriso.
       -O gato do clrigo  um gato fantasioso. No, no  voc.
       -Apertou os lbios e diminuiu a marcha detrs de outro carro; logo se relaxou-. No, perdo,  voc, mas no  tua culpa.
       Roger ficou rgido e se voltou para olh-la.
       -O gato do clrigo  um gato enigmtico.
       -O gato do clrigo  um gato molesto; no devi dizer nada, sinto muito.
       Roger era o bastante prudente para no pression-la. longe disso, procurou debaixo do assento e tirou o recipiente trmico com ch quente e limo.
       Brianna no tinha aspecto de inglesa, apesar de sua origem. No podia dizer se a diferena era algo mais que a forma de vestir, mas o pensava. Os norte-americanos pareciam muito mais... o que? Vibrantes? Intensos? S mais. Brianna Randall era decididamente mais.
    -Olhe -disse bruscamente Brianna. No se voltou para olh-lo, antes bem cravou a vista na matrcula de Nova Pulver do carro de diante-. Tenho que lhe explicar isso 
       -No a mim.
       Arqueou as sobrancelhas com irritao.
       -J quem, ento? -Apertou os lbios e suspirou-. Sim, claro, de acordo, a mim tambm. Mas devo faz-lo.
       Roger sentia um gosto amargo no fundo da garganta. Seria agora quando lhe diria que era um engano que ele estivesse ali? Tinha-o pensado durante a viagem, enquanto cruzava o Atlntico, tratando de acomodar-se no pequeno assento do avio. Logo, quando a viu no vestbulo do aeroporto, todas suas dvidas se desvaneceram de repente. 
       Durante aquela semana a tinha visto um momento todos os dias; inclusive foram a um partido de beisebol no parque Fenway na quinta-feira pela tarde. O jogo lhe resultou desconcertante, mas adorou o entusiasmo da jovem. encontrou-se contando as horas que faltavam para sua marcha e, entretanto, esperando este dia, o nico que passariam juntos. Isso no significava que ela sentisse o mesmo.
       -Em Esccia -comeou a lhe dizer Brianna-, quando tudo... aquilo aconteceu com minha me... esteve grandioso, Roger, realmente maravilhoso.
       No o olhava, mas Roger podia ver que lhe umedeciam os olhos debaixo das espessas pestanas avermelhadas.
       -No foi grande coisa -respondeu. Fechou as mos para evitar toc-la-. Estava interessado.
       Brianna riu.
       -Sim, arrumado a que sim. -Diminuiu a marcha e se voltou olhando o de frente. Embora estivessem bem abertos, seus olhos tinham um pouco parecido aos dos gatos-. tornaste a ir ao crculo de pedras? Ao Craigh na Dun?
       -No -disse cortante. Logo tossiu, e acrescentou como de passada. -No vou muito freqentemente ao Inverness; estamos a final de curso.
       -No ser que o gato do clrigo  um gato nervoso? -perguntou, embora sonriendo brandamente.
       -O gato do clrigo tem um medo terrvel a esse lugar -disse com franqueza-. No poria um p ali, embora estivesse cheio de sardinhas.
       Brianna comeou a rir e a tenso entre eles se relaxou notavelmente.
       -Eu tampouco -disse, respirando profundamente-. Mas lembrana. Todo o trabalho que tomou e logo, quando... quando ela... quando mame passou atravs...
       mordeu-se o lbio e freou com brutalidade.
       -D-te conta? -disse em voz baixa-. Estou contigo durante meia hora e tudo volta a comear. Faz seis meses que no falo de meus pais; comeamos a jogar e em menos de um minuto nomeio aos dois. Isto aconteceu durante toda esta semana.
       -Quando no respondeu minha carta, pensei que seria por algo assim.
       -No foi s por isso.
       mordeu-se para no falar, mas j o havia dito e se ruborizou.
       Roger se aproximou e, com gesto tenro, levantou a mecha que lhe cobria a cara.
       -Estava terrivelmente apaixonada por ti -estalou, olhando para diante-. Mas no sabia se te comportava assim comigo porque mame lhe tinha pedido isso, ou se era...
       -Ou era... -interrompeu, sonriendo ante o tmido olhar da jovem-. Definitivamente sim.
       -Ah! -relaxou-se um pouco-. Bom. Bem.
       Roger desejava agarrar sua mo, mas no queria ser o culpado de um acidente, assim que lhe aconteceu o brao por detrs e lhe roou o ombro.
       -De todos os modos, no me parecia bem; ou me jogava em seus braos ou ia.  o que fiz, mas no sabia como lhe explicar isso sem parecer uma idiota. E logo, quando me escreveu, foi pior. Estava como tola!
       Roger se desabotoou o cinto de segurana.
       -Se te beijar, chocar-te com o carro de diante?
       -No.
       -Bem.
       aproximou-se e, lhe agarrando o queixo com uma mo, beijou-a.
       O carro estralou pelo caminho enlameado at o estacionamento.
       Brianna respirava com lentido e seu rubor tinha diminudo um pouco. Estacionou no lugar indicado, apagou o motor e permaneceu olhando  frente; tirou-se o cinto de segurana e se voltou para o Roger.
       Vrios minutos mais tarde, quando baixaram do carro, ao Roger lhe ocorreu pensar que Brianna tinha mencionado mais de uma vez a seus pais. Mas o problema real estava no pai, que cuidadosamente no tinha mencionado. "Grandioso -pensou, admirando distradamente o corpo da jovem enquanto se agachava para abrir o cap-. Ela est tentando no pensar no Jaime Fraser. E onde diabos a traz?" Olhou de esguelha para a entrada, onde se agitavam a bandeira nacional  a insgnia escocesa. Da ladeira da montanha chegava o som das gaitas de fole.
       
       4
       Uma rajada do passado
       
       Acostumado como estava a trocar-se na parte de atrs de algum carro ou no privada de um botequim, o cuartito traseiro do cenrio supunha para o Roger um luxo notvel. "Isto  a Amrica do Norte", pensou. tirou-se os nos cubra e os deixou cair ao cho. tirou-se a camisa pela cabea, perguntando-se qual seria o nvel de comodidades s que estava acostumada Brianna. No sabia apreciar a roupa das mulheres (quanto podiam valer um par de calas?), mas sabia um pouco sobre carros. o da Brianna era um flamejante Mustang azul que, ao v-lo, fez-lhe desejar conduzi-lo.
       Era evidente que seus pais lhe tinham deixado mdios para viver; confiava em que Claire Randall se ocupou disso. Mas esperava que no tanto como para que pudesse pensar que estava interessado em seu dinheiro. Ao recordar a seus pais, olhou o sobre de papel marrom. Devia entregar-lhe a Brianna?
       O jogo do gato assustado quase resultou verdade, porque Brianna ficou plida ao encontrar-se com a banda de gaiteiros dos highlanders, composta pelos Fraser oriundos do Canad, que estavam ensaiando a todo pulmo detrs dos vesturios. Quando apresentou ao Bill Livingstone, um velho amigo, no foi o aspecto do gaiteiro maior o que a intimidou, a no ser a insgnia do cl dos Fraser que levava no peito. "Je suis prest", dizia. "Estou preparado." "Ainda no est o suficientemente preparada", pensava Roger reprimindo as vontades de golpear-se por hav-la levado ali. Entretanto, a jovem lhe tinha assegurado que estaria bem e que daria uma volta pelo lugar enquanto ele se trocava e preparava para o espetculo.
       Seria melhor que se concentrasse, pensou, grampeando as fivelas de seu kilt na cintura e o quadril e estirando as mdias de l. Tinha que atuar ao comeo da tarde durante quarenta e cinco minutos e logo, de noite, interpretaria um breve s durante o ceilidh. Tinha uma quantidade importante de canes em sua cabea, mas sempre terei que ter em conta ao pblico. Com muitas mulheres, balida-las funcionavam bem; com maioria de homens, era melhor a msica militar. As canes obscenas eram bem acolhidas uma vez o pblico tinha entrado em calor, sobre tudo depois de umas quantas cervejas.
       Queria encontrar-se de novo com a Brianna, ter tempo para conversar um momento, lhe conseguir algo de comer e controlar que tivesse um bom site para ver o espetculo. pendurou-se a capa de um ombro, ajustou-se o broche e se colocou a adaga e o embornal; j estava preparado. deteve-se um momento e saiu em busca da Brianna.
       
       -Ooh! -exclamou dando voltas a seu redor, rendo-. Roger, est magnfico! -Sorriu com picardia-. Minha me sempre dizia que os homens com saia escocesa estavam irresistveis e vejo que tinha razo.
       deu-se conta de que tragava com dificuldade e teve vontades de abra-la, mas Brianna j se dirigiu para a zona onde serviam comida.
       -Tem fome? estive olhando enquanto te trocava. Podemos escolher entre polvos, tacos, salsichas...
       Agarrou-a do brao, atraindo-a para si para lhe ver a cara.
       -N! -disse com suavidade-, lamento-o. Se tivesse pensado que isto te ia impressionar tanto, no houvesse te trazido.
       -No passa nada. -Sorriu com mais ganha-. ... me alegro de ter vindo.
       -De verdade?
       -Estraga. Realmente. ... -Fez um gesto necessitado para o torvelinho de cor e rudos que os rodeava-.  to... escocs.
       Roger teve vontades de rir; nada podia ser menos escocs que aquela montagem para turistas, com objetos e tradies semifalsificadas. Ao mesmo tempo, Brianna tinha razo: era singularmente escocs. Um exemplo do talento escocs para sobreviver e de sua habilidade para adaptar-se a algo.
       Abraou-a. Seu cabelo cheirava a limpo, como a erva fresca.
       -Voc tambm  escocesa, sabe -disse-lhe ao ouvido e a soltou.
       Brilhavam-lhe os olhos, embora agora por uma emoo diferente.
       -Suponho que tem razo -disse com um amplo sorriso-. Isso no significa que tenha que comer esse guisado de carneiro, no? Vi-o e acredito que prefiro provar o polvo.
       Acreditou que brincava, mas no era assim. Um dos vendedores lhes explicou que parte do negcio era respeitar os costumes.
       -Cada duas semanas, troca tudo. Nunca nos aborrecemos. Mas temos que trocar de comida se queremos vender, no importa a classe que seja. -O vendedor inspecionou a roupa do Roger com interesse-. Voc  escocs ou s gosta de ficar saias?
       Como j tinha ouvido muitas vezes brincadeiras semelhantes, Roger lhe dirigiu um olhar imperturbvel.
       -Bom, como estava acostumado a dizer meu av -respondeu, marcando seu acento-, "quando puser seu kilt, moo, deve entender que  um homem!".
       O homem fez um gesto de reconhecimento e Brianna abriu os olhos.
       -Brincadeiras sobre kilts -murmurou-. Mierda, se comear a fazer essas brincadeiras, juro-te que vou e te deixo sozinho.
       Roger sorriu zombador.
       -No me faria isso, n, menina? Ir e deixar a um homem, s porque h dito o que tem debaixo do kilt?.
       Os olhos da Brianna se entrecerraron at ficar como dois tringulos azuis.
       -Arrumado a que no leva nada debaixo -disse Brianna assinalando o embornal-. E suponho que tudo est em perfeitas condies -disse, exagerando o acento escocs.
       Roger se ruborizo.
       -supe-se que tem que responder: "me d a mo e te farei uma demonstrao prtica" -interveio o vendedor de comida-. Moo, ouvi-o cem vezes esta semana.
       -Se ele o disser -respondeu Brianna com tom sombrio- irei e o deixarei abandonado nesta montanha. Pode ficar comendo polvo, no me importa.
       Roger bebeu um gole da Coca-cola e, com grande sabedoria, permaneceu em silncio.
       
       Tiveram tempo de dar uma volta entre os postos dos vendedores. Roger no provocava mais que alguma ligeiro olhar de curiosidade; embora sua roupa era de melhor qualidade que a da maioria, no era estranha naquele lugar.
       -por que MacKenzie? -perguntou Brianna-. Wakefield no soa bastante escocs?  Ou crie que s pessoas de Oxford no gostaria... isto?
       E com um gesto assinalou o que os rodeava.
       Roger se encolheu de ombros.
       -Em parte, sim. Mas tambm  meu sobrenome. Meus pais morreram durante a guerra, meu tio av me adotou e me deu seu sobrenome. Mas me batizaram Roger Jeremiah MacKenzie.
       -Jeremiah? -No lanou uma gargalhada, mas se ruborizou pelo esforo-. Como o profeta do Antigo Testamento?
       -No te ria. -E a agarrou do brao-. Puseram-me isso por meu pai; o chamavam Jerry. Quando era pequeno mame me chamava Jemmy. Um antigo nome de famlia. Mas depois de tudo, podia ter sido pior. Poderiam me haver batizado Ambrose ou Conan.
       Brianna estalou em uma gargalhada.
       -Conan?
       -Um nome celta perfeitamente respeitvel, antes de que o usassem em tudo esses filmes. De todos os modos, Jeremiah parece ter sido eleito por bons motivos.
       -E como  isso?
       - uma das histrias que papai (sempre chamei papai ao reverendo) estava acostumado a me contar percorrendo minha rvore genealgica e assinalando a meus parentes. Falava-me de minha bisav Mary Oliohant, que viveu at os noventa e sete anos e se casou seis vezes. Todos seus maridos morreram por causas naturais, mas nico que teve filhos foi com o Jeremiah MacKenzie por isso figurava na rvore genealgica. Parece ser que Jeremiah era o nico que a levava a cama todas as noites.
       -Pergunto-me que aconteceria os outros maridos -comento Brianna.
       -Bom, ela no disse que no se deitasse com eles -disse Roger-. Mas no todas as noites.
       -Com uma vez  suficiente para ficar embaraada-dijo Brianna-. Ou ao menos, isso era o que minha me assegurava. Em minha classe de sade, na secundria, desenhavam espermatozides na piarra correndo para um imenso ovo com caras maliciosas.
       ruborizou-se de novo, mas era evidente que essas lembranas a divertiam.
       -Deixando a um lado a questo de que os espermatozides tivessem cara, o que tem que ver esse tema com a sade?
       - um eufemismo norte-americano para algo que tenha que ver com o sexo -explicou-. Do classes separadas. Para as garotas: "Os mistrios da vida" e "Dez formas de dizer no a um moo".
       -E as classes dos meninos?
       -Bom, no estou muito segura, porque no tinha irmos que me contassem isso. Embora algumas de meus amigas sim tinham e um deles nos contou que aprendiam dezoito sinnimos diferentes de ereo.
       -Um pouco muito til -disse Roger, perguntando-se para que queriam tantos nomes. Por sorte, o embornal cobria uma multido de pecados.
       -Suponho que servir para manter uma conversao... em certas circunstncias.
       A jovem tinha as bochechas ruborizadas. Roger podia sentir aquele calor em sua prpria garganta e se imaginou que a gente comeava a olhar os de reojo. Desde que tinha dezessete anos nenhuma garota o tinha posto em uma situao to embaraosa em pblico. Mas era muito agradvel e, j que tinha comeado, deixaria-a terminar.
       -Mmm. Parece que no se fala muito, em certas circunstncias.
       -Imagino que saber.
       No era uma pergunta. Ento se deu conta do que ela queria saber. Aproximou-a mais.
       -Se me est perguntando se a tive, a resposta  sim. Se te referir  atualidade, no.
       -Se teve o que? -Tremiam-lhe os lbios, reprimindo a risada.
       -Estava-me perguntando se tinha uma noiva na Inglaterra, no  verdade?
       -Ah, sim?
       -No a tenho. Bom, quase a tive, mas nada srio. -Estavam na porta dos vesturios. Ia sendo hora de que fora a procurar seus instrumentos. deteve-se e a olhou-. E voc? Tem algum?
       Era o bastante alta para olh-lo aos olhos e estavam to perto que seus seios lhe roaram o brao quando se voltou para olh-lo cara a cara.
       -Bom, sua bisav se casou muitas vezes antes de ficar sozinha, no? -Acariciou-lhe o broche do ombro-. A verdade  que saio com alguns meninos. Mas nenhum  especialmente importante... ainda.
       Agarrou-lhe os dedos e os levou aos lbios.
       -lhe d tempo ao tempo, menina -disse.
       
       O pblico estava surpreendentemente tranqilo, ao contrrio que em um festival de rock. " obvio -pensou a jovem-, no tm por que ser ruidosos j que no h violes eltricos nem amplificadores, s um pequeno microfone." Mas seu corao pulsava com fora sem necessidade de amplificadores.
       -Toma -disse Roger, saindo bruscamente do vesturio com seu violo e seu tambor. Entregou-lhe um pequeno sobre de papel marrom-. Encontrei-o revisando papis velhos de papai, no Inverness. Pensei que talvez as quereria ter.
       Sabia que eram fotos, mas no as quis olhar em seguida. sentou-se a escutar ao Roger com o sobre lhe queimando os dedos.
       Era bom; embora estava distrada podia dar-se conta que tinha talento. Sua voz de bartono era rica e profunda e sabia modul-la. alm das inflexes e a melodia, tinha a habilidade de relacionar-se com o pblico, olhar s pessoas aos olhos e comunicar-se atravs de suas canes. Ao cantar a ltima nota, olhou-a diretamente aos olhos e lhe sorriu.
       -E esta fala sobre a famosa batalha do Prestonpans, quando o exrcito das terras altas de Esccia, com o Carlos Estuardo, derrotou s foras inglesas, muito mais numerosas, baixo o mando do general Jonathan Monopolize.
       Houve um murmrio de apreciao; era evidente que a cano era uma das mais populares.
       Brianna sentiu que lhe arrepiava o plo, no pelo cantor, mas sim pela letra da cano.
       -No -sussurrou, apertando o sobre com dedos frios. 
       "Venham comigo, meus alegres homens." Tinham estado ali; seus pais tinham estado ali. Seu pai foi o que atacou em Emprestem. As vozes se uniram formando um coro. Brianna teve um momento de pnico, que passou deixando-a comovida tanto pela emoo como pela msica.
       Algumas pessoas tratam de preservar o passado; outras escapam. E esse era o maior abismo entre ela e Roger. por que no o tinha visto antes?
       No sabia se Roger tinha detectado sua confuso, mas abandonou o perigoso territrio dos jacobitas para cantar "O lamento do MacPherson", com apenas uns acordes do violo como acompanhamento.
       Agarrou o sobre, sopesando-o. Talvez deveria esperar a voltar para casa. Mas a curiosidade lutava contra sua resistncia.
       Roger no estava convencido de se devia lhe entregar aquelas fotos, tinha-o visto em seu olhar. Enquanto finalizava a cano, colocou os dedos no sobre e tirou vrias fotos. Velhas fotos instantneas em branco e negro, algo amareladas. Seus pais Frank e Claire Randall, absurdamente jovens e contentes.
       Estavam em um jardim, com cadeiras e uma mesa com bebidas. Os rostos se viam com claridade, sorridentes e olhando-se aos olhos. Na ltima foto estavam a ponto de cortar o bolo de bodas.
       -E por ltimo, uma antiga cano que todos conhecem. diz-se que a escreveu um prisioneiro jacobita, caminho de Londres para que o pendurassem, e que a enviou a sua esposa nas montanhas de Esccia...
       Cobriu as fotos com as mos para evitar que algum as visse. estremeceu-se. Fotos de umas bodas. Do dia das bodas.
        obvio, casaram-se em Esccia. O reverendo Wakefield no pde celebr-la porque no era catlico, mas era um dos melhores amigos de seu pai; a recepo deveu realizar-se na reitoria. Sim. Espiando atravs de seus dedos, pde descobrir partes conhecidas da antiga casa. Logo, a contra gosto, retirou a mo e olhou outra vez o jovem rosto de sua me. Dezoito. Claire se tinha casado com o Frank Randall aos dezoito anos. Talvez isso o explicasse. Como se pode saber, to jovem, o que algum quer? Mas Claire estava segura, ou acreditava est-lo. A frente ampla e a boca delicada no admitiam dvidas; os grandes olhos luminosos estavam cravados em seu marido sem dvidas nem temores. E entretanto...
       Sem fixar-se onde pisava, Brianna saiu da fila e escapou antes de que pudessem ver suas lgrimas.
       
       -Posso ficar contigo enquanto chamam os cls -disse Roger-. Mas ao final tenho que participar. Estar bem?
       -Sim,  obvio -respondeu com segurana-. Estou bem. No se preocupe.
       Olhou-a com ansiedade, mas no insistiu. Nenhum dos dois tinha mencionado sua precipitada sada. Quando terminou de saudar os que o felicitavam e pde ir procur-la, Brianna j tinha tido tempo de lav-la cara no quarto de banho.
       Tinha escurecido e a gente se dirigia aos postos de fora, ao p da montanha.
       -O que  a chamada dos cls? -perguntou uma mulher a seu companheiro.
       O homem se encolheu de ombros e Brianna olhou ao Roger para que o explicasse.
       -J o ver -disse sonriendo.
       Tinha anoitecido e a lua ainda no saa. A montanha era uma massa escura no cu estrelado. Uma exclamao surgiu da multido e, ento, as notas de uma gaita de fole atravessaram o ar, silenciando todo o resto.
       Um ponto de luz apareceu perto do topo da montanha. Enquanto olhavam, moveu-se para baixo e apareceu outro brilho. A msica se fez mais forte e apareceu outra luz. Durante quase dez minutos a espera aumentava, a msica se ia fazendo mais forte e as luzes se converteram em uma cadeia luminosa que baixava pela montanha.
       Ao fundo da ladeira havia um atalho que descendia das rvores do topo. Brianna j o tinha visto antes. Naquele momento apareceu um homem entre as rvores, agitando uma tocha por cima da cabea. Detrs ia o gaiteiro; o som da gaita de fole era to forte que apagava as exclamaes da multido.
       Enquanto baixavam pelo atalho para o claro, frente aos degraus, Brianna pde ver uma larga fileira de homens, cada um levando uma tocha e vestidos com a roupa de chefes dos cls. Eram brbaros e esplndidos, com a prata das espadas e adagas brilhando com brilhos avermelhados  luz das tochas.
       As gaitas de fole calaram bruscamente e o primeiro dos homens se deteve ante os degraus. Levantou a tocha por cima da cabea e gritou:
       -Os Cameron esto aqui!
       Exclamaes de entusiasmo percorreram as tribunas; o homem arrojou a tocha no tonel cheio de querosene e o fogo se elevou com um rugido.
       Outra vez se repetiu a cena.
       -Os MacDonald esto aqui!
       Gritos e aclamaes de outros membros do cl.
       -Os MacLachlan esto aqui!
       -Os MacGillivray esto aqui!
       Estava to interessada no espetculo que quase no emprestava ateno ao Roger. Ento se adiantou outro homem.
       -Os MacKenzie esto aqui!
       -Tulach Ardi -uivou Roger, sobressaltando a Brianna.
       -O que  isso?
       -Isso -respondeu sonriendo-  o grito de guerra do cl dos MacKenzie.
       -Sonha muito guerreiro.
       -Os Campbell esto aqui! -Devia haver muitos Campbell, porque a resposta sacudiu os degraus. Como se essa fora o sinal que esperava, Roger ficou em p e se colocou a capa.
       -Encontramo-nos nos vesturios?.
       Brianna assentiu e Roger se inclinou sbitamente e a beijou.
       -Se por acaso tem dvidas -disse-. O grito dos Fraser  Caisteal Dhuni.
       Observou-o enquanto se afastava baixando pelos degraus como uma cabra Montes.
       Sentia o peito oprimido pela fumaa e a emoo. Tinham morrido os cls no Culloden? Sim, assim era; isto no eram mais que lembranas; estavam chamando fantasmas; os que estavam ali gritando com entusiasmo no eram parentes nem tinham terras nem casas, mas...
       -Os Fraser esto aqui!
       O pnico se apoderou dela e se aferrou a sua bolsa. "No -pensou-. Ah, no. Eu no."
       Passado o momento, recuperou a respirao, mas a adrenalina ainda corria por suas veias.
       Os Lindsay, os Gordon... at que, finalmente, os ecos do ltimo grito cessaram. Brianna sujeitava sua bolsa como se temesse que fora a escapar. "Como pde faz-lo ela?", pensou; e logo, ao ver o Roger com o tambor na mo e a cabea iluminada pelo fogo, pensou outra coisa: "Como impedi-lo?"
       
       5
      Duzentos anos depois
       
       -No leva posta a saia escocesa!
       A boca do Gayie se curvou em um gesto de decepo.
       -Sculo equivocado -respondeu Roger, sonriendo-. Muito exposto s correntes de ar para um passeio pela Lua.
       -Tem que me ensinar a fazer isso -disse, inclinando-se para ele.
       -A fazer o que?
       -Fazer soar os res assim.
       Juntou as sobrancelhas e tentou imit-lo, produzindo um rudo parecido ao motor de uma lancha.
       -Perr-fecto -disse, tratando de no rir-. Segue assim.
       -Bom, ao menos haver trazido o violo. -Nas pontas dos ps tratou de olhar por cima de seu ombro-. Ou esse fantstico tambor.
       -Est no carro -interveio Brianna, aproximando-se do Roger-. Vamos ao aeroporto daqui.
       -Ah, o que machuca, pensei que poderamos dar uma volta e organizar uma festa com msica, para celebr-lo. Conhece "Esta terra  sua terra", Roger? Ou voc gosta mais das canes protesto? Mas suponho que no, como  ingls, quero dizer, escocs. Vs no tm nada do que protestar, no?
       Brianna dirigiu um olhar de exasperao a seu amiga.
       -Onde est o tio Joe?
       -No salo, esmurrando o televisor -disse Gayie-. Quer que entretenha ao Roger enquanto voc o busca?
       -Temos aqui na metade da Faculdade de Engenharia e no h ningum que possa arrumar um maldito televisor?
       O doutor Joseph Abernathy lanou um olhar acusador ao grupo de jovens que havia no salo.
       -Isso  engenharia eltrica, papai -disse seu filho com orgulho-. Ns somos engenheiros mecnicos. lhe pedir a um engenheiro mecnico que arrume seu televisor em cor  como lhe pedir a um ginecologista que olhe... ai!
       -Sinto muito -disse seu pai, olhando por cima de seus culos de arreios de ouro-. Era seu p, Lenny?
       Lenny saltou pela habitao, agarrando-se um de seus grandes ps embainhado na sapatilha, com exagerados gestos de agonia enquanto todos riam.
       -Bri, querida!
       O mdico descobriu a jovem e abandonou o televisor com o rosto radiante. Abraou-a com entusiasmo sem ter em conta o fato de que ela era como dez centmetros mais alta. Soltou-a e olhou ao Roger, mostrando uma cautelosa cordialidade.
       -Este  o apaixonado?
       -Este  Roger Wakefield -disse Brianna, entrecerrando os olhos-. Roger, Joe Abernathy.
       -Doutor Abernathy.
       -me chame Joe.
       estreitaram-se as mos, avaliando-se mutuamente.
       -Bri, querida, quer te ocupar desse traste e ver se consegue ressuscit-lo?
       Brianna olhou com incerteza o grande aparelho e rebuscou no bolso de seus nos cubra, de onde tirou uma navalha a Sua.
       -Bom, suponho que posso revisar as conexes.
       -Abriu a folha do chave de fenda-. Quanto tempo temos?
       -Meia hora, talvez -gritou um estudante da porta da cozinha. Lanou um olhar ao grupo reunido junto ao pequeno aparelho da mesa-. Ainda estamos com a misso de controle em Houston; hora prevista, trinta e quatro minutos.
       Os comentrios do reprter da televiso se intercalavam com as exclamaes dos estudantes.
       -Bem, bem -disse o doutor Abernathy, apoiando uma mo no ombro do Roger-. Temos tempo de sobra para um gole. Voc bebe escocs, senhor Wakefield?
       -me chame Roger.
       Abernathy serve uma quantidade generosa do nctar cor mbar e o alcanou.
       -Imagino que no querer gua, Roger.
       -No.
       Era da marca Lagavulin, algo assombroso em Boston.
       -Me deu de presente isso Claire. A me do Bri. Era uma mulher com bom paladar para o usque.
       Moveu a cabea com uma expresso de nostalgia.
       -Slainte -disse Roger com calma e levantou sua taa antes de beber.
       Abernathy fechou os olhos em silenciosa aprovao; se era pela mulher ou pelo usque, Roger no podia diz-lo.
       -gua de vida, n? Acredito que isto pode levantar um morto.
       Colocou a garrafa com respeito novamente na vitrine.
       Quanto tinha contado Claire ao Abernathy? Bastante, supunha Roger.
       -J que o pai do Bri morreu, suponho que tenho que fazer as honras. Temos tempo para um interrogatrio de terceiro grau antes de que alunissem, ou o fazemos mais breve?
       -Roger levantou uma sobrancelha. 
       -Suas intenes -explicou o mdico.
       -OH. Estritamente honorveis.
       -Sim? Chamei ontem  noite ao Bri para saber se vinha hoje. No respondeu ningum.
       -Fomos a um festival de msica celta, nas montanhas.
       -Estraga. Chamei de novo s onze da noite. E a meia-noite. Sem resposta. Bri est sozinha e  adorvel. No queria ver como algum se aproveita disso, senhor Wakefield.
       -Tampouco eu... doutor Abernathy. -Roger esvaziou sua taa e a deixou com um golpe. O calor fervia em suas bochechas e no era devido ao Lagavulin-. Se acreditar que eu...
       -AQUI Houston -trovejou a televiso- CALMA NA BASE. VAMOS ALUNISSAR EM VINTE MINUTOS.
       Os ocupantes da cozinha apareceram, brindando com seus refrescos. Brianna, ruborizada, ria sem fazer caso das felicitaes enquanto guardava sua navalha. Abernathy ps uma mo no brao do Roger para ret-lo.
       -Falo a srio, senhor Wakefield -disse Abernathy em voz baixa para que no lhe ouvissem outros-. No quero me inteirar de que tem feito infeliz a esta moa. Nunca.
       Com cuidado, Roger conseguiu liberar seu brao.
       -Acredita que no  feliz? -perguntou o mais educadamente possvel.
       -No-oo -respondeu Abernathy, olhando-o de soslaio-. Justamente o contrrio.  a forma em que a vejo esta noite o que me faz pensar que deveria lhe romper o nariz, em nome de seu pai.
       Roger no pde evitar olh-la; era verdade. Como se tivesse um radar, Brianna voltou a cabea para olh-lo. Enquanto falava com o Gayie, seus olhos seguiam fixos nos do Roger.
       O mdico se esclareceu garganta de forma audvel e Roger apartou a vista da Brianna para enfrentar-se com a expresso pensativa do Abernathy.
       -OH -disse, em tom diferente-. Assim  isso.
       Roger tinha o pescoo da camisa desabotoado, mas sentia como se levasse uma gravata ajustada. Olhou ao mdico diretamente aos olhos.
       -Fui-dijo-. Isso.
       O doutor Abernathy procurou a garrafa do Lagavulin e encheu as duas taas.
       -Claire disse que voc gostava -disse resignado. Levantou sua taa-. Est bem. Slainte.
       
       -Gira para o outro lado, Walter Cronkite est de cor alaranjada!
       Lenny Abernathy se inclinou para mover o boto e a tela se voltou esverdeada.
       -"Em dois minutos aproximadamente, o comandante Neil Armstrong e a tripulao do Apolo  faro histria; ser a primeira vez que o homem chegue  Lua..."
       O salo estava escuro e cheio de gente.
       -Estou impressionado -murmurou Roger ao ouvido da Brianna-. Como o conseguiste?
       Estava detrs dela, apoiado em uma prateleira da biblioteca e a sujeitava pelos quadris enquanto apoiava o queixo no ombro da jovem.
       -Algum tinha pisado na tomada -respondeu-. Simplesmente o voltei a conectar.
       Roger riu e a beijou no pescoo.
       -Tem o traseiro mais arrebitado do mundo -sussurrou.
       A jovem no respondeu, mas deliberadamente apertou seu traseiro contra ele.
       Na tela da televiso se viam fotos da bandeira que os astronautas foram colocar na Lua.
       Olhou de esguelha pela habitao, mas Joe Abernathy estava to hipnotizado como o resto.
       Em duas horas tinha que ir-se; no tinham tempo para intimidades. A noite anterior, sabendo que jogavam com dinamite, tinham sido mais prudentes. perguntou-se se Abernathy lhe teria golpeado se tivesse admitido que Brianna tinha passado a noite com ele.
       Tinha conduzido na viagem de volta das montanhas, lutando por manter-se no lado direito da estrada e nervoso por ter a Brianna to perto. detiveram-se para tomar caf, conversaram at passada a meia-noite, tocando-se constantemente, mos, coxas, cabeas juntas. Quando chegaram a Boston, a cabea da Brianna descansava pesadamente sobre seu ombro.
       Incapaz de seguir conduzindo por ruas desconhecidas at o apartamento da Brianna, foi diretamente at seu hotel, subiu-a s escondidas, e a deitou em sua cama, onde ficou dormida ao momento.
       Passou o resto da noite deitado, castamente, no cho, abafado com o casaco de l da jovem. Ao amanhecer, levantou-se e se sentou em uma cadeira, alagado por seu aroma, observando-a silenciosamente enquanto a luz lhe mostrava seu rosto dormido.
       Sim, foi assim.
       Na televiso anunciavam a chegada da nave. O silncio da habitao se quebrou por um suspiro coletivo. Roger sentiu que lhe arrepiava o cabelo da nuca.
       -"Um... pequeno... passo para o homem" -dizia a voz-, "um salto gigante... para a humanidade".
       At a Brianna tinha esquecido todo o resto, inclinada para diante, apanhada no momento.
       Era um bom dia para ser norte-americano.
       Roger teve um instante de incerteza ao v-los todos to orgulhosos, com tanto ardor, e a Brianna to integrada no assunto. Era um sculo diferente, duzentos anos desde ontem. Haveria um terreno comum para eles, um historiador e uma engenheira? Ele, olhando para trs, aos mistrios do passado; ela, para o futuro e seu brilho embriagador?
       Ento a habitao se encheu de exclamaes de entusiasmo e Brianna se deu a volta para beij-lo e abra-lo.
       Roger pensou que talvez no importasse que suas direes fossem opostas, sempre que se encontrassem o um ao outro.
       
       
       
       
       TERCEIRA PARTE
       PIRATAS
       
       6
       Tropeo com uma hrnia
       
       Junho de 1767
       
       -Detesto os navios -disse Jamie com os dentes apertados-. dio os navios. Sinto pelos navios o mais profundo desprezo.
       O tio do Jamie, Hctor Cameron, vivia em uma plantao chamada River Run, que ficava alm do Cross Creek, que a sua vez estava rio acima, a certa distncia do Wilmington; a uns trezentos quilmetros dali. Nessa poca do ano a viagem em navio duraria entre quatro dias e uma semana, dependendo do vento. Se escolhamos viajar por terra, a travessia duraria como mnimo duas semanas.
       -Os rios no tm ondas -disse ao Jamie-. Alm disso, se te enjoar, ainda tenho minhas agulhas.
       Apalpei o bolso onde levava a caixa de marfim com as agulhas de ouro para praticar a acupuntura.
       Jamie soprou com fora, mas no disse nada mais. No fomos ricos, mas tnhamos um pouco de dinheiro, resultado de um golpe de sorte durante o caminho. Viajando como ciganos por volta do norte do Charleston e acampando durante a noite, longe do caminho, tnhamos descoberto uma residncia abandonada no bosque, quase oculta pela vegetao. Entre as novelo ficavam os restos de um horta de melocotoneros, com as frutas amadurecidas cheias de abelhas. Comemos tudo o que pudemos, dormimos ao socaire das runas e nos levantamos antes do amanhecer para encher o carro com a fruta dourada e suculenta, que fomos vendendo pelo caminho. Como conseqncia, chegamos ao Wilmington com as mos pegajosas, uma bolsa de moedas (a maioria peniques) e um penetrante aroma de fermentao que nos alagava o cabelo, a pele e a roupa como se nos tivssemos banhado em licor de pssego.
       -Toma isto -disse Jamie, me alcanando a pequena bolsa de couro com nossa fortuna-. Compra as provises que possa... mas nada de pssegos, n? E algumas costure para nos arrumar e no parecer uns mendigos quando nos apresentarmos ante meus parentes. Duncan e eu vamos tratar de vender o carro e os cavalos e procurar um navio. E se aqui h algum parecido a um ourives, verei o que me oferece por uma das pedras.
       -Tome cuidado, tio -interveio Ian, franzindo o cenho ante a quantidade e variedade de gente que perambulava pelo porto-. Leva a Cilindro para que te proteja.
       -Ah, bom -Jamie lanou um olhar ao co, que observava vigilante-. Vem comigo, ento, perrito. -Me olhou de esguelha antes de ir-se-. Talvez seria melhor que comprasse um pouco de pescado seco.
       
       Wilmington era uma cidade pequena que, por causa de sua afortunada situao como porto martimo na desembocadura de um rio navegvel, gabava-se de ter no s um mercado de produtos agrcolas, com todo o necessrio para a vida cotidiana e um embarcadero, mas tambm vrias lojas que armazenavam artigos de luxo importados da Europa.
       -Favas, muito bem -disse Fergus-. Eu gosto das favas. E po, farinha, sal e manteiga de porco. Carne salgada, cerejas secas, mas frescas, todo isso est bem. Pescado, para mais segurana. Acredito que ser necessrio que consigamos agulhas e fio. Tambm uma escova -acrescentou, olhando meu cabelo que, por causa da umidade, fazia esforos para escapar de meu chapu de asa larga-. E os remdios do farmacutico, naturalmente. Mas encaixe?
       -Encaixe -respondi com firmeza. Coloquei um pacote com trs metros de encaixe de Bruxelas no canasto que levava Fergus-. E tambm um metro de cinta de seda de cada cor -expliquei  acalorada jovem que nos atendia-. A vermelha  para ti, Fergus, assim no te queixe; verde para o Ian; amarela para o Duncan e a azul escuro para o Jamie. E no, no  um gasto extravagante. Jamie no quer que pareamos uns vagabundo ante seus tios.
       -E o que passa contigo, tia? -perguntou Ian, sonriendo zombador-. No pensar que os homens paream uns petimetres e voc v como um pobre pardal?
       Fergus soprou, entre exasperado e divertido.
       -Esta -disse, assinalando um cilindro de cinta cor rosa escuro.
       -Essa cor  para uma menina -protestei.
       -As mulheres nunca so muito majores para usar o rosa -respondeu com firmeza Fergus.
       -Est bem, tambm a rosa.
       Samos  rua, carregados com canastos e bolsas de provises. Olhei para o porto e vi a alta figura do Jamie, com Cilindro caminhando a seu lado.
       Ian saudou, pegou um grito e Cilindro lhe aproximou veloz, agitando a cauda ao ver seu dono.
       -meu deus -disse arrastando as palavras uma voz que vinha do alto-.  o co maior que vi em minha vida.
       -Dava-me a volta e vi um cavalheiro que se separava da porta do botequim e levantava o chapu para me saudar-. Para servi-la, senhora. Espero, sinceramente, que no lhe interesse a carne humana.
       Meu interlocutor era um dos homens mais altos que tinha visto em minha vida; media um cotovelo mais que Jamie.
       -No, alimenta-se de pescado -assegurei.
       Ao ver que tinha que estirar o pescoo para lhe falar, agachou-se amavelmente. Ento observei que tinha a barba negra e um nariz incongruentemente chata, acompanhada por uns olhos grandes e amveis de cor avel.
       -Bom, isso me alegra. John Quincy Myers, para lhe servir, senhora -disse, com uma inclinao.
       -Claire Fraser -respondi, lhe oferecendo a mo de uma vez que o olhava fascinada.
       Agarrou meus dedos e os levou ao nariz, cheirou-os e me dedicou um amplo sorriso, encantadora, em que pese a que lhe faltava a metade dos dentes.
       - voc uma mulher que, talvez, saiba de ervas?
       -Mas como?.
       -Uma senhora com habilidade para a jardinagem se ocupa de suas rosas; mas uma dama cujas mos cheiram como resultado de sasafrs e a casquinha, tem que saber algo mais que fazer florescer seu novelo. No est de acordo? -perguntou, com um olhar amistoso ao Ian, quem seguia a conversao com indubitvel interesse.
       -OH, sim -assegurou o moo-. A tia Claire  uma famosa curadora. Uma curandeira -disse, me olhando orgulhoso.
       -De maneira que  assim, moo? Bem, ento... -Os olhos do senhor Myers me enfocaram com interesse-. Que me matem se isto no  ter sorte! E eu que acreditava que ia ter que esperar at chegar s montanhas para procurar um chamn que me atendesse.
       -Est doente, senhor Myers? -perguntei.
       -Eu no diria doente -replicou. ergueu-se e comeou a afroux-la camisa de pele de ante-. No  gonorria, nem pstulas francesas, porque j as vi. -Enquanto falava, lutava para afroux-los cales-. Mas essa maldita coisa que de repente aparece justo detrs de meu Pelotas...  muito incmodo, como se imaginar, embora s me di quando monto a cavalo. Importaria-lhe jogar uma olhada e me dizer o que  o que posso fazer?
       -Ah... -pinjente, com um olhar se desesperada para o Fergus.
       -Posso ter o prazer de conhecer senhor John Myers? -perguntou uma educada voz com acento escocs.
       O senhor Myers deixou de lutar com sua roupa e olhou de forma inquisitiva.
       -No posso dizer se for um prazer para voc, senhor -respondeu com amabilidade-. Mas se busca ao Myers, j o encontrou.
       Jamie se deteve junto a mim. Colocando-se estrategicamente entre os dois, fez uma inclinao formal, com o chapu baixo o brao.
       -James Fraser, para lhe servir, senhor. Disseram-me que lhe mencionasse o nome do Hctor Cameron como apresentao.
       O senhor Myers observou a cabea ruiva do Jamie com grande interesse.
       -Escocs, verdade? Das montanhas?
       -Sou escocs, sim, das terras altas.
       - parente do velho Hctor Cameron?
       - meu tio, por casamento, senhor, embora no tenho o gosto de conhec-lo. Disseram-me que voc o conhecia e que aceitaria nos guiar at sua plantao.
       Os dois homens se examinavam de ps a cabea, considerando o porte, a roupa e as armas.
       -Seu tio, n? E sabe ele que voc vai para ali?
       Jamie sacudiu a cabea.
       -No sei. Enviei-lhe uma carta desde a Georgia faz um ms, mas no h forma de saber se a recebeu.
       -No acredito -disse Myers, pensativo-. J conheci a sua esposa.  seu filho?
       Fez um gesto para o Ian.
       -Meu sobrinho, Ian. Meu filho adotivo, Fergus. -Jamie fez as apresentaes com um gesto da mo-. E um amigo, Duncan Innes, que logo estar conosco.
       Myers assentiu com um grunhido e se decidiu.
       -Bem, posso lhes conduzir at a plantao do Cameron sem problemas. Mas queria estar seguro de que era da famlia, embora, como o moo, tem um forte parecido com a viva Cameron.
       Jamie ergueu a cabea sbitamente.
       -A viva Cameron?
       -O velho Hctor teve uma enfermidade na garganta e morreu o inverno passado. No acredito que receba correspondncia onde quer que esteja agora.
       E deixando o tema dos Cameron por assuntos de maior interesse pessoal, Myers voltou a ocupar-se de seus cales.
       -Uma grande coisa prpura -explicou-me-. Quase to grande como uma de meu Pelotas. No acreditar que, de repente, cresceu-me outra, no?
       -Bom, no -pinjente, me mordendo o lbio-. Realmente o duvido.
       J quase tinha desatado o cordo e a gente se detinha para nos olhar.
       -Por favor, no se incomode -pinjente-. Acredito que sei o que tem,  uma hrnia inguinal.
       - isso?
       Pareceu impressionado e nada aborrecido com a notcia.
       -Tenho que v-lo para estar segura, mas no aqui -acrescentei, apressadamente-, embora acredite que  isso.  fcil de solucionar com uma operao, mas... -Vacilei, contemplando ao colosso- Realmente no poderia... quero dizer, voc tem que estar dormido. Inconsciente. Tenho que cortar e lhe costurar de novo. Talvez, seria melhor se usasse um braguero.
       Myers se arranhou o queixo, pensativo.
       -No, isso no me soa bem. Cortar... vocs ficaro aqui descansando antes de empreender viagem para a plantao do Cameron?
       -No muito -interveio Jamie com firmeza-. Queramos ir rio acima, para a propriedade de minha tia, assim que consigamos um navio.
       -Aaah! -O gigante o pensou um momento e logo assentiu com o rosto radiante-. Conheo o homem adequado para voc, senhor. Neste momento vou procurar o Josh Freeman, no Sailor's Rest. O sol ainda est alto, assim no estar to bbado como para no poder tratar de negcios.
       -Fez-me uma reverncia-. E ento, talvez sua esposa ter a bondade de me buscar naquele botequim e jogar um olhar a esta... esta molstia.
       Jamie observou ao gigante que se afastava pela rua.
       -O que passa contigo, Sassenach?
       -O que  o que passa comigo?
       -O que  o que faz que, cada homem que conhece, queira tir-los cales aos cinco minutos?
       Fergus riu pelo baixo enquanto Ian se ruborizava.
       -Bom, se voc no souber, querido -respondi-, ningum saber. Mas parece que consegui um navio. E voc, o que tem feito esta manh?
       
       Hbil como sempre, Jamie tinha encontrado um possvel comprador para as pedras. E no s isso, mas tambm tambm um convite para jantar com o governador.
       -O governador Tryon est no povo -explicou-. Em casa de um tal senhor Lillington. Esta manh falei com um comerciante chamado MacEachern, quem apresentou a um homem chamado MacLeod, quem...
       -Quem apresentou ao MacNeil, quem te levou a beber com o MacGregor, quem te falou sobre seu sobrinho Bethune...
       Jamie riu com ironia por minha brincadeira ante as relaes e parentescos dos escoceses.
       -Era o secretrio da esposa do governador -corrigiu-me- e se chama Murray.  o filho maior do Maggie, a prima de seu pai, Ian. Seu pai emigrou do Loch Linnhe depois da insurreio.
       Edwin Murray, o secretrio da esposa do governador, tinha recebido ao Jamie como a um parente (embora fora poltico) e com toda cordialidade lhe tinha conseguido um convite para aquela noite. Em realidade, ns queramos conhecer baro Penzier, um nobre alemo de boa posio que tambm assistiria a aquele jantar. O baro era um homem de fortuna e bom gosto, com fama de colecionador.
       -Bom, parece uma boa idia -pinjente, no muito segura-. Mas acredito que deveria ir sozinho. No posso ir a um jantar a casa do governador vestida assim.
       -Mas eu te quero ali, Sassenach; pode ser que necessite uma distrao.
       -Falando de distrao, quantas cervejas tomou para agradecer o convite?
       -Seis, mas ele pagou a metade. Vamos, Sassenach; o jantar  s sete e temos que encontrar algo decente que nos pr.
       -Mas no podemos gastar...
       - um investimento -afirmou Jamie-. E alm disso, o primo Edwin me adiantou um pouco a conta da venda da pedra.
       
       O vestido fazia dois anos que tinha passado de moda para o critrio cosmopolita da Jamaica, mas estava limpo, que era o principal.
       Todos os quartos de convidados da casa do senhor Lillington estavam ocupados devido  festa; enviaram a um pequeno desvo que ficava em cima das quadras e que utilizava o primo Edwin. Mas no me queixei, porque as quadras estavam muito mais limpa que a estalagem onde tnhamos deixado a nossos companheiros. A senhora Lillington, amavelmente, ocupou-se de que me dessem uma tina com gua quente e sabo perfumado. Um pouco mais importante que o mesmo vestido. Esperava no ter que voltar a ver nunca mais um pssego.
       Enquanto me arrumavam o vestido, tratei de aparecer pela janela para ver se Jamie aparecia. Mas os protestos da costureira me fizeram desistir.
       O vestido no estava mau; era de seda cor nata, muito singelo e com aplicaes nos quadris e a cintura. Com o encaixe de Bruxelas colocado nas mangas, poderia resultar adequado.
       -Senhora, necessitar algo para que no fique nu o pescoo. Se no ter peruca nem touca, no poderia ficar uma cinta no cabelo?
       -Uma cinta! -exclamei, recordando-. Sim,  uma boa idia. Procura nessa cesta e encontrar uma que pode servir.
       Entre as duas, engenhamo-nos isso para levantar meu cabelo e sujeit-lo com a cinta rosada, deixando uns cachos de cabelo sobre minhas orelhas e minha frente.
       -No fica bem, verdade? -perguntei com preocupao.
       -claro que sim, senhora! -assegurou a costureira-. Muito apropriado -disse, me olhando com rosto carrancudo-, embora deveria ficar algo para tampar a nudez do peito. No tem nenhuma jia que ficar?
       - esse o problema?
       Voltamo-nos surpreendidas para ouvir a voz do Jamie, que aparecia a cabea pela porta. Nenhuma das duas lhe tnhamos ouvido chegar. banhou-se e levava uma camisa limpa e uma gravata; e algum lhe tinha penteado uma trana e a tinha sujeito com a cinta azul de seda. Seu casaco estava escovado e lhe tinham costurado botes dourados com uma pequena flor no centro.
       -Muito bonitos -pinjente, tocando um.
       -Os aluguei ao ourives -disse-. Mas servem. Quo mesmo isto, espero.
       Tirou um leno sujo de seu bolso, que continha uma magra cadeia de ouro.
       -No tinha tempo para outra coisa -disse muito concentrado na cadeia ao redor de meu pescoo-. Mas isto est bem, no te parece?                          .
       O rubi pendurava justo no oco de meus seios, dando um tom rosado a minha pele branca.
       -Me alegro de que tenha eleito esta -pinjente, acariciando a pedra.                       .
       Jamie observou o resto de meu vestido.
       -Parece um bonito joalheiro, Sassenach. Uma boa distrao, no?. 
       deu-se a volta, fez uma reverncia e me ofereceu o brao.
       -Terei o prazer de sua companhia durante o jantar, senhora?
       
       7
       Grandes perspectivas carregadas
       de perigo
       
       Embora estava familiarizada com a boa vontade da gente do sculo XVIII na hora de comer algo que pudessem vencer fisicamente e arrastar at a mesa, no estava de acordo com a mania de apresentar pratos selvagens como se no tivessem passado pelos processos da caa e a cozinha, antes de servi-los no jantar.
       Por isso contemplava aquele grande esturjo e seus grandes olhos com uma notvel falta de apetite. Bebi outro sorvo de vinho e me voltei para meu companheiro de mesa, tratando de apartar a vista daqueles olhos saltados.
       -!Que tipo mais impertinente! -estava dizendo o senhor Stanhope-. Em meio de nosso refrigrio comeou a falar de seus hemorroides e dos torturas que lhe causava o movimento da carruagem. E para que ningum duvidasse, como prova, tirou um leno manchado de sangue. Asseguro-lhe, senhora, que acabou com meu apetite.
       Ao outro lado da mesa, Phillip Wylie fez uma careta de diverso.
       -Cuide sua conversao, Stanhope, no seja que provoque um efeito similar. -E assinalou meu prato intacto-. Devo admitir que a vulgaridade de certos companheiros  um dos perigos dos transporte pblico.
       Stanhope soprou, limpando-as miolos de sua gravata.
       - que agora no todos podem manter um chofer, em especial com os novos impostos. -Agitou, indignado, seu garfo-. Ao tabaco, ao vinho, ao brandy, muito bem. Mas aos peridicos! ouviram algo semelhante?
       -Mas agora... -disse com pacincia o primo Edwin- com a derrogao da lei das aplices...
       Stanhope agarrou um dos pequenos caranguejos da bandeja e o agitou acusadoramente para o Edwin.
       -Libera-te de um imposto e aparece outro para ocupar seu lugar.
       -Voc chegou recentemente das Antilhas, senhora Fraser? -O baro Penzier, do outro lado, aproveitou a oportunidade para intervir-. Duvido que esteja familiarizada com estes assuntos provincianos, ou que lhe interessem -acrescentou com um gesto de benevolncia.
       -Todo mundo est interessado pelos impostos -pinjente, me voltando ligeiramente para obter um melhor efeito com meu decote-. Ou no acredita que os impostos so o pagamento por uma sociedade civilizada? Embora depois de ter ouvido o senhor Stanhope... -fiz um gesto para o outro lado- talvez ele opine que o nvel de civilizao no est  altura da quantidade de impostos.
       -Ja, ja! -Stanhope se afogou de risada-. Muito bom! No est  altura de... ja, ja, no, certamente que no!
       Phillip Wylie me dirigiu um olhar de reconhecimento.
       -Procure no ser to graciosa, senhora Fraser -disse-. Poderia causar a morte do pobre Stanhope.
       -Ah, e qual  a percentagem atual de impostos? -perguntei para desviar a ateno do Stanhope.
       -Tendo em conta os indiretos, diria que pode chegar a dois por cento das rendas totais, se se inclurem os impostos dos escravos. Some impostos sobre a terra e a colheita e possivelmente um pouco mais.
       -Dois por cento! -Stanhope se engasgou; golpeando o peito exclamou-: Injusto! Simplesmente perverso!
       Com vividas lembranas dos ltimos formulrios de Fazenda que tinha assinado, estive de acordo em que dois por cento constitua um verdadeiro ultraje; perguntava-me que se feito do ardente esprito dos contribuintes norte-americanos durante aquele intermdio de duzentos anos.
       -Mas talvez deveramos trocar de tema -disse ao ver que as cabeas comeavam a voltar-se em nossa direo da outra ponta da mesa-. depois de tudo, falar de impostos em casa do governador  como mencionar a corda em casa do enforcado, no  assim?
       Naquele momento, Stanhope voltou a engasgar-se com um caranguejo, mas por sorte no necessitou de minha assistncia.
       -Algum mencionou os peridicos -comentei, uma vez que Stanhope se recuperou-. Faz to pouco tempo que chegamos, que no vi nenhum. imprime-se algum peridico regular no Wilmington?
       alm de dar tempo ao Stanhope para que se repusera, tinha outros motivos para fazer a pergunta. Entre as poucas posses que Jamie tinha, figurava uma imprensa, em depsito no Edimburgo.
       Resultou que no Wilmington havia duas imprensas, mas s uma delas, a cargo de um tal senhor Jonathan Gillette, editava regularmente um peridico.
       -E muito em breve pode que deixe de ser regular -interveio com tom sombrio Stanhope-. Ouvi dizer que o senhor Gillette recebeu um aviso do Comit de Segurana que...
       -Tem um interesse especial, senhora Fraser? -interrogou cortesmente Wylie, lanando um rpido olhar a seu amigo-. ouvi que seu marido tem alguma conexo no Edimburgo com o negcio da imprensa.
       -Bom, sim -pinjente, surpreendida de que soubesse tanto sobre ns-. Jamie era dono de uma imprensa, mas no se dedicava aos peridicos; imprimia livros, folhetos e coisas pelo estilo.
       -Ento, seu marido no tinha tendncias polticas? Muito freqentemente, os impressores descobrem que suas ferramentas terminam subordinadas a aqueles que querem expressar suas paixes no papel. Embora no necessariamente essas paixes sejam compartilhadas pelo impressor.
       Soaram numerosos sinos de alarme. Wylie sabia, em realidade, algo sobre as conexes polticas do Jamie no Edimburgo (a maioria das quais tinham sido totalmente sediciosas), ou era s uma inocente conversao de sobremesa?
       Jamie, na outra ponta da mesa, tinha ouvido seu nome e me sorriu antes de continuar sua conversao com o governador, j que o tinham sentado a sua direita. No sabia se situao se devia ao senhor Lillington, quem estava  esquerda do governador e seguia a conversao com a inteligente expresso de um co, ou  primo Edwin, sentado entre o Phillip Wylie e Judith, a irm do Wylie, justo frente a mim.
       -Ah um comerciante -comento Judith com tom significativo-. Sorriu-me, cuidando de no expor seus dentes, bastante deteriorados-. Mas como? -Fez um gesto, comparando a cinta de meu cabelo com sua elaborada peruca-.  a moda do Edimburgo, senhora Fraser? O que... original.
       Seu irmo a olhou com desgosto.
       -Tenho entendido que o senhor Fraser  o sobrinho da senhora Cameron, do River Run -disse afablemente-. Estou bem informado, senhora Fraser?
       O baro, to aborrecido com o tema dos peridicos como com o dos impostos, animou-se para ouvir o sobrenome Cameron.
       -Do River Run? -perguntou-. Tem parentesco com a senhora Yocasta Cameron?
       - tia de meu marido -respondi-. A conhece?
       -Em efeito! Uma mulher encantadora! -Um amplo sorriso levantou as bochechas pendentes do baro-. Faz muitos anos que sou um apreciado amigo da senhora Cameron e de seu marido, desgraadamente falecido.
       O baro se lanou a uma entusiasta descrio das maravilhas do River Run e eu aproveitei para aceitar um bolo de pescado com ostras e lagosta, em um molho cremoso. O senhor Lillington no tinha regulado esforos para impressionar ao governador.
       Enquanto me jogava para trs para permitir que me servissem mais molho, adverti o olhar do Judith Wylie, quem no ocultava seu desgosto para mim. Sorri-lhe afablemente, mostrando todos meus dentes, em excelente estado, e me voltei para o baro com renovada confiana.
       -Que pedra mais formosa, senhora Fraser! Permite-me que a veja de perto?
       O baro se inclinou para mim, pondo seus dedos gordinhos entre meus seios.
       -Claro -disse com presteza e desabotoei a cadeia, deixando cair o rubi em sua palma mida.
       O baro pareceu um pouco frustrado ao no poder examinar a pedra in situ, mas levantou a mo e entortou os olhos com a atitude de um perito, o qual era certo, j que tirou de seu bolso uma lupa de joalheiro e umas lentes de aumento.
       -Verdadeiramente precioso -murmurou, movendo a pedra em sua mo.
       Para muitas coisas no confiava no Geillis Duncan, mas estava segura de seu bom gosto pelas jias. "Tem que ser uma pedra de primeira classe -havia-me dito para me explicar sua teoria da viagem atravs do tempo via pedras preciosas-. Grande e totalmente perfeita."
       O rubi era grande,  certo. E, quanto a sua perfeio, no tinha dvidas. Se Geilie tinha crdulo naquela pedra para viajar at o futuro, era muito provvel que pudesse nos levar at o Cross Creek.
       
       Fechei a porta da habitao do primo Edwin e me apoiei nela, deixando que minha mandbula se relaxasse, sem ter que sorrir. Agora podia me tirar o vestido e me liberar do espartilho e os sapatos.
       Paz, solido, nudez e silncio. No necessitava nada mais para fazer que minha felicidade fora completa, salvo um pouco de ar fresco. Assim abri a janela.
       Fora, os hspedes comeavam a retirar-se; uma fila de carruagens os aguardavam no caminho de entrada. Chegavam-me fragmentos de despedidas, conversaes e risadas.
       -... muito inteligente, parece-me -chegou a voz educada do Wylie.
       -Claro que  inteligente!
       Os tons agudos de sua irm demonstravam o valor que lhe dava  inteligncia como atributo social.
       -Bom, a inteligncia em uma mulher pode tolerar-se, querida, sempre que tambm seja agradvel  vista. Pela mesma razo, a uma mulher bela lhe pode perdoar a falta de inteligncia sempre que tiver bastante sentido comum para fechar a boca e ocult-lo.
       Embora a senhorita Wylie no poderia ser acusada de inteligente, possua a suficiente sensibilidade para dar-se conta da ironia. Soltou um bufido muito pouco adequado para uma dama. 
       -Tem mil anos -respondeu-. Muito agradvel para contempl-la. Embora deva dizer que a bagatela que levava no pescoo era realmente bonita.
       -Seguro -interveio uma voz profunda que reconheci como pertencente ao Stanhope-. Embora em minha opinio, o que chamava a ateno era o engaste, mais que a jia.
       -Engaste? -A senhorita Wylie parecia desconcertada-. No tinha nenhum engaste; a jia pendurava em seu peito e j est. 
       -Seriamente? -disse imperturbvel Stanhope-. No me tinha dado conta.
       Wylie soltou uma gargalhada que cortou bruscamente ante a apario de outros convidados.
       -Bom, se voc no o fez, houve outros que sim o fizeram.
       Vamos, ali est a carruagem.
       Toquei outra vez o rubi, observando a marcha dos cavalos. Sim, outros o tinham notado; ainda sentia os olhos do baro em meu peito e pensei que seus interesses foram alm das pedras preciosas.
       Ficava uma s carruagem, com o condutor esperando ao lado dos cavalos. Uns vinte minutos mais tarde seu ocupante, o baro, saiu dando as boa noite.
       Acreditei que Jamie subiria em seguida, mas os minutos passavam sem que ouvisse seus passos pela escada. Olhei a cama, mas no tinha vontades de me deitar. Finalmente, voltei a me pr o vestido, sem me incomodar pelas meias e os sapatos.
       Sa da habitao, baixei silenciosamente e atravessei a galeria coberta.
       Podia ouvir o murmrio de vozes masculinas enquanto passava nas pontas dos ps; a profunda voz do Jamie, com seu acento escocs, alternava com o tom ingls do governador, com a ntima cadncia de uma conversao privada. Detive-me perto da porta. De ali podia ver o governador de costas a mim, acendendo um charuto.
       Se Jamie me tinha visto, no o demonstrou. Seu rosto tinha sua habitual expresso de tranqilidade e bom humor; por sua postura me dava conta de que estava depravado e em paz. Senti-me bem ao ver que tinha obtido o que queria.
       -Um lugar chamado River Run -estava-lhe dizendo ao governador-. Acima nas colinas, passado Cross Creek.
       -Conheo o lugar -observou o governador Tryon, um pouco surpreso-. Minha esposa e eu passamos vrios dias no Cross Creek o ano passado. Fizemos uma viagem pela colnia quando me fiz cargo de seu governo. River Run no est no povo, acredito que mas bem est a metade do caminho das montanhas.
       Jamie sorriu e apurou seu brandy.
       -Sim, claro,  que minha famlia  das montanhas de Esccia, por isso nelas nos sentimos como em nosso lar.
       -J que estamos sozinhos, senhor Fraser, h algo que queria lhe propor. um pouco mais?
       Sem esperar resposta, serve mais brandy.
       -Muito obrigado, senhor.
       -O jovem Edwin me disse que acaba de chegar s colnias. Est familiarizado com as condies da zona?
       Jamie se encolheu de ombros.
       -tratei que me inteirar de tudo o que pude, senhor -respondeu-. A que condies se refere?
       -Carolina do Norte  uma terra de considervel riqueza -respondeu o governador- e, entretanto, no alcanou o mesmo nvel de prosperidade que nossos vizinhos. Isto se deve, principalmente,  falta de trabalhadores que aproveitem estas oportunidades.
       Como ver, no temos um grande porto, assim que os escravos devem trazer-se por terra a um elevado preo, desde a Carolina do Sul ou Virginia, e no podemos sonhar em competir com Boston ou Filadelfa em questo de contratos de trabalho.  poltica da Coroa e tambm minha, senhor Fraser, respirar os assentamentos em terras da Carolina do Norte por boas famlias, trabalhadoras e inteligentes, para fomentar a prosperidade e segurana de todos. Esta poltica foi benta com o xito; durante os ltimos trinta anos uma grande quantidade de montanheses de Esccia, com suas famlias, foram induzidos a afincarse aqui. Quando cheguei, assombrei-me ao encontrar os bancos de Cape Fear River cheios do MacNeill, Buchanan, Graham e Campbell.
       O governador deu outra chupada a seu puro.
       -Entretanto, ainda fica uma considervel quantidade de terra muito boa perto da montanha. Est um pouco afastada, mas como voc dizia, para homens acostumados s montanhas de Esccia...                             
       -Tinha ouvido algo sobre essas doaes de terras, senhor -interrompeu Jamie- Mas no  obrigatrio que os solicitantes sejam homens brancos, protestantes e de uns trinta anos de idade?
       -Esses so os trminos oficiais da Ata, sim. 
       O senhor Tryon se voltou e vi sua expresso; era a de um pescador quando nota que morderam a isca de peixe.
       -A oferta  muito interessante -respondeu formalmente Jamie-. Entretanto, devo assinalar que no sou protestante, nem tampouco meus parentes.
       O governador fez um gesto de desculpa e arqueou uma sobrancelha.
       -Tampouco  negro nem judeu. vou falar lhe de cavalheiro a cavalheiro, pode ser? Com toda sinceridade, senhor Fraser, por um lado est a lei e por outro a armadilha. -Levantou sua taa com um amplo sorriso-. Estou convencido de que o compreende to bem como eu.
       -Possivelmente melhor -murmurou Jamie com um sorriso educado.
       -Os dois nos compreendemos, senhor Fraser -disse com satisfao.
       Jamie inclinou ligeiramente a cabea.
       -Ento, no surgiro dificuldades com as qualificaes daqueles que queiram aceitar sua oferta?
       -Absolutamente -respondeu o governador deixando a taa com fora-. O nico necessrio  que sejam homens ss e capazes de trabalhar a terra, no peo nada mais. E o que no se pergunta no precisa dizer-se, no?
       -No todos os que aconteceram a insurreio tiveram minha sorte, Excelncia -disse-. Meu filho adotivo sofreu a perda de uma mo e outro de meus homens perdeu um brao. Mas so homens de bom carter e muito trabalhadores. Eu no poderia aceitar uma proposta que lhes deixasse fora.
       O governador fez um gesto tirando importncia ao assunto.
       -Sempre que puderem ganhar o po e no sejam uma carga para a comunidade, sero bem-vindos. Ah, e j que mencionou aos jacobitas, esses homens devero jurar um voto de lealdade  Coroa, se  que no o tm feito j. No quero lhe recordar acontecidas indignidades, nem ofender sua honra. Mas compreender que tenho o dever de perguntar-lhe Jamie sorriu, embora sem alegria.
       -E suponho que o meu  lhe responder. Sim, sou um jacobita perdoado. E sim, fiz o juramento, como outros, que pagaram esse aprecio por suas vidas.
       Bruscamente deixou sua taa quase enche, ficou em p e saudou com uma inclinao.
       -J  muito tarde, Excelncia. Devo lhe rogar que me perdoe.
       -boa noite, senhor Fraser. Considerar minha oferta?
       No quis esperar a resposta, no precisava faz-lo. Jaime ia considerar a oferta do governador. E que oferta! Recuperar o perdido em Esccia e mais ainda. Jamie no tinha nascido latifundirio, mas a morte de seu irmo maior o fez herdeiro do Lallybroch aos oito anos e o tinham educado para que fora responsvel pela propriedade, para ocupar-se da terra e do bem-estar de seus habitantes. Logo apareceu Carlos Estuardo e sua louca marcha triunfal, uma cruzada que levou a seus seguidores  morte e  destruio.
       E agora... recuperar tudo. Novas terras para o cultivo e a caa, e um grupo de famlias baixo seu amparo.
       No era a excitao o que fazia que minhas mos suassem e meu corao pulsasse to depressa; era o medo. Porque para conseguir homens, Jamie teria que retornar a Esccia. E em minha mente estava a imagem da lpide naquele cemitrio escocs. James Alexander Malcolm MACKENZIE FRASER, dizia e debaixo, meu nome: "Amado marido do Claire".
       Tinha sido enterrado em Esccia. Mas quando a vi, duzentos anos depois, no havia data na pedra.
       -Ainda no -sussurrei, apertando os punhos-. Tive-o muito pouco tempo. Por favor, ainda no!
       A modo de resposta, a porta se abriu e James Alexander Malcom MacKenzie Fraser entrou levando uma vela.
       - muito rpida descala, Sassenach -disse, sonriendo-. Algum dia te ensinarei a caar; seguro que o far muito bem.
       No me desculpei por espiar, antes bem me apressei a lhe ajudar a tir-la roupa.
       -Melhor apaga a vela -indiquei-. Ou os mosquitos lhe comero.
       Cheirava a brandy e a tabaco, misturado com perfume de flores. Tinha estado caminhando pelo jardim. O fazia quando estava nervoso ou deprimido e agora no parecia deprimido.
       Suspirou e se relaxou quando lhe tirei a casaca.
       -No sei como podem vestir-se assim, com este calor. Os selvagens parecem mais sensatos, vendo a pouca roupa que usam.
       -E alm disso  muito mais barato, embora menos esttico. Imagina ao baro Penzier com um tanga. -Jamie riu, enquanto se tirava a camisa-. Voc, em troca... -Sentei-me no bordo da janela, admirando a paisagem enquanto se tirava os cales-. E falando do baro...
       -Trezentas libras esterlinas -respondeu, com soma satisfao. inclinou-se para me beijar-. Em grande parte,  devido a ti, Sassenach.
       -Por meu valor como um atrativo adorno? -perguntei com secura.
       -No -respondeu com rapidez-. Por manter ocupados durante o jantar ao Wylie e seus amigos enquanto eu falava com o governador. E quanto ao de adorno... Stanhope quase deixa seus olhos pegos a seu decote, o muito asqueroso; ia dizer lhe...
       -A discrio  a melhor parte do valor -pinjente, me pondo em p para beij-lo-. Embora no  algo que os escoceses tenham em muita considerao.
       -Ah, bom, meu av, o velho Simn, suponho que se poderia dizer que foi discreto ao final.
       No falava dos jacobitas, nem da insurreio, mas a conversao com o governador havia lhe trazida lembranas. Seu rosto estava em calma, mas seu olhar parecia perdida em outro tempo. No passado?, perguntei-me. Ou no futuro?
       
       
       
       8
       Homem de fortuna
       
       -Detesto os navios!
       Com essa sincera despedida ressonando em meus ouvidos, afastamo-nos pelas guas do porto do Wilmington.
       Depois de dois dias de compras e preparativos, tnhamo-nos posto em caminho para o Cross Creek. Com o dinheiro obtido pela venda do rubi, no houve necessidade de vender os cavalos; Duncan viajava no carro com as coisas mais pesadas e com o Myers de companheiro para gui-lo, e o resto fomos passageiros do capito Freeman a bordo do Sally Ann, em uma viagem mais rpida e confortvel.
       Apesar de estar um pouco apertados, sentia-me contente. Eu gostava de estar na gua, longe do canto de sereia do governador, embora fora por pouco tempo.
       Jamie no estava contente.
       -Est muito tranqilo -comentei-. Talvez no te enjoe.
       Observou a gua cor chocolate com ar receoso e fechou os olhos quando outro navio levantou uma onda que se chocou contra nosso flanco.
       -Talvez no -disse com um tom que indicava que era uma possibilidade remota.
       -Quer as agulhas?  melhor que lhe ponha isso antes de que vomite.
       estremeceu-se e abriu os olhos.
       -No -respondeu-. Me fale, Sassenach, afasta minha mente de meu estmago, quer?
       -Est bem -disse com atitude servial-. Como  sua tia Yocasta?
       -No a vejo desde que tinha dois anos, assim que minhas lembranas no so muito confiveis -respondeu distrado-. Crie que esse negro ser capaz de pilotar o navio? Talvez deva ir ajudar o.
       -Talvez no -pinjente, observando a balsa que se aproximava, aumentando a preocupao do Jamie-. Parece conhecer seu trabalho. Deixa-o tranqilo. Ento, no sabe muito sobre sua tia?
       -No- casou-se com um Cameron do Erracht e deixou Leoch um ano antes de que meus pais se casassem.
       No me olhava, seguia vigiando a balsa.
       -E alguma vez foi visita o Lallybroch?
       -Bom, John Cameron morreu de gripe e ela se casou com sua primo, Hugh Cameron do Aberfeldy, e ento...
       Fechou os olhos enquanto passava a balsa e nos saudavam gritos. Cilindro, com as patas dianteiras sobre o teto da cabine, ladrou at que Ian lhe deu uma palmada e lhe ordenou que calasse.
       Jamie abriu um olho e ao ver que o perigo tinha passado abriu o outro e se relaxou.
       -Sim, bom, Hugh morreu em uma caada e ento ela se casou com o Hctor Mor Cameron, do Loch Eilean.
       -Parece ter um gosto especial pelos Cameron -pinjente fascinada-. Tm algo especial, alm de ser propensos aos acidentes?
       -Suponho que tm facilidade de palavra -respondeu com uma sbita careta zombadora-. Os Cameron so poetas e brincalhes. Algumas vezes, as duas coisas.
       -Hctor Cameron era um poeta ou um palhao?
       -Agora nenhuma das duas coisas. Est morto, recorda?
       Enquanto falava, acariciava-me a nuca.
       - maravilhoso -disse com um suspiro de satisfao-. O que me est fazendo, no que seu tio tenha morrido. No te detenha. Como chegou a Carolina do Norte?
       - uma mulher muito escandalosa, Sassenach -disse, sussurrando a meu ouvido-. Sussurras igual quando te esfrego a nuca que quando... -Empurrou sua plvis contra mim, em um gesto que no necessitava explicao- Mmm?
       -Mmmm -respondi, lhe dando uma discreta patada no tornozelo-. Bem, se algum escutar detrs da porta, supor que me est esfregando a nuca, que  quo nico far at que saiamos daqui. Agora, me fale de seu defunto tio.
       Seus dedos seguiam esfregando minhas costas enquanto recordava outra parte da histria de sua famlia. Ao menos, sua mente estava longe de seu estmago.
       Felizmente, e tambm por ser mais perspicaz ou mais cnico que seu famoso parente, Hctor Mor Cameron se preparou para a possibilidade do desastre dos Estuardo. Escapou ileso do Culloden e retornou a casa, onde rapidamente carregou a sua esposa, serventes e demais pertences em uma carruagem e partiram para o Edimburgo. Ali se embarcaram para a Carolina do Norte, escapando por muito pouco da perseguio da Coroa.
       Uma vez no Novo Mundo, Hctor comprou uma grande quantidade de terra, despovoou o bosque, construiu uma casa e uma serraria, comprou escravos para que trabalhassem, fez plantar tabaco e (sem dvida por causa de tanta indstria) sucumbiu a uma enfermidade da garganta, aos setenta e trs anos.
       Era evidente que Yocasta MacKenzie Cameron Cameron Cameron, conforme havia dito Myers, declinou voltar a casar-se e permanecia solteira como a senhora do River Run.
       -Crie que o mensageiro com sua carta chegar antes que ns?
       -Chegar antes que ns embora v de joelhos -disse Ian, aparecendo sbitamente-. Demoraremos semanas se seguirmos assim. Disse-te que era melhor ir por terra, tio Jamie.
       -No se preocupe, Ian -acalmou-lhe Jamie, deixando meu pescoo por um momento-. J ter tempo para ajudar. Espero que antes da noite possamos estar no Cross Creek.
       Ian lhe dirigiu um olhar rancoroso e foi se incomodar ao capito com perguntas sobre peles vermelhas e animais selvagens.
       -Obrigado pela massagem -pinjente, olhando ao Jamie.
       -Deixarei-te que me devolva o favor, Sassenach, quando anochezca.
       - claro que sim. -Agitei minhas pestanas com paquera-. E o que tenho que massagear quando anochezca?
       -Quando anochezca? -perguntou Ian antes de que seu tio pudesse responder-. O que acontecer ento?
       -Que te usarei como isca para os peixes -disse seu tio-. Pelo amor de Deus, no pode te estar aquieto, Ian? v dormir ao sol, como esse animal;  um co sensato.
       -Dormir? -Ian olhou assombrado a seu tio-, Dormir?
       - o que faz a gente normal quando est cansada -pinjente com um bocejo. 
       -Mas no estou cansado, tia! -exclamou.
       Jamie observou a seu sobrinho.
       -J veremos o que diz depois de um turno com a vara. Enquanto isso, talvez encontre algo para ocupar sua mente. Espera um pouco... -disse desaparecendo na cabine.
       -Joder, que calor faz! -exclamou Ian, abanicndose-. O que faz tio Jamie?
       -S Deus sabe -respondi.
       Jamie tinha subido a bordo uma grande cesta, mas no havia dito a ningum o que continha. A noite anterior, enquanto eu dormia, tinha estado jogando s cartas. Supunha que tinha ganho alguns objetos que no quereria mostrar, para evitar as brincadeiras do Ian.
       Ian tinha razo, fazia calor. Dirigi-me para a proa, onde Fergus estava com os braos cruzados. Parecia um magnfico mascarn.
       -Ah, minha senhora! -Recebeu-me com um amplo sorriso-. No  este um pas esplndido? Milord me disse que qualquer homem pode reclamar cinqenta acres, sempre que construir uma casa e prometa trabalhar a terra durante dez anos. Imagine, cinqenta acres.
       -Bom, sim -pinjente, um pouco insegura-. Mas acredito que dever escolher sua terra com cuidado. Algumas zonas no so muito boas para o cultivo.
       Fergus no via as dificuldades. Seus olhos brilhavam, sonhadores.
       -Talvez possa construir uma pequena casa -murmurou para si-. Assim enviaria a procurar o Marsali e a criatura na primavera.
       reuniu-se conosco na Georgia, deixando a seu jovem algema grvida na Jamaica, aos cuidados de uns amigos.
       -Est seguro de que no quer retornar a Jamaica para estar com o Marsali, Fergus?
       Negou com a cabea com determinao.
       -Milord poderia me necessitar -explicou-. E serei mais til aqui. Os meninos so assunto de mulheres. Alm disso, quem sabe que perigos nos esperam neste lugar desconhecido?
       Como resposta a sua retrica pergunta, as gaivotas surgiram como uma nuvem, voando sobre o rio e revelando o objeto de seu apetite.
       por cima do fluxo lamacento flutuava a figura de um homem, sujeito a um poste por uma cadeia que lhe rodeava o peito, ou o que tinha sido seu peito.
       junto a mim, Fergus murmurou em francs um pouco muito obsceno.
       -Um pirata -comentou lacnicamente o capito Freeman e lanou ao rio um escupitajo de tabaco-. Quando no os levam ao Charleston para pendur-los, atam-nos a uma estaca com a mar baixa e deixam que o rio os leve.
       -H... h muitos?
       Ian tambm o tinha visto e, embora j era grande para agarrar-se de minha mo, aproximou-se com seu rosto torrado repentinamente plido.
       -J no h muitos. A Marinha tem feito um bom trabalho com eles.
       -Olhe!
       Ian, esquecendo sua dignidade, pendurou-se de meu brao. Havia movimento perto da borda e vimos o que tinha espantado aos pssaros.
       Uma forma escamosa, de uns dois metros de comprimento, deslizava-se sobre a gua, abrindo um sulco no barro.
       - um crocodilo -disse Fergus e, com desgosto, fez o gesto dos chifres.
       -No, no acredito -comentou Jamie a minhas costas.
       Voltei-me; estava sobre o teto da cabine com um livro aberto na mo.
       -Parece-me que  um jacar. Aqui diz que comem carnia, no carne fresca. Quando apanham um homem ou uma ovelha, colocam a vtima na gua at afog-la, logo a arrastam at sua toca e a deixam at que se apodrece; lhes gosta assim. Como  lgico -acrescentou com um olhar sombrio  borda-, alguns tm a sorte de encontrar a comida preparada.
       -Onde conseguiu esse livro? -perguntei sem apartar a vista da estaca.
       -Jamie me alcanou isso.
       -Deu-me isso o governador. Disse que podia resultar interessante para nossa viagem.
       Olhei o ttulo do livro: Histria natural da Carolina do Norte.
       -Ah  o mais asqueroso que vi em minha vida! -exclamou Ian, observando horrorizado a cena da borda.
       -Interessante -repeti, com os olhos muito fixos no livro-. Sim, espero que o seja.
       Fergus, impermevel a qualquer classe de remilgos, observava os avanos do rptil com interesse.
       -Um jacar? Mas  igual a um crocodilo, no?
       -Fui-dije com um calafrio, pese ao calor.
       Dava-lhe as costas  costa. J tinha visto de perto a um crocodilo nas Antilhas e no estava interessada em conhecer seus parentes.
       Olhei de esguelha ao Jamie, mas j no estava interessado nem no jacar nem no livro. Seus olhos olhavam rio acima com intensidade. Ao menos, tinha esquecido o enjo.
       
       O fluxo da mar nos alcanou uns dois quilmetros mais acima do Wilmington, acalmando os temores do Ian sobre nossa velocidade. O Cape Fear era um rio com mars e sua corrente diria levava dois teros de seu caudal quase at o Cross Creek.
       No amos necessitar a vara at que cessasse a corrente, cinco ou seis horas mais tarde. Ento poderamos ancorar, passar a noite e esperar a seguinte enjoa; ou usar a vela se o vento era propcio. A vara, tinham-me explicado, era necessria s em caso de que nos encontrssemos com bancos de areia ou em dias sem vento.
       Uma sensao de pacfica sonolncia se apoderou da embarcao. Ian e Fergus dormiam na proa enquanto Cilindro vigiava do teto. O capito e seu ajudante tinham desaparecido na pequena cabine, onde ouvia o musical som do lquido que se serviam para beber.
       Jamie tambm estava em sua cabine procurando algo em sua misteriosa cesta. Voltou com uma grande caixa de madeira nos braos.
       -O que  isso? -perguntei, acariciando a caixa.
       -S um pequeno presente. -No me olhava, mas tinha as orelhas tintas-. Abre-a, quer?
       Era uma caixa pesada, larga e profunda, de madeira escura, com marcas que denotavam seu prolongado uso, o que no a fazia menos bela. No tinha chave e a tampa se abriu com facilidade, deixando escapar uma rajada de aroma de cnfora.
       Os instrumentos brilhavam baixo o sol, sujeitos sobre o veludo verde. Uma pequena serra, tesouras, trs escalpelos: um com a folha redonda, outro reta e o terceiro com forma de colher; uma esptula chapeada; um tenculo...
       -Jamie! -Encantada, levantei uma varinha de bano com uma bola envolta em veludo rodo. J tinha visto um antes, no Versalles, a verso do sculo XVIII de um martelo para reflexos-. Jamie! Que maravilha!
       -Voc gosta? -meneou-se, encantado.
       -eu adoro! Olhe, h mais na tampa, debaixo desta lapela... -contemplei durante um momento os tubos, parafusos e espelhos soltos, at que minha mente juntou as peas-. Um microscpio! -Toquei-o com reverencia-. minha Me. Um microscpio.
       -H mais -assinalou-. A parte dianteira se abre e h umas pequenas gavetas.
       Ali estavam, contendo entre outras coisas uma balana em miniatura com pesos de bronze, um morteiro e umas quantas botellitas de pedra e de vidro com plugue de cortia.
       -So uma preciosidade! -pinjente, agarrando o pequeno escalpelo. A madeira lustrosa da manga se ajustava a minha mo como se a tivessem esculpido a medida-. Jamie, muito obrigado!
       -Ento, voc gosta? -Suas orelhas estavam vermelhas de prazer-. Pensei que voc gostaria.
       -Pergunto a quem ter pertencido isto.
       -A mulher que me vendeu isso me disse que o dono tambm tinha deixado seu caderno; agarrei-o. Talvez esteja seu nome.
       Tirou um caderno quadrado e largo, forrado em couro negro.
       -Como na Frana tinha um, pensei que poderia quer-lo -explicou-. Naquele fazia desenhos e tomava notas do que via no hospital. Tem pginas escritas, mas h muitas em branco.
       Abri-o; na primeira pgina estava escrito o nome: "Doutor Daniel Rawlings".
       -O que lhe ter acontecido ao doutor Rawlings? Disse-te algo a mulher da caixa?
       Jamie assentiu.
       -O mdico ficou em sua casa uma s noite. Disse que era da Virginia e que estava procurando um homem, que ela acredita que se chamava Garver. Aquela noite, o mdico saiu depois de jantar e j no retornou.
       Olhei-lhe assombrada.
       -No retornou? E ela no soube o que lhe tinha acontecido?
       Jamie sacudiu a cabea, afastando uma nuvem de mosquitos.
       -No. foi ver o delegado e ao juiz; o oficial o esteve procurando, mas no encontrou nem rastro dele. Buscaram-no durante uma semana e logo abandonaram a busca. Como no sabiam de que povo da Virginia era, tampouco puderam procurar mais  frente.
       -Que coisa mais estranha. E quando desapareceu?
       -Faz um ano. -Olhou-me, um pouco ansioso-, Importa-te? Refiro-me a utilizar suas coisas.
       -Claro que no. Se fosse eu, quereria que as usasse outra pessoa. -Agarrei sua mo e a apertei sonriendo-.  um presente maravilhoso. Onde o encontrou?
       Ento, devolveu-me o sorriso.
       -Vi a caixa quando fui visitar ourives. Tinha-a a esposa de este. Quando retornei para comprar alguma jia, a mulher comeou a me ensinar objetos, conversamos e me falou do mdico Y...
       encolheu-se de ombros.
       -por que queria comprar uma jia? -olhei-lhe intrigada-. Ah. Foi haverenviado todo esse dinheiro ao Laoghaire? No me importou, j lhe disse isso. 
       Desde bastante m vontade, tinha enviado uma parte importante do dinheiro da venda da pedra a Esccia. Era em pagamento da promessa feita ao Laoghaire MacKenzie (malditos sejam seus olhos) Fraser, com quem Jamie se casou pressionado por sua irm acreditando que, embora eu no estava morta, no ia retornar nunca. Minha ressurreio tinha causado toda classe de complicaes e Laoghaire era uma das principais. .
       -Sim,  o que disse -respondeu com cinismo.
       -Bom, quis dizer mais ou menos. -E ri-. No podia deixar que essa horrvel mulher morrera de fome, por mais tentadora que seja essa possibilidade.
       -No, no quereria o ter sobre minha conscincia. Mas esse no era o motivo de que queria comprar um presente.
       -Qual era, ento?
       A caixa era um peso agradvel sobre meus joelhos e tocar sua madeira um prazer. Jamie olhou aos olhos; seu cabelo parecia soltar chamas pelo reflexo dos raios do sol.
       -Hoje faz vinte e quatro anos que me casei contigo, Sassenach -disse brandamente-. Espero que no tenha motivo para lament-lo.
       
       A borda do rio estava bordeada por plantaes desde o Wilmington at o Cross Creek. Tambm havia terrenos boscosos e, cada pouco, pequenos embarcaderos de madeira mdio escondidos pela vegetao.
       Despertei pouco antes do amanhecer. Jamie, ao me mover, estirou-se mdio dormido e me aproximou de seu corpo.
       -Detenha -pinjente apartando suas mos-. Recorda onde estamos!
       Podia ouvir os gritos e latidos do Ian e Cilindro indo e vindo, assim como os rudos procedentes da cabine anunciando a iminente apario do capito Freeman.
       -Ah -disse Jamie, saindo do sonho-. Ah, sim.  uma lstima.
       incorporou-se, agarrou meus seios entre suas mos e se estirou voluptuosamente para mim, me dando uma detalhada idia do que me estava perdendo.
       
       Enquanto desfrutava de do sol da tarde folheando o caderno do doutor Rawlings, repleto de notas divertidas, instrutivas surpreendentes, ouvia a voz do Jamie lendo em grego a seu sobrinho.          
       Ao aceitar a presena do Ian, Jamie se tinha feito cargo de sua educao. Enquanto viajvamos, procurava os momentos de descanso para lhe ensinar os conhecimentos bsicos da gramtica grega e latina e melhorar seus conhecimentos de matemtica e francesa.
       Ian tinha a mesma facilidade que seu tio para as matemtica mas no referente a idiomas no era o mesmo.
       Jamie tinha uma capacidade natural para aprender idiomas e dialetos. Alm disso, tinha aprendido os clssicos na Universidade de Paris e, embora no sempre estava de acordo com alguns dos filsofos clssicos, considerava o Homero e ao Virgilio como seus amigos pessoais.
       Ian falava galico e ingls desde menino e uma espcie de patois francs aprendido do Fergus, pensando que isso era mais que suficiente para suas necessidades. Realmente seu repertrio de palavras malsoantes em seis ou sete idiomas era impressionante.
       Jamie terminou de ler a passagem em grego e, com um suspiro claramente audvel, indicou ao Ian que agarrasse o livro de latim que lhe tinha emprestado o governador Tryon. Como no recitavam, pude me concentrar nos apontamentos do caderno e me zangar, no pela primeira vez, ante um mal diagnstico de uma enfermidade heptica.
       Absorta na leitura, ia ouvindo de tanto em tanto os intentos do Ian, as correes do Jamie e sua crescente impacincia.
       A fascinante descrio da amputao da mo de um homem ferido por um disparo de pistola foi interrompida bruscamente pelo Jamie, que devia ter chegado ao limite de sua pacincia.
       -Ian, seu latim envergonharia a um co! Quanto ao grego, seria incapaz de diferenciar a gua do vinho!
       -Se eles o beberem, no  gua -murmurou Ian com ar de rebeldia.
       Fechei o caderno e me apressei a me levantar. Era provvel que necessitassem meus servios como juiz.
       -Se, bom, mas no me importa muito...
       -Isso, no te importa! Essa  a verdadeira lstima, nem sequer tem a gentileza de te envergonhar de sua ignorncia!
       Apareci a cabea e vi o Jamie ardendo de indignao e ao Ian com ar confundido.  lombriga, o jovem tossiu e se esclareceu garganta.
       -Bom, tio Jamie, se tivesse sabido que a vergonha ajudava, me teria esforado por me ruborizar.
       Tinha tal cara de arrependimento que no pude evitar rir. Jamie se voltou e  lombriga se acalmou um pouco.
       -Assim no ajuda, Sassenach. Voc estudou latim, no? Talvez deveria lhe ensinar.
       Neguei com a cabea.
       -Tudo o que lembrana  Arma virumque grisalho. -Olhei de esguelha ao Ian e, sonriendo, fiz a traduo-: Com a arma deixei rgido ao co.
       Ian estalou em gargalhadas e Jamie me olhou com profunda desiluso. Logo sorriu com ironia e olhou ao Ian meneando a cabea.
       -Sinto te haver gritado, Ian. Mas tem boa cabea e eu no gostaria que a desperdiasse. meu filho, a sua idade eu estava em Paris estudando!
       Ian olhou a gua.
       -Sim -respondeu-. E a minha idade, meu pai estava na Frana combatendo.
       Surpreendeu-me um pouco, porque sabia que o pai do Ian tinha sido soldado na Frana, mas no que o tivesse sido desde to jovem e tanto tempo. O jovem Ian tinha s quinze anos.
       Jamie observou a seu sobrinho com o rosto algo carrancudo. Logo se aproximou do jovem.
       -Isso j sabia -disse Jamie com calma-. Porque o segui, quatro anos mais tarde, quando me declararam fora da lei.
       Ian levantou a vista, surpreso.
       -Estiveram juntos na Frana?
       -No FIandes. Durante mais de um ano, at que o feriram e o mandaram a casa. Brigamos no regimento de mercenrios escoceses, baixo as ordens do Fergus MAC Leodhas.
       Os olhos do Ian se aumentaram pelo interesse.
       -Por isso Fergus tem esse nome?
       Seu tio sorriu.
       -Sim, o pus em lembrana do MAC Leodhas, um bom homem e um grande soldado. Seu pai no te falou dele?
       -Nunca me disse nenhuma palavra. Soube que perdeu a perna lutando na Frana porque mame me contou isso quando o perguntei. Mas ele no me disse nada.
       -Sim bom -disse Jamie, encolhendo-se de ombros- Suponho que uma vez que se instalou no Lallybroch, quis deixar atrs o passado. E alm disso..
       Vacilou, mas Ian insistiu.
       -E alm o que, tio Jamie?
       Jamie olhou de esguelha a seu sobrinho.
       -Bom, acredito que no queria lhes entusiasmar com histrias de batalhas e soldados para que no pensassem em seguir seu caminho. Seu pai e sua me queriam algo melhor para t.
       -Essa  uma idia de mame -comentou com ar de desgosto-. Se fosse por ela, teria-me envolto em ls e mao ao cordo de seu avental.
       - assim, no? E crie que se fosse agora a casa, envolveria-te em ls e te cobriria de beijos?
       Ian abandonou seu gesto de desdm.
       -Bom, no -aceitou-. Acredito que me esfolaria.
       -Vai conhecendo as mulheres, Ian -disse Jamie, rendo-. Embora no tanto como crie.
       Ian nos olhou com cepticismo.
       -E voc, suponho que sabe tudo, no, tio Jamie?
       Arqueei uma sobrancelha, convidando a que lhe respondesse, mas Jamie se limitou a rir.
       -Um homem sbio  o que conhece os limites de seu conhecimento. Embora espere que seus limites cheguem um pouco mais longe -disse, me beijando na frente mida.
       Ian se encolheu de ombros com ar aborrecido.
       -Eu no quero chegar a ser um cavalheiro. depois de tudo, o jovem Jamie e Michael no sabem ler em grego e vai muito bem.
       Jamie se esfregou o nariz, olhando a seu sobrinho com ar pensativo.
       -O jovem Jamie tem Lallybroch. E o pequeno esta Michael trabalhando com o Jared em Paris. J esto colocados. Fizemos tudo o que pudemos por ambos, mas temamos muito pouco dinheiro para que viajassem ou estudassem quando tinham idade para isso. No havia muito para escolher, no? Mas seus pais no queriam isso para ti se podiam te dar algo melhor. Queriam que chegasse a ser um homem com conhecimentos e influncias, talvez um duine nasal.
       Era uma expresso em galico que significava "homem de fortuna". Era o que tinha sido Jamie antes da insurreio. Mas no agora.
       -Mmm. E fez o que seus pais queriam, tio Jamie? Ian observava a seu tio, porque se dava conta de que estava em terreno perigoso. Jamie tinha sido o dono do Lallybroch por direito prprio. Em um intento de salvar a propriedade de mos da Coroa, tinha-a entregue legalmente a seu sobrinho Jamie.
       -Disse-te que tinha inteligncia, no? -respondeu com secura-, Mas j que perguntas... educaram-me para duas coisas, Ian. Para me ocupar de minha terra e de minha gente. E para cuidar de minha famlia. Fiz essas coisas o melhor que pude e o seguirei fazendo o melhor que possa.
       Ian teve o bom gosto de mostrar-se envergonhado ante isso.
       -Sim, claro, eu no quis... -murmurou, agachando a cabea.
       -No te zangue, moo -interrompeu Jamie, lhe aplaudindo as costas e sonriendo burlonamente-. Pelo bem de sua me, chegar a ser algum embora ambos morramos no intento. E agora acredito que  meu turno com a vara.
       Olhou para onde o marinheiro negro movia a vara. E logo outra vez a seu sobrinho.
       -Pensa nisso, moo. Filho menor ou no, no deve desperdiar sua vida.
       Ento me sorriu com uma luminosidade que me chegou ao corao. Agarrou-me da mo e com a outra no corao, recitou:
       
       Amo, amas, amar a uma moa,
       alta e magra como uma tocha,
       sua graa e atrativo
       esto em genital e vocativo.
       
       OH, que bela meu puella,
       declinarei-a a toda ela,
       e em um rinco rinconrum
       beijarei-a in scula seculorum.
       
       Tibi dabo casamento,
       doce ninfa de meu pensamento,
       e com um pouco de sorte,
       no te liberar de mim nem na morte.
       
       Fez uma reverncia ante mim, piscou solenemente para me piscar os olhos um olho e se afastou a pernadas.
       
       9
       Dois teros de um fantasma
       
       A superfcie do rio brilhava como o azeite pois a gua estava tranqila e sem fluxo. Estava sentada em um banco da coberta dianteira, observando a luz do nico farol que, mais que refletir-se na gua, parecia apanhada abaixo, movendo-se com o navio.
       Na escurido, algo rangeu a minhas costas e levantei a mo sem me dar a volta para olhar. A grande emano do Jamie se fechou sobre a minha, oprimiu-me isso e a soltou. O leve contato deixou meus dedos midos pelo suor.
       deixou-se cair a meu lado suspirando, e se abriu o pescoo da camisa.
       -Acredito que no pude respirar desde que samos da Georgia -disse-. Cada vez que aspiro, parece que vou afogar me.
       Ri-me; sentia as gotas de suor escorregando por meus seios.
       -Dizem que no Cross Creek o ar  mais fresco. -Respirei profundamente para lhe demonstrar que podia faz-lo-. Notas esse aroma maravilhoso no ar?
       -Seria um bom co, Sassenach. -apoiou-se na parede da cabine com um suspiro-. No  estranho que Cilindro te admire.
       O rudo das pezuas sobre a coberta anunciou a chegada do co, quem avanava com cuidado. tornou-se com um profundo suspiro. Cilindro sentia o mesmo desgosto pelos navios que Jamie.
       -Ol, vem -pinjente e estendi uma mo para que a farejasse e me permitisse lhe arranhar as orelhas-. Onde est seu dono, n?
       -Na cabine, aprendendo novas formas de fazer armadilhas com as cartas -disse Jamie com ironia-. S Deus sabe o que ser desse moo. Se no lhe dispararem um tiro ou lhe golpeiam a cabea em alguma botequim, voltar para casa com uma avestruz que tenha ganho nas cartas.
       - um bom menino -disse para lhe acalmar.
       - um homem -corrigiu-me.
       -Mas sempre te escuta -protestei.
       -Mmm. Espera a que oua algo que no queira ouvir.
       Jogou a cabea para trs e fechou os olhos.
       -Faz dois meses que lhe diz que tem que voltar para Esccia, e no acredito que goste de ouvir isso.
       Jamie abriu um olho e me observou cinicamente.
       -Est Ian em Esccia?
       -Bom...
       -Mmm -respondeu, fechando outra vez os olhos.
       Cilindro levantou a cabea com um grunhido e estirou as orelhas. Jamie abriu os olhos, olhou  borda e se incorporou bruscamente.
       -Joder!  o rato maior que vi em minha vida!
       -No  um rato -pinjente rendo-.  uma doninha. V a cria sobre seu lombo?
       Jamie e Cilindro observaram  doninha com idntica expresso, calculando seu peso e velocidade. Era evidente que a doninha no considerava o navio como algo perigoso. Terminou de sacudir a gua e se afastou entre os matagais com a ponta de sua cauda rosada iluminada por nossa luz.
       Os dois caadores deixaram escapar um suspiro e se relaxaram outra vez.
       -Myers diz que so boas para comer -comentou Jaime com gesto pensativo.
       Com um suspiro, procurei em meu bolso e lhe entreguei uma bolsa.
       -O que  isto?
       Inspecionou com interesse e colocou na palma de sua mo uns pequenos objetos cor castanha.
    -Amendoins torrados -expliquei-. Crescem nestas terras. Encontrei um granjeiro que os vendia como comida para os porcos e a mulher da estalagem os torrou. lhes tire a casca antes de lhe comer isso 
       -Sou um ignorante, Sassenach, no um parvo.
       Provou desconfiado e logo mastigou com prazer e me sorriu.
       -Voc gosta? Uma vez que nos instalemos farei manteiga de amendoim para lubrificar no po.                           
       -estive pensando, Sassenach -disse, comendo-se outro amendoim-. O que te pareceria se ficssemos por aqui?   
       Pergunta-a no era totalmente inesperada. No podamos retornar a Esccia no momento. O jovem Ian, sim, mas no  Jamie, devido a certas complicaes, uma das quais se chamava Laoghaire MacKenzie.
       -No sei -respondi com lentido-. Deixando a um lado aos ndios e aos animais selvagens...
       -Ah, bom -interrompeu, algo incmodo-. Myers me disse que no h problemas com eles.
       -Sim, est bem. Mas recorda o que te contei, no? Sobre a  Revoluo. Estamos em 1767 e voc ouviu a conversao no jantar do governador. dentro de nove anos, Jamie, tudo estalar.
       Os dois tnhamos passado uma guerra e nenhum tomvamos a questo  ligeira. Apoiei minha mo em seu brao, lhe obrigando a me olhar.
       -Eu tive razo... antes. Voc sabe.
       Como sabia o que ia acontecer no Culloden, havia-lhe dito o destino que esperava ao Carlos Estuardo e a sua gente.
       E o que os dois soubssemos no serve para nos salvar de vinte dolorosos anos de separao e o fantasma de uma filha a que nunca veria.
       -Sim,  certo -disse, brandamente-. Mas ento acreditvamos que podamos trocar as coisas. Ou tent-lo, ao menos. Mas aqui... -Fez um gesto, assinalando a terra que nos rodeava-. Posso pensar que no  meu assunto -disse simplesmente-. Nem para impedi-lo, nem para ajudar.
       -Mas se vivermos aqui, ser nosso assunto.
       esfregou-se o lbio com gesto pensativo.
       -Este  um lugar muito grande, Sassenach. Com o que temos viajado desde a Georgia, tivssemos percorrido toda Esccia e Inglaterra juntas.
       -Isso  certo -admiti. 
       Em Esccia no havia forma de escapar aos estragos da guerra. Aqui poderamos encontrar um lugar que nos permitisse viver  margem. 
       Jamie me sorriu com a cabea inclinada.
       -Posso verte como a senhora de uma plantao, Sassenach. Se o governador me encontrar um comprador para as outras pedras acredito que teremos suficiente para enviar ao Laoghaire todo o dinheiro que lhe prometi e ainda ficar para comprar um bom site, a gente onde possamos ter xito.
       Agarrou minha mo direita entre as suas e esfregou minha aliana de casamento.
       -Talvez algum dia possa te cobrir de sedas e jias -disse com suavidade-. No te pude dar muito, salvo um pequeno anel de prata e as prolas de minha me.
       -Deste-me muito mais que isso -pinjente, acariciando seu polegar-. Brianna, por exemplo.
       Sorriu fracamente, olhando a coberta.
       -Sim, isso  certo. Talvez ela seja a verdadeira razo para ficar. Este  seu site, no? -Levantou a mo, assinalando o rio, as rvores e o cu-. Ela nascer aqui, viver aqui...
       - certo -respondi. Acariciei-lhe o cabelo, to parecido ao da Brianna-. Este ser seu pas. 
       Dele, de um modo que nunca o seria do Jamie ou meu por muito tempo que ficssemos aqui.
       Permanecemos um momento em silncio, muito juntos.
       -Deixei-lhe as prolas -pinjente por ltimo-. Pareceu-me o correto. depois de tudo,  sua herana. O anel  tudo o que necessito.
       -D meu hasia mille -sussurrou sonriendo.
       me d mil beijos. Era a inscrio do anel, uma entrevista de uma cano de amor de Procure-o. Inclinei-me para lhe beijar.
       -Dein mille altera -pinjente.
       Logo mil mais.
       
       Perto da meia-noite, ancoramos para descansar. O tempo tinha trocado; ainda caloroso e mido, o ar ameaava tormenta. Segundo os clculos do capito Freeman, chegaramos ao Cross Creek o dia seguinte de noite ou, como muito tarde, ao outro. Surpreendia-me descobrir que estava ansiosa por chegar; dois meses de viver pelos caminhos me tinham criado a necessidade de encontrar refgio, embora fora temporrio.
       Jamie suspirou e se estremeceu em sonhos. Podia dormir bem em qualquer site, pois estava acostumado a faz-lo em lugares to dspares como cavernas midas ou as pedras frite da priso. A coberta de madeira do navio, em comparao, devia ser bastante confortvel.
       Eu no era to elstica nem estava to endurecida, mas o cansao se apoderou de mim e nem sequer meus pensamentos sobre o futuro puderam manter desperta.
       Despertei confundida. Ainda estava escuro e se ouviam rudos, gritos e latidos; a coberta tremia pela vibrao de uns passos. Endireitei-me de um salto pensando que sonhava que nos tinham abordado os piratas.
       Ento minha mente se esclareceu e uma viso imprecisa me fez ver que realmente nos tinham abordado os piratas. Vozes desconhecidas gritavam ordens e se ouviam as fortes pisadas das botas. Jamie no estava.
       Arrastei-me, sem me ocupar da roupa, e quase me choquei com um grupo de gente. ouviram-se gritos, um disparo e um golpe terrvel. Ian estava atirado na coberta, sobre o corpo de Cilindro.
       Um homem desconhecido, sem chapu e despenteado, ficou em p.
       -Maldio! Quase me agarra!
       Apontou ao co com uma careta horrvel no rosto.
       Um homem alto apareceu de um nada e, com um gesto, baixou-lhe a arma antes de que disparasse.
       -No esbanje um disparo, estpido. -Fez um gesto para o marinheiro negro e o capito Freeman, este ltimo visivelmente enfurecido-. Como vais lutar com uma arma descarregada?
       Cilindro fazia um rudo estranho, um grunhido misturado com gemidos de dor, e pude ver uma mancha escura baixo seu corpo. Ian estava inclinado sobre o co e lhe acariciava a cabea. Levantou a vista com os olhos cheios de lgrimas.
       -me ajude, tia! -pediu-. Por favor, me ajude! .
       Movi-me impulsivamente. Ento o homem alto deu um passo e levantou um brao para me deter.
       -vou ajudar ao co -disse.
       -O que? -disse com tom ofendido o assaltante mais baixo.
       O homem alto estava mascarado, todos o estavam. Percebi-o quando meus olhos se acostumaram  pouca luz. Quantos eram? Era impossvel diz-lo. Tive a sensao de que o homem alto sorria. No respondeu, mas com um movimento de sua pistola, deixou-me fazer.
       -Ol, moo -pinjente, me ajoelhando perto do co-. No remoa,  um bom perrito. Onde est ferido, Ian, sabe?
       Ian negou com a cabea, secando-as lgrimas.
       -Por aqui embaixo, no posso lhe dar a volta.
       Eu tampouco ia tentar faz-lo. Procurei o pulso no pescoo, mas meus dedos se afundavam entre a pele. Em um arranque de inspirao, agarrei-lhe uma das patas dianteiras e a percorri com os dedos at o oco prximo s costelas.
       E o encontrei; um pulso firme se detectava baixo meus dedos. Era um bom sinal. Outra era que Cilindro no tinha perdido o sentido e a pata estava em tenso e no frouxa como quando a ferida  grave.
       -No acredito que esteja muito mal, Ian -pinjente, aliviada-. Olhe, est-se movendo.
       Cilindro se incorporou, sacudindo a cabea com violncia e deixando um reguero de sangue em coberta. Os grandes olhos amarelos se cravaram no homem de menor estatura; sua inteno era evidente.
       -Cuidado! Ou o detm ou te juro que o Mato!
       Ian, tirando-se rapidamente a camisa, envolveu a cabea de Cilindro para lhe cegar e lhe forar a ficar quieto.
       -Quantos h a bordo?
       O homem alto dirigiu o olhar para o capito Freeman, que tinha a boca fechada. Apertando os dentes voltou a cabea em minha direo.
       Conhecia-a, conhecia aquela voz. Isto deveu refletir-se em minha cara, porque um momento depois se tirou a mscara.
       -Quantos? -perguntou novamente Stephen Bonnet.
       -Seis -pinjente. No havia razo para no responder. Podia ver o Fergus na borda, com as mos levantadas, enquanto um terceiro pirata o obrigava a voltar para navio a ponta de pistola. Jamie se tinha materializado na escurido e estava a meu lado, com gesto turvo.
       -Senhor Fraser -disse amavelmente Bonnet-. Que prazer voltar a v-lo! Mas no tinha outro companheiro, senhor? O cavalheiro com um s brao?
       -No est aqui -foi a resposta cortante do Jamie.
       -Jogarei uma olhada -disse o mais baixo, mas Bonnet lhe deteve com um gesto.
       -vais duvidar da palavra de um cavalheiro como o senhor Fraser? No, ficar vigiando a esta gente, Roberts. Eu vou fazer uma inspeo.
       E, com um gesto para seu companheiro, desapareceu.
       O me ocupar de Cilindro me tinha distrado momentaneamente. Uns rudos que provinham da cabine me recordaram minha caixa de instrumentos mdicos e me pus em p.
       -Espere! Onde vai? Detenha-se! vou disparar!
       A voz do assaltante tinha uma nota perigosa, mas tambm de insegurana. No me detive, mas sim me lancei para a cabine, chocando-se contra um quarto ladro que estava revisando minha caixa.
       -No se atreva a toc-la! -pinjente e, desentupindo um frasco, arrojei-lhe o contedo ao rosto.
       Como quase todos os preparados do Rawlings, continha uma grande proporo de lcool. O homem ofegou e retrocedeu com os olhos irritados. Aproveitei a vantagem para agarrar uma garrafa de pedra e lhe golpear na cabea. Levantei o brao para lhe dar outro golpe, mas uma mo firme sujeitou minha boneca.
       -vou pedir lhe que me perdoe, querida senhora Fraser -disse uma voz conhecida, com acento irlands-. Mas no posso deixar que lhe rompa a cabea. Necessita-a para ficar o chapu.
       -Essa maldita cadela me golpeou!
       O homem se agarrava a cabea com gesto de dor. Bonnet me empurrou para a coberta, me dobrando um brao detrs das costas. J quase tinha amanhecido e o rio brilhava como a prata. Desgraadamente, a luz permitia que os assaltantes nos vissem melhor. O homem ao que tinha golpeado agarrou minha mo e atirou de meu anel.
       -vou levar me isto!
       Retirei a mo e quis lhe golpear, mas Bonnet me deteve com uma significativa tosse. Tinha a pistola colocada sobre a orelha esquerda do Ian.
       -Melhor que o d, senhora Fraser -indicou amavelmente-. Temo-me que o senhor Roberts merece uma pequena compensao pelo dano que voc lhe causou.
       Atirei do anel de ouro com as mos tremendo pela fria e o medo. o de prata me custou mais trabalho; parecia no querer separar-se de meu dedo. Os dois anis estavam midos pelo suor e o metal parecia quente ante a frieza de meus dedos.
    -d-me isso 
       O homem me empurrou com rudeza e estendeu uma mo imunda. Dispunha-me a entregar-lhe a contra gosto quando uma repentina inspirao fez que me levasse a mo  boca.
       Um golpe fez que minha cabea me chocasse contra a parede da cabine. Os dedos calosos daquele homem procuraram em minha boca para me tirar os anis. Traguei com fora, com saliva e tambm com sangue. Mordi-lhe e deu um grito. Um dos anis saiu de minha boca e ouvi o rudo metlico que fez ao cair.
       Em minha garganta sentia o outro.
       -Cadela! vou cortar te o pescoo! Ir ao inferno sem os anis, puta trapaceira!
       Vi o rosto do homem deformado pela fria e o sbito brilho da folha de uma faca. Ento algo me golpeou e ca ao cho, esmagada pelo corpo do Jamie. Estava muito aturdida para me mover, embora tampouco tivesse podido faz-lo pois o peito do Jamie apertava minha cabea. Em meio dos gritos e a confuso, Jamie recebeu um golpe e gemeu. Outro golpe e outro gemido.
       -Deixa-o, Roberts! Hei dito que o deixe!
       A voz do Bonnet ressonava com autoridade.
       -Mas ela... -comeou a dizer Roberts, mas se viu interrompido por um golpe seco.
       -Levante se, senhor Fraser. Sua esposa est a salvo e no porque o merea.
       A voz do Bonnet tinha uma mescla de brincadeira e irritao. Bonnet observou ao Jamie, quem se tinha posto em p.
       -Est louca -disse Bonnet, desapasionadamente-, mas suponho que a voc no importa. -Fez um gesto e sorriu-. Estou obrigado a aproveitar a oportunidade de pagar minha dvida, senhor. Uma vida por uma vida, como diz o Santo Livro.
       -nos pagar? -disse zangado Ian-. depois do que fizemos por voc, rouba-nos e nos ataca, ferem minha tia e a meu co e tem o valor de falar de pagamento?
       Os olhos verde plido do Bonnet se cravaram no Ian. 
       -No conhece a Bblia, moo? -Bonnet sacudiu a cabea-. Uma mulher virtuosa vale mais que os rubis, seu valor  maior que o das prolas.
       Abriu a mo, ainda sonriendo, e  luz brilharam trs gemas: uma esmeralda, uma safira e o fogo escuro do diamante.
       -Estou seguro de que o senhor Fraser estar de acordo.
       voltou-se para seus camaradas.
       -J temos o que devemos buscar -disse bruscamente-. Vamos.
       Os quatro homens desapareceram entre os arbustos e ouvimos o relinchar de um cavalo. A bordo, tudo ficou em silncio.
       -Bastardos -o capito Freeman cuspiu seu insulto e se voltou para o marinheiro-. Busca as varas.
       Outros, lentamente, recuperaram-se. Fergus olhava de esguelha ao Jamie enquanto acendia o farol para desaparecer na cabine, onde ouvi que comeava a ordenar as coisas. Ian permanecia sentado na coberta, ocupando-se de Cilindro.
       No queria olhar ao Jamie, assim que me ajoelhei junto ao Ian. Cilindro me observou, mas no se ops a minha presena.
       -Como vai? -perguntei com voz rouca.
       Podia sentir o anel em minha garganta; incomodava-me e traguei vrias vezes.
       O jovem Ian levantou a vista. Tinha o rosto plido, mas seus olhos estavam atentos.
       -Acredito que est bem -disse brandamente-. Tia... est bem? ..No est ferida?
       -No -pinjente e tratei de sorrir para lhe tranqilizar-. Estou bem.    
       No olhei ao Jamie, mas podia sentir sua presena, ameaadora como uma tormenta. Ian podia lhe ver por cima de meu ombro.
       -No te incomode, tia -disse Ian, tentando me consolar-. Tio Jamie no  dos que golpeiam.
       No estava to segura, pelas vibraes que provinham do Jamie, mas esperava que Ian tivesse razo.
       -Est muito zangado, no crie? -perguntei em voz baixa. Ian se encolheu de ombros.
       -Bom, a ltima vez que me olhou dessa maneira, levou-me a parte de atrs da casa e me deu uma surra. Mas estou seguro de que no far o mesmo contigo -apressou-se a dizer.
       -Imagino que no -disse com tom sombrio.
       -Tampouco so agradveis as broncas do tio Jamie -disse Ian, sacudindo a cabea com simpatia-. Eu prefiro que me d uma surra.
       Inclinei-me para o co.
       -J tivemos bastante por hoje. deixou que sangrar?
       Por debaixo do cabelo ensangentado, a ferida aparecia surpreendentemente pequena: um talho na pele e no msculo perto do lombo. Cilindro agachou as orelhas e me ensinou os dentes enquanto o examinava, mas no protestou.
       -Bom co -murmurei-. Ter que lhe pr um pouco de ungento para manter afastadas s moscas.
       -Vou busc-lo, tia, sei onde est sua caixa. -Ian levantou o focinho de Cilindro apoiado em seu joelho e ficou em p-,  esse verde que ps ao Fergus no dedo do p?
       Assenti e o moo desapareceu na cabine, me deixando a ss com o estmago revolto, a garganta congestionada e dor de cabea.
       Jamie apareceu de entre as sombras. Pu-me rgida e Cilindro moveu as orelhas em posio de alerta, mas Jamie no manifestou intenes de me jogar pela amurada. Pelo contrrio, inclinou-se para me inspecionar com rosto carrancudo.
       -Como se sente, Sassenach? No sei se estiver verde ou se for a luz.
       -Estou bem. um pouco tremente, possivelmente.
       Mais que um pouco. Minhas mos no podiam estar quietas e sabia que meus joelhos no me sustentariam se tentava me pr em p. Traguei com fora, tossi e me dava uns golpes no peito.
       - provvel que seja minha imaginao, mas sinto como se tivesse o anel na garganta.
       Olhou-me pensativo e logo se voltou para o Fergus, que acabava de sair da cabine e dava voltas por ali.
       -lhe pergunte ao capito se me emprestar sua pipa um momento, Fergus. -deu-se a volta e se afastou, retornando com uma jarra cheia de gua.
       Quis agarr-la, agradecida, mas a apartou.
       -Ainda no, Sassenach -disse-. Conseguiu-a? Sim, obrigado, Fergus. Busca um balde vazio, quer?
       Agarrou a pipa de mos do intrigado Fergus e esvaziou seu contedo na jarra de gua. Ao terminar com essa tarefa, olhou-me de forma maligna.
       -No -pinjente-. OH, no!
       -OH, sim -respondeu-. Vamos, Sassenach, isto terminar com suas molstias.
       -Eu... esperarei -expliquei. Cruzei-me de braos-. Obrigado de todos os modos.
       Fergus havia tornado com o balde e nos olhava com as sobrancelhas arqueadas. Jamie colocou o balde a meu lado. No se incomodou em tratar de me convencer. Apertou-me o nariz e quando abri a boca para respirar, derrubou-me o contedo da jarra.
       -Traga -ordenou, tampando minha boca e desoyendo meus protestos.
       Era muito mais forte que eu e no pensava me deixar. Tinha que tragar ou me afogar.
       Traguei.
       
       -ficou como novo.
       Jamie terminou de lustrar o anel de prata com sua camisa e o levantou, admirando-o  luz do farol.
       -Isso  mais do que se pode dizer de mim -respondi com maldade. Estava recostada na coberta e, embora a corrente era aprazvel, ainda me sentia enjoada-.  um maldito e sdico torturador, Jamie Fraser!
       inclinou-se me apartando as mechas de cabelo que me tampavam a cara.
       -Isso espero. J tem fora para me insultar, Sassenach, isso quer dizer que est melhor. Descansa um pouco, quer?
       Beijou-me na frente e se sentou.
       Uma vez passada a excitao e depois de orden-lo tudo, os homens tinham ido  cabine para recuperar-se com a ajuda de uma garrafa de aguardente de ma que o capito Freeman tinha salvado dos piratas escondendo-a no barril de gua. Uma pequena jarra com essa bebida esperava perto de minha cabea. Ainda no me sentia com foras para tragar nada, mas o aroma de fruta era reconfortante.
       Navegvamos impulsionados pelo vento, ansiosos por nos afastar, como se o perigo ainda rondasse por aquele lugar. Na cabine ressonavam algumas risadas e Cilindro respondia com um grunhido, da coberta; tudo estava voltando para a normalidade.
       Uma suave brisa acariciou meu rosto, me secando o suor e agitando os cabelos do Jamie. As linhas de sua frente e o gesto de suas sobrancelhas me indicava que estava sumido em profundos pensamentos.
       No era muito difcil saber no que estava pensando. De repente, tnhamos passado de ricos (ou potencialmente ricos, ao menos) a pobres. Nossa bem equipada expedio se via reduzida a um saco de feijes e uma caixa com instrumental mdico. em que pese a nosso desejo de no chegar como mendigos  porta da Yocasta Cameron, tnhamo-nos convertido em pouco mais que isso.
       Nunca me tinha considerado uma pessoa que valorasse muito o dinheiro, mas esta forma violenta de nos arrancar a segurana me produzia uma sensao de vertigem, como se sofresse uma inevitvel queda a um poo. Como afetaria ao Jamie, que no s sentia seu perigo e o meu, mas sim alm disso a responsabilidade de muitas outras vistas?
       Ian, Fergus, Marsali, Duncan, os habitantes do Lallybroch, inclusive aquela maldita Laoghaire. No sabia se rir ou chorar ao pensar no dinheiro que Jamie lhe tinha enviado; aquela criatura vingativa estava agora muito melhor que ns.
       Ao pensar na vingana, senti outra pontada que apagou todos meus outros temores. Jamie no era vingativo para ser escocs, mas nenhum highlander suportaria semelhante perda com silenciosa resignao; no s a perda da fortuna, mas tambm tambm da honra. O que se sentiria impulsionado a fazer agora?
       Jamie contemplava fixamente a gua escura. Via, talvez, a tumba onde influenciado pelo sentimentalismo alcolico do Duncan, tinha aceito ajudar ao Bonnet a escapar?
       -No deve te culpar -pinjente, tocando seu joelho.
       -E a quem culpo, se no? -disse tranqilamente, sem me olhar-. Conheci homem pelo que era. Pude deixar que tivesse o destino que merecia, mas no o fiz. Fui um parvo.
       - bom. Que no  o mesmo.
       - parecido.
       Bebeu da jarra com um profundo suspiro. Logo me ofereceu isso e aceitei.             
       -Melhor?                      
       Assenti. Agarrou minha mo e me deslizou o anel em um dedo, com o metal ainda quente pelo contato de sua mo.
       -Tero-nos seguido desde o Charleston? -perguntei em voz alta.
       Jamie negou com a cabea. Seu cabelo, ainda solto, caa em mechas tampando parte de sua cara.
       -No acredito. Se tivesse sabido que tnhamos jias, nos teria detido no caminho, antes de chegar ao Wilmington. No, suponho que se inteirou por algum dos serventes do Lilhngton. Acreditei que estvamos a salvo ao nos afastar para o Cross Creek antes de que ningum ouvisse falar das pedras preciosas. Mas algum deveu falar: um criado, a costureira que te arrumou o vestido...
       Seu rosto estava tranqilo, mas sempre era assim quando ocultava uma forte emoo.
       -Sinto-o por seu outro anel -disse.
       -OH, no...
       ia dizer "no importa", mas as palavras se detiveram em minha garganta ante a tira de conscincia da perda.
       Usava aquele anel de ouro desde fazia trinta anos; era o smbolo dos votos ditos, esquecidos, renovados e finalmente eximidos. Um smbolo do matrimnio, da famlia; de uma grande parte de minha vida. E a ltima lembrana do Frank, a quem, em que pese a tudo, eu tinha amado.
       Jamie no disse nada. Agarrou minha mo e me esfregou os ndulos com o polegar. Eu tampouco falei. Suspirei profundamente e voltei meu rosto para popa; as rvores da borda se estremeciam com o vento. Uma gota me caiu na bochecha, mas no me movi. Minha mo parecia branca na do Jamie, com um aspecto desacostumbradamente frgil; era impressionante v-la assim.
       Oprimiu-me a outra mo, apertando o anel de prata em minha carne para me recordar o que significava.
       Agarrei sua mo e a apertei contra meu corao. A chuva comeou a cair com grandes gotas, mas nenhum dos dois nos movemos.
       Sentia-me terrivelmente vulnervel e, de uma vez, totalmente segura. Mas sempre me acontecia o mesmo com o Jamie Fraser...
       
       
       QUARTA PARTE
       RIVER RUN
       
       10
       Yocasta
       
       Cross Creek, Carolina do Norte, junho de 1767
       
       River Run estava na borda de Cape Fear, por cima da confluncia que dava seu nome ao Cross Creek. O lugar ocupava uma superfcie considervel e tinha um porto cheio de gente e grandes alpendres alinhados ao bordo da gua. Enquanto o Sally Ann avanava lentamente, invadiu-nos um forte aroma de resina procedente do povo e do rio, envolto em uma massa de ar quente e mido.
       -meu deus,  como respirar terebintina -queixou-se Ian, ofegando.
       - que  o que est respirando, homem -disse o negro com um sorriso.
       -Assim  -disse o capito Freeman-. Nesta poca do ano vm os vendedores do interior com alcatro e terebintina; trazem-no em embarcaes desde o Wilmington e o enviam ao sul, aos estaleiros do Charleston.
       -No acredito que tudo seja terebintina -disse Jamie. No o cheira, Sassenach?
       Aspirei com cautela. Havia algo mais no ar, um aroma quente e familiar.
       -Rum? -perguntei.
       -E conhaque. E tambm um pouco de oporto.
       O largo nariz do Jamie se franziu. Olhei-o divertida.
       -No perdeste seu olfato de provador, verdade? 
       Vinte anos antes, tinha dirigido um negcio de vinhos em Paris, propriedade de sua primo Jared, e tanto seu nariz como seu paladar tinham sido o assombro das adegas parisienses.
       Sorriu-me zombador.
       -Espero poder distinguir um Mosela da urina de cavalo se o puser debaixo de meu nariz. Mas distinguir entre rum e terebintina no  nenhuma tolice, no?
       Ian aspirou profundamente e deixou sair o ar em forma de tosse.
       -Para mim tm o mesmo aroma -disse, sacudindo a cabea.
       -Bem, a prxima vez que queira um gole, darei-te terebintina -disse Jamie-. Resultar muito mais barato. E isso  tudo o que posso pagar agora -acrescentou, entre risadas. endireitou-se, arrumando-a camisa e a casaca-. Pareo um mendigo, Sassenach?
       Era consciente de que a idia de aparecer ante sua tia como um mendigo feria grandemente seu orgulho e o fato de que as circunstncias lhe tivessem forado a adotar esse papel, no o fazia mais suportvel.
       Examinei-o com cuidado. Pu-me nas pontas dos ps, endireitei-lhe o pescoo de encaixe e lhe tirei um penugem das costas.
       -Est muito bem -sussurrei, sonrindole-. Est muito bonito.
       Contemplou-me surpreso e sua expresso de zombadora indiferena se converteu em um sorriso.
       - formosa, Sassenach. -inclinou-se e me beijou na frente-. Est tinta como uma ma, muito bonita.
       endireitou-se, olhou de esguelha ao Ian e suspirou.
       Ian era do tipo de pessoas que conseguia que suas roupas, sem importar a qualidade original nem o tempo que tivessem, parecessem tiradas de um cubo de lixo.
       -O capito Freeman diz que chegaremos em qualquer momento! -exclamou Ian, com olhos brilhantes de excitao-. O que criem que nos daro de comer?
       Jamie olhou a seu sobrinho com desgosto.
       -Espero que lhe dem as sobras, como aos ces. No tem casaca, Ian? Nem pente?
       -Sim -respondeu Ian, olhando ao redor como se esperasse que os objetos se materializassem frente a ele-. Tinha uma casaca. Deve estar por aqui.
       A casaca estava debaixo de um banco e a agarrou, no sem certa dificuldade, j que Cilindro se deu procurao dela para dormir mais cmodo.
       -Contar-lhe  tia av Yocasta o dos piratas? -perguntou.
       Jamie olhou as costas do capito Freeman. Era ingnuo pensar que no contaria a histria em tudo os botequins do Cross Creek logo que se livrasse de ns. E em questo de dias, ou talvez de horas, a notcia chegaria  plantao do River Run.
       -Sim o contarei -respondeu Jamie-. Mas no imediatamente Ian. Esperaremos que se acostume a ns.
       
       O embarcadero do River Run se encontrava a certa distncia do Cross Creek, separado do rudo e do ar ftido da cidade por vrias milhas de rio e bosque.
       depois de me ocupar de que Jamie, Ian e Fergus ficassem o melhor possvel, com a ajuda de gua, penteie e cintas, retirei-me  cabine, tirei-me a roupa imunda, lavei-me apressadamente e me pus o vestido de seda que tinha levado no jantar do governador.
       No podia fazer grande coisa com meu cabelo, assim que me sujeitei isso na parte de atrs, deixando que as pontas se enrolassem. No precisava me preocupar com as jias, pensei com tristeza esfregando o anel de prata para que brilhasse.
       Quando sa da cabine, o embarcadero estava  vista. A diferena de outros moles que tnhamos passado, o do River Run era de madeira, slido. Um moo negro estava sentado, agitando com aborrecimento suas pernas nuas.
       Quando viu aproximar-se da Sally Ann, ficou em p de um salto e saiu correndo, possivelmente para anunciar nossa chegada.
       A embarcao se deteve no mole. junto  linha de rvores que bordeaba o rio se estendia um atalho de tijolo que subia atravs de um conjunto de jardins e prados, dividindo-se para rodear um par de esttuas de mrmore com macios de flores. Logo se voltava a unir at chegar a uma grande praa, frente a uma imponente casa de dois novelo com colunas e chamins. A um lado dos macios de flores havia um edifcio em miniatura de mrmore branco; pensei que podia tratar-se de alguma classe de mausolu. Toquei-me o cabelo e reconsiderei minha opinio sobre o vestido que levava.
       Descobri-a imediatamente entre a gente que saa da casa e baixava correndo pelo atalho. At sem saber quem era, me teria dado conta de que estava ante uma MacKenzie. Tinha as bochechas ossudas, o ar vigoroso e a frente alta de seus irmos Colum e Dougal. Como seu sobrinho e sua sobrinha neta, tinha a extraordinria estatura que os marcava a todos como descendentes do mesmo sangue. Era alta, gil e andava com uma segurana que no encaixava com o branco de seus cabelos. Devia ter sido to ruiva como Jamie, porque ainda ficavam restos daquele tintura avermelhado especial.
       No sabia o que Jamie pensava fazer ou dizer no primeiro encontro. Chegado o momento, deu um passo para a Yocasta MacKenzie e a abraou, dizendo:
       -Tia..., sou Jamie.
       Quando a soltou e deu um passo atrs vi que seu rosto tinha uma expresso que nunca tinha visto antes: uma mescla de ansiedade, alegria e temor. Ento pensei, com certa comoo, que Yocasta MacKenzie devia ser muito parecida com sua irm maior, a me do Jamie.
       Imaginei que tinha seus mesmos olhos cor azul profunda, embora no podia assegur-lo porque estavam empanados pelas lgrimas e fechados pela risada. Tinha ao Jamie sujeito pela manga e lhe tocava a bochecha.
       -!Jamie! -dizia uma e outra vez-. Jamie, pequeno Jamie! Estou muito contente de que tenha vindo, moo! -Tocou-lhe o cabelo com uma expresso de surpresa-. Deus bendito, mas se for um gigante! Deve ser to alto como meu irmo Dougal!
       A expresso de alegria do rosto do Jamie se atenuou um pouco, mas manteve seu sorriso quando se voltou para me apresentar.
       -Tia, posso te apresentar a minha esposa? Ela  Claire.
       Radiante, estendeu a mo imediatamente; agarrei-a reconhecendo aqueles dedos largos e fortes; seus ndulos estavam um pouco deformados pela idade, mas sua pele era suave e ao tato era surpreendentemente parecida com a da Brianna.
       -Estou muito contente de te conhecer, querida -disse, me aproximando para me beijar na bochecha-.  muito formosa! -disse com admirao, enquanto seus largos dedos agarravam a manga de meu vestido.
       -Muito obrigado -pinjente, mas j era o turno de apresentar ao Ian e Fergus.
       Recebeu aos dois com carinhosos abraos e no quando Fergus lhe beijou a mo fazendo ornamento de sua melhor educao francesa.
       -Venham -disse finalmente, secando-as bochechas midas com o dorso da mo-. Devei tomem uma taa de ch e a comer algo. Devem estar famintos depois da viagem. Ulises!
       voltou-se, enquanto seu mordomo se adiantava e fazia uma reverncia.
       me chamou "lady", e ao Jaime "sir".
       -Tudo est preparado, senhorita Eu -disse brandamente a sua patr e lhe ofereceu o brao.
       Comearam a subir pelo atalho e lhes seguimos para as portas do River Run, totalmente aberto para nos receber.
       
       A casa era enorme e ventilada, com altos tetos e portas vidraas largas em todas as habitaes da planta baixa. Captei brilhos de prata e cristal enquanto passvamos por um comilo grande e convencional, que fazia evidente que Hctor Cameron tinha tido muito xito como dono da plantao.
       Yocasta nos conduziu at sua sala privada, uma habitao mais pequena e ntima, bem mobiliada, mas com detalhes caseiros.
       O mordomo nos escoltou at a sala, instalou a sua senhora e se voltou para um aparador, onde tinha uma coleo de jarras e garrafas.
       -Tomaremos um gole para celebrar sua chegada, Jamie. -Yocasta agitou uma mo larga e magra em direo ao aparador-. Seguro que no provaste um usque decente desde que saste que Esccia.
       Jamie riu, sentando-se frente a ela.
       -Realmente, no, tia. Como o conseguiste?
       Yocasta se encolheu de ombros e riu com alegria.
       -Seu tio teve a sorte de conseguir uma boa quantidade faz uns anos. Comprou a metade da carga de vinho e usque de um navio para vend-lo, mas naquele momento o Parlamento ditou um decreto pelo qual se proibia vender bebidas mais fortes que a cerveja, reservando-se este direito a Coroa. Assim foi como terminamos com duzentas garrafas na adega!
       Sem incomodar-se em olhar, estirou a mo e recebeu o copo do mordomo.
       -Por ti, sobrinho, e por sua querida esposa, que encontrem um lar nesta casa. Slainte!
       -Slainte mhar! -respondeu Jamie, e todos bebemos.
       Era um bom usque, suave como a seda e reconfortante como o brilho do sol.
       -vou fazer que Ulises escreva esta noite avisando a sua irm de sua chegada -disse Yocasta-. Deve estar muito preocupada com seu filho, pensando em todas as desgraas que lhe podiam ter acontecido durante a viagem.
       Jamie deixou seu copo e se esclareceu garganta, preparando-se para a tarefa da confisso.
       -Quanto a desgraas, tia, temo-me que devo te dizer... 
       Olhei para outro lado, para no aumentar seu desconforto enquanto explicava a perda de nossa fortuna. Yocasta escutava com ateno, deixando escapar sons de desconsolo quando lhe contava o encontro com os piratas.
       -O que ser mais perverso! -exclamou-. Te pagar o favor dessa forma! Esse homem deveria ser enforcado!
       -Bom, isso s  minha culpa, tia -respondeu Jamie com pesar-. Se no tivesse sido por mim, o teriam pendurado.
       -Seja como for, sobrinho. Mas quero que considere River Run como seu lar; digo-o a srio. Voc e os teus so bem-vindos aqui. E estou segura de que encontraremos a maneira de reparar essas perdas.
       -Agradeo-lhe isso, tia -murmurou Jamie.
       A conversao, felizmente, centrou-se no Jenny e na famlia do Lallybroch e o desconforto do Jamie foi atenuando-se pouco a pouco.
       Fergus ficou em p e, com diplomacia, desculpou-se enquanto Ian dava voltas pela habitao, agarrando objetos e voltando-os para deixar. Cilindro, aborrecido, farejava o lugar, observado com profundo desgosto pelo afetado mordomo.
       A casa estava decorada com gosto e algo mais que simplicidade. Enquanto apreciava a graa e a elegncia do ambiente, Ian se deteve bruscamente ante um quadro de grande tamanho.
       -Tia Yocasta! -exclamou, voltando-se ansioso para ela-. Pintaste-o voc? Est assinado com seu nome.
       Seu rosto pareceu escurecer-se antes de voltar a sorrir.
       -Uma paisagem montanhosa? Sim,  algo que sempre amei. Estava acostumado a ir com o Hctor, quando viajava para comercializar com couros. Acampvamos nas montanhas e acendamos uma grande fogueira que os serventes mantinham noite e dia, como um sinal. Aos poucos dias, os selvagens corte vermelhas saam do bosque e se sentavam ao redor da fogueira para falar, beber usque e comercializar conosco. Eu me sentava com o caderno e o lpis-carvo e desenhava tudo o que via.
       Fez um gesto para a outra ponta da sala.            
       -Olhe o que est na esquina. Trata de descobrir ao ndio que pintei escondido entre as rvores.
       Yocasta terminou seu usque e deixou o copo, rechaando o oferecimento do mordomo sem olhar.
       -Sim, amava a paisagem dessas montanhas. No so to escuras e ridas como as de Esccia, mas o sol nas rochas e a nvoa entre as rvores me recordam Leoch.
       Sacudiu a cabea e sorriu ao Jamie, possivelmente forando-se a isso.
       -Mas este foi meu lar durante muito tempo, sobrinho, e espero que voc tambm o queira considerar assim.
       No tnhamos muitas opes; Jamie inclinou a cabea e murmurou algo como resposta. Mas Cilindro o interrompeu com um grunhido.
       -O que acontece, co? -perguntou Ian, aproximando-se do co lobo-. Est cheirando algo?
       Yocasta voltou a cabea para a porta aberta.
       - uma mofeta -disse.
       -Uma mofeta! -Ian a contemplou assombrado-, Aproximam-se tanto  casa?
       Jamie se levantou e saiu a olhar.
       -Tem armas na casa, tia?
       -Sim -respondeu, boquiaberta-. Muitssimas. Mas...
       -Jamie -intervim-. As mofetas no so...
       antes de que pudssemos terminar as frases, Cilindro comeou a grunhir a um macio de flores.
       -Cilindro!
       Ian procurou alguma arma e agarrou o atiador da chamin.
       -Espera, Ian -disse Jamie, lhe sujeitando do brao-. Olhe.
       Com um grande sorriso, assinalou para o trabalhador de pedreira.
       -Isso  uma mofeta? -perguntou Ian, incrdulo-. Mas se for muito pequena! -enrugou o nariz, com uma expresso entre divertida e decepcionada-. Puf E eu que acreditava que era um animal perigoso!
       -Ian -pinjente, me refugiando detrs do Jamie-. Chama  . As mofetas so perigosas.
       -So-o?
       Jamie me olhou intrigado.
       -Ian, no! Deixa-o e vem aqui!
       Ian, curioso, tinha sado e cravava a mofeta com o atiador. O animal, ofendido, levantou a cauda.
       Ouvi o rangido de uma cadeira, voltei-me e vi que Yocasta se ps em p e olhava alarmada.
       -O que acontece? O que esto fazendo?
       Movia a cabea de um lado a outro, como tratando de localizar algo na escurido.
       de repente, descobri a verdade: sua mo no brao do mordomo, sua forma de tocar o rosto do Jamie ao receb-lo e a sombra que cobriu seu rosto quando Ian falou de suas pinturas. Yocasta Cameron era cega.
       Um grito me fez voltar a me ocupar do que acontecia fora. Um aroma cido invadiu a habitao e envolveu a todos.
       Entre os grunhidos e gemidos soou a campainha da Yocasta.
       -Ulises? -perguntou, com resignao-. Avisa na cozinha que jantaremos mais tarde.
       
       -Felizmente estamos no vero -disse Yocasta, enquanto tomvamos o caf da manh ao dia seguinte-. Imaginam no inverno, com todas as portas fechadas?
       Sorriu ensinando uns dentes em surpreendente bom estado para sua idade.
       -Sim -murmurou Ian-. Por favor, posso comer mas torradas?.
       Tanto ele como Cilindro tinham sido banhados no rio e esfregados com tomates, pois estes tinham uma substncia que atenuava o mau aroma, embora no conseguiram neutraliz-lo por completo.
       Talvez inspirada pela proximidade do Ian e o desejo de ar fresco, Yocasta sugeriu que podamos ir ver os trabalhos que se realizavam no bosque.
       - um dia de viagem, ida e volta, mas acredito que o tempo seguir sendo bom. Ouvem as abelhas? Elas nos dizem que o tempo ser bom e caloroso.
       -Tem voc muito bom ouvido, senhora Cameron -disse cortesmente Fergus-. Mas se me permite agarrar um cavalo da quadra, preferiria ir at o povo.
       Sabia que desejava enviar uma carta ao Marsali, j que a noite anterior lhe tinha ajudado a escrev-la.
       - obvio que sim, Fergus -respondeu com um amvel sorriso-.Como j vos pinjente, quero que considerem River Run como sua casa.
       Yocasta pensava nos acompanhar no passeio. Uma criada chamada Fedra lhe ps um tecido branco sobre os olhos, antes de lhe impregnar o chapu.
       -No posso ver mais que um resplendor -explicou-nos-, Mas a luz do sol me faz mal, por isso me protejo os olhos para sair ao exterior. Esto preparados, queridos?
       Para minha surpresa, um cavalo selado esperava a Yocasta e no uma carruagem, como eu supunha. O dom de comunicar-se com os cavalos era uma qualidade dos MacKenzie; a gua levantou a cabea ao reconhecer a sua ama. Yocasta acariciou ao animal e lhe ofereceu uma ma verde que aceitou com prazer.
       - meu doce Corinna -explicou-. Como est sua pata?-Com dedos peritos, tocou a pata at a altura do joelho, examinando uma cicatriz-, O que te parece, sobrinho? Est s? Agentar um dia de marcha?
       Jamie estalou a lngua e Corinna deu um passo para ele, reconhecendo a algum que falava sua linguagem. Examinou-a e a fez caminhar.
       -Estraga -disse-. Est bem. Como se feriu? .
       -Parece ser que foi uma serpente, senhor -disse a moo, um jovem negro que observava ao Jamie com interesse.
       -Mas  uma mordida de serpente? -pinjente, surpreendida-. Parece um rasgo, como se a pata tivesse ficado apanhada.
       Olhou-me com as sobrancelhas arqueadas e assentiu com respeito.
       -Sim, senhora, foi assim. Faz um ms ouvi uns rudos no estbulo, como se se estivesse derrubando. Entrei e encontrei o cadver de uma grande serpente venenosa esmagada baixo o pesebre. Corinna tinha a pata ensangentada pelas lascas do mesmo.  uma gua muito valente! -disse com orgulho.
       -A "grande serpente venenosa" acredito que media trinta centmetros -comentou-me Yocasta-. Ou talvez era s uma lombriga, mas a Corinna produzem terror as serpentes. Com apenas as ver enlouquece. -Fez um gesto para a moo de quadra e sorriu-. O pequeno Josh tampouco as tem em muita estima, no?
       -No, senhora. Tampouco eu gosto.
       Ian no pde conter sua curiosidade.
       -De onde vem? -perguntou, observando ao jovem negro com fascinao.
       -Que de onde venho? No venho, ah, j entendo. Nasci rio acima, no imvel do senhor George Burnett. A senhorita Eu me comprou faz dois anos, pela Pscoa.
       River Run ocupava um extenso territrio, formado no s pela parte situada frente ao rio, mas tambm tambm por um grande bosque de pinheiros. Alm disso, Hctor Cameron tinha adquirido, astutamente, umas terras atravessadas por um largo arroio, um de quo muitos desembocam no Cape Fear.
       Assim estava provido, no s dos valiosos produtos da madeira, breu e terebintina, mas tambm dos meios adequados para transport-los at o mercado. No era estranho que River Run prosperasse. Yocasta nos disse que produziam pequenas quantidades de anil e tabaco, embora os fragrantes tabacales pelos que passvamos me pareceram algo mais que modestos.
       -H uma pequena serraria no rio -explicava Yocasta-,  justo em cima da desembocadura do arroio. Ali serram e do forma s pranchas, constrem tonis e os enviam rio abaixo em barcaas, at o Wilmington. Pelo rio, a distncia entre a casa e a serraria no  muita, mas preferi lhes ensinar algo mais do River Run. -Aspirou com prazer o aroma dos pinheiros-. Fazia tempo que no saa.
       Parecia que River Run tinha muitos negcios com a Marinha a julgar pela conversao da Yocasta sobre mastros, varas, vigas, fitas de seda, breu e terebintina. Jamie cavalgava perto de sua tia, escutando suas detalhadas explicaes, nos deixando ao Ian e a mim que lhes segussemos. Era evidente que tinha trabalhado, junto com seu marido, na construo do River Run. Perguntava-me como o faria, agora que estava sozinha.
       -Olhe! -assinalou Ian-. O que  isso?
       Obriguei a meu cavalo a lhe seguir at a rvore que assinalava. Tinham-lhe tirado uma grosa lmina da casca.
       -Estamos perto -disse Yocasta-. Essa rvore que esto vendo deve ser um terebinto, posso cheirar a terebintina. Yocasta aproximou da Corinna  rvore.
       -Olhem -disse, tocando o fundo do corte, onde havia um oco-. Chamamo-lo a caixa; aqui se juntam a terebintina e a seiva. Est quase enche, assim muito em breve vir um escravo para tir-la. Enquanto falava, um homem apareceu entre as rvores, era um escravo vestido com um tanga e conduzia uma mula branca com uma correia larga no lombo da que penduravam dois tonis, um a cada lado. A mula se deteve e zurrou.
       -Essa tem que ser Clarence -disse Yocasta em voz alta para fazer-se ouvir por cima do rudo-. Gosta de ver gente. Quem est com a mula?  voc, Pompey?
       -Estraga, senhora, sou.
       afastou-se, dizendo algo que supus era um insulto  mula. Ento vi que falava com dificuldade porque lhe faltava a metade da mandbula.
       Yocasta deveu notar minha impresso, ou simplesmente a esperava, porque se voltou para mim.
       -Foi uma exploso de breu; por sorte no morreu. Vamos, estamos perto da serraria.
       O contraste entre a atividade desdobrada para extrair a terebintina com a quietude do bosque era surpreendente. Havia um enorme claro cheio de gente, a maioria escravos semidesnudos, trabalhando ativamente.
       -H algum nos barracos?
       Yocasta voltou sua cabea para mim.
       Elevei-me nos estribos para olhar; perto de uma fila de barracos ruinosos destacava uma nota de cor: trs homens com o uniforme da Marinha britnica e outro com uma casaca cor verde garrafa.
    -Esse deve ser meu bom amigo Farquard Campbell -disse Yocasta, sonriendo satisfeita atrs de minha descrio-. Vem, sobrinho, lhe eu gostaria de apresentar isso 
        Desde perto, Campbell resultou ser um homem de uns sessenta anos, de altura medeia, mas com a particular marca de dureza correosa que alguns escoceses mostram a essa idade. Campbell recebeu a Yocasta com prazer, inclinou-se cortesmente ante mim, saudou o Ian com um movimento de sobrancelhas e dirigiu toda a energia de seus ardilosos olhos cinzas ao Jamie.
       -Estou muito contente de que esteja aqui, senhor Fraser -disse, estendendo a mo-. Realmente contente. ouvi falar muito de voc desde que sua tia se inteirou de suas intenes de visitar River Run.
       Sua alegria parecia to sincera que sentiu saudades. Se Jaime notou algo estranho o ocultou depois de uma aparncia corts.
       -Sinto-me adulado de que tenha gasto um momento de seu tempo para pensar em mim, senhor Campbell. -Jamie sorriu com simpatia e se inclinou ante os oficiais da Marinha-. Cavalheiros, tambm estou encantado de conhec-los.
       Aproveitando a ocasio, um deles, um tenente rechoncho e de rosto carrancudo chamado Wolff, fez as apresentaes de seus dois subtenientes e depois das inclinaes de cabea voltaram para sua conversao, derrubando a ateno em uma discusso sobre medidas de tablones e gales.
       Entretanto, Yocasta no mostrou a mais mnima inteno de ficar  margem. 
       -V com o Josh, querida -me disse. Ele lhe ensinar isso tudo. vou ficar me  sombra enquanto estes cavalheiros se ocupam de seus negcios. Temo-me que este calor  muito para mim.
       alm dos barracos, para o centro do claro, havia duas ou trs grandes fogueiras e sobre elas, suspensas por uns trpodes, umas enormes panelas que fumegavam ao sol.
       -Fervem a terebintina para obter breu -explicou Josh, me levando at uma das panelas-. Uma parte se aplica aos tonis nesse estado -fez um gesto para os barracos, onde havia um carrinho de mo cheio de tonis-, mas o resto se converte em breu. Os cavalheiros da Marinha nos fazem os pedidos do que vo necessitar.
       Enquanto observava, um escravo saiu do bosque atirando de uma mula e se dirigiu para as panelas. Outro homem se aproximou de ajudar e juntos baixaram os tonis e os esvaziaram, de um em um, na panela.
       -Com exceo de se um pouco, senhora -disse Josh, me atirando do brao-. Salpica e poderia queimar-se.
       depois de ter visto o homem do bosque, a bom seguro que no queria que me queimassem. Afastei-me olhando os barracos. Em p, junto a uma parede, fora da vista dos homens, estava Yocasta Cameron. Tinha abandonado sua atitude de premeditado cansao e era evidente que estava escutando tudo o que lhe interessava.
       Josh viu a expresso de surpresa em meu rosto.
       -A senhorita Eu detesta no poder encarregar-se das coisas -murmurou com pesar-. Eu nunca a vi, mas a jovem Fedra me contou o que ocorre quando o ama no pode dirigir algo: renega como um carreteiro e golpeia e chuta o que lhe pe por diante.
       -Deve ser um espetculo impressionante -murmurei-. Mas o que  o que no pode controlar? -Dava a impresso de que, cega ou no, Yocasta Cameron dirigia sua gente, sua casa e seus campos, sem nenhum problema.
       - a maldita Marinha. No lhes contou por que veio hoje aqui?
       antes de que pudesse entrar na fascinante questo de por que Yocasta Cameron queria dirigir  Marinha britnica, interrompeu-nos um grito de alarme da outra ponta do claro. Voltei-me para olhar e quase me choquei com um grupo de homens meio nus, que corriam aterrados para os barracos.
       Se no era uma exploso, parecia-o; choviam partes de madeira queimada em meio de uma tremenda gritaria. Jamie e seus companheiros apareceram rapidamente.
       -Est bem, Sassenach?
       Agarrou-me do brao, me observando com ansiedade.
       -Sim, estou bem -respondi confundida-. O que aconteceu?
       -No sei -respondeu e seguiu olhando ao redor-. Onde est Ian?
       -No sei. No pensar que teve algo que ver com isto, verdade?
       Limpei-me as partculas de carvo que adornavam meu vestido e segui ao Jaime at o grupo de escravos. Falavam uma mescla de galico, ingls e vrios dialetos africanos.
       Encontramos ao Ian com um dos jovens subtenientes.
       -Tenho entendido que isto acontece freqentemente -dizia o subteniente-. Embora eu no o tinha visto antes. Que surpreendente exploso, verdade?
       -O que  o que acontece freqentemente? -perguntei.
       -A exploso do breu -explicou o jovem, dirigindo-se a mim. Era baixo, de bochechas rosadas e da idade do Ian-. Fazem fogo com carvo de lenha debaixo de uma grande panela de breu e o cobrem com terra e turfa para manter o calor, mas deixando acontecer o ar por umas gretas para que o fogo no se apague. O breu se reduz ao ferver e corre atravs de um tronco oco at o tonel. V?
       -A dificuldade est em regular a corrente de ar -continuou o pequeno subteniente-. Se o ar for escasso, o fogo se apaga; se for excessivo, arde com tal energia que no se pode controlar e faz que estalem os vapores. Onde estar o escravo que devia ocupar do fogo? Espero que o pobre no esteja morto.
       No tinha feridos. Eu tinha controlado aos que nos rodeavam e tinham sado ilesos, ao menos por esta vez.
       -Tia! -exclamou Jamie, recordando de repente a Yocasta.
       voltou-se apressadamente para os barracos, mas se deteve aliviado. Estava ali, rgida e em p, visvel por seu vestido verde.
       Quando nos aproximamos, descobri que estava furiosa. Durante a exploso, todos a tinham esquecido; incapaz de mover-se teve que esperar, indefesa, sem poder fazer nada.
       Recordei o que me tinha contado Josh sobre o carter da Yocasta mas era toda uma senhora e no ia fazer uma cena em pblico, por mais indignada que estivesse.
       Josh se desculpou por no ter estado com ela, mas Yocasta lhe tirou importncia, com brutalidade e impacincia.
       -Farquard, onde est?
       O senhor Campbell se aproximou e ps a mo da Yocasta em seu brao.
       -No houve danos, querida -tranqilizou-a-. No feriu, s um tonel de breu destrudo.
       -Bem -respondeu, relaxando-se um pouco-. Onde est Byrnes? -perguntou-. No ouvi sua voz.
       -O contramestre? -perguntou o tenente Wolff, secando o suor do rosto-. Estava-me perguntando o mesmo.
       -Espero que esteja no moinho -respondeu Campbell-. Um escravo me disse que tinham problemas com a folha principal da serra. Sem dvida se est ocupando disso.
       -Acredito que h uma cesta com o almoo -interveio Jamie-. Talvez sirva para que o tenente se refresque um pouco enquanto eu me ocupo disto.
       Era a sugesto adequada para acalmar a Yocasta e o tenente Wolff se sentiu contente ante a possibilidade de almoar.
       -De acordo, sobrinho. -endireitou-se e com ar autoritrio fez um gesto em direo  voz do Wolff-. Tenente, seria to amvel de me acompanhar?
       
       Durante o almoo me inteirei de que as visitas do tenente eram peridicas, j que estavam redigindo um contrato para a compra e entrega de provises navais. A tarefa do Wolf consistia em assinar e controlar este tipo de acordos com os donos das plantaes, desde o Cross Creek at a fronteira da Virginia. O tenente Wolff decidia a plantao mais adequada.                                           
       -Se em algo devo reconhecer a excelncia escocesa -proclamava com pomposidade detrs tomar um bom gole de seu terceiro copo de usque-  na produo de bebida.
       Wolff fez um infrutfero intento de reprimir um arroto e se voltou para mim, convencido de seus encantos.
       -Em muitos outros aspectos -continuou em tom confidencial- so lentos e teimosos, um par de rasgos que os faz inadequados para...
       Naquele momento, o mais jovem dos subtenientes, vermelho de vergonha, derrubou uma fonte com mas, o que serve para que seu chefe no terminasse a frase, embora desgraadamente, no para que deixasse de falar.
       -Parece-me que voc, em que pese a suas alianas, no  escocesa, no, senhora? Sua voz  mais melodiosa, sem rastro desse acento brbaro.
       -Ah..., obrigado -murmurei, me perguntando que ardil da incompetncia administrativa tinha enviado  tenente a ocupar-se dos negcios da Marinha no vale do rio Cape Fear, possivelmente o lugar do Novo Mundo onde havia mais escoceses das montanhas.
       Comeava a entender o que tinha querido dizer Josh com isso da maldita Marinha.
       A conversao continuou sem maiores incidentes, obrigado a que os dois subtenientes vigiavam a bebedeira de seu chefe. Tinham que ocupar-se de que chegasse so e salvo ao Cross Creek. No sente saudades que necessitasse dois ajudantes.
       -O senhor Fraser parece hav-lo solucionado tudo -murmurou o major dos ajudantes-. No lhe parece, senhor?
       -O que? Ah, sim, sem dvida.
       Wolff tinha perdido interesse por tudo o que no fora usque. Era certo, Jamie, com a ajuda do Ian, tinha posta ordem no claro e organizado aos homens. Invejava-o; era prefervel estar trabalhando que almoar com o tenente Wolff.
       -Sim, tem-no feito muito bem.
       Os olhos ardilosos do Campbell percorreram o lugar e logo voltaram para a mesa. Observou ao Wolff e apertou a mo da Yocasta. Sem voltar a cabea se dirigiu ao Josh, que aguardava em um rinco.                                   
       -Ponha essa garrafa na alforja do tenente, moo -disse, dirigindo um encantador sorriso ao Wolff-. No quero que se desperdice. 
       O Senhor Campbell se esclareceu garganta.
       -J que tem que ir-se logo, senhor, talvez poderamos nos ocupar agora de seus requerimentos. Wolff pareceu um pouco surpreso para ouvir que devia partir, mas seus ajudantes comearam a preparar papis e alforjas.
       Wolff olhou com rosto carrancudo o papel que lhe punham diante.                
       -Aqui, senhor -murmuro o ajudante major.
       O tenente apurou sua taa e sorriu vagamente com o olhar perdido. O mais jovem dos ajudantes fechou os olhos com resignao.
       -Bom, e por que no? -disse o tenente com temeridade e molhou a pluma para assinar.                            
       
       -No deseja te lavar e te trocar de roupa, sobrinho? -Yocasta franziu delicadamente o nariz-. Empresta a breu e carvo de lenha.
       -Minha higiene pode esperar -respondeu- Primeiro, desejaria conhecer o significado desta pequena comdia. -Cravou os olhos no senhor Campbell-. Trouxeram-me para o bosque com o pretexto de cheirar a terebintina e antes de que me desse conta de onde estava, encontro-me sentado com a Marinha britnica, opinando sobre assuntos que no conheo enquanto me chutam por debaixo da mesa como se fora um macaco amestrado.
       Yocasta sorriu e Campbell deixou escapar um suspiro.
       -Aceite minhas desculpas, senhor Fraser, por isso parece um monstruoso engano para sua boa vontade. Ante sua chegada to repentina no tivemos tempo de falar. Estive no Averasboro at ontem de noite; quando me avisaram de sua chegada j era muito tarde para cavalgar at aqui e lhe pr  corrente das circunstncias.
       -Bom, como parece que agora temos um pouco de tempo, convido-lhe a que o faa -disse Jamie.
       -por que no nos sentamos primeiro, sobrinho? -indicou Yocasta-. Levar-nos um pouco de tempo explic-lo tudo e hoje foi um dia exaustivo.
       Jamie respirou profundamente e pareceu algo mais tranqilo.
       -Quando queira, senhor Campbell.
       - um negcio com a Marinha -comeou Campbell.
       - um negcio com o tenente Wolff, querer dizer -corrigiu Yocasta, soprando com indignao.
       -Para nosso objetivo  o mesmo. Eu, sabe bem -disse Campbell em tom cortante.
       -A maior parte dos ganhos do River Run provm, tal como h dito Yocasta, da venda da madeira e a terebintina e o melhor cliente  a Marinha britnica. Mas a Marinha j no  o que era -explicou Campbell, sacudindo a cabea com pesadumbre-. Durante a guerra contra os franceses, qualquer homem que tivesse uma serraria era rica. Mas nos ltimos dez anos se manteve a paz e no se constri um navio novo h cinco anos.
       Suspirou ante as desagradveis conseqncias econmicas que a paz tinha tido para eles.
       Embora a Marinha seguia necessitando breu, terebintina e mastros, agora podia escolher a quem o comprava.
       Os contratos com a Marinha se renovavam trimestralmente e deviam ser controlados e aprovados por um oficial, neste caso Wolff. O oficial no era fcil de tratar e Hctor Cameron se encarregou dele, at sua morte.
       -Hctor bebia com ele -explicou Yocasta com brutalidade-. E quando partia, colocava-lhe uma garrafa nas alforjas. Desgraadamente a morte do Hctor influiu nos negcios. depois da morte do Cameron, o tenente Wolff foi apresentar lhe suas condolncias  viva. E ao dia seguinte retornou com uma proposta de matrimnio.
       -No era eu o que lhe interessava -disse Yocasta-. Era minha terra.
       Jamie decidiu, com inteligncia, no fazer comentrios, mas observou a sua tia com renovado interesse. Cega ou no, era uma mulher surpreendente. alm da beleza do corpo, emanava uma sensual vitalidade que causava efeitos visveis no Campbell.
       -Suponho que isso explica a conduta ofensiva do tenente durante o almoo -intervim-. No h fria como a da mulher despeitada, mas a dos homens no  muito distinta.
       Yocasta voltou a cabea, surpreendida (acredito que tinha esquecido que eu estava ali), mas Farquard Campbell riu.
       -Tem razo, senhora Fraser -assegurou, com olhos faiscantes-. Os homens so muito frgeis quando jogam com nossos sentimentos.
       Yocasta lanou um bufo muito pouco feminino.
       -!Sentimentos! Esse homem no tem sentimentos mais que para o contedo de uma garrafa.
       Jamie observava ao Campbell com maior interesse.
       -J que falamos de sentimentos, tia -disse-, posso perguntar pelos interesses de seu amigo?
       Campbell lhe devolveu o olhar.
       -Tenho uma esposa em casa, senhor -disse com secura- e oito filhos; o major talvez seja maior que voc. Conheci o Hctor Cameron faz mais de trinta anos e farei tudo o que possa por sua esposa, pela amizade que unia a ele e a que une a ela.
       -Farquard foi uma grande ajuda para mim, Jamie -disse com um toque de recriminao-. No tivesse podido sair adiante sem sua ajuda depois da morte do pobre Hctor.
       -Claro -disse Jamie, com um toque de cepticismo-. E estou seguro de que devo estar to agradecido como o est minha tia. Mas sigo me perguntando qual  minha parte neste assunto.
       Campbell tossiu discretamente e continuou com sua histria. Yocasta se tinha afastado do Wolff, fingindo um desmaio, e no saiu de seu dormitrio at que o tenente partiu ao Wilmington.
       -Aquela vez, Byrnes preparou os contratos e bem que os complicou -assinalou Yocasta.                 .
       -Ah, Byrnes, o capataz invisvel. E onde estava esta manh?
       Um sorriso zombador apareceu no rosto do Campbell.
       -Temo-me que o senhor Byrnes, embora habitualmente  um capataz competente, compartilha a mesma debilidade que o tenente Wolff. Mandei-o a procurar o serraria, mas o escravo retornou para me dizer que estava bbado e no o podiam despertar.
       Yocasta soprou de novo e Campbell a olhou afetuosamente antes de voltar-se para o Jamie.
       -Sua tia s necessita que Ulises a ajude com os documentos para ser capaz de levar seus prprios assuntos. Entretanto, como ter observado, h problemas fsicos que so importantes.
       -Isso foi o que me assinalou o tenente Wolff -disse Yocasta, fazendo uma careta ante a lembrana-. Que no podia pensar em me ocupar de minha propriedade sendo s uma mulher e alm cega. No podia depender do Byrnes se no era capaz de ir ao bosque para controlar o que o homem fazia ou deixava de fazer.
       -O qual  bastante certo -interveio Campbell com pesadumbre-, Entre ns h um provrbio: "A felicidade  ter um filho o bastante major para responsabilizar-se das coisas". Quando se trata de dinheiro ou escravos, no pode confiar em ningum que no seja de seu sangue.
       -E a  onde aparece Jamie -pinjente-. Tenho razo?
       -Fiz que Farquard informasse ao Wolff de que meu sobrinho tinha chegado para ocupar-se do River Run. Isso faria que obrasse com cautela -explicou-. No se atreveria a me pressionar com um parente em casa, me protegendo.
       -J vejo. -At a seu pesar, Jamie comeava a divertir-se-. Ento o tenente pensar que seus intentos de instalar-se aqui se iro ao traste com minha chegada. No  estranho que lhe tenha cansado to mal. Por isso disse acreditei que se estava colocando com os escoceses em geral.
       -Imagino que agora ser assim -disse Campbell. 
       Yocasta estirou a mo procurando a do Jamie instintivamente.
       -Perdoa-me, sobrinho? -disse-. antes de que chegasse no conhecia seu carter. No podia me arriscar a que te negasse se lhe dizia isso antes. me diga que no me guarda rancor, Jamie, embora seja pela memria da doce Ellen.
       Jamie oprimiu sua mo com carinho, assegurando que no lhe guardava nenhum rancor. De fato, alegrava-se de poder ajud-la e sua tia podia contar com ele para o que fizesse falta.
       O senhor Campbell resplandecia de alegria e tocou a campainha para que Ulises trouxesse o usque especial.
       Ao olhar aquele rosto, belo e cheio de expressividade apesar da cegueira, recordei o que uma vez Jamie me havia dito sobre as caractersticas de sua famlia.
       -Os Fraser so teimosos como rochas e os MacKenzie encantados como as cotovias do campo, mas tambm ardilosos como as raposas.
       
       -Onde estiveste? -perguntou Jamie, olhando ao Fergus de cima abaixo com severidade-. No acredito que tenha tido o dinheiro suficiente para fazer o que parece que esteve fazendo.
       -Encontrei-me com um par de franceses no povo, comerciantes de peles. Falavam muito pouco ingls, assim que lhes ajudei em seus negcios. Logo quiseram me convidar a compartilhar uma comida em sua estalagem... -Fez um gesto para lhe tirar importncia e procurou uma carta que guardava em sua camisa-. Chegou ao Cross Creek para ti -disse, entregando-lhe ao Jamie.
       O rosto do Jamie se iluminou ao v-la e a abriu com certa ansiedade. Havia trs cartas: em uma reconheci a letra de sua irm; as outras dois pertenciam a outra pessoa.
       -vou comear com o Ian -disse, agarrando a segunda carta com uma careta irnica-. No estou seguro de querer ler o que me escreve Jenny sem um copo de usque na mo.
       Pu-me em p e me coloquei detrs de sua cadeira para olhar por cima do ombro. A letra do Ian Murray era clara e grande, fcil de ler at a certa distncia.
       
       Querido irmo:
       Aqui estamos todos bem e damos graas a Deus pelas notcias de sua chegada s colnias. Envio esta carta em nome da Yocasta Cameron, esperando que estejam em sua companhia.
       Jenny te pede que sades afetuosamente  tia. Ter-te dado conta de que j recuperaste o afeto de minha esposa, pois deixou que fazer referncias  castrao, o qual deve ser um grande alvio para ti.      
       Arrumamo-nos isso para alimentar a todos, embora a cevada sofreu muito pelo granizo e dois meninos morreram na aldeia por causa da disenteria.
       Uma nota alegre: notcias do Michael de Paris, os negcios prosperam e pensa casar-se logo. E tambm o nascimento de meu ltimo neto, Anthony Brian Montgomery Lyie. Seu pai, Pal,  soldado e est na Frana. Maggie e o menino esto conosco.
       Veio a nos visitar Simn, lorde Lovat, junto com seus companheiros. Outra vez est recrutando soldados para o regimento que comanda. Simn nos contou histrias sobre a reputao que adquiriram nas colnias por sua valentia na luta contra os ndios e os malvados franceses, embora duvide muito da verdade de tudo o que diz.
       
       Jamie riu zombador e deu a volta  folha. A carta continuava no mesmo tom, com notcias da famlia, toda classe de informaes sobre a granja e assuntos da comarca. A emigrao, escrevia Ian, tornou-se uma epidemia.
       A segunda carta tambm estava escrita pelo Ian, mas punha "Pessoal" debaixo do selo azul.
       -E isto o que ser? -murmurou Jamie, rompendo o selo.
       A carta comeava sem introduo.
       
       Agora, irmo, um assunto que me preocupa. Escrevo-te por separado para que possa compartilhar com o Ian a carta larga sem lhe ensinar esta.
       Em sua ltima carta, falava de mandar ao Ian em um navio desde o Charleston. Se isso j aconteceu,  obvio que o receberemos com alegria. Entretanto, se no fora assim, nosso desejo  que permanea contigo, se no ser uma molstia para ti e para o Claire.
       
       -Molesto para mim -murmurou Jamie e contemplou ao Ian pela janela, jogando e derrubando-se pela erva junto a Cilindro e dois jovens escravos.
       Murmurou e seguiu lendo.
       
       mencionei ao Simn Fraser e a causa de sua presena aqui. No lhe resulta difcil recrutar jovens que aceitem os xelins do Rei. O que outra possibilidade h aqui para eles? Pobreza e necessidade, sem esperana de melhorar. Para que vo se ficar aqui onde no tm nada para herdar e lhes probem o uso da roupa escocesa ou o direito a ter armas? por que no foram aproveitar a oportunidade de receber uma espada para lutar?
       
       Jamie levantou a vista e me olhou com uma sobrancelha arqueada.
       -Alguma vez teria pensado que Ian podia ser to potico, verdade?.
       
       O jovem Jamie e Michael esto bem, ao menos a nenhum dos duas os prova a vida de soldado. Mas Ian  diferente; j conhece moo e seu esprito de aventura, to similar ao teu. Aqui no h trabalho para ele. E o que faria em um mundo que lhe oferece a possibilidade de escolher entre ser mendigo ou soldado? 
       Por isso, preferimos que fique contigo, se voc o aceitar. No Novo Mundo ter mais oportunidades e, embora no fora assim, ao menos sua me se evitar a dor de ver partir para seu filho com o regimento.
       No posso pedir melhor tutor ou exemplo para ele que voc mesmo. Sei que te estou pedindo um grande favor. Entretanto, espero que a situao tambm seja benfica para t,  parte,  obvio do "grande prazer" de gozar da companhia do Ian.
       
       -No  s um poeta, tambm  um humorista -fez notar Jamie.
       
       Espero, irmo, que meus pensamentos lhe resultem claros, embora tema te ofender ao pedir este favor.
       O que me preocupa  que, pese ao afeto que nos une, vi em seus olhos a mesma frieza de ao que tm os olhos do Simn. E isso tem feito que muitas vezes temesse por sua alma.
       No falei com o Jenny disso, mas ela tambm o viu.  uma mulher e, alm disso, conhece-te melhor que eu. Acredito que essa foi a causa de que pusesse no caminho ao Laoghaire. No acreditei que sasse mau, mas (havia uma larga tachadura). Tem sorte de ter ao Claire. Falei-te que o Simn; seu nico lao com a humanidade, agora,  ocupar-se de seus homens. Esse homem tem fogo em seu interior, mas no tem corao. Espero que nunca tenha que dizer isso de ti ou do jovem Ian.
       Deus benza a todos. Escreve logo que possa.
       Desejamos ter notcias tuas e das exticas regies que agora habita.
       Seu carinhoso irmo,
       Ian Murrai
       
       Com cuidado, Jamie dobrou a carta e a guardou no bolso.
       -Mmm -foi seu comentrio.
       
       11
       A lei do derramamento de sangue
       
       Julho de 1767
       
       Pouco a pouco, fui acostumando ao ritmo de vida do River Run. A presena dos escravos me turvava, mas era muito pouco o que podia fazer a respeito, salvo utilizar o menos possvel seus servios, me ocupando de minhas coisas.
       No River Run se gabavam de ter um pequeno lugar onde se secavam as ervas e guardavam os remdios. A Yocasta adorou que eu queria utiliz-lo. Ela no tinha talento para os remdios, explicou com um encolhimento de ombros, e os escravos tampouco.
       -H uma mulher nova, que pode ter alguma habilidade nesse tema -disse-. No  uma pulseira da casa; veio diretamente da frica faz um par de meses e no tem maneiras, nem sabe falar. Tinha pensado em ensin-la, mas j que est voc aqui...
       Enquanto passava parte do dia conversando com a Yocasta e tentando aprender dela a arte de fiar l, Jamie estava com o Ulises que, alm de ser os olhos da Yocasta e o mordomo da casa, levava as contas da plantao da morte do Hctor Cameron.
       -Fez muito bom trabalho -disse-me Jamie em privado-. Se fosse um homem branco minha tia no teria tido problemas em que fora ele quem se encarregasse de seus assuntos. Mas sendo assim... -encolheu-se de ombros. 
       -Mas sendo assim,  uma sorte para ela que voc esteja aqui -pinjente.                                                
       - o menos que posso fazer -respondeu com os olhos cravados nas botas que lustrava. Seus lbios se endureceram por um momento-. Por outra parte, tampouco tenho nada mais que fazer, verdade?
       
       -Um jantar -declarou Yocasta, poucos dias depois-. Tenho que dar uma festa para lhes apresentar s pessoas do condado.
       -No faz falta, tia -disse brandamente Jamie, levantando a vista de seu livro-. Acredito que j conheci a maioria a semana passada na compra de madeiros. Ou ao menos  parte masculina -acrescentou com um sorriso.
       -No me importaria conhecer algum mais -admiti-. No  que no tenha muitas ocupaes aqui -assegurei a Yocasta-, mas...
       -Mas no das que lhe interessam -respondeu com um sorriso que suavizou o comentrio-. Acredito que voc no gosta de muito o trabalho com as agulhas.
       -Claro que gosta das agulhas -assinalou Jamie, fechando seu livro e sonrindome-. Mas ao Claire gosta mais costurar feridas. Suponho que esteve inquieta estes dias porque s teve uma cabea golpeada e um caso de hemorroides.
       -Ja, ja -pinjente, embora em realidade tinha razo-. Espero que Marsali esteja bem -disse para trocar de tema.
       Fergus, convencido ao fim de que Jamie no o necessitaria por um tempo, foi-se rio abaixo, para o Wilmington, onde embarcaria rumo  Jamaica. Se tudo saa bem, retornaria na primavera com o Marsali e a criatura.
       -Eu tambm -respondeu Jamie-. Disse ao Fergus...
       Yocasta voltou a cabea para a porta.
       -O que acontece, Ulises?
       Absorta na conversao, no tinha notado os passos no corredor. De novo, assombrou-me a acuidade do ouvido da Yocasta.
       -O senhor Farquard Campbell -disse com calma o mordomo.
       A familiaridade do Campbell com a casa ficou demonstrada, pensei, porque no esperou a que Ulises lhe convidasse a entrar.
       -Eu, senhora Fraser -disse com uma leve inclinao para nos saudar-. Para lhe servir, senhor-disse dirigindo-se ao Jamie.
       -O que acontece, Farquard? ocorreu algo?
       Yocasta se inclinou com o rosto cheio de ansiedade..respondeu bruscamente-. Um acidente na serraria. vim a lhe pedir  senhora Fraser...
       -Sim  obvio. Deixe que procure minha caixa. Ulises, pode fazer que algum me traga um cavalo?
       Pu-me em p com rapidez, mas Campbell me deteve com um gesto.       
       -No  necessrio que venha, senhora Fraser. Se seu marido pode trazer algumas de seus remdios, acredito que...
       -Claro que vou -afirmei.
       -!No! -exclamou bruscamente e todos o olhamos. Seus olhos procuraram os do Jamie e fez uma careta-. No  assunto para senhoras. Mas agradeceria muito sua companhia, senhor Fraser.
       Yocasta se tinha posto em p antes de que eu pudesse protestar, aferrando-se ao brao do Campbell.
       -O que passou? -perguntou-.  um de meus negros? Byrnes fez algo?
       Campbell olhou de esguelha ao Ulises e logo a Yocasta. Como se tivesse recebido uma ordem, o criado abandonou a habitao.
       - um assunto de derramamento de sangue. Eu -disse com calma-. No sei de quem, nem como aconteceu, nem sequer a seriedade da ferida. O moo do MacNeill veio a me buscar. Quanto ao outro... -encolheu-se de ombros, vacilando-.  a lei.
       -E voc  o juiz! -estalou-. Pelo amor de Deus, no pode fazer nada?
       -No! -disse com brutalidade e logo, com mais amabilidade, repetiu-: No. -Agarrou-lhe a mo e a sustentou com fora-. Sabe que no posso. Se pudesse...
       -Se pudesse, no o faria -disse com amargura. Liberou sua mo e deu um passo atrs com os punhos crispados-. V, ento. Chamaram-lhe para que seja o juiz; v e lhes d o julgamento que querem.
       Girou sobre seus tales e abandonou a habitao agitando sua saia com fria.
       foi seguir a mas o deteve o rudo de uma portada. Deixou escapar um suspiro e se voltou para o Jamie.
       -Vacilei antes de lhe pedir este favor, senhor Fraser, j que nos conhecemos pouco. Mas lhe agradeceria que me acompanhasse. J que a senhora Cameron no poder estar presente, voc poderia represent-la neste assunto...               
       -Mas qual  o assunto, senhor Campbell? -interrompeu Jamie.
       - a lei desta colnia. Se um negro atacar a uma pessoa branca e a faz sangrar, deve morrer por seu delito. -Fez uma pausa a contra gosto-. Felizmente, estas circunstncias so pouco habituais. Mas quando ocorrem... -deteve-se com os lbios rgidos-. Devo ir. Quer vir, senhor Fraser?
       -Irei -respondeu bruscamente.
       Foi at o aparador e abriu a gaveta onde estavam guardadas as pistolas de duelo do defunto Hctor Cameron.
       -H algum perigo? -perguntei ao Campbell.
       -No posso dizer-lhe senhora Fraser -disse Campbell, encolhendo-se de ombros-. Donaid MacNeill s me disse que houve uma briga na serraria e que era um assunto relacionado com a lei de derramamento de sangue. Pediu-me que fora em seguida para julgar e presenciar a execuo e foi se procurar aos outros proprietrios antes de que pudesse lhe tirar mais informao.
       -Execuo? Quer dizer que tm a inteno de executar a um homem sem saber o que fez?
       -Eu sei o que fez, senhora Fraser! -Campbell levantou a mandbula, tragando com dificuldade em um esforo por controlar-se-. Peo-lhe perdo, senhora. Sei que voc  nova aqui e encontrar nossos mtodos duros, e inclusive desumanos, mas...
       -Claro que os encontro desumanos! Que classe de lei  a que condena a um homem...?
       -Um escravo.
       -Um homem! Conden-lo sem um julgamento, sem uma investigao. Que classe de lei  essa?
       -Uma m lei, senhora! -respondeu furioso-. Mas  a que h e eu sou o encarregado de que se cumpra. Senhor Fraser, est preparado?
       -Sim, estou-o. -Jamie terminou de guardar as pistolas e as munies nos bolsos de seu casaco e se endireitou-, Sassenach, vou Y...
       -!Jamie por favor! No v, no pode formar parte disto!
       -Calma -apertou-me a mo-. J sou parte disto.  a propriedade de minha tia e seus homens esto envoltos. O senhor Campbell tem razo, sou seu parente.  meu dever ir, ao menos para ver o que acontece. Estar ali...
       Vacilou, como se fora a dizer algo mais, mas me oprimiu a mo e a soltou.
       -Ento, vou contigo -pinjente com tranqilidade.
       -Esperava que o fizesse, Sassenach. v procurar sua caixa, quer? vou ocupar me dos cavalos.
       
       Encontramo-nos com o Andrew MacNeill no caminho. Estava com seu cavalo  sombra de um castanho.
       -No o disse Campbell? -perguntou, olhando com desgosto ao Jamie-. Isto no  um assunto para mulheres, senhor Fraser.
       -Vocs o chamam assunto de derramamento de sangue, no? -perguntou Jamie-. Minha esposa  ban-lighiche, viu a guerra e coisas piores. Se desejarem que eu v, ela vir comigo.
       MacNeill apertou os lbios, mas no discutiu mais.
       -MacNeill, por favor, nos informe deste desgraado assunto. -Campbell adiantou seu cavalo ficando entre o Jamie e MacNeill-. O senhor Fraser acaba de chegar, como j sabe, e seu moo s me disse que era um assunto de derramamento de sangue. No conheo mais detalhes.
       Contou-nos a histria enquanto cavalgvamos: Byrnes, o capataz da serraria, tinha tido uma briga com um de quo escravos trabalhavam com a terebintina. Este ltimo, armado com o comprido faca que utilizava em sua tarefa, tinha tentado resolver o assunto cortando a cabea do Byrnes, mas solo conseguiu lhe cortar uma orelha.
       -Foi como se descascasse um pinheiro -disse MacNeill com certa complacncia-. Cortou-lhe a orelha e parte da cara. O certo  que no piorou muito a bolsa de pus que tem por cara.
       Era evidente que Byrnes no estava muito bem visto pelos donos das plantaes locais.
       O capataz tinha pedido ajuda lanando alaridos. Entre dois clientes e vrios escravos tinham podido submeter ao atacante. Uma vez estancada a ferida e o escravo encerrado em uma cabana, o jovem MacNeill (que tinha ido procurar uma serra e se encontrou, inesperadamente, no meio do drama) foi enviado imediatamente a dar a notcia nas plantaes vizinhas.
       -Voc no deve saber -explicou Campbell, dirigindo-se ao Jaime- que quando executam a um escravo, avisa-se s plantaes vizinhas para que todos os escravos atiram  execuo.  uma boa maneira de impedir futuras desgraas.
       -J entendo -disse amavelmente Jamie-. Acredito que essa era a teoria da Coroa quando executou a meu av no Tower Hill, depois da insurreio. E sem dvida  muito efetivo, pois todos meus parentes se comportam bem aps.
       MacNeill captou a mensagem e sua nuca avermelhou at parecer o cangote de um peru. Campbell lanou uma risada curta e seca antes de d-la volta.
       -Que escravo foi?
       -O jovem Donaid no o disse. Mas deve saber to bem como eu que tem que ter sido esse patife do Rufus.
       Campbell agachou a cabea ao inteirar-se.
       -Yocasta o sentir muito quando se inteirar -murmurou.
       -A culpa  dela -disse MacNeill, espantando brutalmente um tbano que se posou sobre sua bota-, Byrnes no  capaz de ocupar-se nem dos porcos e muito menos de dirigir negros. Hei-lhes isso dito muitas vezes.
       -Sim, mas Hctor o contratou -protestou Campbell-. E ela no podia lhe jogar. O que ia fazer, dirigir ela sozinha o lugar?
       -H poucas coisas piores que uma mulher teimosa -disse MacNeill, um pouco mais alto do necessrio-. No podem culpar a ningum, salvo a si mesmos, se ocorrer algo.
       -Mas -intervim, elevando a voz para me fazer ouvir por cima do rudo dos cavalos-, se lhes ocorrer algo por causa de algum homem, a satisfao de lhe culpar a ele  a compensao adequada?
       Jamie soprou divertido; Campbell lanou uma risada entrecortada e golpeou ao MacNeill nas costelas com o punho do ltego.
       -O que diz a isso, Andrew! -disse.
       MacNeill no respondeu, mas seu pescoo ficou ainda mais vermelho. Continuamos em silncio.
       "Uma m lei", tinha-a chamado Campbell, mas apesar de todo a lei. Entretanto minhas mos tremiam e suavam, no por pensar na atrocidade judicial, mas sim por me perguntar o que faria Jamie.
       No podia ler nada em seu rosto. Cavalgava depravado, com a mo esquerda nas rdeas e a direita sobre a coxa, perto do vulto da arma que guardava baixo seu casaco.
       Nem sequer estava segura de que me consolasse que me tivesse permitido lhe acompanhar. Podia significar que no esperava ter que cometer nenhuma ao violenta. Ento permitiria que seguissem adiante com a execuo?
       Era evidente que, tanto Campbell como MacNeill, consideravam que isto era problema do Jamie. Mas e ele? Considerava-o assim? Jamie no era um montanhs fechado, disse-me, era um homem culto, bem educado, que tinha viajado e sabia muito bem o que eu pensava sobre aquele assunto. Entretanto, tinha a terrvel sensao de que minha opinio ia contar muito pouco no que fora que pensava fazer.
       O chapu do Jamie se enganchou em um ramo e saiu voando. Pude ver seu rosto antes de que o resgatasse para cobrir-se outra vez. Estava tenso e a ansiedade lhe marcava as linhas da cara. Pensei que tampouco ele sabia o que ia fazer; isso foi o que mais me assustou. Ento chegamos ao bosque de pinheiros e foi como inundar-se nas profundidades de um mar verde e tranqilo.
       Enquanto me perguntava o que teriam feito com a orelha do Byrnes, surpreendeu-me um zumbido que no era devido s cigarras. Campbell, que ia  cabea, deteve-se de repente a escutar e o resto o imitamos.
       Eram vozes que chegavam de longe, muitssimas vozes formando um zumbido profundo e enfurecido, como um enxame de abelhas.
       Galopamos pela ltima ladeira para chegar at o claro da serraria. Estava cheio de gente: escravos, empregados, mulheres e meninos, formando redemoinhos-se entre as madeiras.
       Ento perdi a conscincia da multido e toda minha ateno se dirigiu para um lado da serraria, onde tinham instalado uma espcie de grua com polias, com um enorme gancho curvado para levantar os troncos.
       O corpo de um homem negro estava empalado no gancho agitando-se como um verme. Havia um atoleiro na plataforma e seu aroma, doce e quente, estendia-se pelo ar.
       Fiquei petrificada, incapaz de me mover. Havia outros homens na plataforma prxima, entre eles um pequeno, com a cabea grotescamente enfaixada e manchas de sangue em um lado, rodeado por brancos e mulatos armados com paus e mosquetes que ameaavam  multido.
       No era porque desejassem aproximar-se, a no ser justamente o contrrio; parecia haver uma urgncia geral para afastar-se dali. As expresses dos rostos foram do medo ao desespero, passando pela ira..., ou era satisfao?
       Farquard Campbell se aproximou da plataforma, seguido pelo MacNeill, agitando as mos e gritando algo que no entendia aos homens armados com paus. Jamie chegou at a plataforma e subiu atrs deles, ajudando ao MacNeill.
       Campbell se situou frente a Byrnes.
       -... uma brutalidade inqualificvel! -gritava.
       Suas palavras chegavam entrecortadas, mas vi como assinalava enfaticamente o gancho. O escravo tinha deixado de debater-se e pendurava inerte.
       Observei ao Jamie que, depois de avaliar os fatos, tirou as duas pistolas, comprovou que estivessem carregadas, deu um passo para diante e apoiou uma na cabea enfaixada do Byrnes. O capataz ficou rgido.
       -Baixa-o -ordenou Jamie ao valento mais prximo, em voz o bastante forte para fazer-se ouvir por cima do tumulto-. Se no o fizer, voarei o que fica da cara de seu amigo. E logo...
       Levantou a segunda pistola e apontou ao peito do homem.
       O homem se moveu a contra gosto, com os olhos cravados na pistola. Agarrou a alavanca que controlava o mecanismo e o fez funcionar. O gancho descendeu lentamente e, quando o corpo chegou ao cho, ouviu-se um suspiro coletivo entre a gente.
       Estava vivo e seu peito se movia com curtos ofegos. O gancho tinha atravessado o estmago, passando atravs da parte baixa da caixa torcica e saindo pela parte traseira, a
       Par,    dos rins. Sua pele tinha adquirido um aterrador azul cinzento e os lbios uma cor argilosa.
       -Shh -pinjente brandamente.
       Seus olhos, com as pupilas dilatadas, delatavam uma profunda incompreenso.
       No havia sangre em sua boca, o que indicava que os pulmes no tinham sido danificados. A respirao era ofegante mas rtmica, o diafragma tambm estava intacto. Minhas mos o percorreram com suavidade enquanto minha mente tratava de avaliar os danos.
       detrs de mim se desatou uma discusso; uma pequena parte de meu crebro registrou que os companheiros do Byrnes, capatazes de duas plantaes vizinhas, censuravam vigorosamente ao Campbell.
       -... uma flagrante violao da lei! Tero que dar conta disto ante a Corte, cavalheiros, podem estar seguros de que ser assim!
       -Qual  o problema? -perguntou uma voz grave e mal-humorada-. H derramamento de sangue... e mutilao! Byrnes tem seus direitos!
       -No para tomar esta deciso -interveio MacNeill-. Canalhas, isso  o que so, no so melhores que...
       -Necessita algo, Sassenach?
       No o tinha ouvido chegar.
       -No sei-pinjente.
       Ouvia as discusses, mas a nica realidade estava baixo minhas mos. Um pensamento nublou minha mente; no era seguro que pudesse manter ao homem com vida; em meio de meus pensamentos apareceu tudo o que podia sair mau: uma hemorragia ao tirar o gancho era o mais imediato. Hemorragias internas, intestino perfurado, peritonitis e vrias possibilidades mais.
       -Ilegalidade! -dizia Campbell; sua voz aumentava de tom com a discusso-. No se pode tolerar, no importa qual seja a provocao. Podem estar seguros de que todos vocs tero que prestar contas sobre isto!
       Ningum emprestava ateno ao verdadeiro objeto da discusso. S tinham acontecido uns segundos e tinha poucos mais para atuar. Coloquei uma mo sobre o brao do Jaime apartando sua ateno do debate.
       -Se consigo lhe salvar, deixaro que viva? -perguntei em um sussurro.
       Seu olhar percorreu aos homens que tinha a minhas costas, calculando as possibilidades.
       -No -disse, brandamente.
       -me d a terceira garrafa da esquerda -pinjente, assinalando minha caixa.
       Tinha duas garrafas de lcool puro e outra de brandy. Derrubei uma boa dose de raiz em p no brandy e o agitei. Logo me arraste at a cabea do homem e apertei a garrafa contra seus lbios.
       Embora seus olhos estavam frgeis, tratei de me olhar neles para que me visse. Para que?, perguntava-me enquanto o chamava por seu nome. No podia lhe perguntar se esse era seu desejo, pois j tinha decidido por ele. Uma vez tomada a deciso j no podia pedir aprovao ou perdo.
       Tragou. Uma vez. Dois. Os msculos que rodeavam sua boca se estremeceram e gotas de licor se deslizaram por sua pele. Outro gole e seu pescoo se relaxou, deixando cair pesadamente sua cabea sobre meu brao.
       Permaneci sentada, com os olhos fechados, sustentando sua cabea e tomando o pulso por debaixo da orelha. acelerava-se, acalmava-se e voltava a acelerar-se. A descrio do livro de texto apareceu em minha mente. Intumescimento. Formigamento. Uma sensao na pele, como se fora picada como insetos. Nuseas, dor epigstrica. Respirao dificultosa, pele fria e mida, palidez. Pulso dbil e irregular, embora a mente permanece lcida.
       Tentei no ouvir, no sentir nada salvo o batimento do corao baixo meus dedos. Tratei com todas minhas foras de sossegar as vozes e os murmrios, o calor, o p e o aroma do sangue; quis esquecer onde estava e o que fazia. "Embora a mente permanece lcida." "Maldita seja -pensei-.  certo."
       
       12
       A volta do John Quincy Myers
       
       Yocasta profundamente afetada pelos acontecimentos da serraria, tinha declarado que, apesar de tudo, tinha a inteno de seguir adiante com a festa que tinha planejado.
       -Far-nos esquecer tanta tristeza -disse com firmeza-. Mandarei que Fedra te faa um vestido novo.  muito boa costureira.
       Pensei que necessitaria algo mais que um vestido novo e um jantar para distrair minha mente, mas calei ao ver o olhar de aviso do Jamie.
       Dada a falta de tempo e de tecido adequado, Yocasta decidiu que me arrumassem um de seus vestidos.
       -Como fica, Fedra? -Yocasta me olhou com o rosto carrancudo, como se pudesse recuperar a vista por pura vontade-. Resultar?
       -Est muito bem -respondeu a faxineira-. Ela  mais baixa que voc, senhorita Eu, e tem algo menos de cintura. Mas seu busto  maior -acrescentou em tom mais baixo, sonrindome.
       -Sim, isso j sei -disse asperamente Yocasta, que tinha ouvido o comentrio-. Curta o suti, podemos aument-lo com encaixe de Valncia sobre seda verde. Agarra um pedao dessa velha bata de meu marido;  da cor adequada.
       -Tem uma memria notvel das cores -pinjente, surpreendida.
       -Lembrana muita bem esse vestido -respondeu, tocando brandamente a manga-. De que cor  seu cabelo, querida? No lhe tinha perguntado isso. Imagino que deve ser loiro ou um pouco parecido, mas em realidade no sei. Por favor, no me diga que tem o cabelo moreno e a pele ctrica.
       Sorriu, mas sua brincadeira soou como uma ordem.
       - castanho -pinjente, um pouco coibida, me tocando o cabelo-. Embora com mechas mais claras.
       Franziu o sobrecenho, como se considerasse se podia ser aceitvel ou no. voltou-se para a faxineira procurando ajuda.
       -Est muito bem, senhorita Eu -disse Fedra, assentindo-. Muito bem. Tem a pele branca, branca como o leite, e o verde brilhante lhe favorece.
       -Mmm. Mas as anguas so de cor marfim. No parecer muito branca?
       Eu no gostava que falassem como se eu fora um adorno defeituoso, mas me traguei as objees.
       -No, senhora -disse-. Tem os mas do rosto altos e os olhos castanhos, mas no cria que so da cor do barro. Recorda esse livro que tem, com fotos de animais estranhos?
       -Se te referir ao Relatrio de uma explorao s ndias Ocidentais -disse Yocasta-, sim, recordo-o. Ulises me leu isso o ms passado. Quer dizer que a senhora Fraser recorda a uma das ilustraes? -riu divertida.
       -Mmm. -Fedra no tinha afastado os olhos de mim-. Parece-se com o grande gato -disse me olhando fixamente-. Ao tigre que olhava entre a maleza.
       Por um instante, o rosto da Yocasta demonstrou surpresa.
       -V -disse renda-se.
       Mas no voltou a me tocar.
       
       Fiquei no vestbulo arrumando o adorno de seda verde que havia sobre meu peito. A reputao da Fedra como costureira ficou demonstrada; o vestido ficava como uma luva e as franjas de cetim cor esmeralda brilhavam sobre as mais plidas de cor marfim.
       Ulises baixava pela escada com seu librea impecvel. Movi-me e voltou a cabea observando o movimento de minhas saias. Seus olhos se dilataram com uma expresso de admirao sincera. Baixei a vista e sorri. Ento lhe ouvi ofegar. Levantei a cabea e descobri que seus olhos seguiam muito abertos e demonstravam medo. Sua mo se aferrava com tanta fora aos passamanes que seus ndulos brilhavam.                
       -me perdoe, senhora -disse com voz sufocada, e passo rapidamente a meu lado com a cabea baixa.
       -Que diabos...? -disse em voz alta.
       Ento recordei o lugar e o tempo em que estvamos. depois de tanto tempo s em uma casa com uma senhora cega e sem amo, tornou-se descuidado. Tinha esquecido seu amparo bsico e fundamental, o nico amparo que tinha um escravo: um rosto inexpressivo que no manifestasse nunca seus pensamentos.
       No era estranho que se assustou ao dar-se conta de como me tinha cuidadoso. O mordomo tinha medo, embora comigo estava seguro pois me comportaria como se nada tivesse ocorrido e as coisas seguiriam como sempre. O som de uns passos na galeria interrompeu meus pensamentos.
       Olhei para cima e fiquei boquiaberta.
       Um highlander luzindo tudo seus ornamentos  algo impressionante, no importa a idade ou a aparncia. Mas um montanhs alto, arrumado e na plenitude da vida, curta a respirao.
       No usava a saia escocesa da poca do Culloden, mas seu corpo no tinha esquecido como lev-la.
       -OH! -exclamei.
       Por um momento o vi como a manh em que nos casamos. A cor do tartn era quase o mesmo, quadros negros sobre um fundo vermelho e sujeito a suas costas com um broche de prata. A camisa era mais elegante, quo mesmo a casaca e a adaga com incrustaes de ouro no punho que levava na cintura. Duine nasal era o que parecia, um homem de fortuna.
       -Para servi-la, senhora -disse.
       E descendeu o ltimo lance da escada com um sorriso radiante.
       -Estas estupendo -disse com um n na garganta.
       -No est mau -aceitou sem falsa modstia.
       - do Hctor Cameron?
       Senti-me ridiculamente tmida ao tocar o punho da faca.
       -Agora  meu. Deu-me isso Ulises com os melhores desejos de minha tia.
       Captei algo estranho no tom de sua voz. Pese ao bvio agradar de voltar-se para vestir assim, algo lhe turvava. Toquei-lhe a mo.
       -O que anda mau?
       -Eu no diria que nada v mau.  s que...
       interrompeu-se ante o som de uns passos na escada e me apartou para deixar passar a uma pulseira com um monto de roupa branca.
       -Podemos falar aqui -murmurou-. Sassenach, poderia me fazer um favor durante o jantar? Se te fizer um sinal -e se atirou do lbulo da orelha- poder lhes distrair? No importa o que faa, tomba o vinho, crava a seu companheiro de mesa com o garfo...
       Fez-me uma careta zombadora e isso me tranqilizou. O que lhe preocupava no era uma questo de vida ou morte.
       -Posso faz-lo -assegurei-lhe-. Mas o que...
       abriu-se uma porta na galeria e a voz da Yocasta dando as ltimas indicaes a Fedra chegou at ns. Para ouvi-la, Jamie me beijou e se afastou rapidamente.
       - voc, querida Claire?
       Yocasta se deteve no ltimo degrau, com a cabea volta para mim.
       -Assim  -respondi e lhe toquei o brao para que soubesse onde estava. 
       -Notei o aroma de cnfora do vestido -disse em resposta a minha pergunta no formulada enquanto me agarrava do cotovelo-. Pareceu-me escutar a voz do Jamie. Est por aqui?
       -No -respondi com convico-. Acredito que foi a receber aos convidados.
       -Ah! -Sua mo apertou meu brao e suspirou com uma mescla de satisfao e impacincia-. No sou das que se lamentam ante o irreparvel, mas juro que daria um de meus olhos se conseguisse ver com o outro ao Jamie com o tartn.
       Sacudiu a cabea e os diamantes de suas orelhas refletiram a luz. Levava um vestido de seda azul escuro que contrastava com seu brilhante cabelo branco.
       -Ah, bem! Onde est Ulises?
       -Aqui, senhora.
       Tinha aparecido to rpido que no lhe ouvi chegar.
       -Vamos, pois -disse agarrando-se de seu brao.
       Arrumei-me o cabelo e me preparei para conhecer os convidados da Yocasta. Tinha a sensao de que me apresentariam em uma bandeja de prata, com uma ma na boca.
       
       A lista de convidados podia ler-se como o Quem  quem de Cape Fear River, se  que existia aquele livro. Campbell, Maxwell, Buchanan, MacNeill, MacEachern... sobrenomes das montanhas, sobrenomes das ilhas. MacNeill de Barra Meadows, MacLeod do Islay... muitos dos sobrenomes dos donos de plantaes tinham o sabor de seus orgenes, quo mesmo seu acento. O galico ressonava nos altos tetos.
       Eram muito poucos quo convidados no eram escoceses: um qualquer, corpulento e sorridente, com o pitoresco nome do Hermon Husband; um cavalheiro alto e enxuto chamado Hunter e, para minha surpresa, Phillip Wylie, imaculadamente vestido, com peruca e empoeirado.
       -Assim voltamos a nos encontrar, senhora Fraser -fez notar, retendo minha mo muito mais tempo do socialmente correto-, Confesso que estou encantado de voltar a v-la!
       -O que est fazendo aqui? -perguntei, quase com grosseria.
       Sorriu com descaramento.
       -Trouxe-me meu anfitrio, o nobre e poderoso senhor MacNeill de Barra Meadows, a quem acabo de comprar um excelente par de tordos. Permite-me lhe dizer, senhora, o bem que lhe sinta a cor verde?
       -Suponho que no poderia evit-lo.
       -Isso, por no falar do efeito das luzes em sua pele. "Seu pescoo  uma torre de marfim" -citou, tocando a palma de minha mo com seu polegar de forma insinuante.
       -Seu nariz  como a torre do Lbano, que olhe para Damasco -respondi, com um olhar significativo para seu nariz aristocrticamente pronunciada.
       Lanou uma gargalhada, mas no partiu.
       -Quantos anos tem? -perguntei, lhe olhando com seriedade
       E tratando de que me soltasse a mo.
       -Vinte e cinco, senhora -respondeu, surpreso-. Estou indecentemente ojeroso?
       -No, s desejava estar segura de que ia dizer lhe a verdade ao lhe informar de que tenho idade para ser sua me.
       A notcia no pareceu lhe turvar no mais mnimo. Em troca, levantou minha mo at seus lbios e a oprimiu com ardor.
       -Estou encantado -ofegou-. Posso cham-la mama?. 
       Ulises estava detrs da Yocasta, a poucos passos dali. Liberei minha mo da do Wylie e dava um golpe no ombro ao mordomo.
       -Ulises -pinjente-, seria to amvel de te assegurar de que o senhor Wylie se sente perto de mim no jantar?
       -claro que sim, senhora, ocuparei-me disso -assegurou.
       O senhor Wylie fez uma extravagante reverencia para demonstrar sua gratido. Fiz-lhe um gesto com a mo, pensando em como ia desfrutar quando chegasse o momento de lhe cravar o garfo.
       
       No sei se foi sorte ou fruto de um plano, mas me encontrei sentada entre o senhor Wylie e o qualquer senhor Husband e frente ao senhor Hunter, que tampouco falava galico. Formvamos uma pequena ilha de ingleses em meio de muito turbulentos escoceses.
       Jamie apareceu no ltimo momento e se sentou na cabeceira, com a Yocasta a sua direita. Uma vez mais, voltei a me perguntar o que estava ocorrendo. Mantive o olhar fixo nele e um garfo preparado para a ao, mas chegamos ao terceiro prato sem que ocorresse nada.
       -Voc perguntava pelos reguladores, senhora Fraser? -Husband fez um gesto com a cabea-. Devo lhe recomendar que pergunte ao senhor Hunter, pois os reguladores desfrutam dos benefcios de sua direo.
       O senhor Hunter inclinou a cabea ante o completo.
       -No somos mais que um grupo -disse com modstia, deixando sua taa de vinho-. Em realidade, deveria me negar a qualquer ttulo. Mas tenho a sorte de ter minha propriedade situada no lugar idneo para reunimos.
       -ouvimos que os reguladores so s uma chusma turbulenta -disse Wylie-. Sem lei e inclinados  violncia contra os legalmente autorizados deputados da Coroa.
       -Realmente no  assim -assinalou o senhor Husband, ainda com mansido. Surpreendeu-me ouvir que aceitasse sua relao com os reguladores; talvez o movimento no era to violento e anrquico como dizia Wylie-. Ns s procuramos justia e isso no  algo que possa conseguir-se com a violncia; porque onde aparece a violncia, com toda segurana a justia escapa.
       -A justia aparentemente se escapou! Ou essa  a impresso que me deu o juiz Dodgson quando falei com ele a semana passada. Ou  que se equivocou, senhor, ao identificar aos rufies que invadiram seu escritrio, lhe golpeando e lhe arrastando at a rua?
       Wylie sorriu graciosamente ao Hunter.
       -O juiz Dodgson -disse com claridade Hunter-  um agiota, um ladro, uma desgraa para a lei Y...
       Fazia um momento que ouvia rudos fora, mas pensei que era alguma discusso na cozinha, separada da casa principal.
       Mas agora os rudos eram mais claros e uma voz familiar me distraiu das denncias do senhor Hunter.
       -Duncan!
       Incorporei-me para me levantar e as cabeas dos que me rodeavam se voltaram.
       As conversaes se apagaram e todos emprestaram ateno ao que acontecia. Vi que Jamie jogava sua cadeira para trs, mas antes de que pudesse levantar-se, algum apareceu na porta.
       Era o gigantesco John Quincy Myers. Ocupava toda a soleira da dobro porta aberta e se inclinava baixo o marco, observando a reunio com os olhos injetados em sangue.
        lombriga fez uma careta de temeroso agradecimento.
       -Est voc aqui -disse com profunda satisfao-. Ela disse que devia estar bbado antes de que me cortasse. Assim j estou bbado.
       Fez uma pausa balanando-se perigosamente enquanto levantava a garrafa. Deu um passo e se desabou. Duncan apareceu na porta e olhou a figura prostrada no cho; logo com ar de desculpa se dirigiu ao Jaime.
       -Tentei lhe deter, MAC Dubh.
       Levantei-me de meu assento e cheguei at o homem ao mesmo tempo que Jamie. Seguia-nos uma onda de curiosos convidados. Jamie me observou com as sobrancelhas arqueadas.
       -Bom, disse que devia estar inconsciente -observou. inclinou-se sobre o gigante e lhe abriu um olho-. Acredito que ele j fez sua parte.
       -O lcool no  um bom anestsico -pinjente, sacudindo a cabea-.  um veneno. Deprime o sistema nervoso central e acrescenta ao perigo da operao a intoxicao alcolica, o que pode lhe causar a morte.
       -No seria uma grande perda -disse algum, mas lhe fizeram calar.
       -Que lstima esbanjar tanto brandy -disse Wylie e todos riram-. ouvimos falar de sua habilidade, senhora Fraser. Agora tem a oportunidade de demonstr-lo ante testemunhas!
       Fez um gesto para os convidados.
       -Deixe de chatear! -pinjente zangada.
       -A, a! -exclamou algum, sem ocultar sua admirao.
       Wylie piscou, surpreso, e ampliou o sorriso.
       -Seus desejos so ordens para mim, senhora -murmurou, retirando-se.
       Incorporei-me curvada pelas dvidas. Podia funcionar. Tecnicamente, era uma operao singela e no demoraria mais que uns poucos minutos se no apareciam complicaes. Observei o rosto do Jamie para procurar conselho. Estava ali, detrs de mim, e viu a pergunta em meus olhos. Bom, que demnios, ele queria uma distrao.
       -Melhor que o faa, Sassenach. -Jamie olhou o corpo prostrado-. Talvez no volte a ter o valor ou o dinheiro para embebedar-se desse modo outra vez.
       A cabea da Yocasta apareceu sobre as costas do MacNeill.
       -Levem a salo -disse rapidamente.
       J tinha tomado a deciso por mim.
       No havia tempo para me trocar de roupa, assim que me deram um avental de aougueiro, feito de couro, para cobrir meu vestido e Fedra me levantou as mangas para me deixar os braos nus.
       Para que tivesse mais luz trouxeram candelabros e velas. O salo se encheu de um aroma de cera que no conseguia ocultar a fragrncia do mesmo Myers. Sem vacilar, agarrei o garrafo do aparador e orvalhei de brandy seu entrepierna, coberta por um escuro plo encaracolado.
       -Ou maneira mais cara de matar piolhos -disse algum ao observar o xodo de pequenas formas com vida que caam arrastadas pelo lquido.
       -Ah mas morrero contentes -disse uma voz, que reconheci como a do Ian- Trouxe-te a caixa, tia.
       Abriu-a e a ps a meu lado. 
       Tirei minha valiosa garrafa azul de lcool destilado e o escalpelo de folha reta. Sustentei a folha sobre um recipiente e lhe joguei lcool enquanto examinava a concorrncia procurando ajudantes. No ia ter problemas para encontrar voluntrios. Todos tinham esquecido o jantar e faziam comentrios.
       Da cozinha chamaram dois corpulentos condutores de carruagens para sustentar as pernas do paciente. Andrew MacNeill e Farquard Campbell se ofereceram para sustentar os braos e o jovem Ian se colocou a um lado sustentando uma palmatria para ter luz suficiente. Jamie ocupou sua posio, como chefe anestesista, ao lado da cabea do paciente com um copo cheio de usque.
       Controlei que tudo estivesse ali e que as agulhas para suturar estivessem preparadas, respirei profundamente e fiz um gesto a minha tropa.
       -vamos comear.
       Passei a folha pela chama da vela, como ltima esterilizao, e fiz um corte. Nem muito profundo nem muito comprido, o suficiente para abrir a pele e deixar  vista o brilhante intestino.
       Aumentei a inciso, lavei meus dedos no recipiente e os coloquei no corte, empurrando para cima. Myers se moveu com uma sbita convulso e quase me fez cair.
       -est despertando! -gritei ao Jamie-. Lhe d mais, rpido!-Todas minhas dvidas sobre o uso do lcool como anestsico estavam pressentem, mas era tarde para trocar de idia.
       Mantive meus dedos na inciso. Havia mais sangue da que tivesse desejado, assim limpei a zona com um trapo molhado em brandy. Sim, podia ver o bordo do msculo e uma fina capa de graxa amarela baixo a pele, separando o das fibras de cor vermelha escura.
       O tempo se deteve. Embora era totalmente consciente de cada movimento, cada respirao, o atirar e empurrar da agulha enquanto apertava o anel inguinal, minhas mos no me pertenciam. Minha voz era alta e clara ao dar ordens, que eram obedecidas imediatamente. Desde algum lugar de meu crebro um pequeno observador controlava os progressos da operao. At que tudo esteve preparado e o tempo comeou a correr outra vez. Dava um passo atrs, cortando o lao que me unia ao paciente e me senti enjoada, com uma sensao de solido.
       -Feito -pinjente e o murmrio se converteu em aplausos.
       Tinha a sensao de estar intoxicada, me teria embebedado por osmose, graas ao contato com o Myers? Dava-me a volta com uma extravagante reverencia para os convidados.
       Uma hora mais tarde me tinha embebedado por mritos prprios, vtima de uma dzia de brinde em minha honra. Engenhei-me isso para escapar um momento com a desculpa de examinar ao paciente e subi ao quarto de convidados. Detive-me na galeria e me apoiei no corrimo para me tranqilizar.
       Se Jamie tinha querido uma distrao, pensei um pouco atordoada, no podia ter pedido nada melhor. O que fora que tinha que acontecer, tinha acontecido. Mas o que era?
       Myers estava profundamente dormido e a pulseira Betty moveu a cabea, sonriendo.
       -Est bem, senhora Claire -sussurrou-. No despertariam nem com um revlver.
       -Como vai? -disse uma voz.
       De ter estado menos bbada me teria sobressaltado. Mas em meu estado me limitei a me dar a volta... e descobri ao Jamie.
       -Est bem -respondi-. No poderia lhe matar nem com um canho.  como voc. -Joguei-me em seus braos e ocultei meu rosto em sua camisa-. Indestrutvel.
       Beijou-me na cabea e me recolheu os cachos de cabelo que se despentearam durante a operao.
       -Fez-o muito bem, Sassenach -sussurrou-. Muito bem feito, preciosa.
       moveu-se brandamente, pressionando sua coxa contra ele.
       -Necessita um pouco de ar, Sassenach..., e temos que falar. Pode lhe deixar um momento?
       Joguei um olhar  cama e a seu dormido ocupante.
       -Sim. Se Betty acessar a ficar com ele para nos assegurar de que no vomita e se afoga.
       Olhei  pulseira que, acostumada s ordens e surpreendida por minha forma de pedir-lhe aceitou com gosto.
       -me espere no jardim e procura no cair pelas escadas e te romper o pescoo, quer?
       Agarrou-me o queixo e me beijou, rpida e profundamente, o que me fez sentir ao mesmo tempo mais sbria e mais enjoada.
       
       13
       Um exame de conscincia
       
       Algo escuro caiu com um suave rudo no atalho. Detive-me bruscamente e me aferrei ao brao do Jamie.
       -Uma r -disse imperturbvel-. No as ouve cantar? 
       "Cantar" no era a palavra que eu escolheria para o coro que coaxava no canavial prximo ao rio. Estirou o p e roou a escura figura escondida.
       -Brequequex, cro-ac, cro-ac, -recitou-. Brequequex, cro-ac! 
       A r saltou, desaparecendo entre as novelo.
       -Sempre soube que tinha um dom para os idiomas -pinjente divertida-. Embora no sabia que tambm falava a linguagem das rs.
       -Bom, no o falo muito bem -disse com modstia-. Mas tenho um bom acento.
       Ri, mas o instante de bom humor passou e seguimos caminhando juntos, embora com as mentes separadas por milhares de quilmetros.
       Teria que ter estado esgotada, mas a adrenalina seguia correndo por minhas veias. Havia um banco baixo as rvores prximas ao mole, entre as sombras, e Jamie me conduziu at ele. sentou-se no banco de mrmore com um profundo suspiro que me recordou que no era quo nica tinha passado uma velada cheia de acontecimentos.
       -Estamos sozinhos e ningum nos observa -pinjente-. Quer me dizer que diabos passa?
       -OH, sim! -endireitou-se-. Lhe devi dizer isso antes, mas no esperava que ela fizesse isso. -Procurou minha mo na escurido-. No  nada mau, como j te disse. Mas quando Ulises foi levar me a roupa, o broche e a adaga, disse-me que Yocasta faria um anncio durante o jantar; diria a todos que me ia declarar herdeiro de... tudo isto.
       Seu isto abrangeu a casa, os terrenos e todo o resto. Pude ver tudo desenvolvendo-se como, sem dvida, Yocasta havia imaginando: Jamie sentado  cabeceira com o tartn, a adaga e o broche do Hctor Cameron (o broche com o juramento do cl dos Cameron: "Unir!") rodeado pelos velhos colegas e camaradas do Hctor, desejosos de que o jovem parente de seu amigo ocupasse seu lugar.
       Se deixava que fizesse aquele anncio, os leais escoceses, bem lubrificados pelo bom usque do defunto, aclamariam-no como o senhor do River Run. Era um minucioso plano uso MacKenzie, pensei: audaz, teatral e sem ter em conta os desejos das pessoas implicadas.
       -E se o tivesse feito -disse Jamie, fazendo-se eco de meus pensamentos com misteriosa exatido-, haveria-me flanco muito declinar tal honra.
       -Sim, muito.
       ficou em p repentinamente, muito inquieto para ficar sentado.
       -por que lhe contou isso Ulises? -perguntei.
       -pergunte-lhe isso a ti mesma, Sassenach -respondeu-. Quem  o amo agora no River Run?
       -Ah? -pinjente e logo-: Ah!
       -Sim, em efeito! -disse com secura-. Minha tia est cega, mas quem se ocupa das contas e de governar a casa? Ela pode decidir o que ter que fazer... mas quem diz quando ter que as fazer? Quem est sempre a seu lado para lhe dizer o que acontece, a quem deve escutar e em que opinies deve confiar?
       -Dou-me conta -pinjente pensativa-, No pensar que est falseando as contas ou algo assim?                     
       Esperava que no fora assim, pois eu gostava de muito o mordomo da Yocasta.
       Jamie negou com a cabea.
       -revisei as contas e tudo est em ordem; em realidade, tudo est muito bem. Estou seguro de que  um homem honrado e um servente leal, mas no seria humano se aceitasse com alegria que o substitua um estranho. -Soltou um bufido-. Minha tia pode estar cega, mas seu homem negro v com toda claridade. No disse uma palavra para me acautelar nem para me persuadir de algo, s me disse o que minha tia ia fazer e logo me deixou decidir .
       -Crie que ele sabia que no foi A...?
       Detive-me, porque no estava segura do que ele desejava.
       No respondeu. Um frio sorvete me fez estremecer e me agarrei de seu brao enquanto caminhvamos. Pensei na tentao e no verme que jaz escondido baixo uma pele brilhante. A tentao no era s para ele, mas tambm para mim. Para ele a possibilidade de ser o que era por natureza, o que o destino lhe tinha negado. Tinha nascido e se criou para isso: a administrao de uma grande propriedade, o cuidado da gente e de um lugar respeitvel entre homens de valor, seus pares. E o mais importante: a restaurao do cl e a famlia. "J formo parte disto", havia dito.
       Mas j tinha sido um latifundirio. Tinha-me falado pouco de seu passo pela priso, mas algo ressonava em minha memria. Dos homens que compartilhavam seu confinamento, havia-me dito: "Eles eram meus. E o os ter  o que me mantinha com vida". E recordei o que Ian havia dito do Simn Fraser: "O cuidado de seus homens  agora seu nico lao com a humanidade".
       Sim, Jamie necessitava a seus homens. Homens para dirigir, para cuidar, para defender-se e lutar com eles. Mas no para ser seu dono.
       De acordo, River Run era o jardim das delcias... mas eu tinha chamado amigo a um homem negro e tinha deixado a minha filha a seu cuidado.
       Ao pensar no Joe Abernathy e na Brianna, deu-me a estranha sensao de que existiam em dois lugares de uma vez. Podia ver seus rostos em minha mente e ouvir suas vozes em meu interior. E entretanto, a realidade era o homem que estava a meu lado, com a cabea inclinada e sumido em seus pensamentos. Essa era minha tentao: Jamie. O e no as camas brandas e as luxuosas habitaes, os vestidos de seda ou a posio social. Era Jamie. 
       Se no aceitava a proposio da Yocasta, deveria fazer alguma outra coisa. E "alguma outra coisa" podia ser a perigosa tentao de o William Tryon. Desde seu ponto de vista, era melhor que a generosa oferta da Yocasta; o que fizesse seria totalmente dele, a herana que queria deixar a Brianna. Se vivia para realiz-lo.                                           
       Eu seguia vivendo em dois planos diferentes. No primeiro ouvia o sussurro de seu kilt, sentia a clida umidade de seu corpo, cheirava o aroma a almscar que me fazia desejar despi-lo, apertar meu peito ao dele, atir-lo entre as novelo e me pr em cima.
       Mas no outro plano, o da memria, cheirava os discos e o vento do mar e acariciava, no um homem vivo e quente, a no ser uma tumba com seu nome.
       No falei. Nenhum o fez.
       Tnhamos dado uma volta completa e estvamos na borda do rio. Ali havia um pequeno bote com remos para um pescador solitrio ou para dar um passeio.
       -Quer que demos uma volta?
       -Sim, por que no?
       Pensei que devia ter o mesmo desejo que eu; afastar-se da Yocasta, pr certa distncia para pensar com claridade e sem perigo de interrupes.
       antes de que pudesse baixar ao bote se voltou para mim, atraiu-me e me beijou brandamente; logo me abraou com fora, apoiando seu queixo em minha cabea.
       -No sei o que fazer -disse em resposta a minhas perguntas no pronunciadas.
       Subiu ao bote e me ofereceu a mo.
       
       Permaneceu em silncio enquanto avanvamos pelo rio.
       -No vais dizer nada? -perguntou bruscamente.
       -No sou eu a que tem que escolher -respondi, sentindo que me oprimia o peito.
       -No?
       -Ela  sua tia.  sua vida. A eleio  tua.
       -E voc ser uma espectadora? -grunhiu mais que falou enquanto remava rio acima-. Ou no  sua vida? Ou, depois de tudo, no pensa seguir comigo?
       -O que quer dizer seguindo contigo?
       Endireitei-me, surpreendida.
       -Talvez seja muito para ti.
       Tinha a cabea inclinada e no podia ver seu rosto.
       -Se referir ao que aconteceu na serraria...
       -No, isso no. -Dirigiu-me um falso sorriso-. Mortes e desastres no se preocupam tanto, Sassenach. Mas as coisas pequenas, dia detrs dia... Vejo-te te jogar para trs quando a criada negra te penteia ou quando o moo se leva seus sapatos para limp-los, e vejo sua atitude escravos que trabalham no campo. Isso se preocupa, no?
       -Sim... no posso ser proprietria de escravos. J te disse...
       -Sim, fez-o. -Deixou os remos e me olhou-. E se escolho fazer isto, Sassenach, seria capaz de ficar sem fazer nada? Porque nada se pode fazer at que minha tia mora. E talvez ento tampouco.
       -O que quer dizer?
       -Ela no liberar a seus escravos, por que ia fazer o? E eu no poderei faz-lo enquanto ela viva.
       -Mas uma vez que herde o lugar...
       de repente o entendi. Poderia viver, dia detrs dia, ms detrs ms, ano detrs ano tendo escravos? J no poderia pretender me refugiar na idia de que era s uma convidada, algum de fora.
       Mordi-me os lbios para no gritar minha negativa.
       -E at ento -seguiu-, sabe que um proprietrio de escravos no pode liber-los sem permisso da Assemblia?
       -Como? por que no?
       -Os donos das plantaes tm medo a uma insurreio armada dos negros -disse-. Culparia-os? -acrescentou com ironia-. Os escravos no podem levar armas, s facas para trabalhar, e est a lei do derramamento de sangue para acautelar seu uso. -Sacudiu a cabea-. No, quo ltimo permitiria a Assemblia  um grupo de negros livres soltos pela regio. Se um homem quer liberar um escravo e lhe do a permisso, o escravo livre dever abandonar a colnia. Do contrrio, podem captur-lo e escraviz-lo outra vez.
       -Estiveste-o pensando -pinjente lentamente.
       -Voc no?
       No respondi. No, no tinha pensado nessa perspectiva. No o tinha feito conscientemente porque no desejava me enfrentar a tal eleio.
       -Suponho que seria uma grande oportunidade -disse com uma voz que soava forada em meus ouvidos-. Estaria a cargo de tudo... 
       -Minha tia no  tola -interrompeu com voz cortante-. Nomear-me seu herdeiro mas no ocuparei seu lugar. Utilizar-me para fazer as coisas que ela no pode, mas no seria mais que sua garra de gato.  certo que me pedir minha opinio e escutar meus conselhos, mas no se far nada que ela no queira.
       Sacudiu a cabea.
       -Seu marido est morto. Quisesse-o muito ou pouco agora  a proprietria e no tem que dar contas a ningum. Desfruta de muito do poder para desprez-lo. 
       Suas asseveraes sobre o carter da Yocasta eram totalmente corretas. A estava a chave de seu plano. Necessitava um homem, mas era evidente que no queria um marido, algum que lhe usurpasse o poder e lhe desse ordens.
       No, Jamie era a eleio perfeita: um homem forte, competente, capaz de conseguir o respeito de seus pares e a obedincia de seus subordinados. Um homem digno de confiana para levar as terras e mandar aos homens. Alm disso, era um homem ligado a ela pelo sangue mas sem poder e com a obrigao de cumprir suas ordens.
       Sentia um n na garganta enquanto lutava por falar. No podia aceitar aquilo, mas tampouco podia aceitar a alternativa que ficava e impulsion-lo a rechaar a oferta da Yocasta sabendo que isso o enviaria a Esccia, a uma morte desconhecida.
       -No te posso dizer o que tem que fazer -pinjente.
       A noite estava silenciosa.
       -Seu rosto  meu corao, Sassenach -disse me acariciando o queixo-, e seu amor  minha alma. Mas tem razo, no pode ser minha conscincia.
       em que pese a tudo, senti que se aliviava seu esprito, como se me tivesse liberado de um peso indefinido..
       -Me alegro -disse impulsivamente-, seria uma terrvel carrega.
       -Ah, sim? -Contemplou-me um pouco sobressaltado-, Crie que sou um malvado?
       - o melhor homem que conheci em minha vida -pinjente-. S queria dizer... que  um grande esforo tratar de viver por duas pessoas, tratar de fazer que aceitem suas idias do que  correto... como faz com os meninos.
       -Realmente crie que sou um bom homem? -perguntou finalmente.
       Havia uma nota em sua voz que no pude decifrar.
       -Sim -respondi sem vacilar. E acrescentei brincando-: Voc no?
       Respondeu depois de uma larga pausa.
       -No, no acredito.
       Olhei-o boquiaberta.
       -Sou um homem violento e sei bem. -Estendeu suas mos grandes e fortes-. E voc sabe ou o deveria saber.
       -Nunca tem feito nada se no lhe obrigaram!
       -No?
       -No acredito -pinjente, mas uma nuvem de dvidas escureceu minhas palavras.
       -Poria-me  mesma altura que a um homem como Stephen Bonnet? Ele diria que atuou por necessidade.
       -Se crie que tem algo em comum com o Stephen Bonnet est totalmente equivocado -disse com firmeza.
       encolheu-se de ombros com impacincia e se moveu inquieto.
       -No h muita diferena entre o Bonnet e eu, salvo que eu tenho um sentido da honra que lhe falta. O que outra coisa me separa de me converter em um ladro? -quis saber-. Tenho mais de quarenta e cinco anos! Um homem deve assentar-se a essa idade, no? Deve ter uma casa, terra para alimentar-se e um pouco de dinheiro que guardar para a velhice.
       Respirou profundamente.
       -E eu no tenho nem casa nem terra nem dinheiro. Nem sequer uma vaca, uma ovelha, um porco ou uma cabra! No tenho nem um recipiente para urinar!.
       Deu um golpe com o punho fechado.
       -Nem sequer sou dono da roupa que uso!
       Houve um comprido silencio, interrompido pelo dbil canto dos grilos.
       -Tem-me  -disse em voz baixa.
       No parecia muito.
       Sua garganta deixou escapar um rudo que poderia ser uma risada ou um soluo.                                          
       -Sim te tenho -disse com voz tremente-. E isso  um inferno, no  certo?
       --o?
       Estendeu a mo em um gesto de impacincia.
       -Se se tratasse s de mim, que importncia teria? Mas no s sou eu -disse com irritao-. Est voc, esto Ian e Duncan, Fergus e Marsali... Que Deus me ajude, se at tenho que me ocupar do Laoghaire!
       -No o faa.
       -No o entende? -perguntou quase com desespero-. Poria o mundo a seus ps, Claire, e no tenho nada para te dar!
       Jamie pensava sinceramente que isso era importante. Observei-o procurando as palavras adequadas e finalmente agarrei uma de suas mos grandes e calosas, ajoelhei a seu lado e apoiei a cabea sobre seu peito. No me saam as palavras mas tinha tomado uma deciso.
       -Onde v, irei; onde viva, viverei; seu povo ser meu povo e seu Deus meu Deus. Quando morrer, eu morrerei e ali serei enterrada. Em uma colina de Esccia ou nos bosques do sul. Far o que tenha que fazer e eu estarei a.
       
       Pensava que retornaramos ao River Run, mas era evidente que aquela expedio era algo mais que um descanso. Continuamos rio acima. Jamie remava com fora contra a corrente.
       A ss com meus pensamentos podia escutar sua respirao e me perguntar o que faria. Se elegia ficar... bom, no seria to difcil como ele pensava. No ia subestimar a Yocasta Cameron, mas tampouco ao Jamie Fraser. Tanto Colum como Dougal MacKenzie trataram de lhe dobrar e no o conseguiram.
       Dava-me conta de onde nos dirigamos quando Jaime girou com um remo e cruzamos a corrente para a boca de um largo arroio. Nunca tinha chegado at ali pelo rio, mas Yocasta havia dito que no estava longe.
       No devia me surpreender. Se pensava enfrentar-se com seus demnios, estvamos no lugar mais apropriado.
       -Os lugares muito concorridos durante o dia, sempre parecem fantasmales durante a noite -pinjente, em um esforo por romper o silncio da serraria.
       -Sim? -Jamie parecia abstrado-. Este tampouco eu gosto muito durante o dia.
       Estremeci-me ante a lembrana.
       -A mim tampouco. S quis dizer...
       -Byrnes morreu -disse sem me olhar.
       -O capataz? Como? -pinjente, mais sacudida pela brutalidade que pela revelao-, Quando?
       -Esta tarde. O mais jovem dos Campbell trouxe a notcia pouco antes da queda do sol.
       -Como? -voltei a perguntar.
       -Ttanos. Uma forma muito feia de morrer.
       Nisso tinha razo. Nunca tinha visto morrer a ningum de ttanos, mas conhecia bem os sintomas. Os espasmos aumentavam de intensidade e s cessavam no momento da morte.
       -Tampouco  uma morte rpida -comentei. A suspeita se apoderou de mim-. Morrer de ttanos leva vrios dias.
       -Ao Byrnes levou cinco dias.
       J no havia rastro de humor em sua voz.
       -foste ver lhe -disse com um toque de irritao-. Viu-o! E no me disse isso?
       Haviam-me dito que Byrnes estava recuperando-se em um lugar "seguro" at que passassem os distrbios.
       -O que tivesse podido fazer? Pensei que me havia dito que o ttanos era algo que nem sequer em sua poca se podia curar -disse sem me olhar.
       -No -pinjente-. No, no lhe tivesse podido salvar. Mas poderia ter facilitado as coisas.
       -Tivesse podido -disse tranqilamente.
       -E voc no me deixou...
       Detive-me recordando suas ausncias durante a semana e suas respostas com evasivas.
       tso, no permiti que Campbell te mandasse a procurar -disse-.  a lei, Sassenach, e est a justia. Conheo bem a diferena.
       -Tambm existe a misericrdia.
       Se algum me tivesse perguntado, haveria dito que Jaime Fraser era um homem compassivo. Tinha-o sido. Mas os anos passados tinham sido duros e a compaixo  uma emoo que se gasta com facilidade em segundo que circunstncias.
       -Benditos sejam os misericordiosos -disse- porque eles encontraro misericrdia. Byrnes no o era e no a encontrou. E quanto a mim, uma vez que Deus deu sua opinio sobre o homem, no me parece correto interferir.
       -Crie que Deus lhe provocou o ttanos?
       -No me ocorre outro ser com capacidade para isso. Por outra parte, no que outro lugar procuraria justia?
       No obtive resposta.
       -me deveu dizer isso Embora acreditasse que no podia ajudar, no era teu assunto decidir...
       -No queria que fosse.
       Havia uma nota de dureza em sua voz.
       -J sei que no! Mas no importa que voc cria que Byrnes merecia sofrer O...
       -No me importava se Byrnes morria bem ou mau, mas no sou um monstro de crueldade! No te afastei para lhe fazer sofrer, a no ser para te proteger.
       Aliviou-me ouvi-lo mas minha fria aumentou.
       -No era teu assunto decidi-lo. Se eu no for sua conscincia, tampouco voc deve ser a minha!
       de repente me sujeitou uma boneca.
       -Corresponde-me cuidar de ti!
       Tratei de me soltar mas me sujeitou com fora.
       -No sou uma menina que necessite amparo, nem tampouco uma idiota. Se havia alguma razo para que no fora, diga-me isso e te escutarei. Mas no pode decidir por mim. Isso no o suporto e voc sabe!
       -No quero te dizer onde pode ir.
       -Decidiu onde no podia ir e isso  o mesmo.
       Agarrou-me dos braos e com sua fora me fez sentir a fragilidade de meus ossos. "Sou um homem violento."
       Tinha-me sacudido antes um par de vezes e no me tinha gostado. Para lhe acautelar, em caso de que pensasse fazer o mesmo, coloquei um p entre suas pernas e me preparei para levantar o joelho e golpear no lugar mais efetivo.
       -Estava equivocado -disse.
       Nervosa ante aquela atitude violenta tinha comeado a levantar o p quando ouvi o que dizia. antes de que pudesse me deter apertou as coxas sujeitando-o.
       -Pinjente que estava equivocado, Sassenach -repetiu com um toque de impacincia na voz.
       Senti vergonha e tratei de mover meu joelho, mas Jamie no separou as pernas.
       -No estar pensando em te liberar de mim? -perguntei com amabilidade.
       -No. vais escutar me agora?
       -Suponho que sim -pinjente, com o mesmo tom corts-. Acredito que no posso fazer outra coisa.
       Estava o bastante perto para ver como sua boca se crispava, logo afrouxou a presso de suas coxas.
       -Esta  uma briga muito tola e voc sabe to bem como eu.
       -No, no sei. -No estava to furiosa mas no ia deixar que lhe tirasse importncia-. Talvez no seja importante para ti, mas o  para mim. No  uma tolice e voc sabe, do contrrio no teria admitido que estava equivocado.
       Esta vez a crispao de sua boca foi mais pronunciada. Respirou profundamente e soltou meus ombros deixando cair as mos.
       -Bem. Devi te dizer o do Byrnes, admito-o. Mas se o tivesse feito, teria ido ver lhe embora te houvesse dito que era ttanos e sei que o era porque o vi antes. Embora no pudesse fazer nada, teria ido igualmente, verdade?
       -Sim. Embora... sim, tivesse ido.
       De fato, tampouco teria podido fazer nada pelo Byrnes.
       -Teria que ter ido -pinjente mais amavelmente-. Sou mdica. No te d conta?
       - obvio que me dou conta -disse com aspereza-. Crie que no te conheo, Sassenach? E sem esperar uma resposta continuou.
       -falou-se sobre o que aconteceu na serraria. Com o homem moribundo como estava ningum disse diretamente que voc o tinha matado a propsito, embora esteja seguro de que o pensaram. No que o tinha matado, mas talvez que lhe deixou morrer para lhe salvar da forca.
       Contemplei-me as mos quase to plidas como o cetim de meu vestido.
       -E voc, perguntou-lhe isso?
       Olhou-me um pouco surpreso.
       -Fez o que acreditava que era o melhor. -Deixou a um lado o assunto da morte do homem para insistir no ponto que lhe interessava-. Mas no era prudente que estivesse presente em duas mortes, no sei se te d conta.
       Dava-me conta e no pela primeira vez era consciente das sutis jogue a rede das que Jamie formava parte de uma forma em que eu nunca poderia. Aquele lugar era to estranho para ele como para mim e, entretanto, Jamie no s sabia o que a gente dizia, pois qualquer podia inteirar-se no botequim ou o mercado, mas tambm o que pensavam. E o mais irritante era que sabia o que eu estava pensando.
       -Assim j sabe -disse me olhando-. Sabia que Byrnes ia morrer e que voc no podia fazer nada por ele. Entretanto, se te tivesse informado teria querido ir ver lhe. E atrs de sua morte talvez a gente no tivesse comentado nada sobre que dois homens tinham morrido em seus braos, mas...
       -Mas o tivessem pensado -terminei por ele.
       -A gente se fixa em ti, Sassenach.
       Mordi-me o lbio. Para bem ou para mau, faziam-no e isso tinha estado perto de acabar comigo mais de uma vez. agarrou-se a um ramo para manter o equilbrio e saltou sobre a erva.
       -Disse-lhe  senhora Byrnes que lhe levaria as coisas de seu marido -disse-. Se no querer no  necessrio que venha.
       Agora sabia o que estava fazendo. Desejava v-lo tudo antes de decidir-se; v-lo tudo sabendo que podia ser dele. depois de tudo, pensei com amargura, o Diabo tinha insistido em acostumar-lhe tudo ao Jesus. Tinha-o levado at o topo do Templo para que visse todas as cidades do mundo. A nica dificuldade era que se Jamie decidia arrojar-se no haveria uma legio de anjos para impedir que se estrelasse contra uma laje de granito em Esccia. S estaria eu.
       -Espera -pinjente saltando do bote-. Eu tambm vou.
       
       A madeira ainda estava amontoada, ningum havia meio doido nada da ltima vez que estive ali. No podia ver o terreno baixo meus ps e Jamie me agarrava do brao para evitar que tropeasse. Ele nunca tropeava, claro. Possivelmente o ter vivido toda sua vida com a escurido depois do pr-do-sol lhe tinha dado uma espcie de radar. Como se fora um morcego.
       Havia uma fogueira entre os barracos dos escravos. Era muito tarde e a maioria deviam estar dormindo. Nas Antilhas teria havido som de tambores e lamentaes pelo companheiro morto. Ali o silncio era absoluto.
       -Tm medo -disse Jamie.                          
       -No sente saudades. Eu tambm.
       -E eu -murmurou-, mas no aos fantasmas. 
       Agarrou meu brao e empurrou uma pequena porta antes de que pudesse lhe perguntar a que tinha medo ele. O silncio do interior tinha consistncia. Ao princpio, pensei que era como a misteriosa quietude das mariposas mortas, mas logo me dava conta da diferena. Era um silncio vivo e o que fora que vivia nele no jazia imvel. Pensei que cheirava a sangue e que esse aroma fazia espesso o ar.
       Ento respirei profundamente e com um frio horror percorrendo minhas costas pude cheirar o sangue, sangre fresca.
       Aferrei-me do brao do Jamie. Ele tambm o tinha cheirado e seus msculos se esticaram baixo minha mo. Sem uma palavra se liberou dela e desapareceu.
       Por um momento acreditei que se desvaneceu e senti pnico. Agitei as mos no vazio e ento me dava conta de que se tampou a cabea com a capa ocultando assim a palidez de sua cara e o branco da camisa. Ouvi suas pegadas rpidas e fiquei sozinha.
       Um gemido rasgou o ar e quase me parti o lbio ao me morder isso Onde estava Jamie? Desejava cham-lo mas no me atrevia. Forcei os olhos para tratar de ver e me dava conta de que com meu vestido plido era visvel para qualquer que estivesse ali.
       Outra vez chegou o gemido e me sobressaltei. Suavam-me as mos. "No pode ser", disse-me furiosa. Estava paralisada pelo terror e demorei uns instantes em me dar conta do que ouvia. O gemido provinha de algum lugar detrs de mim.
       -Jamie! -gritei-. Onde est?
       -Aqui, Sassenach. -A voz do Jamie me chegou tranqila, com certa urgncia-. Vem.
       Mas
       No era ele quem gemia. Aliviada, posto que os gemidos no eram do Jamie, lancei-me para a escurido sem me importar de quem eram. Choquei-me com uma parede de madeira e procurei at encontrar uma porta aberta. Jamie tinha entrado no barraco do capataz.
       Entrei e senti a mudana imediatamente. O ar era mais pesado e quente que na serraria. O estou acostumado a era de madeira e o aroma de sangue mais intenso.
       -Onde est? -chamei de novo em voz baixa.
       -Aqui, ao lado da cama. Vem me ajudar,  uma moa.
       Estava em um pequeno dormitrio sem janelas. Jamie se tinha ajoelhado ao lado de uma cama estreita em que havia um corpo. Ao tocar soube que era uma mulher e que se estava sangrando. Procurei o pulso na garganta e no o encontrei. Seu nico signo de vida era um leve movimento do peito baixo minha mo.
    -Est bem -ouvi-me dizer, sem indcio de pnico na voz, embora tinha razes para senti-lo-. Estamos aqui, no est sozinha. O que te passou? me pode dizer isso 
       -N...
       Foi um suspiro seguido de um ofego.
       -Quem te tem feito isto? -A voz do Jamie era baixa mas cheia de urgncia-. Me diga, quem?
       -N...
       -Tudo est bem, no est sozinha. Jamie, lhe agarre a mo.
       O desespero se apoderou de mim ao me dar conta do que acontecia.
       -J a tenho. No se preocupe. Tudo ir bem.
       -N...
       No podia ajud-la. Pus a mo entre suas coxas e notei que estava empapada e o sangue continuava saindo.
       -Eu... morro...
       -Acredito que lhe mataram, moa -disse-lhe Jamie muito brandamente-. No nos vais dizer quem foi?
       Sua respirao se fez mais forte.
       -Sar... gento. Diga... a ele...
       Respirava entrecortadamente e o sangue seguia gotejando.
       -Farei-o -disse Jamie. Sua voz era um sussurro na escurido-. Prometo que o farei.
       J no havia sons. No podia ver o Jamie, mas notei que se inclinava.
       -Deus te perdoe -sussurrou-. Descansa em paz.
       
       Pude ouvir o zumbido ao entrar no barraco do capataz  manh seguinte. Eram s duas habitaes. A nossa direita estava o quarto maior, que tinha sido utilizado pelo Byrnes para viver e cozinhar, e  esquerda se encontrava o pequeno dormitrio de que tinham sado os gemidos.
       Jamie respirou profundamente, tampou-se a cara com a capa e empurrou a porta.
       O que vimos parecia uma colcha de cor azul metalizada com salpicaduras verdes. Quando Jamie deu um passo, as moscas se elevaram zumbindo e abandonaram seu alimento. Dava um grito de asco e agitei as mos para as espantar. Farquard Campbell lanou um bufido de desgosto, baixou a cabea e me empurrou para poder entrar.
       A pequena habitao carecia de janelas e a luz entrava somente pelas gretas das pranchas. A atmosfera era mida e calorosa, como em um estufa tropical, e pesada pelo doce aroma de podre da morte.
       No tinha sido uma moa alta, seu corpo estava abafado pela manta com que a cobrimos a noite anterior. Sua cabea parecia grande em comparao com seu corpo encolhido. Jaime espantou vrias moscas e lhe tirou a manta manchada de sangue. Logo que tinha visto seu rosto a noite anterior. Era impossvel determinar sua idade, salvo que no era velha, nem tampouco se era atrativa, embora para um homem deveu result-lo.
       Os homens murmuravam entre eles inclinados sobre o cadver. O senhor Campbell se voltou para mim com rosto preocupado.
       -Est razoavelmente segura, senhora Fraser, da causa da morte?
       -Sim -pinjente-. Baixei-lhe a saia mas deixei o resto como estava.
       Tinha-a deixado onde a encontramos. Entre suas pernas havia uma brocheta de cozinha de mais de trinta centmetros de larga, coberta de sangue seca.
       -No... encontrei feridas no corpo -pinjente o mais delicadamente possvel.
       -Sim, j vejo. -O rosto do Campbell se relaxou um pouco-. Ah, bom, ao menos no  um caso de assassinato deliberado.
       Abri a boca para responder, mas Jamie me acautelou com o olhar. Sem dar-se conta, Campbell continuou falando.
       -A questo  se esta pobre mulher o fez ela sozinha ou a ajudou outra pessoa. Voc o que pensa, senhora Fraser?
       Jamie me olhou com os olhos entrecerrados. O aviso era desnecessrio pois j o tnhamos discutido a noite anterior e tirado nossas prprias concluses. Tambm tnhamos decidido no as compartilhar com as foras da lei e a ordem do Cross Creek.
       -Estou segura de que o fez ela -disse com firmeza-. Leva pouco tempo morrer sangrada desta maneira e, como Jamie lhe disse, ainda estava viva quando a encontramos. Estvamos conversando fora quando ouvimos os gemidos. Ningum tivesse podido sair sem que o vssemos.
       O certo era que uma pessoa podia haver-se escondido facilmente na outra habitao e sair enquanto estvamos ocupados em atender  mulher. Se essa possibilidade no lhe ocorria ao senhor Campbell, no via razo para que eu lhe abrisse os olhos.
       Jamie tinha adotado uma expresso o bastante sria para enfrentar-se ao Campbell, que sacudia a cabea aflito.
       -Ah, desafortunada moa! Mas suponho que devemos nos sentir aliviados j que ningum compartilhou seu pecado.
       -E o que passa com o pai do menino que ela quis tirar-se? -perguntei em tom azedo.
       -Mmm... -disse surpreso Campbell e tossiu-. Como no sabemos se estava casada...
       -Ento, no conhecem esta mulher? -interveio Jamie antes de que eu pudesse fazer mais comentrios imprudentes.
       Campbell sacudiu a cabea.
       -No era faxineira do senhor Buchanan nem dos MacNeill, disso estou seguro. Nem do juiz Alderdyce. Essas so as plantaes mais prximas de onde pde vir. Embora no entendo por que veio at este lugar para cometer este ato desesperado...
       Ao Jamie e a mim tambm nos tinha ocorrido pens-lo. Para evitar que Campbell desse outro passo nessa linha de investigao, Jamie interveio outra vez.
       -Ela falou muito pouco mas mencionou a um "sargento". "lhe Diga ao sargento", foram suas palavras. Talvez voc tenha idia do que quis dizer.
       -Acredito que h um sargento do exrcito a cargo do guarda do depsito real. Sim, seguro. Ah! Sem dvida a mulher estava relacionada de alguma forma com esse estabelecimento militar. Essa  uma explicao. Entretanto, ainda me pergunto por que ela...
       -Senhor Campbell, me perdoe, mas me temo que me estou enjoando -interrompi, apoiando uma mo em seu brao.
       -Poderia acompanhar a minha esposa fora? -perguntou Jamie. Fez um gesto para a cama e a sua pattica carga-. Eu me ocuparei da pobre moa.
       -Rogo-lhe que no se preocupe, senhor Fraser -protestou Campbell, preparado para me acompanhar-. Meu servente pode ocupar do corpo.
       - a serraria de minha tia e portanto  meu problema -disse amavelmente mas com firmeza. Devo me ocupar eu.
       
       Fedra esperava ao lado do carro.
       -Disse-lhe que este lugar era mau -disse com ar de maliciosa satisfao-. Est branca como um lenol, senhora.
       Alcanou-me o recipiente de vinho com especiarias franzindo o nariz.
       -Tem pior aroma que ontem  noite e a v mau. -deu-se a volta para observar ao Campbell, que falava com seu servente-. Encontrei a que a ajudou -disse Fedra em voz baixa.
       -Est segura? No teve muito tempo.
       Tomei um gole de vinho e Fedra assentiu.
       -No necessitei muito tempo. Caminhando entre as casas vi uma porta aberta e coisas atiradas, como se algum tivesse sado correndo. Perguntei quem vivia ali e me disseram que Poliyanne, mas que no sabiam onde se partiu. Ontem  noite estava ali durante o jantar e aps ningum a viu. -Seus olhos, cheios de perguntas, encontraram-se com meus-, Agora sabe o que ter que fazer?
       Uma maldita pergunta para a que no tinha resposta.
       -Todos os escravos devem saber que partiu. Quanto tempo passar antes de que outros saibam? Quem se ocupa dessas coisas, agora que Byrnes morreu?
       Fedra se encolheu de ombros.
       -Qualquer que pergunte o descobrir. Mas o que tem que ocupar-se... -Fez um ligeiro gesto para o Jamie-. Suponho que  ele.
       
       "J sou parte disto." Sabia inclusive antes do jantar interrompido. Sem nenhum anncio formal, sem nenhum convite ou aceitao de seu papel, Jamie ocupava o lugar.
       O servente do Campbell foi ajudar com o cadver; Jamie se apoiou em um joelho e deixou o corpo no cho.
       -Pode trazer as coisas do carro? -disse a Fedra.
       Sem uma palavra, Fedra foi procurar as coisas que eu tinha reunido: uma manta, um balde, trapos limpos e um frasco com ervas. Eu fui reunir me com o Jamie.
       -Tinha razo -disse-lhe em voz baixa-. A mulher que lhe ajudou se chamava Poliyanne e escapou durante a noite.
       Fez uma careta esfregando-as mos enquanto olhava por cima de seu ombro. Campbell observava o corpo com gesto de desgosto.
       -te ocupe da moa, quer, Sassenach?
       Com deciso foi em busca do Campbell.
       
       No tinha sentido conservar sua roupa, assim que a cortei para tirar-lhe Nua parecia ter uns vinte anos; estava mal alimentada, lhe marcavam as costelas e os braos e as pernas eram muito magros. em que pese a tudo, era surpreendentemente pesada e o rigor mortis dificultava seu manejo. Fedra e eu suvamos abundantemente antes de terminar a tarefa.
       O trabalho evitava toda conversao e me deixava em paz com meus pensamentos, que no eram particularmente tranqilizadores. Uma mulher que queria "desprender-se de uma criatura", como havia dito Jamie, se o ia fazer sozinha, faria-o em sua prpria habitao e em sua prpria cama. A nica razo para que uma desconhecida chegasse at este remoto lugar, era encontrar-se com a pessoa que a ajudaria, uma pessoa que no podia ir onde ela vivia. Tnhamos que procurar uma pulseira nos barracos da serraria, alguma com reputao de parteira que as mulheres se recomendassem entre elas.
       Estremeci-me pese ao calor. aplicaria-se a lei de derramamento de sangue neste caso? Era possvel. Maldita mulher, pensei, mostrando irritao para tampar uma piedade intil. J no podia fazer nada por ela, salvo tratar de maquiar o desastre que tinha deixado e, talvez, tratar de salvar  outra atriz do drama: a desafortunada mulher que tinha cometido, sem querer, um assassinato tratando de ajudar e que agora podia pagar o engano com sua prpria vida.
       Jamie tinha pego a jarra de vinho e a intercambiava com o Campbell; os dois falavam acaloradamente e de tanto em tanto faziam gestos para a serraria ou para o rio e o povo.
       O senhor Campbell ia partir quando me viu. Dirigiu-me uma saudao e eu lhe respondi com uma reverncia e, aliviada, vi como se afastava.
       Fedra tambm se deteve e observava a carruagem. Logo me olhou.
       -Ser melhor que o senhor Jamie encontre a essa Poliyanne antes da queda do sol. H animais selvagens no pinar e o senhor Ulises diz que essa mulher valia duzentas libras quando a senhorita Yocasta a comprou. No conhece os bosques. Poliyanne veio diretamente da frica faz menos de um ano.
       Fedra me tinha ajudado a descobrir ao Poliyanne, no porque confiasse em mim ou gostasse, mas sim porque eu era a esposa do amo. Devamos encontrar ao Poliyanne e escond-la. E Jamie, pensava ela,  obvio que o faria; era de sua propriedade ou da da Yocasta, o que ante os olhos da Fedra significava o mesmo.
       No havia nenhum sacerdote perto, assim que a enterrariam sem cerimnias. Para que necessitava dos ritos? Os funerais eram para consolo dos parentes e no parecia haver ningum que a chorasse, pensei, porque de ter tido famlia, marido ou um amante, agora no estaria morta.
       Jamie se tinha aproximado de ns. Sem uma palavra, levantou o corpo da moa morta e o colocou no carro. No falou at que eu sentei a seu lado. Agitou as rdeas e estalou a lngua.
       -Vamos e procuremos o sargento -disse.
       
       Tnhamos umas coisas das que nos ocupar antes. Retornamos ao River Run para deixar a Fedra e Jamie desapareceu para procurar o Duncan e trocar-se de roupa, enquanto eu ia controlar a meu paciente e a informar a Yocasta dos acontecimentos da manh.
       No devi me preocupar: Farquard Campbell estava sentado bebendo ch com a Yocasta e John Myers; este, envolto em uma capa dos Cameron, estava atirado em uma poltrona de veludo comendo pozinhos. A julgar pela desacostumada limpeza de suas pernas nuas, algum se tinha aproveitado de seu temporrio inconscincia para lhe dar um banho.
       -Querida. -Yocasta voltou a cabea para ouvir meus passos e sorriu, embora vi umas linhas de preocupao entre suas sobrancelhas-, Sente-se, criatura, e come algo; no descansaste em toda a noite e acredito que aconteceste uma manh horrvel.
       Em outro momento me teria resultado divertido ou insultante que me chamassem "criatura", mas naquelas circunstncias era extraamente reconfortante. Deixei-me cair, agradecida, em uma poltrona e deixei que Ulises me servisse uma taa de ch, me perguntando o que lhe teria contado Farquard a Yocasta e que mais saberia.
       Tinha a sensao de que poderia dormir uma semana inteira. Mas no havia descanso para ns. Jamie apareceu barbeado, penteado e com casaca e camisa limpa. Saudou o Campbell sem surpresa, pois deveu ter ouvido sua voz do corredor.
       -Tia -disse beijando a bochecha da Yocasta, logo sorriu ao Myers-. Como vai tudo?
       -Perfeito -assegurou Myers-. Embora acredite que deverei esperar um dia ou dois antes de voltar a montar a cavalo.
       -Acredito -afirmou Jamie. Logo se voltou para a Yocasta-. Viu ao Duncan esta manh, tia?
       -Sim. Foi com o Ian a fazer um recado para mim. -Sorriu e agarrou ao Jamie da boneca-.  um homem encantador o senhor Innes, alm de sagaz e ardiloso. Uma grande ajuda e um verdadeiro prazer falar com ele. No o crie assim, sobrinho?.
       Jamie a olhou com curiosidade e logo se fixou no Campbell, que evitou seu olhar.
       -Pois sim -respondeu Jamie com secura-. Duncan  um homem muito capaz. E o jovem Ian se foi com ele?
       -Sim, para fazer-se carrego de uns fardos -respondeu plcidamente Yocasta-. Necessita ao Duncan agora?
       -No -disse Jamie, olhando-a com calma-. Pode esperar.
       -Bem -respondeu a tia-. Tomar o caf da manh ento? Farquard, quer outro pozinho?
       -Ah, no, tenho coisas que fazer no povo; o melhor ser que v. -Campbell deixou sua taa, ficou em p e nos saudou a Yocasta e a mim com uma inclinao-. Para as servir, senhoras. Senhor Fraser -acrescentou, arqueando a sobrancelha, e seguiu ao Ulises.
       Jamie se sentou e agarrou uma torrada.
       -Tia, encarregou ao Duncan ir em busca da pulseira?
       -Assim . -Voltou o rosto carrancudo com sua cega expresso-. No te importa, verdade, Jamie? J sei que Duncan  um de seus homens mas me pareceu um assunto urgente e no estava segura de quando foste retornar.
       -O que te h dito Campbell?
       Sabia o que estava pensando Jamie; o rgido e reto juiz do distrito no moveria um dedo para evitar um linchamento nem conspiraria para proteger a uma pulseira acusada de praticar abortos.
       -Conheo o Farquard Campbell h vinte anos. Ouo melhor o que no diz que o que diz.
       Myers tinha seguido a conversao com interesse.
       -No posso dizer que meus ouvidos sejam to finos -fez notar apaciblemente-. Tudo o que ouvi foi que uma pobre mulher se matou na serraria por causa de um acidente por tratar de livrar-se de sua carga. Tambm disse que no a conhecia.
       Sorriu-me docemente.
       -Disso deduzo que a moa era uma desconhecida -observou Yocasta-. Farquard conhece toda a gente do povo e do rio to bem como eu conheo minha prpria gente. No era a filha nem a faxineira de ningum.
       Deixou a taa e se apoiou na cadeira com um suspiro.
       -Tudo vai sair bem -disse-. Come, que deve estar morto de fome.
       Jamie a contemplava com a torrada na mo. Deixou-a no prato sem prov-la.
       -No posso dizer que tenha muito apetite, tia. As garotas mortas me afetam ao estmago.
       levantou-se e ficou a casaca.
       -Talvez no seja a filha nem a faxineira de ningum, mas est tiragem no ptio coberta pelas moscas. Devo averiguar seu nome antes de enterr-la.
       Bebi o resto de meu ch.
       -Sinto muito -desculpei-me-. Acredito que eu tampouco tenho fome.
       Yocasta no se moveu nem trocou de expresso.
       
       Era perto do meio-dia quando chegamos ao depsito da Coroa, ao final da rua H.
       -O que guardam a? -perguntei ao Jamie, olhando com curiosidade a slida edificao.
       Jamie se encolheu de ombros enquanto se espantava as moscas que proliferavam com o calor.
       -Tudo o que a Coroa considera valioso. Peles do interior, abastecimentos navais, breu e terebintina. Mas o posto de guarda  a causa do licor que tm armazenado.
       -diria-se que agora no tm muito -pinjente, assinalando ao nico guarda.
       -Claro, os embarques de licor chegam desde o Wilmington uma vez ao ms. Campbell me disse que escolhem um dia diferente cada ms para evitar os roubos -disse com ar preocupado.
       -Pensa que Campbell no acreditou que foi ela quem o fez?
       Sem querer olhei para a parte traseira do carro. Jamie lanou um bufido zombador.
       - obvio que no, Sassenach, esse homem no  tolo, mas  um bom amigo de minha tia e no causar problemas se no ter necessidade. Confiemos em que a mulher no tenha a ningum prximo que queira armar escndalo.
       -Mostra-te muito insensvel. Acreditei que pensava de forma diferente. Embora provavelmente tenha razo: se tivesse tido a algum, agora no estaria morta.
       Notou a amargura em minha voz e me olhou.
       -No quis ser to duro, Sassenach -disse amavelmente-. Mas a pobre moa est morta. Quo nico posso fazer  me ocupar de que seja enterrada decentemente.  da outra da que devo me ocupar, no te parece?
       -Sei.  que... suponho que me sinto, de algum modo, responsvel por ela.
       -Eu tambm -respondeu-. No tema, Sassenach, faremos o correto.
       Atou os cavalos debaixo de um castanho e baixou do carro me oferecendo a mo.
       Indicaram-nos que o sargento estava almoando no botequim de em frente. Vi-o assim que entramos, sentado ante uma mesa perto da janela, com a camisa desabotoada e ar depravado ante uma jarra de cerveja e os restos de um bolo. Jamie me seguia e sua sombra tampou momentaneamente a luz da porta. O sargento levantou a vista naquele momento e empalideceu pela impresso.
       -Sargento Murchison -disse Jamie com um gesto de amvel surpresa, como se saudasse um conhecido-. No acreditei que voltaria a v-lo outra vez, ao menos neste mundo.
       A expresso do sargento indicava que o sentimento era mtuo.
       -Voc! -exclamou.
       Jamie se tirou o chapu e inclinou a cabea com cortesia.
       -Para lhe servir, senhor.
       Murchison se ia recuperando da impresso e em sua cara apareceu um ar depreciativo.
       -Fraser. Perdo, agora  senhor Fraser, no?
       -Assim  -respondeu Jamie com voz neutra, pese ao tom insultante do sargento, que comeou a grampe-la camisa sem deixar de olhar ao Jamie.
       -Tinha ouvido que um homem chamado Fraser tinha vindo a pegar-se como uma sanguessuga  senhora Cameron do River Run -disse com um gesto desagradvel nos lbios-. Esse deve ser voc, no?
       Os olhos do Jamie pareciam de gelo azul, embora seus lbios mostravam um agradvel sorriso.
       -A senhora Cameron  meu parente e estou aqui em seu nome.
       -Seu parente. Bom,  fcil de dizer, no? A senhora est mais cega que um morcego, ou isso dizem. No tem marido nem filhos.  uma boa presa para qualquer estelionatrio que se faa passar por algum da famlia. -O sargento baixou a cabea e me observou sonriendo, uma vez mais dono de si mesmo-. Ela deve ser seu amante, no  assim?
       Era uma maldade gratuita, um tiro ao azar, o homem quase no me tinha cuidadoso.
       - minha esposa, a senhora Fraser.
       Pude ver como os dois dedos rgidos da mo direita do Jamie se agarravam s abas da casaca como nico sinal de suas emoes. Inclinou a cabea e arqueou as sobrancelhas, observando ao sargento com desapaixonado interesse.
       -E qual dos dois  voc, senhor? Peo-lhe perdo por minha m memria, mas lhe confesso que no o distingo de seu irmo.
       O sargento se crispou como se lhe tivessem disparado.
       -Maldito seja! -exclamou, engasgando-se com as palavras.
       Naquele momento pareceu dar-se conta de que todos nos observavam com interesse. Com um olhar furioso agarrou o chapu e se dirigiu para a porta, me empurrando ao passar e me fazendo cambalear.
       Jamie me sujeitou de um brao e lhe seguiu. Fui atrs dele a tempo de ver como chamava o sargento.
       -Murchison! Tenho que falar com voc!
       O soldado girou sobre seus tales.
       -Falar, n? E o que tem que me dizer, senhor Fraser?
       -Falar de sua capacidade profissional, sargento -respondeu Jamie com frieza. Fez um gesto para o carro-. Trouxemo-lhe um cadver.
       Por um segundo, o rosto do sargento permaneceu inexpressivo, logo olhou o carro cheio de moscas.
       -V. -Era um profissional. Embora a hostilidade no tinha diminudo, empalideceu e relaxou seus punhos crispados-, Um cadver? De quem?
       -No tenho nem idia, senhor. Tinha a esperana de que voc nos dissesse isso. Quer olhar?
       Fez um gesto para o carro e depois de um momento de vacilao se dirigiu para ele.
       O sargento no ocultou seus sentimentos. Talvez em sua profisso no era necessrio. A impresso se via em seu rosto e Jamie pde v-lo to bem como eu.
       -Ento, conhecia-a?
       -Eu... ela... ... Sim, conhecia-a.
       Fechou a boca, como se temesse falar mais da conta. uns quantos homens nos tinham seguido do botequim, logo todos saberiam o ocorrido na serraria.
       -O que lhe passou? -perguntou o sargento, olhando outra vez a cara da morta.
       Tambm ele apresentava uma palidez mortal.
       -Ento, conhecia-a? -perguntou de novo Jamie.
       -Ela ... ela era... uma lavadeira. Lissa... Lissa Garver era seu nome. -O sargento falava mecanicamente, incapaz de apartar a vista do carro-. O que lhe passou?
       -Tinha famlia no povo? Um marido, talvez?
       -Esse no  problema dele, no? -disse, olhando fixamente ao Jaime-. Me diga o que lhe aconteceu.
       Jamie o olhou sem pestaar.
       -Quis desprender-se da criatura e lhe saiu mal -disse tranqilamente-. Se tinha marido ter que dizer-lhe se no tinha famlia me ocuparei de que seja enterrada decentemente.
       -Tinha a algum -disse cortante Murchison-. No precisa ocupar-se voc. -esfregou-se a cara com violncia, querendo afastar todo sentimento-. V a meu escritrio, ter que fazer uma declarao.
       
       O escritrio estava vazio. Sem dvida o empregado tinha ido procurar seu almoo. Sentei-me a esperar enquanto Jamie se passeava com impacincia.
       -Maldita, maldita sorte -resmungou para si-. Tinha que ser Murchison.
       -Conhece-lhe bem, no?
       Olhou-me com uma careta de ironia.
       -Bastante bem. Estava na guarnio da priso do Ardsmuir.
       -J vejo. -No podia existir afeto entre eles-.  O que crie que faz aqui?
       -Por isso sei, veio com os prisioneiros quando os trouxeram para vend-los. Imagino que a Coroa no acreditou necessrio lev-lo de novo a Inglaterra, pois aqui faziam falta soldados. Deveu ocorrer durante a guerra com a Frana.
       -E o que disse sobre seu irmo?
       Deixou escapar uma risada sem nenhum humor.
       -Eram gmeos. Chamavam-nos pequeno Billy e pequeno Bobby. Idnticos e no s no fsico.
       Fez uma pausa ordenando suas lembranas.
       -Talvez conhea essa classe de homens que podem ser decentes quando esto sozinhos, mas que quando os juntas com outros como eles se voltam lobos.
       - um pouco cruel com os lobos -disse sonriendo-. Pensa em Cilindro. Mas sei o que quer dizer.
       -Uns que quando esto juntos se convertem em animais. Em todos os exrcitos h homens assim, porque  assim como funcionam os exrcitos. Os homens fazem coisas terrveis quando esto em grupo, coisas que no sonhariam quando esto sozinhos.
       -E os Murchison alguma vez estavam sozinhos? -perguntei com calma.
       Fez um gesto de assentimento.
       -Estavam sempre juntos. Se a gente tinha escrpulos por algo, o outro no. E quando havia problemas, no se sabia a quem culpar.
       Enquanto falava se passeava inquieto.
       -Eu... os prisioneiros, podamos nos queixar de maus entendimentos, mas os oficiais no podiam castigar aos duas por culpa de um e ningum sabia qual era o que lhe tinha golpeado nas costelas ou lhe tinha feito outras coisas piores.
       -Esto os dois aqui? -perguntei.
       -No -disse bruscamente-. Este  Billy. O pequeno Bobby morreu no Ardsmuir.
       -Por sua reao suponho que no foi por causas naturais, no  certo? -perguntei.
       -No. -Suspirou e se encolheu de ombros-. Levavam-nos todas as manhs  pedreira e retornvamos ao anoitecer. Em cada carro foram dois ou trs guardas. Um dia, o pequeno Bobby Murchison era o encarregado. Saiu conosco pela manh mas no retornou de noite. -Olhou de novo pela janela-. Havia um poo muito profundo no fundo da pedreira.
       Seu tom indiferente era to aterrador como o contedo da histria. Senti um calafrio pese ao calor.
       -Voc...? -comecei, mas me colocou um dedo sobre os lbios e olhou para a porta.
       Um momento depois, ouvi os passos que Jamie j tinha detectado. Era o sargento, no seu empregado. Lanou um olhar ao escritrio vazio e procurou uma folha de papel e um tinteiro.
       -Escriba -ordenou-. Onde a encontrou e o que aconteceu. Assine-o e ponha a data.
       Jamie o contemplou com os olhos entrecerrados, mas no fez nenhum movimento para agarrar a pluma. Era canhoto, mas lhe tinham forado a escrever com a direita, logo teve o problema nos dedos. Para ele, escrever era uma tarefa lenta e dificultosa e no ia humilhar se ante o sargento.
       -Escriba -voltou a ordenar.
       Os olhos do Jamie se esgotaram mais ainda se couber. antes de que pudesse responder me levantei e agarrei a pluma de mos do sargento.
       -Eu estive ali, me deixe faz-lo .
       A mo do Jamie se fechou sobre a minha antes de que pudesse molhar a pluma no tinteiro.
       -Seu empregado poder lombriga mais tarde, em casa de minha tia -disse ao Murchison-. Vem comigo, Claire.
       Sem esperar resposta do sargento, agarrou-me do cotovelo e me levantou. Estvamos fora antes de que soubesse o que tinha acontecido. O carro seguia baixo a rvore, mas j estava vazio.
       
       -Est a salvo de momento, MAC Dubh, mas que diabos vamos fazer com ela?
       Duncan se arranhou a barba. Ian e ele tinham acontecido trs dias no bosque at que encontraram  pulseira Poliyanne.
       -No  fcil fazer que se mova -explicou Ian enquanto cortava um pedao de presunto para dar-lhe a Cilindro-, A pobre mulher quase morre de medo quando Cilindro a farejou; demoramos muitssimo em conseguir que se levantasse. Tampouco pudemos subi-la ao cavalo. Tive que sustent-la para que no casse.
       -Temos que afast-la de algum modo -disse Yocasta com ar pensativo-. Ontem Murchison esteve incomodando de novo na serraria. Farquard Campbell me mandou dizer que tinha estado dizendo que tinha sido um assassinato e que ia pedir homens para procurar  pulseira que o tinha feito.
       -Pde faz-lo ela? -Ian olhou ao Jamie e a mim-. Quero dizer por acidente.
       -H trs possibilidades: acidente, assassinato ou suicdio -pinjente-. Mas h formas muito mais fceis para suicidarse, pode me acreditar. E no existe motivo para o assassinato, que ns saibamos.
       -Seja o que seja -interveio Jamie-, se Murchison apanhar  pulseira a far pendurar ou aoitar at que mora e para isso necessita um julgamento. J arrumei com nosso amigo Myers a forma de tir-la do distrito.
       -Arrumou o que com o Myers? -perguntou Yocasta com tom agudo.
       Jamie terminou de lubrificar manteiga em uma torrada e a entregou ao Duncan antes de responder.
       -Ns levaremos a mulher at as montanhas-dijo-. Myers diz que os ndios a acolhero. Conhece um bom lugar para ela, onde estar a salvo do pequeno Billy Murchison.
       -Ns? -perguntei amavelmente-. Quais so "ns"?
       Sorriu-me com ironia.
       -Myers e eu, Sassenach. Preciso conhecer essa zona antes de que chegue o inverno e esta  uma boa oportunidade.
       Myers  o melhor guia que posso encontrar.
       -Levar-me contigo, verdade, tio? -Ian o olhou com ansiedade-, Necessitar ajuda com essa mulher, me acredite... parece um tonel.
       Jamie sorriu a seu sobrinho.
       -Sim, Ian. Suponho que poderemos levar outro homem.
       -Ejem -disse com expresso maligna.
       -Embora seja para que vigie a sua tia, Ian -continuou Jaime me devolvendo o olhar-. Sairemos em trs dias, Sassenach..., se Myers pode montar para ento.
       
       Trs dias no era muito tempo mas com a ajuda do Myers e Fedra meus preparativos se completaram sem problemas. Levava uma pequena caixa com remdios e instrumentos e as alforjas estavam cheias de mantimentos, mantas e utenslios de cozinha. O nico assunto pendente era o da indumentria. Tinha cruzado as pontas de uma larga bandagem de seda por meu peito, as atando com um n entre meus seios, e observava o resultado ante o espelho.
       -O que  exatamente o que est fazendo, Sassenach? O que  isso, em nome de Deus?
       Jamie, com os braos cruzados, estava apoiado na porta me observando com as sobrancelhas arqueadas.
       -Estou-me fazendo um suti -disse com dignidade-. No tenho a inteno de cavalgar pelas montanhas levando um vestido e tampouco quero ir com os peitos pendurando.  muito incmodo.
       -Suponho-o. -Entrou na habitao e deu uma volta a meu redor mantendo certa distncia e observando minhas pernas-. O que  isso?
       -Voc gosta?
       Pus as mos em meus quadris para me ajustar as calas de couro. O material o tinha conseguido de um dos amigos do Myers no Cross Creek, e Fedra os tinha feito para mim rendo histricamente enquanto os costurava.
       -No -disse bruscamente-. No vai com... com...
       Fez um gesto sem poder dizer a palavra.
       -Calas -terminei-.  obvio que posso, sempre usava calas em Boston. So muito prticos.
       -Usava-os pela rua? -disse com incredulidade-. Onde a gente podia verte?
       -O fazia -disse com aborrecimento-. Como a maioria das mulheres. por que no?
       -por que no? -perguntou escandalizado-. Posso ver a forma de suas ndegas, maldita seja, e a fenda que h entre elas!
       -Eu posso ver as tuas tambm -assinalei-. Vi seu traseiro com calas todos os dias, durante meses, mas ao v-lo s de vez em quando avancei indecentemente sobre sua pessoa.
       Sua boca se crispou sem saber se rir ou no. Aproveitando sua indeciso, aproximei-me e lhe sujeitei a cintura.
       -Em realidade,  sua saia a que me faz desejar te atirar ao cho e te violar -disse-lhe-. Mas no lhe sintam mal as calas.
       Ento riu, inclinou-se e me beijou.
       -tira-lhe isso disse, detendo-se para respirar.
       -Mas...
       -tira-lhe isso repetiu com firmeza. Deu um passo atrs-. Lhe pode pr isso depois, Sassenach, mas se ter que violar a algum, sou eu o que deve faz-lo, no te parece?

       QUINTA PARTE
       Campos DE MORANGOS PARA SEMPRE
       
       14
       Fugir da fria que vem
       
       Agosto de 7767
       
       Tinham escondido  mulher em um barraco da parte mais afastada dos campos de tabaco do Farquard Campbell. Era pouco provvel que algum o notasse, salvo os escravos do Campbell que sabiam, mas tomamos cuidado em chegar depois do pr-do-sol.
       A mulher se deslizou fora da cabana como um fantasma, encapuzada e envolta como se fora um pacote de contrabando, que  o que era em realidade. Levantou as pernas e tratou de subir ao cavalo. Era evidente que no tinha montado em sua vida. Myers tentou lhe dar as rdeas, mas ela no fez conta. S juntava as mos e gemia, aterrorizada.
       Os homens se estavam pondo nervosos e olhavam a todas partes, esperando ver aparecer de um momento a outro ao sargento Murchison.
       -Que monte comigo -sugeri-. Possivelmente assim se sinta mais segura.
       Entre todos a desmontaram com certa dificuldade e a instalaram na garupa de meu cavalo. Cheirava a folhas frescas de tabaco, a narcticos e a selva. agarrou-se de minha cintura como se lutasse por sua vida. Dava-lhe uma palmada nas mos mas no se moveu nem deixou escapar nenhum som.
       No era estranho que estivesse aterrorizada, pensei, fazendo avanar a meu cavalo para seguir ao Myers. Era possvel que no soubesse nada sobre o escndalo que Murchison tinha desatado no distrito, mas devia ter bastante claro o que lhe aconteceria se a apanhavam; com segurana tinha estado na serraria duas semanas antes.
       Como alternativa a uma morte segura era prefervel escapar e cair em braos dos corte vermelhas, mas no o tinha muito claro a julgar por seus estremecimentos. A mulher tiritava embora no fazia frio.
       Quase me afoga ao me apertar quando Cilindro apareceu entre os arbustos como um demnio do bosque. Passou trotando a poucos centmetros de distncia. A mulher ofegou e notei seu clida respirao em meu pescoo. Toquei-lhe as mos e lhe falei mas no me respondeu. Duncan havia dito que tinha nascido na frica e falava muito pouco ingls, mas seguro que entenderia algumas palavras.
       -Tudo sair bem -pinjente-. No tenha medo.
       Ocupada com o cavalo e a passageira no tinha visto o Jamie, que apareceu de repente to silencioso como Cilindro.
       -Est bem, Sassenach? -perguntou brandamente, colocando uma mo sobre minha coxa.
       -Acredito que sim -respondi. Fiz um gesto para as mos que se aferravam a minha cintura-. Se no morrer afogada.
       Jamie olhou e sorriu.
       -Bom, ao menos no h perigo de que caia.
       -Eu gostaria de poder lhe dizer algo, pobrecita. Est to assustada... Crie que sabe onde a levamos?
       -No sei.
       -No conhece algum dialeto para lhe falar? -perguntei-. Claro que, se no a trouxeram das Antilhas,  possvel que no o conhea.
       Observou a minha passageira considerando a situao.
       -Ah -disse-. Bem, h uma coisa que todos conhecem, venham de onde venham. -inclinou-se e oprimiu o p da mulher-. Liberdade -disse e fez uma pausa-. Saorsa. Sabe o que te digo?
       A mulher no afrouxou a presso, mas sua respirao se converteu em um suspiro e me pareceu que assentia com a cabea.
       
       Os cavalos foram em fila, com o Myers  cabea. O estreito atalho no era nem sequer um caminho para carros, mas ao menos nos permitia passar entre as rvores. Duvidava que o sargento Murchison, cego pela sede de vingana, seguisse-nos to longe, se  que nos perseguia, mas a sensao de fuga era muito forte para pass-la por alto. Todos compartilhvamos, sem nome-la, a penetrante sensao de urgncia e sem discuti-lo estvamos de acordo em cavalgar o mximo possvel.
       Minha companheira tinha perdido o medo ou simplesmente estava muito cansada para preocupar-se. depois de nos deter meia-noite para nos refrescar, permitiu que Ian e Myers a colocassem sobre o cavalo sem protestar. E embora no afrouxou a presso sobre minha cintura, pareceu dormitar com a frente apoiada em minhas costas.
       Detivemo-nos o amanhecer, desensillamos os cavalos, os maneamos e os deixamos comer em um prado. Acomodei-me junto ao Jamie sobre a erva e fiquei dormida.
       Dormimos pesadamente enquanto durou o calor do dia e despertamos perto da queda do sol, sedentos e talheres de carrapatos. Estava profundamente agradecida porque os carrapatos compartilhavam com os mosquitos seu desgosto por meu sangue; mas tinha aprendido em nossa viagem ao norte a examinar ao Jamie e aos outros cada vez que dormamos, j que sempre despertavam com intrusos.
       -Puaj! -disse ao examinar um espcime do tamanho de uma uva e particularmente suculento que aninhava no plo do brao do Jamie-. Maldio, d-me medo atirar desta, parece que v arrebentar.
       Jamie se encolheu de ombros enquanto se explorava o couro cabeludo.
       -Deixa-a; enquanto te ocupa do resto talvez caia sozinha.
       Myers e Ian pareciam arrumar-se as bem ajudando o um ao outro.
       -Aqui h uma pequena -disse Jamie e me ensinou uma que tinha debaixo da orelha.
       Estava tratando de tirar-lhe quando notei uma presena perto de meu cotovelo.
       Quando acampamos estava muito cansada para me ocupar de nossa fugitiva e tinha suposto que no se afastaria.
       Mas tinha ido at um arroio prximo e retornava com um balde de gua. Deixou-o no cho, bebeu um gole e a cuspiu no brao do Jamie. Logo tirou o parasita com dedos geis, deixou-o cair na palma de sua mo, jogou-o com desprezo e se voltou para mim com ar de satisfao.
       A imagem que tinha dela era uma bola torcida pela roupa. Mas agora me parecia uma das imagens da fertilidade que tinha visto nas Antilhas. Estendeu a mo e me ensinou uns pequenos objetos.
       -Paw-paw -disse com uma voz to profunda que Myers a contemplou assombrado.
       Ela sorriu com acanhamento e disse algo que no entendi, embora soube que era galico.
       -Diz que no deve tragar as sementes porque so venenosas -traduziu Jamie.
       -Sim -assentiu Poliyanne-. Vem-eno.
       enxaguou-se outra vez a boca. Logo mastigou outras duas sementes e se dirigiu para o Myers.
       Uma vez que comemos e estivemos preparados para partir, Poliyanne aceitou nervosa que a montassem em seu prprio cavalo. Seguia mostrando-se tmida com os homens, mas logo recuperou a confiana para me falar em uma mescla de galico, ingls e seu prprio idioma. Livre, ao menos de momento, do terror e sentindo-se bastante segura em nossa companhia emergiu sua personalidade efervescente e conversou enquanto cavalgvamos cotovelo com cotovelo, rendo de vez em quando e sem preocupar-se de se a entendia.
       S em uma ocasio se mostrou deprimida: quando passamos por um grande claro, onde a erva crescia em uma estranha forma ondulada, como se debaixo houvesse uma enorme serpente. Poliyanne permaneceu em silencio ao ver o lugar atirou das rdeas e deteve o cavalo. Aproximei-me para ajud-la.
       -Droch aite -murmurou, olhando de esguelha. Um mau lugar-. Djudju.
       Franziu o sobrecenho e fez um gesto com a mo, algo contra o diabo, pensei.
       - um cemitrio? -perguntei ao Myers, quem se tinha aproximado para ver o motivo de nossa parada.
       -Eu no diria um cemitrio -respondeu empurrando para trs seu chapu-. Foi uma aldeia tuscarora, acredito. Ali -assinalou- estavam as casas.
       -O que aconteceu?
       Ian e Jamie tambm se detiveram para observar o lugar.
       Myers, pensativo, arranhou-se a barba.
       -No sei com segurana. Pde ser uma enfermidade que terminasse com todos eles. Embora o mais provvel  que a causa do desaparecimento tenha sido uma guerra. No  um site no que eu gostaria de ficar muito tempo.
       Era evidente que Poliyanne pensava o mesmo.
       Ao anoitecer, j tnhamos deixado atrs os pinheiros e os carvalhos das colinas. As rvores comearam a trocar e tambm o ar e o aroma eram diferentes. O aroma pesado da resina dos pinheiros deu passo a outros mais leves e variados. As folhas das rvores se mesclavam com os arbustos e as flores cresciam entre as gretas das rochas.
       Ainda havia muita umidade, mas o ambiente no era to caloroso.
        posta do sol do sexto dia j estvamos nas montanhas e o ar se enchia com o som da gua que corria. Os arroios se entrecruzavam pelos vales escorrendo-se sobre as rochas, arrastando o musgo com o que formavam um delicado bordo verde. Quando dobramos pela ladeira de uma colina me detive surpreendida, de uma montanha distante, uma cascata saltava no ar caindo a um lugar desconhecido.
       -Est olhando isso, no? -perguntou Ian, boquiaberto pelo assombro.
       - preciosa -aceitou Myers com a satisfao de um proprietrio-. No  a catarata maior que vi mas  impressionante.
       Ian voltou a cabea com os olhos bem abertos.
       -H-as maiores?
       Myers riu com a risada ligeira dos montanheses.
       -Moo, ainda no viu nada.
       Acampamos para passar a noite em um terreno baixo, perto de um riacho com a corrente suficiente para que houvesse trutas. Jamie e Ian se lanaram para ele com entusiasmo, incomodando aos peixes com varinhas de salgueiro. Esperava que tivessem sorte, pois nossas provises frescas eram escassas.
       Sua natural vitalidade estava um pouco apagada. Imaginei que suas preocupaes se deviam, ao menos em parte, a que era a ltima noite que passaramos juntos. Tnhamos chegado ao limite das terras do Rei; ao dia seguinte Myers partiria para o norte para lev-la at a terra dos ndios, onde veria a vida que lhe esperava.
       O que pensaria? Tinha sobrevivido  viagem da frica e  escravido; imaginava que nada do que lhe esperava poderia ser pior.
       Cilindro apareceu ante a luz do fogo sacudindo a gua em todas direes. Dava-me conta de que se uniu  pesca.
       -Vete, co horrvel -pinjente.
        obvio no me fez caso e se aproximou para me farejar grosseiramente, assegurando-se de que eu era quem acreditava, logo se voltou para dar o mesmo tratamento ao Poliyanne.
       Sem trocar de expresso, a mulher lhe cuspiu em um olho.
       Cilindro retrocedeu e sacudiu a cabea olhando-a surpreso. Poliyanne me olhou e sorriu zombadora mostrando seus dentes brancos. Ri e decidi que no devia me preocupar. Algum capaz de cuspir em um olho a um lobo poderia enfrentar-se aos ndios,  vida selvagem e a algo.
       
       -Nunca tinha visto tal quantidade de peixes -repetia Jamie por dcima vez com cara de entusiasmo-. Saltavam pela gua. Verdade, Ian?
       Ian assentiu com o mesmo entusiasmo.
       -Meu pai daria a perna por ver isto -disse-. Saltavam ao anzol, tia, de verdade!
       -Os ndios normalmente no se incomodam em usar fio e anzol -indicou Myers-. Fazem armadilhas para lhes deter e os pescam com um pau afiado.
       Isso foi suficiente para o Ian. Qualquer meno sobre os ndios provocava uma srie de perguntas ansiosas. Uma vez que terminou de averiguar tudo sobre seus mtodos de pesca, insistiu sobre a aldeia abandonada que tnhamos visto durante a viagem.
       -Voc disse que podia ter sido por causa da guerra -disse enquanto tirava os espinhos de uma parte de pescado quente e o dava a Cilindro, que o tragou sem esperar a que se esfriasse-. Foi na guerra com os franceses? No sabia que tinham chegado to ao sul.
       -No. -Myers negou com a cabea-. Eu me referia  guerra da Tuscarora, como a chamvamos os brancos.
       Explicou-nos que a guerra tinha consistido em um curto mas brutal conflito, ocorrido uns quarenta anos antes a causa do ataque contra uns colonos. O ento governador da colnia enviou tropas como represlia contra as aldeias tuscarora e o resultado foi que os colonos, muito melhor armados, devastaram a nao tuscarora.
       -Agora s ficam sete aldeias e s na maior a populao alcana os cem habitantes. -Fez um gesto de tristeza e nos explicou que no se extinguiram porque os mohawk os tinham adotado formalmente e agora formavam parte da poderosa liga iroquesa.
       -por que os adotaram os mohawk? -perguntou Jamie-. Se forem to ferozes como dizem no acredito que precisassem aliados.
       -So ferozes, mas tambm so mortais. Os ndios som homens sanguinrios e tambm homens de honra -disse-, h grande quantidade de coisas pelas que matariam, algumas razoveis e outras nem tanto. Matam por vingana e a nica forma de deter a vingana de um mohawk  acabar com ele. Inclusive ento, seu irmo, seu filho ou seu sobrinho lhe perseguiro.
       passou-se a lngua pelos lbios saboreando o usque.
       -Algumas vezes, os ndios no matam por razes que ns consideramos importantes, especialmente quando h licor por meio.
       -Parecem escoceses -murmurei ao Jamie, quem me devolveu um olhar cheia de frieza.
       Myers levantou a garrafa de usque e a fez girar entre suas mos.
       -Em ocasies qualquer pode tomar um gole de mais e converter-se no pior dos homens, mas com os ndios o primeiro gole j  suficiente. ouvi relatos de matanas por causa de homens enlouquecidos pela bebida.-Sacudiu a cabea-. Dessa maneira, algumas tribos so virtualmente aniquiladas. Ento adotam a outros para substituir aos que mataram ou morreram vtima de enfermidades. Outras vezes agarram prisioneiros, mas terminam por integr-los em suas famlias e tratando-os como a iguais.  o que faro com ela -disse assinalando ao Poliyanne, que estava sentada ao lado do fogo sem emprestar ateno a seu bate-papo.
       -Voc fala mohawk, senhor Myers? -perguntou Ian.
       -um pouco. -Myers se encolheu de ombros com modstia-, Qualquer comerciante aprende umas poucas palavras aqui e l.
       -E ao Poliyanne pensa lev-la com os tuscarora? -perguntou Jamie enquanto cortava uma torta de milho.
       -Estraga. So quatro ou cinco dias a cavalo -explicou Myers. voltou-se para mim e me sorriu para me dar confiana-. Ocuparei-me de deix-la no lugar adequado, senhora Claire. no se preocupe com ela.
       -Pergunto-me o que pensaro os ndios quando a virem -disse Ian, olhando de esguelha  mulher-. Tero visto antes a uma mulher negra?
       Myers riu ante a pergunta.
       -Moo, h muitos tuscarora que no viram antes a uma pessoa branca. Poliyanne no causar mais impresso da que poderia causar sua tia e acredito que a encontraro muito agraciada, porque gostam das mulheres gordinhas.
       Era evidente que Myers compartilhava essa admirao, pois seus olhos a observavam com uma inocente luxria. Ela tambm se deu conta e se produziu uma mudana extraordinria. Quase sem mover-se, centrou toda sua ateno no Myers, que tragava saliva ruidosamente.
       Apartei a vista da cena e descobri que Jamie tambm olhava, entre preocupado e risonho. Dava-lhe uma cotovelada e o olhei com uma expresso que indicava: "Deve fazer algo!".
       Ento Jamie se esclareceu garganta, inclinou-se para diante e sacudiu o brao do Myers para tirar o de seu transe.
       -Eu no gostaria de pensar que vo ter uma conduta imprpria com esta mulher -disse amavelmente, mas sublinhando a palavra "imprpria"-. Voc garantir sua segurana, verdade, senhor Myers ?
       Myers sacudiu a cabea sem compreender at que se deu conta do que lhe estava dizendo Jamie.
       -No! Quer dizer, sim. Os mohawk e os tuscarora deixam que suas mulheres escolham com quem deitar-se, inclusive com quem casar-se. No existe a violao entre eles. No, senhor, ningum a tratar de forma imprpria, posso promet-lo.
       -Alegra-me ouvir isso.
       Jamie me dirigiu um olhar que dizia: "Espero que esteja satisfeita". Lhe sorri com modstia.
       -Tio, o senhor Myers teve a amabilidade de me convidar a que v com ele e a senhora Polly  aldeia a ndia. Assim me assegurarei de que a tratem bem.
       -Voc... -comeou Jamie e se deteve.
       Olhou-o de tal forma que podia ler seus pensamentos. Ian no tinha pedida permisso para ir; tinha anunciado diretamente que ia. Se Jamie o proibia teria que ser por um motivo de peso; se lhe dizia que era muito perigoso, significaria admitir que mandava  pulseira para o perigo e que no confiava no Myers e suas relaes com os ndios locais. Jamie estava apanhado; Ian tinha sabido faz-lo muito bem.
       Respirou ruidosamente e Ian sorriu.
       Olhei ao outro lado do fogo. Poliyanne seguia ali, com os olhos cravados no Myers. Com um sorriso de convite, subiu lentamente uma mo at um de seus grandes seios com ar ausente.
       Myers a contemplava enjoado, como um cervo assanhado pelo caador.
       Eu teria obrado de forma diferente?, pensei mais tarde, escutando os discretos rudos que provinham das mantas do Myers. Se soubesse que minha vida dependia de um homem, no faria algo para me assegurar seu amparo frente a um perigo desconhecido?
       Jamie me abraou e voltou a ficar dormido. Possivelmente no havia grande diferencia. Era meu futuro mais seguro que o seu? Acaso minha vida no dependia de um homem ligado a mim, ao menos em parte, pelo desejo de meu corpo?
       No, no era o mesmo, havia diferenas. Por mais desconhecido que fora meu futuro, os laos entre o Jamie e eu eram muito mais profundos que os da carne. Havia outra grande diferencia: eu tinha eleito estar ali.
       
       
       15
       Nobres selvagens
       
       Separamo-nos pela manh. Jamie e Myers acordaram como nos reencontrar ao cabo de dez dias. Ao observar a assombrosa imensido daqueles bosques e montanhas no pude imaginar como algum podia encontrar um lugar determinado; s podia confiar no sentido de orientao do Jamie.
       foram-se para o norte e ns para o sudoeste, seguindo o curso do arroio junto ao que tnhamos acampado.
       Ao princpio todo parecia muito tranqilo e extraamente solitrio. Mas em pouco tempo me acostumei  solido e comecei a me relaxar e a me interessar pelo que nos rodeava.
       depois de tudo, este poderia ser nosso lar.
       -Sabe que no tinha visto uma vaga-lume at que fui viver a Boston? -pinjente, entusiasmada ao as ver brilhando como esmeraldas na erva-. No h vaga-lumes em Esccia, verdade?
       Jamie fez um gesto negativo, e se reclinou perezosamente sobre a erva, com um brao dobrado baixo a cabea.
       -Bonitas e pequenas -observou e suspirou de felicidade-. Este  meu momento favorito do dia. Quando vivia na cova, depois do Culloden, saa perto do anoitecer e me sentava em uma pedra a esperar que obscurecesse.
       Tinha os olhos entrecerrados, observando as vaga-lumes.
       - s um momento, mas se sente como se fora a durar sempre. Estranho, no? -disse pensativo-. Quase pode ver a luz que se vai e entretanto no h um momento em que possa olhar e dizer: Agora! J  de noite!
       Fez um gesto para o claro que se abria entre as rvores.
       -Lembra-te do pai Anselmo da abadia? -Levantei a vista e vi que a cor das folhas dos carvalhos se ia convertendo em um suave prateado-. Dizia que sempre h um momento do dia em que o tempo parece deter-se, mas que  diferente para cada pessoa. Ele pensava que podia ser a hora em que algum tinha nascido.
       Voltei a cabea.
       -Sabe quando nasceu? -perguntei-. Refiro-me  hora do dia.
       Sorriu e se deu a volta para me olhar  cara.
       -Sim, sei. Talvez tenha razo, porque nasci na hora do jantar, justo no crepsculo de primeiro de maio. A que hora nasceu voc, Sassenach?
       -No sei -respondi, sentindo a dor por minha famlia perdida-. No estava em meu certido de nascimento, e se o tio Lamb sabia, no me disse isso. Mas sei quando nasceu Brianna -acrescentei com alegria-. Nasceu s trs e trs minutos da madrugada. Havia um grande relgio na parede da sala de partos e me fixei.
       face  pouca luz pude ver sua cara de surpresa.
       -Estava acordada? Acreditei que me havia dito que s mulheres as drogam para que no sintam a dor.
       -Quase sempre, mas eu no quis que me dessem nada.
       -por que? -quis saber, incrdulo-. Nunca vi a uma mulher dar a luz, mas as ouvi em mais de uma ocasio. E maldita seja se entender por que algum em seu so julgamento quer acontecer por isso.
       -Bom... -Fiz uma pausa porque no desejava me pr melodramtica. Mas era a verdade-. Acreditava que ia morrer e no queria que ocorresse enquanto dormia.
       No se impressionou. Arqueou uma sobrancelha e soprou divertido.
       -Voc tivesse querido?
       arranhou-se o nariz ainda divertido.
       -Bom, quando me foram pendurar estive perto da morte e eu no gostei da espera. E quase me matam um par de vezes na batalha, mas ento no me preocupava muito a forma de morrer, estava muito ocupado. E finalmente quase morro pelas feridas e a febre; ento o desejava. Mas se me do a escolher acredito que no me importaria morrer enquanto durmo. -Beijou-me brandamente-. Se for possvel na cama, a seu lado e a uma idade muito avanada.
       Tocou-me os lbios com sua lngua e logo ficou em p limpando-as folhas secas dos cales.
       -vamos preparar a fogueira agora que ainda h luz para acender o pederneira. Quer trazer o pescado?
       Coloquei o pescado molhado sobre a erva e me sentei sobre meus tales observando ao Jamie.
       -Como crie que ser? -perguntei de repente-. Morrer, refiro-me. "O homem  como a erva que se murcha e  jogada no fogo,  como as fascas que voam para cima..." -citei com suavidade-. Crie que haver algo depois?
       -No sei -disse finalmente-. Por um lado est o que diz a Igreja, mas... -Seus olhos seguiam fixos nas vaga-lumes-. No, no posso diz-lo, mas poderia estar bem.
       Apertou sua bochecha contra minha cabea e logo se levantou.
       Eu tambm acreditava que poderia estar bem. No sabamos o que havia depois da vida, mas podia ser algo cheio de paz...
       Jamie roou meu ombro com sua mo e sorri sem abrir os olhos.
       -Ai! -murmurou Jamie-. Cortei-me, sou um torpe.
       Abri os olhos. Estava a um metro e meio de distncia com a cabea inclinada chupando o polegar que se cortou. Me ps a carne de galinha.
       -Jamie-disse.
       Minha voz soou estranha inclusive a meus ouvidos.
       -Sim?
       -H...? -Traguei saliva e o plo dos braos me arrepio-. Jamie, h algum... algo... detrs de mim?
       Seus olhos se fixaram nas sombras e se abriram surpreendidos. No queria olhar por cima de meu ombro e me esmaguei contra o cho em um gesto que me salvou a vida.
       Algo me golpeou nas costas e pisou em minha cabea. Um grande urso negro se cambaleava pelo claro e suas patas pulverizavam os pequenos ramos da fogueira.
       Mdio cegada consegui ver o Jamie baixo o urso, que o cucaba o cangote com uma pata. Jamie tinha a cabea baixo as fauces e tentava freneticamente apoiar um p no cho. tirou-se as botas e as meias quando acampam e deixei escapar um gemido quando vi que um dos ps descalos pisava nos restos do fogo, levantando as brasas.
       O urso arremetia tratando de livrar do peso que lhe pendurava do pescoo. Pareceu perder o equilbrio e caiu pesadamente. Ouvi uma exclamao que no provinha do urso enquanto procurava enlouquecida algo que pudesse utilizar como arma. O urso ficou em p agitando-se com violncia e vi o rosto do Jamie deformado pelo esforo.
       -Corre! -gritou.
       O urso caiu outra vez sobre ele e desapareceu baixo cento e cinqenta quilogramas de cabelo e msculos.
       Com vagas lembranas do Mowgli e a Flor Vermelha, procurei no cho sem encontrar mais que ramitas inofensivas; ento minha mo se deteve sobre algo frio e viscoso: o pescado abandonado a um lado.
       -Ao diabo com Flor Vermelha -murmurei.
       Agarrei uma das trutas pela cauda, corri e golpeei ao urso no focinho com todas minhas foras; este fechou a boca surpreso, torceu a cabea e se lanou sobre mim a uma velocidade que no tinha acreditado possvel. Retrocedi e tentei dar um ltimo e valente golpe com o pescado antes de que o urso carregasse contra mim, com o peso morto do Jamie ainda pendurando de seu cangote.
       Foi como ficar apanhada em um moinho de carne, naquele momento s sentia alguns golpes no corpo e a sensao de que me afogava uma enorme manta peluda. Logo se separou, me deixando atirada de costas, impregnada de aroma de urina de urso e piscando baixo o luzeiro da tarde que brilhava serenamente sobre minha cabea.
       Estava escuro, mas havia suficiente luz no firmamento para ver o que acontecia. O urso tinha cansado outra vez, mas em lugar de levantar-se rodava o lombo tratando de sujeitar-se com as patas. Ouvi um grunhido que no era do urso e me chegou o aroma do sangue.
       -Jamie! -chiei.
       No recebi resposta. A massa que se contorsionaba continuava rodando para as rvores. Lentamente, respirando de forma entrecortada e entre grunhidos, Jamie saiu engatinhando para o claro. Sem me preocupar com os golpes recebidos corri para ele e ca de joelhos.
       -Jamie! Est bem?
       -No -disse desabando-se em terra entre suaves ofegos.
       -Cheira a matadouro -pinjente, enquanto lhe buscava o pulso no pescoo. Estava acelerado mas era forte. Uma onda de alvio me alagou-. O sangue  tua ou do urso?
       -Se fosse minha, Sassenach, j estaria morto -disse, abrindo os olhos-. Embora se no o estou, no  graas a ti. -apoiou-se como pde sobre suas mos e joelhos, com um grunhido-. por que me golpeou com a truta enquanto lutava por minha vida?
       -te esteja aquieto, caramba! -No podia estar muito mal ferido se tratava de mover-se. Apalpei-lhe o torso-, Costelas rotas? -perguntei.
       -No. Mas se me faz ccegas, Sassenach, no me vai gostar -disse ofegando-. Estou bem, Sassenach -disse enquanto rechaava meus intentos para lhe ajudar a sentar-se-. v ver os cavalos, devem estar inquietos.
        lombriga relincharam encantados, em que pese a meu aroma de urina de urso. Das sombras chegavam uns gemidos quase humanos que me arrepiavam o plo da nuca. Quando terminei de acalmar aos cavalos, os gemidos j tinham cessado. Levei-os a claro do bosque, onde Jamie tinha aceso de novo o fogo.
       -De verdade no est mal ferido? -perguntei, ainda preocupada.
       Dirigiu-me um sorriso torcido.
       -Golpeou-me nas costas mas no acredito que seja muito grave. Quer olh-lo? -endireitou-se, estremecendo-se pela dor. Pergunto-me por que o ter feito -disse, movendo a cabea para o cadver do urso-. Myers disse que os ursos negros no atacam se no serem provocados.
       -Talvez algum o fez -sugeri-. E logo teve o bom sentido de escapar.
       Despi suas costas e deixei escapar um assobio ante as marcas produzidas pelas garras do urso.
       -To mal est?
       Jamie tratou de ver-se-a, mas se deteve com um grunhido de dor.
       -No, mas est muito suja, terei que te lavar. -Coloquei uma panela com gua no fogo, pensando o que outra coisa podia usar-. vou procurar uma planta de sagitria. Acredito que encontrarei alguma no arroio. -Alcancei-lhe a garrafa de cerveja e agarrei sua faca-. Estar bem?
       Estava muito plido e ainda tremia.
       -Sim. No se preocupe, Sassenach, a idia de morrer dormindo em minha cama me parece mais doce agora que faz uma hora.
       A lua se elevava brilhando sobre as rvores, o que me permitiu encontrar o lugar sem problemas. Meti-me na gua geada para arrancar a planta, lavei-me a cara e retornei para o fogo me sentindo algo melhor.
       Podia ver o Jamie sentado muito erguido, em uma postura que devia resultar dolorosa para suas feridas. Detive-me de repente, para ouvir sua voz.
       -Claire? -No voltou a cabea; sua voz era tranqila e no esperou minha resposta para continuar falando-. Te aproxime, Sassenach, coloca a faca em minha mo esquerda e fica aquieta.
       Com o corao acelerado, dava os trs passos que me permitiam ver por cima do Jamie. Ao outro lado do claro, dentro do rdio de luz do fogo, trs ndios bem armados permaneciam imveis. Era evidente que o urso tinha sido provocado.
       
       Os ndios nos contemplavam com o mesmo interesse que ns a eles. Eram trs, um maior e dois mais jovens, de uns vinte anos. "Um pai com seus filhos", pensei, pelo parecido que havia entre eles.
       Observei suas armas com dissimulao. O major levava um antigo fuzil francs, daqueles que funcionavam com pederneira. Parecia que lhe exploraria na cara se disparava, mas confiei em que no o faria.
       Um dos jovens levava um arco com flechas e os trs tinham tochas de guerra de aspecto sinistro e largas facas no cinturo. Em comparao, o do Jamie parecia de brinquedo.
       Certamente Jamie chegou  mesma concluso que eu, porque se inclinou para diante e deixou a faca no cho, a seus ps. Logo estendeu as mos vazias e se encolheu de ombros.
       Os ndios -lanaram umas risitas nervosas. O rudo era to inofensivo que sorri a modo de resposta, em que pese a que meu estmago seguia encolhido pelos nervos. Quando vi que os ombros do Jamie se relaxavam me senti mais segura.
       -Bonsoir, messieurs -disse-. Parlez-vous francais?
       Os ndios riram outra vez, olhando-se entre eles com acanhamento. O major avanou um passo e inclinou a cabea.
       -No... francs -disse.
       -Ingls? -perguntei esperanada.
       Olhou-me interessado mas negou com a cabea. Disse algo ininteligvel a um dos jovens, que lhe respondeu no mesmo idioma. Logo se dirigiu ao Jamie e lhe perguntou algo arqueando as sobrancelhas.
       Jamie sacudiu a cabea sem entender, ento um dos jovens assinalou a camisa manchada de sangre com gesto de interrogao.
       -Sim, est ali -disse Jamie, assinalando o urso.
       Sem mais pergunta desapareceram na escurido, de onde nos chegaram suas exclamaes de excitao.
       -No passa nada, Sassenach. No nos faro mal, so caadores. -Fechou os olhos e vi como o suor lhe cobria o rosto-.  uma sorte porque acredito que vou deprimir me.
       -Nem o pense. No te atreva a te deprimir e me deixar reveste com eles! -Fiz que baixasse a cabea e respirasse profundamente-. Agora te endireite, que j voltam.
       Retornaram arrastando o cadver do urso. Jamie se secou o suor com um leno. Seguia tremendo apesar da calidez da noite.
       O ndio major se aproximou de ns e assinalou primeira a faca do Jamie e logo o urso morto. Jamie assentiu com modstia.
       O ndio inclinou a cabea e estendeu as mos em um gesto de respeito. Chamou um dos jovens, o qual se aproximou tirando uma bolsita de seu cinturo enquanto me apartava sem cerimnias e abria a camisa do Jamie para ver suas feridas. Derrubou a bolsa na palma de sua mo; caiu um p grumoso sobre o que cuspiu copiosamente e aplicou a mescla nas feridas.
       
       16
       A primeira lei da termodinmica
       
       Despertei bruscamente depois de amanhecer, com picores na cabea. Sem abrir os olhos investiguei com a mo. O movimento assustou a uma gralha que tinha estado me arrancando alguns cabelos. Arranhei-me e no pude evitar um sorriso recordando as vezes que me haviam dito que, quando me levantava, minha cabea parecia um ninho de pssaros.
       Os ndios tinham desaparecido e com eles a cabea do urso.
       Meu pente estava na bolsita de pele de ante onde tinha meus objetos pessoais e algumas remdios de primeira necessidade. Sentei-me com cuidado para no despertar ao Jamie.
       Estava deitado sobre suas costas, com as mos cruzadas, to pacfico como a efgie de um sarcfago. A oportunidade de ver dormir no era muito freqente. Dormia como um gato, preparado para saltar ante qualquer ameaa. Habitualmente se levantava o amanhecer, enquanto eu ainda flutuava em sonhos.
       Por uma vez no tinha pressa. No tinha que alimentar um menino, nem vestir e mandar  escola a uma criatura, nem me esperavam no trabalho pacientes ou informe que escrever.
       Meus cabelos roavam minhas costas nua com um agradvel comicho. Sonriendo me dava conta de que no o tinha imaginado. Estava segura de no me haver tirado a roupa ao me deitar. Levantei a manta e vi marcas de sangue seca em minhas coxas e no ventre. Sentia umidade entre as pernas. Passei-me um dedo e encontrei algo leitoso, com um aroma que no era o meu. Isso foi suficiente para recordar o que acreditava que tinha sido um sonho. Um enorme urso sobre meu corpo, o terror, a imobilidade e as suaves carcias, muito estranhas para ser as de um animal. E logo, em um momento de conscincia, uma pele nua tocando a minha at chegar ao clmax, para finalmente me deslizar para o mundo dos sonhos com um suave ronco escocs em meus ouvidos.
       - normal que ainda durma -disse com tom acusador.
       No abriu os olhos, mas um suave e lento sorriso cruzou sua cara como resposta.
       
       Os ndios tinham deixado uma parte da carne do urso envolta em sua pele oleosa e pendurada dos ramos de uma rvore para que no perigasse ante as mofetas e os mapaches. Depois do caf da manh e de um apressado banho no arroio, Jamie estudou o rumo a seguir.
       -Iremos para ali -disse, assinalando um distante pico azulado-. V como se marca um desfiladeiro? Ao outro lado est a terra dos ndios; a nova linha do Tratado segue essa cordilheira.
       -Realmente algum fez um reconhecimento do terreno?
       Escrutinei com incredulidade as montanhas que se elevavam ante ns dos vales. Entre a nvoa da manh surgiam como uma srie interminvel de miragens, com cores que foram do negro esverdeado ao azul e ao prpura, os picos mais longnquos pareciam agulhas negras atravessando um cu de cristal.
       -Sim. -Fez voltar-se para seu cavalo para que o sol lhe desse nas costas-. Tm que hav-lo feito para poder dizer com segurana qual  a terra que pode utilizar-se. Informei-me dos limites antes de que sassemos do Wilmington e Myers me disse o mesmo: "O territrio que se situa a este lado da crista mais alta". Tambm o perguntei aos moos que jantaram conosco ontem  noite, s para estar seguro de que eles tambm sabiam. -Sorriu-me-. Lista, Sassenach?
       -Mais que nunca -assegurei-lhe.
       Tinha lavado sua camisa ou o que ficava dela no arroio e agora se secava baixo sua cadeira de montar. Ia semidesnudo, com as calas de couro e a capa atada  cintura, as largas cicatrizes deixadas pelo urso no estavam inflamadas e, pela forma em que se movia, ferida-las no deviam lhe doer.
       Seu nimo melhorava mais e mais enquanto nos afastvamos da plancie. No podia deixar de compartilhar sua alegria, mas ao mesmo tempo sentia um terror crescente pelo que aquilo podia significar.
       No meio da amanh chegamos s ladeiras. Estavam to mastreadas que no se podia avanar. Para cima se via uma rocha quase vertical e ante ela um labirinto de ramos salpicados com cores douradas, verdes e castanhos. Atamos os cavalos perto de um arroio com a borda coberta de erva e seguimos a p para diante e para cima, entrando naquele maldito bosque primitivo.
       Alcanamos o topo de uma colina e encontramos outro ante ns e outro mais  frente. No sabia o que estvamos procurando.
       Seguimos pelo caminho, at encontr-lo bloqueado por um bosquecillo de louros silvestres que, a certa distncia, parecia um claro brilhante entre as conferas escuras, mas de perto resultou possuir de uma maleza impenetrvel.
       Retrocedemos e baixamos. Baixo a sombra das rvores corria ar fresco e suspirei aliviada. Jamie me ouviu e se voltou sonriendo enquanto sujeitava um ramo para me deixar passar. O terreno estava talher de uma grosa capa de folhas e os espaos entre as rvores tinham um ar fantstico, como se o passar entre os troncos enormes pudesse nos transportar, de repente, a outra dimenso da realidade.
       O cabelo do Jamie brilhava com os ocasionais raios de sol, como uma tocha que me iluminava para seguir atravs das sombras do bosque.
       Subimos por um saliente de granito coberto de musgo e lquenes, seguimos o curso de um arroio que baixava, apartando as ervas altas que se enredavam em nossas pernas e esquivando os ramos de louros silvestres e de rododendros.
       A nosso passo surgiam maravilhas: pequenas orqudeas e cogumelos brilhantes, vermelhos e negros, entre os troncos cansados.
       As liblulas revoavam sobre a gua como jias que se desvaneciam na nvoa.
       Senti-me enjoada pela abundncia e cativada pela beleza. O rosto do Jamie tinha a expresso de um homem que sabe que est sonhando e no deseja despertar. Paradoxalmente, enquanto melhor me sentia, tambm me sentia pior; contente e assustada. Este era o site do Jamie e seguro que ele o sentia to bem como eu.
       Pela tarde nos detivemos cedo para descansar e beber de um pequeno arroio que atravessava um claro do bosque. A terra baixo os arces estava coberta por uma grosa capa de folhas cor verde escura, entre as que divisei um sbito brilho vermelho.
       -Morangos selvagens! -exclamei encantada.
       Eram pequenas e de cor vermelha escura. Para as pautas da horticultura moderna resultavam muito azedas, quase amargas; mas depois da carne fria de urso e as duras tortas de milho resultavam deliciosas; uma fresca exploso de sabor em minha boca, e doces espetadas em minha lngua.
       Jamie apoiou as costas em um sicmoro e fechou os olhos ante o resplendor do sol da tarde. O pequeno claro retinha a luz como uma taa, limpa e tranqila.
       -O que te parece este lugar, Sassenach? -perguntou.
       -Acredito que  muito belo. No te parece?
       Assentiu olhando entre as rvores.
       -Estive pensando -disse Jamie, um pouco incmodo-. H um arroio aqui no bosque. Essa pradaria da abaixo... -Assinalou a cortina de alisos que protegiam a crista da verde ladeira-. Ao princpio serviria para uns poucos animais, logo a terra prxima ao rio poderia ser preparada para o cultivo. A elevao do terreno  adequada para uma boa drenagem. E ali...
       Apanhado por suas vises ficou em p assinalando algo. Olhei com cuidado; para mim, o lugar se diferenciava muito pouco de outros pelos que tnhamos passado nos ltimos dias. Mas para o Jamie, com seus olhos de granjeiro, as casas, os currais e os campos semeados surgiam como os duendes dos cogumelos  sombra das rvores.
       -Est pensando em que poderamos nos estabelecer aqui? Aceitar a oferta do governador?
       Olhou-me, detendo bruscamente suas especulaes.
       -Poderamos -respondeu-. Sim...
       interrompeu-se e me olhou de soslaio. Estava vermelho, mas naquele momento no tivesse podido dizer se era pelo sol ou o rubor do acanhamento.
       -Crie nos signos, Sassenach?
       -Que classe de signos? -perguntei com cautela.
       Como resposta se inclinou, recolheu uma planta e a depositou em minha mo: as folhas eram verdes como pequenos leques, a flor branca com o caule magro e havia um morango a ponto de maturar.
       -Estes. So os nossos, v-o?
       -Nossos?
       -Quero dizer dos Fraser -explicou-. Os morangos sempre foram o emblema do cl.  o que significa o nome desde que Monsieur Frselire chegou da Frana com o rei Guillermo e recebeu, por seu trabalho, as terras nas montanhas de Esccia.
       -Ento, fostes guerreiros desde o comeo?
       -E tambm granjeiros.
       A dvida de seus olhos se transformou em sorriso.
       No disse o que estava pensando, mas lhe conhecia o suficiente para saber a idia que cruzava sua mente. J no havia cl Fraser, a no ser fragmentos disseminados, aqueles que tinham sobrevivido escapando. Os cls tinham sido esmagados no Culloden e seus chefes sacrificados na batalha ou justiados posteriormente.
       Sorri-lhe lutando contra meu crescente desalento.
       -Frselire, n? Senhor Strawberry? Cultivou-as ou somente gostava de comer-lhe 
       -Pelo um, pelo outro ou por ambas as coisas -respondeu com secura-. Ou talvez porque era ruivo.
       Ri e ficou em cuclillas junto a mim.
       - uma planta extraordinria -disse, tocando o broto sobre minha mo aberta-. Flores, frutos e folhas, tudo junto ao mesmo tempo. As flores brancas so pela honra, a fruta vermelha pelo valor e as folhas verdes pela fidelidade.
       Olhei-o com um n na garganta.
       -O fruto tem a forma de um corao -disse brandamente e me beijou.
       Uma lgrima comeou a rodar por minha bochecha. Jamie a secou, levantou-se, tirou-se a roupa e me sorriu, totalmente nu.
       -No h ningum aqui -disse-. Ningum salvo ns.
       Poderia lhe haver dito que isso no era uma razo, mas sabia o que queria me dizer.
       -No passado, os homens o faziam para fertilizar os campos -disse, me dando a mo para que me levantasse.
       -No vejo semeados.
       E no estava segura de desejar que os houvesse alguma vez.
       De todos os modos, tirei-me a roupa enquanto Jamie me olhava com gosto.
       -Bom, no h dvida de que primeiro deverei cortar umas poucas rvores. Mas isso pode esperar, no?
       Fizemos uma cama com a capa e o manto e nos deitamos nus entre as ervas amarelas e o aroma dos morangos silvestres.
       -E o que seria do den sem a serpente? -murmurei.
       Seus olhos eram uns tringulos azuis, to prximos que podia ver o negro de suas pupilas.
       -Quereria comer comigo, mo chridhef O fruto da rvore do Bem e do Mal?
       Tirei a lngua e passei a ponta por seus lbios. estremeceu-se entre meus braos.
       -Je suis prest, Monsieur Frselire -pinjente.
       Inclinou a cabea e sua boca se apoderou de um de meus mamilos, como se fora um dos morangos.
       -Madame Frselire -sussurrou-. Je suis a votre service.
       E ento compartilhamos a fruta e as flores e as folhas verdes o cobriram tudo.
       
       Permanecemos adormecidos at que as primeiras sombras tocaram nossos ps. Jamie se incorporou devagar e me tampou com a capa acreditando que estava dormida.
       Dava-me a volta e o vi pouca distncia dali, no limite do bosque, olhando o terreno em declive que ia para o rio
       Sua nica vestimenta era a capa sujeita  cintura. Com o cabelo solto sobre os ombros luzia como o selvagem highlander que era. O que tinha pensado que era uma armadilha para sua famlia e seu cl, era sua fora. E o que tinha pensado que era minha fora, minha solido e minha falta de laos, era minha debilidade.
       Havia resolvido no dizer nada, viver o momento e aceitar o que viesse. Mas o momento era este e no podia aceit-lo. Vi que baixava a cabea com determinao ao mesmo tempo que vi seu nome gravado na fria lpide. O terror e o desespero se apoderaram de mim.
       Como se tivesse ouvido o eco de meu pensamento, voltou a cabea para mim. O que fora que viu em meu rosto lhe fez aproximar-se apressadamente.
       -O que acontece, Sassenach?
       No tinha sentido mentir, no quando podia lombriga.
       -Tenho medo -estalei.
       Olhou para detectar o perigo enquanto sua mo procurava a faca, mas lhe sujeitei o brao.
       -No  isso, Jamie. me abrace, por favor.
       -Tudo est bem, a nighean donn -murmurou-. Estou aqui. O que  o que te assusta?
       -Voc -pinjente e me apertei com mais fora. Seu corao ressonava baixo meu ouvido, forte e constante-. D-me medo pensar em ti, aqui, em ns vivendo...
       -Medo? -perguntou-. Do que, Sassenach? -Seus braos me sustentaram com fora-. Disse-te quando nos casamos que sempre te cuidaria. Dava-te trs coisas aquele dia -disse brandamente, apertando minha cabea contra seu ombro-. Meu nome, minha famlia e o amparo de meu corpo. Ter essas trs coisas sempre, Sassenach, enquanto os duas estejamos com vida. No importa onde. No deixarei que passe fome nem fria, nem deixarei que nada te faa mal, nunca.
       -No tenho medo de nada disso -pinjente bruscamente-. Tenho medo de que morra; no poderei suport-lo, Jamie. No poderei!
       tornou-se para trs surpreso e me olhou  cara.
       -Bom, farei o que possa, Sassenach -disse-, mas j sabe que no tudo depende de mim nesse assunto.
       Seu rosto estava srio, mas um lado de sua boca se curvava sem poder reprimi-lo.
       -No te ria! -pinjente furiosa-. No te atreva a rir !
       -No, no o fao -assegurou-me, tratando de ficar srio.
       -Est-o fazendo!
       Golpeie-lhe no peito. Ento comeou a rir e eu segui lhe dando golpes com os punhos fechados.
       -Sassenach, viu-me perto da morte uma dzia de vezes e no te moveu um cabelo. por que est assim agora, quando nem sequer estou doente?
       -Alguma vez me moveu um cabelo? -Observei-lhe com surpresa e fria-. Acreditava que no me importava?
       -Ah, bom,  obvio que sei que te importava. Mas nunca o pensei dessa maneira, admito-o.
       - obvio que no! E se o tivesse feito no teria havido diferena.  um... um... escocs!
       Era a pior coisa que podia pensar em lhe dizer. E me apartei furiosa.
       Mas, desgraadamente, cravei-me algo no p descalo e quase me caio ao tratar de me tirar o espinho. Uma mo forte me sujeitou o cotovelo.
       Com toda dignidade comecei a me vestir enquanto Jamie me observava com os braos cruzados, sem fazer comentrios.
       -Quando Deus expulsou ao Ado do Paraso, ao menos Eva se foi com ele -pinjente, falando comigo mesma.
       -Estraga, isso  certo -disse depois de uma pausa cautelosa-, N, no ter comido alguma das novelo que recolheu esta manh, no? Suponho que no -acrescentou ao ver minha expresso-. S me perguntava isso. Myers disse que algumas provocam pesadelos terrveis.
       -No tenho pesadelos -disse com mais firmeza da necessria.
       Tinha-as, embora as novelo alucingenas no tinham nada que ver.
       Jamie suspirou.
       -Quer me dizer do que est falando, Sassenach, ou prefere me fazer sofrer um pouco?
       -Estou falando de ti -pinjente.
       -por que?
       -Porque  um maldito highlander com todas essas idias sobre a honra, o valor e a fidelidade; sei que no pode evit-lo e eu tampouco quero que o faa. S que, maldio, isso te vai levar a Esccia, onde morrer e no poderei fazer nada para evit-lo.
       -Esccia? -perguntou, como se houvesse dito uma loucura.
       -Esccia! Onde est sua maldita tumba!
       -Ah! -disse-. J vejo. Crie que se for a Esccia, morrerei, j que ali est minha tumba.  isso?
       Assenti, muito turvada para falar.
       -Mmm. E por que pensa que vou a Esccia?
       -E de onde diabos vais tirar colonos para estas terras?  obvio que ir a Esccia! Olhou-me. Esta vez o zangado era ele.
       -Como pensa que poderia faz-lo, Sassenach? Pude faz-lo quando tinha as pedras preciosas. Mas agora? Talvez tenha dez libras a meu nome e som emprestadas. Irei voando como um pssaro? Trarei s pessoas caminhando sobre a gua?
       -J pensar em algo -pinjente me sentindo uma desgraada-. Sempre o faz.
       -No me tinha dado conta de que pensava que eu era Deus Todo-poderoso, Sassenach.
       -No, homem. Moiss, em todo caso.
       Jamie, com as mos nas costas, comeou a passear.
       -No posso faz-lo sozinho -disse com calma-. Nisso tem razo. Mas no acredito que tenha que ir a Esccia para procurar colonos.
       -E a que outro lugar?
       -Meus homens... os homens que estiveram comigo no Ardsmuir. Esto todos aqui.
       -Mas no tem nem idia de onde -protestei-. E alm disso, trouxeram-nos faz anos! J devem estar situados. No vo deixar o tudo para vir ao fim do mundo contigo!
       Sorriu-me com ironia.
       -Voc o fez, Sassenach.
       Respirei profundamente. O peso do temor que tinha ocupado meu corao durante aquelas semanas tinha desaparecido.
       -Pensarei em algo -disse, sonriendo ao ver as dvidas e incertezas em meu rosto-. Sempre o fao, no?
       Deixei escapar um comprido suspiro.
       -Faz-o. Est seguro? Sua tia Yocasta...
       -No -respondeu-. Nunca.
       Vacilei, me sentindo culpado.
       -No o far... no  por mim?  pelo que disse sobre os escravos?
       -Eu vivi como escravo, Claire -disse com a cabea encurvada-. E no poderia viver sabendo que h um homem na terra que sente para mim o que eu senti para meus donos.
       -No vais deixar me? -perguntei-. No vais morrer?
       Sacudiu a cabea e me oprimiu a mo.
       -Voc  meu valor, assim como eu sou sua conscincia -sussurrou-. Voc  meu corao e eu sua compaixo. Solos no somos nada. No sabe, Sassenach?
       -Sei -disse com voz tremente-. Por isso tenho tanto medo. No quero voltar a ser meia pessoa, no poderia suport-lo.
       Agarrou-me entre seus braos e pude sentir como subia e baixava seu peito ao respirar.
       -Mas no te d conta de que a noo da morte entre ns  muito pouca coisa, Claire? -sussurrou.
       Minhas mos se fecharam contra seu peito. No, no pensava que fora pouca coisa.
       -Todo o tempo, quando me deixou depois do Culloden, estive morto, no  assim?
       -Acreditei que estava morto. Por isso...
       Suspirei profundamente e Jamie assentiu.
       -dentro de duzentos anos seguro que estarei morto, Sassenach -disse sonriendo-. Por causa dos ndios, os animais selvagens, uma praga, a corda da forca ou s pela bno de uma idade avanada, mas estarei morto.
       -Sim.
       -E enquanto voc estava ali, em seu prprio tempo... eu estava morto, no?
       Assenti sem palavras. Inclusive agora posso olhar para trs e ver o abismo de desespero no que aquela partida me sumiu e de que sa subindo penosamente centmetro a centmetro.
       -"O homem  como a erva do campo -citou, esfregando minhas mos-. Hoje floresce; amanh se seca e se atira ao forno." Levantou o penacho verde e o levou aos lbios, para logo pass-lo por minha boca.
       -Estava morto, Sassenach, e entretanto todo esse tempo te amei.
       Fechei os olhos sentindo a leve coceira da erva em meus lbios.
       -Eu tambm te amava -sussurrei-. Sempre o fiz.
       -Enquanto meu corpo e o teu vivam, seremos uma s carne -sussurrou.
       Seus dedos me tocaram o cabelo, o queixo, o pescoo e os peitos; respirei seu flego e o senti em minhas mos.
       -E quando meu corpo perea, minha alma ainda ser tua, Claire. Juro por minha esperana de ganhar o cu que no serei separado de ti. Nada se perde, Sassenach; s se transforma.
       -Isso  a primeira lei da termodinmica -pinjente me secando o nariz.
       -No -respondeu-. Isso  f.
       
       
       SEXTA PARTE
       Je taime
       
       17
       Em casa para as festas
       
       Inverness, Esccia, 23 de dezembro de 1969
       
       Controlou o horrio de trens por dcima vez e continuou dando voltas pelo vestbulo da reitoria, muito inquieto para sentar-se. Ainda devia esperar uma hora.
       A habitao estava semidesmantelada, montes de caixas de carto por toda parte, sem nenhuma ordem. Tinha prometido deixar o lugar vazio para Ano Novo, salvo as coisas que Fiona queria ficar.
       Desejava que a senhora Graham e o reverendo tivessem conhecido a Brianna, quo mesmo a jovem a eles. Sorriu ante a mesa da cozinha, recordando uma conversao em sua adolescncia com as duas pessoas maiores quando ele, presa de um louco desejo no correspondido pela filha do dono do estanque, tinha-lhes perguntado como se sabia se a gente estava realmente apaixonado.
       -Se tiver que te perguntar se est apaixonado, moo, ento no o est -assegurou-lhe a senhora Graham-. E mantn suas garras longe da pequena Mavis ou seu pai te matar.
       -Quando est apaixonado, Roger, sabe sem que lhe digam isso -atravessou o reverendo, colocando um dedo na massa da torta e retrocedendo, zombador, quando a senhora Graham lhe ameaou com a colher.
       Tinham razo. Sabia desde que conheceu a Brianna Randall. O que no sabia com segurana era se Brianna sentia o mesmo.
       No podia esperar mais. tocou-se o bolso para verificar que tinha as chaves, baixou as escadas e saiu a enfrentar-se com a chuva de inverno, que tinha comeado justo depois do caf da manh. Diziam que uma ducha fria era o melhor remdio. Mas com o Mavis no tinha funcionado.
       
       24 de dezembro de 1969
       
       -O bolo de ameixas est no forno quente e o molho na panela. -Fiona lhe deu as instrues, colocando-se seu chapu de l de cor vermelha. Fiona era baixa e a seu lado parecia uma an de jardim-. No suba muito o fogo. Aqui esto as instrues para amanh...
       -No se preocupe, Fiona -tranqilizou-a-. No vamos queimar a casa. Nem tampouco morreremos de fome.
       Arqueou as sobrancelhas vacilando ante a porta. Seu noivo a esperava fora, sentado no carro com o motor em marcha, impaciente.
       -Ah, bom. Est seguro de que no querem vir conosco?  me do Ernie no lhe importar. Estou segura de que no lhe parecer bem que fiquem sozinhos em Natal...
       -No se preocupe, Fiona -disse empurrando-a para a porta-. E passa umas boas festas com o Ernie.
       O som da buzina a fez olhar ao carro com indignao.
       -Bom, j vou, vale?
       voltou-se para o Roger e com um sorriso radiante jogou os braos ao pescoo e nas pontas dos ps lhe beijou nos lbios.
       Deu um passo atrs e lhe piscou os olhos um olho.
       -Isso ensinar ao Ernie -sussurrou-. Felizes Pscoas, Rog! -disse em voz alta e se foi rebolando at o carro.
       Roger permaneceu no alpendre agitando a mo. abriu-se a porta e Brianna tirou a cabea.
       -O que est fazendo fora sem casaco? Est gelando!
       Vacilou com a tentao de contar-lhe depois de tudo, era evidente que a relao da Fiona e Ernie ia vento em popa. Mas era vspera de Natal, recordou-se a si mesmo.
       Pese ao cu escuro e a temperatura baixa, sentia calor. Sorriu-lhe.
       -Estava me despedindo da Fiona -disse-. vamos ver se podemos preparar o almoo sem queimar a cozinha?
       Prepararam uns sanduches sem nenhum problema e retornaram ao estudo depois do almoo. A habitao j estava quase vazia, s ficavam umas poucas prateleiras com livros para embalar.
       O grande escritrio do reverendo tinha sido esvaziado e levado a garagem, as prateleiras tambm estavam virtualmente vazias e o painel de cortia da parede livre de papis, s tinha ficado um. Tinha-o deixado para o final.
       -O que acontece esses? -Brianna assinalou um monto de livros que havia sobre a mesa-. Esto assinados mas no dedicados. Tem a srie que dedicou a seu pai. Tambm quer estes? So primeiras edies.
       Roger colheu com delicadeza um dos livros. Era a obra do Frank Randall; livros to elegantemente escritos como apresentados.
       -Deve guard-los voc, no te parece? -disse. Sem esperar resposta colocou um em uma caixa-. depois de tudo,  a obra de seu pai.
       -J os tenho -protestou-. Toneladas. Caixas e caixas.
       -Mas suponho que no estaro assinados.
       -Bom, no. -Agarrou outro e o abriu-. Est seguro de que no os quer, Roger?
       -Claro -respondeu sonriendo-. No se preocupe, no me faltam livros.
       Brianna lanou uma gargalhada e guardou os livros na caixa.
       Logo continuou com sua tarefa de limp-los antes de embal-los.
       -No vais sentir saudades este lugar? -perguntou. apartou-se uma mecha de cabelo dos olhos e assinalou a enorme habitao-, Cresceu aqui, no?
       -Sim e sim -respondeu, colocando outra caixa sobre o monto que foram enviar  biblioteca da universidade-. Mas no tenho eleio.
       -Suponho que no pode viver aqui -aceitou com pena-. Como est em Oxford a maioria do tempo... mas era necessrio vend-la?
       -No posso vend-la. Esta casa no  minha.
       -O que quer dizer com que no  tua?
       -O que pinjente -respondeu-. No  minha. A casa e o terreno pertencem  igreja; papai viveu aqui perto de cinqenta anos, mas no era o dono. Pertence  administrao da parquia. O novo ministro no a quer. Tem dinheiro e uma esposa a que gosta das casas modernas, assim que a puseram em venda. Fiona e seu Ernie a vo comprar, que o cu lhes ajude.
       -Para eles dois sozinhos?
       - troca e tm uma boa razo -acrescentou com ironia-. Ela quer ter muitos meninos e aqui h lugar para um exrcito, lhe posso assegurar isso As bodas ser em fevereiro, por isso devo terminar a mudana j, para dar tempo aos pintores e aos da limpeza. Embora seja uma vergonha que te faa trabalhar durante as festas. Talvez poderamos ir ao Fort William na segunda-feira.
       Brianna agarrou outro livro mas no o colocou na caixa.
       -No me parece justo, embora me alegro de que fique Fiona.
       Roger se encolheu de ombros.
       -No pensava me instalar no Inverness, nem era a casa de meus antepassados e tampouco podia cobrar entrada e fazer visitas guiadas pelo lugar.
       Brianna sorriu e seguiu classificando livros.
       -O reverendo tinha quase tantos livros como meus pais -disse-. Entre os livros de medicina de mame e os de histria de papai, poderia-se abastecer uma biblioteca.  provvel que me leve seis meses, quando voltar a CA.... quando retornar. -mordeu-se o lbio-. Disse a da imobiliria que podia pr a casa em venda para o vero.
       -Isso  o que te incomodava? -disse lentamente, observando seu rosto-. Estava pensando em te separar da casa onde cresceu, deixar seu lar para sempre?
       -Se voc pode faz-lo, suponho que eu tambm poderei. Por outra parte -continuou com tom de resoluo-, no  to terrvel. Mame se ocupou de quase tudo, encontrou um inquilino e deixou a casa alugada por um ano, assim me deixava tempo para decidir com calma o que faria sem me preocupar com ter a casa vazia. Mas  uma tolice que me fique,  muito grande para viver eu sozinha.
       -Poderia te casar -deixou escapar sem pens-lo.
       -Suponho que poderia -respondeu e o olhou de esguelha, com uma espcie de sorriso-. Algum dia. Mas e se meu marido no quer viver em Boston?
       de repente lhe ocorreu que a preocupao da Brianna pela perda da casa paroquial podia ser porque ela se viu vivendo ali.
       -Quer ter filhos? -perguntou bruscamente.
       Olhou-lhe surpreendida e logo riu.
       -Os filhos nicos em geral querem ter famlias numerosas, no?
       -No lhe saberia dizer isso Mas sei que eu sim quero.
       aproximou-se entre as caixas e a beijou.
       -Eu tambm. Ser melhor que terminemos de limpar isto.
       -O que? -Demorou para compreender o sentido de suas palavras-. Bom, sim. Claro, suponho que sim.
       Inclinou a cabea e a voltou a beijar, esta vez lentamente.
       Tinha-lhe passado um brao pela cintura e com a outra mo lhe acariciava o pescoo e o sedoso cabelo. Enquanto a beijava, desejava apoi-la sobre o tapete Y...
       Um breve golpe lhe fez levantar a cabea.
       -Quem ? -exclamou Brianna, com uma mo apoiada no peito.
       Uma parede do estudo era um imenso ventanal, j que o reverendo tinha sido pintor e necessitava abundante luz, uma cara quadrada com bigode se esmagava contra um dos vidros, olhando com grande interesse.
       -Esse -disse Roger entre dentes-  o carteiro, MacBeth. Que diabos est fazendo aqui esse velho descarado?
       Como se tivesse ouvido sua pergunta, o senhor MacBeth deu um passo atrs, tirou uma carta de sua bolsa e a agitou com jovialidade ante eles.
       -Uma carta -disse olhando a Brianna.
       -por que no a deixou na rolha? -quis saber Roger-. Traga-a aqui.
       O senhor MacBeth entregou a carta com aspecto de dignidade ofendida enquanto tentava ver a Brianna depois das costas do Roger.
       -Poderia ser importante, no? Dos Estados Unidos. E  para a senhorita, no para ti, moo.
       -Muito obrigado -disse Brianna sonriendo, ainda ruborizada.
       Agarrou a carta e a olhou sem abri-la.
       -De visita, no? -perguntou com entusiasmo-. Os dois sozinhos aqui, no?
       Olhou a Brianna de cima abaixo com franco interesse.
       -No -disse Brianna, com expresso sria. Dobrou a carta e a guardou no bolso dos nos cubra-. Tio Angus est conosco, dormindo acima.
       Roger se mordeu o lbio para no rir. Tio Angus era um brinquedo de pano rodo que Brianna tinha encontrado e colocado no quarto de hspedes, junto a sua boina escocesa.
       O carteiro arqueou as sobrancelhas.
       -Ah, j vejo. Tambm  norte-americano, seu tio Angus?
       -No,  do Aberdeen.
       O senhor MacBeth estava encantado.
       -Tem uma parte escocesa na famlia. Bom, devi imagin-lo ao ver seu cabelo.  voc uma garota muito bonita.
       -Sim, bom. -Roger se esclareceu garganta-. No queremos lhe distrair de seu trabalho, senhor MacBeth.
       -No h problema.
       -Que tenha um bom dia, senhor MacBeth -disse Roger com certa nfase.
       -Voc tambm, senhor Wakefield.
       -vais ler a carta?
       Brianna se ruborizou ao agarr-la.
       -No  importante. Lerei-a logo.
       Roger arqueou uma sobrancelha. Brianna se encolheu de ombros e abriu o sobre, tirando uma folha de papel.
       -Disse-lhe isso, no era nada importante. L-a voc mesmo.
       "No!", exclamou Brianna para si. No era muito, uma informao da biblioteca de sua universidade para lhe dizer que o que ela tinha pedido no podia obt-lo por esse meio, mas que podia procurar na coleo privada dos Estuardo, no anexo real da Universidade do Edimburgo.
       -Deveu me dizer o que procurava -disse com calma-. Podia te haver ajudado.
       encolheu-se de ombros levemente.
       -Sei como fazer uma investigao histrica. Estava acostumado a ajudar a minha p... -interrompeu-se, mordendo o lbio.
       -Sim, j vejo -disse e a agarrou do brao para lev-la  cozinha-. vou preparar o ch.
       -Eu no gosto do ch -protestou.
       -Necessita uma taa de ch -disse Roger com firmeza.
       Colocou as taas, os pratos e uma garrafa de usque.
       -E tampouco eu gosto do usque -disse Brianna.
       -Sim eu gosto do usque -disse-. Mas detesto beber sozinho. Far-me companhia?
       Sorriu-lhe, desejando que ela tambm o fizesse. Finalmente o fez.
       sentou-se frente a ela e encheu sua taa at a metade.
       -Ah. Glen Morangie. Seguro que no quer me acompanhar? Um chorrito em seu ch?
       Negou com a cabea; quando a gua comeou a ferver se levantou e preparou o ch. Roger se aproximou e lhe aconteceu os braos pela cintura.
       -No  algo para te envergonhar -disse brandamente-. Tem direito ou seja o tudo. Ao fim e ao cabo, Jamie Fraser era seu pai.
       -Mas no o ... no realmente. Eu tive um pai. Frank Randall, ele era meu pai e eu lhe quero, queria-lhe. No me parece correto procurar a outro, como se ele no fora suficiente, como...
       -No tem nada que ver com o Frank Randall nem com o que sinta por ele; era seu pai e nada poder trocar isso. Mas  natural sentir curiosidade, querer saber.
       -Alguma vez voc quis saber?
       agarrou-se a sua mo.
       Roger respirou profundamente procurando consolo no usque.
       -Sim, sim, fiz-o. E acredito que voc tambm o necessita. vamos sentar nos e te contarei.
       Sabia o que se sentia ao ter perdido um pai, um pai desconhecido.
       -Inventava histrias e por isso me brigavam no colgio. Mas precisava fazer que fora real. D-te conta? Por sorte, papai, o reverendo, entendeu o problema. Comeou a me contar coisas sobre meu pai. Jerry MacKenzie foi um heri, de acordo, e lhe mataram. Mas o que o fazia real para mim eram as coisas simples, o que fazia de menino. Isso fez que sentisse saudades mais que nunca, porque ento soube um pouco do que tinha perdido; mas tinha que saber.
       -Algumas pessoas dizem que no pode sentir saudades o que nunca teve e que por isso  melhor no saber nada -disse Brianna.
       -Algumas pessoas so tolas. Ou covardes.
       -E sua me?
       -Tenho algumas lembranas dela, tinha cinco anos quando morreu. Guardo algumas caixas na garagem com suas coisas, suas cartas.  como dizia papai: "Todos necessitamos uma historia". A minha est ali e sei que se a preciso posso encontr-la.
       Contemplou-a durante um momento.
       -A estranhas muito? -disse-. Ao Claire.
       -Eu... eu tenho medo de saber. No  s ele,  ela tambm. Quero dizer, conheo a histria do Jamie Fraser, pois ela me falava muito dele. Muito mais do que encontraria em arquivos histricos -acrescentou com um dbil sorriso-. Mas mame... ao princpio tratei de pensar que se foi, como se fora uma viagem. Quando no pude faz-lo mais, tratei de acreditar que estava morta. -Roger lhe alcanou um guardanapo para que se soasse o nariz-. Mas no  assim. Esse  o problema! A sinto falta de constantemente e sei que no a verei nunca mais, mas nem sequer est morta!. Como posso chor-la como morta, quando acredito e espero que seja feliz onde eu a obriguei a ir?
       Apurou o contedo de sua taa e tossiu.
       -Por isso quero saber, entende-o? Quero encontr-la, encontr-los aos dois. Saber se ela estiver bem. Mas tambm penso que talvez, no queira saber. Porque e se descobrir que no est bem? E se descobrir algo horrvel? E se ela estiver morta ou ele...?, bom isso no importaria canto, porque de todos os modos agora j est morto... Mas tenho que saber, sei que tenho que faz-lo!
       Deixou sua taa para que lhe servisse usque e no esperou a que lhe acrescentasse ch. Bebeu um comprido trago.
       -Assim estive procurando. Quando vi os livros de papai e sua assinatura, ento todo me pareceu mau- Crie que estou equivocada?
       -No, mulher -disse carinhosamente-. No est mau. Tem razo, deve saber. Ajudar-te. -ficou em p e a levantou para abra-la-. Mas agora acredito que deveria descansar um momento.
       Ajudou-a a subir as escadas e quando chegaram acima, Brianna se soltou e correu ao quarto de banho.
       -Que desperdcio do Glen Morangie. Se o tivesse sabido, tivesse-te dado um mais barato.
       Brianna se derrubou na cama e permitiu que lhe tirasse os sapatos. ficou de lado, com o tio Angus nos braos.
       -Disse-te que eu no gostava do ch -murmurou e ficou dormida.
       
       Roger trabalhou um par de horas, guardando livros e fechando caixas. Logo se ocupou dos restos do ch, lavando e secando as taas; restos do velho Jogo de porcelana, com rvores e pagodes em branco e azul. Fiona teria tudo novo.
       Em um impulso, agarrou as duas taas que tinham usado, envolveu-as e as levou a estudo para as guardar com suas coisas.
       sentiu-se bastante tolo e, ao mesmo tempo, muito melhor. Olhou a seu redor; o estudo estava vazio, salvo pela folha de papel cravada na parede de cortia. "Assim que fica sem sua casa?" Bom, tinha deixado sua casa fazia tempo, no?.
       Mas lhe chateava. Muito mais do que tinha demonstrado a Brianna. Por isso tinha demorado canto em terminar de limpar a reitoria, tinha que reconhec-lo. Com uma sensao de cerimnia lgubre, arrancou a folha amarelada da parede de cortia. Era sua rvore de famlia, uma carta genealgica feita pela mo do reverendo.
       Geraes do MacKenzie. O reverendo conhecia poucas histrias individuais; a maioria da gente da lista s eram nomes. E a mais importante da lista, nem sequer isso, a mulher cujos olhos verdes Roger via cada manh no espelho no estava em nenhuma parte daquela lista, por boas razes.
       Os dedos do Roger se detiveram perto da parte superior da rvore. Ali estava ele, o suplantado: William Buccieigh MacKenzie. Tinham-no entregue a uns pais adotivos. Tinha sido o fruto ilegtimo, durante a guerra, do caudilho do cl Mackenzie e de uma bruxa condenada  fogueira. Dougal MacKenzie e a bruxa Geillis Duncan. No era uma bruxa,  obvio, mas era tanto ou mais perigosa. Ele tinha seus olhos, ou ao menos isso dizia Claire. Teria herdado algo mais dela? A aterradora capacidade de viajar atravs das pedras passaria atravs de geraes de respeitveis boiadeiros e marinheiros?
       Bom, podia ajudar a Brianna em sua busca. E quanto a ele...
       Roger colocou a folha em uma pasta e a guardou em uma caixa. Fechou a tampa de carto e fez uma X com papel colado sobre a lapela.
       -Isso  tudo -disse em voz alta, e saiu da habitao vazia.
       
       deteve-se no alto da escada, surpreso. Brianna se tinha banhado e agora estava no corredor, s com uma toalha.
       Embora tinha visto mais dela no vero, com suas calas curtas e camisetas, a fragilidade do que a cobria excitava ao Roger. O saber que podia despi-la com um simples gesto e que estavam os dois ss na casa...
       Deu um passo para ela e se deteve. Lhe tinha ouvido, mas passou um momento antes de que se voltasse. No disse nada. limitou-se a olh-lo, entreabrindo os olhos escuros. Levantou a cabea enquanto Roger se aproximava e, com um gesto, tirou-se a toalha da cabea.
       Seus cabelos brilhavam como serpentes de bronze. No era a beleza de uma Gorgona, mas sim de um esprito das guas, que trocava sua forma de cavalo com crinas de serpentes pela de uma mulher mgica.
       -Ninfa -sussurrou na ruborizada bochecha-. Parece que tivesse sado das montanhas de Esccia.
       Brianna lhe aconteceu os braos pelo pescoo, soltando a toalha, que ficou sujeita entre seus corpos.
       Tinha as costas nua. Roger desejava cobri-la do frio, despir-se e lhe dar seu calor, ali mesmo, naquele ventoso corredor.
       -Vapor -sussurrou-. Emana vapor.
       A boca da Brianna se curvou em um sorriso.
       -Voc tambm, Roger, e isso que no te banhaste.
       Sua mo fria estava no pescoo do Roger. Abriu a boca para dizer algo mais, mas a beijou, sentindo um calor mido atravs de sua camisa.
       Roger baixou a mo, apertando a curva de seu traseiro. Brianna se sobressaltou, perdeu o equilbrio e os dois caram, torpemente, em um esforo por manter-se em p.
       Os joelhos do Roger golpearam o cho e arrastou a Brianna com ele. A jovem caiu rendo. ia agarrar sua toalha, mas a abandonou, enquanto Roger voltava a beij-la.
       Acariciou-lhe um seio com uma mo enquanto baixava a outra, mas a deteve com um esforo. De que cor seria seu plo? Castanho avermelhado, como imaginava? Ou cobre e bronze como seu cabelo?
       -Por favor -sussurrou a jovem-. Por favor, quero que siga.
       -No -disse Roger com voz rouca-. No, no aqui. No desta maneira.
       Brianna se incorporou e se cobriu com a toalha. Roger lhe acariciou os lbios.
       -Tem que ser melhor -sussurrou-. Quero faz-lo melhor... a primeira vez.
       Ento, o aroma de sopa queimada subiu pela escada e os dois se sobressaltaram.
       -Algo se queima! -disse Brianna e quis baixar, com a toalha de novo em seu lugar. Mas a deteve. Estava geada.
       -Eu o farei -disse-. v vestir te.
       Jogou-lhe um rpido olhar e desapareceu.
       
       Abaixo, Roger lutava com a sopa derramada enquanto se repreendia a si mesmo. O que tinha pensado fazer? lhe arrancar a toalha e atir-la ao cho; diabos, ela devia pensar que era um violador!
       O calor que sentia no peito no era devido  vergonha ou ao calor da cozinha. Era o calor da pele da Brianna, que ainda sentia. "Quero que siga", havia-lhe dito e o dizia a srio.
       Desejava-a. Queria tudo dela, no s a cama, no s seu corpo. Queria tudo, para sempre. de repente, a frase bblica "uma s carne", parecia-lhe algo imediato e muito real. Atirou os restos da sopa na pia. No importa, comeriam no bar. Seria melhor sair de casa e afastar-se da tentao.
       Um jantar, uma conversao informal e talvez uma caminhada pela borda do rio. Brianna queria ir aos servios de Vspera de natal. depois disso...
       depois disso, o pediria, de maneira formal. E ela o aceitaria, sabia que diria que sim. E ento...
       Bom, ento poderiam retornar a casa, um lugar escuro e privado onde um amor novo apareceria no mundo.
       Roger apagou a luz e saiu da cozinha. detrs dele, esquecida, chama-a do gs ardia azul e amarela na escurido, firme e constante como os fogos do amor.
       
       
       
       18
       Luxria imprpria
       
       O reverendo Wakefield tinha sido um homem bondoso e ecumnico, tolerante com todas as opinies religiosas e desejoso de abrigar doutrinas que sua congregao poderia encontrar ultrajantes ou diretamente blasfemas.
       Entretanto, toda uma vida exposto  rigidez do presbiterianismo escocs e seus permanentes receios para todo o "apostlico romano", tinham deixado no Roger certa insegurana na hora de entrar em uma igreja catlica, como se temesse que lhe atacassem pelas costas os padres estrangeiros para batiz-lo pela fora.
       Mas nada disso ocorreu enquanto seguia a Brianna ao interior da pequena igreja de pedra. Ao entrar, Brianna tirou da bolsa um pequeno vu negro de encaixe e o ps na cabea.
       -Que  isso? -perguntou.
       -No sei como o chamam -respondeu-. usa-se na igreja se no levar chapu ou vu. Em realidade, j no existe a obrigao de lev-lo, mas cresci com este costume. As mulheres no podiam entrar em uma igreja catlica com a cabea descoberta, j sabe.
       -No, no sabia -disse Roger, crescentemente interessado-, por que no?
       -So Pablo, provavelmente, acreditava que as mulheres deviam cobrir o cabelo, para no ser objeto de luxria imprpria. Um velho louco -acrescentou-. Mame sempre dizia que lhe tinha ojeriza s mulheres. Pensava que eram perigosas -disse com sorriso zombador.
       -So-o.
       Impulsivamente, inclinou-se e a beijou, sem fazer caso dos olhares da gente prxima.
       Ela o olhou surpreendida, mas logo lhe devolveu o beijo, suave e rapidamente, Roger sentiu um murmrio de censura, mas no lhe emprestou ateno.
       -Na igreja e em Vspera de natal! -disse algum com voz rouca.
       -Bom, Annie, no  exatamente a igreja,  s a entrada.
       -E ele  o filho do ministro!
       Brianna se fez a um lado e lhe olhou, com a boca tremendo de risada.
       Roger lhe devolveu o sorriso e tocou seu rosto radiante. Levava o colar de sua av e sua pele refletia o brilho das prolas.
       -Senhor Wakefield,  voc?
       voltou-se e se encontrou com dois pares de olhos inquisitivos. Duas ancis, de baixa estatura, agarradas do brao.
       -Senhora McMurdo, senhora lhes Haja! Felizes Pscoas! -saudou sonriendo.
       Conhecia-as de toda a vida.
       -Ento, vai a Roma, senhor Wakefield? -perguntou Chrissie McMurdo, enquanto seu amiga ria.
       -Ainda no -respondeu Roger, ainda sonriendo-. Estou acompanhando a uma amiga. Conhecem a senhorita Randall?
       As duas ancis a olharam com franco curiosidade.
       Para ambas, sua presena ali era uma declarao de suas intenes to clara como se o tivesse publicado no peridico. Que lstima que Brianna no se desse conta. Ou se dava conta? A jovem o olhou de esguelha, com um sorriso especial, e lhe apertou o brao.
       - um prazer te conhecer, querida -disse a senhora McMurdo com a cabea estirada para olh-la-Que moa mais bonita e alta! -Olhou ao Roger com picardia-. Que sorte ter encontrado um moo para fazer casal, no?
       O sino comeou a soar e Roger agarrou a Brianna do brao. Frente a eles, Jessie Hayes se deu a volta para lhes dirigir um sorriso.
       Brianna molhou tosse dedos na pilha de pedra e se fez o sinal da cruz. Roger encontrou que o gesto lhe era sbita e extraamente familiar.
       ficaram junto a uma famlia, enquanto algum tocava no pequeno rgo. Logo a msica se deteve e todos ficaram em p enquanto a procisso entrava pelo corredor central.
       Roger sentiu um ligeiro rechao ante a mescla de ostentao e cnticos em latim. Entretanto, ao comear a missa, as coisas lhe pareceram mais normais; leituras da Bblia e o acostumado sermo, agradavelmente aborrecido.
       Para quando a congregao ficou em p de novo, Roger tinha perdido toda sensao de estranheza. Observou a Brianna quando ia comungar e se deu conta de que tinha comeado a rezar. Mas no era o ignbil "me deixe possui-la". Era mais humilde, e esperava que aceitvel, "me deixe merec-la, me deixe am-la como corresponde, me deixe cuid-la".
       Fez um gesto para o altar e se esclareceu garganta como se o tivessem surpreso em uma conversao privada.
       Brianna retornou com 1os olhos muito abertos e um sorriso sonhador. ajoelhou-se e ele a imitou.
       As vozes do coro lhe fizeram voltar para a realidade. Viu o sacerdote retirar-se com suas coroinhas, em meio de nuvens de incenso.
       
       Brianna cantarolava enquanto foram caminho do rio.
       -Apagou o gs, no?
       -Sim -assegurou Roger-. No se preocupe. Entre a cozinha e o aquecedor, que a reitoria no se incendiou at agora  uma prova do amparo divino.
       Brianna riu.
       Caminharam do brao junto ao rio Ness. Roger se sentia curiosamente vulnervel, como se tivesse perdido o calor e a segurana que tinha na igreja. S nervos, pensou, e apertou o brao da Brianna com mais firmeza. Era o momento.
       -Brianna.
       Girou-a para t-la frente a frente. Seu cabelo se agitou, brilhando baixo as luzes da rua.
       -Desejo-te, Brianna -disse brandamente-. Amo-te. Quer te casar comigo? 
       No respondeu, mas seu rosto trocou como a gua quando lhe arroja uma pedra.
       -No queria que te dissesse isso. -Sentia que respirava gelo e se cravava em seu corao e seus pulmes-. No queria ouvir isso,no?
       Sacudiu a cabea, sem dizer nada.
       -Ah, bom. -Com um esforo, soltou-lhe a mo-. Est bem -disse, surpreso pela tranqilidade de sua voz-. No tem que preocupar-se.
       ia seguir caminhando quando Brianna lhe deteve, lhe sujeitando do brao.
       -Roger.
       Teve que fazer um grande esforo para olh-la; no queria consolo, nem desejava ouvir a oferta de "ser amigos". Mas se voltou e Brianna se apertou contra ele, agarrou-lhe a cabea e lhe beijou com desespero.
       Roger a agarrou das mos e a apartou.
       -A que est jogando?
       A fria era melhor que a sensao de vazio.
       -No estou jogando! Disse que me desejava. -Tragou ar-. Eu tambm te desejo. No sabe? No lhe hei isso dito esta tarde?
       -Acreditei que assim era. -Olhou-a fixamente-. Que diabos quer dizer?
       -Quero dizer que... que quero me deitar contigo -estalou.
       -Mas no quer te casar comigo?
       Negou com o rosto, branco como um lenol.
       -Ento no te casar comigo, mas quer joder comigo? Como pode dizer algo assim?
       -No use essa linguagem comigo!
       -Linguagem? Voc pode sugeri-lo, mas eu no posso pronunciar a palavra? Nunca me ofenderam tanto, nunca!
       Brianna tremia e as mechas do cabelo lhe caam pela cara.
       -No queria te insultar. Eu acreditei que desejava, que...
       Agarrou-a dos braos e a atraiu para ele.
       -Se tudo o que quisesse fora me deitar contigo, o teria feito uma dzia de vezes o vero passado!
       -Isso  o que voc te crie!
       soltou-se um brao e lhe deu uma bofetada, lhe agarrando por surpresa. Roger lhe sujeitou a mo e a beijou, com um beijo muito mais largo e intenso que antes.
       -Isso  o que acredito -disse, soltando-a para respirar. secou-se a boca e deu um passo atrs, tremendo. Havia sangre em sua mo, tinha-lhe mordido e no havia sentido nada-. Mas no o fiz -disse, respirando com mais calma-. Isso no era o que queria e no  o que quero agora. -limpou-se o sangue da mo com a camisa-. Mas se no te importo o suficiente para te casar comigo, ento tampouco me importa o suficiente para te colocar em minha cama!
       -Claro que me importa!
       -J o vejo.
       -Importa-me muito para me casar contigo, maldio!
       -Que voc o que?
       -Porque quando me casar contigo, quando me casar com qualquer, tem que durar. Ouve-me? Se fizer um juramento assim, manterei-o, no importa quanto me custe!
       As lgrimas rodavam por suas bochechas. Roger tirou um leno do bolso e o deu.
       -te soe o nariz, te limpe a cara e logo me diz de que diabos est falando.
       Fez o que lhe dizia.
       -Seu acento escocs aparece quando te zanga -disse com um tmido intento de sorriso, enquanto lhe devolvia o leno.
       -No sente saudades -disse com exasperao-. Agora, me diga o que quer dizer e faz-o com claridade, antes de que me faa falar em galico.       
       -Sabe falar galico?
       Brianna ia recuperando-se.
       -Sei, e se no querer aprender uma boa quantidade de expresses grosseiras... fala. Como pode me fazer semelhante oferta uma boa garota catlica recm sada de missa? Acreditei que foi virgem.
       -Sou-o! E isso o que tem que ver?
       antes de que pudesse responder a semelhante atrocidade, a jovem seguiu adiante.
       -No me disse que no tinha estado com garotas? Eu sei que esteve!
       -Sim, estive! No queria me casar com elas e elas no queriam casar-se comigo. No as amava, elas no me amavam.  a ti a quem amo, maldio!
       apoiou-se no farol da rua, com as mos nas costas, e olhou aos olhos.
       -Acredito que eu tambm te amo.
       -Ah. Mmm. E me diga, qual  o verbo principal, "acreditar" ou "amar"?
       relaxou-se um pouco e tragou saliva.
       -Ambos.
       Levantou uma mo antes de que Roger comeasse a falar.
       -Amo-te..., acredito. Mas... mas no posso deixar de pensar no que aconteceu a minha me. No quero que me acontea o mesmo.
       -Sua me? -O simples assombro deu passo a uma sensao de ofensa-. O que? Est pensando no maldito Jaime Fraser? Parece-te que no vais estar satisfeita com um aborrecido historiador... que vais necessitar uma grande paixo, como ela teve por ele e crie que talvez eu no lhe possa dar isso 
       -No! No estou pensando no Jamie Fraser!Estou pensando em meu pai! Lhe queria quando se casou com ele.,, vi-o nas fotos que me deu. Ela disse na pobreza e na riqueza, na sade e na enfermidade e o dizia a srio. E logo... logo conheceu o Jamie Fraser e j no o pensou mais.
       ficou em silncio, procurando as palavras.
       -No a culpo, de verdade que no, no depois de hav-lo sabido. No podia evit-lo. Quando falava dele, dava-me conta de como o amava. Mas no te d conta, Roger? Ela tambm amava a meu pai, mas algo aconteceu. No o esperava e no foi por sua culpa, mas fez que faltasse a sua palavra. No quero fazer isso, por nenhuma causa.
       secou-se o nariz com a mo e Roger lhe devolveu o leno em silncio. secou-se as lgrimas e lhe olhou.
       -Passar mais de um ano antes de que possamos estar juntos. Voc no pode deixar Oxford; eu no posso deixar Boston at que obtenha meu ttulo.
       Desejava lhe dizer que ia renunciar ou que ela podia deixar seus estudos, mas no disse nada. Brianna tinha razo.
       -E o que, se agora disser sim, e logo acontece algo? Se conhecer outra pessoa ou voc conhece outra? -As lgrimas voltaram a correr por suas bochechas-.No vou arriscar me a te machucar. No o farei.
       -Mas me ama agora? -Acariciou-lhe a bochecha-. Bri, ama-me?
       Deu um passo atrs e, sem falar, tirou-se o casaco.
       -Que estas diabos fazendo?
       O assombro se somava a uma srie de emoes, enquanto os plidos dedos da jovem lhe baixavam muito devagar o fechamento da jaqueta.
       O sbito frio desapareceu ante o calor do corpo da jovem que se apertava contra o seu.
       Brianna no disse nada e ele tampouco. Podia sentir o corpo da jovem e uma corrente de desejo que o estremecia, como uma corrente eltrica.
       O rudo de uns saltos altos ressonou no pavimento e uma rouquido soou, to forte que poderia ter despertado a um morto.
       Roger apertou mais a Brianna e no se moveu. Em resposta, a jovem o abraou com mais fora e aproximou sua boca.
       As duas ancis amigas passaram de comprimento, comentando o bonito que era ser jovens e estar apaixonados.
       -Esperarei -disse Roger e a soltou. Agarrou-lhe as mos e a olhou aos olhos, agora suaves e claros-. Mas me escute. Terei-te toda ou no te terei.
       "me deixe am-la como  devido", disse em uma silenciosa orao. No o havia dito muitas vezes a senhora Graham? "Tome cuidado com o que pede, moo, porque pode consegui-lo."
       P-lhe a mo no peito.
       -No  s seu corpo o que quero, embora Deus sabe como o desejo. Mas quero te ter como minha esposa... ou no te terei.  sua eleio.
       -Entendo -sussurrou.
       O vento do rio era frio. Fechou-lhe o casaco e ao faz-lo, sua mo roou seu prprio bolso e tocou um pacote. Tinha pensado dar-lhe durante o jantar.
       -Toma -disse, entregando-lhe Feliz Natal. Comprei-o no vero -disse enquanto ela tratava de abrir o pacote-. Agora parece que tivesse adivinhado o futuro, no?
       Tirou um bracelete de prata com umas palavras gravadas. Roger a colocou e Brianna lhe deu a volta, para ler a inscrio.
       Je t'amie- um peu... beaucoup... passionnment., ps du tout. Eu te amo... um pouco... muito- apaixonadamente... para nada.
       Roger fez girar o bracelete, completando o crculo.
       -Je t'aime-disse.
       -Moi aussi -disse Brianna docemente, olhando-o-, Joyeux Noel
       
       
       STIMA PARTE
       Na montanha
       
       19
       Benzer o lar
       
       Setembro de 1767
       
       Dormir baixo a lua e as estrelas nos braos de seu amante nu  o mais romntico que h. Dormir baixo um tosco teto, espremida entre um enorme marido molhado e um sobrinho igualmente grande e molhado, escutando a chuva que penetra entre os ramos e tratando de rechaar as rabugices de um imenso co, tambm molhado, era algo totalmente distinto.
       Pu-me de joelhos e tratei de sair sem despertar a ningum. Jamie grunhiu entre sonhos. Ian e Cilindro seguiam juntos, formando um barulho de cabelos e roupa.
       Fora fazia frio e e! ar era to afresco que quase me fez tossir. Descala e com os ps gelados, baixei com cuidado para o arroio com uma panela baixo o brao. Ainda no tinha amanhecido e o bosque estava talher pela nvoa e a luz azul cinzenta do crepsculo, a misteriosa media luz que aparece nos dois extremos do dia, quando as pequenas criaturas saem a alimentar-se.
       Jamie tinha razo ao sugerir que ficssemos na montanha em lugar de retornar ao Cross Creek. Era o comeo do ms de setembro; segundo os clculos do Myers amos ter dois meses de bom tempo (relativamente bom, corrigi, olhando as nuvens) antes de que o frio nos obrigasse a construir um refgio. Teramos tempo suficiente para construir uma pequena cabana, caar e nos preparar para passar o inverno.
       -vamos ter que trabalhar duro -havia dito Jamie-. Ser perigoso se a neve chegar antes de tempo ou se no posso caar o suficiente. No ficaremos se disser que no, Sassenach. Tem medo?
       Medo era uma forma suave de diz-lo, pois s de pens-lo meu estmago se retorcia. Quando aceitei que nos instalssemos na colina, pensava que retornaramos ao Cross Creek para passar o inverno e retornaramos  montanha na primavera, com provises e colonos para limpar o terreno e construir casas. Em lugar disso, estvamos completamente ss e a vrios dias de viagem do assentamento de europeus mais prximo. Solos durante todo o inverno. Pela primeira vez recordei River Run com certa nostalgia: a gua quente, as camas abrigadas, a comida abundante, a ordem, a limpeza,- e a segurana.
       Conhecia o motivo pelo qual Jamie no desejava retornar. Viver da generosidade da Yocasta durante vrios meses lhe ataria muito mais e seria mais difcil rechaar sua oferta.
       Sabia melhor que eu que Yocasta Cameron era uma MacKenzie. Tinha conhecido bastante a seus irmos, Dougal e Colum, para ser muito cauteloso ante semelhante legado; os MacKenzie do Leoch no abandonam facilmente seus propsitos e no vacilam em conspirar para conseguir seus fins. Uma aranha cega podia tecer suas redes com mais segurana, dependendo exclusivamente de seu sentido do tato.
       -No  s pelo que h no River Run pelo que no quer retornar, verdade? -tinha-lhe perguntado. - to evidente?
       -Bastante. Ento me diga -insisti-, por que ficamos?
       -Como posso te explicar o que significa a necessidade de espao? A necessidade de sentir a neve e o ar das montanhas ao respirar, como quando Deus soprou sobre o Ado? De subir sentindo as rochas em minhas mos e vendo os lquenes agentando o vento e o sol? Para viver como um homem tenho que ter uma montanha -disse com simplicidade-. Confia em mim, Sassenach?
       -Com minha vida -foi minha resposta.
       -E com seu corao?.
       -Sempre -sussurrei e, fechando os olhos, beijei-o.
       
       Tudo ficou arrumado. Myers retornaria imediatamente ao Cross Creek e daria as instrues do Jamie ao Duncan, informaria a Yocasta de nosso bem-estar e procuraria comprar tudo o que pudesse com o resto de nosso dinheiro. Se tinha tempo, antes da primeira nevada retornaria com provises do contrrio o faria na primavera, to ficaria conosco j que sua ajuda seria necessria na construo da cabana e para caar.
       O arroio tinha aumentado seu caudal por causa das chuvas e seria uns trinta centmetros mais alto que no dia anterior.
       Ajoelhei-me, sentindo um rangido em minhas costas. Dormir sobre a terra aumentava a rigidez habitual das manhs. Lavei-me a cara com abundante gua fria e bebi um gole. Quando ao pouco me lleve a cabea vi dois cervos bebendo ao outro lado, um pouco mais acima de onde eu estava. Permaneci imvel para no lhes assustar, embora no demonstraram alarme por minha presena.
       De repente, desapareceram. No tinha visto como se davam a volta e punham-se a correr. em que pese a sua beleza etrea estava segura de no hav-los imaginado, pois ficavam os rastros escuros no barro da borda. Mas j se foram.
       No vi nem ouvi nada, mas senti como me arrepiava o cabelo.
       Fique paralisada, meus olhos era quo nico movia. Onde estava, o que acontecia?
       O sol tinha sado, o verde das taas das rvores era aprecivel e as rochas comeavam a brilhar. Mas os pssaros estavam silenciosos e nada se movia salvo a gua.
       Estava a menos de dois metros de mim, apenas visvel detrs de um arbusto. O som de seus lengetazos ao beber gua se perdia entre o rudo da corrente. Naquele momento levanto a larga cabea e torceu uma orelha em direo a mim em que pese a que no tinha feito rudo. Poderia ouvir minha respirao?
       No era um medo consciente, a no ser puro instinto e um total assombro o que me tinha imobilizado ante a beleza do puma e sua proximidade. Ao me partir deixou com o sistema nervoso destroado e tremendo; demorei vrios minutos em poder me levantar. As mos me tremiam tanto que, antes de poder ench-la, derrubei a panela trs vezes.
       Havia-me dito que confiasse nele. O fazia? Sim, confiava e tinha muita sorte de poder faz-lo, mas esperava que a prxima vez estivesse a meu lado. Por esta vez estava viva.
       Quando abri os olhos, os pssaros cantavam de novo. Subi pelo atalho em direo ao claro, resistindo o impulso de voltar a vista atrs.
       
       Jamie e Ian tinham destrudo vrios pinheiros altos e esbeltos no dia anterior, tinham-nos talhado em partes de trs metros e mdio e feito rodar costa abaixo. Agora estavam empilhados ao bordo de um pequeno claro, brilhando pela umidade.
       Quando retornei com a panela cheia de gua, Jamie esmagava a erva molhada, enquanto media com uma corda. Ian tinha preparado o fogo sobre uma grande pedra plaina; tinha adquirido do Jamie o costume de guardar um punhado de lenha seca no embornal, junto  pederneira e o elo.
       -Faremos um pequeno abrigo -estava dizendo Jamie, com ar concentrado-. Construiremo-lo primeiro para poder dormir ali se volta a chover; mas  necessrio que o faamos to seguro como a cabana. Isso nos proporcionar um pouco de prtica, em, Ian?
       -Para que ... alm da prtica? -perguntei.
       Levantou a vista e me sorriu.
       -bom dia, Sassenach. dormiste bem?
       - obvio que no -pinjente-, Para que  o abrigo?
       -Carne -respondeu-. Cavaremos um fosso pouco profundo e o encheremos de brasas para defumar tudo o que possamos conservar- Tambm faremos uma grade para utilizar o de secador; Ian viu como o faziam os ndios para preparar o que eles chamam charque. Devemos ter um lugar seguro para que os animais no nos roubem a comida.
       Parecia uma boa idia, tendo em conta a classe de animais que pululavam pelo lugar. Minhas nicas dvidas se centravam no processo de defumado. Tinha-o visto fazer em Esccia e sabia que a carne defumada necessita bastante ateno.
       No me resultou difcil adivinhar quem seria a encarregada dessa tarefa.
       -De acordo -disse sem entusiasmo.
       Jamie captou meu tom e me sorriu zombador.
       -Este  o primeiro abrigo, Sassenach. O segundo ser teu.            
       -Meu?
       Animei-me um pouco.
       -Para suas ervas e novelo. Ocupam espao, se mal no recordar. -Assinalou para o outro extremo do claro com o brilho da mania construtora em seus olhos- E Justo ali estar a cabana onde viveremos durante o inverno.
       Para minha surpresa, acabaram as paredes do abrigo ao final do segundo dia v o cobriram grosseiramente com ramos, at que pudessem faz-lo com telhas de madeira. As paredes estavam feitas com troncos magros, entre os que ficavam frestas e fendas. Entretanto, era o bastante grande como para que dormssemos confortavelmente os trs e Cilindro. Em um extremo havia um fossa rodeado de pedras onde se podia acender uma fogueira que fazia o lugar mais agradvel. Tinham tirado a quantidade suficiente de ramos do teto para deixar um oco para a fumaa. Por este oco podia ver o luzeiro da tarde quando me acurrucaba sobre o Jamie e lhe escutava criticar sua destreza no trabalho.
       -Olhe isso -disse mal-humorado, levantando o queixo para o rinco mais afastado-. Esse tronco est torcido, terei que endireitar toda a linha.
       -No acredito que importe aos cervos mortos -murmurei-. Vamos, me deixe ver essa mo. Suas mos sempre tinham tido calos, mas podia sentir novas rugosidades ocasionadas por cortes e raspaduras. Tinha tantas lascas cravadas, que sua Palmas cravavam ao as tocar.
       -Parece um puercoespn -disse-. Vem, te aproxime do fogo, assim poderei ver bem para lhe tirar isso 
       Passou por cima do Ian, que dormia com a cabea apoiada-y construste este em dois dias, com uma tocha e uma faca. No h um s prego! por que esperava que parecesse o palcio do Buckingham?
       -No cheguei a ver o palcio do Buckingham -disse mansamente-. Mas aceito o que me diz, Sassenach.
       -Bem -pinjente e segui examinando sua palma para lhe tirar mais espinhos.
       -Suponho que, ao menos, no se derrubar -disse depois de uma larga pausa.
       Ficamos em silncio, ouvindo o suave crepitar do fogo. Uma vez que terminei com sua mo esquerda, ocupei-me da direita.
       -A casa estar sobre a colina -disse sbitamente-. Onde crescem os morangos silvestres.
       -Sim? -murmurei-. Refere-te  cabana? Acreditei que ia estar ao lado do claro.
       -No, no a cabana. Uma bonita casa -explicou brandamente-. Com escada e janelas com cristais.
       -Isso ser magnfico.
       Guardei a pina na caixa.
       -Com tetos altos e portas o bastante altas para que possa entrar sem me golpear a cabea.
       -Isso ser maravilhoso -pinjente, recostando meu corpo sobre o seu.
       ao longe, um lobo uivou e Cilindro levantou a cabea, escutou  e deixou escapar um suspiro.
       -Com um quarto para mim e um estudo com prateleiras para os livros, para ti.
       -Mmm. -Naquele momento, tinha um s livro que utilizvamos como guia: Histria natural da Carolina do Norte, publicado em 1733-. E uma cama -pinjente-. Poder fazer uma cama, verdade?
       -To boa como qualquer do palcio do Buckingham.
       
       Myers, bendito seja seu corao bondoso e sua natureza leal, retornou aquele mesmo ms trazendo consigo trs mulas carregadas com ferramentas, pequenos mveis, produtos necessrios como sal e tambm ao Duncan Innes.
       -Aqui?
       Innes olhou com interesse para a pequena casa que tinha comeado a tomar forma sobre a colina coberta d morangos. J tnhamos dois abrigos e um curral onde guardar os cavalos e outros animais.
       Nesse momento, nosso gado consistia em um pequeno porco branco, que Jamie tinha obtido de um assentamento de moravos, a umas trinta milhas dali, trocando-o por uma bolsa de batata-doces doces que eu tinha recolhido e vassouras de ramitas de salgueiro feitas por mim. Como era muito pequeno para o curral, tinha vivido conosco no abrigo, onde rapidamente se feito amigo de Cilindro. Eu no estava to afeioada com o animal.
       -Sim.  uma terra boa, com muita gua. H arroios no bosque e o riacho o cruza de um extremo ao Outro.
       Duncan tinha sido pescador, no granjeiro, mas assentiu com os olhos fixos na paisagem que Jamie enchia de futuras casas.
       -Medi-o com passos -dizia Jamie-, embora devamos medir o de forma adequada logo que se possa. Mas tenho a descrio em minha cabea. Por acaso trouxestes papel e tinta?
       -Sim, e tambm outras coisas mais -disse Duncan. Sua cara larga e melanclica se iluminou com um sorriso-. A senhorita Eu me deu um colcho de plumas, pensou que no lhes viria mau.
       -Um colcho de plumas? Que maravilha!
       Imediatamente rechacei todo pensamento pouco generoso que tivesse tido para a Yocasta Cameron. Jamie fazia uma excelente cama, com madeira de carvalho e o somier trancado engenhosamente com cordas, mas no tnhamos mais que ramos de cedro como colcho, muito fragrantes mas cheias de vultos desagradveis.
       Meus pensamentos de luxuriosos quedas foram interrompidos pelos gritos do Ian e Myers. Vinham do bosque e Myers levava uma rstia de esquilos pendurado de seu cinturo.
       Ian me apresentou com orgulho um enorme vulto negro que, inspecionado de perto, resultou ser um peru.
       -O moo tem bom olho, senhora Claire -disse Myers com gestos de aprovao-. Os perus so animais muito matreiros. Nem sequer os ndios os apanham com facilidade.
       Era muito cedo para o dia de Ao de Obrigado, mas estava encantada com o ave, que seria o primeiro elemento substancial em nossa despensa. O mesmo acontecia ao Jamie, embora seu prazer vinha motivado pela cauda, que lhe proporcionaria uma boa proviso de plumas para escrever.
       -Devo escrever ao governador -explicou durante a comida-, para lhe dizer que vou aceitar sua oferta e lhe fazer uma descrio do terreno.
       Agarrou uma parte de torta e o mastigou distrado.
       -Tome cuidado com as nozes -pinjente, um pouco nervosa-. No querer te romper um dente.
       -No se preocupe, Sassenach -murmurou Jamie e me sorriu-. Est muito boa. -E voltou sua ateno ao Duncan-. Uma vez que terminemos de comer, Duncan, poderamos caminhar basta o rio para que escolha seu terreno?
       O rosto do Innes empalideceu e logo se ruborizou com uma mescla de prazer e desconsolo.
       -Meu terreno? Quer dizer minha terra, MacDubh?
       Com um movimento involuntrio, encurvou o ombro do lado que lhe faltava o brao.
       -Sim, sua terra. -Sem lhe olhar, Jamie cravou uma batata-doce quente e comeou a cort-la-. Necessitarei-te para que atue como meu agente, Duncan, se quiser. E receber seu pagamento. Agora, o que tinha pensado, se voc o considerar justo,  solicitar um pedao de terra a seu nome e, como no vais estar aqui para trabalh-la, Ian e eu nos encarregaramos de semear trigo e de construir um pequeno cercado. Quando chegar o momento, ter, se quiser, um lugar para te estabelecer- Crie que te convm?
       -Mas... -comeou e logo se deteve, tragando saliva-. Sim, MAC Dubh. Claro que me convm. -Desde que Jamie tinha comeado a falar, o sorriso de incredulidade do Innes no se apagava-. Agente. -Tragou saliva outra vez enquanto agarrava uma das garrafas de cerveja que havia trazido-, E o que tenho que fazer, MacDubh.
       -Duas coisas, Duncan. Primeiro, procurar colonos. -Jamie fez um gesto para o que seria nossa nova cabana-. Agora no posso ir daqui. E quero que encontre a todos os homens do Ardsmuir que possa. Muitos devem estar na Carolina do Norte ou do Sul. Busca os, lhes diga que estou aqui e vem com todos os que possa para a primavera.
       -Muito bem -respondeu Duncan-. E qual  a segunda?
       Jamie me olhou e logo ao Duncan.
       -Minha tia -disse-- Poderia ajud-la, Duncan? Necessita um homem honrado, que possa tratar com esses bastardos da Marinha e que fale por ela nos negcios.
       -Negcios? Mas eu no conheo...
       -No se preocupe -disse Jamie e sorriu a seu amigo-. Minha tia sabe muito bem o que ter que fazer. Ela te dir o que ter que dizer e como faz-lo, mas necessita um homem que o faa por ela. vou escrever lhe uma carta para que a entregue, lhe explicando que aceita te ocupar disso.
       Enquanto conversavam, Ian tinha estado investigando nos fardos descarregados das mulas.
       -O que  isto? -perguntou, a ningum em particular.
       Mostrou-nos uma pea de metal escuro, terminada em ponta e com rudimentares travs anos -
       -Ferro para o lar. -Duncan agarrou a pea e a entregou ao Jamie-. Foi idia da senhorita Eu.
       -Ah, sim? Isso est muito bem. -O rosto do Jamie estava bronzeado por tantos dias ao ar livre e, apesar de tudo, o rubor se estendeu por ele-. Guarda-o, Sassenach. Benzeremos nosso lar antes de que Duncan se v.
       Estava profundamente emocionado pelo presente, mas no o entendi at que Ian me explicou isso- Terei que enterrar uma pea de ferro debaixo de um novo lar para assegurar bnes e prosperidade na nova casa. Era a bno da Yocasta para nossa empresa. Aceitava o que Jamie tinha decidido e lhe perdoava pelo que podia ter parecido um abandono. Envolvi a pea de ferro em meu leno e a guardei no bolso.
       
       Dois dias mais tarde benzemos o lar, ainda sem paredes. Myers se tinha tirado o chapu por respeito e Ian se lavou a cara. Cilindro tambm estava presente, igual  pequena cerda branca em representao de nosso "rebanho", embora no lhe encontrava sentido a que a separassem de sua comida para participar de um ritual onde era evidente a falta da mesma.
       Jamie, fazendo caso omisso dos dilaceradores gritos de chateio da cerda, empunhou e! pequena faca de ferro, riscou uma cruz e disse com calma:
       
       Senhor, benze o mundo e tudo o que contm.
       Senhor, benze a minha esposa e a meus filhos.
       me benza quando me levanto cedo pela manh
       e quando me deito de noite.
       
       Estirou o brao e me tocou com o ferro, logo ao Ian e, com um sorriso, a Cilindro e a cerdita, antes de continuar:
       
       Senhor, protege a casa e a famlia.
       Permite que o fogo de sua bno esquilo para sempre
       entre ns.
       
       Jamie se ajoelhou ao lado do lar e colocou o ferro no pequeno buraco feito ao efeito. Tampou-o e, entre os dois, agarramos a pedra sobre a que acenderamos o fogo, e a colocamos cuidadosamente em seu lugar.
       Teria que me haver sentido bastante ridcula em uma casa sem paredes, com a presena de um lobo e uma cerda e rodeados pela solido e as brincadeiras de um pssaro bobo, em um ritual mas bem pago. Mas no era assim.
       Jamie permaneceu frente ao novo lar e estirou uma mo para me aproximar dele. Recordei uma casa abandonada que tnhamos visto em nossa viagem ao norte. Os donos daquele lugar teriam bento tambm o lar e, de todos os modos, teriam fracassado? A mo do Jamie oprimiu a minha em uma forma inconsciente de me dar segurana.
       Em uma rocha plaina, fora da cabana, Duncan acendeu um pequeno fogo com a ajuda do Myers. Logo agarrou um tio e caminhou ao redor dos alicerces da cabana cantando em galico. Jamie traduzia para mim o que Duncan cantava. detinha-se em cada ponto cardeal para saudar aos quatro ventos" e balanava o tio, que jogava fascas. Cilindro desaprovava esses efeitos com alguns bufidos, mas Ian o fez calar.
       Duncan deu a volta trs vezes, porque eram muitos os versos. Quando chegou ao final, perto do novo lar, dava-me conta de que Jamie tinha situado a cabana de forma que a chamin dava ao norte; o sol da manh esquentava meu ombro esquerdo e nossas sombras se estendiam fazia o oeste.
       Duncan se deteve ante a futura chamin e entregou o tio ao Jamie para que acendesse a pira de lenha. Ian lanou uma exclamao em galico ao elev-la chama e houve um aplauso geral.
       
       Mais tarde, vimos a partida do Duncan e Myers. No foram ao Cross Creek, a no ser ao Mount Helicn, onde os escoceses da regio tinham uma reunio anual em outono para dar obrigado pelas boas colheitas, intercambiar notcias, fazer negcios, celebrar matrimnios e batismos e manter vivos os laos entre cls e famlias.
       Yocasta e a gente de sua casa estariam ali; quo mesmo Farquard Campbell e Andrew MacNeill. Era o melhor lugar para que Duncan comeasse a procurar os homens do Ardsmuir: o do Mount Helicn era o major dos encontros de escoceses, que chegavam desde a Carolina do Sul e Virginia.
       -Estarei aqui para a primavera, MAC Dubh -prometeu Duncan ao Jamie-. Com todos os homens que possa encontrar. Entregarei suas cartas. -Deu um golpe ao embornal que lhe pendurava da cadeira e se colocou o chapu para proteger do forte sol de setembro-. Digo-lhe algo a sua tia?
       Jamie pensou por um momento. J tinha escrito uma carta a Yocasta, que mais podia acrescentar?
       -lhe diga que no a verei na reunio deste ano, nem talvez na do prximo. Mas no seguinte, estarei ali sem falta e minha gente me acompanhar. Boa viagem, Duncan!
       A partida me deixou uma estranha sensao de desolao.
       Duncan era nosso ltimo lao com a civilizao. Agora estvamos realmente sozinhos.
       Bom, no totalmente sozinhos, corrigi-me. Tnhamos ao Ian, por no falar de Cilindro, a cerda, trs cavalos e duas mulas que Duncan nos tinha deixado para arar na primavera. A contemplao da cena me levantou o nimo. Em um ms, a cabana estaria terminada e teramos um teto slido sobre nossas cabeas. E logo...
       -Ms notcias, tia -senti a voz do Ian em meu ouvido-. A cerda se comeu o que ficava de seu bolo de nozes.
       
       20
       O corvo branco
       
       Outubro de 1.767
       
       -"Corpo, alma e mente" -disse Jamie, traduzindo enquanto se inclinava para agarrar o extremo de outro tronco-. "O corpo para as sensaes, a alma para a ao e a mente para os princpios. Entretanto, a capacidade para a sensao tambm a tem o boi, no h animal selvagem que no obedea seus impulsos, inclusive os homens que so ateus e traidores a sua ptria, O..." Cuidado, homem!
       Ian, ame o aviso, deu um passo atrs com a tocha.
       -"... ou chegam a perpetrar toda classe de baixezas detrs de portas fechadas, tm mentes para lhes guiar pelo claro atalho do dever" -resumiu Jamie das Meditaes de Marco Aurelio.
       -Eu sinto uns impulsos em minha barriga -disse Ian-. Isso  mau?
       -Acredito que  uma sensao normal a estas horas -aceitou Jamie, grunhindo pelo esforo de colocar o tronco em seu lugar-. Um poquito  esquerda, Ian.
       O tronco encaixou no entalhe e os dois homens deram um passo atrs, lanando um suspiro de alvio. Ian sorriu a seu tio.
       -Isso quer dizer que voc tambm tem fome, n? 
       Jamie lhe devolveu o sorriso zombador, mas antes de que pudesse responder. Cilindro levantou a cabea com as orelhas erguidas e um grunhido surdo. Ian voltou a cabea para olhar e se deteve antes de sec-la cara com a aba da camisa.
       -Temos companhia, tio -disse assinalando o bosque.
       -No lhes preocupem -pinjente divertida-.  seu antigo companheiro de caadas, vem com o traje de visita.
       
       Nacognaweto, o ndio dos tuscarora que tinha aoitado o urso que Jamie matou, esperou cortesmente  sombra de um castanho at estar seguro de que o tnhamos visto.
       Ento, saiu lentamente do bosque seguido, no por seus filhos esta vez, mas sim por trs mulheres, duas delas com grandes fardos sobre as costas.
       Uma, a mais jovem, no tinha mas de treze anos e a outra, de uns trinta, era evidentemente a me da menina. A terceira era muito major; no devia ser a av, pensei ao ver seu cabelo branco e seu corpo curvado, mas sim pelo menos a bisav.
       Tinham vindo especialmente vestidos para a visita, Nacognaweco tinha as pernas nuas, calava botinhas de couro e vestia cales at os joelhos e uma camisa de tecido rosado rodeada com uma esplndida bandagem adornada com couro de puercoespn e Conchitas brancas e celestes. Em cima levava um colete de couro adornado com contas de cores e uma espcie de me turve solto de cor azul sobre seu cabelo despenteado, com duas plumas de corvo pendurando detrs de uma orelha. Esta imagem se completava com jias de prata e conchas e um aro, vrios colares, uma fivela e pequenos adornos em seu cabelo.
       As mulheres foram algo menos adornadas, mas era evidente que era sua melhor roupa: vestidos soltos at os joelhos, botas de couro e meias-calas. Avanaram em fila e se detiveram metade de caminho.
       -meu deus -murmurou Jamie-, parece uma embaixada. -passou-se a manga pela cara e deu uma cotovelada ao Ian-. Te ocupe de saudar, Ian, volto em seguida.
       Ian, algo perplexo, avanou para receber aos ndios, agitando uma mo em um cerimonioso gesto de bem-vinda. Jamie me agarrou do brao e me empurrou dentro da casa ao meio construir.
       -O que...? -comecei, confundida.
       -Vstete -interrompeu, empurrando a caixa da roupa para mim-. Ponha sua roupa mais chamativa. Temos que ser respeitosos.
       "Chamativa" era algo que no figurava em meu vesturio, mas fiz o que pude. Pu-me um vestido amarelo e substitu o leno branco por uma bordada com cerejas que me tinha enviado Yocasta.
       As mulheres me observaram com a mesma fascinao que eu a elas, mas ficaram atrs enquanto Jamie e Nacognaweto se ocupavam do cerimonial de servir e beber o brandy, ritual no que Ian estava includo. S ento Nacognaweto fez um gesto e a segunda mulher se aproximou, inclinando a cabea em uma tmida saudao.
       -Bonjour, messieurs, madame -disse brandamente, nos olhando a todos.
       Seus olhos se fixaram em mim com franco curiosidade, observando cada detalhe de meu vesturio, por isso me senti com direito a fazer o mesmo. Mescla de sangue? Francesa?
       -Je suis safemme -disse com uma graciosa inclinao de cabea para o Nacognaweto. Suas palavras confirmaram minha hiptese sobre sua origem-. Je m 'appelle Gabrelle.
       -Mmm... je m'appelle Caire -disse com um gesto um pouco menos gracioso-. S'IL vous piat... -assinalei os troncos para que se sentassem, me perguntando se haveria suficiente guisado de esquilo.
       Enquanto isso, Jamie observava ao Nacognaweto entre irritado e divertido.
       -".No francs", no? -disse-. Nenhuma palavra, imagino!
       O ndio lhe dirigiu um olhar profundamente srio e indicou a sua esposa por gestos que continuasse as apresentaes.
       A mulher maior era Nayawenne. No era a av do Gabrielle, como tinha pensado, a no ser a do Nacognaweto. Era magra, com os pequenos ossos deformados pelo reumatismo e olhos brilhantes como os de um pardal, ao que se parecia muito. Levava uma bolsita de couro pendurando do pescoo, adornada com uma pedra verde furada para poder trespass-la e com as plumas da cauda de um pssaro carpinteiro.
       Tinha uma bolsa maior atada  cintura. Viu que observava as manchas verdes da bolsa e sorriu, mostrando dois grandes dentes amarelos.
       A menina era, como tinha suposto, a filha do Gabrielle, mas no do Nacognaweto, pensei; no se pareciam em nada e se comportava timidamente com ele. Seu nome era Berta e os efeitos da mescla de sangue eram mais evidentes nela que em sua me; seu cabelo era escuro e sedoso, castanho escuro mais que negro, e sua cara era redonda e fresca, com a ctis de uma europia, embora seus olhos tinham a forma dos dos ndios.
       Uma vez terminadas as apresentaes oficiais, Nacognaweto fez um gesto a Berta, a qual obedientemente agarrou o vulto que carregava e o abriu ante meus ps, deixando ver uma grande cesta de cabaas alaranjadas com raias verdes, uma rstia de pescados secos, uma cesta mais pequena com batata-doces e um grande punhado de espigas de milho de milho.
       -minha me! -murmurei-. Que magnfica extravagncia!
       Todos me olharam sem compreender; tive que sorrir e deixar escapar exclamaes de prazer e alegria pelos presentes.
       No nos serviria para passar todo o inverno, mas ajudaria a melhorar nossa dieta durante um par de meses.
       Nacognaweto nos explicou, atravs do Gabrielle, que era um pequeno e insignificante presente pelo presente do urso, que tinha sido recebido com grande deleite em sua aldeia, onde o valor do Jamie (neste ponto, as mulheres deixaram de me olhar e riram entre dentes, demonstrando que conheciam o episdio do urso) tinha sido centro de admirao.
       Enquanto Gabrielle fazia de tradutora, a anci, desoyendo os mtuos cumpridos, aproximou-se furtivamente a mim.
       Sem nenhuma inteno de me ofender me aplaudiu com familiaridade, tocando minhas roupas, levantando o bordo de meu vestido para examinar meus sapatos e fazendo comentrios para si mesmo em um suave e rouco murmrio, que foi aumentando, at alcanar um tom de assombro quando chegou a meu cabelo.
       Tirei-me as forquilhas e o deixei solto. A anci agarrou um cacho de cabelo, estirou-o, soltou-o e ficou a rir at ficar esgotada.
       Os homens olharam em nossa direo. Jaime estava mostrando ao Nacognaweto a construo da casa. Para este tipo de conversao masculina no necessitavam traduo, assim Gabrielle ficou em liberdade para conversar comigo. Seu francs tinha um acento estranho e estava cheio de giros, mas no tivemos problemas para nos entender.
       Em pouco tempo, descobri que Gabrielle era a filha de um francs que comercializava com peles e de uma mulher da tribo dos fures; era a segunda esposa do Nacognaweto que, a sua vez, era seu segundo marido. O primeiro e pai da Berta era outro francs que tinha morrido na guerra entre ndios e franceses, dez anos atrs.                               
       Viviam em uma aldeia chama Anna Ooka (mordi-me a parte interior de minhas bochechas para no rir; sem dvida "Nova Berna" lhes teria divulgado muito peculiar) a dois dias de viagem para o noroeste. Gabrielle indicou a direo com uma graciosa inclinao de cabea.
       Enquanto falava com o Gabrielle e Berta, me ajudando com gestos, fui dando conta de que se estava produzindo uma comunicao com a anci. Tinha a estranha sensao de que falava comigo e eu com ela, sem ter que pronunciar uma s palavra.
       Vi que Jamie, ao outro lado do claro, oferecia ao Nacognaweto o resto da garrafa de brandy; era evidente que tinha chegado o momento de oferecer presentes em troca dos recebidos.
       Entreguei ao Gabrielle o leno bordado e a Berta uma forquilha com adornos de cores; as duas lanaram exclamaes de prazer. Para o Nayawenne, entretanto, tinha algo diferente.
       Tinha tido a sorte de encontrar na semana anterior quatro grandes razes de ginseng. Busquei-as em minha caixa de remdios e as coloque entre suas mos com um sorriso. Olhou-me, sorriu e desatando a bolsita de sua cintura me entregou isso. No precisava abri-la; podia sentir as quatro formas, largas e toscas. Ento eu tambm ri. Decididamente falvamos o mesmo idioma.
       Por curiosidade e por um impulso que no poderia descrever, perguntei ao Gabrielle sobre a bolsita que levava a anci como amuleto, confiando em que no fora uma falta de educao.
       -Grandmere est... -vacilou, procurando a palavra correta em francs, mas eu j a conhecia.
       -Ps docteur, et ps sorcire, magicienne. Elle est... -eu tambm vacilei, depois de tudo, no havia uma palavra adequada em francs.
       -Ns dizemos que ela  uma cantor -disse Berta timidamente em francs-. Chamamo-la shaman; seu nome significa "pode ser, pode acontecer".
       A anci disse algo, fazendo um gesto para mim. As duas mulheres mais jovens olharam assombradas. Nayawenne inclino a cabea, tirou-se a correia de couro e colocou a bolsita em minha mo.
       Era to pesada, que me afrouxou a boneca e quase a sotaque cair. Assombrada, fechei a mo. O couro gaseado conservava o calor de seu corpo. Por um momento, tive a impresso de que na bolsa havia algo vivo.
       Meu rosto deveu mostrar meu assombro, pois a anci se desternillaba de risada. Estendeu a mo e lhe devolvi o amuleto rapidamente. Gabrielle interveio cortesmente, me dizendo que a av de seu marido estaria encantada de me ensinar as novelo teis que cresciam nos arredores, se queria acompanh-la.
       Aceitei o convite e a anci empreendeu o caminho, com uma agilidade incrvel para seus anos.
       Durante um momento caminhamos paralelas ao arroio, seguidas a uma respeitosa distncia pelo Gabrielle e Berta, que se aproximavam quando as necessitvamos como intrpretes.
       Mas a maior parte do tempo nos entendemos muito bem com gestos. Quando chegamos ao grande lago no que tinham pescado trutas Ian e Jamie, Nayawenne se deteve e fez um gesto para que Gabrielle se aproximasse, disse-lhe algo e se voltou fazia mim com ar de surpresa.
       -A av de meu marido diz que sonhou contigo, na lua cheia de faz dois meses.
       -Comigo?
       Gabrielle assentiu. Nayawenne apoiou sua mo em meu brao e olhou intensamente minha cara para ver o impacto das palavras do Gabrielle.
       -Ela nos falou do sonho: tinha visto uma mulher com...
       -Seus lbios se crisparam, recomps sua expresso e se tocou as pontas de seu comprido cabelo murcho-. Trs dias mais tarde meu marido e seu filho retornaram, contaram-nos que se encontraram no bosque contigo e com o lhes Mata isso 
       Berta me observava com grande interesse, jogando com uma mecha de seu cabelo.
       -Ela disse imediatamente que tinha que verte, assim quando soubemos que estava aqui...
       Impaciente por essas coisas sem importncia, Nayawenne disse algo e assinalou com firmeza a gua.           
       -A av de meu marido diz que o sonho ocorreu aqui.-Gabrielle assinalou o lago e me olhou com grande seriedade-.Encontrou-se contigo de noite. A lua estava na gua e voc te converteu em corvo branco, voou pela gua e te tragou a lua.
       -Seriamente?
       Confiei em que no fora nada sinistro.
       -O corvo branco voltou voando e lhe deixou um ovo na palma da mo. O ovo se abriu e dentro havia uma pedra brilhante. A av de meu marido soube que era um fato mgico, que a pedra podia curar enfermidades.
       Nayawenne inclinou a cabea vrias vezes e procurou no interior da bolsa.
       -O dia depois do sonho, a av de meu marido foi procurar razes de kinnea e no caminho viu algo azul no barro,  borda do rio.
       Nayawenne tirou um pequeno objeto e o deixou cair em minha mo. Era cristal de rocha, tosco, mas indubitavelmente uma pedra preciosa. O corao da rocha era de uma cor azul profunda.
       - uma safira, verdade?
       -Safira? -Gabrielle saboreou a palavra-. Ns a chamamos... -vacilou, procurando a traduo correta- Pierre sanspenr.
       -Uma pedra valente?
       Nayawenne falou e esta vez tocou a Berta traduzir.
       -A av de meu pai diz que uma pedra assim evita que a gente tenha medo, fortalece o esprito e faz que sanem mais rpido. at agora, a pedra curou a duas pessoas com febre e um problema nos olhos que tinha meu irmo pequeno.
       Gabrielle interveio na conversao: -A av de meu marido deseja agradecer seu presente.
       -Ah...!, lhe diga que me alegro de que goste.
       Saudei a anci e lhe devolvi a pedra azul. Guardou-a na bolsa e se ajustou o cordo ao redor do pescoo.
       -A av de meu marido diz que agora tem poderes curativos, mas que ter mais. Quando seu cabelo seja branco como o dela, alcanar todo seu poder.
       A anci retrocedeu e disse algo mais. Gabrielle me olhou de modo estranho.
       -Diz que no deve preocupar-se; a enfermidade  enviada pelos deuses. No ser tua culpa.        
       Observei assombrada  anci, mas j se deu a volta.                            
       -O que  o que no ser minha culpa? -pergunte, mas a anci se negou a dizer nada mais.
       
       
       21
       A noite em uma montanha nevada
       
       Dezembro de 1767
       
       O inverno se atrasava; finalmente a noite de 28 de novembro comeou a nevar e quando despertamos encontramos o mundo transformado. As agulhas do grande abeto azul que havia detrs da cabana estavam congeladas.
       No tnhamos velas de cera, unicamente abajures de graxa, velas de junco e a luz do fogo, que ardia constantemente no lar. Levantvamo-nos com as primeiras luzes e nos deitvamos depois do jantar, igual s criaturas do bosque que nos rodeava.
       Ainda no tnhamos ovelhas e, por conseguinte, no havia l para cardar e fiar, nem roupa que tecer. Tampouco tnhamos colmia, nem cera para ferver e fazer velas. No tinha ganho para cuidar, salvo os cavalos, as mulas e a pequena cerda, que tinha crescido grandemente, tanto em tamanho como em irritabilidade, e em conseqncia tinha sido desterrada a um compartimento privado em um rinco das quadras que Jamie tinha construdo.
       Myers nos tinha deixado uma pequena, mas til, seleo de ferramentas. s partes de ferro devamos lhes colocar as mangas feitas de madeira do bosque. Havia uma tocha para descascar e outra para cortar, uma grade de arado para semear, furadeiras, escovas, formes, uma pequena foice, dois martelos e uma serra, uma tocha de dobro fio e uma serra, duas facas pequenas bem afiadas, um restelo e uma cunha.
       Jamie e Ian tinham conseguido terminar o teto da cabana antes de que comeasse a nevar; os abrigos eram menos importantes. Sempre havia troncos de madeira perto do rogo, junto  cunha, para que qualquer que tivesse tempo cortasse mais lenhos.
       Myers tambm tinha deixado coisas para mim: um grande canasto de costura com agulhas, alfinetes, tesouras, novelos de linho e partes de linho, musselina e l.
       -Outra mais!
       Jamie se sentou na cama, a meu lado.
       -Outra o que? -perguntei meio dormida, abrindo um olho.
       -Outra maldita goteira! Tem-me cansado na orelha, maldio!
       Saiu da cama, foi at o fogo e acendeu uma varinha para ter luz. Levantou sua tocha procurando no teto a perversa goteira.
       -Mmm?
       Ian, que dormia em um soalho de madeira, deu-se a volta com um grunhido. Cilindro, que insistia em compartilhar a cama com seu amo, emitiu um breve bufido.
       -Uma goteira -informei ao Ian, vigiando ao Jamie, pois no pensava permitir que queimasse meu precioso colcho de plumas.
       -Sim? -disse Ian- Outra vez nevou?
       -Parece que sim.
       As janelas estavam cobertas com couros de cervo lubrificados com azeite e no se ouviam os rudos do exterior, mas o ar tinha essa caracterstica especial que aparece com a neve.
       Jamie considerava as goteiras como uma afronta pessoal.
       -Olhe! -exclamou-. Ali est. V-a?
       Levantei o olhar para o teto. A luz da tocha mostrava a mancha de umidade. Nesse momento se formou uma gota e caiu sobre o travesseiro.
       -Podemos correr um pouco a cama -sugeri sem muitas esperanas.
       J tinha passado por isso outras vezes.
       Jamie se baixou da cama e empurrou ao Ian com um p.
       -te levante e golpeia onde est a goteira. Eu subirei acima.
       Procurou o martelo, a bolsa de pregos e uma tocha e se dirigiu  porta.
       -No suba ao teto assim! -exclamei, me incorporando bruscamente-.  sua melhor camisa de l!
       deteve-se, olhou-me com expresso de resignao, tirou-se a camisa e a deixou no cho.                      
       -Estar bem, ta-assegurou Ian com um bocejo.
       depois de uma srie de golpes a goteira ficou arrumada. De volta na cama, Jamie apertou seu corpo gelado contra o meu e ficou dormido com a satisfao de um homem que defendeu seu lar contra qualquer ameaa.
       
       Nossa situao na montanha era frgil mas ao menos tnhamos um teto. No tnhamos muita carne, pois tinha havido pouco tempo para caar algo mais que coelhos e esquilos, mas sim muitos vegetais secos, nozes e uma pequena proviso de ervas que eu tinha secado. Servia para uma dieta escassa, mas, organizando-se com cuidado, poderamos sobreviver at a primavera.
       Tnhamos poucas atividades que realizar no exterior e ficava muito tempo para conversar, para nos contar histrias e para dormir. Jamie se dedicou a esculpir as peas de um xadrez e tratava de nos convencer ao Ian e a mim de que jogssemos com ele.
       Ian e Cilindro sofriam a febre do fechamento e visitavam Anna Ooka com freqncia para sair de caa com os jovens da tribo, quem agradecia os benefcios da companhia de Cilindro.
       -O moo fala o idioma dos ndios muito melhor que o grego ou o latim -comentou Jamie, observando como se intercambiava cordiais insultos com um de seus companheiros de caa.
       -Bom, se Marco Aurelio tivesse escrito sobre a caa dos porco porco-espinhos, estou segura de que teria encontrado um auditrio mais atento -respondi para lhe acalmar.
       Embora queria muito ao Ian, no me desgostavam suas freqentes ausncias, pois havia momentos em que, decididamente, trs eram multido.
       Quando Ian no estava, deitvamo-nos e ficvamos conversando. Um dos temas favoritos do Jamie eram as histrias sobre a infncia da Brianna.
       -Falei-te sobre aquela vez que fui a sua escola a falar do que significa ser mdico?
       -No -disse, acomodando-se a meu lado-, por que teve que faz-lo?
       -Era o dia dos Ofcios. Os professores convidam a gente de distintas profisses para que os meninos aprendam no que consistem. Por exemplo um advogado, Ou um veterinrio, que  um mdico de animais, ou um dentista, que se ocupa dos dentes...
       -Os dentes? O que ouvir coisa se pode fazer, alm de tir-los?
       -Surpreenderia-te. Bom, no importa, o certo  que me convidavam porque ento no era muito comum que uma mulher fora mdica.
       -E agora o ?
       Jamie riu e lhe dava uma suave patada.
       -Bom, depois foi muito mais normal. Enquanto estava com os meninos, perguntei-lhes se queriam me perguntar algo e a gente disse que sua me dizia que as mulheres que trabalhavam no eram melhores que as prostitutas; que seu dever era ficar em casa em lugar de lhe tirar o trabalho aos homens.
       -Suponho que sua me no conheceria muitas prostitutas.
       -Imagino que no. Nem tampouco muitas mulheres que trabalhassem. Ento Brianna se levantou e lhe disse em voz bem alta: Te vais alegrar de que minha me seja mdica, porque vais necessitar uma!". Pegou-lhe na cabea com um livro e, quando caiu, atirou-se em cima e comeou a lhe dar murros na boca.
       -Que menina mais valente! E o professor lhe pegou?    
       -Na escola no pegam aos meninos. Teve que escrever uma carta desculpando-se com o pequeno animal e ele teve que me escrever outra . Brianna pensou que era justo. A parte mais incmoda foi descobrir que o pai do menino era mdico, um de meus colegas do hospital.
       -E suponho que tinha o posto que ele queria.
       -Como o adivinhaste?
       -Olhe. -Notei seu flego quente e espesso no pescoo-. Disse-me que ela estudava histria, como Frank Randall. Alguma vez quis ser mdica, como voc?
       -Sim, quando era pequena. Estava acostumado a lev-la ao hospital e jogava com meu estetoscpio, mas logo trocou de idia. Trocou muitas vezes, a maioria dos meninos o fazem.
       -Fazem isso?
       Era uma novidade para o Jamie. A maioria dos meninos de sua poca se limitavam a adotar a profisso de seus pais ou estes escolhiam por eles o que deviam aprender.
       Quando terminei minha lista de todas as ocupaes do sculo XX, estvamos frente a frente com as pernas entrelaadas.
       -Nunca soube se realmente queria estudar histria ou se o fez por agradar ao Frank. Queria-o muito e ele estava muito orgulhoso dela.
       Fiz uma pausa; sua mo percorria minhas costas.
       -Se ela seguir com a histria, crie que nos encontrar? Refiro a se encontrar algo em algum livro.
       Essa idia no me tinha ocorrido. Por um momento fiquei imvel.
       -No acredito. No, a menos que faamos algo notvel. Mas no temos muitas possibilidades aqui- E, de todos os modos, teria que procurar deliberadamente.
       -Far-o?
       -Espero que no -pinjente finalmente-. Deve ter sua prpria vida e no esbanjar o tempo em olhar para o passado.
       - uma mulher muito inteligente, Sassenach, mas te falta perspiccia. Embora possivelmente seja s modstia.
       -E o que te faz dizer isso? -perguntei, algo molesta.
       -Disse que a moa  leal. Amava tanto a seu pai para fazer o que lhe gostava, inclusive depois de sua morte. Crie que te queria menos a ti?
       -No -pinjente finalmente, com voz apagada.
       -Bom, ento...
       Agarrou-me dos quadris e brandamente se colocou sobre mim. No falamos mais e os limites de nossos corpos desapareceram.
       Foi algo lento e cheio de paz, seu corpo era to meu como o minha era dele. Quando estvamos a ponto de dormir senti o quente flego do Jamie em meu pescoo.
       -Ela procurar -disse com segurana.
       
       Dois dias mais tarde aumentou algo a temperatura e Jamie, posedo pela febre do fechamento, decidiu sair a caar. Ainda havia neve, mas era uma capa magra e acreditava que seria fcil andar pelas ladeiras. Eu no estava to segura, pensava enquanto juntava neve para derret-la. Mas confiava em que tivesse razo, j que nossas provises diminuam e no tnhamos carne desde fazia uma semana.
       Levei a neve e a joguei no grande caldeiro, me sentindo, como sempre que o fazia, como uma bruxa.
       Ao princpio no me preocupei quando Jamie no retornou. Quer dizer, preocupei-me (sempre o fazia quando saa durante tanto tempo), mas tratava de sossegar minha inquietao e de me enganar a mim mesma. E quando o sol comeou a ocultar-se comecei a emprestar ateno a todos os rudos que pudessem anunciar sua chegada.
       Fazia frio na cabana e sa a procurar mais lenha. Em um par de horas a escurido seria total.
       Queria ter um bom fogo para a noite. Jamie voltaria gelado depois de um dia de caa em meio da neve.
       -Maldito homem -disse em voz alta-, O que tem feito? Caar um alce?.
       O ouvir minha voz me fez sentir algo melhor. Preparei a sopa e a cabana se encheu ao momento de aroma de cebolas e alho, mas eu no tinha apetite. Fechei a porta, comi um pouco, arrumei o fogo e me deitei para dormir. Certamente Jamie se teria encontrado com os homens da Anna Ooka e teria acampado com eles. Sabia viver ao ar livre. Tinha passado vrios anos em uma cova de Esccia!, respondia-me eu mesma com cinismo, onde a fera mais feroz  o gato Montes e a pior ameaa humana, os soldados ingleses!
       -Tolices! -pinjente e me dava a volta na cama-.  um homem grande, est armado at os dentes e sabe muito bem o que tem que fazer se nevar!
       O que faria?, perguntei-me. Procurar ou construir um lugar para proteger-se. Se no estava ferido, provavelmente no morreria congelado.
       Se no estava ferido, se no o tinham ferido. supunha-se que os ursos dormiam profundamente; mas os lobos caavam no inverno e os pumas tambm. Ao recordar meu encontro na borda do arroio, estremeci-me. Na cabana fazia calor, mas de repente meus ps e minhas mos se gelaram.
       Apartei as mantas, levantei-me e me vesti rapidamente sem pensar no que estava fazendo. J tinha pensado muito. Dava graas a Deus por minhas botas recm engorduradas que me protegeriam da umidade durante um bom momento.
       Jamie se tinha levado a tocha, assim tive que cortar uma parte de pinheiro com um bero e um mao, amaldioando por minha lentido enquanto o fazia. Uma vez decidida a atuar, qualquer atraso me irritava. Atei-me  cintura uma bolsita com remdios, pu-me a capa, agarrei a tocha e minhas coisas e sa ao exterior.
       No fazia to frio como temia. Uma vez em movimento me sentia abrigada.
       Jamie era um homem corpulento, assim estava segura de poder seguir seus rastros quando as encontrasse. Passei os castanhos que circundavam nosso claro para o oeste e segui costa acima. No tinha um bom sentido da orientao, mas podia distinguir se subia ou baixava. Jamie me tinha ensinado a procurar marcos, grandes e fixos. Olhei em direo s cascatas. No podia as ouvir, j que o vento devia soprar em outra direo e eram como uma mancha branca na distncia.
       Jamie me tinha explicado que quando a gente ia caar, o vento tinha que soprar para o caador, para que a presa no pudesse cheir-lo. Perguntava-me com desgosto quem poderia me cheirar na escurido. No tinha armas, salvo minha tocha.
       A primeira armadilha estava colocada em uma pequena garganta, a uns duzentos metros custa acima da cabana. Tinha estado com o Jamie quando a colocou. Percorri vrias vezes o lugar at que encontrei o que procurava, a marca escura de umas pegadas.
       Com muita lentido fui seguindo seus rastros de uma armadilha a outra. A neve caa com mais intensidade e isso me fez sentir insegura. Se a neve tampava os rastros antes de chegar a ele, como encontraria o caminho para retornar  cabana?
       -Bem -murmurei-. Est perdida. E agora o que?.
       Contive um ataque de pnico e fiquei imvel para pensar. No estava totalmente perdida. Ainda tinha os rastros do Jamie para me guiar, ao menos as teria at que a neve as tampasse. E se o encontrava poderamos voltar para a cabana.
       O fogo da tocha ardia perigosamente perto de minha mo. Tirei outra dos ramos seca e a acendi, atirando a brasa antes de que me queimasse os dedos.
       A quarta armadilha no estava vazia, mas a lebre j estava morta. Sua rigidez podia ser causa do frio ou do rigor mortis. Tratei de pensar com lgica, passando por cima o frio que intumescia meus dedos e minha cara. No havia rastros do Jamie e a lebre estava na armadilha. Muito bem, ento no tinha chegado at ali. portanto, entre a ltima armadilha e esta, Jamie tinha deixado seu caminho. Onde tinha ido?.
       Com urgncia, retrocedi procurando as ltimas pisadas. Levou-me um tempo as encontrar, minha segunda tocha estava pela metade quando as vi. deteve-se Y... onde tinha ido?
       -Jamie! -gritei.
       Chamei vrias vezes, mas a neve parecia apagar minha voz. Escutei, mas no ouvi nada. Jamie no estava detrs, nem frente a mim.  esquerda ento, ou  direita?
       Detive-me escutar. Era um grito de resposta? Gritei outra vez, mas ningum respondeu. Dava outro passo e uma rocha geada me fez escorregar por uma ladeira cheia de barro. O corao me acelerou. No era um precipcio como tinha pensado e a queda no foi mais que de um metro e mdio. No era isso o que fazia agitar meu corao, a no ser o que viam meus olhos abaixo, no terreno baixo. Os sinais de algo grande que tinha esmagado os arbustos e tinha seguido caindo recordaram as desagradveis marca deixadas pela lebre que pendurava de meu cinturo.
       Com a incerta luz de minha tocha segui um caminho entre umas rochas, atravs de um grupo de flores de inverno Y... encontrei-o atirado ao p de uma grande pedra, meio talher pelas folhas, como se algum tivesse querido lhe tampar. No estava encolhido para esquentar-se, mas sim jazia com a cara esmagada contra o cho, com uma imobilidade mortal.
       Deixei cair minha tocha e com um grito de horror me atirei sobre ele.
       Jamie grunhiu e se agitou baixo meu corpo. Apartei-me, com uma mescla de alvio e terror. No estava morto, mas estava ferido- Onde?
       -Onde? -perguntei, atirando de sua capa enroscada ao redor do corpo-, Onde te feriste? Est sangrando, tem-te quebrado algo?
       No podia ver manchas de sangue, posto que tinha atirado minha tocha e se apagou. Jamie estava frio e quase no podia falar. Mas ouvi como pronunciava "costas", tirei-lhe a capa e lhe rasguei a camisa, o que lhe fez grunhir. Coloquei as mos entre a roupa procurando o buraco da bala. Deveram lhe disparar pelas costas, pensei, embora no via o sangue. Onde estava a bala? No encontrava nada; tinha as costas geada, mas no tinha feridas.
       - voc, Sassenach? -perguntou com voz sonolenta.
       -Sim, sou eu! O que te passou? -quis saber, quase com indignao-. Disse que lhe tinham disparado pelas costas!
       -No, no o disse. Porque no foi assim -assinalou com lgica. Parecia tranqilo e quase dormitado-. D-me o ar nas costas, Poderia cobri-la, Sassenach?
       Coloquei-lhe a roupa lhe fazendo gemer de novo.
       -Que diabos te passou? -perguntei.
       -Ah, bom. No  nada srio. Mas no posso me mover.
       Olhei-o fixamente.
       -por que? Torceste-te o p? Tem-te quebrado uma perna?
       -Ah... no -parecia envergonhado-. Eu... a ti... desloquei-me a coluna.
       -Que voc o que?
       -J me passou Outra vez -assegurou-me-. Dura um par de dias. 
       -Suponho que no pensaria agentar dois dias atirado aqui e coberto pela neve.
       -Me ocorreu, mas no podia fazer nada a respeito.
       Ento me dava conta de que eu tampouco podia fazer muito. Assustei-me quando notei que podia estar perto do congelamento.
       -Acordada! -pinjente, lhe sacudindo. Abriu os olhos e me sorriu-. Te mova! Jamie, tem que te mover!
       -No posso -disse com calma-. J te disse que no posso.
       Fechou os olhos outra vez.
       Agarrei-lhe uma orelha e lhe cravei as unhas. Grunhiu e moveu a cabea.
       -Acordada. No me ouve? Desperta agora mesmo! te mova, maldio! me d a mo.
       -Estou bem, s muito cansado -disse.
       -Move os braos -ordenei-. Pode mover as pernas?
       Suspirou e murmurou algo em galico. Muito lentamente comeou a mover os braos. Custou-lhe mover as pernas, porque lhe davam espetadas nas costas e, de muito m vontade, agitou os ps.
       -Segue te movendo -adverti. Incorporei-me com certa dificuldade-. Segue te movendo. Se te detiver, juro-te que te piso nas costas.
       -Agarra a tocha -disse entre dentes e assinalou um grupo de rvores prximas com a cabea-. Ramos- grandes, de dois metros. Curta quatro. -Respirava pesadamente, mas havia cor em seu rosto e lhe tocavam castanholas os dentes. Eram bons sinais e me alegrei.
       -Bem -pinjente-. Ramos grandes, no?
       E agarrei a tocha.
       Assentiu estremecendo-se violentamente.
       Escolhi os ramos mais baixa. Custou-me bastante porque tinha as mos intumescidas pelo frio e a madeira estava verde e elstica. Finalmente cortei quatro ramos largos e cheias de folhas.
       Arrastei-as at a rocha e encontrei ao Jamie metido entre as folhas, para proteger do frio. Baixo sua direo apoiei os ramos na rocha, cravando os extremos na terra para formar um pequeno refgio triangular. Logo agarrei outra vez a tocha e cortei ramos de pinheiro e as coloquei junto com molhos de erva seca na parte superior. E, finalmente, ofegando pelo cansao, arrastei-me ao lado do Jamie.
       Cobrimo-nos com a capa e lhe aconteceu os braos pelo corpo. Logo comecei a tremer. Sentia-me aliviada mas tinha medo.
       -Tudo vai sair bem, Sassenach -disse Jamie ao me sentir tremer-. Se estivermos juntos, tudo sair bem.
       -Sei -pinjente e apoiei minha cabea sobre suas costas-. Quanto tempo faz que est aqui?
       ia encolher se de ombros, mas o gesto lhe arrancou um gemido de dor.
       -Um bom momento. Tinha passado o meio-dia quando me ca de uma rocha. No era muito alta, mas ao apoiar o p as costas fez falncia e quo seguinte soube foi que estava atirado no barro, com a sensao de que me tinham parecido uma faca nas costas.
       -me diga onde te di -pinjente, confiando em que no lhe tivesse deslocado uma vrtebra.
       A espantosa possibilidade de que ficasse invlido para sempre cruzou por minha mente, junto com as consideraes prticas sobre o que faria para lhe tirar dali. Teria que lhe deixar e lhe alimentar at que se recuperasse?
       -Aqui -disse com um gemido-. Sim,  aqui. Se me mover, a dor corre pela parte de atrs da perna, como se passasse um arame ardendo.
       Toquei-o com cuidado, com ambas as mos, apertando e fazendo que levantasse uma perna e logo a outra.
       -Disse que te tinha acontecido antes. Quando?
       -Ai! Maldio, a di. Na priso.
       -A dor era no mesmo lugar?
       -Sim.
       Notei um n no msculo da parte direita, justo debaixo do rim, e uma contractura nos extensores, os msculos largos que h ao lado do espinho dorsal. Por sua descrio do episdio anterior, estava segura de que s era um severo espasmo muscular. E para isso, o tratamento adequado era calor, repouso e um antiinflamatorio.
       -Suponho que poderia tent-lo com acupuntura -pinjente, pensando em voz alta-. Tenho as agulhas em minha bolsa Y...
       -Sassenach -disse com calma-, posso suportar a dor, o frio e a fome. Mas no vou deixar que minha prpria esposa me chave agulhas nas costas. No poderia me oferecer um pouco de simpatia, em lugar disso?.
       Ri e me apertei contra seu corpo.
       -N... que classe de simpatia te passa pela cabea?
       Sujeitou-me a mo para acautelar ulteriores avanos.
       -No  isso -respondeu.
       -Poderia apartar sua mente da dor -quis mover os dedos e Jamie os sujeitou com mais fora.
       -No o duvido, Sassenach -disse secamente-. Uma vez que retornemos a casa e tenha uma cama para me deitar e uma sopa quente em meu estmago, a idia me parecer tentadora. Mas agora, s de pens-lo... Mulher, tem idia do frite que esto suas mos?
       Apoiei minha bochecha em suas costas e ri.
       At que, finalmente, ficamos em silncio escutando o som da neve. Estava escuro mas meus olhos se acostumaram e pude distinguir a cabea do Jamie, seu cabelo e seu pescoo.
       -Que hora crie que ? -perguntei. Eu no tinha nem idia.
       -Tarde -respondeu-. Embora falta bastante para o amanecer-acrescentou, adivinhando o que queria lhe perguntar-.  uma das noites mais largas do ano.
       -Que sorte! -disse com desalento.
       Tinha deixado de tremer, mas ainda no sentia os dedos dos ps. A respirao do Jamie se fez mais lenta e mais profunda.
       -No durma! -disse com ansiedade, lhe apertando o brao.
       -Ai!por que no?
       -Se dormimos poderamos nos congelar e morrer.
       -No, no nos acontecer. Fora est nevando e logo estaremos talheres.
       -J sei -pinjente, algo molesta-. E isso o que tem que ver?
       -A neve est fria ao toc-la -explicou com impacincia-, mas mantm o frio fora, atua como uma manta. Resulta muito mais quente uma casa coberta de neve que uma poda e exposta ao vento. Como crie que fazem os ursos para dormir durante o inverno e no congelar-se?
       -Tm grande quantidade de graxa -protestei-. Acreditava que isso lhes mantinha quentes.
       -Ja, ja -respondeu-. Bom, no precisa preocupar-se, n?
       -Ento, est seguro de que no vamos morrer congelados?
       -No -disse.
       -Mmm. Bom, talvez seria melhor permanecer acordados um momento. S se por acaso as moscas, n? .
       -Mas no vou seguir agitando os braos -disse com determinao-.E se me pe as mos geladas no traseiro te juro que te estrangulo.
       -Est bem, est bem. E se em lugar disso lhe conto um conto.
       Aos montanheses gostava das histrias e Jaime no era uma exceo.
       -Sim -disse com alegria-. Que classe de conto?
       -Um conto de Natal. Sobre um senhor chamado Ebenezer Scrooge.
       -Um ingls, suponho.
       -Sim -respondi-. Fica aquieto e escuta.
       Conhecia muito bem a histria porque formava parte de nosso ritual natalino, do Frank, da Brianna e meu. Todos os anos liam por turnos antes de nos deitar o Conto de Natal de Dickens.
       -"Deus benza a todos" -terminei e ficamos em silncio.
       A escurido era major porque a neve havia talher todas as aberturas.
       -Ponha suas mos dentro de minha camisa, Sassenach -disse Jamie brandamente.                              
       Oprimiu-me uma mo contra seu peito. Agora estava quente e seu corao pulsava com fora baixo meus dedos.
       -Dorme, a nighean donn, no vou deixar que te congele -disse.
       
       Despertei bruscamente com a mo do Jamie apertando minha coxa.
       -Shh, quieta -disse brandamente.
       A luz tinha trocado. J era de dia. Sons apagados provinham de fora. Ouvi um dbil eco de vozes que Jamie deveu ter escutado antes e me agitei nervosa.
       -Quieta! -disse outra vez com um feroz sussurro e me apertou a perna com mais fora.
       As vozes se aproximavam e se podiam entender as palavras. Eram ndios que falavam um dialeto diferente ao tuscarora, com distinto ritmo.           
       Tinha sentimentos opostos. Por um lado tinha chegado a ajuda que tanto necessitvamos, a julgar pelos sons eram vrios homens, suficientes para mover ao Jamie com segurana. E por outro lado, devamos atrair a ateno de um grupo de ndios desconhecidos que podiam ser inimigos?
       A julgar pela atitude do Jamie, parecia que no devamos. apoiou-se em um cotovelo e tinha a faca na mo direita. Pensativo, arranhou-se o queixo enquanto tratava de ouvir as vozes que se aproximavam.
       Os ndios estavam ao outro lado da arvoredo e discutiam por algo. Uma idia me ps a carne de galinha, deviam ter visto os ramos cortados. Teria nevado o suficiente para cobrir meus rastros at nosso refgio?
       produziram-se movimentos entre as rvores e, de repente, apareceram, vestidos com couro e peles e alguns com capas ou mantas alm de sua perneiras e botas. Levavam vultos com mantas e provises e, a maioria, tinham o calado para a neve pendurando das costas. Era evidente que a neve no era to espessa como para que os necessitassem.
       Foram armados com uns poucos fuzis e tochas de guerra penduravam dos cintures. Seis, sete, oito... contei em silncio enquanto apareciam em fila, cada homem pisando sobre os rastros do precedente. Um dos de atrs disse algo rendo e o de diante respondeu, mas suas palavras se perderam no vento.
       Ento me dava conta de que o vento devia soprar em nossa direo, trazendo o som de suas vozes. No, nem sequer os ces poderiam cheiramos. Mas veriam os ramos de nosso refgio?
       O ltimo homem apareceu ante ns. Era um jesuta.
       -Chama-os! -sussurrei-. So cristos, tm que s-lo para levar com eles a um sacerdote. No nos faro mal.
       -No -respondeu-. No, pode ser que sejam cristos, mas... -Sacudiu a cabea-. No. 
       No tinha sentido discutir com ele.- Fiz um gesto de resignao.
       -Como est suas costas?
       estirou-se e se deteve afogando um grito.
       -No muito bem, n? -pinjente, com uma mescla de simpatia e sarcasmo.
       Olhou-me insultante e se deslizou em sua cama de folhas fechando os olhos.
       -Imagino que j haveria pensado em uma forma engenhosa de baixar da montanha, no? -perguntei com amabilidade.
       Abriu um olho.
       -No -disse fechando-o de novo.
       Era um dia frio mas brilhante e o sol fazia que a neve das rvores casse em forma de flocos. Agarrei um e o coloquei dentro de sua camisa. Deixou sair o ar entre seus dentes, abriu os olhos e me olhou com frieza.
       -Estava pensando -informou-me.
       -Sinto te interromper.
       Movi-me e meu estmago fez rudo. o do Jamie j tinha protestado antes de forma contundente. Teramos que comear a pensar no assunto da comida.
       -Quieta -disse ofendido-. Bom -continuou-, esperar um pouco para te assegurar de que seus selvagens estejam longe e ento ir  cabana Y...
       -No sei onde est.
       Soltou um pequeno bufido de impacincia.
       -Como me encontrou?
       -Segui seus rastros -disse com certo orgulho-. Mas no acredito que possa faz-lo de novo.
       -Ah! -Pareceu impressionado-. Bom, muito engenhoso por sua parte, Sassenach. Mas no se preocupe, posso te dizer como encontrar o caminho.
       -Bem. E depois o que?
       -Trar um pouco de comida e uma manta. Em poucos dias poderei voltar a me mover,
       -te deixar aqui? -Olhei-o zangada.
       -Estarei bem.
       -Comero-lhe os lobos!
       -J o pensei -disse sem lhe dar importncia-. O mais provvel  que estejam ocupados com o alce.
       -Que alce?
       -que matei ontem. Disparei-lhe na nuca mas no morreu em seguida. Estava-o seguindo quando me ca, no acredito que tenha ido muito longe. Suponho que a neve cobriu o corpo, pois do contrrio nossos amigos o teriam visto.
       -Matou um alce que atrair aos lobos como moscas e prope ficar aqui te congelando, esperando a que cheguem. Imagino que pensar que quando voltarem pela segunda vez estar to congelado que no te dar conta se comearem a te comer pelos ps.
       -No grite. Os selvagens podem estar perto.
       ia fazer outros comentrios quando Jamie me deteve acariciando minha bochecha.
       -Claire -disse com afeto-, voc no pode me mover. No se pode fazer outra coisa.
       -Sim se pode -pinjente, reprimindo um tremor em minha voz-. Fico contigo. Trarei mantas e comida mas no vou deixar te sozinho. vou trazer lenha e acenderei um fogo.
       -No h necessidade. me posso arrumar isso eu sozinho -insistiu.
       -Mas eu no posso -pinjente, recordando as horas de espera na cabana.
       Jamie se deu conta de que o dizia a srio e sorriu.
       -Bom, ento tambm poderia trazer usque, se  que fica algo.
       -H meia garrafa -disse com alegria.
       Rodeou-me com um brao e me apoiou sobre seu ombro. Estava razoavelmente quente baixo tas capas. Sua pele tinha um aroma quente e salgado e no pude resistir a pr meus lbios no oco de sua garganta.
       -Ah! -disse, estremecido-. No faa isso!
       -Voc no gosta?
       -No, eu no gosto! Como poderia me gostar de? Faz-me sentir um formigamento na pele.
       -Bom, pois eu gosto -protestei.
       Olhou-me divertido.
       -Voc gosta?
       -Sim -assegurei-lhe-. eu adoraria que me mordesse o pescoo.
       Entrecerr os olhos com gesto de dvida. Logo me moveu a cabea, passou-me a lngua pela garganta e brandamente me mordiscou o pescoo.
       -Sua boca era clida e suave e, aprovasse ou no o que estava fazendo, o fazia terrivelmente bem.                    
       -Oooh! -pinjente e me estremeci de prazer.
       Em um momento dado tive a estranha sensao de que algum nos vigiava. Incorporei-me apoiada sobre as mos e olhei atravs da tela de folhas. No vi nada.
       Jamie grunhiu.
       -O que acontece? por que pra?
       -Pareceu-me que tinha ouvido algo -pinjente e ento ouvi uma risada diretamente em cima de minha cabea.
       Dava-me a volta entre as folhas e os ramos de pinheiro enquanto Jamie amaldioava e procurava sua pistola.
       Do topo da rocha vrias cabeas sorridentes nos espiavam. Eram Ian e quatro companheiros da Anna Ooka. Os ndios riam como se tivessem visto algo incrivelmente gracioso.
       -Que diabos est fazendo aqui, Ian?
       -Voltava para casa para passar o Natal com vs, tio -disse Ian com um sorriso zombador.
       Jamie olhou a seu sobrinho com marcado desgosto.
       -Natal -disse-. Ora, farsante.
       
       O alce se congelou durante a noite. Seus olhos cristalizados me produziram calafrios, no por sua morte, mas sim pela idia de que Jamie tambm teria podido morrer do mesmo modo. Ento este episdio se titulou "Escocs morto na neve", em lugar de "Alce congelado entre ndios discutindo".
       A discusso terminou de forma satisfatria. Ian me informou que tinham decidido retornar a Anna Ooka mas que nos ajudariam a chegar at casa em troca de compartilhar a carne do alce.
       Tiraram-lhe as vsceras, cortaram-lhe a cabea para aliviar o peso e dois dos homens penduraram o corpo de barriga para baixo com as patas atadas. Jamie os observava sombrio, era evidente que pensava que foram dar o mesmo tratamento. Mas Ian lhe assegurou que o levariam em um rastro. Viajavam a p mas tinham uma mula para carregar as peles.
       No caminho me lembrei do misterioso grupo de ndios e me aproximei do Ian.
       -Ian, justo antes de que voc e seus amigos nos encontrassem vimos uns ndios com um Sacerdote jesuta. Acredito que no eram da Anna Ooka. Tem idia dos quais poderiam ser?
       -Sim, tia. Sei tudo sobre eles. Estvamo-los seguindo quando lhes encontramos.
       Aqueles ndios, disse-me, eram mohawk que vinham do norte. Os tuscarora tinham sido adotados pelos iroqueses uns cinqenta anos atrs, tinham uma boa relao com os mohawk e se faziam visitas peridicas, to formais como informais. Agora uma partida de jovens mohawk ia em busca de algemas.
       -Uma mulher deve pertencer ao cl adequado -explicou Ian-. Se estiver no cl equivocado no pode casar-se.
       -Como os MacDonald e os Campbell? -interveio Jamie interessado.
       -Estraga, parecido -disse Ian com um sorriso-. Por isso levam o sacerdote com eles. Se encontrarem mulheres se casaro imediatamente e no tero que dormir em uma cama fria durante a volta.
       -Ento, so cristos?
       Ian se encolheu de ombros.
       -Alguns. O jesuta est com eles faz bastante tempo e muitos fures se converteram. Mas no tantos mohawk. 
       -Estiveram na Anna Ooka? -perguntei com curiosidade-, por que os seguiam voc e seus amigos?
       Ian soprou com desprezo.
       -Podem ser aliados, tia, mas isso no significa que Nacognaweto e seus homens confiem neles. Inclusive as outras naes da liga iroquesa tm medo dos mohawk, cristos ou no.
       
       Era perto do pr-do-sol quando avistamos a cabana. Tinha frio e estava cansada mas meu corao se animou ao ver nossa pequena propriedade. Uma das mulas, uma pequena criatura cinza chamada Clarence nos viu e zurrou entusiasmada, contagiando aos cavalos, ansiosos de receber comida.
       -Os cavalos esto bem -disse Jamie, mais preocupado pelo bem-estar de quo animais eu, que s desejava um pouco de calor e comida.   
       Convidamos aos amigos do Ian mas no aceitaram, deixaram ao Jamie na porta e se desvaneceram rapidamente para continuar a perseguio dos mohawk.
       -No gostam de ficar em casa de pessoas brancas -explicou Ian-. Dizem que cheiramos mau.
       -Seriamente? -pinjente, recordando ao ancio que tinha conhecido na Anna Ooka, que cheirava como se fora talher de graxa de urso.
        como dizer que o morto se assusta do degolado.
       
       Mais tarde, j com uns goles de usque no corpo e em nossa prpria cama, escutava os roncos pacficos do Ian e observava as chamas do fogo.
       - bom estar em casa outra vez -pinjente.
       --o -suspirou Jaime e me aproximou mais a ele-. Tive uns sonhos muito estranhos dormindo com aquele frio.
       -Sim? O que sonhou?
       -Toda classe de coisas. -Parecia um pouco envergonhado-. Sonhei com a Brianna uma e outra vez.
       -Srio? -disse com assombro, pois eu tambm tinha sonhado com a Brianna em nosso refgio gelado.  
       -Estava-me perguntando... -Jamie vacilou um momento-, Tem alguma marca de nascimento? E se a tem, havia-me isso dito?
       -Tem-na mas no  visvel -pinjente lentamente enquanto pensava-. No acredito que lhe haja isso dito. Passaram anos at que eu a notei. ...
       Sua mo me apertou o ombro para que me calasse.
       - uma pequena marca cor castanha, do tamanho de um diamante e justo debaixo de sua orelha esquerda.  assim? 
       -Sim. -Na cama fazia calor, mas um calafrio na nuca me fez estremecer-. Viu-a em seu sonho?
       -Dava-lhe um beijo sobre ela -respondeu brandamente.
       
       22
       O resplendor de uma antiga chama
       
       Oxford, setembro de 1970
       
       -Ai, joder. -Roger tinha permanecido sobre aquela pgina at que as letras perderam seu significado, convertendo-se em ininteligveis desenhos-. Maldita seja! -exclamou.
       inclinou-se sobre o livro cobrindo-o com os antebraos e com os olhos fechados. sentia-se chateado e as Palmas de suas mos estavam fritem e suadas. Por ltimo, depois de tragar o sabor amargo que sentia na garganta, olhou outra vez. Ainda estava ali. Uma pequena notcia Aparecida em um peridico impresso em 13 de fevereiro de 1776 na colnia norte-americana da Carolina do Norte, na vila do Wilmington.
       Com dor recebemos a notcia da morte do James MacKenzie Fraser e sua esposa, Claire Fraser, a conseqncia de um incndio que destruiu sua casa na Colina do Fraser a noite de 21 de janeiro passado. O senhor Fraser, sobrinho do defunto Hctor Cameron da plantao do River Run, tinha nascido no Broch Tuarach, Esccia. Era muito conhecido e profundamente respeitado na colnia; no deixa filhos.
       Mas os houve.
       Roger tratou de aferrar-se a tnue esperana de que no fossem eles. depois de tudo. James Fraser era um nome muito comum. Mas no James MacKenzie Fraser, com uma esposa chamada Claire e nascidos no Broch Tuarach, Esccia.
       assim, Claire o tinha encontrado. Tinha encontrado a seu galante highlander e desfrutado, ao menos, uns anos com ele. Esperava que tivessem sido bons. Claire Randall lhe tinha gostado de muito; no, isso era pouco; para ser sincero tinha que dizer que a tinha querido e lhe tinha desejado to bem como a sua filha.
       Mais que isso. Tinha desejado que encontrasse ao Jamie Fraser e que fora feliz com ele. Sab-lo, ou mais exatamente, a esperana de que assim tivesse sido, era um pequeno talism para ele, um testemunho de que o amor duradouro era possvel, um amor to forte para suportar separao e penrias, o bastante forte para sobreviver ao tempo. Mas toda carne  mortal e nenhum amor pode superar esse fato.
       agarrou-se ao bordo da mesa tratando de recuperar o controle. Tolo, disse-se. sentia-se to necessitado como depois da morte do reverendo, como se se tivesse ficado de novo rfo.
       No podia dizer-lhe ao Bri, no podia. Isto supunha para ele um novo golpe. Ela conhecia o risco,  obvio, mas... no, nunca se tivesse imaginado algo assim.
       A impresso comeava a atenuar-se um pouco, mas a dor se instalou no fundo de seu estmago como uma lcera. Era um intelectual e filho de um erudito. Tinha crescido rodeado de livros e desde sua infncia estava convencido de que a letra escrita era sagrada. sentiu-se como um assassino quando tirou o canivete e o abriu, olhando de esguelha para assegurar-se de que ningum o observava.
       Atuava por instinto, como o homem que cobre os corpos depois de um acidente para tampar os rastros do desastre embora a tragdia seja impossvel de tampar. Com a folha arranco escondido em seu bolso saiu da biblioteca e caminhou baixo a chuva pelas ruas de Oxford.
       O passeio lhe tranqilizou e pde pensar racionalmente outra vez, deixar seus prprios sentimentos a um lado e planejar o que devia fazer para proteger a Brianna e lhe evitar uma dor muito mais profundo de que sentia ele.
       Tinha controlado a informao bibliogrfica do livro. Publicado em 1906 por uma pequena editorial inglesa, no era fcil de conseguir, embora Brianna podia encontr-lo por seus prprios meios. Tampouco era uma fonte lgica onde consultar a classe de informao que procurava ela, pois se titulava Cantos e baladas do sculo XVIII. Mas sabia bem que a curiosidade do historiador pode conduzir a lugares inesperados.
       No havia forma de assegurar-se de que Brianna no chegasse a ver um exemplar do livro; podia ser o nico que ficava ou podiam existir centenas de exemplares distribudos pelas bibliotecas dos Estados Unidos, atuando como bombas relgio.
       A dor de seu estmago piorava. Estava empapado e congelado. Em seu interior, um novo pensamento lhe produziu um intenso calafrio. Se Brianna o descobria, o que faria?
       sentiria-se destroada, sacudida pela dor. Mas e depois? Ele estava convencido de que as coisas do passado no podiam trocar-se; tudo o que Claire lhe tinha contado lhe tinha feito estar convencido disso. Claire e Jamie Fraser trataram de evitar a matana do Culloden sem nenhum resultado.
       Ela tinha tratado de salvar a seu futuro marido, Frank, salvando a seu antepassado Jack Randall e tinha fracassado, mas descobriu que Jack no tinha sido o antepassado do Frank, s se tinha casado com a jovem grvida de seu irmo para legitimar assim  criatura depois da morte de este.
       No, o passado podia retorcer-se como uma serpente, mas no podia trocar-se. Entretanto, no estava seguro de que Brianna compartilhasse sua convico.
       "Como se pode estar de luto por um viajante do tempo?", tinha-lhe perguntado Brianna. Se lhe mostrava a notcia do livro poderia chorar por eles. O saber o a danificaria terrivelmente, mas se curaria e poderia deixar atrs o passado. Se no fora... se no fora pelas pedras do Craigh na Dun. O crculo de pedras e a aterradora possibilidade que representava. Claire tinha passado atravs delas dois anos antes, na antiga festa do fogo do Samhain, o primeiro dia de novembro.
       Roger se estremeceu e no pelo trio. Cada vez que pensava nisso o plo da nuca lhe arrepiava. Tinha sido uma manh clara de um outono aprazvel. Era a madrugada da festa de Todos os Santos e nada turvava a paz da colina coberta de erva, onde o crculo de pedras permanecia vigilante. Nada at que Claire tocou a grande pedra gretada e se desvaneceu para o passado. Aquele dia, a terra pareceu desintegrar-se baixo seus ps e o ar o arrastou com um rugido que ressonou em sua cabea como um caonazo. Tinha-lhe cegado uma rajada de luz a que seguiu uma profunda escurido.
       Em um ato reflito tinha pego a mo da Brianna e a tinha apertado. Foi como se lhe atirassem gua geada desde trezentos metros de altura, a vertigem foi to terrvel e a impresso to intensa que no pde sentir outra coisa. Cego e surdo, privado de seus sentidos, teve dois ltimos pensamentos: "Estou-me morrendo -pensou com calma e logo-: No a solte".
       O sol do amanhecer tinha esboado um brilhante caminho atravs da greta pela que tinha passado Claire. Quando finalmente Roger levantou a cabea, o sol do entardecer brilhava com tons dourados e lavanda detrs da pedra, negra agora contra o cu brilhante.
       Estava em cima de Brianna, protegendo-a com seu corpo.
       A jovem estava inconsciente mas respirava, com o rosto terrivelmente plido em contraste com o vermelho escuro de seu cabelo. Era intil tentar arrast-la at o carro. Brianna, digna filha de seu pai, media quase metro oitenta, uns poucos centmetros menos que Roger.
       ficou com a cabea da jovem apoiada sobre suas pernas, tiritando e lhe acariciando a cara at que  posta do sol Brianna abriu os olhos azuis e escuros como o cu e sussurrou:
       -foi-se?
       -Tudo foi bem -tinha sussurrado Roger como resposta, enquanto lhe beijava a frente-. Tudo foi bem, eu te cuidarei.
       E o dizia a srio. Mas como?
       
       J tinha escurecido quando retornou a sua habitao. tirou-se a roupa molhada e ficou nu, com a toalha na mo, contemplando seu escritrio e a caixa de madeira onde guardava as cartas da Brianna. Faria algo para lhe evitar essa dor. E faria muito mais para salvar a da ameaa das pedras.
       Claire havia tornado atrs, esperava, desde 1968 a 1766 e tinha morrido em 1776. Agora estavam em 1970. Uma pessoa que viajasse agora poderia chegar em 1768. Haveria tempo. Isso era o pior de tudo, que haveria tempo.
       Se Brianna pensasse como ele ou se a pudesse convencer de que o passado no pode trocar-se, poderia viver durante os prximos sete anos, sabendo que a janela da oportunidade se estava fechando, que sua nica possibilidade de conhecer seu pai e de ver de novo a sua me desaparecia dia detrs dia? Uma coisa era deix-la ir saber onde estava ou o que lhe tinha acontecido e outra muito distinta era sab-lo explicitamente e no fazer nada por evit-lo.
       Conhecia a Brianna desde fazia mais de dois anos, embora tinham estado juntos s uns poucos meses. Entretanto, conheciam-se muito em alguns aspectos, Como no ia ser assim, depois de compartilhar tal experincia? Tambm estavam as cartas e as breves frias que lhe deixavam com uma mescla de encantamento e frustrao.
       Sim, conhecia a Brianna. Era tranqila mas possua uma feroz determinao que no a deixaria render-se ante a dor sem antes lutar. E, embora era cautelosa, uma vez que tinha decidido algo atuava com horrvel diligencia. Se decidia arriscar-se a fazer a viagem, no poderia det-la. O nico que lhe aterrorizava mais ainda era pensar que podia perder a Brianna antes de hav-la tido de verdade. Nunca lhe tinha mentido. Mas enquanto a impresso e a dor se aplacavam lentamente, em sua mente se ia formando um plano.
       Uma carta podia faz-lo. Teria que ser um processo lento de sugesto e amvel disuasin. Pensou que no seria difcil, alm do relatrio sobre o incndio da imprensa do Fraser no Edimburgo, no tinha encontrado nada em um ano de busca em Ardia. Ao pensar nas chamas se estremeceu involuntariamente. Agora sabia por que tinham emigrado pouco depois, embora no tinha encontrado seus rastros nos registros dos navios que tinha investigado.
       Poderia lhe sugerir que j era hora de abandonar. Deixar que o passado descansasse e que os vivos enterrem aos mortos.
       Seguir procurando poderia converter-se em uma obsesso. Com muita sutileza poderia lhe sugerir que no era saudvel olhar tanto para o passado, que tinha chegado o momento de olhar para o futuro. Que nenhum de seus pais estaria de acordo em que desperdiasse sua vida em uma busca intil.
       "Eu te cuidarei", havia-lhe dito e assim o pensava. Ocultar uma verdade perigosa era o mesmo que mentir? Bom, se era assim, ento mentiria. Dar o consentimento para fazer algo mau era um pecado, tinha ouvido de menino. Estava disposto a arriscar sua alma por ela e o faria de boa vontade.
       Procurou um lpis em uma gaveta. Logo se deteve, inclinou-se e colocou dois dedos no bolso das calas molhadas. A folha estava enrugada e empapada, quase destruda. Com mo firme a rompeu em pedacinhos, sem lhe importar o frio suor que corria por sua cara.
       
       23
       A caveira debaixo da casca
       
       Havia- dito ao Jamie que no me importava viver longe da civilizao. Onde houvesse gente haveria trabalho para uma curadora.
       Duncan tinha completo com seu encargo e retornou na primavera de 1768 com oito homens que tinham estado no Ardsmuir. Tinham chegado com suas famlias, preparados para instalar-se na Colina do Fraser, como agora chamavam o lugar. O assentamento contava j com umas trinta pessoas, por isso a necessidade de meus servios se fez imediata para suturar feridas e curar febres, abrir fornculos e raspar gengivas infectadas. Duas das mulheres estavam grvidas e tive a alegria de ajudar a nascer a duas saudveis criaturas, um menino e uma menina, ambos a comeos da primavera.
       Minha fama (se se pode chamar assim) como curadora, muito em breve se estendeu fora de nossa pequena colnia e me encontrei requerida desde lugares cada vez mais longnquos. Atendi enfermidades em granjas isoladas, disseminadas em cinqenta quilmetros  redonda de um terreno montanhoso. Tambm ia alguma vez com o Ian at a Anna Ooka, para ver o Nayawenne e retornar com cestas e potes cheios de ervas que me podiam resultar teis.
       Ao princpio Jamie tinha insistido em que ele ou Ian acompanhariam aos lugares mais afastados, mas muito em breve ficou claro que nenhum dos dois podia apartar-se das tarefas da granja. Assim que cada vez mais freqentemente ia sozinha quando algum desconhecido aparecia sbitamente no ptio de entrada perguntando por uma curadora ou uma parteira.
       Nunca pedia que me pagassem, mas sempre me ofereciam algo e como fomos pobres, todo nos vnia bem.
       Meus pacientes provinham de vrios lugares e muitos no falavam nem ingls nem francs. Encontrava-me com alemes luteranos, quaisquer, escoceses e irlandeses e um grande assentamento de nativos da Moravia que falavam um peculiar dialeto europeu. Em geral me arrumava isso com um intrprete e no pior dos casos utilizava a linguagem dos gestos para me fazer entender.
       
       Agosto de 1768
       
       Estava congelada at os ossos. em que pese a meus esforos por conservar a capa bem apertada, o vento a separava de meu corpo e a fazia revoar, castigando a cabea do moo que caminhava a meu lado e me obrigando a me inclinar. A chuva era mais fria que a neve e antes de chegar ao arroio do Mueller j estava empapada.
       Tommy Mueller fixou a vista na corrente. Os ombros encurvados quase tocavam a asa do chapu que tinha metido at as orelhas. Pude ver a dvida em toda a atitude de seu corpo e me inclinei lhe gritando na orelha:
       -Fique aqui!
       Sacudiu a cabea me dizendo algo que no pude ouvir.
       -Volta! -gritei.
       O moo assinalou com energia a granja e estirou a mo para agarrar as rdeas de meu cavalo. Era evidente que pensava que era muito perigoso e pretendia que retornasse a sua casa e esperasse a que passasse a tormenta.
       A idia de ficar apanhada durante uma semana em uma casa com quatro habitaes v os dez Mueller nela foi suficiente para me impulsionar  imprudncia. Arranquei as rdeas das mos do Tommy e me dava a volta, o cavalo movia a cabea de um lado a outro, molesto pela chuva, e pisava com cuidado no barro escorregadio.
       Dirigi-me para a parte mais alta da borda, onde uma capa de grosas folhas facilitava o caminho, fiz um gesto ao Tommy para que se separasse do caminho e me inclinei, afundando os cotovelos na bolsa de cevada que levava na cadeira como pagamento pelos servios emprestados. O cavalo estava to ansioso como eu e samos como se nos atirssemos por um tobog. Depois de uma sacudida camos na gua geada e finalmente conseguimos sair, jorrando gua como um coador.
       Olhei para penhor e vi o Tommy Mueller ao outro lado com a boca aberta. No podia soltar as rdeas para saud-lo, assim que lhe fiz uma cerimoniosa inclinao de cabea, apertei os tales e pus rumo a casa.
       Tinha estado na cabana dos Mueller durante trs dias, me ocupando da Petronella, que com dezoito anos estava a ponto de dar a luz por primeira e ltima vez, segundo a jovem.
       Freddy, seu marido de dezessete anos, tinha tentado entrar na habitao ao segundo dia, mas recebeu tal srie de invectivas em alemo por parte da Petronella que teve que retornar ao refgio dos homens, com as orelhas tintas pela mortificao. Entretanto, poucas horas mais tarde o encontrei com aspecto rejuvenescido, ajoelhado ao lado da cama de sua esposa e com o rosto to branco como o lenol que cobria a sua filha recm-nascida.
       Contemplava a cabecita e olhava a sua esposa.
       -Ist sie nicht wunderschon? -disse brandamente Petronella.
       Freddy assentiu e logo apoiou a cabea em seu regao e comeou a chorar. Todas as mulheres sorriram com benevolncia e partiram a preparar a comida. Esta era uma das gratificaes das visitas aos Mueller. Esperava que Jamie e Ian, em minha ausncia, prepararam-se um pouco adequado para comer. Estvamos a finais do vero mas ainda no tinha chegado o tempo da colheita. Nas prateleiras da despensa ainda temamos queijo, pescado em salmoura e bolsas de farinha, milho, arroz, aveia, feijes e cevada.
       Jamie podia cozinhar o que caava; eu tinha dedicado meus melhores esforos para iniciar ao Ian nos mistrios da elaborao da aveia; mas sendo homens suspeitava que no foram se incomodar e acabariam comendo carne seca e cebolas crudas.
       O vento se acalmou ao resguardo da colina, mas a chuva me golpeava com fora e o caminho era traioeiro.
       Notava o desconforto do cavalo e como suas patas escorregavam a cada passo.
       -Bom menino -disse em tom conciliador-. Segue assim,  um bom moo.
       As orelhas do cavalo apenas se moveram e seguiu com a cabea encurvada e pisando com cuidado.
       O cavalo no tinha nome, bom, em realidade sim o tinha mas eu no o conhecia. O homem que o tinha vendido ao Jamie tinha dado um nome alemo que, segundo Jamie, no era apropriado para o cavalo de uma dama. Pensava que seu verdadeiro nome se revelaria com o tempo.
       Pouco depois se deteve por razes bvias. Uma correnteza que baixava a colina cobria o atalho. Permaneci imvel e jorrando gua. No havia caminho. A minha direita a colina se elevava quase perpendicularmente e  esquerda se inclinava em forma to escarpada que baixar tivesse sido um suicdio. Amaldioando pelo baixo fiz retroceder ao cavalo sem nome.
       Se no tivesse sido pela enchente do arroio teria retornado com os Mueller, deixando que Jamie e Ian as arrumassem sozinhos por um tempo. Mas agora no tinha eleio: ou encontrava outro caminho para voltar para casa ou ficava aqui e me afogava.
       Encontrei um lugar onde a ladeira da colina deixava um pequeno passo, uma depresso entre dois "chifres" de granito. De ali via os contrafortes e o oco azul do vale. Ao outro lado, as nuvens ocultavam os topos das montanhas, a chuva e a escurido se interrompiam por ocasionais relmpagos.
       O passo por este lado da colina era bom, rochoso mas no muito ngreme. Tomei nota da localizao de um grande arbusto de amoras, como referncia futura, mas no me detive. Se tinha sorte estaria em casa ao anoitecer.
       Para me distrair das gotas frite que caam por meu pescoo, comecei a fazer um inventrio mental de minha despensa. O que faria para jantar quando chegasse a casa?
       Sobressaltei-me; face ao capuz e meu cabelo abundante, as gotas de chuva me golpeavam como pedras. Ento me dava conta de que granizaba. O cavalo sacudiu a cabea em um esforo por escapar das pedras; Atirei das rdeas apressadamente e o levei baixo um grande castanho. As folhas nos protegeriam.                                         
       -Bem. -Com certa dificuldade d uma palmada ao cavalo para tranqiliz-lo-. Devagar. Estaremos bem sempre que no nos caia um raio.
       Essa frase deveu ter refrescado a memria de algum. Uma silenciosa forquilha de luz percorreu o cu escuro desde alm de Roam Mountain. Poucos segundos depois o som de um trovo agitou as folhas que nos protegiam. Outros raios atravessaram o cu em zonas mais afastadas, seguidos do retumbar dos troves. Tratava de acalmar ao cavalo quando se repetiu outra vez. Um raio iluminou a colina escura e me deixou ver a silhueta das orelhas erguidas do cavalo. Juraria que a terra tremeu quando o cavalo deixou escapar um agudo relincho e atirou das rdeas.
       No tive conscincia da queda. Passei de estar atirando das rdeas, com o cavalo apavorado e tratando de escapar, a ver-me tiragem de costas tratando de respirar.
       Os ecos do impacto percorreram meu corpo. Ofegava e tremia. Tratei de ficar aquieta com os olhos fechados, me concentrando na respirao e tratando de fazer um inventrio de meus maus.
       A chuva caa sobre minha cara, que estava to intumescida como minhas mos. Mas meus braos se moviam e podia respirar um pouco melhor. A perna esquerda me doa mas no parecia nada srio, s uma raspadura no joelho. Rodei para um lado, dificultada pelo peso da gua que tinha absorvido minha roupa, que por sua grossura me tinha salvado de males maiores.
       Ento ouvi um relincho audvel por cima do rugido do trovo. Olhei fazia acima e vi a cabea do cavalo por cima de um grande arbusto,
       Tnhamos estado parados ao bordo de um pequeno precipcio, oculto pelos matagais. O pnico tinha levado a cavalo at o bordo, mas sentiu o perigo e se deteve, no sem antes me deixar cair.
       -Maldito descarado! -exclamei. Perguntei-me se o nome em alemo no quereria dizer isso-. Podia-me ter quebrado o pescoo!
       Limpei-me o barro da cara e olhei procurando uma maneira de subir. No havia nenhum caminho.
       Permaneci quase imvel tratando de pensar. Ningum sabia onde estava, nem sequer eu, e ningum me buscaria at passado um tempo, Jamie pensaria que estava ainda com os Mueller por causa da chuva, estes no tinham motivos para duvidar de minha chegada a casa e, se os tinham, tampouco podiam me buscar por causa das inundaes. Quando algum pudesse faz-lo tudo meus rastros estariam apagados.
       No estava ferida, isso j era algo. Mas estava sem cavalo, sozinha, sem comida, perdida e empapada. Do nico que estava segura era de que no morreria de sede.
       Ainda chovia e as gotas rodavam por mim nariz com montona regularidade. Coxeando por meu joelho golpeado e amaldioando, baixei pela ladeira at o bordo do arroio. No havia mais que rochas molhadas. Entretanto, a certa distncia, vi algo que podia me oferecer alguma possibilidade de refgio.
       Um grande cedro vermelho tinha cansado ao outro lado do arroio e se via o enorme matagal de suas razes. A cavidade que tinha deixado no seria um amparo total, mas parecia melhor que estar a cu aberto ou agachada entre os arbustos. No me parei a pensar que aquele refgio tambm podia atrair a ursos, pumas e outros animais selvagens. Por sorte no foi assim.
       Era um espao de metro e meio de comprimento pela mesma de largura, escuro, molhado e frio. O teto o formavam as grandes razes mescladas com a terra arenosa. Parecia slido e no cho a terra estava mida mas no se formou barro.
       Esgotada, arrastei-me at o fundo, coloquei meus sapatos molhados a um lado e pus-se a dormir.
       Sonhei que estava dando a luz. No sentia dor, via sair a cabea como se estivesse entre minhas prprias coxas; parteira e me ao mesmo tempo. Agarrei  criatura nua entre meus braos, ainda manchada com o sangue das duas, e a entreguei a seu pai. A dava ao Frank, mas foi Jamie quem a recebeu e disse " preciosa".
       Ento despertei e me voltei a dormir procurando algo que tinha perdido. Acordada e dormida, perseguida atravs dos bosques por algum desconhecido e temvel. Acordada e dormida, com uma faca na mo, vermelho pelo sangue, mas de quem, no sabia.
       Despertou um aroma de queimado e me sentei de repente. A chuva tinha parado e supus que me tinha depenado o silncio. O aroma de fumaa ainda persistia em meu nariz, assim no era parte do sonho.
       Apareci a cabea com cautela, como um caracol saindo de sua concha. O cu era de uma cor cinza prpura, com raias alaranjadas sobre as montanhas. A queda do sol estava prxima e a escurido chegava aos vales.
       Sa engatinhando e olhei ao redor. O riacho tinha crescido e o rudo da corrente era o nico som. Frente a mim havia uma pequena colina com um grande lamo balsmico no topo, a fonte da fumaa. A rvore tinha sido golpeado por um raio. Uma metade tinha ainda as folhas verdes, mas a outra metade estava enegrecida. Farrapos de fumaa branca subiam como fantasmas e vermelhas linhas de fogo brilhavam detrs da casca negra.
       Procurei meus sapatos mas no os pude encontrar na escurido. Aproximei-me da rvore procurando calor, maravilhoso calor. Durante um momento nem sequer tentei pensar, simplesmente permaneci ali, sentindo que minha pele geada se esquentava. Mas quando o sangue comeou a circular comearam a me doer os golpes e tambm apareceu a fome. Fazia muito que tinha tomado o caf da manh.
       A escurido aumentava e seguia perdida. Olhei para a colina oposto, no havia rastro do maldito cavalo.
       -Traidor -murmurei-. Provavelmente se foi com uma manada de alces.
       Minhas roupas estavam muitos secas mas a temperatura baixava, ia ser uma fria noite. O que seria melhor: passar a noite perto da rvore queimada ou retornar a meu esconderijo enquanto ainda se pudesse ver?
       Decidiu-me um rudo a minhas costas. Agora a rvore se esfriou. No havia fogo para me proteger dos caadores noturnos. Sem fogo e sem armas, minha nica defesa era ficar escondida durante a noite, como os coelhos e os ratos. De todos os modos tinha que voltar a procurar meus sapatos.
       Sem muitas vontades de me apartar dos ltimos restos de calor, retornei at a rvore cansada. Ao me agachar vi uma mancha plida na terra escura do rinco. Estirei a mo e no encontrei o tato do couro de meus mocasines, a no ser algo duro e suave.
       Meu instinto tinha detectado a realidade daquele objeto antes de que meu crebro encontrasse a palavra e apartei a mo.
       Fiquei sentada com o corao acelerado. Ento a curiosidade pde mais que o temor atvico e comecei a escavar.
       Era uma caveira completa, com a mandbula inferior ainda sujeita por restos de ligamentos. Conservava tambm um fragmento de vrtebra rota no comeo do pescoo.
       Como tinha chegado at ali? Meu instinto respondeu: violncia, embora meu crebro no estava muito longe daquela idia. Um explorador podia morrer de uma enfermidade, de fome ou por mltiplos perigos (tratei de passar por cima os rudos de meu estmago), mas no terminaria enterrado baixo uma rvore.
       Os cherokee e os tuscarora enterravam a seus mortos, mas no em um simples oco e a partes. Borde-os comprimidos da vrtebra rota revelavam a triste historia de seu proprietrio.
       -Algum te tinha antipatia, no  certo? -pinjente-. Arrancou-te a cabea.
       Perguntava-me se o resto estaria tambm ali. Passei-me uma mo pela cara, pensando; depois de tudo no tinha nada melhor que fazer, no ia a nenhum site antes do amanhecer e no tinha vontades de dormir detrs descobrir a meu companheiro.
       Deixei a caveira a um lado e comecei a cavar. A terra arenosa era suave e resultava fcil escavar nela, mas depois de uns poucos minutos os dedos e os ndulos me esfolaram; arrastei-me procurando um pau para continuar, mas choquei com algo duro; pensei que no podia ser um osso, nem tampouco algo metlico. Uma pedra, decidi, tocando aquela forma ovalada. Uma pedra do rio? No, a superfcie era muito suave, mas com algum relevo, embora ao tato no podia saber o que era.
       Segui cavando sem xito. Guardei-me a pedra no bolso, sentei-me sobre os tales e me esfreguei as mos na saia. Ao menos o exerccio me tinha feito entrar em calor. Agarrei a caveira. Embora fora horrvel me fazia companhia, uma distrao para to difcil situao. ia ser uma larga noite.
       Perguntava-me por que tinha pensado que a caveira pertencia a um ndio e no a um europeu; possivelmente se devia  pedra.
       Havia uma luz no topo. Um pequeno resplendor que ia crescendo. Ao princpio pensei que era a rvore, alguma brasa que se reavivou, mas naquele momento comeou a mover-se e foi descendendo lentamente para mim, flutuando justo por cima dos arbustos.
       Levantei-me, me dando conta de que no levava os sapatos. Busquei-os com desespero mas no estavam ali. Agarrei a caveira e fiquei descala, frente  luz.
       Observei como se aproximava. Aterrei-me  caveira. No era exatamente uma arma, mas tampouco tema muito claro que o que se aproximava pudesse ser detido por facas ou pistolas.
       No era somente o estado do tempo o que fazia extremamente improvvel que algum sasse a passear pelo bosque com uma tocha acesa. A luz no ardia como uma tocha de pinheiro ou uma lanterna de azeite. No titilava, tinha um brilho firme e constante. aproximava-se da velocidade de algum caminhando. Eu tinha visto antes o fogo do Santelmo, no mar. Embora tambm era misterioso, seu chiado azul aquoso no se parecia em nada  plida luz que se aproximava.
       No tinha cor nem brilhos, era s um brilho espectral. Quando a gente do Cross Creek mencionava as luzes da montanha, chamavam-nas gs do pntano. "Ja! -disse-me-. Gs do pntano!"
       A luz se moveu entre uns arbustos e apareceu ante mim. No era gs do pntano. Era um homem alto vestido unicamente com um tanga, Levava o corpo pintado com raias vermelhas no peito, nos braos e nas pernas e o rosto todo de negro, do queixo at a frente. Seu cabelo estava engordurado e penteado em um penacho de que saam duas plumas de peru.
       Oculta na escurido de meu refgio no me podia ver. A tocha que levava o banhava com uma suave luz, iluminando seu peito e costas sem cabelo e escurecendo as rbitas de seus olhos. Mas ele sabia que eu estava ali. No me atrevi a me mover. Permaneceu a uns quatro metros e olhou diretamente  escurido onde me encontrava, como se fora pleno dia. No sei quanto tempo estive assim, at que me dava conta de que j no tinha medo.
       -O que quer? -pinjente, notando que tnhamos cercado uma espcie de comunicao sem palavras.
       Nada coerente passava entre ns, mas era evidente que algo passava.
       Respirei profundamente, sentindo de repente uma grande vitalidade. Terra e ar, pensei de repente, e tambm fogo e ar. E ali estava eu, entre todos os elementos e a sua merc.
       -O que quer? -perguntei outra vez, me sentindo indefesa- No posso fazer nada por voc. Sei que est a, posso v-lo. Mas isso  tudo.
       Nada se moveu nem se disseram palavras. Mas o pensamento se formou claramente em minha mente, com uma voz que no era a minha.
       "Isto  suficiente", disse.
       Sem pressa, deu-se a volta e partiu. Ao pouco tempo a luz de sua tocha desapareceu como se no tivesse existido nunca.
       -OH -pinjente um pouco desconcertada-. Meu deus.
       Tremiam-me as pernas e me sentei, protegendo com a saia a quase esquecida caveira. Permaneci assim durante um bom momento, mas no aconteceu nada mais.
       Tratava de encontrar um sentido ao acontecido, mas no havia nada que entender porque em realidade no tinha acontecido nada. Entretanto, estava segura de que ele tinha estado ali. A sensao de sua presena me dava um pouco de consolo, at que finalmente fiquei dormida sobre as folhas.
       Tive um sonho inquieto a causa da fria e a fome, uma procisso de imagens desarticuladas: rvores queimadas, ardendo como tochas. Jazia baixo a chuva com a garganta atalho e o sangue quente pulsando em meu peito representava um estranho consolo para minha carne geada. Meus dedos estavam intumescidos e incapazes de mover-se.
       Despertaram os batimentos do corao de meu corao. depois de um momento dormi outra vez e segui com meus sonhos. Os lobos uivavam cada vez mais perto. Um homem estava em p ao lado de uma rvore lhe sangrem e sobre sua cabea cortada se erguia uma crista de cabelo negro gordurento. Tinha olhos profundos e um sorriso fragmentado; o sangue que saa de seu peito brilhava mais que a da rvore. Os lobos continuavam aproximando-se, uivando e gemendo. Senti que meu brao me chocava contra algo mido e brando que logo esfregava minha cara. Abri os olhos. Uns grandes olhos amarelos me contemplavam; gritei e dava um golpe. O animal retrocedeu com um bufido. Despertei tremendo; j tinha amanhecido e a luz me permitiu ver a silhueta grande e negra de... de Cilindro.
       -Que diabos faz aqui?
       As grandes mos do Jamie me tiraram de meu esconderijo e me apalparam com ansiedade, procurando feridas.
       -Est bem? Maldita seja, Sassenach, est bem?
       -No -disse-. Sim.
       E comecei a chorar. No durou muito, foi a impresso do alvio. Tratei de explicar-lhe mas no me ouvia. Agarrou-me em seus braos para me levar at o arroio.
       -Vamos, te acalme -disse me abraando com fora-. Vale, mchridhe, j est a salvo.
       Ainda estava confundida pelo sonho e o frio. Sua voz me soava estranha e difcil de entender. Mas seu quente abrao era algo real.
       -Espera -pinjente-. Espera, esqueci-me. Tenho que...
       -Tio Jamie, olhe isto!
       Jamie se deu a volta sem deixar de me sujeitar. Ian estava na entrada do refgio com a caveira levantada.
       Senti que Jamie ficava rgido.
       -Sassenach, o que  isso?
       -Quem, deveria dizer -pinjente-. No sei. No deixe que Cilindro a agarre, no gostaria.
       Jamie me olhou franzindo o cenho.
       -Est segura de que est bem, Sassenach?
       -No. Tenho fritou e estou morta de fome. No havero trazido algo para comer, no? -perguntei ansiosa-. Mataria por uns ovos.
       -No -respondeu enquanto procurava em seu embornal-. No tive tempo de me preocupar com a comida, mas tenho um pouco de brandy. Toma, Sassenach, ir bem. -Arqueando uma sobrancelha acrescentou-: Poderia me dizer que diabos fazia em meio de um nada?
       Sentei-me em uma rocha e bebi agradecida. Jamie permaneceu com uma mo apoiada sobre meu ombro.
       -Quanto tempo leva aqui, Sassenach?
       -Toda a noite -respondi, tremendo outra vez-. Desde antes do meio-dia, quando esse maldito cavalo, cujo nome deveria ser Judas, atirou-me desde essa rocha. Mas como diabos me encontraste? -perguntei-. Algum dos Mueller me seguiu Y...? No me diga que esse maldito cavalo lhes trouxe at aqui, como se fora Rin-tin-tin ou Lassie.
       -Rin-tin-tin? Lassie? Parecem nomes de vacas -disse Ian-, mas foi Cilindro, no o cavalo, quem nos trouxe at aqui.
       Assinalou ao co com orgulho e este te devolveu o olhar com dignidade, como se todos os dias fizesse coisas semelhantes.
       -Mas se no viram o cavalo -perguntei confundida-, como souberam que me tinha ido de casa dos Mueller? E como pde Cilindro...? -detive-me o ver que os dois homens se olhavam.
       Ian se encolheu de ombros e assentiu olhando ao Jamie. Este se agachou e levantou o bordo de minhas saias para tocar meus ps descalos com suas grandes mos.
       -Tem os ps gelados, Sassenach -disse com calma-. Onde perdeste os sapatos?
       -por ali -pinjente assinalando a rvore cansada-. Ainda devem estar. Tirei-me isso para cruzar o arroio, logo os pus ali e no os pude encontrar na escurido.
        -No esto, tia -disse Ian.
       Seu tom era to estranho que o olhei surpreendida.
       -No, no esto -disse Jamie com a cabea inclinada. E comeou a me explicar como tinham conseguido me encontrar-: Estava dormido quando enlouqueceu de repente. -Sem levantar a vista fez um gesto para Cilindro-. Ladrava e uivava enquanto golpeava a porta como se o Diabo estivesse fora.
       -Gritei-lhe e tratei de acalm-lo -interveio Ian-, mas no podia det-lo de maneira nenhuma.
       -Estava convencido de que tinha enlouquecido e tnia medo de que nos atacasse, assim que disse ao Ian que abrisse a porta para que sasse.
       Jamie se sentou sobre os tales e olhou meus ps com rosto preocupado.
       -Bom, e estava o Diabo fora? -perguntei com rabugice.
       Jamie sacudiu a cabea.
       -Procuramos por toda parte e no encontramos nada, salvo isto -procurou em seu embornal e tirou meus sapatos. Levantou a vista e me olhou-- Estavam no degrau da porta.
       Me arrepiou todo o plo do corpo. Levantei a garrafa e bebi o ltimo gole.
       -Cilindro saiu correndo como um galgo -disse Ian, continuando a histria-. Mas ao momento retornou e comeou a farejar seus sapatos e a gemer.
       Jamie me colocou os sapatos e pude ver o medo em seus olhos.
       -Acreditei que podia estar morta. Cinzenta -disse brandamente. Ian continuou, entusiasmado com a histria.
       -Meu inteligente co estava igual a quando cheira um coelho, assim que nos pusemos a roupa, apagamos o fogo e o seguimos. -Acariciou as orelhas de Cilindro com orgulhoso afeto-, E estava aqui!
       O brandy me fazia zumbir os ouvidos e me enjoava, mas conservava o suficiente sentido para me dar conta de que se Cilindro tinha seguido meus rastros... algum tinha caminhado com meus sapatos.
       -Viram algum pelo caminho? -perguntei.
       -No, ta-respondeu Ian, ficando de repente srio-, Voc viu algo?
       -Sim -respondi-, mas lhes direi isso mais tarde. Agora acredito que me converterei em cabaa. Retornemos a casa.
       
       Jamie havia trazido cavalos, mas era impossvel lhes fazer baixar at o terreno baixo, assim que nos vimos forados a passar pela borda do arroio e chapinhar pelas partes pouco profundas, para logo subir trabalhosamente por uma costa rochosa at o saliente onde estavam atados os cavalos. Por meu estado, Jamie e Ian tiveram que me levar como se fora um pacote. Em uma das paradas para descansar, Jamie tinha tratado de me fazer beber; queixei-me, porque em meu estado o excesso de lcool podia me provocar um desmaio.
       -Se te deprimir -disse- ser mais singelo carregar contigo.  como tirar um bezerro de um pntano.
       -Sinto muito -respondi.
       Fiquei tiragem no cho com os olhos fechados e com a esperana de no ter que vomitar. O cu se movia em uma direo e meu estmago na outra.
       -Fora, co! -disse Ian.
       Abri um olho para ver o que acontecia e vi o Ian apartando a Cilindro da caveira, que eu tinha insistido que trouxessem.
       -O que pensa fazer com o Prncipe Encantado? -perguntou Jamie, lanando um olhar crtica a minha aquisio. Logo me olhou sonriendo. Como te encontra, Sassenach?
       -Mejor-assegurei me incorporando.
       Ainda estava um pouco enjoada, mas o brandy me dava uma sensao prazenteira.
       -Suponho que deveramos lev-lo a casa e lhe dar crist sepultura, no?.
       Ian contemplou a caveira com dvidas.
       -No acredito que nos agradecesse isso, no deve ser cristo -disse com a vivido lembrana do homem que tinha visto no terreno baixo.
       Embora era certo que alguns ndios se converteram graas ao trabalho dos missionrios, aquele cavalheiro em particular, nu, com o rosto pintado e o cabelo cheio de plumas, tinha-me dado a impresso de que era to pago como parecia.
       Procurei em meu bolso com os dedos intumescidos.
       -Isto estava enterrado com ele -comentei quando consegui tirar a pedra.
       Tinha forma irregular e era da metade de! tamanho da palma de minha mo. Uma cara era arredondada e a outra plaina, nesta tinha gravado algo com forma de espiral. Mas no foi isso o que chamou a ateno do Jamie e Ian.
       -O que  isso? -perguntou Ian com temor.
       - uma opala endiabladamente grande -comentou Jamie. Logo me olhou-. Dizem que as opalas so pedras de m sorte, Sassenach.
       Pensei que brincava, mas parecia inseguro. Apesar de ser um homem cultivado e que tinha viajado muito, continuava tendo o esprito de um highlander carregado de supersties, embora no o demonstrasse freqentemente. "Ja -disse-me-, voc passou a noite com um fantasma e crie que ele  supersticioso?"
       -Tolices -disse com mais convico da que sentia.
       -Bom, no sempre do m sorte, tio Jamie -assinalou Ian-. Minha me tem um anel com uma pequena opala que lhe deixou sua me, muito mais pequeno que este! -Ian tocou a pedra com respeito-. Dizia que a opala tomava algo de seu dono. Quando uma opala tinha pertencido a uma boa pessoa, tudo ia bem e dava boa sorte. Mas se no...
       encolheu-se de ombros.
       -Ah, bom -disse Jamie e moveu a cabea em direo  caveira. Se pertenceu a este tipo no deu muita sorte.
       -Ao menos -assinalei-, sabemos que ningum o matou por essa pedra.
       -Talvez no a quiseram porque sabiam que lhes daria m sorte -sugeriu Ian-. Possivelmente deveramos deix-la, tia.
       Esfreguei-me o nariz e olhei ao Jamie.
       - provvel que tenha valor -pinjente.
       -Ah.
       Os dois se olharam um momento, lutando entre a superstio e o pragmatismo.
       -Bom -disse finalmente Jamie-. Suponho que no nos passar nada por guard-la durante um tempo. -Sorriu-, Me deixe lev-la, Sassenach; se me cair um raio pode atir-la.
       -A ensinarei ao Nayawenne -pinjente-. Ao menos saber o que significa a gravura.
       -Boa idia, Sassenach -aprovou Jamie-. E se o destino final do Prncipe Encantado teve algo que ver com ela, pode guardar-lhe com minhas bnes. -Assinalou um grupo de arces-. Os cavalos esto ali. Pode caminhar, Sassenach?
       -No estou segura. Parece-me que estou algo bbada.
       -No, tia -disse Ian-. Meu pai diz que nunca est bbado enquanto possa te ter em p.
       Jamie riu e se colocou a capa no ombro.
       -Meu pai estava acostumado a dizer que um no estava bbado se podia encontrar o traseiro com as duas mos.
       Olhou meu traseiro, mas o pensou melhor e no disse nada mais.
       Ian lanou uma gargalhada, logo tossiu e ficou srio.
       -Ah, bom. No est muito longe, tia. Est segura de que no pode caminhar?
       -Eu no vou levar a de novo, isso lhe asseguro isso -apressou-se a responder Jamie-. No quero me romper as costas.
       -Agarrou a caveira com a ponta dos dedos e a colocou sobre minha saia-. Espera aqui com seu amigo, Sassenach. Ian e eu vamos procurar os cavalos.
       
       Chegamos  Colina do Fraser a primeira hora da tarde. Tinha passado frio, tinha-me molhado e no tinha comido desde fazia quase dois dias; sentia-me enjoada, estado que tinha aumentado pelo brandy e os esforos por explicar os sucessos da noite anterior ao Jamie e ao Ian.  luz do dia e em meu estado todo aquilo parecia irreal. portanto, quando chegamos ao claro acreditei que a fumaa da chamin era uma alucinao, at que o aroma de madeira queimada chegou a meu nariz.
       -Acreditei que havia dito que apagou o fogo -disse ao Jamie-. Por sorte no queimou a casa.
       -Fiz-o -respondeu-. H algum. Conhece o cavalo, Ian?
       Ian se iou nos estribos para olhar.
       -Caramba,  o malvado animal da tia! -disse surpreso-. E um grande pintalgado est com ele!
       O recm batizado Judas estava no curral, desensillado e em companhia de outro cavalo.
       -Sabe de quem ? -perguntei.
       -No, mas  um amigo -disse Jamie-. Deu de comer aos animais e ordenhou a cabra. Vamos, Sassenach. Meteremo-lhe na cama e tomar um ch.
       Tinham ouvido nossa chegada. abriu-se a porta da cabana e saiu Duncan Innes.
       -Ah! Est aqui, MAC Dubh. O que passou? cheguei esta manh... -Ento me viu e ficou plido de surpresa-. Claire! tiveste um acidente? Preocupei-me quando encontrei o cavalo com a caixa na cadeira.
       -Sim, tive um acidente, mas estou bem -pinjente tratando de me manter direita.
       - cama -disse Jamie com firmeza, me sustentando pelos braos-. Agora.
       -Primeiro um banho -respondi.
       -Sassenach, come e vete  cama. Pode te banhar amanh.
       -No. Quero gua quente.
       No tinha foras para discutir, mas estava decidida. No ia deitar me suja para ter que lavar os lenis depois.
       Jamie me olhou com fria e fez um gesto de resignao.
       -Ento, gua quente e uma panela -disse-. Ian, traz lenha e a d ao Duncan e te ocupe dos porcos. vou esfregar a sua tia.
       -Posso me esfregar sozinha!
       -Isso  o que voc te crie.
       Tinha razo, meus dedos estavam rgidos e teve que me despir. Sentir a gua quente em meus ps machucados foi algo maravilhoso. Cansada e meio bbada como estava, derretia-me enquanto Jamie me lavava da cabea aos ps.
       -Onde te fez isso, Sassenach? -disse, tocando meu joelho esquerda.
       -Bom... isso foi quando me ca do cavalo.
       -Poderia te haver quebrado o pescoo!
       -Isso pensei -pinjente fechando os olhos.
       -Teria que hav-lo pensado melhor, Sassenach, e no ter estado ali sozinha...
       -No pude evit-lo -pinjente abrindo os olhos-. O caminho estava alagado, tive que dar a volta.
       Olhou-me com fria, com os olhos como escuras gretas azuis.
       -Em primeiro lugar, no deveu deixar a casa dos Mueller com essa chuva! No tem bastante sentido comum para saber como foste encontrar o terreno?
       -Bom... Como ia ou seja? Alm disso...
       -te esteja aquieta! -ordenou-. No quero discutir contigo!.
       Levantei a vista para olh-lo. 
       -Que diabos quer? por que me grita? Eu no fiz nada mau!
       -No, no o fez -aceitou-. Mas me assustou muito, Sassenach, e tenho vontades de te arreganhar, merea-o ou no.
       -por que no me repreende em galico? -pinjente-. Acalmar-te e eu no entenderei quase nada.
       Soltou um bufido de desprezo e me inundou a cabea na gua.
       -Espero que no ponha malote por dormir  intemprie com a roupa molhada.
       -A roupa molhada e o frio no causam enfermidades -informei-lhe.
       Arqueou as sobrancelhas.
       -Ah, no?
       -No. J lhe hei isso dito antes. So os grmenes os que causam a enfermidade. Se no estive exposta a nenhum germe, no me porei doente.
       -Ah, grrrrmenes -disse com voz afetada-. Tem um bonito traseiro! Ento, por que h mais enfermidades no inverno que na primavera? Os grmenes se produzem pelo frio?
       -No exatamente.
       me sentindo absurdamente coibida, agarrei a colcha para me cobrir, mas Jamie me agarrou por brao e me empurrou para ele.
       -Vem -disse sem nenhuma necessidade.
       antes de que pudesse dizer nada, estava-me beijando.
       Quando me soltou quase me desabo.
       - cama -disse outra vez.
       -Mmm -respondi lhe demonstrando que no pensava ir sozinha.
       -No -disse tratando de afastar-se, mas no o soltei-. Meu pai me disse que nunca me aproveitasse de uma mulher que est mal por causa da bebida.
       -Mas eu no estou mau, estou melhor -assegurei-. Alm disso -Executei uma lenta contoro-. Acredito que disse que se a gente podia tocar o traseiro com as mos no estava bbado.
       Olhou-me surpreso.
       -Sinto ter que lhe dizer isso Sassenach, mas no  seu traseiro o que toucas, a no ser o meu.
       - igual -assegurei-lhe-. Estamos casados. Uma mesma carne, disse-o o sacerdote.
       Fez um ltimo intento.
       -No deveria comer algo? Deve estar morta de fome.
       -Mmm -pinjente. Escondi meu rosto em sua camisa e o mordi brandamente-. Esfomeada.
       
       -O que  isso? -perguntei, observando os plidos gros que flutuavam na superfcie do lquido. 
       Parecia um jarro cheio de vermes afogados.
       -Cevada -disse Ian, olhando com orgulho como se fora seu primeiro filho recm-nascido-. Preparei-a eu; tirei-a da bolsa que trouxe dos Mueller.
       -Muito obrigado -pinjente e tomei um gole com precauo.
       Pese ao aroma, no acreditava que o tivesse preparado em seu sapato-. Muito bom. Muito amvel, Ian.
       ficou avermelhado de satisfao.
       -No  nada. E h muito mais, tia. Ou prefere um pedao de queijo? Posso tirar as partes verdes.
       -No, no, assim est bem -pinjente rapidamente-, Ah... por que no sai e trficos de caar esquilos ou coelhos? Estou segura de que estarei bem para preparar o jantar.
       Sorriu e sua cara se iluminou.
       -Me alegro de ouvi-lo, tia -disse-. Deveria ter visto o que comamos enquanto voc no estava!
       Deixou-me recostada sobre os travesseiros, pensando no que podia fazer com o contedo do jarro. Jamie me tinha levado a cama sem majores protesta. Tinha-me deixado dormir para ir saudar o Duncan e lhe oferecer a hospitalidade da casa.
       A caveira estava sobre meu escritrio, ao lado de um vaso com flores e meu caderno. Isso me espabil. O parto que tinha atendido na granja do Mueller me parecia algo vago e longnquo, pensei que era melhor que anotasse os detalhes enquanto pudesse record-los.
       Sa da cama e me cambaleando cheguei at a chamin, onde derrubei o contedo do jarro na panela. Ian tinha preparado o suficiente para alimentar um regimento, sempre que fora de escoceses.
       A bolsa de cevada estava aberta. Tinha que pr o gro a secar ou se apodreceria. Mim joelho protestou um pouco enquanto ia procurar uma grande cesta e me ajoelhava para esparramar o gro mido.
       -Ento,  fcil de dirigir, Duncan? -A voz do Jaime me chegava claramente atravs da janela-  um bruto grande e forte, mas tem olhos  de bom.
       - um bom moo -disse Duncan, com uma inconfundvel nota de orgulho em sua voz-, E muito obediente. A senhorita Eu fez que seu caballerizo o escolhesse no mercado do Wilmington, disse-lhe que queria um cavalo que se dirigisse com uma s mo.
       -Mmm. Sim, bom,  uma adorvel criatura.
       Jamie tinha nascido sobre um cavalo e podia dirigi-los sem usar as mos. Mas Duncan era um pescador e no lhe faria notar sua inexperincia. Devia ser uma forma de assinalar algo mais. Duncan o captaria?
       - de ti de quem ela espera ajuda, MAC Dubh, e sabe bem.
       O tom do Duncan era seco. Tinha captado a insinuao do Jamie.
       -No hei dito o contrrio, Duncan.
       A voz do Jamie era tranqila.
       -Mmm.
       Sorri. Duncan era to bom como Jamie na arte escocesa da eloqncia silenciosa. Um som particular que indicava o ter entendido o insulto do Jamie ao lhe reprovar que aceitasse o cavalo da Yocasta. E o desejo de aceitar a desculpa pelo insulto.
       -Pensaste-o, ento? -Duncan trocou bruscamente de tema-. Ser Sinclair ou Geordie Chisholm? -Sem lhe dar tempo a responder, continuou falando de uma forma que deixava claro que j o havia dito antes-.  certo que Sinclair  tonelero, mas Geordie  um bom moo, muito trabalhador, e tem dois filhos pequenos. Sinclair  solteiro, assim no necessitar muito para instalar-se, mas...
       -Necessitar tornos e ferramentas, ferro e madeira -interrompeu Jaime-. Pode dormir em sua oficina,  certo, mas necessitar a oficina. E acredito que custar muito comprar tudo o que necessita. Geordie necessitar um pouco de comida para sua famlia, mas isso podemos dar-lhe E para comear no necessitar mais que umas poucas ferramentas. Tem uma tocha, no?
       -Assim , est no contrato. Mas agora  a temporada da semeia, MacDubh. Com a limpeza...
       -J sei -respondeu Jamie, um pouco irritado-. Fui eu o que semeou cinco acres de gro faz um ms. E primeiro tive que limpar o terreno, -Enquanto Duncan o passava bem no River Run, conversando nos botequins e passeando em seu cavalo novo. Ouvi-o e o mesmo aconteceu com o Duncan. O silncio falava mais alto que as palavras.
       -Sua tia Eu te enviou um regalito.
       -Ah, sim?
       -Uma garrafa de usque.
       Havia um sorriso na voz do Duncan, a que Jamie respondeu com uma risada desinteressada.
       -Ah, sim? -repetiu com tom diferente-.  muito amvel.
       -vamos procurar a. Um traguito no te far mal.
       -No, claro -disse Jamie arrependido-. No dormi ontem  noite e no me encontro bem. Deve desculpar minhas maneiras, Duncan.
       -No falemos disso.
       Ouvi um som, como se uma mo aplaudisse um ombro, e logo se foram juntos.
       O que tivesse sido do Duncan se Jamie no lhe tivesse encontrado e procurado um site para ele? Em Esccia no havia nada para um pescador sem brao. Mas este era o Novo Mundo e, embora havia riscos, tambm havia novas possibilidades para viver. No era estranho que Jamie se preocupasse sobre quem teria as melhores oportunidades. Sinclair, o tonelero, ou Chisholm, o granjeiro?
       Duncan j tinha encontrado trinta dos homens do Ardsmuir e nos tnhamos ficado com vinte, colocando-os em boas terras perto do rio, baixo o apadrinhamento do Jamie.
       
       Quando se acabaram todos nossos recursos, Jamie pediu dinheiro emprestado e foi com ele aos botequins, ao lado do rio. Esteve jogando durante trs noites, cuadriplic seu dinheiro e evitou que o apunhalassem, como soube mais tarde. Fiquei muda ao ver o comprido talho que cruzava o peitilho de seu casaco quando voltou. depois de barbear-se e lavar-se, foi devolver o dinheiro aos donos das plantaes vizinhas, acrescentando a seu agradecimento o pagamento dos interesses. E ainda ficou suficiente para comprar sementes para semear, outra mula, uma cabra e alguns porcos.
       No lhe perguntei; remendei seu casaco e o contemplei enquanto dormia depois de devolver o dinheiro. Agarrei-lhe uma mo e percorri as linhas da palma. As linhas da cabea e o corao eram largas e profundas. Quantas vistas jaziam naquelas dobras?
       A minha. a de seus colonos. a do Fergus e Marsali, que tinham chegado da Jamaica com o Germaine, gordo, loiro e encantador, e que tinha a seu pai na palma de sua gorda manita.
       Ao pensar neles olhei involuntariamente pela janela. Ian e Jamie os tinham ajudado a construir uma pequena cabana a menos de dois quilmetros da nossa. Algumas vezes, Marsali vinha caminhando a me visitar com o menino. Como sentia nostalgia pelo Bri, o pequeno Germaine representava o substituto do neto que nunca veria.
       Suspirei e tratei de afastar aqueles pensamentos.
       Terminei de estender os gros e dirigi a meu escritrio. Abri meu caderno forrado de couro e comecei a anotar os detalhes do parto. Foi um trabalho comprido, mas normal. Sem complicaes no nascimento, a nica coisa incomum tinha sido a membrana...
       Deixei de escrever e sacudi a cabea. O filho da Petronella no nasceu com a membrana que envolve ao feto. Foi no sonho, pensei; tinha misturado os dois partos. Era Brianna a que tinha nascido com a membrana.
       Os escoceses a chamavam "capuz da sorte". Diziam que dava amparo para no afogar-se. E alguns meninos eram bentos com uma segunda viso. Mas fora sorte ou no, Brianna nunca tinha manifestado signos daquele estranho "conhecimento" celta. Sabia o que representava minha forma peculiar de segunda viso, o conhecimento de certas coisas que vo acontecer, para lhe desejar a outra pessoa suas complicaes.
       Olhei a pgina. Sem me dar conta, tinha desenhado a cabea de uma menina, o cabelo e os traos de um nariz largo. 
       Alm disso, no tinha rosto. No era uma artista, no tinha o dom da Brianna para o desenho. Sua imagem estava em meu corao.
       Pela primeira vez senti certa simpatia pela Yocasta Cameron e seu desejo de um herdeiro: algum que ficasse para ocupar seu lugar e dar testemunho de que sua vida no tinha sido em vo. No desejava que Brianna estivesse aqui, mas isso no significava que no a sentisse falta de.
       Terminei minhas notas e fiquei sentada durante um momento. Sbia que tinha que ir preparar o jantar, mas o cansao me deixava incapaz de me mover. Doam-me todos os msculos e o moratn do joelho. O que realmente desejava era voltar para a cama. Mas em lugar disso agarrei a caveira e acariciei o crnio arredondado. Tinha que admitir que era um adorno macabro no escritrio, mas me sentia ligada a ela. Ento recordei a voz do professor Raymond em Paris.
       -Simpatia? -havia dito, tocando uma caveira-.  uma emoo incomum para senti-la por um osso, Madonna.
       Mas sabia o que eu queria dizer, porque quando lhe perguntei por aquelas caveiras, sorriu ao me responder que eram uma espcie de companhia.
       Agora tambm o entendia, porque o cavalheiro da caveira tinha sido uma companhia para mim em um lugar escuro e solitrio. De novo me perguntei se teria algo que ver com a apario que vi na montanha, o ndio com a cara grafite de negro.
       O fantasma, se  que o era, no tinha sorrido nem falado em voz alta. No tinha visto seus dentes, o que tivesse sido meu nico ponto de comparao com a caveira que tinha entre minhas mos. Levantei-a para examin-la  luz. Dava-lhe a volta para examinar os molares e fiquei geada. Pese ao calor do fogo tive frio, o mesmo frio que quando estava perdida na montanha. A luz do sol tinha feito brilhar o anel de prata de minha mo e o empastelamento de chumbo de meu defunto companheiro. Olhei-a fixamente e a deixei com cuidado sobre o escritrio, como se fora muito frgil.
       -meu deus -disse aos olhos vazios e ao sorriso torcido-. Quem foi? 
       -Quem crie que pde ser?
       Jamie tocou a caveira cautelosamente. Duncan tinha ido  privada e Ian estava com os porcos, assim aproveitei aquele momento para explicar-lhe 
       -No tenho nem idia. Salvo,  obvio, que teve que ser algum... como eu.
       Estremeci-me e Jamie me olhou com ar preocupado.
       -No te ter resfriado, verdade, Sassenach?
       -No. -Sorri fracamente-. Mas  como se algum tivesse pisado em minha tumba.
       Jamie agarrou o leno pendurado na porta e me ps isso. Deixou tas mos sobre meus ombros, clidas e consoladoras.
       -Isso significa algo, no? -perguntou com calma-. Significa que h outro... lugar. Talvez perto.
       Outro crculo de pedras ou um pouco parecido. Tambm tinha pensado isso e me estremeci outra vez. Jamie olhou a caveira com ar pensativo, logo tirou um leno e o colocou sobre os olhos vazios.
       -Enterrarei-o depois do jantar -disse.
       -J, o jantar. -Tratei de enfocar meus pensamentos na comida-. Sim, vou ver se encontro ovos. Faro-se rpido. 
       -No se preocupe, Sassenach. -Jamie inspecionou a panela posta no lar-. Podemos comer isso.
       -Puf -pinjente e Jamie me sorriu zombador.
       -No h nada mau nessa sopa de cevada, no?
       -Caso que o seja -respondi, olhando com desgosto a panela- E falando de cevada, ter que tirar a dessa bolsa para que se seque.
       -Sim? -perguntou distrado-. Sim, farei-o. -carregou-se a bolsa  costas. deteve-se na porta olhando a caveira-, Disse que no acreditava que fora cristo. -Olhou-me com curiosidade-, por que crie isso, Sassenach?
       Vacilei, mas no havia tempo de lhe contar o sonho, se  que tinha sido isso. Podia ouvir a conversao do Ian e Duncan aproximando-se da casa.
       -No h uma razo especial -pinjente encolhendo os ombros.
       -Ah, bom. Ento, vamos conceder lhe o benefcio da dvida.
       
       24
       Escrever cartas: a grande arte do amor
       
       Oxford, maro de 1971
       
       Roger supunha que no Inverness choveria tanto como em Oxford, mas nunca lhe tinha importado a chuva do norte. O frio vento de Esccia, soprando no Moray Firth, era estimulante e a chuva vivificava e refrescava o esprito.
       Mas isso era em Esccia, quando Brianna estava com ele. Agora que ela estava na Amrica do Norte e ele na Inglaterra, Oxford era frio e opaco, com ruas e edifcios cinzas como cinzas de fogos apagados. A chuva jorrava pelos ombros de sua toga de professor; deteve-se procurando o amparo da casita do porteiro para sacudi-la roupa.
       -H cartas? -perguntou.
       -Isso acredito, senhor Wakefield. Espere um segundo.
       Martn desapareceu em seu santurio interior deixando ao Roger ocupado em ler os nomes dos membros da faculdade mortos na guerra, colocados em uma placa.
       Desde que tinha conhecido a Brianna e a sua me tinha descoberto que o passado, muito freqentemente, tem um rosto turbadoramente humano.
       -Aqui tem, senhor Wakefield. -Martn se inclinou por cima do mostrador com um molho de cartas-. chegou uma de Estados Unidos-aadi com uma piscada.
       Roger sorriu como resposta enquanto um calor se estendia por seu corpo, acabando com o frio daquele dia chuvoso.
       -vamos ver logo a sua noiva, senhor Wakefield?
       Martn estirou o pescoo espiando abertamente o sobre com selos dos Estados Unidos. O porteiro tinha conhecido a Brianna quando ela esteve ali com o Roger, justo antes de Natal, e tinha cansado prendado de seu encanto.
       -Isso espero. Talvez no vero. Obrigado!
       voltou-se fazia a escada, sustentando as cartas com cuidado debaixo da manga de sua tnica enquanto procurava a chave. Tinha uma sensao mescla de jbilo e desalento ao pensar no vero. Brianna havia dito que voltaria em Julho, mas para julho faltavam quatro meses. Quando estava de mau humor no acreditava que pudesse agentar nem quatro dias.
       
       Roger dobrou a carta outra vez e a guardou em um bolso perto de seu corao. Brianna lhe escrevia vrias vezes  semana, desde notas breves a largas cartas e todas lhe deixavam um quente fulgor que lhe durava at que chegava a seguinte.
       Ao mesmo tempo, naquela poca, suas cartas eram de algum jeito insatisfactorias. Seguiam sendo calidamente afetuosas, sempre assinava "com amor" e dizia que sentia saudades e queria estar com ele.
       Talvez fora natural, uma progresso normal,  medida que se foram conhecendo cada vez mais; no se podiam escrever cartas apaixonadas todos os dias e ser sinceros.
       Sem dvida era sua imaginao a que o fazia pensar que Brianna estava distante em suas cs. Mordeu o sanduche e o mastigou distrado, pensando nos ltimos artigos que Fiona lhe tinha ensinado. Agora que era uma mulher casada, considerava-se uma perita em assuntos matrimoniais e punha um fraternal interesse no desigual curso do idlio do Roger.
       Enviava-lhe constantemente recortes de revistas de mulheres. A ltima era um artigo titulado: "Como intrigar a um homem". Em outro aconselhava: "compara seus interesses". "Se lhe gostar do futebol e lhe aborrece, pense que ele no  aborrecido e fale do tema."
       Roger sorriu um pouco sombrio. Tinha compartilhado os interesses da Brianna. Se seguir os rastros de seus pais atravs de sua histria arrepiante se considerava um passatempo, tinha completo. Entretanto, era pouco o que podia compartilhar com ela.
       perguntou-se se Brianna leria artigos semelhantes em revistas norte-americanas, mas descartou a idia. Brianna Randall era incapaz de jogar a aqueles jogos tolos, igual a ele.
       No, ela no ia tratar o de outra forma para aumentar seu interesse- Que sentido teria? Seguro que ela sabia quanto lhe importava. Mas saberia? Inseguro, Roger recordou outro dos conselhos da revista: "No suponha que ele pode ler sua mente. lhe d uma pista de como se sente voc".
       Roger deu outra dentada ao sanduche e o mastigou. Bom, lhe tinha dado um sinal. Tinha despido sua alma e ela se colocou em um avio para ir-se a Boston.
       -No seja muito agressivo -murmurou soltando um bufido.
       A mulher que estava a seu lado olhou e se afastou um pouco. Roger suspirou e deixou o resto do sanduche sobre a bandeja de plstico. Procurou uma taa do que no comilo chamavam caf, mas no bebeu. voltou-se a sentar com a taa entre as mos, absorvendo seu calor.
       O problema era que enquanto acreditava que tinha triunfado em afastar a ateno da Brianna do passado, era incapaz de faz-lo ele. Claire e aquele maldito highlander o obcecavam; pela fascinao que lhe provocavam, pareciam sua prpria famlia. "Sempre deve ser sincero", dizia outra das entrevistas. Se o tivesse sido, se a tivesse ajudado a descobrir tudo, talvez o fantasma do Jamie Fraser agora estaria tranqilo e Roger tambm.
       -Vete ao inferno! -murmurou para si mesmo.
       A mulher sentada a seu lado deixou a taa na bandeja e se levantou.
       -voc v-se ao inferno! -disse, e se afastou.
       Roger a contemplou durante um momento.
       -No tema -disse-. Acredito que j estou nele.
       
       25
       Aparece uma serpente
       
       Outubro de 1768
       
       Em princpio no tenho objees contra as serpentes. Comem ratos, o que  algo louvvel, algumas so decorativas e a maioria so o bastante ardilosas para manter-se fora do caminho. Vive e deixa viver era minha atitude bsica.
       Mas essa era a teoria. Na prtica, tinha toda aula de objees contra a enorme serpente que estava enrolada no assento do privada. Alm do fato de que naquele momento me incomodava enormemente, no era til comendo ratos e esteticamente tampouco era agradvel, j que era cinza com manchas escuras.
       Mas minha maior objeo era o fato de que era uma serpente de cascavel. Suponho que era uma sorte que o fora, porque o rudo das cascavis impediu que me sentasse sobre ela na tnue luz do amanhecer.
       O primeiro som me deixou geada; parada no pequeno privada estendi um p para trs procurando a soleira.  serpente isso no gostou; fiquei imvel enquanto seu zumbido aumentava. Podia ver a puma de sua cauda vibrando, movendo-se como um grosso dedo amarelo.
       Entretanto, no podia ficar ali para sempre. Deixando a um lado outras consideraes, a impresso de ver a serpente no tinha diminudo a urgncia de minhas funes corporais.
       Tinha a vaga noo de que as serpentes eram surdas; talvez poderia gritar pedindo auxlio. Mas e se no era assim? Havia uma histria do Sherlock Holmes onde uma serpente respondia a um assobio. Pode que o assobio lhe parecesse inofensivo. Com precauo, franzi os lbios e soprei. No saiu outra coisa que uma fraca corrente de ar.
       -Claire? -disse uma voz intrigada a minhas costas-. Que diabos est fazendo?
       Saltei ante a voz e o mesmo fez a serpente, ou ao menos se moveu sbitamente no que pareceu um iminente ataque.
       -H uma maldita serpente -disse entre dentes, tratando de no mover os lbios.
       -Bom, por que fica parada? te faa a um lado e a tirarei.
       Os passos do Jamie se aproximaram. A serpente tambm o ouviu; era evidente que no era surda e aumentou seus cascabeleos.
       -Ah! -disse Jamie em tom diferente-. Fica aquieta, Sassenach.
       No tive tempo de responder a sua advertncia porque uma pedra grande passou roando meu quadril e golpeou  serpente; esta se retorceu e caiu no desculpado com um plaf!
       No felicitei ao vitorioso guerreiro, mas sim sa correndo para o bosque mais prximo. Aos poucos minutos retornei mais tranqila e encontrei ao Jamie e ao Ian juntos no privada considerando o tamanho, o menor em cuclillas no banco, com uma tocha, e o tio inclinando-se sobre o buraco esquadrinhando as profundidades.
       -Aqui, posso ver algo; aproxima a luz.
       Jamie se incorporou para baixar a tocha.
       -A est! Vejo-a! -gritou Ian.
       As duas cabeas se juntaram e se chocaram com o rudo de meles partidos. Jamie baixou a tocha at que caiu no buraco e se apagou. um pouco de fumaa subiu como incenso.
       -Ainda est viva? -perguntei com ansiedade. 
       Jamie abriu um olho e me olhou entre os dedos com os que se sujeitava a cabea.
       -Minha cabea est bem, obrigado -disse-. Espero que meus ouvidos deixem de soar para na prxima semana.
       -Vamos, vamos -pinjente conciliadora-. Faria falta um martelo especial para romper seu crnio. me deixe ver.
       Tinha um galo debaixo do nascimento do cabelo, mas no havia sangue.
       Beije o galo e lhe dava uma palmada na cabea.
       -No vais morrer -pinjente-. No por isso.
        -Ah, bem -disse com secura-. Talvez mora pela picada da serpente a prxima vez que me sente a fazer minhas necessidades.
       -O que vais fazer a respeito? -perguntei.
       Arqueou uma sobrancelha.
       -Eu? por que tenho que fazer algo?
       -No pode deixar que fique a!
       -por que no? -disse arqueando a outra sobrancelha.
       Ian se arranhava a cabea com ar ausente, at que encontrou o galo e se sobressaltou.
       -Bom, no sei, tio Jamie -disse dbio-. Se quer deixar seu Pelotas pendurando sobre uma serpente  seu problema, mas s de pens-lome pem os cabelos de ponta. Como  de grande?
       -Bastante grande, devo admiti-lo.
       Jamie flexionou a boneca mostrando seu antebrao para lhe dar uma idia.
       -N! -disse Ian.
       -Sabe se saltarem? -colaborei.
       -Sim, sei. -Olhou-me com cinismo-. E como quer tir-la?
       -Posso lhe disparar com sua pistola -ofereceu Ian, fascinado pela possibilidade de poder usar as apreciadas pistolas do Jamie-. No precisamos tir-la se podemos mat-la.
       -pode-se... ah... ver? -perguntei com prudncia.
       -No muito. H uns centmetros de imundcie no fossa; no acredito que se veja bem para apontar e detestaria perder um disparo.
       -Podemos convidar a todos os Hansen para jantar, servir cerveja e afogar  serpente -sugeri, mencionando a nossa ampla famlia vizinha.
       Ian se afogou com a risada e Jamie me olhou com seriedade e se dirigiu ao bosque.
       -Pensarei algo -disse-. Depois do caf da manh.
       
       Por sorte o caf da manh no foi um grande problema, j que as galinhas tinham posto ovos e o po se assou bem. A manteiga ainda estava confinada no fundo da despensa, baixo a custdia de uma cerdita recm-nascida, mas Ian as engenhou para tirar um pote de gelia da prateleira enquanto eu tratava de det-la com a vassoura.
       -Necessito uma vassoura nova -comentei, enquanto preparava os ovos-. Talvez baixe esta manh at os salgueiros do arroio.
       -Mmm.
       Jaime estendeu a mo para procurar a bandeja com po. Toda sua ateno se centrava no livro que estava lendo: Histria natural da Carolina do Norte, do Bricknell.
       -Aqui est -disse-. Sabia que tinha visto algo sobre as serpentes de cascavel. -Encontrou o po e o usou para acompanhar uma poro de ovo. depois de tragar leu em voz alta-: "Os ndios com freqncia arrancam os dentes das serpentes para que no possam fazer mal ao morder. A operao se realiza facilmente: atando um trapo vermelho na ponta de um cano largo e oco, provocando assim  serpente, at que o remi".
       -Tem algum trapo vermelho, tia? -perguntou Ian, tragando uma parte de ovo com caf de chicria.
       Neguei com a cabea.
       -Esse  um bom livro, tio Jaime -disse Ian com aprovao-. Diz algo mais sobre as serpentes?
       -Bom, aqui h algo sobre como as serpentes encantam aos esquilos e os coelhos.
       Jaime tocou seu prato e o encontrou vazio. Empurrei-lhe a fonte com po-doces.
       -E no diz nada sobre como tratar a porcos viciosos?
       -Eu me ocuparei dos porcos -murmurou-, No h mais ovos?
       -H, mas so para nossa hspede do celeiro.
       Pus duas fatias de po na pequena cesta que estava preparando e agarrei a garrafa com a infuso que tinha deixado descansar durante a noite. Podia lhe ajudar e no lhe faria mau. Em um impulso, levei-me o amuleto que me tinha agradvel a anci Nayawenne; talvez isso daria confiana ao doente. Como a infuso, no lhe faria mal.
       Nossa inesperado hspede era um forasteiro; um tuscarora de uma aldeia do norte. Tinha chegado  granja vrios dias atrs como membro de uma partida de caa desde a Amia Ooka, seguindo os rastros de um urso.
       Tnhamo-lhes devotado comida e bebida; alguns dos caadores do grupo eram amigos do Ian; durante a comida notei que aquele homem tinha um olhar especial, sem brilho. Ao examinar o de perto, cheguei  concluso de que tinha o sarampo, uma enfermidade alarmante para a poca.
       Insistiu em partir com seus companheiros, mas dois deles o trouxeram de volta poucas horas mais tarde, confuso e delirante.
       Era alarmantemente contagioso. Fiz-lhe uma cama no novo celeiro e obriguei a seus companheiros a lavar-se no arroio, antes de partir, o que certamente consideraram uma tolice.
       O ndio estava de lado e nem se moveu para me olhar.
       -Comment seja vai? -pinjente me ajoelhando junto a ao.
       No me respondeu, no era necessrio. Por sua respirao podia diagnosticar pneumonia, coisa que confirmei nada mais v-lo. Tratei de lhe convencer para que comesse, pois o necessitava desesperadamente, mas nem se incomodou em mover a cara. A garrafa com gua que lhe tinha deixado estava vazia. antes de repor-lhe tentei lhe dar a beber a infuso. Tragou um pouco e se deteve- Ento lhe dava gua e bebeu sedento.
       Fui ao arroio para ench-la de novo. Quando retornei, em um arranque de inspirao, agarrei o amuleto e me ajoelhei.
       No sabia qual era a cerimnia adequada mas tinha sido mdica o tempo suficiente para conhecer o poder da sugesto. No era melhor que os antibiticos, mas sem dvida era melhor que nada.
       Levantei o amuleto e recitei solenemente o primeiro que me veio  mente, que resultou ser o tratamento para a sfilis em latim do doutor Rawlings. Completei mim ritual benzendo a garrafa com a infuso e logo a aproximei do paciente. Quase hipnotizado abriu a boca e bebeu.
       Tampei-lhe com a manta, deixei a comida a um lado e me parti com uma mescla de esperana e sensao de fraude.
       Caminhei com lentido ao lado do arroio, alerta a algo que pudesse me resultar til. Era uma poca do ano muito temprana para encontrar muitas novelo medicinais. As melhores eram novelo fortes e velhas, mas tambm estavam as flores e os frutos ou as sementes que tinham substncias utilizveis.
       Meti-me no arroio para tirar um lindo conjunto de rabo-de-cavalo e um tentador arbusto de folhas verdes aromticas. Movi-me com os ritmos da gua e o vento, passando a ser parte da lenta e perfeita ordem do universo.
       Ao chegar  curva dos salgueiros ouvi um chiado alm das rvores. Tinha ouvido rudos similares produzidos por animais, mas podia reconhecer a voz humana quando a ouvia.
       Abri-me caminho entre os ramos at chegar a um claro. Um menino saltava, golpeando-se enlouquecido nas pernas.
       -O que...? -comecei a dizer.
       Levantou a vista e me olhou com seus olhos azuis cheios de surpresa por minha apario.
       No estava mais surpreso que eu. Devia ter onze ou doze anos e era alto e magro, com um arbusto de cabelo castanho avermelhado. Seus olhos azuis olhavam a ambos os lados de um nariz reta, to familiar para mim como a palma de minha mo, embora sabia que nunca tinha visto antes a aquele menino.
       -Sanguessugas -pinjente. A calma profissional tinha superado minha comoo pessoal. "No pode ser", dizia-me mesma e ao mesmo tempo sabia que era-. So sanguessugas, no lhe faro mal.
       -Sei o que so! -disse-. Tira-me isso estremeceu-se de asco-. So odiosas!
       -No to odiosas. Tm sua utilidade -pinjente, comeando a me recuperar da impresso.
       -No me importa a utilidade que tenham! -uivou, paleando com frustrao-, As dio, tira-me isso 
       -Bom, deixa de brigar com elas -pinjente cortante-. Sente-se e eu me ocuparei de tudo.
       Vacilou, me olhando com receio, at que a contra gosto se sentou em uma rocha e estendeu suas pernas ante mim.
       -as tire j! -ordenou.
       -Ao seu devido tempo -respondi-, De onde vem?
       Olhou-me desconcertado.
       -Voc no vive por aqui -disse com total segurana-. De onde vem?
       -Ah... dormimos em um lugar chamado Salena, faz trs noites. Essa foi a ltima cidade que vi. -Agitou as pernas-. Hei-te dito que as tire!
       Havia vrios mtodos para as tirar, a maioria mais dolorosos que as prprias sanguessugas. Tinha trs em uma perna e quatro na outra. Um dos pequenos animais estava gordo, a ponto de explorar. Apertei-o com a unha do polegar contra minha mo e arrebentou jorrando sangue.
       O moo a contemplou plido e tremente.
       -No quero desperdi-la -expliquei.
       fui procurar a cesta que tinha deixado baixo os ramos e vi sua casaca, os sapatos e as mdias. As fivelas dos sapatos eram de prata e a casaca estava bem atalho, com um estilo inhabitual ao norte do Charleston. No necessitava mais confirmao.
       Coloquei a sanguessuga em um punhado de barro e a envolvi com folhas midas. As mos me tremiam. O idiota! Desprezvel malvado... Que diabos lhe tinha induzido a traz-lo aqui? E o que faria Jamie?
       Aproximei-me do moo e me ajoelhei para lhe tirar outra sanguessuga.
       -Onde est seu padrasto? -perguntei bruscamente.
       Poucas coisas podiam distrair sua ateno de suas pernas, mas isto o fez. Sua cabea se levantou de repente e me contemplou assombrado.
       -Conhece-me? -perguntou com um ar de arrogncia que em outras circunstncias teria sido divertido.
       -Tudo o que sei sobre ti  que seu nome de pilha  William. Tenho razo?
       Minhas mos se crisparam e tive a esperana de me haver equivocado. Se era William, isso no era tudo o que sabia sobre ele, mas era bastante para comear.
       Suas bochechas se ruborizaram e seus olhos se arrumaram das sanguessugas para observar a quem lhe tratava com tanta familiaridade, e que parecia uma bruxa desgrenhada e com as saias levantadas.       
       -Sim, assim  -disse-. William visconde Ashness, nono conde do Ellesmere.
       -Todo isso? -pinjente amavelmente-. Que agradvel.
       Agarrei uma sanguessuga mas no a pude arrancar. O moo deixou escapar um grito.
       -Deixa-a! -disse-. vai se partir!
       -Pode ser -admiti. Pu-me em p e me baixei as saias-, Vem -pinjente lhe oferecendo a mo-. Levarei-te a casa. Se lhes puser sal cairo imediatamente.
       No aceitou a mo e ficou em p. Olhou como se procurasse a algum.
       -Papai -explicou ao ver minha expresso-. Perdemo-nos e me disse que o esperasse no arroio. ia assegurar se de que levvamos a direo correta. No quero que se alarme se voltar e no me encontra.
       -No se preocupe. Imagino que ter encontrado a casa; no est longe.
       Era a nica casa que havia naquela zona e estava ao final de um atalho bem marcado. Era evidente que lorde John tinha deixado ao menino para ver primeiro ao Jamie e acautel-lo.
       Muito considerado. Meus lbios se crisparam involuntariamente.
       -So os Fraser? -perguntou o moo-. viemos a ver o James Fraser.
       -Eu sou a senhora Fraser -pinjente e lhe sorri. "Sua madrasta", pude ter acrescentado, mas no o fiz-. Vem.
       Seguiu-me apressadamente atravs das rvores, quase me pisando os tales em direo  casa.
       Abandonei a busca de eptetos adequados para insultar a lorde John Grei e tratei de pensar no que fazer, mas no havia nada que pudesse fazer.
       William, visconde Ashness, nono conde do Ellesmere. Ou o que ele acreditava que era. "E o que te prope fazer -pensei enfurecida com lorde John Grei-, quando descobrir que  o filho bastardo de um criminoso escocs indultado? E o mais importante, o que ia fazer o escocs?"
       Detive-me e o moo tropeou comigo.
       -Sinto muito -murmurei-. Pareceu-me ver uma serpente.
       Continuei com meus pensamentos. teria o trazido para lhe revelar seu parentesco? Quereria lhe deixar aqui, com o Jamie.. conosco?
       Embora a idia me alarmava, no encaixava com a personalidade do homem que tinha conhecido na Jamaica. Podia ter motivos razoveis para que eu no gostasse de John Grei; sempre  difcil mostrar bons sentimentos para o homem que tem uma paixo homossexual pelo marido de uma; mas devo admitir que no conhecia sinais de maldade ou crueldade em seu carter. Pelo contrrio, tinha-me parecido um homem honorvel, sensvel e bondoso, ao menos at que conheci sua debilidade pelo Jamie.
       E se ao v-los juntos o parecido os delatava? No, tranqilizei-me. Seria alto, mas agora era ainda muito magro e seu cabelo era mais escuro que o do Jamie. Tinha os olhos dos Fraser e algo na forma de sua cabea e nos ombros erguidos que me fazia pensar em.., Bri. Foi como uma corrente eltrica. parecia-se muito ao Jamie, mas era minha lembrana da Brianna o que me tinha feito reconhec-lo imediatamente.
       Era dez anos menor mas suas faces eram muito mais parecidas com as dela que s do Jamie.
       Apressei-me porque no queria que chegasse  cabana antes que eu. Sentia uma mescla de ansiedade pelo Jamie e fria contra John Grei, mas acima de tudo grande curiosidade e no fundo uma pontada de nostalgia por minha filha, cujo rosto no voltaria a ver.
       Jamie e lorde John estavam sentados em um banco ao lado da porta. Para ouvir nossos passos, Jamie se levantou e olhou para o bosque. Tinha tido tempo de preparar-se. Seu olhar passou com indiferena pelo moo e se voltou para mim.
       -Vamos, Claire. encontraste a outro de nossos visitantes. Enviei ao Ian para que o buscasse. Recorda a lorde John?
       -Como ia esquecer o? -pinjente, lhe dedicando um sorriso luminoso.
       Sua boca tremeu, mas fez uma profunda inclinao.
       -Para servi-la, senhora Fraser. -Olhou ao moo com o cenho franzido ante sua aparncia-. Posso lhe apresentar a meu enteado, lorde Ellesmere? William, vejo que j conheceste a nossa encantadora anfitri, quer saudar nosso anfitrio, o capito Fraser?
       O moo quase bailoteaba, mas para ouvir aquilo se endireitou e fez uma rpida reverncia.
       -Para lhe servir, capito -disse e me lanou um olhar de sofrimento.
       -Poderiam nos desculpar? -pinjente amavelmente.
       Agarrando ao moo do brao, entrei com ele na cabana e fechei a porta ame o rosto assombrado dos homens.
       William se sentou no banco que lhe assinalei e estirou as pernas.
       -Rpido! -disse-. Por favor, rpido!
       No havia sal modo, assim com a faca cortei uma pea do bloco e a coloquei no morteiro, amassando-a at conseguir os gros desejados, que pus sobre as sanguessugas.
       - muito duro para as pobres -disse ao ver cair  primeira-. Mas funciona.
       Recolhi aqueles pequenos insetos e os atirei ao fogo, logo me ajoelhei com a cabea inclinada, lhe dando tempo a recompor sua expresso.
       -Agora me deixe me ocupar das picadas.
       Limpei o sangue e lavei as feridas com vinagre e uma erva especial para deter as hemorragias.
       Deixou escapar um trmulo suspiro de alvio.
       -No  que tenha medo de... do sangue -disse com um tom jactancioso que fez evidente qual era seu temor-.  que so umas criaturas asquerosas.
       -So umas cositas detestveis -pinjente.
       Incorporei-me, agarrei um trapo limpo, molhei-o na gua e sem formalidades lhe lavei a cara. Logo, sem perguntar, agarrei minha escova e comecei a lhe pentear.
       Tinha um redemoinho no cocuruto; senti certa vertigem ao comprovar que era igual ao do Jamie.
       -perdi minha cinta -disse, olhando ao redor como se pudesse materializar-se.
       -Eu te emprestarei uma.
       Quando terminei lhe atei uma cinta amarela e tive a estranha sensao de estar lhe protegendo.
       Tinha conhecido sua existncia poucos anos antes e se tinha pensado nele, tinha sido com curiosidade e um pouco de ressentimento. Mas agora o grande parecido com minha filha e com o Jaime ou o simples feito de me haver ocupado dele, produzia-me a estranha sensao de uma preocupao quase possessiva por ele.
       abriu-se a porta e Jamie apareceu a cabea.
       -Vai tudo bem? -perguntou.
       Seus olhos se posaram no menino com amvel preocupao, mas pude ver a tenso na mo que sujeitava a porta.
       -Sim -disse-. Crie que lorde John querer tomar algo?
       Pus a panela ao fogo para fazer ch e, com um suspiro, tirei a ltima fogaa de po que pensava usar para meus experimentos de obteno de penicilina. Pensando que a situao o justificava, tambm tirei nossa ltima garrafa de brandy. Logo pus a gelia na mesa, explicando que a manteiga estava, desgraadamente, baixo a custdia da cerda.
        -Cerda?-disse William confundido.
       -Na despensa -pinjente assinalando a porta fechada.
       -por que guardam ...? -comeou a dizer, mas fechou a boca.
       Era evidente que seu padrasto o havia paleado por debaixo da mesa enquanto sorria amavelmente ante sua taa de ch-
       - muito amvel por nos haver recebido, senhora Fraser -disse lorde John, lanando um olhar de advertncia ao menino-. Devo me desculpar por nossa chegada inesperada; espero no incomod-la muito.
       -De maneira nenhuma -respondi, enquanto pensava onde foram dormir.      
       William podia faz-lo com o Ian no abrigo, mas a idia de dormir com o Jamie e com lorde John no mesmo quarto...
       Ento Ian, com seu habitual instinto para as comidas, apareceu. Foi apresentado com uma srie de confusas explicaes e inclinaes de cabea, at que conseguiram derrubar a bule.
       Usando isto como desculpa, mandei ao Ian a que ensinasse ao William as atraes do bosque e o arroio e lhes dava uns sanduches e uma garrafa de cidra. J livre de sua presena, servi o brandy e olhei ao John Grei.
       -O que est fazendo aqui? -disse sem mais prembulos.
       -No vim com a inteno de seduzir a seu marido, posso assegurar-lhe 
       -John!
       O punho do Jamie golpeou a mesa e fez tremer as taas. Suas bochechas estavam tintas.
       -Perdo -disse John Grei com o rosto branco-. Peo-lhe desculpas, senhora. foi imperdovel. Entretanto, devo assinalar que do primeiro momento me olhe como se me tivesse encontrado deitado com um conhecido maricas.
       -Lamento-o -suspirei-. A prxima vez me avise antes para poder trocar de expresso.
       ficou em p e foi at a janela.
       -Minha esposa morreu -disse bruscamente-. No navio, entre a Inglaterra e Jamaica. Vinha a reunir-se comigo.
       -Sinto-o muito -disse Jamie-. O menino ia com ela?
       -Sim. -Lorde John se voltou e a luz do sol iluminou sua cabea-. Willie estava... muito afeioado com o Isobel. Era a nica me que tinha conhecido.
       A verdadeira me do Willie, Geneva Dunsany, tinha morrido no parto. Seu suposto pai, o conde do Ellesmere, morreu o mesmo dia em um acidente. Isso era o que Jamie me tinha contado. Tambm que Isobel, a irm da Geneva, feito-se cargo do menino e que John Grei se casou com ela quando o menino tinha seis anos; foi ento quando Jamie deixou seu trabalho com os Dunsany.
       -Sinto-o muito -disse com sinceridade.
       Grei me olhou e fez um leve gesto de reconhecimento.
       -Meu perodo como governador estava a ponto de terminar; tinha a inteno de me instalar na ilha se o clima resultava bom para minha famlia. Mas... -encolheu-se de ombros-. Willie ficou muito triste depois da morte de sua me e me pareceu oportuno tratar de lhe distrair. apresentou-se uma ocasio quase imediatamente. As posses de minha esposa incluam uma grande propriedade na Virginia que agora  do William e recebi notcias do comissionado da plantao pedindo instrues.
       Grei se aproximou da mesa, ocupou seu assento e prosseguiu:
       -No podia decidir nada sem ver a propriedade e avaliar as condies. Assim decidi que navegaramos at o Charleston e de ali viajaramos por terra at a Virginia. Confiava em que a experincia poderia apartar ao William de sua dor e acredito que est dando resultado. Nestas ltimas semanas tive o prazer de lhe ver mais contente.
       Abri a boca para dizer que a Colina do Fraser se encontrava fora de seu caminho, mas o pensei melhor e calei.
       Como se me tivesse adivinhado o pensamento me sorriu com ironia.
       -Onde est a plantao? -perguntou Jaime.
       -A cidade mais prxima se chama Lynchburg, no rio James -disse lorde John, me olhando zombador-. Em realidade, no so mais que uns poucos dias os que perdemos para vir aqui. -Fixou sua ateno no Jamie-. Disse ao Willie que foi um velho amigo de minha poca de soldado. Espero que no te incomode o engano.
       Jamie sacudiu a cabea com uma careta.
       - um engano? Nestas circunstncias no posso pensar em me incomodar e no  do todo falso.
       -Crie que te recordar?-perguntei ao Jamie.
       Tinha trabalhado na quadra da propriedade da famlia do Willie como prisioneiro de guerra.
       -No acredito. Tinha seis anos quando fui do Helwater, o que para um menino  muito tempo. E no h razo para que me relacione com uma moo de quadra chamado MacKenzie.
       -me diga -disse com um sbito impulso-. No quero incomodar, mas... sabe do que morreu sua esposa?
       -Como? -Pareceu assombrado, mas se recuperou imediatamente-, Sua criada me disse que morreu de fluxo sangrento. Acredito que no foi... uma morte fcil.
       Fluxo sangrento, n? Aquela descrio abrangia da disenteria at o clera.
       -Havia algum mdico? Algum a bordo que se ocupasse dela?
       -Sim. Onde quer ir parar, senhora?
       -No  nada. Perguntava-me se for possvel que Willie visse como usavam sanguessugas.
       Um brilho de compreenso cruzou seu rosto.
       -J vejo. No o tinha pensado...
       Naquele momento vi o Ian fazendo gestos da porta.
       -Quer algo, Ian? -perguntei, interrompendo a sir John.
       -No, obrigado, tia.  s que... -Olhou com desespero ao Jamie-. Sinto muito, tio, sei que no devi lhe deixar, mas...
       -O que? -Alarmado pelo tom de voz do Ian, Jamie ficou em p-, O que tem feito?
       -Bom, ver. Sua Senhoria me perguntou pelo privada e lhe contei o da serpente e que seria melhor que fora ao bosque. Isso fez, mas quis ver a serpente Y... Y...
       -No lhe ter picado? -perguntou Jamie com ansiedade.
       -No. -Ian pareceu surpreso-. No vamos nada porque estava muito escuro, assim levantamos a tampa. Ento pudemos ver a serpente e a cravamos com um ramo largo; movia-se como pe no livro, mas no parecia que fora a morder. Y... Y... -Olhou de esguelha a lorde John e tragou ruidosamente-. Foi minha culpa. Contei-lhe que eu tinha pensado em lhe disparar e Sua Senhoria disse que podia tirar a pistola de seu pai. E ento...
       -Ian -disse Jamie-, me diga j o que lhe tem feito ao moo. No lhe ter disparado por engano?
       - obvio que no! -exclamou ofendido.
       -Seria to amvel de me dizer onde est meu filho? -interveio lorde John-
       -Est no fundo do privada -disse com um profundo suspiro-. Tem uma corda, tio Jamie?
       Com uma admirvel economia de palavras e movimentos, Jamie chegou at a porta e desapareceu seguido por lorde John.
       -Est ali com a serpente? -perguntei enquanto procurava algo que me servisse de torniquete, se por acaso fora necessrio.
       -No, tia -respondeu Ian-. Como o ia deixar com a serpente? Melhor vou ayudar-acrescentou e desapareceu.
       Corri atrs dele e encontrei ao Jamie e lorde John costas contra costas na porta do privada conversando com as profundidades. Pu-me nas pontas dos ps para olhar por cima do ombro de lorde John. Vi um ramo que me sobressaa do buraco.
       Contive a respirao. Lorde Ellesmere fazia sair parte do contedo e o aroma era insuportvel-
       -Diz que no est ferido -disse Jamie, tirando um cilindro de corda.
       -Bem -pinjente-. E onde est a serpente?
       -foi para esse lado -disse Ian, assinalando o atalho-. No conseguiu lhe dar com o disparo, eu lhe peguei com o ramo e a condenada se enrolou nela e avanou. Assustei-me, choquei-me com ele Y... bom, assim aconteceu.
       Tratando de evitar o olhar do Jamie, inclinou-se para gritar: -!N! Me alegro de que no te rompesse o pescoo!
       Jamie lhe dirigiu um olhar indicativo sobre que pescoo terei que romper, mas Ian se fez prudentemente a um lado. Por sorte, a gua do fundo tinha diminudo o golpe. Aparentemente o nono conde do Ellesmere tinha cansado de barriga para baixo. Tiraram-no sem problemas e o depositaram no atalho. Lorde John o contemplava tratando de ocultar um sorriso, at que seus ombros comearam a sacudir-se.
       -Que notcias traz dos infernos, Persfone? -disse, incapaz de conter a risada.
       Talher de sujeira, seus olhos azuis tinham uma expresso assassina. Era uma expresso dos Fraser. A meu lado, Ian teve um repentino sobressalto. Seu olhar ia do conde ao Jamie, logo se cruzou com a meu e seu rosto se voltou totalmente inexpressivo.
       Jamie e lorde John se citavam frases em grego e riam como loucos. William bufava, igual ao fazia Jamie quando no agentava mais, enquanto Ian se movia inquieto.
       -Ejem -pinjente, esclarecendo minha garganta-. Se me permitirem, cavalheiros, embora no sei filosofia grega, h um pequeno epigrama que sei de cor.
       Entreguei ao William o bote com sabo lquido que havia trazido em lugar do torniquete.
       -Pndaro -disse-. A gua  o melhor.
       Um breve brilho de gratido apareceu entre a imundcie. Sua Senhoria me fez uma inclinao, deu-se a volta, olhou duvidoso ao Ian e correu fada o arroio. Parecia ter perdido os sapatos.
       -Pobre -disse Ian, sacudindo a cabea-. Demorar dias em tirar-se esse aroma.
       -Sem dvida -respondeu lorde John abandonando a poesia grega por preocupaes mais materiais-. A propsito, sabe o que passou com minha pistola? A que usou William antes do desafortunado acidente.
       -Ah. -Ian lhe olhou incmodo. Levantou o queixo em direo  privada-. Eu... bom, temo-me...
       -J vejo.
       Lorde John se esfregou o queixo impecavelmente barbeado. Jamie cravou o olhar no Ian.
       -Ah... -disse Ian, retrocedendo.
       -V -ordenou Jamie em um tom que no admitia discusso.
       -Mas... -disse Ian.
       -J -disse lhe dando a corda.
       A noz do moo se agitou. Olhou-me com os olhos espantados de um coelho.                  
       -Primeiro te tire a roupa -pinjente servial-. No queremos ter que queim-la, no te parece?.
       
       26
       Praga e peste
       
       Sa de casa pouco antes do pr-do-sol para examinar a meu paciente do celeiro. No estava melhor, mas tampouco tinha piorado. Esta vez, entretanto, seus olhos procuraram meus quando entrei e ficaram fixos sobre minha cara enquanto o examinava.
       Ainda tinha o amuleto apertado na mo. golpeou-se o peito com a outra produzindo um estranho zumbido. Surpreendeu-me, at que entendi.
       -Srio? -pinjente-. Bom, me deixe pensar.
       Comecei com Adiante, soldados cristos; pareceu lhe gostar de e tive que cant-la trs vezes para que ficasse satisfeito.
       antes de entrar na cabana me lavei as mos com lcool. Estava segura de que no podia me contagiar, posto que tinha passado o sarampo de pequena, mas no queria correr o risco de contagiar a outro.
       -Dizem que h um broto de sarampo no Cross Creek -disse lorde John detrs escutar meu relatrio sobre o estado de nosso doente-.  certo, senhora Fraser, que os selvagens som congenitamente mais fracos ante as infeces que os europeus, enquanto que os escravos africanos so mais fortes que seus amos?
       -Depende da infeco -disse sem perder de vista o guisado do caldeiro-. Os ndios som muito mais resistentes s enfermidades parasitrias como a malria, causadas por organismos daqui; os africanos suportam melhor as febres, como o dengue que veio com eles da frica. Mas os ndios no tm muita resistncia ante pragas europias, como a varola e a sfilis.
       - fascinante -disse, um pouco surpreso mas claramente interessado.
       Passamos uma velada bastante agradvel; Jamie e lorde John intercambiaram anedotas de caa e pesca, comentando a surpreendente abundncia da regio, enquanto eu remendava meias. Willie e Ian jogaram uma partida de xadrez e ganhou este ltimo com evidente satisfao. Sua Senhoria bocejava sem dissimulao e seu pai lhe indicou com o olhar que se tampasse a boca. Tinha um dormitada sorriso de plenitude depois de ter devorado junto ao Ian um bolo inteiro de groselhas. Jamie o viu e fez um gesto ao Ian, quem se levantou e o conduziu ao abrigo onde compartilhariam a cama. "Dois se foram -pensei-, ficamos trs." O assunto resolveu com minha retirada. Jamie e lorde John se colocaram ante o tabuleiro de xadrez para beber o resto do brandy. Lorde John devia jogar muito melhor que eu, j que a partida durou mais de uma hora.
       -Invejo-te, Jamie. Ter suas dificuldades, como todos, mas tem o consolo nada desdenhvel de saber que seus esforos tm significado e so hericos.
       Jamie soprou.
       -Sim. Muito herico. No momento, minha luta mais herica  com a cerda da despensa. -Assinalou o tabuleiro-. Realmente vais fazer esse movimento?
       Grei estudava o tabuleiro.
       -Sim, farei-o -disse com firmeza.
       -Maldio -disse Jamie com uma careta de resignao.
       Grei riu e procurou a garrafa de brandy.
       -Maldio! -disse a sua vez ao descobrir que estava vazia.
       Jamie riu e se levantou para procurar algo no aparador.
       -Prova um pouco disto -disse e ouvi o som do lquido que servia.
       Grei levantou a jarra e cheirou, o que lhe provocou um ruidoso espirro.
       -No  vinho, John.  para beb-lo, no para saborear seu buqu -observou Jamie.
        -J o vejo. O que ? No, no me diga isso. -Tossiu- Me deixe adivinhar.  usque escocs? 
       -dentro de dez nus pode que o seja. por agora  lcool,  tudo o que posso dizer.
       -Sim, assim  -disse Grei-. Onde o conseguiu?
       -Fiz-o eu -respondeu Jamie com o modesto orgulho de um professor cervejeiro-. Tenho doze barris mais.
       -Caso que no queira te lavar as tripas com esta mistura, posso te perguntar o que tenta fazer com doze barris disto?
       Jamie soltou uma gargalhada.
       -Comercializar. Vend-lo quando for possvel. Nem os impostos nem a licena para elaborar bebidas alcolicas me preocupam estando to longe  acrescentou com ironia.
       -Bom, pode escapar dos impostos; garanto-te que o agente mais prximo est no Cross Creek. Mas no posso dizer que seja uma prtica segura. E a quem, se posso perguntar, vende-lhe esta notvel mescla? Confio que no ser aos selvagens.
       Jamie se encolheu de ombros.
       -S em pequenas quantidades, como presente ou como troca.
       Nunca a quantidade suficiente para que possam embebedar-se.
       -Muito prudente. J haveria ouvido as histrias, suponho.
       -Se, ouvi-as -assegurou secamente Jamie-. Mas ns temos boas relaes com os ndios e tampouco so tantos. Procuro ser cuidadoso.
       -No Wilmington falavam de um grupo de rebeldes chamados reguladores, que aterrorizam as zonas mais afastadas e causam problemas provocando motins. encontraste algo semelhante por aqui?
       -Aterrorizar a quem? Aos esquilos? Esta zona est muito afastada, John, isto  terreno virgem. Seguro que ter notado a falta de habitantes enquanto vinha at aqui.
       -Sim, notei-o -disse Grei-. E entretanto ouvi certos rumores sobre sua presena aqui e sua influncia para controlar a crescente rebeldia.
       Jamie riu.
       -Acredito que passar tempo antes de que haja muitos rebeldes que reprimir. Tudo o que fiz foi golpear a um velho granjeiro alemo que tentava extorquir a uma jovem. Esse foi meu nico intento de manter a ordem pblica.
       Grei riu e agarrou o rei.
       -Me alegro de ouvir isso. Faria-me a honra de outra partida? Suponho que no posso pensar em ganhar de novo com o mesmo truque.
       
       Dava-me a volta na cama sem poder dormir. Tratava de saber o que me passava. Ou melhor, por que. Embora sabia que eram cimes.
       Era indubitvel que estava ciumenta, uma emoo que no sentia fazia anos, e me assombrava por senti-los agora. " uma idiota -disse-me furiosa-. O que acontece contigo? Tratei de me relaxar respirando devagar.
       Em parte era pelo Willie,  obvio. Jamie era cuidadoso mas tinha visto sua expresso quando olhava ao moo sem que o observassem. Todo seu corpo irradiava uma tmida alegria, orgulho misturado com insegurana, e isso me destroava.
       Nunca olharia a Brianna, sua primeira filha, dessa maneira. Nunca a veria. No era culpa dela mas parecia to injusto... Tampouco ia reprovar lhe que se alegrasse de ver seu filho. O fato era que ver o moo me produzia uma terrvel nostalgia. Seu rosto arrumado era a viva imagem do de sua irm, esse era meu problema. No tnia nada que ver com o Jamie, com o Willie ou com o John Grei, que havia trazido para o menino aqui.
       Para que? Isso  o que tinha estado pensando desde que me recuperei da impresso de sua apario, e continuava pensando-o. Que diabos queria aquele homem?
       A histria sobre a propriedade da Virginia podia ser verdade ou s uma desculpa. por que se tinha tomado tantas molstias em trazer para o moo? E por que tinha deslocado tantos riscos? Willie no era consciente do parecido que at o Ian tinha notado. Mas e se no fora assim?
       O murmrio da conversao quase tinha cessado, s se ouviam os rudos das peas de xadrez ao mover-se.
       -Sente-se satisfeito com sua vida? -perguntou sbitamente lorde John.
       Jamie fez uma pausa.
       -Tenho tudo o que um homem pode desejar-disse com calma-. Um lar, um trabalho honrado, a minha esposa comigo e sei que meu filho est a salvo e bem cuidado- -Levantou a vista e olhou a Grei-. E um bom amigo. -estirou-se e aplaudiu a mo de lorde John-. No desejo nada mais.
       Fechei os olhos com determinao e comecei a contar ovelhas.
       
       Despertou Ian pouco antes do amanhecer, agachado ao lado de minha cama.
       -Tia -disse brandamente com uma mo em meu ombro-. Ser melhor que venha, o homem do celeiro est muito mal.
       Automaticamente me pus em p, envolvi-me na capa e sa descala detrs do Ian enquanto minha mente comeava a funcionar. No faziam falta grandes diagnsticos. de longe se ouvia a respirao entrecortada do ndio.
       O conde estava na porta com o rosto plido e atemorizado.
       -Vete -pinjente cortante-. No deve estar perto dele, nem voc tampouco, Ian. Parte os duas a casa, tirem gua quente do caldeiro, e me trazem isso unto com minha caixa e trapos limpos.
       Willie se apressou a obedecer, ansioso por afastar-se daqueles sons atemorizantes que provinham do celeiro. Mas Ian ficou com rosto preocupado.
       -No acredito que possa lhe ajudar, tia -disse Ian.
       - muito provvel. Mas no posso ficar sem fazer nada.
       -Sim. Mas acredito... -Vacilou e continuou apesar de meu gesto-. Acredito que no deveria lhe atormentar com remdios. Est condenado a morrer, tia. Ontem  noite escutamos  coruja e ele tambm tem que hav-la ouvido. Para eles  sinal de morte.
       -O que fazem os ndios quando algum vai morrer? Sabe?
       -Cantam -disse rapidamente-. A chamn se pinta a cara e canta para que a alma possa ir-se sem que a levem os demnios.
       Ian no esperou a que resolvesse minhas dvidas. Recolheu terra, cuspiu para umedec-la e com um dedo riscou uma linha sobre minha frente at a ponte do nariz.
       -Ian!
       -Shh -murmurou-. Acredito que  assim. -Acrescentou duas raias em minhas bochechas e outra na mandbula-. V, tia. No lhe vais assustar, j est acostumado, no?
       -Ian, pode falar com ele? lhe dizer seu nome e que vai bem?
       -No deve dizer seu nome, tia, chamaria os demnios.
       Meus olhos se acostumaram  escurido e pude ver o rosto do homem, que me olhava com certa surpresa.
       -Canta, tia -apurou-me Ian em voz baixa-. Talvez Tantum ergo soe parecido.
       depois de tudo no podia fazer outra coisa. Comecei a cantar.
       Em minha vida havia visto muitssimas mortes, por acidentes, por enfermidades ou por causas naturais. Tinha visto aceit-la com filosofia ou com protestos violentos. Mas nunca tinha visto morrer a algum daquela maneira.
       Esperou com seus olhos cravados em meus at que terminei a cano. Logo voltou seu rosto para a porta e, enquanto o sol que saa o iluminava, deixou seu corpo sem o mais mnimo movimento.
       Permaneci imvel sustentando sua mo at que me dava conta de que tambm estava contendo a respirao. O ar parecia esttico e o tempo parecia haver-se detido por um momento. Para ele se deteve para sempre.
       -O que vamos fazer com ele?
       J no havia nada que pudssemos fazer por nossa hspede; o problema eram seus restos mortais. Jamie franziu o cenho e se esfregou a cara sem barbear.
       -Suponho que devemos lhe dar uma sepultura decente.
       -Bom, no acredito que possamos deix-lo no celeiro. Mas o que pensar sua gente se o enterrarmos aqui? Sabe como enterram a seus mortos, Ian?
       -No sei muito, tia. Mas vi morrer a um homem, como te disse. Envolvem-no em pele de alce e fazem uma procisso pela aldeia, cantando. Logo colocam o corpo sobre uma plataforma e o deixam no bosque para que se seque.
       Jamie no parecia entusiasmado com a idia de ter corpos mumificados pendurados das rvores de nosso bosque.
       -Acredito que ser melhor envolver o corpo e lev-lo a aldeia para que sua gente se dele encarregue.
       -No, no pode fazer isso. O problema  que o corpo ainda  infeccioso. No o haver meio doido, Ian?
       -No, tia. No, depois de que casse doente aqui. Antes no me lembro. Estvamos caando todos juntos.
       -E no aconteceste o sarampo. Maldita seja. E voc? -perguntei ao Jamie.
       Para meu alvio assentiu.
       -Sim, tinha uns cinco anos. Disse que no se pode ter duas vezes, assim no me passar nada por tocar o corpo, no  verdade?
       -No e a meu tampouco, eu tambm passei o sarampo. O problema  que no podemos lev-lo a aldeia. No sei quanto tempo sobrevive o vrus no corpo e nas roupas,  uma espcie de germe. Mas como explicamos a sua gente que no o podem tocar? No podemos nos arriscar a que se contagiem.
       -O que me preocupa -disse inesperadamente Ian-  que no  da Anna Ooka, mas sim de uma aldeia do norte. Se o deixarmos aqui sua gente se inteirar e acreditar que o matamos e o enterramos para ocult-lo.
       Essa era uma sinistra possibilidade que no me tinha ocorrido. Senti como se uma mo geada se apoiasse em minha nuca.
       -Bom -disse Jamie-. Melhor envolvemos ao pobre homem em uma mortalha e o pomos na pequena cova da colina, em cima da casa. Coloquei postes para fazer uma quadra e isso afastar aos animais selvagens. Ian ou eu iremos at a Anna Ooka e contaremos tudo ao Nacognaweto. Talvez envie a algum para ver o corpo e poder assegurar a sua gente que no foi vtima de nenhum tipo de violncia; ento poderemos enterr-lo.
       antes de que pudesse responder a sua sugesto ouvi uns passos que se aproximavam. Tinha deixado a porta entreabierta para que entrasse luz e ar. Ao me voltar me encontrei com o rosto do Willie, plido e turbado.
       -Senhora Fraser! Por favor, quer vir? Papai est doente.
       -contagiou-se do ndio?                       
       Jamie olhava a lorde John, a quem tnhamos metido na cama. Seu rosto empalidecia e se ruborizava, eram os primeiros sintomas.
       -No, no pde. O perodo de incubao  de uma a duas semanas. Onde esteve...? -Voltei-me para o Willie sem terminar a pergunta-. Disse que havia uma epidemia de sarampo no Cross Creek.
       Toquei a frente de Grei e me dava conta de que tinha bastante febre.
       -Sim -disse com voz rouca e tossiu-. Tenho sarampo? Devem afastar ao Willie.
       -Ian, leva ao Willie fora. -Molhei um trapo em gua de flores e o passei pelo rosto e o pescoo de Grei-, Sim, tem sarampin-respondi-. Quanto faz que se encontra mau?.
       -Ontem  noite, ao me deitar, senti um enjo e despertei com dor de cabea, mas acreditei que era o resultado disso que Jamie chama usque. -Sorriu fracamente ao Jamie-. Logo, esta manh...
       -Se, bom, no se preocupe. Agora trate de descansar. vou preparar algo com casca de salgueiro que lhe ajudar com a dor de cabea.
       Fiz um gesto ao Jamie e samos.
       -No podemos deixar ao Willie perto dele -pinjente-. Nem ao Ian.  muito contagioso.
       -Sim, isso que disse da incubao...
       Sim, Ian podia haver-se contagiado do ndio morto e Willie da mesma fonte que lorde John. por agora no tinham sintomas.
       -Acredito -pinjente, vacilando enquanto pensava um plano- que talvez deveria acampar fora com os moos. Tm que dormir no abrigo ou acampar no bosquecillo. Esperaremos um dia ou dois. Se Willie est infectado, se se contagiou igual a lorde John, aparecero os sintomas. Se no ser assim, se estiver bem, ento ele e voc podero ir at a Anna Ooka para avisar ao Nacognaweto sobre o homem morto. Isso manter ao Willie longe do perigo.
       -Ian ficar para te cuidar? -Considerou a idia e assentiu-. Sim, suponho que pode ser.
       voltou-se olhando ao Willie. Podia mostrar-se impassvel, mas o conhecia muito bem como para no notar o brilho de emoo de seu rosto.
       -Se no se deu conta j, no o far -pinjente apoiando a mo em seu brao.
       -No -murmurou, dando as costas ao moo-. Suponho que estar a salvo.
       -vais poder falar com ele sem que parea estranho. -Fiz uma pausa-. S uma coisa mais antes de que v.
       Ps sua mo sobre a minha e me sorriu.
       -Sim, o que ?
       -No deixe a essa cerda dentro da despensa, por favor.
       
       27
       Pescando trutas na Amrica do Norte
       
       A travessia comeou desfavorablemente. Em primeiro lugar, chovia. Segundo, no gostava de deixar ao Claire, especialmente em circunstncias to difceis. E em terceiro lugar, estava muito preocupado pelo John; no lhe tinha gostado de seu aspecto quando se despediu: semiconsciente e respirando com muita dificuldade com as faces irreconhecveis pelas rodelas
       E como ltimo problema, o nono conde do Ellesmere lhe tinha pego na mandbula. Tinha agarrado o pescoo do pequeno, sacudindo-o at lhe fazer chocar os dentes.
       -Sei muito bem o que est dizendo. Mas eu digo que vem comigo, isso  tudo, j conhece a causa.
       -No vou! -repetia o moo-. No pode me obrigar! -deu-se meia volta e se dirigiu para a cabana.
       Jamie agarrou ao moo pelo pescoo lhe fazendo voltar.
       -Deixa de dar patadas -ordenou-lhe Jamie-.  de muito m educao. E quanto ao de te obrigar,  obvio que posso.
       O rosto do conde brilhava, e fechava e abria a boca como se fora um pescado. Lhe tinha cansado o chapu e a chuva lhe obscurecia as mechas de cabelo.
       - um signo de lealdade que queira ficar com seu padrasto -continuou Jamie, secando-a cara-. Mas no pode lhe ajudar e corre o risco de te contagiar. Por isso vir -terminou Jamie, agarrando ao conde do brao e levando-o at um dos cavalos selados, onde teve a satisfao de ver como o moo colocava um p no estribo e montava sobre ele.
       -Caipira! -disse com voz enfurecida, enquanto tentava desmontar do cavalo.
       -No o tente -avisou ao moo; este se endireitou bruscamente e o olhou furioso-. Eu no gostaria de ter que te atar os ps aos estribos, mas o farei se for necessrio.
       Os olhos do moo se entrecerraron formando dois tringulos azuis, mas acatou as palavras do Jamie.
       Cavalgaram quase toda a manh em silncio enquanto a chuva caa sobre suas cabeas e molhava a capa que cobria seus ombros. Willie era capaz de aceitar uma derrota; embora ainda estava mal-humorado quando desmontaram para comer, foi procurar gua sem protestar e guardou os restos da comida enquanto Jamie se ocupava dos cavalos.
       -Est muito longe?
       A metade da tarde, a curiosidade do William pde mais que sua obstinao.
       -A uns dois dias.
       Naqueles terrenos montanhosos, era mais rpido ir a cavalo que a p. Mas no havia razo para se dar pressa e sim para tom-las coisas com tranqilidade. Claire lhe havia dito com firmeza que no devia trazer para o Willie antes de seis dias. Para ento, John no representaria um perigo de contgio. Ou se estaria recuperando... ou teria morrido.
       Claire tinha assegurado ao Willie que seu padrasto ia se curar, mas Jamie viu a preocupao em seus olhos, o que lhe provocou uma sensao de vazio no oco do estmago.
       No podia ajudar. As enfermidades sempre lhe deixavam uma sensao de impotncia que lhe produzia medo e fria de uma vez.
       -Esses ndios so pacficos?
       Pde detectar o tom de dvida na voz do Willie.
       -Sim. -deu-se conta de que Willie esperava que acrescentasse "milord" e teve a perversa satisfao de no faz-lo-. Conhecemo-los h mais de um ano e estivemos alojados em suas casas. Os habitantes da Anna Ooka so mais amveis e hospitalares que muitas pessoas que conheci na Inglaterra.
       -viveste na Inglaterra?
       O moo lhe dirigiu um olhar surpreendido e Jaime se amaldioou por seu descuido, mas, felizmente, Willie estava mais interessado em quo ndios na histria pessoal do James Fraser e a pergunta passou com uma vaga resposta.
       John era o nico, sem nenhum tipo de dvidas, alm do Claire, que sabia a verdade sobre a paternidade do Willie. Era possvel que a av do Willie suspeitasse a verdade, mas baixo nenhuma circunstncia admitiria que seu neto era o bastardo de um traidor jacobita em lugar do legtimo herdeiro do defunto conde.
       Rezou uma pequena orao a Santa Bride pela melhoria do John Grei e tratou de apartar a preocupao de sua mente.
       em que pese a suas dvidas comeava a desfrutar de da viagem. Mas se John morria, seu tnue lao com o William ficaria quebrado. Fazia muito que tinha aceito com resignao aquela situao, e no se queixava; mas se sentiria realmente despojado se o sarampo lhe roubava, no s a seu melhor amigo, mas tambm tambm toda conexo com seu filho.
       Tinha deixado de chover. depois de rodear uma montanha apareceram sobre um vale; Willie lanou uma exclamao de surpreso deleite. Contra um pano de fundo de nuvens obscurecidas pela chuva, o arco ris surgia da ladeira de uma montanha distante e caa em um longnquo vale.
       - maravilhoso! -disse Willie. voltou-se para o Jamie com um amplo sorriso, esquecidas j suas diferenas-. Alguma vez tinha visto algo semelhante?
       -Nunca -respondeu Jamie, sonrindole.
       
       Sempre tinha tido o sonho ligeiro no bosque e qualquer som despertava imediatamente. Permaneceu imvel um momento, inseguro do que o tinha produzido. Ento, escutou um pranto contido. Controlou seus desejos de consolar ao moo. Estava fazendo esforos para que no lhe ouvisse e se merecia conservar seu orgulho.
       Estaria doente? Talvez lhe doa algo e era muito orgulhoso para admiti-lo.
       -Milord?
       Os soluos cessaram bruscamente.
       -Sim? -disse o conde tentando mostrar frieza.
       -Est doente? -Sabia que no era isso, mas era um bom pretexto-. Tem retortijones?
       -Eu... ah... sim, acredito que talvez tenho... algo pelo estilo.
       Jaime se incorporou.
       -No  muito srio -disse com calma-. Tenho uma poo que padre todos os males de estmago. Descansa, vou procurar gua.
       levantou-se e se afastou, cuidando-se de no olhar ao moo. Quando retornou do arroio com a panela cheia de gua, Willie se tinha divulgado o nariz e secagem as lgrimas. No pde evitar lhe tocar a cabea ao passar. Embora devia evitar essas familiaridades.
       -Como se lhe atirassem das tripas, no? -perguntou, enquanto colocava a gua a ferver.
       -Mmm.
       -Isso passa logo.
       Procurou em seu embornal e tirou uma mescla de flores e folhas secas que Claire lhe tinha dado. No sabia como tinha suposto que ia necessitar as, mas fazia muito que tinha deixado de questionar seus mtodos de cura, j fossem para enfermidades do esprito ou do corpo. Sentiu uma apaixonada gratido por ela. Sabia o que tinha sentido ao ver o moo.
       Uma coisa era conhecer sua existncia e outra muito distinta ver a prova de que seu marido tinha compartilhado a cama com outra mulher.
       No o tinha reprovado. Ao menos, isso pensou, ao recordar sbitamente que quando Claire se inteirou do do Laoghaire se converteu em uma fera. Talvez com a Geneva Dunsany foi diferente porque a me do moo j estava morta.
       Ao dar-se conta disso sentiu como se lhe cravassem uma estocada. A me do moo tinha morrido. No sua verdadeira me, a que morreu no parto, a no ser a que chamou me durante toda sua vida. E agora seu pai; ou o homem ao que chamava pai. Jamie sentiu um involuntrio rictus em sua boca; seu pai estava doente de um mal que tinha matado a um ndio ante os olhos do moo uns dias antes.
       No, no era estranho que o moo sofresse na escurido. Era uma dor que ele conhecia bem desde que perdeu a sua me durante a infncia.
       No era teimosia, nem sequer lealdade o que fazia que Willie tivesse insistido em ficar na Colina. Era amor pelo John Grei e medo por sua perda. E era esse mesmo amor o que fazia chorar ao moo aquela noite, desesperadamente preocupado por seu pai.
       Uma rajada de cimes golpeou o corao do Jamie. Com firmeza a rechaou; tinha a sorte de saber que seu filho desfrutava de uma afetuosa relao com seu padrasto.
       A gua comeava a ferver, derrubou-a sobre a mescla e um aroma doce subiu com a fumaa.
       -J est -disse lhe alcanando a jarra ao moo-. Isto o alivia tudo. Fez-o minha esposa, que  uma boa curadora.
       --o? -O moo tocou com a lngua o lquido-. Vi-a... fazer coisas. ndio que morreu.
       A acusao era clara; ela o tinha cuidado e o homem tinha morrido.
       -Sim? -disse com curiosidade, j que Claire no tinha tido tempo de lhe contar nada- Que classe de coisas?
       Que diabos teria feito?, perguntou-se. Nada que causasse a morte do homem, isso o teria notado ao v-la.
       -Tinha barro na cara. E cantava. Acredito que era uma cano papista, era em latim e tinha algo que ver com os sacramentos.
       -Como? -Jamie ocultou sua prpria surpresa ante essa descrio-. Sim, bem. Talvez quis lhe dar ao homem um pouco de consolo ao ver que no podia lhe salvar. Os ndios som muito mais sensveis aos efeitos do sarampo. Uma infeco que matasse a um deles no faria nada em um homem branco. Eu tive sarampo quando era um menino e no me passou nada.
       Sorriu e se estirou, mostrando sua evidente sade.
       A tenso do moo se relaxou um pouco e bebeu um sorvo do ch quente.
       -Isso  o que disse a senhora Fraser. Disse que papai ia se pr bem. Ela... ela me deu sua palavra.
       -Ento, pode estar tranqilo -disse Jamie com segurana-. A senhora Fraser  uma mulher de palavra. -acomodou-se a capa sobre os ombros. No era uma noite fria mas pequenas rajadas de brisa baixavam da colina-, Est-te sentando bem?
       Willie o olhou desconcertado.
       -N? Sim, sim, obrigado. Est muito bom. Sinto-me muito melhor. Talvez no foi a comida.
       -Talvez no -disse Jamie ocultando um sorriso-. Mas acredito que manh melhoraremos nossa comida. Se a sorte nos acompanha teremos trutas.
       Seu intento de distrao teve xito.
       -Trutas? Pescaremos?
       -pescaste na Inglaterra? No acredito que possa comparar-se com estes arroios, mas seu pai me contou que h boa pesca no lago de sua comarca.
       Conteve a respirao. por que tinha perguntado isso? Tinha levado ao William a pescar quando tinha cinco anos ao lago que havia perto do Ellesmere. Queria que o moo recordasse?
       -OH, sim.  muito boa nos lagos, mas nada  como isto. Nunca vi algo assim. No se parece em nada a Inglaterra!
       -No, claro -Jamie esteve de acordo-. No estranhas a Inglaterra?
       William pensou durante um momento enquanto terminava seu ch.
       -No acredito. Algumas vezes estranho a minha av e a meus cavalos, mas nada mais. Todo o resto so tutores, lies de baile, de latim e de grego. Puf!
       Franziu o nariz e Jamie riu.
       -Ento, no te interessa o baile?
       -No, ter que faz-lo com garotas. -lanou um olhar ao Jamie-. Voc gosta da msica?
       -No -respondeu sonriendo-, Mas eu gosto das moas.
       E s moas gostar dele, pensou, com ombros largos, pernas largas e pestanas largas e escuras que ocultavam seus lindos olhos azuis.
       -Sim, bom, a senhora Fraser  muito bonita -disse o conde com amabilidade. Sua boca se curvou repentinamente-. Embora estava muito graciosa com o barro na cara.     
       -Imagino. Quer outra-taza, milord?
       Claire lhe havia dito que essa mescla era sedativo e parecia funcionar. William bocejava e lhe fechavam os olhos.
       -A noite est fria. Quer te deitar a meu lado e compartilhar as mantas?
       Embora a noite no estava to fria, Willie aproveitou a desculpa com prontido e ficou dormido imediatamente. Jaime permaneceu acordado comprido momento, com um brao brandamente apoiado sobre o corpo dormido de seu filho.
       
       -Agora  o momento adequado?
       O moo olhou para a gua. Estavam baixo a fria sombra de um grupo de salgueiros negros, mas o sol ainda estava em cima do horizonte e a gua do arroio brilhava como o metal.
       -Sim, as trutas se alimentam ao pr do sol. V essas ondas na gua? Esto acordadas.
       Sem aviso, uma linha chapeada saltou no ar e caiu salpicando gua. Willie ofegou.
       - um peixe -indicou Jamie innecesariamente-. Agora olhe.
       -Apanhaste-o! Apanhaste-o!
       Podia ouvir os gritos do Willie danando excitado, mas no podia apartar sua ateno do peixe.
       No tinha carretel, somente a vara que sustentava o linha. No podia ver outra coisa que os brilhos de luz, mas sentia os puxes como se tivesse a truta entre suas mos, lutando e retorcendo-se.
       E ento...
       Livre. O linha se afrouxou e ele ficou sentindo as vibraes do esforo em seus msculos enquanto recuperava o flego.
       -escapou! M sorte!
       Willie o olhou com simpatia.
       -Boa sorte para a truta. -Jamie fez uma careta zombadora e se secou a cara-, Quer provar?
       Muito tarde, recordou que devia cham-lo "lorde", mas Willie estava muito ansioso para not-lo.
       Com uma expresso decidida, Willie estirou o brao e arrojou o linha. A vara se deslizou entre seus dedos e caiu na gua.
       O moo dirigiu um olhar de profundo desespero ao Jamie, que no ocultou a risada. O jovem lorde, surpreso e no muito contente, demorou um momento em recuperar-se e lhe devolver o sorriso. Fez um gesto para o cano que flutuava a uns trs metros da borda.
       -Se for procur-la, assustarei aos peixes?
       -Sim. Toma a minha. Recolherei-a mais tarde. 
       Willie se umedeceu os lbios e se concentrou enquanto sustentava com fora o novo cano. Voltando-se para o rio moveu o brao para atrs e para adiante e arrojou o linha. ficou imvel; o extremo de seu cano estendido formava uma linha perfeita com seu brao. O linha pendurava sobre a cabea do William.
       -Bem lanada, milord -disse Jamie, esfregando-a boca com um ndulo-, Mas acredito que devemos pr primeiro outra mosca.
       -Sim? -Willie afrouxou sua rgida postura e olhou envergonhado ao Jamie-. No tinha pensado nisso.
       depois dessas desgraas, o conde permitiu que Jamie lhe colocasse uma nova mosca e o agarrasse da boneca para lhe ensinar a forma adequada de lanar o linha, Em p depois do moo, agarrou a boneca direita do Willie, maravilhando-se da elasticidade do brao e do tamanho dos ossos, que j prometiam grandeza e fora. Quando a boneca do William se liberou, Jamie teve um momento de confuso e uma curiosa sensao de perda ao romper o contato.
       -Isto no est bem -disse Willie, voltando-se para olh-lo-. Voc lana com a mo esquerda.
       -Mas eu sou canhoto, milord. A maioria dos homens lanam com a direita.
       -Canhoto?
       A boca do Willie se curvou outra vez.
       -Minha mo esquerda  mais conveniente para a maioria das coisas que a direita.
       - o que pensei que significava. Eu tambm. -Willie parecia agradado e um pouco envergonhado por sua declarao-. Mi... minha me dizia que no era correto e que devia aprender a usar a outra, como devem faz-lo-os cavalheiros. Mas papai disse que no e fez que me deixassem escrever com a mo esquerda. Disse que no importava se parecia torpe com a pluma, posto que quando se tratasse de brigar com espada seria uma vantagem.
       -Seu pai  um homem inteligente.
       Seu corao se debateu entre a gratido e o cimes, mas o primeiro sentimento era muito major.
       -Papai era soldado. -Willie se endireitou um pouco e ergueu seus ombros com orgulho-. Brigou em Esccia, em... bom, ejem. Tossiu e seu rosto ficou arroxeado ao ver a capa do Jamie e dar-se conta de que, possivelmente, estava falando com um guerreiro derrotado naquela guerra. Jogou nervosamente com o cano sem saber onde olhar.
       -Sim, sei. Ali foi onde o conheci. -cuidou-se bem de manter um tom indiferente. Recordar as circunstncias daquele primeiro encontro seria injusto para o John, o qual lhe permitia passar aqueles valiosos dias com seu filho-. Era um soldado muito galhardo -acrescentou Jaime-. E tinha razo sobre as mos. J comeaste a aprender com a espada?
       -S um poquito. -Willie esqueceu seu desconforto entusiasmado pelo novo tema-. Aprendi a fazer fintas e a parar. Papai diz que terei uma espada adequada quando chegarmos a Virginia. J sou o bastante alto para estocadas e paradas.
       -Ah, bem, se agarrar a espada com a mo esquerda, no acredito que haja problema em que o faa com o cano. vamos tentar o de novo ou no teremos comida.
       
       -Fiz-o! Fiz-o! pesquei um peixe!
       No terceiro intento Willie o obteve. Esquecendo sua dignidade e seu ttulo, comeou a saltar.
       -Claro. -Jamie recolheu a truta, que tinha um bom tamanho, e deu uma palmada nas costas do saltitante conde para felicit-lo-. Bem feito, moo! Parece que h rivalidade, vamos tentar tirar um par mais, n?
       Para quando o sol se ocultava pelas longnquas montanhas negras tinham uma respeitvel quantidade de trutas. Os dois estavam empapados, esgotados, mdio cegados pelo resplendor e muito contentes.
       -Nunca provei nada to delicioso -disse Willie com voz de sonho-. Nunca.
       Estava nu, envolto em uma manta, e tinha tendido a roupa em uma rvore. tornou-se para trs com um suspiro de felicidade e um leve arroto.
       O moo havia tornado a cabea para observar o fogo e podia olh-lo mais abertamente. Jamie permaneceu imvel, sentindo o batimento do corao de seu corao. Era um desses estranhos momentos que ocorriam raramente mas nunca se esqueciam. Momentos que gravava em seu corao e sua mente, um instante que recordaria em cada detalhe durante toda sua vida.
       Tinha uma lembrana assim de seu pai: sentado na parede da quadra, com o frio vento de Esccia agitando seu cabelo escuro. Podia evoc-lo e cheirar o aroma da palha seca, sentir seus prprios dedos gelados pelo vento e seu corao esquentado pela luz dos olhos de seu pai.
       Tinha breves vises do Claire, de sua irm, do Ian... pequenos momentos recortados do tempo e perfeitamente preservados por uma estranha alquimia da memria, fixados em sua mente como um inseto  luz. E agora tinha outro. Durante toda sua vida poderia recordar este momento. Recordaria a dourada luz do fogo no doce rosto de seu filho.
       -Deo gratias -murmurou, dando-se conta de que o havia dito em voz alta quando o moo se voltou surpreso.
       -Como?
       -Nada. Deve dormir -disse, se sentando e colocando-a capa-. Amanh ser um comprido dia.
       -No tenho sonho.
       Para demonstr-lo Willie se sentou e se passou as mos pela cabea, esfregando-se vigorosamente o cabelo. Jamie sentiu um sobressalto ao reconhecer aquele gesto como prprio. De fato, ia fazer exatamente o mesmo e teve que conter-se com grande esforo. Respirou profundamente e comeou a preparar as moscas para os anzis. Tinham-nas usado todas, e se queria pescar para o caf da manh precisava as repor.
       -Posso ajudar?
       Willie no espero a permisso e se sentou ao lado do Jamie. Sem comentrios, este empurrou a caixa de madeira com plumas de pssaros para o moo e agarrou um anzol da cortia onde penduravam.
       Durante um momento trabalharam em silncio, at que Willie se cansou do trabalho e comeou a fazer perguntas ao Jamie sobre a pesca, a caa, o bosque, os ndios e o lugar ao que se dirigiam.
       -No -respondeu Jamie a uma dessas perguntas-. Nunca vi um couro cabeludo na aldeia. So boa gente, agora bem, se lhes fizer algum dano no demoram para vingar-se -sorriu ironicamente-. Nesse aspecto, recordam-me um pouco aos highlanders.
       -A av diz que os escoceses tm filhos... -terminou bruscamente seu comentrio, com o rosto ruborizado e a vista concentrada em seu trabalho.
       -Como coelhos?
       Jamie deixou ver a ironia e o sorriso. Willie lhe olhou cautelosamente.
       -Algumas vezes as famlias escocesas so muito grandes,  certo. Consideramos que os filhos so uma bno. Willie se endireitou enquanto seu rubor desaparecia.
       -Entendo. Voc tem muitos filhos?
       -No, no muitos -respondeu, com os olhos cravados no cho.
       -Sinto muito... no pensei, 
        me queixar levantou a vista e viu que Willie se ruborizou outra vez.
       -Pensou o que? -perguntou intrigado.
       Willie tragou ar.
       -Bom, a... a... enfermidade, o sarampo. No vi meninos, mas no o pensei quando o disse.- quero dizer- que talvez tinha algum, mas...
       -OH, no. -Jamie sorriu para lhe tranqilizar-. Minha filha j  maior e faz tempo que vive em Boston.
       -J. -Willie deixou escapar o ar com grande Isso alvio  tudo?
       -No, tambm tenho um filho -disse enquanto o anzol se cravava na ponta de seu polegar e uma gota de sangue caa sobre a superfcie de metal-. Um bom moo ao que quero muito, embora agora no est em casa.
       
       28
       Conversao acalorada
       
       Ao final da tarde Ian tnia os olhos frgeis e a frente quente. sentou-se em seu camastro para me saudar em meio de alarmantes balanos e com os olhos desfocados. No tinha a mais mnima dvida, no obstante lhe examinei a boca para confirm-lo; as pequenas manchas brancas confirmavam com toda segurana o diagnstico. No pescoo comeavam a apreciar umas pequenas manchas rosadas.
       -Bem -pinjente resignada-. Tem-no. O melhor  que te venha comigo a casa e assim poderei te cuidar com mais comodidade.
       -Tenho o sarampo? vou morrer me? -perguntou.
       No parecia muito interessado; sua ateno se centrava em alguma viso interior.
       -No -pinjente decidida, esperando ter razo-. Encontra-te muito mal, no?
       -Di-me um pouco a cabea -respondeu.
       Por sorte ainda podia caminhar, pensei, enquanto o ajudava pelo atalho. Embora parecia fraco e desajeitado me levava mais de vinte centmetros e ao menos quinze quilogramas de peso.
       No havia mais de vinte metros at a cabana, mas ao chegar Ian tremia pelo esgotamento. Quando entramos, lorde John se sentou e fez um gesto para levantar-se da cama, mas o impedi.
       -Fique  -pinjente, depositando ao Ian na outra cama-. Me posso arrumar isso 
       Eu tinha dormido ali, tinha travesseiro, lenis e uma manta. Ajudei ao Ian a tir-los cales e as meias e o meti na cama. Tinha febre e aspecto de estar muito mais doente do que parecia com a luz do abrigo.
       A infuso de casca de salgueiro que tinha deixado repousando estava escura e aromtica, lista para beber. Servi-a com cuidado, olhando a lorde John.
       -Fiz-a para t. Mas se pode esperar...
       - obvio, dsela ao moo -disse, fazendo um gesto-. Esperarei. Posso ajudar em algo?
       Pensei em lhe sugerir que, se realmente queria me ajudar, podia ir at o privada em lugar de usar a bacinilla que eu tinha que esvaziar, mas podia ver que ainda no estava em condies de sair sozinho durante a noite. Assim que me limitei a negar com a cabea e me ajoelhei para dar a medicina ao Ian.
       Logo me sentei na cama e pus a cabea do moo em meu regao para lhe dar uma massagem nas tmporas. Coloquei os polegares sobre suas sobrancelhas e pressionei para cima; deixou escapar um gemido de desgosto, mas logo se relaxou deixando cair a cabea sobre minha saia.
       -Est bem -murmurou. Sua mo, grande e quente, fechou-se apertando minha boneca-.  o que fazia o chins, no?.
       -Assim . refere-se ao Yi Tien Cho, o senhor Willoughby -expliquei a lorde John, que observava o procedimento com gesto assombrado.
       Vacilei ao mencionar ao pequeno chins ante lorde John, j que a ltima vez que nos encontramos na Jamaica, lorde John tinha quatrocentos homens, entre soldados e marinheiros, percorrendo a ilha em perseguio do senhor Willoughby como suspeito de um crime particularmente atroz.
       -O no o fez, sabe? -senti-me forada a dizer.
       Lorde John arqueou uma sobrancelha.
       -Isso est bem -disse com secura-, j que nunca conseguimos apanh-lo.
       -Me alegro.
       Olhei ao Ian e movi os polegares pressionando outra vez.
       -N... Devo supor que sabe quem matou  senhora Alcott?
       -Sim, sei -pinjente vacilando-, mas...
       -Sabe? Um assassino? Quem foi? O que aconteceu, tia? Ai!         
       Os olhos do Ian se abriram com interesse e se fecharam pela dor que lhe produzia a luz.
       -Fica aquieto -pinjente esfregando os msculos de diante de suas orelhas-. Est doente.
       -Est bem, tia. Mas quem foi? No pode comear a contar coisas como esta e as deixar na metade, esperando que durma sem conhecer o resto. Pode faz-lo?
       Abriu um olho pedindo ajuda a lorde John, quem lhe sorriu.
       -No quero responsabilidades no assunto -assegurou-. Entretanto -continuou com firmeza, dirigindo-se ao Ian-, deve pensar que talvez a histria incrimine a algum que sua tia prefere proteger. Nesse caso seria uma desconsiderao insistir nos detalhes.
       -No, nada disso -assegurou-lhe Ian- Tio Jamie no mataria  ningum salvo que tivesse uma boa razo.
       Pela extremidade do olho viu como lorde John se sobressaltava. Era evidente que no lhe tinha ocorrido que poderia ter sido Jamie.
       -No -assegure-. No foi ele.
       -Bom, se eu tampouco fui, a quem mais ia proteger tia Claire?
       -Est-te fazendo iluses, Ian -pinjente secamente-. Mas j que insiste...
       A histria implicava a algum mais: a mulher que primeiro conheci como Geillis Duncan e mais tarde como Geillis Abernathy, quo mesma mandou seqestrar ao Ian em Esccia, teve-o prisioneiro na Jamaica e lhe fez passar por coisas que muito tempo depois pde comear a nos explicar.
       Os dois doentes estavam esperando minha histria, assim, reprimindo a macabra necessidade de comear com o "era uma vez...", apoiei-me na parede e com a cabea do Ian ainda sobre minhas saias comecei a histria do Rose Hall e seus donos: a bruxa Geillis Duncan; o reverendo Archibald Campbell e sua estranha irm Margaret; a profecia do Fraser e a noite de fogo e sangue de crocodilo, quando os escravos de seis plantaes com o passar do rio Yailahs se rebelaram e mataram a seus amos, animados pelo houngan Ishmael.
       Dos acontecimentos posteriores na cova do Abandawe, no Haiti, no disse nada. depois de tudo, Ian tinha estado ali- E esses acontecimentos no tinham nada que ver com o assassinato de Mina Alcott.
       -Um crocodilo -murmurou Ian-. O viu, tia?
       -No s o vi, mas tambm o pisei -assegurei-. Ou mas bem primeiro o pisei e logo o vi. Se o tivesse visto teria sado correndo.
       ouviu-se uma risada da cama. Lorde John se arranhava um brao sonriendo.
       -Deve encontrar a vida muito aborrecida aqui depois de suas aventuras nas Antilhas.
       -Posso suportar um pouco de aborrecimento -disse com sabedoria.
       Falar da Jamaica me tinha distrado um pouco de minhas preocupaes pelo Ian. A dor de cabea no era um sintoma estranho para algum com sarampo, mas a dor severo e prolongada sim. A meningite e a encefalite eram perigosas e possveis derivaes da enfermidade.
       -Como est sua cabea? -perguntei.
       -um pouco melhor -respondeu, tossindo com os olhos fechados. Logo os abriu com cuidado-. Tenho muito calor, tia.
       Molhei um trapo em gua fria e o passei pela cara fazendo que se estremecesse.
       -A senhora Abernathy me deu a beber ametista para a dor de cabea -murmurou.
       -Ametista? -Estava assombrada, mas segui falando com suavidade-. Bebeu ametista?
       -Em vinagre. E prolas em vinho doce, mas isso era para a cama -disse-. Era muito boa para as pedras preciosas. Queimou p de esmeralda na chama de uma vela negra e esfregou meu pnis com o diamante; disse que era para mant-lo duro.
       Ouvi um dbil som da outra cama, levantei a vista e vi lorde John apoiado em um ombro com os olhos muito abertos.
       -E funcionaram as ametistas?
       Sequei a cara do Ian com o trapo.
       -O diamante, sim.
       Tentou rir com picardia adolescente, mas s pde tossir.
       -Temo-me que aqui no temos ametistas -pinjente-, mas h vinho se quiser.
       Queria e lhe ajudei a beber um pouco rebaixado com gua; logo se voltou a deitar com o rosto avermelhado e os olhos inchados. Lorde John tambm se deitou deixando seu cabelo loiro solto sobre o travesseiro.
       -Para isso  para o que ela queria aos moos. -molhou-se os lbios que comeavam a gretar-se o Dizia que a pedra crescia nas vsceras do moo que elegia. Este no tinha que ter estado nunca com uma moa, isso era importante. Se no era assim a pedra no funcionaria. Se o moo j tinha conhecido mulher...
       Fez uma pausa para tossir e ficou sem flego, com o nariz gotejando. Alcancei-lhe um leno.
       -Para que queria ela a pedra?
       O rosto de lorde John estava cheio de simpatia. Sabia muito bem como se sentia Ian nesse momento, mas a curiosidade lhe impulsionava a perguntar. No me opus, eu tambm queria saber.
       Ian comeou a negar com a cabea, mas se deteve com um gemido.
       -Ah! Minha cabea parece que v arrebentar! No sei. No me disse isso. S que era necessrio, que tinha que t-la para estar-se... gura -quase no pde terminar por um ataque de tosse.
       -Melhor no fale... -comecei, quando me interrompeu um suave golpe na porta.
       Fiquei imvel enquanto lorde John saa da cama e tirava a pistola de uma de suas largas botas.
       -Quem anda a? -perguntou lorde John com voz surpreendentemente forte.
       A resposta foi uma srie de arranhes e um fraco gemido.
       - seu maldito co, Ian -pinjente.
       -Est segura? -perguntou lorde John em voz baixa, ainda empunhando a pistola-. Poderia ser uma armadilha dos ndios.
       -Cilindro! -gritou Ian com voz rouca e entrecortada.
       Cilindro conhecia a voz de seu amo, rouca ou no; ouviu-se um profundo e alegre latido, seguido de uma srie de frenticos saltos e arranhes.
       -Odioso co -pinjente, me apressando a abrir a porta. Deixa de fazer rudo ou te converterei em um tapete, em uma jaqueta ou em um pouco parecido.
       Minha ameaa recebeu a ateno que merecia. Cilindro entrou enlouquecido de alegria e lanou seus setenta quilogramas sobre a cama do Ian, fazendo que se balanasse perigosamente. Passando por cima os gritos de protesto de seu ocupante, procedeu a lhe lamber a cara e os braos, que tinha levantado para proteger-se.
       -Co mau -disse Ian, tratando de apart-lo e rendo em que pese a seu desconforto-. Co mau, abaixo, hei-te dito.
       -Abaixo! -repetiu lorde John, com tom gelado.
       Cilindro, interrompido em suas demonstraes de afeto, voltou-se para lorde John e lhe mostrou os dentes.
       Lorde John levantou sua pistola com gesto convulsivo.
       -Abaixo, a dhiobhu,il!-ordenou Ian, empurrando os quartos traseiros de Cilindro-. Aparta o traseiro peludo de minha cara, animal malvado!
       Cilindro esqueceu imediatamente a lorde John, deu umas voltas ao redor da cama e se desabou perto do corpo de seu amo. Lambeu a orelha do Ian e, com um grande suspiro, colocou-se sobre o travesseiro com o focinho entre as patas,
       -Quer que o tire, Ian? -ofereci-me, embora no sabia como faz-lo.
       -No, deixa-o -disse tossindo-.  um bom moo. Verdade, a charaid!
       Apoiou uma mo no cangote do co e sua bochecha sobre o corpo peludo.
       -Muito bem, ento a dormir.
       Toquei-lhe a frente, olhando os olhos amarelos que me vigiavam. A febre tinha baixado um pouco e j se dormiu.
       Movi-me pela habitao sem fazer rudo, me ocupando de guardar os resultados do trabalho do dia na despensa.
       Quando retornei, Ian dormia profundamente e Cilindro logo que abriu um olho para me ouvir. Olhei para lorde John que ainda estava acordado, mas ele no me olhou.
       Sentei-me ao lado do fogo e agarrei a grande cesta da l. Tinham passado dois dias desde que Jamie e Willie se partiram. Dois dias de caminho at a aldeia tuscarora e outros dois dias para retornar, se no acontecia nada que os detivera.
       -Tolices -murmurei.
       Nada os ia deter. Logo estariam de volta em casa. 
       A cesta estava cheia de meadas de l e de linho. Algumas me tinha dado isso Yocasta e outras as tinha fiado eu. A diferena era bvia, mas utilizaria meus fios para algo, no para meias ou casacas mas sim para cobrir a bule.
       Jamie se havia sentido impressionado e divertido no Lallybroch, quando descobriu que eu no sabia tecer. Jenny e as faxineiras se ocupavam da malha e eu realizava outras tarefas. Mas agora que devia aprender, surpreendida-a tinha sido eu, ao me inteirar de que Jamie sim sabia tecer.
       - obvio que sei -havia-me dito, me contemplando intrigado-. Ensinaram-me quando tinha sete anos. Em sua poca no lhes ensinam de tudo aos meninos?
       -Bom -senti-me meio tola-, algumas vezes ensinam s meninas, mas aos meninos no.
       Assim descobri que Ian tambm sabia tecer, o qual era uma ocupao muito til para as largas horas aos cuidados das ovelhas ou as vacas. Eu tinha aprendido o bsico e estava tecendo um xale, mas essa atividade que para o Jamie e Ian resultava relaxante para mim no servia aquela noite.
       Deixei a malha sobre minha saia e fechei os olhos um momento. Cuidar doentes  uma tarefa pesada e estava muito cansada. Por um instante, desejei que todos se fossem. Abri os olhos e olhei a lorde John ressentidamente, mas o ataque de autocompasin se desvaneceu ao v-lo. Jazia de costas, com um brao detrs da cabea e olhando sombrio para o teto.
       Os olhos escurecidos faziam que seu rosto parecesse marcado pela ansiedade e a dor. Talvez fora efeito do fogo, mas me senti envergonhada. Era certo que no o tinha querido ali, que estava molesta por sua intruso em minha vida e o peso das obrigaes que havia me trazido sua enfermidade. Sua presena, por no falar da do William, causava-me insegurana. Mas logo partiriam, Jamie voltaria para casa, Ian melhoraria e teria de novo minha paz, minha felicidade e meus lenis limpa. O que lhe tinha acontecido a ele era para sempre.
       John Grei tinha perdido a sua esposa, como ele a considerava. Fazia falta valor para trazer aqui ao William e deix-lo ir com o Jamie. Eu no queria me fazer  idia de que aquele maldito homem no tinha podido evitar o sarampo. 
       Levantei-me para pr uma panela no fogo. Uma boa taa de ch me parecia o mais apropriado. Quando me levantei vi que lorde John movia a cabea distrado em seus pensamentos.
       -Ch? -pinjente, incmoda atrs de meus poucos caridosos pensamentos.
       Sorriu fracamente e assentiu.
       -Agradeceria-o, senhora Fraser.
       Tirei a caixa de ch, duas taas, as colheres e o de acar, essa noite no poria melao. Uma vez que esteve tudo preparado me sentei perto da cama e bebemos em silncio; a ambos invadia um estranho acanhamento.
       -Lamento-o -pinjente formalmente, uma vez que deixei minha taa-. Tinha a inteno de dar minhas condolncias pela morte de sua esposa.
       - uma coincidncia que me diga isso neste momento -respondeu-. Estava pensando nela.
       Como estava acostumada a que todo mundo adivinhasse meus pensamentos com apenas me olhar  cara, a mudana resultou lhe gratifique.
       -A estranhas muito...?. Vacilei um pouco, mas a pergunta no lhe pareceu indiscreta
       -Realmente, no sei. Parece-te uma insensibilidade?
       -No posso diz-lo -respondi, um pouco custica-. Com segurana, sabe melhor que ningum como te afetou.
       -Sim, afetou-me -deixou cair a cabea sobre o travesseiro- Ou me afeta. Por isso vim, entende?
       -No, no o entendo.
       Ian tossiu e me levantei para v-lo. Uma mo lhe pendurava fora da cama; ainda estava quente mas a febre j no representava perigo; a levantei e o mes o cabelo com suavidade.
       - muito boa com ele. Tem filhos?
       Assombrada, levantei a vista e o olhei. Observava-me com o queixo apoiado no punho.
       -Eu..., ns temos uma filha.
       -Ns? -disse cortante-. A garota  do Jamie?
       -No a chame "a garota" -disse irracionalmente zangada-. Seu nome  Brianna e sim  do Jamie.
       -Minhas desculpas -disse ceremoniosamente-. No quis lhe ofender. Estava surpreso.
       Olhei-o diretamente, muito cansada para ser diplomtica.
       -E um pouco ciumento, possivelmente?
       Seu rosto, carregado de diplomacia, no deixava traslucir nada depois da fachada de amabilidade. Mas o segui olhando at que deixou cair a mscara e um brilho de compreenso iluminou seus olhos azuis.
       -Ento, uma coisa mais que temos em comum.
       Assombrou-me sua acuidade.
       -No me diga que no o pensou quando decidiu vir aqui.
       Estudou-me com os olhos entrecerrados.
       -Pensei-o, sim -disse finalmente-. Entretanto, at no caso de que eu fora o bastante mesquinho para pensar que te ofenderia ao trazer para o William aqui, devo te pedir que cria que tal ofensa no foi o motivo de minha viagem.
       -Acredito-te -pinjente-. O que passa  que no entendo qual foi o motivo.
       No o olhei, mas senti que se encolhia de ombros.
       -O bvio... permitir que Jamie visse o moo.
       -E o outro bvio.,, ver o Jamie.
       produziu-se um marcado silncio.
       - uma mulher notvel -disse finalmente.
       -Em que sentido? -perguntei sem levantar a vista.
       -No  nem cautelosa nem sinuosa. De fato no acredito ter conhecido a ningum, j seja homem ou mulher, to cruamente sincero.
       -Bom, no foi uma eleio. Nasci assim.
       -Quo mesmo eu -disse muito brandamente.
       No respondi, no acreditava que o houvesse dito para que eu o ouvisse.
       Levantei-me e fui at o aparador. Agarrei trs potes: hortel, valeriana e gengibre silvestre e amassei as folhas e as razes secas no morteiro, enquanto a gua da panela comeava a ferver.
       -O que est fazendo ?-perguntou lorde John.
       -Preparando uma infuso para o Ian. A mesma que te dava faz quatro dias.     
       -Ah. Ouvimos falar de ti enquanto viajvamos desde o Wilmington -disse Grei. Seu tuno era o de uma conversao normal-- Parece que  muito conhecida na zona graas a suas habilidades.
       -Mmm.
       -Dizem que  uma mulher com poderes. O que querem dizer, sabe?
       -Algo, desde parteira a mdica e desde adivinha a feiticeira. Depende de quem o diga.
       Fez um som que podia ser uma pequena gargalhada e logo ficou em silncio.
       -Crie que esto a salvo.
       Era uma afirmao, mas me estava perguntando isso.
       -Sim. Jamie no tivesse levado a moo se pudesse haver algum perigo. Se conhecer o Jamie seguro que sabe, no? -acrescentei.
       -Conheo-o.
       -Conhece-o, realmente.
       -Conheo-o o bastante bem, ou acredito conhec-lo, para me arriscar a mandar ao William s com ele. E para estar seguro de que no lhe dir a verdade.
       -No, no o far, tem razo nisso.
       -Voc o faria?
       Levantei a vista surpreendida.
       -Realmente crie que o faria?
       Estudou meu rosto cuidadosamente e sorriu.
       -No -disse com calma-. E te dou tas obrigado.
       Soprei e deixei cair o preparado na bule. Guardei os potes e me voltei a sentar para continuar tecendo.
       -Foi muito generoso de sua parte deixar que Willie fora com o Jamie. E valente -acrescentei um tanto irritada.
       -Jamie teve minha vida em suas mos durante muitos anos-respondi-. Confio que seja igual com o William.
       -E sim Willie recorda a uma moo de quadra chamado MacKenzie mais do que voc acreditava? Ou lhe ocorre olhar sua cara e a do Jamie?
       -Os moos de doze anos no destacam por sua aguda percepo -disse secamente-. E acredito que para um moo que viveu toda sua vida na segura crena de que  o nono conde do Ellesmere, a idia de que poderia ser o filho ilegtimo de uma moo de quadra escocs,  algo que no entraria em sua cabea ou que, de ser assim, apartaria imediatamente.
       Fiquei em silncio. Ian tossia mas seguia dormido. O co se moveu e estava enroscado sobre suas pernas como uma manta de pele.
       Grei esteve tanto tempo em silncio que me surpreendeu quando falou de novo:
       -Disse-te que sentia algo por minha esposa.  assim. Afeto. Confiana- Lealdade. Conhecamo-nos de toda a vida; nossos pais eram amigos e eu conhecia seu irmo. Poderia ter sido minha irm,
       -E ela estava satisfeita com isso... sendo sua irm?
       Lanou-me um olhar entre interessada e furiosa.
       -Voc no  uma mulher com a que se possa viver comodamente. -encolheu-se de ombros com impacincia-. Sim, acredito que ela estava satisfeita com a vida que levava. Nunca disse o contrrio.
       Minha resposta foi um suspiro muito forte.
       -Fui um marido adequado para ela -disse  defensiva-, Que no tivssemos filhos no foi por mi...
       -No quero ouvir isso!
       -No quer? -Sua voz era baixa para no despertar ao Ian, mas tinha perdido o tom diplomtico, havia zango nela-. Perguntou-me por que tinha vindo, questionou meus motivos e me acusou de ter cimes. Talvez no queira saber, porque se o faz no poder seguir pensando de mim o que decidiu pensar desde o comeo.
       -E como diabos sabe o que decidi pensar sobre t?
       -No  assim?
       Olhei-o  cara durante um minuto sem me preocupar com ocultar nada.
       -mencionaste o cimes -disse Grei.
       -Fiz-o. Voc tambm.
       Olhou para outro lado e depois de um momento continuou.
       -Quando soube que Isobel tinha morrido... no significou nada para mim. Tnhamos vivido Juntos durante anos, embora no nos vamos desde fazia dois. Pensei que tnhamos compartilhado uma cama e uma vida, que deveria me importar. Mas no era assim. -Respirou profundamente e continuou-: Mencionou a generosidade. No foi isso. Vim para ver... para saber sim ainda podia sentir. SIM eram meus prprios sentimentos os que tinham morrido ou s Isobel.
       -S Isobel? -repeti.
       Permaneceu imvel olhando ao longe.
       -Ao menos posso sentir vergonha -disse muito brandamente. Dava-me conta de que j era muito tarde, o fogo tinha diminudo e a dor de meus msculos me dizia que fazia momento que deveria haver ido  cama.
       Ian estava inquieto. fui arrumar lhe os lenis e lhe dava uma taa da infuso.
       -Sentir-se melhor pela manh.
       Tinha manchas no pescoo, mas a febre tinha baixado.
       Ficava uma boa quantidade da infuso, assim servi outra taa e a alcancei a lorde John. Surpreso, sentou-se na cama e agarrou a taa.
       -E agora que vieste e o viu... ainda lhe afeta?
       Olhou-me fixamente durante um momento.
       -OH, sim.
       Com mo firme bebeu da taa.
       
       Ian passou uma m noite e quando conseguiu sumir-se em um sonho reparador, perto da madrugada, aproveitei para descansar e desfrutar no cho de umas poucas horas de sonho, at que despertou e! zurro do Clarence, a mula.
       Era uma criatura muito socivel que se alegrava profundamente ante a presena de qualquer que considerasse amigo, categoria que abrangia virtualmente a tudo o que andar sobre quatro patas. Cilindro, ofendido por ter sido substitudo em seu posto de co guardio, saltou da cama do Ian, passou-me por cima e saiu pela janela aberta uivando como um lobo.
       Meu corao deixou de saltar quando vi que no eram Jamie e Willie, mas minha desiluso se transformou em assombro quando vi quem era o visitante: o pastor Gotcfried, chefe da Igreja luterana de Salem. Tinha visto o pastor nas casas de meus doentes, mas isto era algo inslito.
       demoravam-se quase dois dias a cavalo de Salem e o alemo luterano mais prximo a nossa propriedade estava a umas dezoito milhas. O pastor no era um homem acostumado a cavalgar, assim pensei que tinha que ser algo muito urgente o que lhe trazia para casa.
       -Fora, co malvado! -disse a Cilindro, que mostrava os dentes e rugia ao cavalo do pastor-. Quieto, hei dito!
       O pastor era um hombrecito rechoncho, com uma barba cinza e frisada que emoldurava seu rosto habitualmente luminoso e sorridente. Embora agora estava plido e tinha um aspecto esgotado.
       -Meine me D -saudou, tirando o chapu e inclinando a cabea-, Ist Euer Mann hier.
       Eu falava um pouco de alemo e me dava conta de que procurava o Jamie; assinalei o bosque com a cabea. Segui fazendo gestos at que uma voz falou cortante,
       -Was ist os? -quis saber lorde John, saindo  porta.
       ps-se os cales, embora seguia descalo e com o cabelo solto.
       O pastor me dirigiu um olhar escandalizado, pensando o pior, mas trocou de expresso ante as rpidas explicaes de lorde John. O pastor ri dirigiu uma inclinao de desculpa e falou ansioso com Grei.
       -O que  o que est dizendo? -perguntei.
       -Conhece uma famlia chamada Mueller?
       -Sim -respondi, me alarmando imediatamente-. Faz trs semanas ajudei a nascer  filha da Petronella Mueller.
       -Ah! -Grei se umedeceu os lbios e olhou ao cho-. Temo-me que... a menina morreu. E tambm a me.
       -No, no. -Deixei-me cair no banco ao lado da porta- No. No pode ser.
       -Diz que tinham Maseru, suponho que ser sarampo.
       -Mas para que quer ao Jamie? -perguntei.
       -Acredita que Jamie far entrar em razo ao Herr Mueller. So amigos?
       -No, no exatamente. Jamie golpeou ao Gerhard Mueller na boca e o atiro ao cho a primavera passada frente ao moinho.
       -J vejo. Suponho que o trmino "raciocinar" no  o adequado.
       -Com o Mueller no se pode raciocinar com nada que seja mais sofisticado que uma tocha. Mas no que est sendo pouco razovel?
       Grei franziu o sobrecenho e me dava conta de que no entendia o de sofisticado embora captava o sentido. voltou-se, perguntou ao pastor e logo escutou. Pouco a pouco e com constantes interrupes surgiu a histria.
       Havia uma epidemia de sarampo no Cross Creek, tal como havia dito lorde John. Era evidente que se estendeu por Salem; mas os Mueller, que viviam isolados, tinham contrado a enfermidade fazia muito pouco. Quando apareceu em sua famlia, Mueller pensou que era culpa de uns ndios que tinham acontecido pedindo comida e bebida. Como Mueller os tratou mau, os ndios, ofendidos, fizeram signos misteriosos antes de partir.
       Mueller estava convencido de que a enfermidade era um malefcio dos ndios. Pintou smbolos nas paredes e mandou chamar o pastor para que realizasse um exorcismo. Mas aquelas precaues no serviram para nada. Quando Petronella e a recm-nascida morreram, o ancio perdeu o pouco julgamento que tinha, jurou vingana contra os selvagens e obrigou a seus filhos e a seus genros a que o acompanhassem aos bosques.
       Tinham retornado trs dias atrs, os filhos plidos e silenciosos e o ancio pictrico de fria satisfao. O pastor estava ali quando aconteceu. Na quadra lhe tinham ensinado duas largas caudas de cabelo negro que penduravam da porta, com a palavra Rache grafite ao lado.
       -Isso quer dizer "vingana" -traduziu lorde John.
       -Sei -disse com a boca seca-. Tenho lido ao Sherlock Holmes. Quer dizer que ele...
       - evidente.
       O pastor seguia falando e me sacudia o brao tratando de me transmitir sua urgncia.
       -Mueller vem para c.
       Grei me olhou alarmado.
       Impressionado pelos couros cabeludos, o pastor tinha ido procurar ao Herr Mueller, mas descobriu que tinha partido para a Colina do Fraser para ver-me para mim.
       Se no tivesse estado sentada me teria desacordado. Senti que o sangue abandonava minhas bochechas,
       -por que? -perguntei-. Pensar que...? No pode ser! No pode acreditar que eu tivesse algo que ver com a morte da Petronella e da menina. Pode ser?
       Voltei-me para o pastor.
       -O pastor diz que no sabe o que pensava Mueller ou o que se propunha ao vir at aqui -disse lorde John-, Encontrou-o duas horas depois, desacordado a um lado do caminho.
       O corpulento granjeiro tinha passado vrios dias sem comer em sua busca de vingana e ao voltar tinha bebido muita cerveja. O pastor no tinha tentado levant-lo, mas sim tinha deslocado a nos acautelar.
       No tinha dvidas de que meu Mann poderia enfrentar-se ao Mueller, mas se Jamie no estava... Sugeriu que nos partssemos e tratei de lhe explicar que no podamos deixar ao Ian.
       -Ele no passou o sarampo -disse lorde John voltando-se para mim-. No deve ficar aqui ou correr perigo de contagiar-se. No  assim?
       -Sim. -Tratei de me recuperar-. Sim, deve ir-se imediatamente. Voc j no  contagioso. Mas Ian sim. -Tentei me arrumar o cabelo, horrorizada por e! lembrana dos couros cabeludos do celeiro do Mueller.
       Lorde John falava autoritariamente ao pequeno pastor para que partisse logo. Eu lhe sorri tratando de lhe tranqilizar.
       -lhe diga que estarei bem, quer? Ou no se ir.
       -Fiz-o. Disse-lhe que sou um soldado e que no vou deixar que te passe nada.
       O pastor se aproximou de mim e do cavalo apoiou uma mo sobre minha cabea.
       -Seid gesegnet -disse-, Benedite.
       -Diz... -comeou lorde John.
       -Entendi-o.
       Permanecemos em silncio observando como se afastava. Perguntei-me quem teria sido o branco da cega vingana do Mueller. Sua granja estava longe, mas podia ter chegado at algumas aldeias de tuscaroras ou cherokee. Teria entrado em alguma aldeia? E se era assim, que matana teria deixado detrs de si? Ou pior, que matana seguiria?
       Estremeci-me pese ao calor do sol. Mueller no era o nico homem que acreditava na vingana. A famlia, o cl ou a aldeia de que tivesse matado procurariam vingana e no se deteriam com os Mueller, se  que conheciam a identidade dos assassinos. E se no era assim, se somente sabiam que os assassinos eram brancos... estremeci-me outra vez.
       -Quanto eu gostaria que Jamie estivesse aqui.
       No me dava conta de que tinha falado em voz alta at que lorde John respondeu.
       -Eu tambm. Embora comece a pensar que William estar mais seguro fora, e no s pela enfermidade.
       -No deveria estar levantado! -exclamei e te agarrei do brao-. v deitar te imediatamente.
       -Estou bastante bem -disse irritado, mas no protestou quando insisti em que voltasse para a cama.
       Ajoelhei-me para examinar ao Ian; estava inquieto e com muita febre, tinha os olhos fechados, a cara desfigurada pelas rodelas e os gnglios do pescoo inflamados e duros. Cilindro colocou o focinho baixo meu cotovelo, cheirando a seu amo e gemendo.
       -ficar bem -disse com firmeza- por que no vai fora a vigiar se vierem visitas?
       Cilindro desoy minha sugesto e se sentou pacientemente observando como lavava ao Ian e lhe dava a bacinilla enquanto esperava o alegre anncio do Clarence de que se aproximavam visitas.
       
       Foi um comprido dia. depois de vrias horas me sobressaltando ante cada rudo, cumpri com a rotina. Ocupei-me do Ian, que se sentia muito mal, dos lhes anime, do jardim, de agarrar pepinos e de pr a lorde John, que queria me ajudar, a debulhar feijes.
       -me fale sobre esse Mueller -disse lorde John.         
       Tinha recuperado o apetite e terminou seu prato de papa fritas.
       - o chefe de uma grande famlia de alemes luteranos, como j te ter dado conta- Vivem a umas dezoito milhas daqui, abaixo, no vale do rio.     
       -Se?                                        
       -Gerhard  corpulento e teimoso. Fala pouco inglesa.  velho. Mas  forte!
       -Essa briga que teve com o Jamie... pode lhe guardar rancor?
       - uma pessoa vingativa, mas no acredito que por isso lhe guarde rancor. No foi exatamente uma briga. Foi... Sabe algo sobre mulas?
       Sorriu e arqueou as sobrancelhas.
       -um pouco,
       -Bom, Gerhard Mueller  uma mula. No  que tenha mau carter ou que seja estpido, mas no disposta ateno a nada que no seja o que est em sua cabea e costa muito trabalho tirar o da. Jamie interveio em uma discusso que teve com uma filha do moleiro pelos sacos de trigo, e teve que lhe fazer raciocinar de um murro. Finalmente, Mueller, depois de que o moleiro lhe desse um saco mais de farinha, aceitou v partiu agradecido.
       -J vejo. Ento, no tem m vontade?
       -Absolutamente. Foi muito amvel comigo quando fui  granja para ajudar no nascimento da menina.
       Me fez um n na garganta ao recordar que j no estavam.
       -Toma -disse Grei e empurrou a jarra com cerveja para mi. Bebi e fiquei um minuto com os olhos fechados.
       -Obrigado -pinjente, abrindo os olhos.
       Grei me observava com expresso de profunda simpatia.
       -No  que no tenha acontecido antes -expliquei-. Aqui morrem muito facilmente, em especial os jovens, e quase no posso fazer nada.
       Senti algo quente em minha bochecha e me surpreendeu tocar uma lgrima. Grei tirou um leno e me alcanou isso. No estava muito limpo, mas no me importou.
       -Perguntei-me o que  o que ele viu em ti -disse em um tom deliberadamente ligeiro.
       -Ah, sim? Que adulador.
       Soei-me o nariz.
       -Quando comeou a me falar de ti, ambos pensvamos que estava morta. E embora indubitavelmente  uma mulher formosa, nunca falou de sua aparncia.
       Para minha surpresa me agarrou a mo e a apertou.
       -Tem seu valor.
       Isso me fez rir.
       -Se soubesse... -respondi.
       Sorriu-me fracamente e passou um dedo, suave e quente, pelos ndulos de minha mo.
       -Ele nunca se detm por temor a machucar-se. Acredito que seu tampouco.
       -No posso. -Suspirei e me soei o nariz-. Sou mdica.
       -Sim, -o. E no te agradeci que me tenha salvado a vida.
       -No fui eu. No h muito que possa fazer ante uma enfermidade. Tudo o que posso fazer ... estar a.
       -um pouco mais que isso -disse secamente e soltou minha mo-. Tem mais cerveja?
       Comeava a ver claramente o que tinha visto Jamie no John Grei.
       A tarde passou tranqila. Ian tossia e se queixava, mas se desenvolveu a erupo e a febre baixou um pouco. No queria comer e pensei que poderia lhe dar leite. Isso me fez recordar que era hora de ir ordenhar. Deixei minha costura, murmurei algo a lorde John e fui at a porta. Ao me abri-la encontrei frente a Gerhard Mueller no ptio de entrada.
       encolheu-se da ltima vez que o tinha visto. Seu rosto era a caveira de um ancio. Seus olhos se cravaram em mim com a nica fasca de vida que ficava em seu corpo.
       -Herr Mueller -disse com uma voz que soou tranqila a meus ouvidos-, Wie geht  Euchf.
       Deu um passo para mim e involuntariamente retrocedi.
       -Frau Klara -disse em tom de splica.
       Detive-me. Queria chamar lorde John, mas vacilei. No ia chamar me por meu nome de pilha se desejasse me fazer danifico.
       -Esto mortas -disse-. Mein Madchen. Mein Kind. As lgrimas saram de seus olhos injetados em sangue e correram por suas bochechas.
       -Sei.-respondi-. O sinto.
       Assentiu outra vez e me deixou lev-lo at o banco, onde me obrigou a me sentar com ele.
       Sbitamente se voltou e me abraou me apertando contra sua casaca suja. sacudia-se por causa dos soluos e, at sabendo o que tinha feito, passei-lhe os braos pelo pescoo. Por fim me soltou e de repente viu lorde John, quem no sabia se devia intervir ou no. O ancio se sobressaltou ao v-lo.
       -Mein Gott! -exclamou horrorizado.
       O sol pegava no rosto de lorde John iluminando suas rodelas.
       O ancio comeou a procurar ligo em seu casaco, dizendo coisas em alemo que no pude entender.
       -Diz que tinha medo de ter chegado tarde e se alegra de que no seja assim -explicou Grei enquanto contemplava ao ancio granjeiro com desgosto-. Diz que lhe trouxe algo, um talism que a manter a salvo da enfermidade e a proteger das maldies.
       O ancio tirou algo envolto em tecido e o deixou sobre minha saia.
       -Agradece-lhe toda a ajuda que deu a sua famlia e pensa que  uma mulher muito boa, to querida para ele como uma de suas noras. Diz que...
       Mueller abriu a parte de tecido com mos trementes e Grei no pde continuar.
       Abri a boca mas no pude deixar sair som algum. Devi fazer algum movimento involuntrio, porque caiu ao estou acostumado a deixando ao descoberto um molho de cabelo grisalho no que ainda havia um pequeno adorno de prata e as plumas de pssaro carpinteiro empapadas em sangue.
       Mueller continuava falando e Grei tratava de traduzir, mas eu s entendia pela metade. Em meus ouvidos ressonavam as palavras que tinha escutado um ano antes, ao lado do arroio, na voz suave do Gabrielle traduzindo ao Nayawenne.
       Seu nome significa: "Pode ser, pode acontecer". Agora, tudo o que ficava como consolo eram suas palavras: "Ela diz que no deve preocupar-se; a enfermidade  enviada pelos deuses. No ser por sua culpa.
       
       29
       Sepulturas
       
       Jamie cheirou a fumaa muito antes de que a aldeia fora visvel para eles. Willie viu como ficava rgido e se iava na cadeira olhando cautelosamente ao redor.
       -O que acontece? -sussurrou o moo-. O que h?
       -No sei. -Manteve a voz baixa, embora no havia possibilidade de que ningum os ouvisse. baixou-se do cavalo, entregou as rdeas ao Willie e assinalou um penhasco ao p do qual havia uns arbustos.
       -Leva os cavalos atrs do penhasco -disse-. Ali h um atalho esboado pelos veados que conduz at um bosque. Fica entre as rvores e me espere ali. -Vacilou porque no queria assustar ao moo-. Se ao obscurecer no tornei, vete imediatamente, no espere  manh. Retorna pelo arroio que acabamos de cruzar, gira a sua esquerda e continua at ouvir uma cascata; detrs dela ver uma cova que usam os ndios em suas caadas.
       Jamie apertou a perna do moo para lhe dar nimos.
       -Fique ali at que amanhea -disse-, e se no ter retornado para ento, volta para casa. Deve manter o sol a sua esquerda durante a manh e a sua direita depois do meio-dia. depois de dois dias de viagem deixa as rdeas do cavalo soltas, pois estar o bastante perto como para que encontre sozinho o caminho.
       Respirou profundamente perguntando-se que mais podia lhe dizer, mas no ficava nada.
       -Que Deus te acompanhe, moo.
       Dirigiu-lhe um sorriso para lhe dar confiana; deu uma palmada ao cavalo para que comeasse a andar e se voltou para o aroma de queimado. No era o aroma caracterstico das fogueiras que se faziam nas aldeias; nem sequer o dos grandes fogos das cerimnias que Ian lhe tinha explicado, quando queimavam rvores no centro da aldeia. O aroma provinha de um fogo muito major.
       Com grande precauo, aproximou-se at uma pequena colina de onde sabia que teria uma vista panormica da aldeia. logo que saiu do amparo do bosque pde ver as nuvens de fumaa cinza que subiam do lugar onde se encontravam as moradias ndias.
       Encontrar-se ante tal desolao o encheu de receio. Observou com cuidado procurando alguma sinal de vida entre as runas. Nada se movia, salvo a fumaa agitada pelo vento. Teriam sido os cherokee atacando do sul? Ou os ltimos habitantes de alguma das tribos algonquinas do norte?
       Uma baforada de fumaa acompanhada de aroma de carne queimada lhe golpeou a cara. inclinou-se para vomitar e ao endireitar-se, enquanto se limpava a boca, ouviu um latido longnquo. Isso lhe tranqilizou, pois sabia que os habitantes da zona no levavam ces para atacar. deu-se a volta e baixou rapidamente nessa direo com o corao pulsando rapidamente. Se havia superviventes da matana os ces estariam com eles.
       Ao chegar  aldeia continuou em silncio, sem atrever-se a gritar, O fogo se iniciou fazia menos de um dia pois a metade das paredes ainda se mantinham em p. O co o descobriu primeiro; era um grande co cruzado amarelo. Jamie o conhecia posto que pertencia a Onakara, um de quo ndios saa de caa com o Ian. O co no ladrou nem correu, mas sim ficou esperando com as orelhas papa e gemendo brandamente. Jamie se aproximou com lentido estendendo a mo.
       -Balach math -murmurou-. Onde est sua gente?.
       O co o farejou e ao reconhec-lo-se relaxou um pouco. 
       Sentiu ento uma presena humana, levantou a vista e se encontrou com o rosto do dono do co. A cara da Onakara estava grafite com raias brancas, mas seus olhos no tinham vida.
       -Quem tem feito isto? -perguntou Jamie em seu vacilante tuscarora-, Segue vivo seu tio?
       Onakara no respondeu, deu-se a volta e entrou no bosque seguido por seu co. Jamie caminhou atrs deles. Ao cabo de meia hora saram a um claro onde os superviventes tinham instalado o acampamento. Enquanto o atravessavam viu rostos conhecidos. Em uns viu que o reconheciam, em outros distinguiu aquele olhar de dor e desespero que ele conhecia to bem. Faltavam muitos. 
       Tinha visto antes cenas como aquela. Enquanto caminhava, os fantasmas da guerra e a morte apareciam a seus ps. Entretanto, notou algo diferente a suas lembranas de guerras anteriores. O que tinha passado com a Anna Ooka?.
       Nacognaweto estava em uma loja, no lado mais afastado do claro. Onakara levantou o tecido que tampava a entrada e fez um gesto ao Jamie para que entrasse. Um brilho apareceu nos olhos do ancio mas se desvaneceu ao v-lo. O cacique fechou os olhos para recuperar-se e abri-los depois.
       -No se encontrou com a mulher que padre, nem com a mulher que vive em minha casa?
       Habituado ao costume a ndia que considerava de m educao pronunciar o nome da pessoa, salvo em uma cerimnia, Jamie soube que se referia ao Gabrielle e  anci Nayawenne. Negou com a cabea sabendo que aquele gesto ia destruir a ltima fasca de esperana que ficava.
       No seria um consolo, mas tirou o frasco com brandy e o ofereceu a modo de desculpa por no trazer boas notcias. Nacognaweto o aceitou e, com um gesto, chamou uma mulher para que lhe desse uma jarra. O ancio serve uma quantidade que tivesse convexo a um escocs e depois de beber o alcanou ao Jamie.
       Bebeu um sorvo por cortesia e lhe devolveu a jarra. No era tico para os costumes ndios tratar imediatamente o assunto da visita, mas no tinha tempo para bate-papos e o ancio tampouco tinha vontades das ouvir.
       -O que passou? -perguntou bruscamente.
       -Enfermidade -respondeu brandamente Nacognaweto. Seus olhos se umedeceram-. Estamos malditos.
       A histria foi surgindo interrompida por goles de brandy. O sarampo tinha aparecido na aldeia estendendo-se como o fogo. Durante a primeira semana morreram um quarto dos habitantes da tribo; agora j s ficava uma quarta parte com vida.
       Quando comeou a enfermidade, Nayawenne cantou sobre as vtimas. Mas quando continuou estendendose foi ao bosque em busca de... Jamie no conhecia tantas palavras, mas pensou que devia ser um talism ou uma planta. Ou talvez esperava uma viso que lhe dissesse o que tinha que fazer.
       Como chegar a um acordo com o diabo que havia lhes trazido essa enfermidade ou o nome do inimigo que os tinha amaldioado. Gabrielle e Bena a tinham acompanhado porque era velha e no devia andar sozinha; nenhuma das trs tinha retornado.
       Nacognaweto se balanava ligeiramente obstinado  jarra. A mulher se inclinou para tirar-lhe mas a fez a um lado e ela obedeceu.
       Tinham procurado as mulheres e no tinham conseguido encontrar seu rastro. Talvez as tinham atacado outros ndios ou tinham adoecido e morto no bosque. Mas a aldeia no tinha chamn que falasse por eles e os deuses no os escutavam.
       -Estamos malditos.
       O cacique falava arrastando as palavras e a jarra se balanava perigosamente entre suas mos. A mulher se ajoelhou e lhe ps as mos nos ombros para sujeit-lo.
       -Deixamos os mortos nas casas e lhes prendemos fuego-explicou a mulher. Seus olhos estavam escuros pela dor-.Agora iremos ao norte, a Ogianethaka. -Suas mos apertaram os ombros do cacique enquanto fazia um gesto ao Jamie-. Voc ir agora.
       Saiu invadido pela dor e a pena que assolavam o lugar. Em meio de tanto dor sentiu um enorme alvio egosta porque esta vez no tinha cansado sobre ele. Sua mulher estava viva e seu filho estava a salvo.
       Olhou para o cu e viu o plido resplendor do sol ao ficar. Apurou o passo. No ficava muito tempo pois a noite chegaria rapidamente.
       
       
       
       OITAVA PARTE
       BEAUC0UP
       
       30
       No ar tnue
       
       Oxford, abril de 1971 
       
       -No -disse com firmeza. Roger se deu a volta com o telefone na mo. Olhava o cu chuvoso atravs da janela-. No h possibilidade. Vou de Esccia a semana que vem, j lhe disse isso.
       -Vamos, Rog. -Tratava de persuadi-lo-a voz da decana-.  justo a classe de coisa que pode fazer e me havia dito que sua garota no vem at julho. Rog, vm dos Estados Unidos e tenho entendido que lhe do muito bem as norte-americanas -acrescentou com uma risita.
       -Olhe, Edwina -disse tratando de ser paciente-, tenho muitas coisas que fazer durante as frias e entre elas no est passear turistas norte-americanos pelos museus de Londres.
       -No, no. -Assegurou-lhe-. J temos aos que se ocuparo das visitas tursticas. S lhe necessitamos para as conferncias.
       -Sim, mas...
       -Dinheiro, Rog -ronronou no telefone, utilizando sua arma secreta-. So norte-americanos, j lhe disse isso, e sabe o que isso significa.
       Fez uma pausa para lhe permitir que considerasse a quantidade que ia receber por ocupar-se da semana de conferncias. O encarregado oficial do grupo de visitantes universitrios norte-americanos se havia posto doente. Em comparao com seu salrio normal, parecia uma soma astronmica.
       -Ah...
       Sentiu que sua resistncia se debilitava.
       -Sei que pensa te casar, Rog. Poderia comprar algumas costure para as bodas, no crie?
       -Alguma vez lhe ho dito que  muito sutil, Edwina? -perguntou.
       -Nunca. -lanou outra risita e logo seguiu com tom de executivo-. Bem, ento te verei na segunda-feira para planejar as reunies.
       E cortou a comunicao.
       Roger conteve o impulso de arrojar o telefone e o colocou em seu lugar.
       Talvez no fora m idia depois de tudo, pensou sombrio. Realmente no lhe importava o dinheiro, mas ter que ocupar-se das conferncias manteria sua mente ocupada. Agarrou a carta enrugada que estava ao lado do telefone, alisou-a e deixou correr a vista pelos pargrafos de desculpa sem l-los realmente.
       Sentia-o tanto, dizia. Um convite especial para uma conferncia de engenheiros no Sri Lanka. (Todos os norte-americanos assistiam a cursos do vero?) Contatos valiosos, entrevistas de trabalho (entrevistas de trabalho? Diabos, sabia, nunca voltaria') que no podia deixar passar. Sentia-o muitssimo. "Verei-te em setembro. Escreverei-te. Com amor."
       -Sim, claro -disse-. Amor.
       Enrugou a c e a atirou sobre o penteadeira, esta pegou contra o marco de prata e caiu ao tapete.
       -Poderia me haver dito diretamente que encontrou a outro -disse em voz alta-. Voc  a inteligente e eu o parvo. Mas no podia ser sincera e no me mentir como uma puta?
       Estava tratando de enfurecer-se e assim encher o vazio que sentia. Mas no funcionava. Agarrou a foto com marco de prata com desejos de romp-la, mas ficou olhando-a durante comprido momento e a voltou a colocar em seu lugar.
       -Sente-o muito -disse-. Sim, eu tambm.
       
       Maio de 1971
       
       As caixas lhe esperavam na portaria quando retornou da faculdade, cansado e farto dos norte-americanos, o ltimo dia da conferncia. Eram cinco grandes caixas de madeira, embaladas e com as brilhantes etiqueta de via martima internacional.
       -O que  isto?
       Roger colheu com uma mo o recibo enquanto com a outra procurava a gorjeta para o mensageiro.
       -No sei -disse o homem, suarento e mal-humorado depois de deixar a ltima gaveta na portaria-. So todo deles, companheiro.
       Roger levantou uma caixa para provar. Sim no eram livros seria chumbo. Havia um sobre pego em uma caixa. Com esforo o separou e o abriu.
       "Uma vez me disse que seu pai dizia que todos necessitam uma histria. Esta  a minha. Quer guard-la com a tua?"
       No havia saudao nem despedida, somente a letra B escrita com risco firme. depois de contempl-la um momento, dobrou-a e a guardou no bolso da camisa. Com cuidado, levantou a caixa de acima e a carregou.
       -Deve pesar trinta quilogramas!
       Roger deixou as caixas na sala e com um chave de fenda e uma garrafa de cerveja se dedicou a abrir a embalagem. Tratou de acalmar-se, mas no pde. Uma moa envia suas coisas a algum que pensa deixar?
       -Sua histria, n? -murmurou-. Pela forma em que o embalou parecem coisas de um museu.
       Uma caixa dentro de outra, logo uma capa de aparas e outra caixa que, uma vez aberta, revelou grande quantidade de cajitas e objetos envoltos em papel de jornal. Tirou uma caixa de sapatos e olhou seu interior. Fotografias antigas com borde ondulados v outras novas em cor. Sobressaa-me o bordo de um grande retrato e o tirou.
       Era Claire Randall, muito parecida com como ele a tinha conhecido: olhos cor mbar, quentes e surpreendentes; um arbusto de sedosos cachos cor castanha e um leve sorriso na boca delicada. Voltou-a a guardar na caixa sentindo-se como um assassino. Entre as folhas de peridico saiu uma boneca de trapo com a cara desbotada em que s ficavam os olhos feitos de botes.
       Em outro pacote havia uma mscara do camundongo Mickey com uma gomita para sujeit-la detrs das orelhas. Uma caixa de msica em que, ao abri-la, soava a cano do Mago de Oz. Um pulver vermelho que deveu ser do Frank. Uma gasta bata de seda que em um impulso se aproximou do nariz. Claire. Seu aroma a trouxe para a vida e deixou cair o objeto com um estremecimento.
       Abaixo havia objetos mais importantes. Trs largos cofres com talheres de prata envoltos cuidadosamente. Cada cofre tinha uma nota escrita a mquina com a histria de cada mego. Eram da famlia.
       Com crescente curiosidade, Roger continuou tirando os objetos que formavam a histria da Brianna Randall. Histria. por que a tinha chamado assim? sentia-se intrigado e lhe ocorreu procurar as etiquetas com a direo, Oxford. Sim, tinha-as enviado a ele. por que ali, quando ela acreditava que ele ia estar em Esccia durante o vero?  onde deveria ter estado se no tivesse sido pela conferncia de ltima hora, e no lhe havia dito nada sobre ela.
       Em um rinco do fundo havia um joalheiro pequeno mas valioso. Continha vrios anis, broches e jogos de pendentes. O broche de quartzo que lhe tinha agradvel para seu aniversrio. Colares e cadeias. Faltavam duas coisas: o bracelete de prata que lhe tinha agradvel e o colar de prolas de sua av.
       -Por todos os Santos!
       Olhou outra vez para estar seguro e derrubou todo o contedo do joalheiro. No havia prolas. Um colar de barrocas prolas escocesas engastadas com antigas argolas de ouro. No as levaria a uma conferncia de engenheiros no Sri Lanka. Para ela as prolas eram uma relquia, no um adorno. No as usava. Eram seu vnculo com...
       -No o ter feito! -disse em voz alta-. Me diga que no o fez!
       Atirou o joalheiro sobre a cama e baixou correndo as escadas fazia a cabine Telefnica.
       Demorou sculos em conseguir a conferncia internacional e, depois de uma srie de rudos e atrasos, obteve comunicao. O telefone soou trs vezes e seu corao saltou para ouvir que o foram atender. Ela estava em casa!
       -Lamentamo-lo -disse uma voz de mulher, agradvel mas impessoal-, este nmero foi desligado ou est fora de servio.
       "No pde faz-lo! No? Sim, claro que podia, maldita temerria! Onde infernos estar?"
       Estava zangado e tamborilava inquieto com os dedos em sua coxa enquanto esperava a conexo atravs de telefonistas e secretrias do hospital, at que por fim lhe chegou uma voz conhecida, profunda e ressonante.
       -Havia Joseph Abernathy.
       -Doutor Abernathy? Aqui Roger Wakefield. Sabe onde est Brianna? -perguntou sem prembulos.
       A voz profunda se agudiz levemente pela surpresa.
       -Com voc. No est a?
       -No est -respondeu com toda a calma que pde, embora um estremecimento o encheu de temor- ia vir em outono, depois de graduar-se e assistir a uma conferncia.
       -No. No, no  assim. Terminou seu trabalho de curso no fim de abril, levei-a a jantar para celebr-lo e me disse que se ia diretamente a Ardia sem esperar a cerimnia de graduao. Espere, me deixe pensar... sim, isso; meu filho Lenny a levou a aeroporto... quando? na tera-feira... o 27. Quer dizer que no chegou?
       A voz do doutor Abernathy aumentava de tom pela agitao.
       -No sei. -A mo livre do Roger estava crispada-. No me disse que ia vir. -obrigou-se a respirar profundamente-. Onde ia o vo, a que cidade, sabe? Londres?. Edimburgo?
       Se o que queria era surpreend-lo com uma chegada inesperada, tinha-o conseguido mas duvidava de que essa fora sua inteno.
       Vises de seqestros, assaltos ou bombas do IRA cruzaram por sua mente. Algo era melhor que o que lhe diziam suas vsceras. Maldita mulher!
       -Inverness -dizia a voz do doutor Abemathy em seu ouvido-. De Boston ao Edimburgo e logo em trem at o Inverness. 
       -Pelos pregos de Cristo!
       Era uma blasfmia e uma splica. Se tinha sado de Boston na tera-feira, poderia ter chegado ao Inverness em algum momento da quinta-feira. E na sexta-feira tinha sido 30 de abril, vspera do Beltane, a antiga festa do fogo, quando os topos das colinas da velha Esccia resplandeciam com as chamas de purificao e fertilidade. Momento em que a porta da colina mgica do Craigh na Dun se abriria.
       A voz do Abernathy lhe exigia respostas. obrigou-se a concentrar-se.
       -No -disse com certa dificuldade-. No chegou, mas eu ainda estou em Oxford. No tenho nem  idia. 
       O silncio entre ambos se encheu de temor. Tinha que lhe perguntar.
       -Doutor Abernathy -disse com cuidado-,  possvel que Brianna tenha ido procurar a sua me, ao Claire. me diga, voc sabe onde est?
       Esta vez o silncio se carregou de precauo.
       -Ah... no. -A voz chegou lema, cautelosa e vacilante-. No, temo-me que no. No exatamente. No exatamente. 
       Uma boa forma de diz-lo. Roger se passou uma mo pela cara.
       -me deixe lhe perguntar algo -disse Roger cuidadosamente-. Alguma vez ouviu o nome do Jamie Fraser?
       A linha ficou em silncio. Logo chegou um profundo suspiro.
       -Por todos os demnios -disse o doutor Abernathy-. O fez. 
       "Voc no o faria?"
       Isso foi o que lhe havia dito Joe Abernathy como concluso a seu largo bate-papo. Pergunta-a flutuava em sua mente enquanto conduzia para o norte, quase sem ver os sinais da estrada pela que passava a toda velocidade.
       "Voc no o faria?"        
       -Eu o faria -havia dito Abernathy-. Se voc no conhecesse seu pai, se alguma vez o tivesse conhecido e de repente descobre onde est, no quereria conhec-lo, descobrir como  realmente? Eu sentiria curiosidade.
       -Voc no entende -foi a resposta do Roger. Esfregando-a frente em um gesto de frustrao-. No  como se uma pessoa que foi adotada descobre o nome de seu verdadeiro pai e se apresenta na porta d sua casa.
       -Acredito que  exatamente assim. -A voz profunda se tornou fria-. Bri era adotada, no? Acredito que o teria feito antes de no ter tido esse sentido da lealdade para o Frank.
       Roger negava com a cabea sem ter em conta que Abernathy no podia v-lo.
       -No  assim, o caminho at a porta da casa. Isso... a forma de ir atravs. Olhe, Claire o contou?
       -Sim, fez-o. -Tinha respondido com tom reflexivo-. Disse que no era como passar por uma porta giratria.
       -Por dizer o de forma suave.
       O pensar no crculo de pedras do Craigh na Dun fez que Roger se estremecesse.
       -Por dizer o de forma suave. Voc sabe como ?
       -Sim, maldio, sei! Sinto muito, olhe, no ... no posso explicar-lhe nem acredito que ningum possa. Essas pedras...  evidente que no todos as ouvem. Mas Claire o fez. Bri tambm e eu tambm. E para ns... Claire tinha passado atravs das pedras do Craigh na Dun dois anos antes, na festa do Samhaln de primeiro de novembro. Roger se estremeceu e no era pelo frio.
       -Ento, no todo mundo pode passar, mas voc sim pode. -A voz do Abernathy denotava curiosidade e algo que soava a inveja.
       -No sei. Pode que sim. O caso ... -Tratou de controlar seu medo-. Embora tivesse podido acontecer no h forma de saber se o obteve, nem onde saiu.
       -J vejo. Voc no sabe nada sobre o Claire, ento? No sabe se o obteve?
       -No. -No quis afundar mais por telefone com quase um desconhecido-.  uma mulher e no h muitas referncias sobre o que faziam individualmente as mulheres. Salvo que ferissem algo espetacular, como que as queimassem por bruxas ou as pendurassem por assassinas. Ou as assassinassem.
       -Estraga. Mas ela o fez, ao menos, uma vez. Foi... e retornou.
       -Sim, fez-o. Mas no sabemos se Brianna pde chegar at ali, nem se sobreviveu s pedras e saiu na poca correta. Tem idia de quo perigoso podia chegar a ser o sculo XVIII?
       -No -tinha respondido com secura Abernathy-, Embora acredite que voc se. Mas sei que Claire pareceu adaptar-se bem.
       -Sobreviveu. No  muito para promocionar umas frias. Se tiver sorte retornar com vida.
       Os nervos fizeram rir ao Abernathy.
       -Sim. Bem. O fato  que Bri se foi a algum site e acredito que provavelmente voc tenha razo. Quero dizer que se fosse eu, o teria feito. Voc no tivesse ido?
       
       "Voc no tivesse ido?" 
       Dobrou  esquerda, passou uma caminhonete e seguiu.
       "Eu o teria feito." A voz do Abernathy ressonava em seus ouvidos.
       INVERNESS 30, dizia o sinal. Torceu bruscamente para a direita e o pequeno Morris derrapou sobre o pavimento molhado. A chuva caa com fora. "Voc no tivesse ido? Tocou o bolso de sua camisa, onde guardava sobre seu corao uma foto da Brianna. Seus dedos tocaram o relicrio de sua me, que tinha guardado no ltimo momento para que lhe desse sorte.
       "Voc no tivesse ido?
       -Sim, talvez o faria -murmurou-. Mas lhe houvesse isso dito. por que no me disse isso?
       
       31
       Retorno ao Inverness
       
       Nem o aroma dos mveis recm lustrados, nem a cera do piso, nem a pintura fresca, nem o ar renovado do vestbulo, nem nenhuma das provas aromticas do ardor domstico da Fiona podia competir com o delicioso aroma que saa da cozinha.
       Roger deixou sua mala na entrada. Era evidente que a velha casa paroquial tinha tomado uma nova direo. Mas sua transformao em estalagem no tinha podido alterar seu esprito original.
       Recebido com entusiasmo pela Fiona, e um pouco menos pelo Ernie, instalou-se em sua antiga habitao e se dedicou imediatamente a investigar os passos da Brianna. No era difcil, j que uma mulher de um metro oitenta e com cabelo avermelhado chamava muito a ateno.
       Tinha chegado ao Inverness desde o Edimburgo. Disso estava seguro porque a tinham visto na estao. Tambm sabia que uma mulher ruiva tinha alugado um carro e tinha pedido que a levassem a campo. O condutor no sabia onde se dirigiam at que de repente a mulher lhe disse: "Aqui, me deixe aqui!".	
       -Disse que ia encontrar se com seus amigos -explicou o condutor-. Levava uma mochila e ia vestida para uma excurso, disso estou seguro. Era um dia muito mido para caminhar pelo pramo, mas j sabe como so esses turistas norte americanos
       Claire tinha deduzido que o passo se abria durante as antigas festas do sol e do fogo. Tudo fazia pensar que era assim. Claire tinha passado a primeira vez na festa do Bekane, em primeiro de maio, e a segunda vez no Samhain, em primeiro de novembro. Brianna parecia ter seguido os passos de sua me no Beltane.        
       Bom, ele no esperaria at novembro. S Deus sabia o que podia lhe acontecer em cinco meses. Beltane e Samhain eram festas do fogo, entretanto, entre mdio havia uma festa do sol.
       O solstcio do vero era a prxima festa. Ainda faltavam quatro semanas para em 20 de junho. Apertou os dentes ao pensar na espera; sentia a necessidade de ir-se j, esquecendo o perigo, mas no ajudaria em nada a Brianna se seguia seu cavalheiresco impulso e morria no intento.
       Com calma comeou a fazer os preparativos. Pelas tardes se distraa de seus pensamentos jogando s damas com a Fiona, indo ao botequim com o Ernie ou, como ltimo recurso, revisando as caixas guardadas na garagem.
       E algumas noites at conseguia dormir.
       
       -Tem uma foto em seu escritrio.
       Fiona no o olhou, mas sim seguiu atenta a sua tarefa de recolher os pratos.
       -Muitssimas. -Roger bebeu um gole de ch muito quente-. Qu-la? Sei que h umas de sua av. Agarra as que queira, s h uma que quero guardar.
       Olhou-o um pouco surpreendida.
       -Da abuelita? Sim, a papai gostava. Mas refiro a grande.
       - A grande?
       Roger tratou de pensar a qual se referiria Fiona.
       - daquela que matou a seu marido e partiu.
       Fiona franziu a boca.
       -Aquela que... Refere ao Gillian Edgars?
       -Sim -repetiu Fiona com teima-, por que tem uma foto dela?
       -Bom... algum me deu isso.
       -Quem?
       Fiona normalmente era insistente mas nunca to direta. O que seria o que a incomodava?             
       -A senhora Randall. A doutora Randall, quero dizer. por que?
       Fiona no respondeu e apertou os lbios com fora.
       Roger a observou com cautela.
       -Voc conhecia o Gillian Edgars?
       Fiona no lhe respondeu diretamente.
       -estiveste nas pedras do Craigh na Dun. Joyce me disse que seu Albert lhe tinha contado que te viu na quinta-feira, quando ia ao Drumnadrochit.
       -Sim. No  um crime, no?
       Tratou de brincar, mas Fiona no o seguiu.
       -Sabe que  um lugar estranho; todos os crculos o so, e no me diga que foste admirar a paisagem.
       -No lhe diria isso.
       sentou-se na cadeira e a olhou.
       -Voc a conhece. Claire me disse que a tinha conhecido.
       A chispada de curiosidade que tinha sentido para ouvir mencionar 3. Gillian Edgars se conveio em uma labareda de excitao.
       -No posso conhec-la posto que est morta. No  assim?
       Roger a agarrou de um brao.
       -Est morta?
       - o que todos pensam. A polcia no encontrou rastros dela.
       -Talvez no procuraram no lugar correto.  
       Tudo o sangue abandonou seu rosto ruborizado. Roger a sustentou com fora. Ela sabia algo. Mas o que era o que sabia?
       -me diga, Fiona. Por favor, me diga, o que sabe sobre o Gillian Edgars e essas pedras?
       liberou-se de sua mo mas no partiu. Permaneceu ali olhando-o assustada.
       -Faamos um trato -disse, esforando-se por falar com calma para no assust-la-. Se me disser o que sabe, eu te direi por que a doutora Randall me deu essa foto e por que fui ao Craigh na Dun.
       -Tenho que pens-lo.
       inclinou-se para agarrar a bandeja com os pratos sujos e saiu pela porta antes de que pudesse dizer uma palavra para det-la.                                     
       Voltou a sentar-se. Tinha sido um bom caf da manh, como todos os da Fiona, mas agora lhe pesava no estmago. No devia ser to ansioso, disse-se. depois de tudo, o que podia saber Fiona? E se cumpria o trato e lhe contava tudo?
       No sobre o Claire Randall e Gillian, a no ser sobre ele e Brianna.
       Pensou no Bri. Era como uma rocha atirada no lago de seu corao, enviando ondas de medo em todas direes.
       "Ela est morta." Fiona havia dito isso do Gillian. "No  assim?" "Ela est morta?'-, tinha respondido ele, com a foto da mulher vvida em sua memria, os olhos grandes e verdes e o cabelo flutuando pelo vento quente que saa do rogo, decidida a voar atravs das portas do tempo. No, ela no tinha morrido.
       Ao menos no ento, porque Claire a tinha encontrado. Antes? Depois? Como podia pensar em todo isso com coerncia?
       No podia ficar sentado. Saiu ao vestbulo e se deteve na porta da cozinha. Fiona estava ao lado da pilha olhando pela janela. Seu rosto estava aceso e nele se via um gesto de deciso.
       -No deveria cont-lo mas o farei, tenho que faz-lo. A me do Bri, a encantadora doutora Randall, perguntou-me sobre minha av. Sabia que tinha sido uma... uma druida.
       -Druida? Refere s das pedras?
       Roger estava assombrado. Claire o havia dito mas nunca acreditou.                      
       Fiona deixou escapar um comprido suspiro.
       -Ento sabe.  1o que pensava.
       -No, no sei. Tudo o que sei  o que Claire, a doutora Randall, disse-me. Ela e seu marido viram umas mulheres danando de madrugada no crculo de pedras, no Beltane, e sua av era uma delas.
       Fiona sacudiu a cabea.  
       -No s uma delas. A av era a llamadora.
       -Vem e sente-se -disse levando-a at a mesa-. Me conte, o que  uma llamadora?
       -A que chama ao cair o sol. -Fiona se sentou sem opor resistncia-.  a cano do sol, canta-se em lngua antiga, algumas palavras so parecidas com o galico mas no todas. Primeiro danamos no crculo, logo a llamadora se detm frente  pedra Y... no  exatamente um canto, so versos que se recitam, como o faz o ministro na igreja. Ter que comear justo no momento adequado, quando a primeira luz aparece sobre o mar; desta forma, quando se termina, os raios do sol atravessam a pedra.
       -Recorda algumas palavras?
       O estudioso que havia no Roger sentia curiosidade entre tanta confuso.
       -Sei-as todas -respondeu Fiona com uma cara que lhe recordou  av-. Agora eu sou a llamadora.
       Roger se deu conta de que estava boquiaberto.
       -Isso no precisa sab-lo -disse Fiona com praticamente- e no lhe direi isso. Voc quer informao sobre a senhora Edgars.
       Fiona tinha conhecido ao Gillian Edgars, era uma das novas bailarinas. Gillian fazia pergunta s mulheres maiores, ansiosa de aprend-lo tudo. Queria aprender a cano do sol, mas s a llamadora e sua sucessora podiam conhec-la.
       Fiona fez uma pausa e se olhou as mos.
       - um ritual de mulheres, s de mulheres. Os homens no podem formar parte e ns no lhes dizemos nada. Nunca.
       Ps uma mo sobre as dela.
       -Faz bem em me dizer isso , Fiona -disse brandamente-. Me conte o resto, por favor. Tenho que sab-lo.
       Olhou-o diretamente aos olhos.
       -Sabe onde foi Brianna?
       -Isso acredito. foi por onde o fez Gillian, no  assim? Fiona continuava olhando-o sem responder. O irreal da situao o sacudiu. No podia estar sentado ali, na cmoda cozinha que conhecia desde sua infncia, bebendo ch com uma taa que tinha grafite a cara da rainha e discutindo sobre pedras sagradas e viaje pelo tempo com a Fiona. Com a Fiona, cujos interesses se limitavam ao Ernie e  economia domstica.
       Ou isso era o que ele acreditava.
       -Tenho que ir atrs dela, Fiona... se puder. Poderei?
       Fiona sacudiu a cabea com evidente medo.
       -No lhe posso dizer isso Se s as mulheres conhecerem o ritual, talvez s elas podem faz-lo.
       Isso era o que lhe preocupava, ou uma das coisas s que temia.                          
       -S h uma forma de descobri-lo, no? -disse, tratando de parecer despreocupado.
       -Eu tenho seu caderno -deixou escapar Fiona.
       -O que- como? o do Gillian? Escreveu algo?
       -Sim, fez-o. H um site onde... -O olhou de esguelha e se umedeceu os lbios-. Ns deixamos nossas coisas ali, preparadas de antemo. Ela deixou seu caderno Y... e eu o agarrei, depois...
       depois de que encontrassem morto no circulo ao marido do Gillian, pensou Roger que queria dizer Fiona.
       -Sabia que a polcia o queria -continuou Fiona-, mas... bom, no queria entregar-lhe a eles. Entretanto, pensava: e se tiver algo que ver com o assassinato? No podia guard-lo se era importante Y... -Olhou ao Roger, rogando que a compreendesse-. Era seu caderno, o que ela tinha escrito, tinha-o deixado naquele lugar,..
       -Que era secreto -terminou Roger.
       Fiona assentiu e respirou profundamente.
       -Assim que o li.
       -Por isso sabe como se foi -disse brandamente Roger.
       Fiona se estremeceu e lhe dirigiu um sorriso.
       -O caderno no teria ajudado  polcia, pode estar seguro.
       -Pode me ajudar a mim?
       -Isso espero -disse com simplicidade; abrindo o aparador tirou um caderno envolto em tecido verde.
       
       32
       Grimoire
       
       Este  o grimoire da bruxa Geillis.  um nome de bruxa e tomei para mim; com o que nasci no importa, s o que vou fazer comigo, s o que vou chegar a ser.
       O que  isso? No posso diz-lo, somente ao faz-lo descobrirei o que tenho que fazer. O meu  o caminho do poder. O poder absoluto corrompe absolutamente, sim, como? Bom, a presuno de que o poder pode ser absoluto, porque nunca o . Porque somos mortais, voc e eu. E entretanto, dentro dos limites da carne muitas costure so possveis. Se essas coisas forem possveis alm desses limites, esse  o reino de outros, no o meu. E essa  a diferena entre eles e eu, esses outros que foram antes para explorar o Reino Negro, aqueles que procuram poder na magia e invocando aos demnios.
       Eu vou com o corpo, no com a alma. E ao negar minha alma, no lhe dou poder a nenhuma fora, s s que posso controlar. No peo favores nem a deus nem ao diabo, renego de ambos. Porque se no haver alma, nem morte que considerar, ento nem deus nem o demnio mandam, suas batalhas no tm conseqncias para algum que vive somente na carne,
       Ns decidimos em um momento e, entretanto,  para sempre. S uma vida nos  dada e, entretanto, seus anos podem viver-se em muitas pocas, em quantas?
       Se quer exercer o poder, deve escolher sua poca e seu lugar, porque somente quando a sombra da pedra cai a seus ps, a porta do destino se abre realmente.
       -Um caso de loucura -murmurou Roger-. E um estilo de prosa horrvel.  
       A cozinha estava vazia e falava para dar-se confiana. Mas isso no lhe ajudava. Passou as pginas com cuidado seguindo as linhas de letra redonda e clara. Havia uma seo titulada: "Festas do sol e festas do fogo".
       Em meio do que era uma evidente loucura havia mtodo e organizao, uma estranha mescla de fria observao e vo potico. A parte central se titulava "Casos estudados", e se a primeira seo lhe tinha posto a pele de galinha, esta lhe gelava o sangue.
       Era uma lista cuidadosa, com datas e lugares, dos corpos encontrados na proximidade dos crculos de pedras.
       A aparncia de cada um estava cotada; debaixo, umas poucas palavras especulavam sobre as possveis causa.
       14 de agosto de 1931. Sul-o-Mere, Gr-Bretanha. Corpo de um homem sem identificar. Idade: 40 nus aprox. Encontrado perto de um crculo de pedras. Sem causa evidente de morte, queimaduras em braos e pernas. Descrio da roupa; "farrapos". No h foto.
       Causas possveis do fracasso; r) homem, ) data equivocada, 54 dias depois da festa do sol, 1de abril de 1950. Castierigg, Esccia. Corpo de mulher, sem identificar. Idade: 15 anos. Encontrada fora do crculo.
       Causas possveis do fracasso: i) data equivocada, 2) falta de preparao.
       1 de maio de 1963. Tomnahurich, Esccia. Corpo de mulher, identificado como Mary Walker Willis. Morte devida a ataque cardaco, ruptura da aorta. Relatrio sobre o "estranho" estado de suas roupas.
       Falha: esta pessoa sabia o que estava fazendo, mas no o conseguiu. Devido talvez  omisso de um adequado sacrifcio.
       
       A lista continuava, aterrando ao Roger com cada nome. Tinha encontrado vinte e dois em um perodo que ia desde meios de 1600 em meados de 1900 em diversos lugares de Esccia, Inglaterra e Gr-Bretanha, todos eles lugares com pedras pr-histricas. Alguns eram acidentes, pensou Roger, gente que caminhava por ali, que no sabia nada.       
       Mas uns poucos, dois ou trs, pareciam saber algo, apreciava-se certa preparao em suas roupas, talvez tinham acontecido antes e o tentavam de novo, mas ento no lhes funcionou. Seu estmago se curvou como uma fria serpente. Claire tinha razo: no era como passar por uma porta giratria.
       Logo estavam os desaparecimentos... estavam em uma seo  parte, com idade, sexo, data e as circunstncias em que se produziram. Umas cruzes determinavam a quantidade de gente que tinha desaparecido em cada festa. Voltou a pgina e se deteve como se lhe tivessem chutado o estmago.
       1 de maio de 1945- Craigh na Dun, Inverness, Esccia. Claire Randall, 27 nus, dona-de-casa. Vista por ltima vez pela manh cedo, disse que ia visitar o crculo de pedras em busca de uma planta especial; no retornou ao anoitecer. O carro estava estacionado ao p da enche. No havia rastros no crculo.
       Deu a volta  pgina cuidadosamente, como se esperasse que estalasse em sua mo. Assim Claire, sem dar-se conta, tinha dado provas ao Gillian para seu experimento. Teria encontrado os informe da volta do Claire, trs anos depois?
       No, evidentemente no, decidiu Roger depois de revisar as outras pginas; ou, se o tinha feito, no o tinha escrito.
       A ltima seo se titulava "Tcnicas e preparaes". E comeava assim:
       Algo jaz aqui mais antigo que o homem, as pedras guardam seu poder. Os antigos conjuros falam das linhas da terra" e do poder que flui atravs delas. O propsito das pedras tem que ver com essas linhas, estou segura. Mas as pedras desviam as linhas de poder ou som s assinale?
       Comeou a ler cada vez mais rpido at que decidiu fechar o caderno. Leria o resto mais tarde. Agora tinha que sair a tomar o ar. No era estranho que o caderno tivesse turbado a Fiona.
       Caminhou rapidamente rua abaixo, dirigindo-se para o No sem preocupar-se da chuva. Era tarde, soava o sino de uma igreja e o trfico de caminhantes cruzando as pontes para os botequins era intenso. Mas por cima do sino, pisada-las e as vozes, ouvia as ltimas palavras que tinha lido como se se dirigiram diretamente a ele.
       Devo te beijar, menino? Devo te beijar, homem? Sente os dentes debaixo de meus lbios quando o fizer. Posso te matar to facilmente como te abrao. O sabor do poder  o sabor do sangue, ferro em minha boca, ferro em meu corao.
        necessrio o sacrifcio.
       
       33
       Vspera do solstcio do vero
       
       20 de junho de 1971
       
       Em Esccia, na vspera do solstcio do vero, o sol est no cu com a lua. Solstcio do vero, a festa da Litha, Alban Eilir. Era perto de meia-noite e a luz era tnue e leitosa, mas era luz.
       Podia sentir as pedras muito antes das ver. Claire e Geillis tinham razo, pensou, a data era importante. Em suas visitas anteriores lhe tinham parecido mgicas mas silenciosas.
       Agora podia as ouvir, no com os ouvidos, a no ser com a pele; era um zumbido baixo como o das gaitas de fole.
       Chegaram ao outro lado da crista da colina e se detiveram uns nove metros do crculo. Para baixo havia um vale escuro e misterioso baixo a lua ascendente. Ouviu o ofego de uma respirao e lhe ocorreu que Fiona podia estar realmente atemorizada.
       -Olhe, no  necessrio que fique -disse-lhe-. Se tiver medo deveria ir, eu estarei bem.
       -No tenho medo por mim, tolo -murmurou-. Vamos.
       Sentiu frio em que pese a sua roupa de casaco. Seu traje parecia sbitamente ridculo: casaca de abas largas, meias tecidas, colete de l e cales fazendo jogo. Uma pea de teatro na faculdade, tinha explicado  alfaiate
       Fiona entrou primeiro no crculo; no queria que a observasse. Obediente ficou de costas, deixando que ela fizesse o que tinha que fazer. Levava uma bolsa de plstico, certamente com objetos para a cerimnia. Tinha-lhe perguntado o que continha e a resposta foi que se ocupasse de seus prprios assuntos. Fiona estava quase to nervosa como ele.
       O constante zumbido lhe incomodava. No era em seus ouvidos, a no ser em todo seu corpo. Esperava que fora assim, que s os que ouviam as pedras pudessem passar atravs delas. Nunca se perdoaria que algo acontecesse a Fiona; embora lhe havia dito que tinha estado muitssimas vezes no crculo durante as festas, sem que nada lhe ocorresse. Olhou por cima de seu ombro e viu uma tnue chama na base da grande pedra.
       Fiona cantava com voz suave e aguda. No podia entender as palavras. Todas as outras viajantas que conhecia eram mulheres. Funcionaria com ele? Acreditava que sim. Se a habilidade era gentica, por que no? Claire tinha viajado e tambm Brianna.
       Brianna era a filha do Claire. E ele era o descendente da outra viajante do tempo que conhecia, Geillis, a bruxa.
       arranhou-se violentamente o peito para aliviar a irritao e sentiu o tato do relicrio de sua me, que levava para que lhe desse sorte. Tnia suas dvidas sobre as especulaes do Geillis: no pensava tent-lo com sangue- Fiona tentaria substitui-la por fogo, mas depois de cotovelo, as pedras preciosas no fariam mal, e se ajudavam... No poderia dar-se pressa Fiona?
       Para distrairse tocou o bolso do peito onde guardava o relicrio. Se podia... se funcionava... Viu o rosto do Jerry MacKenzie em sua mente.
       Brianna tinha ido encontrar a seu pai, poderia fazer ele o mesmo? Fiona! Aquilo ficava pior, lhe tocavam castanholas os dentes e a pele parecia lhe arder. Ento Fiona se aproximou, agarrou-lhe a mo e lhe disse algo enquanto o conduzia dentro do crculo. No podia ouvi-la pelo rudo, cada vez mais forte, que estava dentro de seu corpo.
       Apertou os dentes e olhou o rosto apavorado da Fiona; inclinou-se e a beijou nos lbios.
       -No o diga ao Ernie -disse.
       deu-se a volta e caminhou atravs da greta da pedra.
       
       Um leve aroma de queimado lhe chegou com o vento do vero. Voltou a cabea tratando de situ-lo. Ali. Uma chama na colina prxima, uma rosa de fogo do solstcio do vero.
       Uma vaga sensao de que algo ia mal interrompeu sua paz. De repente sentia seu corpo e lhe doa.
       -Roger!
       A voz estalou em seu ouvido e se sacudiu. Uma dor percorreu seu peito e se tocou com a mo. Sentiu umidade e pensou que estava sangrando.
       -J despertaste, por fim!  um bom moo. Espera, devagar.
       Piscou confundido e a sombra se converteu na silhueta da cabea da Fiona, escura contra o cu.
       Seu corpo havia tornado para vingar-se. sentia-se terrivelmente doente e com um espantoso aroma de caf e a carne queimada. Tratou de incorporar-se mas se derrubou sobre a erva. Estava mida e isso lhe resultou agradvel em seu rosto chamuscado.
       As mos da Fiona lhe secavam a cara e a boca.
       -Est bem? -disse uma vez mais.
       Mas esta vez teve foras para responder.
       -Fui-susurr-. Estou bem. Porqu...?
       -No sei. Desapareceu, j no estava; logo houve um estalo de fogo e apareceu atirado dentro do crculo com o casaco ardendo. Tive que apag-lo com o recipiente trmico de caf.
       Desde a o aroma de caf e a umidade que sentia no peito. Havia uma queimadura no tecido molhado de sua casaca. O relicrio de sua me se derreteu.
       -O que aconteceu, Roger?
       Fiona tinha o rosto manchado de lgrimas. Quanto tempo tinha estado inconsciente?
       -Eu... -ia comear a dizer que no sabia, mas se interrompeu-. me Deixe pensar um pouco, quer? 
       Ps a cabea sobre os joelhos, respirando o aroma de erva mida e roupa chamuscada.
       Levantou a cabea e respirou profundamente.
       -Estava pensando em meu pai -disse-. Assim que passei atravs da pedra estava pensando se poderia encontr-lo e eu... fiz-o.
       -Fez-o? Seu pai? Era um fantasma, isso quer dizer?
       Sentiu, mais que viu, o som de seus dedos fazendo chifres contra o diabo.
       -No. No exatamente. No... no posso explic-lo, Fiona. Mas o encontrei. Conheci-o. -A sensao de paz ainda permanecia nele-. Ento houve uma espcie de exploso. Algo me golpeou aqui. -Seus dedos tocaram a queimadura de seu peito-- E uma fora me empurrou... fora; e isso  tudo o que sei, at que despertei. Obrigado, Fee, salvou-me de me queimar vivo.
       A moa fez um gesto lhe tirando importncia e se sentou em cuclillas, pensativa.
       -Estava pensando, Roger, o que ela dizia no caderno sobre ter certo amparo se a gente levava alguma pedra preciosa. Havia pedras no relicrio de sua me, no?
       -Pde ouvir que Fiona tragava com dificuldade-. Talvez... se no tivesse tido isso... possivelmente no estaria vivo. Ela falava do homem que no tinha amparo e se queimou e voc te queimou onde estava o relicrio.
       -Sim, pode ser.
       Roger comeava a recuperar-se. Olhou a Fiona com curiosidade.
       -Sempre diz "ela". por que alguma vez diz seu nome?
       -A gente no nomeia a algum a menos que queira que vinga-respondi-. Tem que sab-lo. Seu pai era ministro.
       -Agora que o menciona -disse, tratando de brincar sem consegui-lo-, eu no pronunciava o nome de meu pai, mas talvez... a doutora Randall disse que pensou em seu marido quando retornou.
       Fiona assentiu com o rosto carrancudo.
       -J quase  de dia! Tenho que ir!
       -Ir ? -Fiona abriu os olhos com horror- vais tentar o outra vez?
       -Farei-o, tenho que ir.
       ficou em p. Tremiam-lhe os joelhos mas podia caminhar.
       -Est louco, Rog? Morrer, estou segura!
       Sacudiu a cabea com o olhar cobre na pedra grande.
       -No -disse e confiou em que isso fora verdade-. No, sei o que saiu mau. No acontecer outra vez.
       -Agora no pode, seguro que no!
       -Sim, poderei. -Sorriu-lhe e lhe agarrou a mo, pequena e fria-. Espero que Ernie no tenha retornado ou far que a polcia te busque; ser melhor que volte.
       encolheu-se de ombros com impacincia.
       -Est pescando com sua primo Neil; no retornar at na tera-feira. O que quer dizer com que no acontecer de novo, por que no?
       Isso era o mais difcil de explicar mas o devia.
       -Quando te disse que pensava em meu pai estava pensando no pouco que conhecia dele, as fotos com uniforme ou com minha me. O caso ... que fui a sua poca. D-te conta?
       Olhou-a e viu que piscava lentamente compreendendo.
       -No encontrou s a seu pai? -perguntou brandamente.
       Negou com a cabea sem poder falar. No havia imagens para transmitir o que tinha sido encontrar-se consigo mesmo.
       -Tenho que ir  -repetiu devagar. Apertou-lhe a mo-. Fiona, no sabe como lhe agradeo isso.
       Contemplou-o por um momento com os olhos midos.
       Logo se soltou e tirando o anel de compromisso o colocou na mo.
       - uma pedra pequena, mas  um diamante de verdade -disse-. Talvez te ajude.
       -No me posso levar isso 
       Quis devolver-lhe mas Fiona deu um passo atrs e escondeu as mos detrs das costas-No se preocupe, est assegurado -disse-, Ernie  muito bom com os seguros. -Tratou de lhe sorrir, embora as lgrimas corriam por suas bochechas-. Eu tambm.
       No tinham nada mais que dizer-se. Guardou o anel no bolso de sua jaqueta e olhou de esguelha a grande pedra escura. Podia ouvir o zumbido que agora parecia como o pulso de seu sangue, como se ressonasse em seu interior.
       No necessitavam palavras. Tocou-lhe a cara como despedida e caminhou para a pedra, vacilando ligeiramente. Entrou na greta.
       Fiona no ouviu nada, mas o ar claro do dia do solstcio do vero se estremeceu com o eco de um nome.
       Fiona esperou comprido momento, at que o sol chegou  ponta da pedra.
       -Sun leat, a charaid chir -disse brandamente-. Sorte, querido amigo.
       Baixou lentamente pela colina e no olhou para trs.
       
       34
       Lallybroch
       
       Esccia, junho de 1769
       
       O nome do alazo era Bruto, mas por sorte no casava com seu carter. Era forte e macio, e parecia oferecer segurana, embora s fora por resignao do animal.
       Brianna soltou as rdeas e o deixou descansar depois da ascenso. Contemplou de acima o pequeno vale e a granja grafite de branco, com as janelas e chamins de pedra cinza.
       Nunca a tinha visto antes mas estava segura de que era Lallybroch. Tinha ouvido muitas vezes as descries de sua me sobre aquele lugar. Por outra parte, era a nica casa importante em muitos quilmetros  redonda; no tinha visto nada parecido nos ltimos trs dias, salvo pequenas casas de campo abandonadas e em rumas.
       Havia algum em casa posto que saa fumaa da chamin. Era perto de meio-dia e talvez todos estariam comendo dentro.
       Tragou com a boca seca pela excitao e o receio. Quem haveria? A quem veria primeiro? Ao Ian? Ao Jenny? Como se tomariam sua apario? E o que lhes ia contar?
       Tinha decidido lhes dizer a verdade no referente a quem era ela e o que estava fazendo ali. Sua me lhe havia dito que se parecia muito a seu pai e esperava que isso a ajudasse a convenc-los. Os highlanders que tinha conhecido at ento se mostraram cautelosos ante seu aspecto e sua forma de falar. Talvez os Murray no acreditassem. Ento recordou e se tocou o bolso de sua casaca. Se no acreditavam utilizaria a nica prova que possua.
       Um sbito pensamento a fez estremecer-se. Estariam Jamie Fraser e sua me ali? Essa idia no lhe tinha ocorrido antes, convencida como estava de que se foram a Amrica do Norte, mas no tinha por que ser assim. Quo nico sabia era que estariam na Amrica do Norte em 1776, mas no onde estavam naquele momento.
       Bruto levantou a cabea e relinchou. Chegou uma resposta por detrs e Brianna agarrou as rdeas enquanto o cavalo se dava a volta. Bruto voltou a cabea com interesse para observar a um formoso baio sobre o que ia um cavaleiro alto e vestido de marrom.
       O homem deteve suas arreios ao v-los e logo a esporeou para aproximar-se. Era jovem e tinha a cara moria a pesar do chapu. Ao aproximar-se e dar-se conta de que estava ante uma mulher, em seu rosto apareceu uma expresso de surpresa que no lhe impediu de tirar o chapu e saudar. No era exatamente uma boa moo, mas tinha um rosto forte e agradvel, com os olhos castanhos e o cabelo escuro e encaracolado.
       -Senhora -disse-, posso ajud-la?
       Brianna se tirou o chapu e sorriu.
       -Isso espero. Isto  Lallybroch?
       Assentiu assombrado para ouvir seu estranho acento.
       -Sim, assim . Tem negcios por aqui?
       -Sim -disse com firmeza-. Tenho-os. -estirou-se e respirou profundamente-. Sou Brianna Fraser.
       Resultava-lhe estranho diz-lo em voz alta, pois nunca tinha usado antes o sobrenome. Mas extraamente lhe parecia o correto.
       -Para servi-la, senhora. Jamie Fraser Murray -acrescentou formalmente com uma inclinao-, do Broch Tuarach.
       -O jovem Jaime! -exclamou a mulher, sobressaltando-o por sua ansiedade-. Voc  o jovem Jaime!
       -Minha famlia me chama assim -disse ceremoniosamente para dar a entender que no gostava que o fizesse uma desconhecida vestida com roupas inadequadas.
       -Me alegro de te conhecer -disse e lhe estendeu a mo-. Sou sua prima. -Olhou com incredulidade a mo estendida e o rosto da jovem-. Jamie Fraser  meu pai -acrescentou.
       Observou-a de cima abaixo at que um amplo sorriso apareceu lentamente em sua cara.
       -V se o ! -disse e te estreitou a mo com fora-.  igual a ele. -Riu e o humor transformou sua cara-. Minha me vai se ficar de pedra!.
       
       A grande roseira silvestre que adornava a porta tinha folhas novas e centenas de pequenos casulos verdes que comeavam a brotar. Enquanto seguia ao jovem Jamie, Brianna levantou a vista e olhou o dintel. Na gasta madeira se gravou "Fraser, 1716". Se sentiu turvada ao v-lo e ficou olhando-o com a mo apoiada na slida madeira.
       -Est bem, prima?
       O jovem Jamie se voltou para olh-la.
       -Sim.
       apressou-se a segui-lo, baixando, embora no era necessrio, a cabea para entrar.
       -Salvo mame e a pequena Kitty, somos todos altos -explicou com um sorriso ao v-la agachar a cabea-. Meu av, e teu tambm, construiu esta casa para sua esposa, que era uma mulher muito alta.  a nica casa dos Highlands onde pode passar pela porta sem baixar a cabea.
       "... teu tambm." Essas palavras a fizeram sentir um sbito calor face  fria entrada. Frank Randall, igual a Claire, era filho nico. Tinha vindo a procurar a seu pai sem dar-se conta de que encontraria a toda uma famlia. 
       Uma grande famlia. abriu-se uma porta e quatro meninos entraram correndo; depois deles ia uma moa, alta e com o cabelo castanho e encaracolado.
       -|Ah corram, corram, pescaditos! -gritou, estendendo as mos como pinzas- O malvado caranguejo lhes comer!
       Os meninos passaram correndo entre risadas e gritos e olhando por cima do ombro com aterrorizado deleite. Um deles, de uns quatro anos, viu a Brianna e ao jovem jamie na entrada e trocou de direo gritando.
       -Papai! Papai! Papai!
       -Vamos, pequeno Matthew -disse, levantando-o em seus braos-. Que classe de maneiras te ensina sua tia Janet? O que pensar sua prima ao verte correndo como uma galinha louca?
       O menino riu e observou a Brianna.
       -Papai!  uma senhora?
       - obvio, j te disse que era sua prima.
       -Mas leva cales! As senhoras no usam cales,
       Matthew a contemplou assombrado.
       A jovem parecia opinar o mesmo mas o interrompeu com firmeza agarrando ao menino.
       -Estou segura de que ter boas razes para lev-los, mas no  de boa educao fazer notar estas coisas s pessoas. Agora v lavar te.
       -Onde est a av, Matt? -perguntou o pai.
       -Na sala de atrs com o av. vieram uma senhora e um homem -respondeu o menino com prontido-. H duas panelas de caf, uma bandeja de pozinhos e toda uma torta Dundee, mame diz que esperam que lhes d de comer, mas maldio...
       -E se tampou a boca-. De maneira nenhuma pensa lhes dar o bolo de groselhas.
       O jovem Jamie olhou com seriedade a seu filho e interrogativamente a sua irm Janet.
       -Uma senhora e um homem?
       Janet fez uma careta de desgosto.
       -A Grizzler e seu irmo.
       O jovem Jamie olhou de esguelha a Brianna.
       -Imagino que mame estar encantada de ter uma desculpa para deix-los. -Fez um gesto ao Matthew-. v procurar a sua av, moo. lhe diga que h uma visita que gostar de ver. E cuida sua linguagem, n?
       O jovem Jamie se voltou fazia Brianna sonriendo.
       - meu primognito. E ela -assinalou a jovem-  minha irm Janet Murray. Janet... a senhorita Brianna Fraser.
       Brianna no sabia se lhe dar a mo ou no, assim que se contentou com um sorriso e uma inclinao de cabea.
       -Estou muito contente de te conhecer -disse afetuosamente.
       Janet a observou com assombro. Brianna no sabia se era pelo acento ou pelo que havia dito.
       -Nunca adivinhar quem . Jen -disse-. Nem em mil anos!
       Janet arqueou uma sobrancelha e olhou a Brianna com os olhos entreabridos.
       -Prima -murmurou olhando-a de cima abaixo-. Tem o ar dos MacKenzie, isso sem dvida. Mas disse que era uma Fraser.,. -Seus olhos se abriram mais-, Ah, no pode ser! -disse a Brianna com um amplo sorriso que iluminava sua cara-. No pode ser!
       A risada alegre de seu irmo foi interrompida pelo rudo de uma porta e de uns passos ligeiros.
       -Se?. Mattie disse que tnhamos uma convidada-la voz se deteve e Brianna levantou a vista com o corao acelerado.
       Jenny Murray era pequena e magra. Contemplou a Brianna com a boca aberta.
       -Senhor, senhor-disse brandamente.
       Brianna sorriu saudando sua tia, a amiga de sua me, a nica e querida irm de seu pai. "Por favor, por favor, que goste, que se alegre de lombriga", desejou sbitamente.
       -Mame, posso ter a honra de te apresentar...?
       -Jamie Fraser! Sabia que havia tornado, disse-lhe isso, Jenny Murray!
       A voz, com tons agudos de acusao, vinha do fundo do corredor. Assombrada, Brianna viu uma mulher que surgia das sombras avanando com indignao.
       -Amyas Kettrick me disse que tinha visto seu irmo cavalgando perto do Balriggan! Mas no, no me foste dizer isso, Jenny, disse-me que era tola, que Amyas  cego e que Jamie estava na Amrica! Todos mentem para proteger ao malvado covarde! Hobart! -gritou-, Vem aqui imediatamente!
       -Tranqila! -disse Jenny com impacincia-. Voc  tola, Laoghaire! -Agarrou  mulher do brao e a obrigou a d-la volta-, No pode ver a diferena entre um homem crescido e uma moa com cales?
       -Uma moa?
       A mulher olhou surpreendida a Brianna.
       -Jesus, Mara e Jos! Quem  voc, em nome de Deus?
       Brianna respirou profundamente, olhando a uma e a outra, e tratando de manter a firmeza da voz enquanto respondia.
       -Meu nome  Brianna. Sou filha do Jamie Fraser.
       Laoghaire abria e fechava a boca como se se afogasse. Jenny deu um passo para agarrar as mos da Brianna. Suas bochechas se ruborizaram, lhe dando um aspecto juvenil.
       -Do Jamie? De verdade  filha do Jamie?
       Oprimiu-lhe as mos entre as suas.
       - o que diz minha me.
       -Isso diz, n? -Laoghaire tinha recuperado a voz e os brios-. Se Jamie Fraser for seu pai, quem  sua me?
       Brianna ficou rgida.
       -Sua esposa. Quem ia ser?
       A mulher lanou uma gargalhada. No foi uma risada alegre.
       -Quem ia ser? -disse burlando-se-. E quem  essa esposa?
       Brianna sentiu como empalidecia e de repente compreendeu. Idiota, pensou, em vinte anos pde voltar-se para casar. Desejava correr em busca de sua me.
       -Vem te sentar na sala, quer?
       A voz do jovem Jamie era firme, como o brao que a guiava atravs do vestbulo para uma das portas. No distinguia as vozes entre a confuso de acusaes e explicaes.
       Viu um homenzinho com cara de coelho junto a outro muito mais alto que ficou em p, com rosto de preocupao, quando entraram na sala.
       Foi este quem imps ordem.
       -A filha do Jamie? -Olhou-a com interesse, mas menos surpreso que outros-, Qual  seu nome, a leannan?
       -Brianna.
       Estava muito turvada para lhe sorrir.
       -Brianna. -Fez-lhe um gesto para que se sentasse-. Sou seu tio Ian, moa. Bem-vinda. -Observou divertido sua roupa-. dormiste  intemprie? tiveste que andar bastante para nos encontrar, sobrinha.
       -Diz que  sua sobrinha -disse Laoghaire-. veio para ver o que pode conseguir.
       -Eu que voc no diria isso, Laoghaire -disse Ian-. Ou vs no tentastes me tirar quinhentas libras?
       -Esse dinheiro  meu -disse furiosa- e sabe. Voc foi testemunha e assinou aquele papel.
       -Fiz-o -disse com pacincia-. E ter seu dinheiro logo que Jamie possa mand-lo. Prometeu-o e  um homem de honra. Mas...
       -De honra, n?  honorvel cometer bigamia? Abandonar mulher e filhos? me roubar a minha filha para arruinar sua vida? Honorvel! -Olhou a Brianna com os olhos brilhantes e em tom ameaador lhe disse-: Perguntarei-te outra vez o nome de sua me.
       -No importa... -comeou Jenny, mas Laoghaire a interrompeu.
       -Ah, claro que importa! Se a teve com uma prostituta na Inglaterra  uma coisa, mas se for...
       Fazendo ornamento de uma tranqilidade que no sentia, Brianna colocou a mo no bolso e tirou seu contedo.
       -O nome de minha me  Claire -disse e deixou o colar de prolas sobre a mesa.
       -Ai, senhor, senhor... -disse brandamente Jenny e olhou a Brianna com os olhos cheios de lgrimas-. Estou to contente de verte... sobrinha.
       
       -Onde est minha me? Sabem?
       Brianna passou a vista por todos eles, com o corao lhe pulsando ferozmente.
       Ian e Jenny trocaram um rpido olhar, logo Ian ficou em p, equilibrando-se sobre a perna de madeira.
       -Est com seu pai -disse, tocando o brao da Brianna-. No se preocupe, moa, os dois esto bem.
       -Muito obrigado.
       Tratou de sorrir ao Ian. "a salvo e juntos", pensou com silenciosa gratido.
       -So minhas, tenho direito.
       Laoghaire assinalou as prolas.
       -No, no o so! -disse Jenny com um broto de fria-. Eram de minha me, meu pai as deu ao Jamie para sua esposa Y...
       -E sua esposa sou eu -interrompeu Laoghaire, olhando a Brianna com frieza-. Eu sou sua esposa -repetiu-. Casei-me com ele de boa f e prometeu me pagar pelo mal que me fez. -Levantou o queixo e olhou a Brianna-. Se realmente for sua filha, suas dvidas so as tuas. Diga-lhe Hobart!
       -Ah, vamos, irm -disse, tratando de acalm-la-. Penso que no...                                      
       -No, voc nunca pensa. -Estirou uma mo para as prolas-. So minhas!
       Por puro reflexo, Brianna fechou a mo sobre elas.
       -Um momento -disse Brianna com uma calma e uma frieza que a surpreenderam a ela mesma-. No sei quem  voc e no sei o que aconteceu voc e meu pai, mas...
       -Sou Laoghaire MacKenzie, e o bastardo de seu pai se casou comigo faz quatro anos, baixo falsas promessas, devo acrescentar.
       -Sim? Mas minha me agora est com ele...
       -Disse que no podia viver na mesma casa comigo, nem compartilhar a cama. Assim que se foi e retornou com a bruxa. Foi ela. Ela o enfeitiou. Desde dia que chegou ao Leoch fez invisvel. Jamie no podia lombriga.
       Brianna sentiu um calafrio.
       -Ento ela desapareceu. Disseram que a tinham matado no levantamento. Ele conseguiu a liberdade e retornou da Inglaterra. Mas no era certo: nem ela estava morta, nem ele estava livre. Eu sabia, no se pode matar a uma bruxa com ao, ter que queim-la.
       Os olhos do Laoghaire se voltaram para o Jenny.
       -Voc a viu em minhas bodas. Uma apario. Estava entre os dois. Mais tarde soube que a tinha visto e no me tinha querido dizer isso Ela  a filha da bruxa! E vs sabem! Deveram queimar  me no Cranesmuir para salvar ao Jamie Fraser do feitio. Vos pinjente que tomassem cuidado com o que trazia para casa!
       -Sujeira -disse Brianna em voz alta dirigindo-se ao Laoghaire ante a surpresa de todos-. Se ter que proteger-se de algum  de voc, maldita assassina!
       Laoghaire se tinha ficado com a boca aberta e era incapaz de falar.
       -No o contaste tudo sobre o Cranesmuir, verdade?-continuou Brianna-. Minha me deveu hav-lo feito, mas pensou que foi muito jovem para saber o que fazia. Mas no era assim.
       -O que...?-disse Jenny com um fio de voz.
       -Tratou de matar a minha me. -Brianna quase no podia controlar sua voz. Fez-o, no? Disse a minha me que Geillis Duncan estava doente e a chamava. Soube que iria posto que sempre ia ver os doentes. Sabia que foram prender ao Geillis Duncan por bruxa, e se minha me estava ali tambm a levariam a ela para queim-la. Desse modo poderia o ter a ele, ao Jamie Fraser.
       A habitao estava em silncio quando Hobart se aproximou e agarrou a sua irm pelo brao.
       -Vamos, a, leannan -disse com calma-. Te levarei a casa.
       Saudou o Ian, quem lhe fez um gesto que indicava simpatia e lstima.
       -Se for a filha do Jamie Fraser -disse Laoghaire com voz fria e clara-, e deve s-lo por seu aspecto, inteira-se disto. Seu pai  um mentiroso e um alcoviteiro, um estelionatrio e um descarado.
       Brianna sentiu que a fria se evaporava deixando-a sem foras.
       -Ele seguiu amando-a -sussurrou, mais para si mesmo que para outros. Nunca a esqueceu.
       - obvio que no a esqueceu. -Abriu os olhos e se encontrou com o rosto do Ian e sua expresso de bondade-. E ns tampouco -disse, enquanto apoiava uma de suas grandes mos sobre as dela.
       
       -No quer um pouco mais, prima Brianna?
       Joan, a esposa do jovem Jamie, sorria-lhe do outro lado da mesa.
       -No, muito obrigado. No posso comer nada mais -disse Brianna sonriendo-. Estou enche!
       Isso fez rir ao Matthew e a seu hermanito Henry at que um olhar de sua av os fez calar. Brianna notou que havia uma alegria especial. No se deu conta da causa at que Ian fez um comentrio.
       -No acreditvamos que Jamie chegasse a ter um filho prprio.
       -O sorriso do Ian era o bastante clida para derreter o gelo-, Chegou a conhec-lo?
       Negou com a cabea, sonriendo em que pese a ter a boca enche. Isso era, pensou, estavam encantados com ela, e no por ela mesma, mas sim pelo Jamie. Queriam-no e se alegravam por ele.
       Ao dar-se conta lhe encheram os olhos de lgrimas. 
       -Escreveu a tio Jamie para lhe avisar de que vinha a nos ver?-perguntou o jovem Jamie.                      
       -No -respondeu com a voz rouca pela emoo-. No sei onde est.
       -Certo. Havia-o dito e o tinha esquecido.
       -Sabem onde esto ele e minha me?
       Brianna se inclinou com ansiedade. Jenny sorriu e se levantou da mesa.
       -Sim, mais ou menos. Quando terminar vem comigo e te ensinarei sua ltima carta. 
       Brianna se levantou para seguir ao Jenny, mas se deteve bruscamente perto da porta. Tinha visto os quadros das paredes da sala, mas no os tinha cuidadoso com ateno. Em um deles estavam os dois meninos, o menor era Jamie. No outro havia uma mulher.
       Brianna Ofegou e sentiu que lhe punha a pele de galinha.
       -O parecido  notvel.
       Jenny olhava a Brianna e ao retrato com uma mescla de orgulho e temor.
       -Notvel -repetiu Brianna, tragando saliva.
       -Agora sabe por que lhe reconhecemos imediatamente -continuou sua tia.
       -Sim, sei.
       -Era minha me, sabe? Sua av, Ellen MacKenzie.
       -Fui-dijo Brianna-. Sei.
       Duzentos anos depois tinha estado frente ao mesmo quadro na Galeria Nacional de Retratos, negando furiosamente a verdade que lhe mostrava.
       Em seu pescoo se encontrava o colar de prolas, com as argolas de ouro.                       
       -Quem o pintou? -perguntou Brianna, embora no necessitava a resposta. O carto do museu dizia "autor desconhecido".
       -Minha me -respondeu Jenny com orgulho-. Tinha grande habilidade para o desenho e a pintura. Muitas vezes desejei ter esse dom.
       " dela de quem o herdei", pensou Brianna com um leve estremecimento.
       Frank Randall brincava dizendo que no podia desenhar uma linha reta. E Claire nem sequer isso. Mas Brianna tinha o dom das linhas e as curvas, das luzes e as sombras; agora conhecia a origem desse dom. Que mais terei herdado?", perguntou-se.
       -Ned Gowan me trouxe isso do Leoch -disse Jenny, tocando o marco com respeito-. Salvou-o dos ingleses quando destruram o castelo depois da insurreio. E agora j no h cl, nem castelo.
       -No h? Esto todos mortos?
       O horror de seu tom de voz fez que Jenny a olhasse muito surpreendida.
       -No. Mas Leoch no existe. Os ltimos Chefes, Colum e seu irmo Dougal, morreram  mos dos Estuardo.
       -Leoch era um grande castelo?
       -No sei, nunca cheguei a v-lo e agora j no existe.
       
       Entrar no dormitrio do piso de acima foi como entrar em uma caverna. Como as demais habitaes era pequena, com as paredes brancas e as janelas grandes. Jenny abriu o grande armrio e tirou uma caixa que colocou sobre a cama.
       -Aqui est -disse, tirando umas folhas dobradas e enrugadas que entregou a Brianna-. Sabemos que esto na Carolina do Norte e que no vivem perto de nenhum povo -explicou Jenny-. Ao Jamie custa escrever desde que faz um tempo se rompeu a mo, mas o faz todas as noites que pode. Para nos enviar as cartas tem que esperar a chegada de algum viajante ou a que ele ou Fergus vo at o Cross Creek.
       Brianna se deu conta de que Jenny no sabia nada sobre o episdio com o Jack Randall o Negro. Era uma estranha sensao o saber costure sobre um homem que nunca tinha visto e que inclusive sua amada irmana desconhecia.
       -Sente-se, criatura -disse Jenny.
       -Obrigado -murmurou Brianna; escolheu uma banqueta e abriu a carta.
       
       Segunda-feira, 19 de setembro. Colina do Fraser
       Meu queridsima Jenny:
       Todos gozamos de boa sade e nimo; e confiamos em que em meu lar todos estejam bem.
       Seu filho Ian vos envia seu afeto. Pede-me que diga ao Matthew e ao Henry que os envia de presente a pele curtida de um animal, chamado puercoespn por seus prodigiosos espinhos. Tambm te mando um presente para t, feito com o corpo desse mesmo animal, os ndios o preparam dessa forma to engenhosa que poder ver.
       Claire teve interessantes conversaes, se pode chamar-se assim  srie de gestos e caretas que utilizam para entender-se, com uma anci a ndia muito bem considerada como curandeira, quem lhe deu muitas novelo curativas.
       
       Tera-feira, 20 de setembro
       Hoje estive muito ocupado reparando o curral que protege durante a noite a nossas poucas vacas, porcos, etc., dos ursos, que por aqui so muito grandes. Mas no tema, no se aproximam dos humanos.
       Em matria de armamento nossa situao melhorou muito. Fergus comprou um rifle novo e vrias facas excelentes.
       
       Quarta-feira, 21 de setembro
       O urso voltou, encontrei seus rastros. Logo chegaram quatro ndios tuscarora- Conhecemo-los e so muito amveis. Estavam decididos a caar a nosso urso; lhes dei de presente tabaco e uma faca, Indicaram-me, com toda amabilidade, que o urso tinha abandonado a zona e se dirigia ao oeste.
       Por precauo deixei meu rifle preparado.
       
       Segunda-feira, 26 de setembro
       Ian e seus amigos ndios tornaram da caada.
       Claire, com sua habitual capacidade para notar as enfermidades, disse que um de nossas hspedes no estava bem. E terminou hospedado em nosso celeiro.
       
       Sbado, 1 de outubro
       Uma grande surpresa no dia de hoje. chegaram duas hspedes...
       
       -Tem que ser um lugar selvagem -disse Jenny, sobressaltando a Brianna-. ndios, ursos e puercoespines- E muito solitrio no alto das montanhas. -Olhou a Brianna com ansiedade-. Mas querer ir, no?
       -Irei logo que possa -assegurou a sua tia.
       O rosto do Jenny se relaxou.
       -Ah, bom -disse, mostrando uma bolsa de couro decorada com pele de puercoespn-.  o presente que me mandou.
       - precioso -disse Brianna voltando para a carta, mas Jenny seguiu perguntando.
       -Ficar durante um tempo?
       -Ficar ?
       -S um par de dias. Sei que desejas ir mas eu gostaria de muito poder conversar contigo.
       -Sim -disse brandamente Brianna-.  obvio que ficarei.
       -Isso est bem -disse com um sorriso e olhou a sua sobrinha com alegria-.  igual a meu irmo!.
       Uma vez sozinha, Brianna continuou lendo a carta.
       
       chegaram duas hspedes do Cross Creek. Acredito que recordar a lorde John Grei, a quem conheci no Ardsmuir. Voltei-o a ver na Jamaica, onde era governador da Coroa.
       Sua esposa, embarcada da Inglaterra com seu filho, contraiu umas febres durante a viagem e faleceu. Lorde John decidiu levar a moo a Virginia para ver suas propriedades e distrair o de sua dor.
       O moo se chama William e lorde John  seu padrasto. Seu interesse pelos ndios me recorda ao Ian de no faz muito tempo. Tem uns doze nus e  um formoso moo.
       Brianna voltou a pgina e se encontrou com uma lacuna que chegava at em 4 de outubro.
       Tera-feira, 4 de outubro
       O ndio do celeiro morreu de sarampo, em que pese a todos os esforos do Claire. No sabemos como enterr-lo para no ofender os costumes dos ndios e para que no criam que fomos os causadores de sua morte.
       Confesso-te que sinto algo dava preocupao pela ameaa que representam os ndios e a enfermidade, enviarei-te esta carta com nossas hspedes.
       Se tudo for bem te escreverei logo.
       Seu irmo que mais te quer,
       Jaime Fraser
       P.D. 20 de outubro
       Estamos todos bem. Ian esteve doente de sarampo, igual a lorde John, mas os dois se recuperam bem. Claire diz que Ian est muito bem e que no deve temer por ele. Escreve-te ele mesmo. J.
       Na ltima pgina a letra era diferente, mais cuidada e escolar, mas com manchones de tinta.
       Querida mame:
       Estive doente mas j estou bem. Tive febre e sonhos estranhos. Havia um grande lobo que me falava com voz de homem, mas tia Claire diz que deveu ser Cilindro, que no se moveu de meu lado durante todo o tempo que estive doente;  um bom co e no remi muito freqentemente.
       Picava-me todo o corpo, como se me tivesse sentado sobre um formigueiro, e a cabea me doa muito pela febre. Mas hoje me comi trs ovos com advenha para tomar o caf da manh e fui s duas vezes  privada, assim j estou bem. Ao princpio acreditei que a enfermidade me tinha deixado cego, mas tia Claire disse que me passaria e assim foi. Fergus me est esperando para lev-la c.
       Seu filho devoto e obediente,
       Ian Murray
       
       -E eu acreditava que este era um lugar primitivo -murmurou Brianna enquanto dobrava as folhas.
       No to primitivo, depois de tudo, pensou enquanto seguia ao Ian pelo ptio da granja e passavam s outras construes. Tudo estava bem cuidado. A nica diferena real com uma granja moderna era a ausncia de equipamento. No havia tratores. Os animais eram saudveis, embora talvez, um pouco mais pequenos que os do sculo XX.
       Ian usava sua saia escocesa com a naturalidade de quem no o considera um uniforme, a no ser parte de seu corpo. Entretanto, Brianna sabia que no era habitual us-la porque Jenny o tinha cuidadoso primeiro com assombro e logo com um sorriso quando baixou a tomar o caf da manh.
       O tecido era velho e estava gasto, mas se notava que tinha sido conservada com cuidado. Deveram ocult-la depois do Culloden, junto com as pistolas, espadas e gaitas de fole, os smbolos do orgulho conquistado.
       No, no exatamente conquistado, pensou, ao recordar ao Roger Wakefield.
       "Os escoceses tm muita memria -havia-lhe dito-, e no so gente que perdoe com facilidade. H uma lpide com o nome MacKenzie, uma grande quantidade de meus parentes jazem ali. No sinto algo muito pessoal mas tampouco perdoei."
       No, no conquistados. Vencidos, dispersos, mas vivos. Como Ian, coxo mas em p. Como seu pai, banido mas ainda um highlander.
       Com um esforo, afastou ao Roger de sua mente e se apressou a seguir ao Ian.
       
       Seu rosto alargado se iluminou de prazer quando Brianna lhe pediu que lhe ensinasse Lallybroch. Tinham acordado que o jovem Jamie a levaria ao Inverness a semana seguinte, onde poderia encontrar uma embarcao que a levasse at as colnias com certa segurana.
       Foi uma larga caminhada. Passaram por um campo semeado de batatas. Ian lhe explicou que tinha sido idia do Claire e que mais de uma vez lhes salvou de morrer de fome.
       Fazia vento mas o dia era caloroso e Brianna suava quando se detiveram ante um estreito atalho e se sentaram sobre umas grandes pedras. Desde aquele ponto, com o vale a seus ps, a casa parecia pequena e uma intruso da civilizao no selvagem entorno de penhascos e urzes.
       Ian tirou uma garrafa de pedra de seu embornal e lhe tirou a cortia com os dentes.
       -Isto tambm  devido a sua me -disse com um sorriso enquanto lhe oferecia a garrafa-. Refiro a meus dentes. -passou-se a lngua pelos incisivos, com gesto pensativo e sacudindo a cabea-.  muito boa com as ervas.
       -Quando era pequena sempre me dizia que comesse verdura e que me limpasse os dentes.
       A cerveja era forte e amarga, mas resultava muito refrescante depois da caminhada.
       -Quando foi pequena, n? -Ian a olhou divertido-. Sua me soube fazer bem as coisas, no?
       Brianna lhe sorriu lhe devolvendo a garrafa.
       -Ao menos soube escolher um homem alto.
       Ian riu e a olhou com afeto.
       -Que agradvel  verte, moa.  muito parecida com ele. Quanto eu gostaria de estar quando Jamie te veja!
       -No sei o que saber sobre mim -disse a jovem-. No te disse nada?
       Ian franziu o sobrecenho.
       -No -disse lentamente-. Mas talvez no teve tempo de me dizer nada. No esteve muito tempo quando voltou Claire. -deteve-se mordendo o lbio e a olhou-. Sua tia estava preocupada. Pensava que podia culp-la.
       -Culp-la por que?
       Olhou-lhe intrigada.
       -Pelo Laoghaire.
       -O que tem que ver a tia Jenny com o Laoghaire?
       -Foi ela quem pressionou ao Jamie para que se casasse com o Laoghaire. O fazia por seu bem. Ento acreditvamos que Claire tinha morrido.
       Seu tom guardava uma pergunta, mas Brianna se limitou a assentir olhando para o cho. Era terreno perigoso e melhor no dizer nada para que Ian continuasse.
       -Foi quando voltou para casa da Inglaterra, onde esteve prisioneiro vrios anos...
       -Sei.
       Ian a olhou surpreso, mas no disse nada e sacudiu a cabea.
       -Bom, quando voltou tinha trocado. Era como falar com um fantasma. Olhava-me, falava, sorria, mas no estava aqui. -Respirou profundamente-. depois da derrota do Culloden era diferente. Estava ferido e tinha perdido ao Claire. -Olhou de esguelha a Brianna mas esta continuou imvel-. Era uma poca de desespero, tinha morrido muita gente na batalha, e tambm depois, por enfermidades ou por fome. Os soldados ingleses continuavam assolando-o tudo e matando. Em casos assim no pode pensar em morrer porque a luta por sua vida e pela de sua famlia te ocupa todo o tempo.
       Alguma lembrana daquela poca fez aparecer um sorriso nos lbios do Ian.
       -Jamie se escondeu ali. H uma cova detrs desse grande arbusto. Por isso te trouxe at aqui.
       Olhou para onde lhe indicava.
       -Vinha a lhe trazer comida quando estava doente. Disse-lhe que tinha que voltar para casa, que Jenny tinha medo de que morrera ali, sozinho. Abriu um olho, brilhante pela febre, e com voz rouca me disse que no o ia pr fcil aos ingleses e que no pensava morrer. Logo ficou dormido.
       Olhou-a com ironia.
       -Fiquei toda a noite com ele, mas tinha razo o muito teimoso.
       Brianna assentiu e se levantou de repente para subir pela colina. Ian no protestou e ficou observando-a. A boca da cova era pequena, mas uma vez atravessada, o espao se alargava. ajoelhou-se e colocou a cabea; o frio foi imediato e posso sentir como a umidade se condensava em suas bochechas.
       Sete anos! Sete anos vivendo ali, passando fome e fria. "Eu no agentaria nem sete dias", pensou. "No o faria?", disse outra parte de sua mente. Ento sentiu outra vez a mesma sensao de reconhecimento que quando viu o retrato do Ellen.
       Permaneceu imvel, escutando, e pensou que sabia o que Jamie Fraser tinha encontrado ali: no isolamento a no ser solido, no sofrimento a no ser resignao. Ali descobriu um irnico parentesco com as rochas e o cu, uma paz que transcendia o desconforto fsica. No tinha visto a cova como uma tumba, mas sim como um refgio.
       Ian deveu ouvi-la quando retornava, mas no se voltou. Brianna se sentou a seu lado.
       - seguro us-la agora? -disse bruscamente, assinalando a saia escocesa.
       -Sim. passaram anos da ltima vez que vieram os soldados. depois de tudo, o que ficou?
       Fez um gesto para o vale.
       -Voc est aqui. E Jenny.
       -Sim, isso  verdade -disse finalmente, olhando-a-. E agora est voc tambm. Sua tia e eu estivemos falando ontem  noite: queremos que quando vir ao Jamie e tudo esteja bem entre vs lhe pergunte o que quer que faamos.
       -Fazer? Com o que?
       -Com o Lallybroch. Talvez no saiba, mas seu pai fez uma escritura depois do Culloden cedendo Lallybroch ao jovem Jamie, se por acaso o matavam ou o condenavam por traidor. Mas isso foi antes de que voc nascesse, antes de que soubesse que tinha uma filha prpria.
       -Sim, sabia. -Teve um sbito conhecimento do que queria lhe dizer e lhe ps a mo no brao surpreendendo-o-, No vim por isso, tio -disse brandamente-. Lallybroch no  meu e no o quero. Tudo o que quero  ver meus pais.
       -Sim, bom. De todos os modos deve dizer-lhe se ele desejar...
       -No, no o far -o interrompeu com firmeza. Ian a olhou com olhos sorridentes.
       -Sabe muito sobre o que far para no hav-lo visto nunca. -Brianna lhe devolveu o sorriso enquanto o sol esquentava seus ombros-. Suponho que sua me lhe contaria isso. Ela o conhecia.
       -Sim -vacilou. Desejava saber mais sobre o Laoghaire e no sabia como perguntar-lhe O que era isso da apario, tio Ian?
       -Est pensando no que disse Laoghaire? -Sem esperar resposta se deu a volta e comeou a baixar para o arroio-.  a viso de uma pessoa quando esta est longe. Algumas vezes ocorre quando algum morre longe de seu lar. D m sorte ter uma apario, mas  pior encontrar-se com sua prpria imagem, pois indica que vais morrer.
       -Espero que no. Mas ela disse...
       - certo que Jenny viu sua me nas bodas do Jamie. Ento se deu conta de que no eram um bom casal, mas j era muito tarde.
       agachou-se frente ao arroio e se molhou a cara. Brianna o imitou e bebeu a gua fresca. Como no tinha toalha se secou com as abas da camisa, deixando ao descoberto a cintura ante o olhar escandalizado do Ian.
       -foste contar me por que meu pai se casou com ela -disse e, ao dar-se conta da expresso do Ian, voltou-se a cobrir.
       -Sim, havia-te dito que quando Jamie retornou da Inglaterra estava como sem vida. No sei o que, mas algo lhe aconteceu ali, disso estou seguro. Ento Jenny organizou o matrimnio. Talvez j seja o bastante major para saber o que uma mulher pode fazer por um homem, ou ele por ela. Refiro-me a consol-lo e a encher seus vazios. Mas acredito que Jamie se casou com o Laoghaire por lstima. -encolheu-se de ombros e sorriu-. Bom. No tem sentido pensar o que tivesse podido acontecer, no? Mas deve saber que tinha abandonado a casa do Laoghaire tempo antes de que sua me retornasse.
       Brianna sentiu uma quebra de onda de alvio.
       -Bom. Me alegro se soubesse. E minha me... quando retornou...?
       -Jamie se sentiu muito contente de voltar a v-la -disse Ian com simplicidade. Esta vez o sorriso lhe iluminou a cara-. E eu tambm.
       
       
       35
       Boa viagem
       
       Recordava-lhe a loja de ces da cidade de Boston: um espao grande, algo escuro e com a atmosfera densa pelo aroma de animais. O grande edifcio do mercado do Inverness albergava grande quantidade de empresas: venda de comida, agentes de seguros, recrutamento de pessoal para a Marinha Real... Mas era o grupo de homens, mulheres e meninos amontoados em um rinco o que dava mais fora a aquela desagradvel viso.
       de vez em quando algum homem ou mulher saa do grupo e ensinava os ombros e queixo para demonstrar sua boa sade. A maior parte dos que se ofereciam a si mesmos para a venda olhavam aos paseantes com expresses que foram da esperana ao temor, muito parecidas com as dos ces enjaulados que tinha visto quando seu pai a levou a adotar um cachorrinho.
       O jovem Jamie passava lentamente entre o grupo com o chapu sobre o peito para que no o esmagassem e os olhos entrecerrados, observando o que se oferecia. Ian tinha ido ao escritrio para ocupar da passagem a Amrica, deixando a Brianna com sua primo para escolher um servente que a acompanhasse na viagem. Em vo tinha protestado dizendo que no necessitava acompanhante; depois de tudo tinha viajado sozinha da Frana.
       Os homens tinham sorrido com amabilidade e aqui estava, seguindo obediente ao jovem Jamie como uma das ovelhas de sua tia Jenny. Agora comeava a compreender o que sua me queria dizer ao descrever aos Fraser como "pessoas teimosas como rochas".
       Sua primo Jamie interrompeu seus pensamentos assinalando a um homem.
       -O que te parece esse, Brianna?
       -Parece o Estrangulador de Boston -murmurou, gritando logo ao ouvido de sua primo-: No! Parece um boi!
       - forte e parece honrado.
       Brianna pensou que parecia muito estpido para ser insincero, mas se limitou a sacudir a cabea. Claire lhe havia dito que a comida podia ser terrivelmente m ou incrivelmente boa. Tudo o que se come est acostumado a estar salgado ou  fresco e ento  uma autntica maravilha.
       E o que tinha comprado sua primo era maravilhoso, tinha decidido Brianna. Era uma torta quente em forma de meia lua, cheia de carne picada e condimentada com cebola.
       Enquanto comia, advertiu que a olhava um homem com uma casaca andrajosa.
       -Sim?
       -Necessita um servente, senhora?
       -Bom, eu no diria que o necessito, mas de todas maneiras vou ter que aceitar um. Est interessado?
       -... eu... quer dizer, no sou eu. Mas poderia considerar tomar a minha filha? -disse bruscamente-. Por favor!
       -Sua filha? -Brianna o olhou assombrada.
       -O suplico, senhora! -Surpreendida viu como os olhos do homem se enchiam de lgrimas-. No sabe quo urgente  nem a gratido que lhe guardarei se aceitar.
       -Bom... mas...
       - uma garota forte em que pese a sua aparncia e cheia de vontade. Estar encantada de servi-la e voc, desse modo, comprar seu contrato.
       -Mas por que, qual  o problema?
       -H um homem. O... ele a deseja. No como faxineira, mas sim como... como concubina.
       As palavras lhe saam com dificuldade e seu rosto se estava pondo arroxeado.
       -Hum. -Brianna descobriu a utilidade dessa ambgua expresso-. J vejo. Mas no tem por que deixar que sua filha v com ele, certo?
       -No tenho eleio. -Sua angstia era evidente-. O contrato de minha filha est em posse do senhor Ransom, o corredor, e a vender sem vacilar a esse... esse...
       Agarrou-lhe uma mo entre as suas.
       -Vi-a com um aspecto to nobre e orgulhoso que pensei que meus rogos tinham sido escutados. Ah, senhora, no se negue ante a splica de um pai. Tome-a!
       -Mas vou a Amrica! Nunca... -mordeu-se o lbio- quero dizer, no poder v-la em muito tempo.
       -Amrica? -sussurrou-. Prefiro que se v a um lugar selvagem e longe de mim, que ver como a desonram ante meus olhos.
       Brianna no sabia o que lhe dizer.
       -Y... qual... sua filha, qual ?
       -Deus a benza! vou procurar a!
       Oprimiu-lhe a mo com ardor e desapareceu entre a multido.
       -Esta  Elizabeth -anunciou uma voz agitada-. Sada a senhora, Lizzie.
       Brianna a olhou e soube que a deciso j estava tomada.
       -Ai, querida -murmurou, vendo a pequena cabea loira que se inclinava em uma reverncia-, um cachorrito. A cabea se levantou mostrando um rosto magro e uns aterrados olhos cinzas que ocupavam quase toda a cara.
       -Para servi-la, senhora -disse a boquita.
       -Ah... quantos anos tem, Lizzie? Posso te chamar Lizzie?
       A jovem sussurrou algo e olhou a seu pai, que respondeu ansioso.
       -Quatorze, senhora. Mas tem boa mo para a cozinha e a costura. E  muito limpa.
       Permaneceu com as mos apoiadas sobre os ombros de sua filha. Seus olhos, suplicantes, encontraram-se com os da Brianna. Seus lbios se moveram sem emitir som algum, mas Brianna ouviu claramente como diziam "por favor".
       Mais  frente via seu tio falando com o jovem Jamie. De um momento a outro viriam a procur-la.
       Respirou profundamente e se ergueu. Bom, pensando-o bem ela era muito mais Fraser que sua primo. vamos ver se tambm podia chegar a ser to teimosa como uma rocha.
       Sorriu a jovem, ofereceu-lhe a mo e o pedao de torta que ainda no tinha provado.
       - um trato, Lizzie. Quer morder para sel-lo?
       
       -Ela comeu de minha comida -disse Brianna com toda a segurana que pde-. portanto  minha.
       Surpreendida viu como essa declarao punha fim  discusso.
       -Mas do que te servir uma moa? -disse o jovem Jamie-. No tem fora nem para levar a bagagem.
       -Sou o bastante forte para levar minha bagagem, obrigado -assinalou Brianna.
       -Mas uma mulher no deveria viajar sozinha.
       -No estarei sozinha, terei ao Lizzie. 
       -E menos a um lugar como a Amrica!
       -Parece o fim do mundo pela forma em que falas, mas tenho entendido que nunca esteve ali -disse Brianna com exasperao-. Eu, em troca, nasci na Amrica!
       O tio e o primo a olharam com idnticas expresses de assombro. Viu ento uma oportunidade de tomar um pouco de vantagem na discusso, aproveitando o desconcerto de ambos.
       - meu dinheiro, minha faxineira e minha viagem. Dava-lhe minha palavra e a manterei.
       Ian se esfregou o lbio para evitar sorrir.
       -Acredito que no h lugar a dvidas sobre de quem herdou a teimosia, criatura.
       O jovem Jamie fez um ltimo intento.
       - muito pouco comum que uma mulher expresse livremente suas opinies.
       -Crie que as mulheres no devem ter opinies?
       -Isso acredito.
       Ian olhou a seu filho.
       -estiveste casado, quanto tempo? Oito anos? -Sacudiu a cabea-. Ah, bom, seu Joan  uma mulher com tato.
       -voltou-se para o Lizzie-. Muito bem, v despedir te de seu pai e eu irei procurar os papis. -Observou afastar-se  pequena criatura e, com gesto de dvida, voltou-se para a Brianna-. Talvez seja melhor companhia que a de um homem, mas sua primo tem razo em uma coisa: no te servir de amparo. Mas bem, ser voc quem tem que cuid-la.
       Brianna endireitou os ombros e levantou o queixo.
       -Posso arrumar me disse isso.
       
       Manteve a mo apertada sujeitando a pedra que tinha na palma. Deste modo se dava foras enquanto via como a costa de Esccia se afastava.
       Brianna nunca se considerou escocesa, mas tinha uma estranha sensao ao separar-se daquela gente e aqueles lugares que tinha conhecido fazia to pouco tempo. Talvez se contagiava da emoo dos outros passageiros.
       Muitos estavam na coberta como ela, alguns chorando abertamente. Ou possivelmente era o medo ante o comprido viaje que a esperava. Mas tinha a certeza de que no era nenhuma dessas coisas.
       -Isso  tudo, espero.
       Era Lizzie aparecendo a seu lado para ver as ltimas imagens de Esccia. Seu rosto plido permanecia inexpressivo, mas Brianna no o interpretava como uma falta de sentimentos.
       -Sim, j estamos em caminho.
       Em um impulso, Brianna agarrou a jovem e a envolveu com o xale, protegendo-a do vento e dos outros passageiros.
       -Tudo vai bem -disse tanto para o Lizzie como para si mesmo.
       Tinha sobrevivido a muitas despedidas e sobreviveria a esta tambm. O que a fazia mais dura era que j tinha perdido pai, me, amor, casa e amigos. Estava sozinha por necessidade, mas tambm por eleio, j que inesperadamente tinha encontrado de novo um lar e uma famlia no Lallybroch. Teria dado algo por ficar mais tempo, mas antes tinha que cumprir sua promessa; j retornaria a Esccia e ao Roger.
       Lizzie permaneceu rgida como um pau. Suas orelhas eram largas e transparentes e se sobressaam, tenras e frgeis, de seu cabelo fino e murcho como as de um camundongo. Brianna lhe secou as lgrimas. Seus olhos permaneciam secos e sua boca firme enquanto olhava a terra por cima da cabea do Lizzie. Mas aquele rosto frio, de lbios trementes, bem poderia ter sido o seu.
       Permaneceram em silncio at que a terra desapareceu.
       
       
       36
       No pode retornar a casa outra vez
       
       Inverness, julho de 1769
       Roger caminhou lentamente atravs da cidade, olhando a seu redor com uma mescla de fascinao e deleite. Inverness tinha trocado um pouco em duzentos anos, disso no havia dvida; entretanto, era possvel reconhecer a cidade, mais pequena e com a metade de suas enlameadas ruas sem pavimentar; mas "reconhecia" essas ruas pelas que tinha caminhada centenas de vezes.
       notava-se a mesma umidade fria no ar, mas o molesto aroma dos motores tinha sido substitudo por um distante aroma de guas residuais. A diferena mais notvel estava nas mrgenes do rio. Onde um dia se levantariam uma nobre profuso de agulhas e campanrios do Iglesias, agora no havia mais que pequenas edificaes.
       Existia uma nica ponte de pedra, mas o rio Ness era, naturalmente, o mesmo de sempre. O caudal era baixo e as gaivotas se faziam companhia enquanto pescavam pececillos entre as pedras.
       Aqui e l, confortveis residncias se isolavam com amplos jardins, como uma grande dama que estende suas saias fazendo caso omisso da presena do povo vizinho.
       Ali estava Mountgeraid, a grande casa, luzindo exatamente como sempre a tinha conhecido, salvo que as grandes haja ainda no tinham sido plantadas e em seu lugar, contra a parede do jardim, havia uns ciprestes italianos com aspecto de nostalgia por seu ensolarado pas de origem.
       Mas tinha outras coisas que fazer: Mountgeraid e seus fantasmas teriam que guardar-se seus segredos. Com um pouco de pesadumbre deixou atrs a grande casa e voltou seu nariz de estudioso para a rua que levava aos moles.
       Com uma sensao que s podia qualificar-se de deixa vu empurrou a porta do botequim e entrou. Era o mesmo ambiente que visse uma semana antes (duzentos anos depois); o aroma familiar da levedura de cerveja reconfortou seu esprito. E1 nome tinha trocado, mas no o aroma da cerveja.
       Roger bebeu um gole de sua jarra de madeira e quase se afogou.
       -Tudo bem?
       O dono de cantina se deteve com um cubo de areia na mo, observando ao Roger.
       -Bem -respondeu Roger com voz rouca-. Estou bem.
       O dono de cantina assentiu e continuou esparramando areia sem perder de vista ao Roger, se por acaso lhe ocorria vomitar no cho. Roger se esclareceu garganta e memorou tragar um sorvo. O sabor era bom, muito bom em realidade. O inesperado era a quantidade de lcool. Era muito mais forte que a cerveja moderna. Claire lhe havia dito que o alcoolismo era endmico naquela poca e Roger se deu conta facilmente da razo. Entretanto, se a bebedeira era o pior risco ao que se enfrentava, podia corr-lo.
       Permaneceu tranqilo, saboreando a cerveja, escutando e olhando.
       Era um botequim do porto, muito concorrida por capites de navios e comerciantes, assim como por marinheiros e trabalhadores dos armazns prximos. Ali se realizavam negcios e transaes. Mas no s se comercializava com mercadorias.
       Em um rinco estava sentado um capito de navio que destacava pelo corte de sua casaca e o tricornio negro da mesa. Um escrivo com um livro de contas e um porquinho lhe ajudava a entrevistar a emigrantes que procuravam passagens para as colnias. Os que no tinham mdios para pagar as passagens tinham outras possibilidades.
       -Os moos e voc podem ter possibilidades -disse o capito. Olhou  mulher que no levantava a vista e franziu o sobrecenho-. Mas ningum comprar uma mulher com tantos meninos. Talvez possa ficar com algum. Mas ter que vender s meninas.       
       O homem olhou a sua famlia. Sua esposa mantinha a cabea baixa sem olhar a ningum. Uma das meninas se moveu, queixando em voz baixa porque lhe tinham apertado a mo. O homem se deu a volta.
       -Muito bem -disse em voz baixa-, Podem... poderiam ir juntas?
       O capito se esfregou a boca com indiferena.
       -No seria estranho.
       Roger no quis presenciar os detalhes do transao. levantou-se bruscamente e abandonou o local; a cerveja negra tinha perdido seu sabor.
       Tinha crescido ouvindo a histria dos Highlands; Conhecia muito bem a classe de coisas que tinha levado s famlias a tal estado de desespero, lhes obrigando a aceitar separaes permanentes e situaes de semiesclavitud como preo pela sobrevivncia.
       Caminhou lentamente olhando a coleo de navios ancorados nos moles de madeira. Podia cruzar a Frana,  obvio, e embarcar ali. Ou viajar por terra at o Edimburgo, um porto muito mais importante que o do Inverness. Mas j sria tarde para embarcar esse ano. Brianna lhe levava seis semanas de vantagem e no podia desperdiar o tempo. S Deus sabia o que podia lhe passar a uma mulher sozinha.
       -O primeiro  o primeiro -murmurou-. Mas deveria me assegurar de onde foi, antes de decidir a viagem.
       Foi para a direita pelo estreito espao que deixavam duas lojas de departamentos. Seu esprito corajoso da manh se evaporou, entretanto se recuperou um pouco ao ver que estava frente ao que procurava: o escritrio do capito de porto estava situada no mesmo edifcio de pedra onde estaria duzentos anos depois. Roger sorriu com ironia. Os escoceses no estavam acostumados a fazer mudanas s pelo gosto de trocar.
       Havia muita gente ocupada no interior; quatro escrives detrs de um mostrador de madeira faziam recibos e levavam o dinheiro cobrado a um escritrio interior.
       Quando Roger conseguiu captar a ateno de um dos empregados, no teve grande dificuldade em conseguir os registros dos navios que tinham zarpado do Inverness nos ltimos meses.
       -Espere -disse Roger ao jovem empregado que lhe entregava um grande livro forrado de couro-. Quanto lhe pagam por trabalhar aqui?
       O empregado arqueou as sobrancelhas.
       -Seis xelins por semana -disse, desaparecendo para o grito irritado do Munro" que saiu do outro escritrio.
       Roger se levou o livro de registros at uma pequena mesa, ao lado da janela.
       Em sua cabea ressonou uma voz fria e tranqila que lhe dizia: " um parvo. Ela estar aqui ou no estar, ter medo a olhar no trocar nada. Comea".
       Meia hora mais tarde tinha deixado de maravilhar-se do potico e pitoresco dos nomes dos navios e percorria os artigos com crescente desespero. No estava, no estava ali.
       Mas tinha que estar, tinha que ter embarcado para as colnias. A que outro maldito lugar podia ter ido? Salvo que, depois de tudo, no tivesse encontrado a notcia... mas estava seguro, nenhuma Outra coisa a tivesse feito arriscar-se a passar pelas pedras.
       Respirou profundamente e fechou os olhos. Logo os voltou a abrir e comeou a ler de novo, repetindo todos os nomes para assegurar-se de que no deixava passar nenhum.
       Mas no havia Randalls naqueles navios. esfregou-se os olhos, cansados de decifrar aquela letra. No tinha abandonado a busca, mas se perguntou o que faria se no a encontrava. Lallybroch,  obvio. Tinha estado ali uma vez em seu prprio tempo. Poderia encontr-lo de novo, sem a guia de caminhos e sinais da estrada?
       Seus pensamentos se detiveram ante um nome, quase ao final da pgina. No era Brianna Randall, o nome que ele procurava. Mas sim um nome conhecido: "Fraser. Brian Fraser".
       Ao olhar mais de perto viu que tampouco era Brian, a no ser Brianna. Fechou os olhos com um profundo alvio. Era ela, tinha que ser ela! No tinha visto nenhuma outra Brianna no registro. E tinha sentido que usasse o sobrenome Fraser. Ia em busca de seu pai e esse sobrenome lhe correspondia por direito de nascimento.
       O navio era o Phillip Alomo e tinha sado do Inverness em 4 de julho do ano do Senhor de 1769, para o Charleston, Carolina do Sul.
       Franziu o sobrecenho sbitamente inseguro. Carolina do Sul. Era esse seu destino real ou o mais perto que podia chegar? Um rpido olhar ao resto dos navios registrados lhe revelou que no havia nenhum para a Carolina do Norte. Talvez s tinha tomado o primeiro navio para as colnias do sul com a inteno de fazer o resto da viagem por terra.
       levantou-se e foi devolver o livro ao mostrador.
       -Obrigado -disse-. Poderia me dizer se houver algum navio que saia logo para as colnias?
       -Sim -disse, agarrando o registro com uma mo e aceitando uma fatura de um cliente com a outra-. O Glorificaria sai depois de amanh para as Carolinas. -Olhou ao Roger de cima abaixo-. Emigrante ou marinheiro? -perguntou.
       -Marinheiro -respondeu com rapidez. Passando por cima as sobrancelhas arqueadas pela surpresa, fez um gesto para os guichs-. Onde tenho que ir assinar?
       O empregado assinalou a porta.
       -Seu capito, o capito Bonnet, deve estar no botequim.-No acrescentou o que sua expresso fazia evidente: se Roger era marinheiro, ele, o escrivo, era um louro africano.
       -Bem, mo ghille. Obrigado. me deseje sorte! -gritou Roger, com um sorriso zombador.
       -Que tenha sorte!
       E agitou a mo.
       
       Encontrou ao capito Bonnet no botequim, tal como lhe haviam dito. Estava em um rinco, envolto em uma nuvem de fumaa ao que se somava a fumaa do charuto do marinho.
       -Seu nome?
       -MacKenzie -disse Roger em um sbito impulso. Se Brianna o tinha feito, ele tambm podia.
       -MacKenzie. Alguma experincia, senhor MacKenzie?
       -A pesca de arenques no Minch.
       No era mentira; durante sua adolescncia tinha pescado arenques no vero. A experincia lhe tinha deixado uma boa musculatura, ouvido para a cadncia da linguagem das ilhas e um marcado desgosto pelos arenques. Mas ao menos sabia o que era sustentar uma corda entre as mos.
       -Ah, bom,  um moo grande. Mas ser pescador no  o mesmo que ser marinheiro.
       O suave acento irlands deixava aberta a possibilidade de que fora uma pergunta, uma afirmao ou uma provocao.
       -No pensava que essa ocupao requeresse grandes habilidades.
       Sem nenhuma razo aparente o capito Bonnet lhe punha os cabelos de ponta.
       -Talvez mais do que crie, embora nada que um homem com vontade no possa aprender. Mas a que se deve que um moo como voc dita converter-se em marinheiro?
       -Acredito que isso no  seu assunto -respondeu tranqilamente. E com certo esforo manteve as mos quietas nos flancos.
       Os plidos olhos verdes do Bonnet o estudaram desapasionadamente, sem piscar.
       -Estar embarcado ao pr do sol -disse Bonnet- Cinco xelins ao ms, carne trs dias  semana e pudim de ameixas os domingos. Ter uma rede, mas a roupa  tua coisa. Ter liberdade para abandonar o navio uma vez que a carga esteja desembarcada, no antes. Estamos de acordo, senhor?
       -Estou de acordo -disse Roger, e de repente sentiu a boca seca.
       Tivesse dado algo por uma cerveja, mas no agora, no ante aqueles frios olhos verdes.
       -Pergunta pelo senhor Dixon quando subir a bordo.  o pagante.
       Bonnet se tornou para trs, tirou um livrinho de couro de seu bolso e o abriu. Audincia concluda.
       Roger partiu sem olhar para trs. Sentia um frio sorvete na nuca. Se se dava a volta sabia que encontraria aquele olhar fixo tomando nota de todas suas debilidades.
       37
       Gloriana
       antes de embarcar-se no Gloriana, Roger se considerava em um estado fsico razoavelmente bom. De fato, comparado com a maioria dos especmenes mau alimentados que constituam o resto da tripulao, considerava-se bem dotado. Necessitou exatamente quatorze horas, a durao de uma jornada de trabalho, para descobrir seu engano.
       Tinha esquecido a profunda fadiga que provocava a roupa molhada e fria. Recebia com agrado a pesado trabalho de carregar, porque o esquentava temporalmente, embora sabia que aquele calor no duraria, j que ao sair a coberta o vento gelado congelaria sua roupa molhada.
       Em dois dias terminaram de carregar os barris de sal, os cilindros de tecido e os pesadas embalagens de quinquilharia que, por seu peso, terei que levantar com cordas. Para o qual o tamanho do Roger resultou muito til.
       Os passageiros subiram a bordo ao anoitecer: uma fila de emigrantes carregados com vultos de todo tipo, jaulas com galinhas e meninos.
       -So emigrantes que se pagam a passagem trabalhando -explicou seu companheiro Duff, olhando com olho prtico-. Alguns podem pagar assim, mas a maioria no. Tm que conseguir comida para sua famlia durante a viagem.
       -O capito no lhes d a comida?
       -Sim. -Duff tossiu e cuspiu-. Mas em troca de um preo.
       -Sorriu zombador e se secou a boca-. v jogar lhes uma mo, moo. No queremos que as lucros do capito caiam  gua, verdade?                   
       Surpreso pela quantidade de roupa que levava uma menina, a que subiu a bordo, dedicou-se a observar de perto s demais mulheres e se deu conta de que todas levavam um vestido sobre outro, como se levassem postas todas suas posses.
       Roger sorriu a um pequeno, obstinado s saias de sua me. No devia ter mais de dois anos, com cachos loiros e um gesto de temerosa desaprovao acima de tudo o que via.
       -Vem, homem -disse Roger brandamente, estendendo uma mo para anim-lo. J no precisava controlar seu acento, saa-lhe de forma natural o highland que falasse durante sua infncia-. Sua me no pode subir; anda, vem comigo.
       O menino permitiu que Roger o arrancasse das saias de sua me e o levasse pela coberta enquanto a mulher os seguia em silncio. Quando lhe entregou ao menino o olhou fixamente e Roger se afastou com certa insegurana, como se a tivesse abandonado para que se afogasse.
       Quando voltava para seu trabalho viu uma moa com um jovem, alto e arrumado, e um menino em braos. Ao v-los, Roger sentiu algo que podia ser inveja.
       -Voc, MacKenzie! -O grito o tirou de sua contemplao-, H uma carga esperando e no vai subir sozinha a bordo!
       
       Uma vez que embarcaram e se fizeram ao mar, a viagem transcorreu com a mesma tnica durante algumas semanas. O tempo tormentoso que tinham em Esccia rapidamente degenerou em ventos fortes e grandes cheire, provocando imediatamente enjos e vmitos.
       Roger teve a sorte de no enjoar-se. Sua experincia na pesca de arenques tinha sido suficiente para lhe dar uma boa perspectiva do tempo, junto com o conhecimento de que sua vida podia depender de se o sol brilhava esse dia ou no.
       Seus companheiros no eram amistosos mas tampouco hostis. Ao Roger no preocupava essa frieza; gostava que o deixassem sozinho com seus pensamentos, assim tinha a mente liberada enquanto seu corpo se ocupava das obrigaes alvos do navio.
       Estava mais interessado em quo passageiros na tripulao ou o capito. Viam-nos muito pouco, j que s podiam subir a coberta duas vezes dirias para tomar o ar, esvaziar seus bacinillas (j que as letrinas do navio no estavam preparadas para tanta gente) e recolher as pequenas quantidades de gua, racionada cuidadosamente para cada famlia. Roger esperava aquelas breves aparies e tratava de estar trabalhando perto do lugar onde apareciam.
       Seu interesse era profissional e pessoal; seu instinto de historiador despertava com a presena daquela gente e sua melanclica solido se acalmava para ouvi-los falar. Neles estava a semente de um novo pas, a herana do antigo. Tudo o que aqueles pobres emigrantes sabiam e valoravam permaneceria para que outros o conservassem.
       -Senhor -disse uma vocecita a seu lado-. Senhor, posso ir tocar o ferro?
       Olhou fazia abaixo e sorriu a uma pequena menina com seus dois hermanitos agarrados das mos.
       -Sim, a leannan -disse-. Adiante.
       A menina assentiu e os trs passaram com cuidado, sem incomodar a ningum, para subir e tocar a ferradura cravada no mastro como amuleto de boa sorte. O ferro era amparo e cura; as mes enviavam freqentemente a seus pequenos a tocar a ferradura.
       Roger pensava que tivesse sido melhor que o ferro tivesse efeitos internos, vendo a palidez dos rostos e as queixa por fornculos, febre e dentes que caam. Continuou com seu trabalho, medindo a gua que entregava aos emigrantes. A maioria sobrevivia a base de papa de aveia e ocasionalmente ervilhas secas e bolachas duras, o que constitua o total das "provises" que lhes proporcionava durante a viagem.
       Mas no tinha ouvido queixa a respeito; a gua era poda, as bolachas no estavam mofadas e se a rao de cereal no podia considerar-se generosa, tampouco mesquinha. A tripulao estava melhor alimentada graas s ocasionais cebolas.
       -Amanh far bom tempo, no? -disse uma jovem muito bonita de cabelo castanho claro que conhecia do mole do Inverness e a que chamavam Morag.
       -Espero que seja assim -respondeu enquanto lhe recolhia o balde para a gua e lhe sorria-. por que o diz?
       A jovem assentiu assinalando com o queixo.
       -H lua nova nos braos da velha, nisso terra significa bom tempo. Suponho que ser o mesmo no mar, no?
       -No perca o tempo conversando, moa, e lhe pergunte. 
       Roger se voltou e viu uma mulher de mdia idade falando com o Morag.
       -Quer te calar? -sussurrou a jovem-. No o farei, j disse que no!
       - uma moa teimosa, Morag -declarou a mulher maior enquanto se adiantava-. Se no o fizer voc, farei-o eu!
       A mulher apoiou uma mo no brao do Roger e lhe dedicou um encantador sorriso.
       -Qual  seu nome, jovem?
       -MacKenzie, senhora -disse respetuosamente Roger, ocultando um sorriso.
       -Ah,  MacKenzie! Bom, j v, Morag, poderia ser parente de seu homem e seguro que lhe agradar te fazer esse favor.
       A mulher se voltou com ar triunfal para a jovem e logo para o Roger com toda a fora de sua personalidade.
       -Est amamentando a uma criatura e morre de sede. Uma mulher precisa beber mais quando d de mamar ou lhe seca o leite. Mas  to parva que no se atreve a pedir um pouco mais de gua. Aqui ningum lhe ter inveja, no? -dirigiu a pergunta, com cara de aborrecimento, s outras mulheres da cauda.
       Como era de esperar todas as cabeas se moveram ao mesmo tempo, aceitando o que a mulher queria. Embora j tinha escurecido, o rosto do Morag estava visivelmente avermelhado. Com os lbios apertados aceitou o balde cheio de gua e fez uma pequena inclinao de cabea.
       -O agradeo, senhor MacKenzie -murmurou.
       
       O capito, a tripulao, os passageiros, inclusive a questo to importante do tempo, no ocupava mais que um fragmento dos pensamentos do Roger, No que pensava dia e noite, molhado ou seco, com fome ou alimentada, era na Brianna. Podia evocar seu rosto sem dificuldade.
       O resto era tambm uma iluso. Quando ela se foi, atravessando as pedras, levou-se toda sua paz. Vivia em uma mescla de medo e fria, condimentada pela dor da traio como se lhe atirassem pimenta nas feridas. As mesmas perguntas davam voltas em sua mente sem respostas, como uma serpente mordendo-a cauda.
       "por que se tinha ido?"
       "O que estava fazendo?"
       "por que no o havia dito?"
       O esforo para encontrar uma resposta  primeira pergunte-lhe fazia repetir todo uma e outra vez, como se essa resposta fora a chave de todo o mistrio da Brianna.
       Sim, sentia-se sozinho. Sabia muito bem como se sentia um quando no se tnia a ningum no mundo. Com essa segurana era uma razo pela que Brianna e ele estavam juntos. Claire tambm sabia, pensou de repente. ficou-se rf depois de perder a seu tio e, embora se casou, esteve separada de seu marido durante a guerra... Sim, ela sabia muito sobre o que era estar sozinha. Por isso se tinha preocupado em no deixar a Brianna sozinha, sem ningum que a amasse.
       Ele tinha tentado am-la como  devido; ainda o tentava, pensou com ironia, movendo-se inquieto em sua rede. Durante o dia, o esforo do trabalho aplacava as exigncias de seu corpo. Mas de noite... a Brianna de suas lembranas era muito real.
       No tinha vacilado. Soube do primeiro momento que a seguiria. Algumas vezes, entretanto, no estava seguro de se ia salvar a ou a atac-la grosseiramente; algo, sempre que esclarecesse situao entre eles. Havia dito que esperaria, mas tinha esperado muito.
       O pior de tudo no era a solido, pensou revolvendo-se inquieto, a no ser a dvida. Duvidava dos sentimentos dela e dos dele. Tinha pnico de no conhec-la verdadeiramente.
       Pela primeira vez desde que passasse entre as pedras, deu-se conta do que tinha significado sua negativa e tambm de que sua vacilao era sabedoria. Mas tinha sido sabedoria ou s medo?
       Se ela no tivesse passado pelas pedras, teria se entregue finalmente com todo seu corao? Ou se teria afastado procurando algo mais?
       38
       Pelos que se arriscam no mar
       Uma sbita tormenta impediu aos passageiros sair a coberta durante trs dias. Enquanto isso os marinheiros permaneciam em seus postos sem apenas tempo para comer e descansar. Quando tudo terminou, Roger se deixou cair em sua rede, muito cansado para tir-la roupa molhada.
       Esgotado, empapado, com o corpo cheio de sal e com vontades de dar um banho quente e passar uma semana dormindo, teve que responder  chamada da tarde depois de s quatro horas de descanso.
        posta do sol estava to exausto que todos os msculos lhe tremiam enquanto ajudava a colocar um barril de gua fresca,
       Uma menina, cheia de alegria por poder sair da adega, corria e saltava como louca, fazendo sorrir ao Roger apesar de seu cansao. A menina se apoiou no corrimo nas pontas dos ps, observando com cautela.
       -Crie que a tormenta a causou um Cirein Croin? O av diz que pde ser. Com suas caudas levantam as ondas -lhe informou a menina.
       -No me tinha ocorrido pens-lo. Onde esto seus hermanitos, a leannan?
       -Com febre -respondeu com indiferena-, Olhe! -gritou-. Olhe, est a!
       O terror na voz da menina fez que Roger se inclinasse para olhar. Uma silhueta escura aparecia na superfcie.
       -Um tubaro -disse Roger, estremecendo-se involuntariamente e acalmando  menina-.  s um tubaro. Sabe o que  um tubaro, no? Comemo-nos um a semana passada!
       A menina estava plida, tinha os olhos muito abertos e lhe tremia a boca.
       -Est seguro?
       -Sim -disse Roger com amabilidade e lhe deu gua para que bebesse-.  s um tubaro.
       -Isobel!
       Um grito indignado fez que a menina retornasse a ajudar nas tarefas familiares, deixando ao Roger sem outra distrao que seu trabalho e seus prprios pensamentos. Pensou que o navio era um frgil carapaa e que quo nico podia fazer era rezam "Pelos que se arriscam no mar. Senhor, tenha misericrdia".
       Uma das mulheres lhe aproximou, agarrou-o do brao e lhe mostrou o menino que levava em braos.
       -Senhor MacKenzie, o capito quereria esfregar os olhos do Gibbie com seu anel? Tem-nos inflamados de estar tanto tempo na escurido.
       Roger vacilou e logo se burlou de si mesmo. Como o resto da tripulao, tratava de manter-se afastado do Bonnet, mas no havia razo para negar-se  petio da mulher; o capito j tinha feito uso de seu anel de ouro como remdio, conhecido popularmente, para os problemas nos olhos.
       -Sim, claro -disse, esquecendo-se de si mesmo por um momento-. Venha.
       A mulher piscou surpreendida, mas o seguiu. O capito parecia to cansado como outros. Estava falando com seu assistente quando viu o Roger. Sua expresso se endureceu mas se relaxou quando ouviu o que queria. Sem comentrios, esfregou o anel de ouro que levava em seu dedo mindinho sobre os olhos fechados do pequeno Gilbert. Uma banda Lisa de ouro, observou Roger. Parecia um aliana de casamento e por seu tamanho podia ser o da mulher. O formidvel Bonnet com um smbolo de amor?
       -A criatura est doente -fez notar Dixon.
       Assinalou as manchas vermelhas debaixo das orelhas e suas bochechas ardendo de febre.
       -No  mais que a febre do leite -disse a mulher, abraando ao menino Com um gesto defensivo-. Esto-lhe saindo os dentes.
       O capito assentiu com indiferena e se deu a volta. Roger acompanhou  mulher at a cozinha a procurar um pedao de bolacha para que o menino o mastigasse e logo a mandou  adega com os outros.
       ficou pensando na conversao que tinha ouvido. O capito pensava deter-se em New Bem e no Edenton antes de chegar ao Wilmington. Era evidente que no tinha pressa e procurava os melhores preos para sua carga. Diabos, demorariam semanas em chegar ao Wilmington!
       No podia ser, pensou Roger. S Deus sabia o que poderia lhe passar a Brianna at ento. Decidiu baixar do Gloriana no primeiro porto que tocassem e seguir caminho para o sul da melhor forma que pudesse.  verdade que tinha dado palavra de que ficaria no navio at terminar de descarreg-lo; mas como no cobraria seu salrio resultaria bastante justo. Dixon tinha deixado ao capito e caminhava entre os passageiros, saudando os homens e detendo-se falar com as mulheres com criaturas. Roger pensou que aquilo era bastante estranho. O assistente no era um homem socivel com a tripulao e muito menos com os passageiros, aos que considerava uma carga bastante molesta.
       -MacKenzie!
       Um dos marinheiros o chamava para que ajudasse a arrumar as velas rasgadas pela tormenta. Roger grunhiu e estirou seus msculos doloridos. No lhe importava o que pudesse acontecer na Carolina do Norte, estaria muito contente de abandonar o navio.
       
       Duas noites mais tarde, um grito despertou ao Roger. Correu pela coberta mdio dormido e se deteve o receber um golpe no peito.
       -Fique onde est, tolo! -grunhiu Dixon.
       -O que acontece? O que acontece?
       Roger sacudiu a cabea. Havia mais gente na escurido, pois podia sentir os corpos que tropeavam enquanto ele se esforava por manter-se em p.
       -Assassinos! -gritou uma mulher-. Malvados agarra...!
       A voz se cortou bruscamente, e se ouviu um forte golpe na coberta de acima.
       -O que acontece? -De novo em p, Roger se abriu caminho gritando ao Dixon-. O que acontece? Abordaram-nos?
       Suas palavras foram apagadas pelos gritos e gemidos de mulheres e meninos, interrompidos pelos uivos e as maldies dos homens.
       Uma luz vermelha brilhava. O navio se incendiava? aferrou-se  escada e pde agarrar ao Dixon por um p.
       -me solte! -O p se liberou lhe dando uma patada na cabea-. Fica aquieto!  que quer te contagiar a varola?
       -Varola? Que diabos acontece aqui?
       Com os olhos acostumados  escurido, Roger lhe sujeitou o p e o torceu. Pego por surpresa, Dixon se soltou da escada e caiu pesadamente sobre o Roger e os homens de abaixo.
       Roger no fez caso dos gritos de fria e surpresa, e subiu a coberta. Havia um grupo de homens com faris que lanavam fazem de luz vermelha, branca e amarela que iluminavam as facas.
       Procurou outro navio com os olhos, mas o oceano estava negro e vazio. No havia piratas, a luta tinha lugar perto da escotilha que ia  adega. A metade da tripulao se reuniu ali, armada com facas e paus. Um motim?, pensou, e desprezou a idia. A cabea sem chapu do Bonnet destacava por cima das demais, brilhando  luz dos faris.
       -O que acontece? -gritou ao ouvido do contramestre, que levava um farol.
       O homem se sobressaltou e o olhou com fria.
       -No tem varola, verdade? -A ateno do Hutchinson voltou a centrar-se na escotilha aberta-, Fique abaixo!
       -J a tive. O que  o que...?
       O contramestre o olhou assombrado.
       -Teve-a? No tem picadas. Bom, no importa, baixa, necessitamos ajuda!
       -Para que? -perguntou Roger.
       -Varola! -voltou a gritar o contramestre. 
       Fez um gesto para a escotilha aberta. Um dos marinheiros apareceu no alto da escada com um menino chutando desesperado baixo o brao. Umas mos atiravam das costas do homem e uma voz de mulher uivava cheia de terror.
       O marinheiro quis defender-se da mulher e soltou ao menino. Roger o recolheu como se fora uma bola de rugby enquanto o homem e a mulher, abraados como amantes, caam pela boca da escotilha. ouviram-se mais gritos e gemidos.
       Roger tratou de acalmar ao menino, sentindo atravs de sua roupa como ardia pela febre. O contramestre os iluminou e olhou ao menino com desgosto.
       -Espero que tenha acontecido a varola, MacKenzie -disse. Era o pequeno Gilbert, o menino com os olhos inflamados. Em dois dias tinha trocado tanto que Roger quase no o reconhecia. antes de que pudesse reagir algum lhe arrancou o pequeno corpo febril.
       Os passageiros se recuperaram da surpresa do ataque. Um grupo de homens subiam pela escada armados com o que podiam e caam sobre os marinheiros com enlouquecida fria.
       Algum chocou contra Roger e o fez cair. Tratou de levantar-se apoiando-se em mos e joelhos, mas o chutaram nos flancos.
       To grande era a confuso que Roger sentiu que o despedaavam. Algum o agarrou por cabelo, mas conseguiu liberar-se enquanto golpeava a outro nas costelas. Durante um momento se encontrou fora da briga, ofegando para recuperar o flego. Duas figuras se aproximaram e lhe voltaram a golpear.  luz do farol do contramestre, Roger viu o rosto de um de seus atacantes: o mando do Morag MacKenzie, com seus olhos verdes cheios de fria.
       -J  suficiente -disse Hutchinson, e o homem foi arrojado sem cerimnias escotilha abaixo.
       Os companheiros do Roger o ajudaram a levantar-se e logo o deixaram enjoado e cambaleando-se enquanto terminavam sua tarefa. A resistncia teve uma curta vida pois, embora os passageiros foram armados com a fria do desespero, estavam fracos detrs seis semanas encerrados na adega, com enfermidades e mau alimentados. Os mais fortes foram golpeados at que se renderam, os mais fracos obrigados a retroceder v os doentes de varola...
       Roger olhou por cima do corrimo e vomitou. Estremecido pelo esgotamento caminhou lentamente pela coberta.
       Quo marinheiros encontrou em seu caminho permaneciam em silncio. Chegou at sua rede, desoy as perguntas de seus companheiros e se cobriu a cabea com a manta tratando de no ouvir os gemidos, de no ouvir nada.
       - o melhor, moo -havia-lhe dito Hutchinson ao v-lo vomitar-. A varola se estende como um incndio, no resistiriam at chegar a terra.                            
       Era isso melhor que uma morte lenta? No para os que ficavam. Os gemidos seguiam atravessando o silncio.
       Tinha ouvido dizer a um marinheiro que os tubares nunca dormem. Ento se deu conta da carga que tinham arrojado ao mar.
       
       Ao dia seguinte, em metade do guarda, Roger teve a oportunidade de baixar  adega. No fez nenhum esforo para no ser visto, tinha aprendido que, naqueles lugares, atuar de forma furtiva chamava mais a ateno.
       Se algum lhe perguntava diria que tinha ouvido um rudo e pensava que podia haver algum problema com a carga. desprendeu-se, j que se no punha a escada havia menos possibilidades de que o seguissem. No havia sinais de presena humana. Entretanto, estava seguro de que ali havia algum.
       "por que est aqui, companheiro?", pensou. E se algum dos passageiros se refugiou ali? Se algum estava escondido o mais seguro era que tivesse varola. Roger no ia poder fazer nada. Ento, por que incomodar-se em procurar?. Porque no podia deixar de faz-lo, era a resposta. No podia reprovar-se nada por no ter salvado aos passageiros com varola. Talvez uma morte rpida tinha sido o melhor. Mas no tinha dormido; os sucessos da noite anterior lhe produziam uma sensao de horror e impotncia. Agora tinha que fazer algo. Devia procurar.
       Algo se moveu nas sombras da adega. Um rato, pensou, e se deu a volta. O movimento o salvou de um objeto que passou voando perto de sua cabea. agachou-se e se dirigiu para onde tinha notado o movimento. No havia espao para correr nem site para esconder-se. Ouviu um grito de alarme e se encontrou com a ossuda boneca do Morag MacKenzie.
       Chutou-lhe tratando de lhe morder, mas Roger no se alterou. Tirou-a das sombras e a arrastou at a tnue luz da escotilha.
       -Que diabos est fazendo aqui?
       -Nada! me deixe! me deixe, por favor! Suplico-lhe isso, por favor! -Como no tinha tora para lutar suplicava com desespero-. Por favor, suplico-lhe isso, no posso deixar que o matem, por favor!
       -No vou matar a ningum. Pelo amor de Deus, te acalme!.
       Das sombras, detrs da cadeia da ncora, chegou o pranto de uma criatura- A jovem ofegou e o olhou enlouquecida.
       -Vo ouvir! Deixe ir com ele!
       Seguiu-a lentamente; ela no podia fugir, no tinha onde ir. Encontrou-os em um rinco do casco, entre o madeiramento e a cadeia da ncora.
       -No vou fazer lhe danifico -disse brandamente.
       Ela no respondeu.
       Seus olhos se foram acostumando  escurido. Viu uma mancha branca que resultou ser seu peito; estava amamentando ao menino.
       -Que diabos faz aqui? -perguntou, embora sabia muito bem.
       -Estou escondida -respondeu com fria-. No te d conta?
       -O menino est doente?
       -No! -Protegeu ao beb e tratou de afastar-se,
       -Ento...
       - s um sarpullido Todas as criaturas o tm, minha me me disse isso!
       Pde detectar o medo na voz.
       -Seguro? -disse com toda a suavidade que pde.
       Estirou uma mo para ela.
       Morag lhe cravou a mo e Roger a retirou com um gemido de dor.
       -Maldita seja! Feriste-me!
       -Fique a! Tenho a adaga de meu marido -advertiu-lhe-. No deixarei que me tire isso, matarei-te, juro que o farei!
       Acreditou-. levou-se a mo  boca e sentiu o sabor de seu prprio sangue, doce e salgada.
       -No me vou levar isso. Mas se for varola...
       -No o ! Juro que no  varola!  um sarpullido do leite. Vi-o centenas de vezes. Sou a maior de nove irmos e sei quando um pirralho est realmente doente.
       Roger vacilou e logo, bruscamente, decidiu-se. Se estava equivocada e a criatura tinha varola, ela tambm estaria infectada e devolver a  adega propagaria a enfermidade.
       E se tinha razo, os dois sabiam que aquele sarpullido condenaria a morte  criatura.
       -No te vou delatar -sussurrou Roger.
       Respondeu-lhe um silncio cheio de suspeitas.
       -Necessita comida, no? E gua fresca. Sem gua ficar sem leite muito em breve. E ento, o que acontecer a criatura?
       Podia ouvi-la respirar com dificuldade.
       -Quero v-lo.
       -No!
       Os olhos lhe brilhavam de medo; parecia um rato encurralado.
       -Juro que no lhe tirarei isso, mas preciso v-lo.
       -por que o jura?
       Procurou um juramento celta, mas no lhe ocorreu nenhum e disse o que tinha na mente.
       -Pela vida de minha mulher -disse- e sobre a cabea de meus filhos que ainda no nasceram.
       Pde sentir a dvida e logo como se afrouxava a tenso.
       -No posso deix-lo solo para ir roubar comida. Os ratos o comeriam vivo. me morderam enquanto dormia.
       Ainda vacilava, mas ao fim se tirou a criatura de entre as roupas e a entregou.
       No agarrava meninos muito freqentemente.
       -Cuidado com a cabea!
       -J a tenho -disse, sustentando a cabecita com uma mo.
       Deu uns passos para pr o menino ante a tnue luz.
       As bochechas estavam cheias de pstulas que pareciam de varola. Roger sentiu um asco instantneo. Imune ou no, fazia falta valor para tocar algo contagioso e no impressionar-se.
       A criatura no parecia doente; seus olhos estavam claros e embora tinha febre no era o calor que sentiu a noite anterior no corpo do outro menino. O beb gemia e se movia, mas suas patadas eram firmes, no os dbeis espasmos de um moribundo.
       -Muito bem -sussurrou finalmente-. Acredito que talvez tenha razo.
       Devolveu-lhe ao menino com uma mescla de alvio e desgosto e a aterradora noo da responsabilidade que tinha aceito.
       -Quanto tempo? -sussurrou Roger agarrando-a do brao-. Quanto tempo dura o sarpullido do leite?
       -Quatro dias ou talvez cinco -sussurrou como resposta-. Mas se for diferente pode durar s dois. Ento, todos se daro conta de que no  varola.
       Dois dias. Se era varola o menino morreria em dois dias. Mas se no, ele poderia arrumar-se. E ela tambm teria que faz-lo.
       -Pode manter desperta todo esse tempo? Os ratos...
       -Sim, posso -disse com ferocidade-, Posso fazer o que tenho que fazer. Ajudar-me?
       -Sim, farei-o. -Deu-lhe a mo e depois de um instante de dvida a estreitou-. Quantos anos tem? -perguntou sbitamente Roger.
       -Ontem tinha vinte e dois anos -respondeu com secura-. Hoje talvez tenha cem.
       A pequena mo se liberou da do Roger e se retirou  escurido.
       39
       Um homem jogador
       A bruma se acumulou durante a noite. Ao amanhecer, o navio parecia navegar dentro de uma nuvem to espessa que do corrimo no podia ver-se o mar e s pelos rangidos do casco sabiam que flutuavam sobre a gua e no sobre o ar.
       A escurido beneficiava ao Roger; podia andar pelo navio quase sem ser visto e deslizar-se pela escotilha com a pequena quantidade de mantimentos que me separava de sua comida e escondia dentro de sua camisa.
       A criatura estava dormida. Roger s viu a curva da bochecha coberta de pstulas vermelhas. Morag captou seu olhar de dvida e no disse nada, mas lhe agarrou a mo e a ps no pescoo do pequeno.
       O pulso pulsava forte baixo seu dedo e a pele estava quente e mida. Isso lhe deu confiana e sorriu a jovem me, quem lhe respondeu com apenas um brilho de sorriso.
       Um ms de viagem a tinha feito emagrecer e os ltimos dois dias tinham gravado em seu rosto as linhas permanentes do temor. Seu cabelo caa sem vida, sujo e gordurento. Em seus olhos se via o esgotamento e cheirava a urina, a sedimentos, a leite azedo e a suor.
       Seus lbios estavam to plidos como o resto de sua cara. Roger a agarrou amavelmente dos ombros e a beijou na boca.
       Ao chegar ao alto da escada se deu a volta e a olhou. Seguia ali, olhando-o com a criatura em braos. Talvez poderiam obt-lo; ao menos Roger estava convencido de que tinha razo e o menino no tinha varola- Ningum tinha necessidade de baixar  adega, j que tinham subido um barril com gua fresca no dia anterior. O a seguiria alimentando, se  que ela conseguia seguir acordada...      
       Enquanto Roger cruzava a popa ouviu um rudo e o navio tremeu.
       -Baleia! -chegou o grito de acima.
       Houve outro movimento e a tripulao ficou em silncio. Como seria de grande?, perguntou-se Roger. esforou-se por olhar, tratando inutilmente de ver atravs da nvoa.
       -Ignorantes -disse uma voz com suave acento irlands. Roger deu um salto e uns dentes se materializaram em uma sombra que resultou ser Bonnet. O capito fumava um charuto que iluminava suas faces-. Arranham-se para livrar-se dos parasitas-explic Bonnet-. Para as baleias no so mais que uma pedra flutuante.
       Roger deixou escapar um suspiro um pouco menos ruidoso que os das baleias. Tinha estado perto Bonnet? Tinha-o visto sair da adega?
       -No danificaro o navio? -perguntou, usando o mesmo tom despreocupado do capito.
       -Nunca se sabe -disse enquanto exalava a fumaa do charuto-. Qualquer desses animais poderia nos afundar se tivesse capacidade para a maldade. Em uma ocasio vi um navio, ou o que ficou dele, destroado por uma baleia zangada.
       -No parece preocupado pela possibilidade.
       Bonnet deixou escapar a fumaa entre seus lbios.
       -Seria um desperdcio de foras me preocupar por isso. O sbio deixa em mos dos deuses as coisas que esto alm de seu poder e reza para que Danu esteja com ele. Conhece o Danu, MacKenzie?
       -Conheo o Danu, a que d sorte -respondeu Roger, confiando contra toda esperana em que a deusa celta fora uma boa blusa de marinheiro e estivesse a seu lado.
       -Homem instrudo -repetiu Bonnet brandamente, sem ligeireza-, mas no sbio.  homem de orao, MacKenzie?
       Roger ficou tenso, mas Bonnet o tinha pego pela boneca e no o soltava.
       -Pinjente que um homem sbio no se preocupa com as coisas que esto alm de seu poder. Mas neste navio, MacKenzie, tudo est em meu poder. Apertou-o com mais fora-, E todos. -Roger conseguiu soltar-se-. por que? -perguntou Bonnet, com relativo interesse-. A mulher no  to bonita. E um homem instrudo no arriscaria meu navio e minha sorte s por um corpo quente.
       -No h risco. -As palavras soaram roucas-. O menino no tem varola,  s um sarpullido.
       -Desculpa que ponha minha ignorante opinio por cima da tua, MacKenzie, mas aqui sou o capito.       
       A voz seguia sendo suave, mas o rancor era evidente.
       - uma criatura!
       --o e sem nenhum valor.                    
       -Sem valor para um capito, em todo caso!
       -E que valor pode ter? -perguntou implacvel-. por que?
       -Por piedade. Ela  pobre e no h ningum que a ajude.
       Bonnet se moveu e Roger foi atrs dele. O capito tirou um punhado de moedas, escolheu um xelim de prata e guardou o resto.
       -Ah, piedade -disse-. Diria que  jogador, MacKenzie?
       Arrojou a moeda e Roger, por reflexo, apanhou-a.
       -Pela vida do lactante, ento -disse Bonnet com tom de diverso-. Poderamos cham-la uma aposta entre cavalheiros. Cara, vive; cruz, morre.
       No havia lugar para o medo. Arrojou a moeda e viu como caa sobre coberta. Seus msculos se contraram.
        -Parece que Danu est de seu lado esta noite -disse a suave voz de acento irlands enquanto recolhia a moeda.
       Comeou a dar-se conta do acontecido quando o capito o agarrou dos ombros e o fez dar meia volta.
       -Caminha comigo um momento, MacKenzie.
       Demorou para encontrar sentido s palavras do Bonnet. Quando o fez se deu conta, com uma vaga sensao de assombro, de que lhe estava contando a histria de sua vida de forma direta e prtica.
       rfo a muito temprana idade no Sligo, tinha aprendido rapidamente a cuidar-se trabalhando como grumete em navios mercantes. Mas um inverno em que faltaram navios encontrou trabalho no Inverness, cavando os alicerces para uma grande casa que foram edificar perto do povo.
       -Eu tinha s dezessete anos -disse-. Era o mais jovem do grupo de trabalhadores. No sei por que me odiavam. Talvez era por minha forma de ser ou porque sentiam cimes de minha fora e tamanho. Ou porque as moas me sorriam. Ou possivelmente s porque era estrangeiro. Sabia que no era muito popular entre eles, mas no soube bem at o dia em que terminamos os alicerces.
       Bonnet fez uma pausa e deu uma chupada a seu charuto.
       -Estavam cavados os fossos, levantadas as paredes e a grande pedra angular lista. Eu tinha ido procurar minha comida e, quando retornei ao lugar onde dormia, detiveram-me uns moos que trabalhavam comigo. Tinham uma garrafa, sentaram-se em uma parede e me convidaram a beber. Teria que ter desconfiado porque nunca tinham sido amistosos, mas bebi e bebi e ao momento estava totalmente bbado por minha falta de costume. Para minha surpresa me levantaram e me deixaram cair no poro que tinha ajudado a construir. Todos estavam ali, inclusive Joey o Parvo, que no era do grupo, a no ser um mendigo que vivia debaixo da ponte, no tinha dentes e comia pescado podre. Estava to enjoado pelo usque e a queda que logo que podia ouvir o que diziam, embora me pareceu que discutiam. O chefe do grupo estava zangado com os dois que me tinham levado at ali. O tomo servir, dizia, e lhe fazemos um favor. Mas os outros diziam que no, que eu era melhor. Algum podia sentir falta de ao mendigo. Outro riu e disse que no teriam que pagar meu salrio. Ento me dava conta de que queriam me matar.
       Tinham falado antes, enquanto trabalhvamos. Um sacrifcio, diziam, para os alicerces, para que a terra no trema e se derrubem as paredes. Mas no tinha emprestado ateno. De hav-lo feito tivesse pensado que foram enterrar um frango, que era o habitual.
       Enquanto falava no tinha cuidadoso ao Roger. Tinha os olhos cravados na nvoa, como se o que descrevia estivesse acontecendo outra vez naquela cortina espessa.
       Roger estava empapado de suor frio e lhe doa o estmago.
       -Seguiram discutindo -continuou Bonnet- e o mendigo comeou a fazer rudos porque queria que lhe dessem mais bebida. At que o chefe disse que no falariam mais e arrojou uma moeda ao ar. Eu no tive foras para me dar a volta e olhar. Ento fizeram sentar ao parvo. Ainda lembrana sua cara sorridente e sua boca aberta. Um momento depois a pedra caiu e lhe esmagou a cabea.
       -me golpearam -continuou Bonnet-. Quando despertei estava no fundo de um navio de pesca. O pescador me baixou na costa, perto do Peterhead, e me aconselhou que procurasse um navio. Disse-me que eu no estava feito para a vida de terra firme.
       Sacudiu o charuto para lhe tirar a cinza.
       -Tinha meu salrio no bolso. Eram homens honrados com toda segurana.
       Roger se inclinou sobre o corrimo, aferrando-se  nica coisa slida em um mundo de nvoas.
       -E retornou a terra?
       -Quer dizer se os busquei. -Bonnet se voltou e se apoiou no corrimo de cara ao Roger- Sim, sim. Anos mais tarde. Um por um os encontrei a todos.
       Abriu a mo em que tinha a moeda.
       -Cara, vive; cruz, morre. Uma possibilidade justa, no te parece, MacKenzie?
       -Para eles?
       -Para ti.
       A voz com acento irlands era to inexpressiva que poderia ter estado falando sobre o tempo.
       Como em um sonho, Roger sentiu o peso do xelim em sua mo.
       -Uma possibilidade justa -disse Bonnet- A sorte te acompanhou antes, MacKenzie. Vejamos se Danu te ajuda outra vez.
       - minha vida, atirarei eu -disse Roger, surpreso para ouvir sua prpria voz to tranqila e segura-. Cruz, escolho cruz.
       Fechou os olhos e pensou uma vez mais na Brianna. "Sinto muito", disse em silncio e levantou a mo. No abriu os olhos, nem se moveu. Mas notou que Bonnet retirava a moeda.
       Demorou um momento em dar-se conta de que estava sozinho.
       
       
       
       NOVENA PARTE
       APAIXONADAMENTE
       
       
       40
       Sacrifcio virginal
       
       Wilmington, colnia da Carolina do Norte
       1 de setembro de 1769
       Era o terceiro ataque, tivesse o que tivesse Lizzie. Pareceu recuperar-se depois do primeiro acesso de febre e, depois de um dia de descanso, insistiu em que estava em condies de continuar viagem. Mas no fizeram mais que cavalgar durante um dia para o norte do Charleston quando a febre voltou de novo.
       Brianna tinha pacote os cavalos e acampado perto de um arroio. Durante a noite procurou gua para dar de beber ao Lizzie e lavar seu corpo ardoroso. Pela manh a febre tinha desaparecido e, embora Lizzie estava dbil e plida, podia voltar a montar. Brianna vacilou, mas finalmente decidiu que era melhor avanar para o Wilmington que retroceder. Agora corria pressa encontrar a sua me, tanto por ela como pela sade do Lizzie.
       A jovem se estremecia e Brianna pensou, uma vez mais, que era malria. Ao chegar  costa os mosquitos no as tinham deixado em paz e a moa tinha marcas de picadas no pescoo. Necessitava quinina, mas no tinha nem idia de como chamavam ali  quinina, nem como a administravam. A malria era uma enfermidade antiga e a quinina provinha das novelo; assim estava convencida de que algum mdico poderia ajud-la,                                           
       Mas estavam no Wilmington e ainda no tinha encontrado a ajuda que procurava. A mulher da estalagem mandou a procurar o farmacutico assim que viu o Lizzie. Brianna sentiu um sbito alvio ao ver um jovem bem vestido e com as mos razoavelmente limpa.
       ficou fora enquanto examinava ao Lizzie, mas para ouvir um grito de angstia abriu a porta, descobrindo ao jovem farmacutico com uma lanceta na mo e ao Lizzie com o rosto da cor do giz e um talho na curva do cotovelo.
       -Isto  para drenar os humores, senhorita! -explicou o farmacutico, tratando de proteger-se-. No compreende? Se no o fizer, a blis intoxicar todo seu corpo e ser muito prejudicial para ela!
       -Se no sair agora mesmo eu sei quem ser o prejudicado-dijo Brianna-. Fora daqui!
       -Se no me fizer caso condenar a sua faxineira! -gritou indignado-. No sabe como cuid-la!
       Era verdade, nem sequer sabia qual era a enfermidade do Lizzie. O farmacutico tinha falado de "febres" e a posadera de "aclimatao". Era comum que os emigrantes adoecessem ao estar expostos a novos grmenes. A mulher tinha acrescentado que esses emigrantes no estavam acostumados a sobreviver  aclimatao.
       gua era quo nico tinha, a fazia ferver e a deixava esfriar.
       Deixou cair um pouco entre os lbios ressecados do Lizzie, logo a lavou e a voltou a deitar. A jovem lhe dirigiu um sorriso que pareceu um suspiro e ficou dormida como uma boneca de trapo.
       Brianna se deixou cair em uma banqueta que havia debaixo da janela, em um vo intento de respirar ar fresco. No caminho desde o Charleston a atmosfera tinha estado pesada e as envolvia como uma grosa manta. Brianna fechou os olhos e apoiou a cabea no marco de madeira. A febre do Lizzie parecia ter desaparecido... mas por quanto tempo? Se continuava era muito provvel que acabasse com a jovem; esta tinha perdido todo o peso que tinha ganho durante a viagem e sua pele tinha adquirido uma cor amarelada.
       No ia encontrar ajuda no Wilmington. Devia vender os cavalos e procurar um bote que as levasse rio acima. Embora lhe voltasse a febre, cuidaria melhor ao Lizzie em uma embarcao que naquele quarto quente e sujo, e enquanto isso se aproximariam de seu destino.
       levantou-se, lavou-se a cara e se tirou as calas enquanto fazia planos para a viagem. Seguro que no rio no faria tanto calor e poderiam descansar dos cavalos. Navegariam at o Cross Creek, onde se encontrariam com a Yocasta MacKenzie.                                               
       -Tia -murmurou-. Tia av Yocasta.
       imaginava a uma bondosa anci de cabelos brancos, que a receberia com a mesma alegria que encontrou no Lallybroch. Uma famlia. Estaria bem ter uma famlia outra vez. Roger apareceu em seus pensamentos, como acontecia freqentemente- Apartou-o a um lado com determinao; j teria tempo de pensar nele quando terminasse sua misso. 
       Yocasta saberia exatamente onde estavam Jamie Fraser e sua me e a ajudaria a encontr-los. Sua me se ocuparia do Lizzie, ela sabia ocupar-se de tudo.
       Atirou uma manta no cho e se deitou sobre ela nua. ficou dormida imediatamente, sonhando com montanhas e com neve branca e poda.
       
        tarde seguinte as coisas tinham melhorado. A febre tinha desaparecido deixando ao Lizzie dbil, mas com a cabea limpa e o corpo to frio como o permitia o clima. Recuperada depois de uma noite de descanso, Brianna se tinha lavado o cabelo e o corpo. ficou cales e casaca e, depois de lhe pagar a posadera para que cuidasse do Lizzie, partiu para ocupar-se de seus assuntos.
       Levou-lhe quase todo o dia (tendo que suportar as bocas abertas e os olhares de incredulidade, quando os homens se davam conta de que era uma mulher) vender os cavalos pelo que ela pensava que era um preo decente. Falaram-lhe de um homem chamado Viorst que levava passageiros do Wilmington ao Cross Creek em sua canoa. Mas no pde encontr-lo e no tinha inteno de passear-se pelos moles ao anoitecer, com ou sem cales.
       Quando retornou  estalagem, ao pr do sol, encontrou ao Lizzie comendo.
       -Est melhor! -exclamou Brianna.
       Lizzie assentiu enquanto tragava.
       -Estou bem, e a senhora Smoots foi muito amvel ao me deixar lavar todas nossas coisas. Sinta to bem sentir-se limpa outra vez! -disse com ardor.
       -No deveria lavar e engomar ainda -disse Brianna sentando-se a seu lado em um banco-. Pode te cansar e voltar a recair.
       -Bom, no acredito que voc gostasse de te encontrar com seu pai levando a roupa suja.
       -Encontrar a meu pai? Inteiraste-te que algo, Lizzie?
       -Sim, foi quando estava lavando. Meu pai dizia que a virtude traz consigo um prmio.
       -Estou segura disso -respondeu Brianna secamente-. O que  o que averiguou e como?
       -Bom, estava pendurando suas anguas, essas com a cinta...
       Brianna levantou um jarro com leite e o agitou amenazadoramente sobre a cabea do Lizzie. A moa se fez a um lado entre risadas nervosas.
       -Est bem!
       Enquanto lavava, um dos patres saiu ao ptio a fumar seu cachimbo e ficou a conversar com o Lizzie. Ento se inteirou de que o cavalheiro, chamado Andrew MacNeill, no s tinha ouvido falar do James Fraser, mas tambm tambm o conhecia.
       -Conhece-o? O que te disse? Est ainda aqui esse MacNeill?
       Lizzie levantou uma mo para que a deixasse continuar.
       -Vou o mais rpido que posso. No, no est aqui. Tratei de fazer que ficasse, mas devia partir a New Bern e no podia esperar. -Estava quase to excitada como Brianna-. O senhor MacNeill conhece m pai e a sua tia av Cameron tambm; diz que  uma grande senhora, muito rica, com uma grande manso, numerosos escravos Y...
       -No importa isso. O que disse de meu pai? Mencionou a minha me?
       -Claire -disse triunfalmente Lizzie-. Disse que esse era o nome de sua me, no? Perguntei-lhe e disse que sim, que o nome da senhora Fraser era Claire. Disse que era uma surpreendente curadora e que a tinha visto operar um homem em meio da mesa do comilo com todos os comensais olhando.
       -Essa  minha me. -Riu e os olhos lhe encheram de lgrimas-. Esto bem? Tinha-os visto ultimamente?
       -Isso  o melhor de tudo! -Os olhos do Lizzie se abriram e se inclinou para diante-. Ele est no Cross Creek! Um homem, conhecido dele, vai ser Julgado por uma agresso e foi para declarar como testemunha. O senhor MacNeill diz que a corte no se rene at na segunda-feira de na prxima semana porque o juiz est doente.
       -na segunda-feira que vem..., e hoje  sbado. Pergunto-me quanto se demorar para chegar rio acima.
       -No sei, mas a senhora Smoots me h dito, que seu filho fez a viagem uma vez. Podemos lhe perguntar a ele.
       
       Brianna se deu a volta olhando ao redor.
       -Quem  Smoots filho? -perguntou, olhando a todos os homens que comiam ou bebiam na estalagem.
       -Yonder, o moo dos olhos castanhos. Posso ir busc-lo?
       Cheia de entusiasmo, Lizzie se levantou e se abriu passo entre a gente 
       Brianna tinha a jarra de leite nas mos mas no se serve. Tinha a garganta fechada pela excitao. Pouco mais de uma semana!
       
       Wilmington era um pequeno povo, pensou Roger. Em quantos lugares podia estar ela? Se  que estava ali.
       -Est aqui -murmurou-. Maldio, sei que est aqui! Tinha-lhe resultado fcil ir desde o Edenton ao Wilmington. Quando teve que descarregar a adega do Gloriana, agarrou uma gaveta com ch e o levou at um depsito do porco. Logo esperou a que passassem os outros homens, torceu  direita em lugar de a esquerda e se dirigiu ao povo.  manh seguinte encontrou trabalho como carregador em um pequeno navio que transportava equipamento navais at um depsito do Wilmington, de onde seriam embarcados em um navio maior com rumo  Inglaterra.
       Sem remorsos, voltou a escapar do navio no Wilmington. Tinha que encontrar a Brianna e no podia perder tempo. Sabia que ela estava ali. A Colina do Fraser estava nas montanhas, assim necessitaria um guia e Wilmington parecia o lugar adequado para encontr-lo.
       Em um rpido percurso pela rua principal e o porto pde contar vinte e trs botequins, Diabos, aquela gente bebia como esponjas! Existia a possibilidade de que tivesse procurado uma habitao em uma casa, mas os botequins eram o melhor lugar para comear a busca.
       Na quinta encontrou a um homem que a tinha visto, e a uma mulher na stima. "Um homem ruivo e alto", disse o primeiro. E a segunda, com expresso escandalizada, explicou-lhe que tinha visto uma mulher robusta, vestida com cales de homem, com a casaca na mo e a parte traseira  vista de todos".
       Ao anoitecer averiguou que a jovem alta e ruiva que levava roupa de homem tinha sido comentrio pblico durante quase uma semana. Com esta informao, e depois de um intercmbio de palavras com dois bbados, abandonou o botequim nmero quinze.  que as mulheres no tinham sentido comum?  que Brianna no sabia do que eram capazes alguns homens?
       deteve-se em meio da rua secando o suor do rosto. Decidiu gastar um penique ou duas na comida e talvez o dono o deixasse dormir nas quadras. Assim que se encaminhou ao Blue Bull.
       Ali estava ela. Sentada ao lado do fogo, com sua rabo-de-cavalo iluminada pelas chamas e conversando animadamente com um jovem, cujo sorriso Roger desejou apagar de um golpe, Em lugar disso deu uma portada e se dirigiu para ela. Brianna se deu a volta e contemplou a aquele barbudo. Ao reconhec-lolhe iluminaram os olhos e um grande sorriso se apareceu em seu rosto.
       -Ah! -disse-.  voc.
       Ento sua expresso sofreu uma mudana. Gritou. Um grito escandaloso que fez que todos a olhassem.
       -Maldita seja! -Agarrou-a do brao-. Que demnios crie que est fazendo?
       Seu rosto ficou mortalmente plido e seus olhos se escureceram pela impresso. Tratou de liberar-se.
       -me deixe! .
       -No o farei! Voc te vem comigo agora mesmo!
       Agarrou-a do outro brao, levantou-a e a fez dirigir-se para a porta.
       -MacKenzie! -Maldio, era um dos marinheiros do cargueiro-. O que lhe est fazendo  moa, MacKenzie? Deixa-a!
       Houve um movimento de interesse entre os paroquianos. Tinha que sair agora ou no poderia faz-lo nunca.
       -lhes diga que tudo est bem, lhes diga que me conhece! -sussurrou no ouvido da Brianna.
       -Est bem -disse Brianna com voz rouca-. Est tudo bem. Conheo-o.
       O marinheiro retrocedeu um pouco, ainda com dvidas. Uma jovem, com uma garrafa na mo, gritou com voz grit.
       -Senhorita Bri! No se ir com esse malvado, no?
       -Est bem -repetiu com mais firmeza-. Conheo-o. -Fez um gesto  moa-, Lizzie, vete  cama. Eu... eu voltarei mais tarde.
       deu-se a volta e caminhou com rapidez para a porta.
       -Que escs fazendo aqui? -perguntou na porta.
       Tinha-a agarrado do brao e a arrastava rua abaixo para a sombra de um grande castanho.
       voltou-se para ele assim que chegaram s sombras.
       -O que est fazendo aqui?
       -te buscar! E o que est fazendo aqui voc? E vestida assim, por todos os Santos! Teria sido o mesmo sair nua  rua!
       -No seja idiota! O que est fazendo aqui?
       -J lhe hei isso dito, te buscar.
       Agarrou-a pelos ombros e a beijou com fora. A fria, o aborrecimento e o alvio por hav-la encontrado se mesclavam com a intensidade de seu desejo, lhe fazendo tremer. O mesmo acontecia a Brianna, que se estremecia entre seus braos.
       -Bem -sussurrou Roger, enterrando a boca entre os cabelos da jovem-. Est bem, estou aqui. Eu me ocuparei de ti.
       endireitou-se liberando-se de seus braos.
       -Bem? -exclamou-. Como pode dizer isso? Pelo amor de Deus, est aqui!
       O horror de sua voz era inconfundvel-E onde ia estar quando te lana ao inferno arriscando o pescoo...? por que demnios o fez?
       -Estou procurando a meus pais. O que outra coisa podia estar fazendo aqui?.
       -Isso j sei! O que quero dizer  por que diabos no me disse isso!
       -Porque no me tivesse deixado vir, por isso! Teria tratado de me deter Y...
       -Tem toda a razo! Tivesse-te encerrado em seu quarto, maa de ps e mos' De todas as estupidezes...
       Brianna lhe deu uma torta.
       -te cale!
       -Maldita mulher! Esperava que te deixasse ensinar o culo na praa do mercado? Que classe de homem crie que sou?
       Intuiu o movimento antes de v-lo e pde lhe sujeitar a boneca.
       -No estou de humor para lhe toque isso moa! me pegue outra vez e te juro por minha Santa me que te arrepender!
       Brianna fechou a outra mo e lhe deu um murro no estmago, to rpido como o ataque de uma serpente.
       Roger teve desejos de golpe-la. Agarrou-a do cabelo e a beijou com toda a fora que pde.
       Lutou e se retorceu deixando escapar sons afogados, mas Roger no se deteve at que ela cedeu, e os dois caram de joelhos. Brianna se abraou a seu pescoo e comeou a chorar. Roger a sustentava enquanto ela tossia e chorava.
       -por que? -Soluava-, por que me seguiu? No te d conta? Agora o que vamos fazer?
       -Fazer? Fazer o que?
       No sabia se chorava de fria ou de medo. Certamente, pensou Roger, seria por ambas as coisas.
       A jovem o contemplou atravs das mechas despenteadas de seu cabelo.
       -Retornar! Voc  a nica pessoa que amo. Como vou retornar se voc estiver aqui? E como vais retornar, se eu estiver aqui?                                          
       -Por isso? Por isso no me queria dizer isso? Pr que me ama? me valha Deus!
       Soltou-lhe as bonecas e se atirou sobre ela- Agarrou-lhe a cara com as duas mos e tratou de beij-la. Brianna dobrou as pernas e o golpeou nas costelas.
       -Pelo Judas! -disse Roger, agarrando-a do cabelo-, O que  isto, luta livre?
       -me solte- -Brianna sacudiu a cabea, tratando de liberar-se-. Detesto que me atirem do cabelo.
       Roger a soltou e lhe aconteceu as mos pelo pescoo.
       -Muito bem. Voc gosta que lhe estrangulem?
       -No.
       -A mim tampouco. Tira o brao de meu pescoo, quer?
       Com lentido, Brianna afrouxou a presso.
       -Bem -sussurrou Roger-. Diga-o. Quero ouvi-lo.
       -Quero-te -disse entre dentes-, Entende?
       -Sim, entendo. -Agarrou-lhe a cara com suavidade e a aproximou.
       Tremente, Brianna o abraou-. Est segura?
       -Sim. O que vamos fazer? -disse e comeou a chorar.
       Roger estava atirado ao lado de um caminho, sujo, machucado, morto de fome e com uma mulher que tremia e chorava contra seu peito, e que de vez em quando lhe golpeava com os punhos. No se havia sentido to contente em toda sua vida.
       -Tranqila -sussurrou embalando-a-. No passa nada, conheo outra forma de retornar. No se preocupe, cuidarei de ti.
       Por fim deixou de chorar e se sentou.
       -Tenho que me soar o nariz. Tem um leno?
       Deu-lhe o trapo mido que usava para atar o cabelo. depois de fazer toda classe de rudos, Brianna suspirou profundamente e abraou com fora ao Roger, que sorria na escurido.
       -Sinto muito -disse-. No queria que viesse detrs de mim. Mas... Roger, me alegro muito de que esteja aqui!
       Beijou-a na nuca, que estava mida e salgada pelo suor e as lgrimas.
       -Eu tambm -respondeu, e por um momento todos os perigos dos ltimos dois meses pareceram insignificantes. Todos salvo uma coisa...
       -Quanto tempo levava planejando-o? -perguntou. E pensou que podia fixar o dia graas  mudana que percebeu em suas cartas.
       -Bom... uns seis meses -respondeu, confirmando suas suspeitas-. Desde que fui a Jamaica durante as frias de Pscoa.
       -Sim?
       Jamaica em lugar de Esccia. Lhe tinha pedido que se vissem ali e ele se negou ofendido por no hav-lo planejado juntos.
       Brianna suspirou profundamente e se soou o nariz.
       -Seguia sonhando -explicou-. Comigo pai. Pais. Com os dois. Havia um sonho em particular... Soavam tambores e eu sabia que havia algo oculto esperando, algo horrvel. Minha me estava ali, bebendo ch com um crocodilo. -Roger grunhiu e a voz da oven se fez mais cortante-. Era um sonho, d-te conta? Logo ele saa de entre os canos. 
       No podia ver seu rosto porque estava escuro, mas seu cabelo era ruivo, via reflexos acobreados quando movia a cabea.
       -O que estava entre os canos era ele?
       -No. Estava entre minha me e essa coisa horrvel. No podia v-la mas sabia que estava ali, esperando. -estremeceu-se involuntariamente e Roger a abraou com mais fora-. Ento soube que minha me ia se levantar para ir para aquela coisa e tratei de det-la, mas no podia me fazer ouvir. Ento gritei a ele que fora a salv-la. Viu-me! Viu-me e me ouviu. Ento despertei.
       -Sim? -disse Roger com cepticismo-, E isso te fez ir a Jamaica?
       -Fez-me pensar -respondeu cortante-. Voc tinha investigado. No os encontrou em Esccia depois de 1766 e tampouco apareciam nas listas de emigrao s colnias. Foi ento quando disse que era melhor abandonar; que no encontraramos nada.
       Roger se alegrou de que a escurido ocultasse sua culpa.
       -Mas o lugar onde se desenvolvia meu sonho era tropical... No podia ser que estivessem nas Antilhas?
       -J procurei -disse Roger-. Olhei as listas de passageiros de todos os navios que se dirigissem a qualquer parte desde o Edimburgo ou Londres entre 1760 e 1770. Disse-lhe isso -acrescentou com impacincia.
       -J sei -respondeu com igual impacincia-. Mas e se no eram passageiros? por que ia a gente s Antilhas ento? Quero dizer, agora.
       -A maioria para comercializar.
       -Exato. Por isso podiam ter ido em um navio de carga e no figurar na lista de passageiros.
       -De acordo -disse lentamente-.  certo, no figurariam. E como foi busc-los?
       -Registros dos depsitos, livros de contas das plantaes, declaraes nos portos. Passei todas as frias em bibliotecas e museus. Y... e os encontrei. 
       "Diabos, tinha visto a notcia."
       -Sim? -disse, lutando por manter a calma.
       Brianna riu um pouco insegura.
       -O capito de um navio chamado Artemis, cujo nome era James Fraser, vendeu cinco toneladas de guano na baa do Montego em 2 de abril do ano 1767.
       -Sim? Capito de um navio? depois de tudo o que disse sua me sobre como se enjoava no mar? E no  por te desanimar mas devem existir centenas do James Fraser. Como pode saber...?
       -Pode ser, mas em primeiro de abril, uma mulher chamada Claire Fraser comprou um escravo no mercado de escravos do Kingston.
       -Que ela o que?
       -No sei por que -disse Brianna com firmeza-, mas estou segura de que foi por uma boa razo.
       -Bom, claro, mas...
       -Os papis dizem que o nome do escravo era "Temeraire", e o descrevem dizendo que lhe faltava um brao. Isso o explica, no? De todos os modos procurei esse nomeie em uma coleo de peridicos velhos, no s das Antilhas, mas tambm tambm das colnias do sul. Minha me no ficaria com um escravo; se o comprou deveu lhe dar a liberdade de algum jeito. As notcias de emancipao figuravam nos peridicos locais. Pensei que talvez o encontraria.
       -E o encontrou?
       -No. -ficou em silencio por um instante-. Encontrei... outra coisa. A notcia de sua morte. a de meus pais.
       -Onde? -perguntou brandamente-. Como?
       Escutava-a pela metade enquanto se amaldioava. Deveu ter sabido que era muito obstinada para convenc-la. Tudo o que tinha conseguido com sua estupidez foi obrig-la a guardar o segredo. E tinha tido que pag-lo com meses de preocupao.
       -A notcia  de 1776, assim estamos a tempo de encontr-los. -Suspirou-. Me alegro de que esteja aqui. Estava muito preocupada pensando que podia descobri-lo antes de que retornasse. No sabia o que faria.
       -O que ia fazer... j sabe -disse em tom despreocupado-. Tenho um amigo com um menino de dois anos. Diz que nunca tinha aceito que se maltratasse aos meninos, mas que agora o entende. Nestes momentos sinto o mesmo sobre os maus entendimentos s mulheres.
       -O que quer dizer com isso?
       Soltou uma leve gargalhada.
       -Quero dizer que se fosse um homem desta poca, em lugar do que sou, nada me daria mais agradar que me tirar o cinturo e te dar uma surra.
       -Assim como no  desta poca, no pode faz-lo? Ou pode, mas no desfrutaria?
       No parecia tom-lo a srio.
       -Desfrutaria -assegurou-lhe-. Nada eu gostaria mais.
       Brianna se estava rendo. Em um arranque de fria a apartou e se sentou.
       -O que passa contigo? Acreditei que tinha encontrado a outro homem. Suas cartas dos ltimos meses... e logo a ltima. Estava seguro. Por isso quero te pegar, no por me mentir ou por ir sem me avisar, mas sim por me fazer acreditar que te tinha perdido!
       -Sinto muito -disse depois de um silncio-. Nunca quis que pensasse isso. Quo nico desejava era evitar que o descobrisse at que fora muito tarde. -Olhou-o-. Como te deu conta?
       -Suas caixas. Chegaram  universidade.
       -Como? Mas os pinjente que as enviassem no fim de maio, quando voc estivesse em Esccia!
       -Deveria ter sido assim, mas uma conferncia de ltima hora me reteve em Oxford. Chegaram um dia antes de partir.
       A voz da Brianna soou curiosamente rouca.
       -Creste que tinha encontrado a outro... e mesmo assim veio a me buscar?
       -Teria vindo embora te tivesse casado com o rei do Siam. Maldita mulher.
       Suspirou lentamente.
       -Disse maltratar  esposa.
       -Voc disse que estava segura.  a srio?
       -Sim -respondeu brandamente.
       -No Inverness, disse-te...
       -Disse-me que me teria toda ou no me teria. E eu te disse que te entendia. Estou segura.
       Acariciou-a e afundou o rosto entre seus cabelos. Brianna se aferrou a seus ombros e se tornou para trs. Sim, dizia-lhe. Lhe respondeu lhe abrindo a blusa e deixando ao descoberto seus peitos brancos e suaves.
       -Por favor -disse Brianna-. Por favor!
       -Se tomar agora ser para sempre -sussurrou.
       -Sim -respondeu.
       A porta do botequim se abriu lhes provocando um sobressalto. Roger ficou em p e lhe deu a mo para ajud-la a levantar-se- Esperaram at que as vozes se perderam na distncia.
       -Vem -disse Roger, grampeando-os cales.
       Havia um abrigo escuro e tranqilo a certa distncia do botequim; detiveram-se na entrada esperando; no ouviram nada na parte de atrs da estalagem; no havia luz nas janelas do piso superior.
       -Espero que Lizzie se foi  cama.
       -Sabe o que  um matrimnio a prova? -disse Roger, perguntando-se quem seria essa Lizzie.
       -No exatamente.  uma espcie de matrimnio temporrio?
       -Mais ou menos. Nas ilhas e nas partes mais afastadas das montanhas de Esccia, onde  difcil encontrar algum ministro, um homem e uma mulher se casam a prova, fazem votos por um ano e um dia. Ao finalizar o prazo procuram um ministro e se casam, ou se separam e se vo cada um por seu lado.
       A jovem lhe oprimiu a mo.
       -No quero nada temporal.
       -Eu tampouco. Mas no acredito que encontremos um ministro por aqui. Ainda no se construram Iglesias. O mais prximo deve viver em New Bern. -Levantou as mos- Disse-te que o queria tudo, e se voc quer te casar comigo...
       -Sim, quero.
       -Muito bem.
       Roger respirou profundamente e comeou.
       -Eu, Roger Jeremiah, aceito a Brianna Ellen como legtima algema. Para proteg-la e cuid-la... -A mo da Brianna apertou a sua-. Na sade e a enfermidade, na pobreza e na riqueza, at que a morte nos separe.
       "Se fizer estes votos, manterei-os custe o que custar."
       O que estaria pensando ela agora?
       Brianna falou com grande determinao.
       -Eu, Brianna Ellen, tomo a ti, Roger Jeremiah... -sua voz era apenas mais alta que os batimentos do corao de seu prprio corao, mas ouvia cada palavra- enquanto durem nossas vidas.
       A frase significava bastante mais para ambos, pensou Roger, que o que tivesse significado uns meses atrs. O passar atravs das pedras para pensar na fragilidade da vida.
       Houve um momento de silncio logo que interrompido pelo murmrio de vozes distantes do botequim. Roger levantou a mo da Brianna e a beijou no dedo anelar, onde um dia, se Deus o permitia, teria seu anel.
       O abrigo estava muito escuro e despi-la foi uma sucesso de frustraes e deleites.
       -E eu que acreditava que aos cegos levava anos desenvolver o sentido do tato... -murmurou.
       A risada clida da jovem lhe fez ccegas no pescoo.
       -nfora -murmurou sobre a suave curva de seus lbios, deslizando as mos pelas curvas de seus quadris slidos e frescas que prometiam abundncia-. Como uma vasilha grega. Tem um traseiro precioso!
       Vibrava contra ele e sua risada passava de seus lbios aos do Roger como uma corrente. Sua mo baixou pelo quadril do Roger, primeiro vacilante e logo com mais segurana.
       -Bom...  como uma corda... no, como uma enguia..., talvez como uma serpente,., Joder, como se chama?
       -Tinha um amigo que o chamava Dom Contente -disse Roger-, mas para meu gosto  um nome muito frvolo.
       Abraou-a e a beijou outra vez.
       Brianna tremia, mas Roger no acreditava que fora de risada. Aproximou-a mais, surpreso pelo puro tamanho corporal da jovem. Agora que estava nua, todos os complexos planos de ossos e msculos se transformaram em uma imediata sensao entre seus braos.
       Fez uma pausa para respirar.
       -Nunca pude beijar a uma mulher sem me inclinar -disse, tratando de recuperar o flego.
       -Bom, homem, no queremos que fique rgido o pescoo.
       A voz da Brianna voltava a tremer, outra vez de risada, certamente, e Roger pensou que era uma mescla de humor e nervosismo.
       -Ja, ja, ja -exclamou e a abraou outra vez.
       Seus peitos eram firmes e arredondados, e cada vez que os tocava lhe intrigava sua suavidade e firmeza.
       No podia beij-la e despir-se de uma vez, assim arqueou as costas para que Brianna lhe baixasse os cales. liberou-se deles sem deixar de abra-la. Finalmente deixou de beij-la respirando com dificuldade.
       -me poderia soltar isso um momento? Sei que  uma boa asa, mas tem usos melhores.
       Em lugar de solt-la, Brianna ficou de joelhos. Roger se moveu inquieto.
       -Mulher, est realmente segura de que quer isso?
       No estava seguro de se ele o desejava ou no, mas seu membro tremia de desejo.
       -No quer que o faa?
       As mos femininas se moviam acariciando suas coxas e Roger sentia que lhe punham todos os cabelos de ponta.
       -Bom... sim. Mas faz dias que no me banho -respondeu Roger.
       Deliberadamente, Brianna esfregou o nariz sobre o estmago do homem e respirou profundamente.
       -Embriaga-me este aroma -sussurrou-. Cheira a macho.
       -O que quer que lhe eu faa? -murmurou ele.
       Que suave e quente era seu corpo.
       Sentiu os cabelos da jovem em suas coxas e seus pensamentos abandonaram toda coerncia.
       -upo'em?
       -O que?
       Foi como despertar de um desvanecimento.
       -Pergunto-te se chupar bem -disse Brianna, tornando o cabelo para trs.
       -Ah... sim, acredito que sim.
       -Crie? No est seguro?
       Brianna parecia ter recuperado a compostura com a mesma rapidez com que Roger a tinha perdido para ouvir a risada contida da jovem.
       -Bom... no -disse-. Quero dizer, eu no... quer dizer, ningum... Sim, isso acredito.
       antes de que pudesse protestar a levantou para deit-la sobre a palha onde tinham atirado suas roupas. Excitado mas com cuidado, Roger fez sua parte. J o tinha feito em outra ocasio; ento se tinha encontrado com emanaes femininas que recordavam a flores de igreja.
       Mas Brianna no era essa classe de mulher higinica. Seu aroma o encheu de desejo e luxria. Beijou-a em seu plo encaracolado.
       -Maldio -disse.
       -O que acontece? -perguntou com certo alarme-. Cheiro to mal?
       -No. -Riu-.  que faz um ano que me pergunto de que cor  seu plo. E agora que o tenho em frente no posso v-lo.
       Brianna lanou uma risita.
       -Quer que lhe diga isso?
       -No, deixa que me surpreenda pela manh.
       Inclinou a cabea surpreso pela variedade de texturas em to breve espao. Ento sentiu suas mos sobre sua cabea como uma bno.
       -Estou-o fazendo bem? -perguntou mdio em brincadeira.
       -OH, fui-dijo brandamente-. com certeza que sim.
       aferrou-se a seus cabelos.
       -E como diabos sabe? -perguntou.
       A resposta foi uma risada afogada- Logo, sem saber como, encontrou-se sobre ela, sua boca na sua, todo o peso de seu corpo apertando-a e sentindo o calor de sua pele.
       Ela tinha gosto a ele e ele a ela. Se Deus no o ajudava, no ia poder conter-se. Mas o fez. Brianna estava ansiosa e o tocava muito rpido. Agarrou-lhe as mos e as colocou sobre seu peito.
       -Sente meu corao -disse-lhe com voz rouca- e me diga se se detiver.
       No tinha querido ser gracioso e lhe surpreendeu sua risada nervosa.
       -Amo-te -murmurou-. OH, Bri, amo-te.
       -Continua! -sussurrou Brianna.
       Fechou os olhos e permaneceu assim, pressionando brandamente.
       -Roger?
       -Sim?
       -...  realmente grande, no?
       Sua voz tremia.
       -Ah... -Tratou de recuperar-se-. O normal. -Um relmpago de preocupao o sacudiu-. Fao-te mal?
       -No, no exatamente. ... Poderia ficar aquieto um minuto?
       -Um minuto, uma hora. Toda a vida sim o deseja.
       Pensou que morreria feliz, assim, sem mover-se.
       -Agora est bem -sussurrou Brianna em seu ouvido e, como um autmato, comeou a mov-lo mais lentamente que pde, guiado pela mo dela em suas costas.
       Sabia que agora o fazia danifico mas no podia deter-se. Deixou escapar um som profundo; agora, tinha que faz-lo agora.
       -Amo-te -disse Brianna com a voz rouca-. Fica comigo.
       -Toda a vida -respondeu abraando-a.
       
       Descansavam de seus esforos juntos e em paz.
       -Est bem, meu amor? -murmurou Roger-- Tenho-te feito mal?
       -Sim, mas no importa. -Passou-lhe a mo pelas costas lhe produzindo um estremecimento-, esteve bem? Tenho-o feito bem? -disse com nervosismo.
       -Fenomenal!
       Inclinou a cabea e a beijou.
       -esteve bem ento?
       -foi a hstia!
       - muito blasfemo para ser filho de um ministro -disse a mulher com tom acusador-. Talvez essas velhas senhoras do Inverness tinham razo e est diablico.
       -No so blasfmias. So preces de agradecimento.
       Brianna se ps-se a rir.
       -Ah, ento tudo est perfeitamente bem -disse com evidente alvio.
       -Joder, sim -disse, fazendo-a rir outra vez-. Como pode pensar outra coisa?
       -Bom, no disse nada absolutamente. Ficou como algum a quem golpeiam na cabea; pensei que talvez te tinha desiludido.
       Agora lhe tocou rir ao Roger.
       -No; OH, no -disse, recuperando-se finalmente-. Comportar-se como se lhe tivessem tirado a coluna vertebral  uma prova da satisfao masculina. No muito galante, mas sim sincera.
       -0h, est bem. -Pareceu satisfeita com a resposta-. O livro no dizia nada sobre isso, no se incomodaram em falar do que passava depois.
       -Que livro  esse? -moveu-se com cuidado e seus corpos se separaram com um som especial-. Toma -alcanou-lhe a camisa.
       -O homem sensual -Agarrou a camisa com gesto afetado-. Falava de natas, cubitos de gelo, fellatios...
       -Aprendeu isso de um livro?
       Roger estava to escandalizado como as senhoras da parquia de seu pai.
       -No pensar que o fiz a todos com os que sa?
       Agora era ela a escandalizada.
       -Escrevem livros para lhes dizer s mulheres o que tm que fazer...! Isso  terrvel!
       -O que tem de terrvel? Do que outra forma o ia aprender?
       Roger se esfregou a cara sem encontrar resposta. Se lhe tivessem perguntado uma hora antes, teria se declarado a favor da igualdade sexual. Mas ainda ficavam restos do filho do ministro presbiteriano, que pensava que as jovens deviam chegar ignorantes de noite de bodas.
       -Est bem -disse-. Mas ainda tem muito que aprender.
       -Insgnia me voc -sussurrou Brianna e lhe mordeu no lbulo da orelha.
       
       Brianna despertou com o canto de um galo; Roger se moveu ao senti-la. Faziam o amor trs vezes e se sentia feliz e ardida. O tinha imaginada centenas de vezes e se equivocou. No havia forma de imagin-lo que significava sentir-se assim, alm dos limites da carne, penetrada e poseda.
       -Sinto muito -disse Roger, brandamente.
       -Porqu?
       Acariciou-o sem vacilaes. Agora podia lhe tocar todas as partes; no podia agentar as vontades de v-lo nu  luz do dia.
       -Por isso. -Fez um gesto, assinalando o que os rodeava-. Devi esperar. Queria... o melhor para ti.
       -Esteve muito bem -respondeu brandamente.
       -Queria que tivesse uma noite de bodas adequada. Com uma boa cama, lenis limpa... teria que ter sido melhor em sua primeira vez.
       -J tive boas camas e lenis limpa. Mas isto, no. No pde ser melhor.
       Beijou-lhe, pegando seu corpo ao do Roger.
       -vais matar me, Bri.
       -Sinto muito -disse ela-. Apertei-te muito? No quis te fazer danifico.
       Roger riu.
       -No, mas d descanso a pobre ferramenta, quer?
       -Roger?
       -me diga.
       -Acredito que nunca fui to feliz.
       -Isso est bem.
       -Embora... embora no retornssemos, no me importa se estivermos juntos.
       -Retornaremos. -Com uma mo cobriu seus peitos-. Disse-te que h outra forma de voltar.
       - certo?
       -Isso acredito.
       Falou-lhe sobre o grimoire; a mescla de notas cuidadosas e loucas divagaes, e sobre o passo pelas pedras do Craigh na Dun.
       -A segunda vez, pensei em t -explicou-lhe brandamente-. Vivi e apareci na poca correta. Mas o diamante que Fiona me deu se derreteu em meu bolso.
       -Ento, h uma forma de dirigi-lo?
       Brianna no pde ocultar um tom de esperana em sua voz.
       -Pode ser -vacilou-. Havia um... suponho que pode chamar-se poema.
       E o recitou.                                
       Brianna o escutou com os braos apoiados nos joelhos. ficou em silencio por um momento.
       - uma loucura -disse finalmente.
       -O ter certificado de loucura desgraadamente no garante que esteja equivocado -disse Roger com secura.
       Se desperez e se sentou com as pernas cruzadas.
       -No deixa de ser um ritual tradicional. O que diz sobre as quatro direes est nas lendas celtas. E a faca, o altar e as chamas formam parte da bruxaria.
       -Ela atravessou o corao de seu marido e lhe prendeu fogo. Brianna recordou, igual a ele, o aroma de carne queimada no crculo de pedras e se estremeceu.
       -Espero que no tenhamos que fazer um sacrifcio humano-disse Roger, tratando de lhe tirar importncia-. Entretanto, o metal e as pedras preciosas... Levava alguma jia quando veio?
       Assentiu a modo de resposta.
       -Seu bracelete. E tinha o colar de prolas de minha av no bolso. Mas as prolas no se danificaram, passaram em perfeito estado.
       -As prolas no so pedras preciosas -recordou-lhe-. So orgnicas, como as pessoas. -passou-se a mo pela cara; tinha sido um comprido dia e a cabea lhe dava voltas-. Tinha o bracelete de prata e engastes de ouro no colar alm das prolas. E sua me levava um anel de prata e outro de ouro, no? Seus anis de matrimnio.
       -Estraguem. Trs pontos que definem o plano, quatro encerram  terra e o quinto  o nmero do amparo... -murmurou Brianna-. Ela quereria dizer que faziam falta pedras preciosas para... para o que tentava fazer? Esses seriam os "pontos"?
       -Pode ser. Tinha desenhos e uma lista de pedras preciosas com suas propriedades mgicas. Parece que h linhas de fora que percorrem a Terra e de vez em quando se curvam em ns. Se se chegar a um desses ns, est em um lugar onde o tempo no existe.
       -Assim se a gente passar por um, poder faz-lo de novo- em qualquer momento.
       -O mesmo lugar em um tempo diferente. Se as pedras preciosas tiverem sua prpria fora, podem chegar a torcer as linhas...
       -Qualquer pedra preciosa?
       -S Deus sabe -disse Roger-. Mas  nossa melhor possibilidade, no?
       -Sim -aceitou Brianna-. E de onde tiraremos as pedras?
       -Esse  outro assunto. Estive pensando enquanto dormia. Sei... acredito saber onde encontrar uma pedra. Mas... -vacilou-. Tenho que ir imediatamente. O homem que a tem est em New Bern, mas no ficar muito tempo ali. Se coxo algo de seu dinheiro poderei partir em um bote pela manh e estar em New Bern ao dia seguinte. Ser melhor que voc espere aqui. Logo...
       -No posso ficar aqui!
       -por que no? No quero que venha comigo. Em realidade sim -corrigiu-se-, mas acredito que  mais seguro que fique aqui.
       -No digo que queira ir contigo, digo-te que no posso ficar aqui -repetiu arranca-rabo a sua mo. Quase tinha esquecido seu descobrimento, mas agora voltava a recuperar toda a excitao do dia anterior-, Roger, encontrei-o, encontrei ao Jamie Fraser!
       -Fraser? Quando? Aqui? -disse com assombro.
       -No, est no Cross Creek e sei onde estar na segunda-feira; tenho que ir, Roger. No o compreende? Est to perto e eu j cheguei to longe...
       -Sim, j vejo. -Roger parecia algo ansioso-. Mas no pode esperar uns dias? H um dia de navegao at New Bern e outro para voltar. Em um dia ou dois poderia estar de volta.
       -No -respondeu-. No posso.  pelo Lizzie.
       -Quem  Lizzie?
       -Minha criada... voc a viu. ia golpear te com a garrafa.
       -Brianna riu ante a lembrana-. Lizzie  muito valente.
       -Se j me der conta -disse Roger secamente-. Mas isso o que...
       -Est doente -interrompeu Brianna-. No viu quo plida estava? Acredito que tem malria; embora a febre e os tremores desaparecem, voltam-lhe para os poucos dias. Tenho que encontrar a minha me o mais rpido que possa. Tenho que faz-lo.
       -Muito bem -disse-. Muito bem! Voltarei o mais breve possvel. Mas me far um favor, quer? Ponha um vestido!
       -Voc no gosta de meus cales? -Sua risada se deteve bruscamente, como se algo lhe tivesse passado pela cabea-. Roger, vais roubar essas pedras?
       -Sim -respondeu com simplicidade.
       -No -disse finalmente-. No o faa, Roger.
       -No se preocupe, o homem que a tem -disse, tratando de tranqiliz-la- a roubou a outra pessoa.
       -No me preocupo com ele, mas sim por ti!
       -No me passasse nada. Estarei de volta antes de que te d conta.
       -Mas e se no ser assim...
       -Tudo sair bem -disse com firmeza-. Pinjente que te cuidaria e o farei.
       -Mas...
       Fez-a calar com um beijo e muito brandamente a aproximou de seu corpo.
       Brianna ofegou quando a penetrava e mordeu suas costas, mas Roger no disse nada.
       -Sabe? -disse Roger, mdio dormido-. Acredito que me casei com minhas seis vezes tia av.
       -Que voc o que?
       -No se preocupe, no  incesto -assegurou-lhe.
       -Ah, bom -disse com sarcasmo-. Como posso ser sua tia av, caramba?
       -Bom, como te disse, estava pensando e no me tinha dado conta antes. Mas o tio de seu pai era Dougal MacKenzie. que causou todo o problema ao ter um filho com o Geillis Duncan, no?
       O insatisfactorio mtodo anticoncepcional que tinha utilizado lhe tinha feito pensar nisso. Embora lhe parecia melhor no mencion-lo.
       -Bom, no acredito que a culpa fora toda dele. Brianna tambm parecia meio dormida. Estava a ponto de amanhecer, os pssaros se ouviam e o ar tinha trocado.
       -Se Dougal for mim tio av eu no sou sua tia av, a no ser uma prima em sexto ou stimo grau.
       -Tampouco, porque no pertencemos  mesma gerao de descendentes; voc est muito mais acima pelo lado de seu pai.
       -Ao diabo com isso. Se estiver seguro de que no  incesto...
       -No o tinha pensado. -assombrou-se-. Sabe o que significa? Eu tambm sou parente de seu pai. Acredito que  meu nico parente vivo, alm de ti!
       Roger se sentiu comovido pelo descobrimento.
       -No, no  assim -murmurou Brianna.
       -Como?
       -No  o nico. Est Jenny. E seus filhos. E seus netos. Minha tia Jenny  voc... mmm, talvez tenha razo. Porque se ela for minha tia... eu sou... ahh -bocejou e apoiou a cabea no ombro do Roger-. Quem lhes disse que foi?
       -A quem? .
       -Ao Jenny e ao Ian. Quando foi ao Lallybroch.
       -No estive ali.
       Se desperez, aproximando-se de seu corpo.
       -No? Mas ento... -Sua voz se quebrou-. Como sabia que eu estava aqui?
       -Mmm?
       aparto-se sbitamente deixando-o com os braos vazios e olhando-o com receio.
       -Como sabia onde estava? -repetiu com tom glido-. Como sabia que tinha vindo s colnias?
       -Ah... eu...
       despertou para descobrir, muito tarde, o perigo.
       -No havia forma de saber que tinha sado de Esccia, salvo que tivesse ido ao Lallybroch e eles lhe houvessem isso dito, mas se no foi ao Lallybroch...
       -Eu...
       Procurou uma explicao, mas no havia outra que no fora a verdade.
       -Sabia. Leste a notcia da morte! Soube todo o tempo, verdade?
       -No -disse, tratando de ganhar tempo-. Quero dizer, sim, mas...
       -Desde quando sabia? por que no me disse isso? -gritou Brianna.
       ps-se em p e recolhia sua roupa.
       -Espera -suplicou-. Bri, me deixe te explicar... 
       -Sim, me explique! Eu gostaria de ouvir sua explicao!
       -Olhe -tambm se levantou-, descobri-o na primavera. Mas eu... sabia que te ia fazer mal. No lhe queria dizer isso porque sbia que no poderia fazer nada, salvo te romper o corao...
       -O que quer dizer com isso de que no posso fazer nada?
       Comeou a vestir-se com os olhos brilhando pela fria.
       -No pode trocar os fatos, Bri! No te d conta? Seus pais o tentaram, sabiam o do Culloden e fizeram todo o possvel para deter o Carlos Estuardo mas no puderam. Fracassaram! Geillis Duncan tratou de que um Estuardo fora rei e falhou. Todos fracassaram! No pode ajud-los, Bri -disse com mais calma-.  parte da histria, do passado- Voc no  deste tempo, no pode trocar o que vai acontecer.
       -Voc no sabe -disse com rigidez.
       -Sei! Escuta, se tivesse pensado que havia a mais mnima possibilidade... mas no h nenhuma. Joder, Bri, no queria que sofresse!
       -No  teu assunto, para que ditas por mim -disse com fria-. No importa o que pensasse.  algo muito importante, Roger, como pde faz-lo?
       sentia-se trada e isso era mais do que Roger podia suportar.
       -Maldio, tinha medo de que, se lhe dizia isso, fizesse o que tem feito! -estalou-. Deixaria-me e tentaria passar atravs das pedras. E agora os dois estamos aqui...
       -Culpa-me porque voc est aqui? No fiz todo o possvel para que no me seguisse como um idiota?
       -Um idiota? Assim me agradece que tenha vindo a te buscar, arriscando minha maldita vida para te proteger?
       Tratou de agarr-la sem estar seguro de querer sacudi-la ou possui-la de novo. Mas no pde fazer nada; um forte empurro lhe fez perder o equilbrio e cair.
       Brianna saltava sobre um p e amaldioava, enquanto ficava as calas.
       -Maldito arrogante- maldito seja, Roger! Vete! Vete e que lhe pendurem, se for isso o que quer! Vou procurar a meus pais! E os salvarei!
       Girou e se encaminhou para a porta antes de que pudesse det-la.
       -Vou. Venha ou no, no me importa. Retorna a Esccia, passa pelas pedras, no me importa. Mas no tente me deter!
       E partiu.
       
       Lizzie tinha os olhos bem abertos quando a porta se abriu de repente.
       -Est bem, Bri?
       No o parecia; Brianna ia e vinha sussurrando como uma serpente, detendo-se para chutar sua roupa.
       -Est bem? -repetiu, insegura.
       -Bem! -disse Brianna.
       Desde abaixo chegou uma voz rouca.
       -Brianna! Voltarei a te buscar! Ouve-me? Voltarei!
       Brianna no respondeu. Fechou a janela com fria e se deu a volta como uma pantera deixando a habitao em uma sufocante escurido.
       Lizzie ficou imvel na cama, temerosa de mover-se e de falar. Ouviu a Brianna tir-la roupa e os roucos murmrios que chegavam de abaixo, at que tudo ficou em silncio. Ento juntou o valor suficiente e se voltou para ela.
       -Est.., est bem? -perguntou em voz baixa.
       Por um momento acreditou que Brianna no lhe responderia.
       -Sim. -A resposta chegou em uma voz sem matizes-. Agora, durma.
       No o fez. Era impossvel dormir no estado no que estava Brianna. No chorava, mas tremia de uma maneira que estremecia a cama.
       Tentou no intervir. "Tola,  seu amiga e sua senhora e lhe aconteceu algo terrvel e voc no faz nada! Em um impulso se aproximou da Brianna e lhe agarrou a mo.
       -Bri? -disse brandamente-. Posso te ajudar em algo?
       Brianna lhe apertou a mo e logo a soltou.
       -No -respondeu com suavidade-. Vete a dormir, Lizzie, no passa nada.
       Por ltimo, incapaz de dormir, Lizzie se levantou da cama e abriu as persianas. Sem saber como atuar se dedicou a fazer o que sempre fazia quando tnia problemas: arrumar as coisas. Recolheu a roupa que Brianna se tirou violentamente e a sacudiu.
       Estava suja e com restos de palha. O que tinha feito Brianna? Derrubar-se pela terra? Naquele instante a cena apareceu em sua mente, to clara que a impresso a sacudiu:
       Brianna lutando com o diabo negro que a tinha levado. Era uma mulher alta e forte, mas aquele MacKenzie era um bruto enorme, ele poderia... deteve-se, no queria pens-lo, Mas sua imaginao no se detinha.
       Com grande desgosto se aproximou a camisa e a cheirou. Sim, ali estava, aroma de homem, forte e azedo. Pensar naquela malvada criatura com seu corpo apertado contra o da Brianna, deixando seus aromas como um co que marca seu territrio, fez-a estremecer-se de asco.
       Com gestos trementes recolheu os cales e as mdias para lav-los. Tiraria-lhes os rastros daquele MacKenzie e, se ao dia seguinte ainda estavam molhados... bom, muito melhor. Ainda ficava o sabo que lhe desse a posadera e tinha a bacia com gua.
       Comeava a entrar luz pela janela quando Brianna ficou dormida. Sua respirao era tranqila, no despertaria ainda.
       No quis olhar, mas no podia fingir que no o tinha visto. Ali estava, uma grande mancha escura entre as pernas das calas que obscurecia a gua.
       O sol aparecia no cu com um tom avermelhado, confundindo a gua da bacia, o ar da habitao e o mundo que as rodeava, com a cor do sangue fresca.
       41
       Fim da travessia
       Brianna pensou que podia ficar a gritar, mas em lugar disso aplaudiu as costas ao Lizzie e falou brandamente.
       -No se preocupe, tudo ir bem. O senhor Viorst diz que nos esperar. Assim que se sinta melhor partiremos. Agora no se preocupe por nada, te limite a descansar.
       Lizzie assentiu sem poder responder, os dentes lhe tocavam castanholas apesar de ter trs mantas e um tijolo quente nos ps.
       -Trarei-te algo de beber, querida. Descansa -repetiu Brianna e, depois de lhe dar outra palmada, levantou-se e saiu da habitao.
       No era culpa do Lizzie,  obvio, pensou Brianna, mas no podia ter eleito pior momento para ter outro ataque de febre. depois da terrvel cena com o Roger, Brianna tinha dormido at tarde mas mau. Ao despertar encontrou sua roupa lavada e tendida para secar-se, seus sapatos lustrados, a habitao limpa e ordenada e ao Lizzie atirada no estou acostumado a tremendo pela febre.
       Por ensima vez contou os dias. Faltavam oito dias at na segunda-feira; se o ataque do Lizzie seguia o processo habitual poderiam partir dentro de dois dias. Ficariam seis dias e, segundo o jovem Smoots e Hans Viorst, em cinco ou seis dias se podia chegar at o Cross Creek naquela poca do ano.
       No podia perder ao Jamie Fraser, no podia! Tinha que estar ali na segunda-feira fora como fora.
       O botequim estava enche. Tinham chegado dois novos navios ao porto e os marinheiros bebiam e jogavam s cartas. Brianna passou entre as mesas com uma jarra de uma infuso de hortel quente, sem fazer caso dos assobios e as olhadas. Roger queria que levasse um vestido, no? Maldita seja, com as calas os podia manter a distncia, mas agora estavam molhados e devia esperar para voltar-lhe a pr.
       Um dos homens se moveu e o resplendor de um anel chamou sua ateno. Voltou a olhar assombrada. Era um anel de ouro, mais largo do habitual e com uma inscrio gravada. Brianna no podia l-la de ali mas sabia de cor.
       Apoiou uma mo nas costas do dono do anel. O homem se voltou e sorriu ao v-la.
       -Ah, corao, vieste a trocar minha sorte?
       Brianna se obrigou a sorrir.
       -Isso espero. Posso tocar seu anel para que me d sorte?
       E sem esperar a permisso esfregou o anel contra sua manga. Logo o levantou para admir-lo  luz e poder ler assim a inscrio.
       "Do F. ao C. com amor. Sempre."
       - muito bonito. Onde o conseguiu?
       Olhou-a surpreso e logo com cautela. Brianna se apressou em esclarecer sua pergunta.
       - muito pequeno para voc. No se zangar sua esposa se o perder?
       "Como o ter conseguido? E o que lhe ter passado a minha me?", pensou desesperada.
       -Se tivesse uma esposa, querida, deixaria-a por ti. Agora estou ocupado, mas mais tarde... n?
       -Amanh -respondeu Brianna-.  luz do dia.
       Observou-a assombrado e logo lanou uma gargalhada.
       - luz do dia, ento. Espero-te em meu navio, o Gloriana, perto do embarcadero.
       
       -Fazia muito que no comia?
       A senhorita Viorst contemplou a tigela vazia da Brianna com alegre incredulidade. Era uma corpulenta holandesa da mesma idade que Brianna que a tratava com afeto maternal, como se fora maior que ela.
       -Acredito que desde anteontem. -Brianna aceitou uma segunda rao de po com manteiga-, OH, muito obrigado!
       A comida ajudava a lhe dar um pouco de consolo. A febre do Lizzie havia tornado detrs dois dias de navegao. Esta vez o ataque foi mais largo e severo. Brianna temeu que a jovem no suportasse a viagem pelo rio Cape Fear.
       -Se morrer, avisar a meu pai? -tinha sussurrado Lizzie.
       -Farei-o, mas isso no acontecer, assim no chateie -tinha respondido Brianna com firmeza.
       Viorst, alarmado pelo mal estado da jovem, tinha-as levado a casa que compartilhava com sua filha, um pouco mais abaixo do Cross Creek. A grande fora de vontade da jovem se imps uma vez mais  enfermidade, mas tal e como se encontrava Brianna temia que seu frgil corpo no resistisse tantas exigncias.
       Finalmente o tinham conseguido; estava no Cross Creek um dia antes do julgamento. Em algum lugar perto dali tinha que estar Jamie Fraser e junto a ele estaria Claire.
       tocou-se d bolso secreto de sua cala. Ali estava o anel. Sua me estava viva e isso era o nico importante. depois de comer foi ver o Lizzie. Hanneke Viorst estava sentada ao lado da cama remendando roupa. Sorriu ao ver a Brianna.
       -Tambm deves descansa? -disse, fazendo um gesto para a outra cama.
       -Ainda no, muito obrigado. O que preciso  que me emprestem uma mula, se for possvel.
       Viorst lhe havia dito que River Run estava a um bom trecho do povo. Jamie Fraser podia estar ali ou haver ficado no Cross Creek. Queria ir ao povo e procurar o lugar onde se realizaria o julgamento. No podia correr o risco de no encontr-lo.
       em que pese a seu cansao, o caminho em mula lhe resultou relaxante. Entre a enfermidade do Lizzie e suas dolorosas lembranas quase no tinha emprestado ateno s mudanas da paisagem. Agora se sentia como sim a tivessem transportado magicamente a um lugar diferente. ia encontrar se com o Jamie Fraser.
       Como seria? O tinha perguntada centenas de vezes e o tinha imaginado de mil formas diferentes. em que pese a tudo o que tinha comido voltou a sentir um vazio no estmago.
       Ao chegar ao botequim atou a mula e entrou no escuro refgio. O lugar estava vazio e o dono dormitava em um banco. levantou-se o v-la e, depois da habitual surpresa por seu aspecto, serve-lhe uma cerveja e lhe indicou como chegar at o tribunal.
       -veio para o julgamento? -perguntou com curiosidade.
       -Sim, bom, em realidade, no. De que julgamento se trata? -perguntou, ao dar-se conta de que no sabia nada.
       -OH,  o do Fergus Fraser -disse o taberneiro, como se todo mundo conhecesse o Fergus-. Os cargos so assalto a um oficial da Coroa. Mas o absolvero, Jamie Fraser veio das montanhas para declarar.
       -Conhece o Jamie Fraser? -perguntou com nervosismo.
       -Se espera um momento voc tambm o conhecer. Saiu quando voc chegava.
       Brianna se tinha posto em p de um salto e o homem deu um grito de surpresa ao v-la sair correndo.
       Chegou  luz da rua piscando e ento o viu. Um homem alto, magro e elegante urinando ao lado de uma rvore. Usava uma saia escocesa de cores desbotadas e uma camisa branca. Jamie a viu e sua expresso de receio se converteu em surpresa ao dar-se conta de que era uma mulher.
       Brianna no teve nenhuma dvida, no era to grande como o tinha imaginado, mas tinha suas mesmas faces: nariz largo, queixo forte e olhos rasgados.
       Ao mover-se, o sol iluminou seu cabelo acobreado.
       -O que quer, moa? -perguntou.
       Sua voz era mais profunda do que esperava e com um marcado acento escocs.
       -A ti -deixou escapar.
       -Sinto muito, moa -disse com um sorriso-. Sou um homem casado.
       Brianna tratou de det-lo sem atrever-se a agarr-lo do brao.
       -No, digo-o a srio. Tenho uma esposa em casa e no est longe daqui. Mas... -Observou-a e descobriu sua roupa gasta-. Tem fome? Tenho dinheiro se quer comer.
       -...  Jamie Fraser?
       Olhou-a com ateno.
       -O mesmo. -Seus olhos se entrecerraron pelo sol. Deu um passo para ela-. Mas quem o pergunta? -disse brandamente-. Tem alguma mensagem para mim?
       -Meu nome  Brianna -disse. Jamie franziu o sobrecenho com insegurana e algo iluminou seus olhos. Tinha ouvido esse nome e significava algo para ele-. Sou sua filha. Brianna -disse com voz entrecortada.
       Jamie permaneceu imvel, sem trocar de expresso. Primeiro ficou plido e logo seu pescoo e seu rosto avermelharam, como se comeassem a arder.
       Brianna tentou sorrir.
       Jamie piscou e deixou de olhar sua cara para passar a observar seu aspecto Y... seu tamanho.
       -meu deus -grunhiu-.  enorme.
       Brianna voltou a ruborizar-se.
       -De quem ser a culpa? -perguntou furiosa.
       Jamie deu um passo atrs, surpreso e nervoso.
       -OH, no, moa! -exclamou-. No quis dizer isso!  que... -interrompeu-se olhando-a fascinado-.  certo? -sussurrou-.  voc, Brianna?
       Pronunciava seu nome com um estranho acento, Brin, que a fez estremecer,
       -Sou eu -disse, tentando sorrir-. No o v?
       -Sim, sim, posso v-lo.
       Ento lhe tocou a cara e percorreu a delicada linha de seu queixo. Brianna voltou a estremecer-se.
       -No pensava que fosse to maior. Tinha visto os retratos, mas mesmo assim, em minha mente foi uma criatura, minha menina. No esperava...
       -Retratos -disse Brianna-. Viu as fotos? Ento, mame te encontrou, no? Disse que tinha uma esposa em casa...
       -Claire -interrompeu-a-. No a viu? ficar muito contente!
       Pensar em sua me pde com ela. As lgrimas que retinha desde fazia dias saram todas juntas com uma mescla de risadas e soluos.
       -Vamos, criatura, no chore! -exclamou alarmado. Tirou um leno e quis lhe secar lhas lgrimas-. No chore, a leannan, no se preocupe -murmurou--. Tudo est bem, m'annsachd, todo est bem.
       -Sou... feliz. -Brianna se secou os olhos e se soou o nariz-, O que quer dizer a leannan? E o outro que disse?
       -No sabe galico? -perguntou Jamie e sacudiu a cabea-. No,  obvio, ela no ia ensinar te -murmurou.       
       -Aprenderei -disse ela com firmeza-, A leannan
       -Quer dizer "querida" -disse ele com um sorriso-, E m'annsachd, "minha bno".
       Brianna ia chamar lhe pai e se conteve. Como devia cham-lo? Papai no: papai tinha sido Frank Randall durante toda sua vida e no o trairia dcindoselo a outro homem.
       Jamie? No, isso era impossvel.
       Jamie a viu vacilar e ruborizar-se, e entendeu o problema.
       -Pode me chamar P -disse com voz rouca e se esclareceu garganta-. Se quer faz-lo -acrescentou.
       -P -disse e sorriu aliviada-. P.  galico?
       Devolveu-lhe o sorriso.
       -No. ... mais simples.
       E de repente tudo foi simples. Abriu os braos e ela se deixou abraar e descobriu que se equivocou. Era to grande como tinha imaginado e seus braos eram mais fortes do que pudesse atrever-se a pensar.
       
       Depois tudo pareceu acontecer em um estado de atordoamento. As emoes e a fadiga faziam que Brianna fora consciente de uma srie de imagens, como fotos, imagens detidas sem movimento.
       Lizzie, plida e magra em braos de uma moo negra com um absurdo acento escocs. Um carro cheio de madeiras v vidros. A voz de seu pai, profunda e clida, descrevendo a casa que ia construir no alto da montanha e lhe explicando que as janelas eram uma surpresa para sua me.
       -Mas no uma surpresa como a que vai dar voc, moa! -disse, soltando uma profunda gargalhada de alegria.
       Logo a grande casa: fresca e com aroma a flores. Uma mulher alta com cabelos brancos, as faces da Brianna e uns olhos azuis que olhavam ao vazio. E umas mos largas que tocavam sua cara e seu cabelo com curiosidade.
       -Lizzie -disse, enquanto uma bela mulher negra se inclinava para tocar a cara plida-. Casca de quina -murmurou.
       Mos, muitas mos. Tudo parecia mgico; passavam-na de emano em emano com suaves murmrios. E comida: bolos, po-doces e doces; tambm havia ch, doce e quente, que parecia renovar o sangue de suas veias.
       Apareceu uma formosa moa loira com rosto carrancudo. Seu pai a tratava com familiaridade e a chamava Marsali. Lizzie, banhada e envolta em uma manta, com uma jarra de lquido quente entre as mos parecia ter florescido.
       Todos conversavam, mas Brianna s de vez em quando entendia alguma frase.
       -P, viu ao Fergus? Est bem?
       P?, pensou mdio intrigada e tambm indignada porque algum mais o chamava assim, porque... porque...
       Ouviu a voz de sua tia de longe, dizendo:
       -Essa pobre criatura est ficando dormida na cadeira, posso ouvi-la roncar. Ulises, leva a  cama.
       depois de ouvir aquilo, uns braos fortes a levantaram, mas no eram os do mordomo, a no ser os de seu pai, assim apoiou a cabea em seu peito e ficou dormida.
       
       Embora o nome do Fergus Fraser soava a cl escocs, seu aspecto era o de um nobre francs. Um nobre francs caminho da guilhotina, corrigiu-se Brianna.
       Marsali suspirou ao ver seu arrumado marido e se inclinou sobre a Brianna, sussurrando ao Jamie.
       -O que lhe tm feito esses bastardos?
       -Nada importante.
       Fez um gesto para que voltasse a sentar-se direita. Tinham tido sorte ao conseguir assentos pois o lugar estava lotado de gente que comentava e murmurava ao fundo da sala.
       O juiz chegou e ocupou seu lugar. depois de cumprir com todas as cerimnias, o julgamento comeou. Era evidente que no tinha jurado, s o juiz e seus subordinados.
       Brianna tinha averiguado mais detalhes da famlia durante o caf da manh. A jovem pulseira negra se chamava Fedra e o moo alto de sorriso encantador era Ian, o sobrinho do Jamie; sua primo, pensou, sentindo a mesma emoo que no Lallybroch. Marsali, a formosa loira, era a esposa do Fergus, e este,  obvio, era o rfo francs que Jamie tinha adotado formalmente em Paris antes do levantamento dos Estuardo.
       O juiz Conant, um cavalheiro de mdia idade, colocou-se a peruca, arrumou-se a tnica e pediu que lessem os cargos, segundo os quais, Fergus Claudel Fraser, residente do Rowao County, em 4 de agosto deste ano de nosso Senhor de 1769 tinha atacado com traio  pessoa do Hugh Berowne, delegado do delegado do condado, roubando propriedade da Coroa que o deputado tinha em custdia.
       O tal Hugh resultou ser uma pessoa nervosa de uns trinta anos. Tinha sido atacado pelo francs quando pretendia cobrar os impostos, ficando em custdia pela dvida um cavalo selado. Este ensinou um dente quebrado, resultado da briga.
       O juiz o contemplou com interesse e logo se dirigiu ao prisioneiro:
       -E agora, senhor Fraser, podemos ouvir sua verso deste desafortunado sucesso?
       Fergus levantou o nariz olhando ao juiz como se fora uma barata.                             
       -Este repugnante sujeito -comeou em tom moderado--se ....
       -O prisioneiro deve evitar os insultos -disse o juiz com frieza.
       -O delegado -continuou Fergus sem alterar-se- aproximou-se de minha esposa quando retornava do moinho com meu filho na cadeira. Esse..., o delegado, baixou-a do cavalo sem nenhuma considerao e lhe informou que ficava com ele e a cadeira de montar como pagamento do imposto. Deixou-a com o menino a cinco milhas de casa e exposta aos raios do sol.
       Lanou um olhar furioso para o Berowne. Marsali soprou com fora.
       -Qual era o imposto que o delegado diz que devia?
       -Eu no devo nada! Ele diz que minha terra est sujeita a uma renda anual de trs xelins, mas no  assim! Minha terra est isenta desse imposto em virtude dos trminos nos que se fez a entrega de terras ao James Fraser por parte do governador Tryon. Disse-lhe ao pestilento salaud que isso era assim quando foi a minha casa para cobrar o dinheiro.
       -Eu no sei nada dessa entrega -disse Berowne mal-humorado-. Esses tipos so capazes de dizer algo para no pagar.
       O juiz levantou a cabea e escrutinou a sala.
       - Est presente James Fraser?
       Jamie se levantou e saudou com respeito.
       -Aqui, senhor.
       -Que jure a testemunha, Bailiff.
       Jamie, uma vez que tomaram juramento, testemunhou que era o proprietrio dos terrenos cedidos pelo governador Tryon. Nos trminos da cesso se inclua que no se pagariam impostos  Coroa durante dez anos, perodo que no terminaria at dentro de nove. Finalmente assegurou que Fergus Fraser tinha sua casa e sua granja dentro dos limites do territrio que gozava de franquia; com permisso dele mesmo. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. A ateno da Brianna tinha estado cravada em seu pai. Era o homem mais alto da sala e o mais chamativo, com uma camisa branca e uma casaca de um azul profundo que fazia que ressaltassem seus olhos e seu cabelo.
       -Parece que a declarao do senhor Fraser  certa, senhor Berowne -disse o juiz-, portanto, deverei absolver o de cargos...
       -No pode prov-lo! -estalou Berowne-. No h documentos que o provem, s a palavra do James Fraser.
       Seu pai no demonstrou aborrecimento algum, ficou em p outra vez e fez um gerou fazia o juiz.
       -Se Sua Senhoria me permitir isso. -Procurou em sua casaca e tirou umas folhas com um selo vermelho de cera-. Sua Senhoria conhece o selo do governador, estou seguro -disse, deixando os papis sobre a mesa.
       O juiz Conant observou com cuidado o selo, logo o abriu e leu o documento.
       -Esta  uma cpia do documento original da entrega de terras -anunciou- assinado por Sua Excelncia, William Tryon.
       -Como o conseguiu? -estalou Berowne-. No teve tempo de ir a New Bern e voltar!
       O juiz lhe lanou um olhar cortante e disse:
       -Dado que este documento constitui uma prova, encontramos que o acusado no  culpado dos cargos de roubo, j que a propriedade em questo  dela. Entretanto, no caso do ataque... -Nesse ponto, notou que Jaime seguia em p- Sim, senhor Fraser? Tem algo mais que dizer a corte?
       -Suplico a corre que alivie minha curiosidade, Sua Senhoria. A declarao original do senhor Berowne descreve com detalhe o ataque que recebeu?
       O juiz arqueou uma sobrancelha e procurou entre seus papis.
       -O demandante afirma que Fergus Fraser lhe golpeou no rosto com o punho esquerdo e o derrubou; logo agarrou as rdeas do cavalo e se afastou lhe insultando em francs. O demandante...
       Uma forte tosse atraiu a ateno sobre o acusado, que, sonriendo de forma encantadora ao juiz Conant, secou-se a cara com um leno enganchado do gancho de ferro de seu coto esquerdo.
       -V! -exclamou o juiz e dirigiu um olhar geada ao demandante.
       -Poderia me explicar como recebeu um golpe no lado direito da cara, propinando com o punho esquerdo de um homem que no o tem?
       -Sim, crottin -disse alegremente Fergus-. Explica isso.
       O juiz Conant considerou mais adequado receber as explicaes do Berowne em privado e ps fim ao julgamento, deixando em liberdade ao Fergus Fraser sem nenhuma mancha em seu bom nome e honra.
       
       -Fui eu -disse Marsali com orgulho, pendurada do brao de seu marido na festa que celebraram depois do julgamento.
       -Voc? -Jamie a olhou divertido-. Voc lhe deu o murro ao delegado?
       -No, peguei-lhe uma patada -corrigiu-. Quando o malvado salaud tratou de me baixar do cavalo lhe dava uma patada na mandbula. Nunca teria conseguido me baixar -acrescentou, zangada pela lembrana-, mas tirou ao Germaine e tubo que me baixar para agarr-lo.
       -No entendo -interveio Brianna-. O senhor Berowne no quer admitir que uma mulher lhe pegou?
       -Ah, no -disse Jamie, lhe servindo outra jarra de cerveja-. Isso foi obra do sargento Murchison.
       -Ah -disse Brianna-. Um que estava no julgamento, com cara de porco ao meio assar?
       Seu pai riu ante a descrio.
       -Estraga, esse  o homem. Tem problemas comigo -explicou- e no  a primeira nem ser quo ltima trata de me incomodar.
       -No podia pensar que ganharia com uma acusao to ridcula -burlou-se Yocasta.
       Estirou uma mo e Ulises lhe tendeu um prato com po de milho. Agarrou uma fatia e dirigiu seus desconcertantes olhos cegos para o Jamie.
       -Era realmente necessrio que rechaasse ao Farquard Campbell? -perguntou com voz de censura.
       -Sim, era necessrio. -Ao ver a confuso da Brianna, explicou-lhe-: Campbell  o juiz habitual do distrito. Se no tivesse cansado doente em um momento to oportuno -riu com picardia-, o julgamento tivesse sido a semana passada. Eles contavam com que no teria tempo de ir a New Bern antes do julgamento e assim tivesse sido. -Sorriu ao Ian e o moo se ruborizou de prazer, j que ele tinha sido quem tinha cavalgado em busca do documento-. Farquard Campbell  um bom amigo, tia -disse a Yocasta-, mas sabe bem que  um homem que respeita a lei e se no conseguia apresentar provas teria que falhar em meu contrrio. Isso tivesse significado um novo julgamento e uma perda de tempo que Fergus e eu no podemos nos permitir, posto que temos que recolher a colheita.
       Olhou a Brianna ficando sbitamente srio.
       -Espero que no cria que sou um homem rico.
       -No tinha pensado nada parecido -respondeu surpreendida.
       Jamie lhe sorriu.
       -Isso est bem, porque embora tenha muitos terras, ainda no esto cultivadas. E embora sua me  uma pessoa muito capaz -disse ampliando seu sorriso- no pode ocupar-se de trinta acres de milho e cevada.
       Deixou sua jarra e ficou em p.
       -Ian, quer te ocupar do carro e lev-lo junto com o Fergus e Marsali? Brianna e eu iremos por diante -olhou-a interrogativamente-. Yocasta cuidar de sua criada. No te importa que vamos to rpido?
       -No -respondeu, ficando em p-. Podemos ir hoje?
       
       Tirei as garrafas da despensa uma por uma, desentupindo alguma para cheirar seu contedo. Se no se secavam bem antes das guardar, as ervas podiam danificar-se dentro das garrafas e as sementes podiam transformar-se em estranhas formas de mofo. Isso me fez voltar a pensar em meus cultivos de penicilina. Ou o que eu pensava que seriam algum dia, se tinha sorte. Tinha-o tentado durante mais de um ano sem xito.
       Cada uma das novelo  um antdoto para alguma enfermidade, se a gente souber qual . Sentia uma renovada sensao de perda quando pensava no Nayawenne, no s por ela, mas tambm por seus conhecimentos. Tinha-me ensinado s uma parte do que sabia e isso me enchia de amargura, embora no tanto como a perda de uma amiga.
       Entretanto, conhecia algo que ela no sabia: as virtudes mltiplos desse pequeno cultivo de mofo no po. Era difcil reconhec-lo e us-lo, mas nunca duvidei de que valia a pena a busca do cogumelo da penicilina. Tentaria-o de novo na primavera, pensei enquanto cheirava uma garrafa com manjerona. conservava-se em bom estado, com um perfume a almscar que me recordava ao incenso.
       A nova casa da colina j tinha os alicerces e as habitaes estavam marcadas. Podia ver o esqueleto da estrutura da porta da cabana; para a primavera estaria terminada. ia ter paredes com gesso e chos de carvalho; janelas com vidros e Marcos resistentes para que no entrassem ratos nem formigas e um formoso, cmodo e ensolarado gabinete para minhas prticas mdicas.
       Minhas gloriosas vises se viram interrompidas por um zurro, Clarence  anunciava a chegada de visitas. Podia ouvir vozes a distncia, em meio dos gritos de xtase do Clarence, assim comecei a guardar minhas garrafas. Devia ser Jamie, que voltava com o Fergus e Marsali; ao menos era o que esperava.
       Os zurros do Clarence se converteram nos gorjeios que usava para conversaes mais ntimas, mas as vozes tinham cessado. Era estranho. Era possvel que o julgamento no tivesse ido bem?
       Guardei a ltima garrafa na despensa e fui at a porta. No havia ningum. Clarence me saudou com entusiasmo mas nada se moveu. Entretanto, algum tinha chegado, as galinhas se dispersaram entre os arbustos.
       -Sassenach.
       Meu corao quase se detm o ouvir a voz do Jamie, mas o alvio deixou passo ao aborrecimento. O que acreditava que...?
       Por um segundo pensei que via dobro. Estavam sentados no banco, ao lado da porta, um ao lado do outro, com o sol da tarde iluminando seus cabelos.
       Meus olhos se centraram no rosto me deixar, radiante de alegria; logo olhei  direita.
       -Mame.
       Era a mesma expresso de ansiedade, felicidade e saudade, tudo de uma vez. No tive tempo de pensar quando ela j estava entre meus braos me levantando no ar.
       -Mame!
       No podia respirar, faltava-me o ar pela impresso e o forte abrao.
       -Bri! -ofeguei e me deixou no cho sem me soltar.
       Olhei-a com incredulidade. Era real. Procurei o Jamie e o vi de p a seu lado. No disse nada, mas o sorriso lhe ocupava toda a cara e tinha as orelhas vermelhas de prazer.
       -Eu... ah... no esperava... -pinjente como uma idiota.
       Brianna me dirigiu um sorriso que fazia jogo com a de seu pai.
       -Ningum esperava a inquisio espanhola!
       -Como?-disse Jamie desconcertado.
       
       
       
       DCIMA PARTE
       Relaes deterioradas
       
       
       42
       Luz de lua
       
       Septiembre de 1769
       despertou de um sonho pesado ao sentir uma mo sobre seu ombro e se apoiou sobressaltada em um cotovelo, piscando.
       Logo que podia distinguir o rosto do Jamie.
        -Vou caa  montanha, quer vir comigo, moa?
       esfregou-se os olhos tratando de despertar e assentiu.
       -Bem. V te vestindo.
       E saiu em silncio.
       J se tinha posto os cales e as meias quando Jaime retornou silencioso e carregado com uma braada de lenha. Fez-lhe um gesto e se agachou para avivar o fogo; Brianna ficou o casaco e saiu em direo  privada.
       Fora, o mundo era escuro e irreal. Desde no ser pelo frio que sentiu tivesse acreditado que seguia dormindo. Quando retornou dentro, o ar quase se podia cortar pela fumaa, a comida frita e o aroma dos corpos dormidos; fora, em troca, o ar era doce e tnue, e tinha que respirar profundamente, como a grandes goles, para sentir-se bem.
       Jamie estava preparado: uma bolsa de couro pendurava de seu cinturo; uma tocha, o corno de plvora e um costal de lona penduravam sobre suas costas. Brianna ficou na porta observando como se inclinava sobre a cama e beijava a sua me na frente.
       sentiu-se como uma intrusa, uma olheira. Sobre tudo quando a mo larga e plida do Claire saiu de entre as mantas e acariciou e! rosto de seu pai com uma ternura que a comoveu. Claire murmurou algo que Brianna no pde ouvir.
       Brianna o esperou ao bordo do claro. Sorriu-lhe sem falar e se encaminhou para o bosque. Seguiu-o com facilidade por um atalho que passava entre bosques de abetos e castanhos.
       O atalho ziguezagueava ao mesmo nvel at que comeou a ascender. Ainda estava escuro, mas sbitamente o silncio desapareceu. Um pssaro cantou e de repente toda a ladeira da Montana voltou para a vida com toda classe de gorjeios e sons.
       Jamie se deteve para escutar.
       Brianna tambm se deteve, olhando-o. A luz tinha trocado muito lentamente. Jamie levava a comida na bolsa e se sentaram em um tronco a compartilhar as mas e o po.
       Logo bebeu de um regato, enchendo-as mos de gua fria e transparente.
       Ao princpio, seu corao palpitava e lhe atiravam os msculos das pernas pelo esforo da ascenso, at que seu corpo encontrou o ritmo. Com a chegada da luz j no tropeou e chegou um momento em que seus ps flutuavam baixo um cu que parecia to prximo como separado da terra.
       Por um instante desejou que fora assim. Tinha laos que a atavam  terra, a sua me, a seu pai, ao Lizzie... e ao Roger. O sol da manh era uma bola de fogo sobre as montanhas. Teve que fechar os olhos para que no a cegasse.
       Ali estava o lugar onde tinha querido lev-la; ao p de um ravina as rochas se amontoavam cobertas de musgo e lquenes. Fez-lhe um gesto para que fora atrs dele. Havia uma greta difcil de ver primeira vista. Em uma das pedras grandes notou como vacilava e se deu a volta.
       Brianna sorriu e assinalou a rocha.
       -Vai tudo bem -disse brandamente-.  que me faz recordar.
       O tambm recordou e lhe arrepiou o plo dos braos. Esperou a que Brianna passasse e se reunisse com ele. Quando saram ao espao aberto, no topo da ladeira, o sol comeava a sair por cima da colina mais afastada.
       A seus ps se estendiam colinas e vales.
       -Aqui -disse, detendo-se em umas rochas cobertas de erva-. vamos descansar um momento.
       -As sensaes so muito diferentes aqui -disse Brianna, enquanto o olhava com um sorriso-, Sabe o que quero dizer? Cavalguei desde o Inverness at o Lallybroch e tudo parecia selvagem. -estremeceu-se ante as lembranas-. Mas no tinha nada que ver com isto.
       -No. Eu acredito... -comeou e se deteve-. Os espritos que vivem aqui -disse com estupidez- so muito velhos e viram aos homens durante milhares e milhares de anos; conhecem-nos bem e por isso no se mostram ante ns.
       Brianna assentiu sem parecer surpreendida.
       -Mas alguns so curiosos, no? -Levantou a cabea olhando entre os ramos-, No te d a sensao de que nos observam de vez em quando?
       -de vez em quando.
       Brianna estirou suas largas pernas respirando os aromas da manh.
       -Realmente no te importava? -Falou com muita suavidade, evitando olh-lo-. O viver nessa cova, perto do Broch Mhorda.
       -No, no me importava.
       -Quando ouvi falar disso, pensei que deveu ser terrvel. Com frio, s e sujo. -Ento o olhou.
       -Assim era -disse com um ligeiro sorriso.
       -Ian, o tio Ian me levou ali para me ensinar isso 
       -Fez isso? No vero no parece to desolado.
       -No. Mas mesmo assim... -vacilou.
       -No, no me importava.
       Fechou os olhos e deixou que o sol esquentasse seu rosto. Permaneceram comprido momento em silncio.
       -Roger... -disse sbitamente Brianna e o corao do Jamie se retorceu pelo cimes.
       Foi uma sensao dolorosa pelo inesperada. No poderia t-la para ele, embora fora por pouco tempo? Abriu os olhos e se esforou em parecer interessado.
       -Uma vez tratei de lhe falar do que era estar sozinho. Pensava que talvez no seria to mau. -Suspirou-, No acredito que me entendesse.
       Jamie deixou escapar um grunhido evasivo.
       -Pensei... -vacilou, o olhou de esguelha e logo olhou ao longe-. Pensei que talvez por isso voc e mame... -Respirou profundamente-. Ela tambm  assim. No lhe importa estar sozinha.
       Jamie a olhou desejando saber o que era o que fazia que dissesse isso. Como teria sido a vida do Claire durante os anos que estiveram separados, para que Brianna pensasse isso? Talvez ela podia dizer-lhe embora no o perguntaria; o ltimo nome que queria pronunciar naquele lugar era o do Frank Randall.
       -Bom, talvez seja verdade -aceitou com cautela- Vi mulheres e homens que no suportam o som de seus prprios pensamentos, e no fazem bom casal com aqueles que podem faz-lo.
       -No -disse com tristeza-. Talvez no resulte.
       O cimes tinham desaparecido. Assim tinha dvidas desse Wakefield? Tinha-lhes contado ao Claire e a ele tudo, sua investigao, a notcia da morte, a viagem desde Esccia, a visita ao Lallybroch, maldita Laoghaire! Mas sobre esse homem que a tinha seguido no lhes tinha contado tudo, pensou. J estava bem; ele no queria ouvir mais. Tampouco podia se separar de sua mente ao Randall.
       Embora tinha ganho. Claire estava com ele, quo mesmo esta gloriosa criatura; esta jovem mulher, corrigiu-se ao olh-la. Mas Randall as tinha tido durante vinte anos e no havia dvida de que teria deixado sua marca sobre elas. Mas que marca seria?
       -Olhe -disse Brianna, lhe apertando o brao.
       Seguiu a direo de seu olhar e viu, a uns seis metros de onde estavam sentados, a dois antlopes  sombra das rvores. Os animais os viram, mas seguiram comendo com a inocncia da perfeita vida selvagem; ento sentiu a bno do sol sobre sua cabea. Aquele era um lugar novo e estava contente de poder estar ali, solo com sua filha.
       -O que vamos caar, P?
       Jamie estava de p, imvel, olhando para o horizonte, mas ela estava segura de que no procurava um animal; podia falar sem temor de espantar aos antlopes.
       -Abelhas -respondeu.
       -Abelhas? Como se caam as abelhas?
       Agarrou sua arma e lhe sorriu
       -Procurando nas flores.
       Sabia que havia abelhas nas flores, pois as ouvia zumbir.
       -O que deve fazer -explicou seu pai, rodeando lentamente o lugar-  as observar e ver em que direo vo. E no deixar que lhe piquem.
       Uma dzia de vezes perderam o rastro das pequenas mensageiras que seguiam.                          
       -Ali h algumas! -gritou Brianna, assinalando um brilho vermelho a certa distncia.
       Jamie sorriu, negando com a cabea.
       -No, as vermelhas, no. As melhores som as amarelas.
       J estava bem entrada a tarde quando encontraram o que procuravam. As abelhas se reuniram entre os restos de uma rvore de bom tamanho.
       -Bem! -disse Jaime com um suspiro de satisfao-. Algumas vezes constrem a colmia entre as rochas e no se pode fazer nada. -Tirou a tocha de seu cinturo e fez um gesto a Brianna para que se sentasse em uma pedra prxima-. Esperaremos at que oscurezca para que todo o enxame esteja na colmia. Enquanto isso, quer que comamos algo?
       Compartilharam o resto da comida e conversaram com calma enquanto observavam a luz que desaparecia depois das montanhas prximas. Ensinou-lhe a carregar o comprido mosquete e a deixou disparar e volt-lo para carregar.
       -Muito bem -disse, arqueando uma sobrancelha-. Onde aprendeste a disparar?
       -Meu pai atirava ao branco. -Baixou a arma com as bochechas ruborizadas de prazer-. Ensinou-me a atirar com pistola e com escopeta. Tambm com fuzil de caa. Ah, voc no deve conhecer o fuzil de caa.
       -No, suponho que no -respondeu com rosto inexpressivo.
       -Como tirar a colmia? -perguntou, para trocar de tema.
       -Bom, uma vez que as abelhas vo se dormir farei entrar um pouco de fumaa para as aturdir. Depois separarei a parte do tronco que tem o favo e apoiado sobre uma madeira Lisa o envolverei com minha capa. Uma vez em casa, cravarei uma parte de madeira na base e outro na parte de acima para que faam a cera. -Sorriu-lhe-, Pela manh, as abajas sairo e procuraro flores.
       -No se do conta de que j no esto no mesmo tugar?
       encolheu-se de ombros.
       -E o que poderiam fazer? No h forma de que encontrem o caminho e tampouco tm sua colmia para voltar para ela. No, estaro contentes em seu novo lar. -Agarrou a arma-. Me deixe limp-lo, j h pouca luz para disparar.
       O silncio durava muito. Brianna se esclareceu garganta sentindo que devia dizer algo.
       -Mame no se preocupar se chegarmos to tarde?
       Sacudiu a cabea sem dizer nada durante um momento.
       -Sua me me disse uma vez que os homens queriam voar at a Lua -disse bruscamente-. No o tinham feito ainda, mas o tentavam. Voc sabe algo sobre isso?
       Brianna assentiu com os olhos fixos na Lua que surgia entre as rvores.
       -Fizeram-no. -Sorriu fracamente-. A nave que os levou se chama Apolo.
       Pde ver que lhe sorria como resposta e movia a cabea pensativo.
       -Sim? E o que disseram ao voltar?
       -No tiveram que dizer nada, mandaram fotos. Falei-te sobre a televiso?
       Olhou-a um pouco surpreso e se deu conta de que tudo o que lhe tinha contado sobre sua poca era difcil de entender como algo real.
       -Sim? -disse, com insegurana-. Viu essas fotos?
       -Sim -respondeu com as mos obstinadas aos joelhos-. Ter que esperar horas. Ningum sabia quanto tempo foram demorar para sair com seus trajes espaciais. Sabe que no h ire na Lua?
       Arqueou uma sobrancelha e assentiu como um aluno aplicado.
       -Claire me disse isso -murmurou.
       -A cmara, o aparelho que faz essas fotos, estava colocada de forma que pudssemos ver a nave apoiada sobre o p; este se levantava como se uns cavalos o pisoteassem. Alm disso do p e umas pequenas pedras, a certa distncia se viam uns penhascos rochosos; sem novelo, nem gua, nem ar mas tudo invadido por uma beleza misteriosa.
       -Parece Esccia -comentou.                             
       Brianna riu ante a brincadeira, mas lhe pareceu que ocultava certa nostalgia.
       Para distrai-lo assinalou as estrelas.
       -As estrelas so igual ao sol, mas esto to longe que sua luz demora muitssimo em nos chegar. De fato, muitas vezes j esto mortas e ainda vemos sua luz.
       -Claire me contou faz isso muito tempo -disse brandamente.
       ficou em p com deciso.
       -Vamos -disse-. Tiremos a colmia e voltemos para casa.
       
       A noite era o suficientemente clida para deixar a janela sem amparos.
       A primeira noite, Ian tinha cedido galantemente sua cama a Brianna para ir-se dormir a um jergn junto a Cilindro no abrigo para as ervas, assegurando que gostava da intimidade. Ao sair, tinha espalmado ao Jamie com um gesto surpreendentemente adulto de felicitao que me fez sorrir.
       Jamie tambm sorriu. De fato, passou vrios dias sem deixar de sorrir. Agora, entretanto, no o fazia; seu rosto tinha uma expresso tenra e pensativa.
       Surpreendeu-me que ainda no dormisse. levantou-se antes do amanhecer para passar o dia com a Brianna na montanha; retornaram de noite, com a capa cobrindo uma colmia de abelhas defumadas que ao dia seguinte despertariam irritadas ao descobrir o seqestro. Anotei mentalmente que devia me manter separada do fundo do jardim onde estavam colocadas as colmias.
       Jamie suspirou e aproximei a seu corpo. No fazia frio, mas usava uma camisa para dormir por deferncia a Brianna.
       -No pode dormir? -perguntei-, Voc molesta a luz da lua?
       -No -disse, embora a estava olhando-. No  a lua,  outra coisa.
       Esfreguei-lhe brandamente o estmago, suspirou e me oprimiu a mo.
       -OH, no  mais que uma tolice Sassenach. -Voltou a cabea para a cama da Brianna-. Entristece-me que tenhamos que perd-la.
       -Mmm -deixei minha mo sobre seu peito. Sabia que chegaria esse momento, mas no tinha querido romper a magia que unia aos trs-. No pode perder realmente a um filho -pinjente brandamente.
       -Ela deve retornar, Sassenach, sabe to bem como eu.-agitou-se inquieto, mas no se apartou-. Olha-a, no  seu lugar nem seu tempo.
       -Sim -pinjente, com um desgosto que oprimia meu corao-.  obvio que deve retornar. Pertence a outra poca.
       -Sei. -Ps sua mo sobre a minha sem deixar de olhar a Brianna-. No deveria me lamentar, mas o fao.
       -O mesmo me acontece . -Apoiei a frente em seu ombro, aspirando seu aroma-. Mas o que te disse  verdade. No se pode perder uma filha. Voc... voc recorda ao Faith?
       Minha voz tremia um pouco; fazia muitos anos que no falvamos de nossa primeira filha, que tinha nascido morta na Frana.
       - obvio que sim. Crie que poderia esquec-la?
       -No. -As lgrimas corriam por minhas bochechas por causa da emoo-. Isso  o que quero dizer. Nunca lhe disse isso, mas quando fomos a Paris para ver o Jared, fui ao Hospital d Anges e vi sua tumba. Pu-lhe um tulipa rosado.
       -Eu lhe levei violetas -disse, com tanta suavidade que quase no lhe ouvi.
       -No me disse isso.
       -Voc tampouco.
       -Tinha medo de que sentisse...
       Me cortou a voz. Tinha tido medo de que se sentisse culpado, pois uma vez j lhe tinha culpado por isso. Acabvamo-nos de encontrar e no queria arruin-lo tudo.
       -Eu tambm.
       -Sinto que no pudesse v-la -pinjente finalmente e o ouvi suspirar. voltou-se e me abraou.
       -No importa. Se for certo o que diz, Sassenach. Sempre a teremos. E Brianna seguir estando conosco.
       -Sim, no importa o que acontea, no importa aonde v um filho, nem por quanto tempo. Embora seja para sempre. Nunca o perde. No pode
       No respondeu e me abraou com fora enquanto suspirava uma vez mas. Fomos ficando dormidos enquanto a lua nos banhava com sua paz.
       43
       Usque na tinaja
       Eu no gostava de Ronnie Sinclair. Nunca me tinha gostado. Em especial eu no gostava da forma em que olhava a minha filha. Esclareci-me garganta fazendo o suficiente rudo para que o ouvisse.
       -Jamie diz que para fn de ms necessitar uma dzia mais de barris pequenos de usque, e eu necessito o mais breve possvel um grande tonel de madeira de nogueira para a carne defumada.
       Assentiu enquanto para uma srie de crpticas marca em uma tabela de pinheiro que pendurou na parede. Sinclair no sabia escrever e utilizava uma espcie de taquigrafia pessoal que lhe permitia anotar os pedidos.
       -Muito bem, senhora Fraser. Algo mais?
       -No -decidi-. Isso  tudo.
       -De acordo, senhoras -vacilou-. Vir ele por aqui antes de que os barris estejam preparados?
       -No, no tem tempo. Ter que preparar a carne e destilar o lcool. Tudo vai atraso por culpa do julgamento. -Olhei-o com uma sobrancelha arqueada-, por que me pergunta isso? Tem alguma mensagem para ele?
       Sinclair inclinou a cabea, pensativo.
       -Bom, talvez no seja nada. Mas ouvi que h um desconhecido pelo distrito fazendo perguntas sobre o Jamie Fraser.
       Com a extremidade do olho vi que Brianna se sobressaltava.
       -Sabe o nome do forasteiro? -perguntou ansiosa-. Ou que aspecto tem?
       Sinclair a olhou surpreso. Tinha as costas magra, mas seus braos eram fortes e as mos to grandes que podiam ter pertencido a um homem muito mais corpulento que ele.                  .
       -No posso falar de sua aparncia -disse com amabilidade, mas por seu olhar me deu vontade de golpe-lo-. Disse que seu nome era Hodgepile.
       Brianna perdeu a expresso de esperana.
       -No acredito que seja Roger -disse-me em voz baixa.
       -Eu tampouco acredito -pinjente-. No tem motivos para usar um nome falso.
       Voltei-me para o Sinclair.
       -No ter ouvido algo sobre um homem chamado Wakefield, no? Roger Wakefeld.
       Sinclair sacudiu a cabea com determinao.
       -No, senhora. Ele j me falou disso. Se Wakefield aparece ter que mand-lo imediatamente para a Colina. Inteiraro-se em seguida.
       Brianna suspirou e se tragou a desiluso- Estvamos em meados de outubro e, embora no falava disso, sua ansiedade aumentava dia a dia.
       -... sobre o usque -dizia Sinclair, e voltei minha ateno para ele.
       -O usque? Hodgepile perguntava sobre o Jamie e o usque?
       Sinclair assentiu.
       -No Cross Creek,  obvio, ningum lhe disse nada. Mas quem me contou isso me disse que parecia um soldado.
       -Mas no ia vestido como um soldado, no?
       -No; alm disso, dizia que comercializava com peles, mas por sua forma de caminhar parecia que levasse o mosquete. Isso  o que disse Geordie McClintock.
       -Poderia ser um dos homens do Murchison. O direi ao Jamie, muito obrigado.
       Samos enquanto Brianna me perguntava que problemas nos traria esse Hodgepile. E no importa quo virulento fora o dio do Murchison, ou o bons o que fossem seus espies, no imaginava que seus superiores lhe foram permitir mandar uma expedio armada pelas montanhas para terminar com uma destilaria ilegal de to pouca importncia.
       Lizzie e Ian nos esperavam fora recolhendo os pequenos troncos que Sinclair no utilizava.
       -Pode carregar os barris com o Ian, querida? -perguntei a Brianna-. Quero examinar ao Lizzie  luz do sol.
       Brianna assentiu distrada e foi ajudar ao Ian a tirar meia dzia de barris pequenos e a carreg-los no carro. Eram pequenos mas pesados.
       -Vem aqui, querida, me deixe te olhar os olhos.
       Obediente, Lizzie abriu bem os olhos e me permitiu examin-la.
       Continuava muito magra mas a melhoria era notvel.
       -Sente-se bem? -perguntei.
       Sorriu com acanhamento e assentiu. Era a primeira vez que saa da cabana desde que chegasse com o Ian trs semanas atrs. J no tinha ataques de febre, e confiava em que melhorasse seu fgado.
       -Senhora Fraser? -disse.
       Sobressaltei-me para ouvi-la falar. Era to tmida que no nos falava diretamente, a no ser atravs da Brianna.
       -Sim, querida?
       -Eu... eu no pude evitar ouvir o que disse o tonelero: que o senhor Fraser lhe pediu que lhe avisasse se esse homem aparecia. E me perguntava...
       -Sim?
       -Acredita que poder perguntar por meu pai?
       E se ruborizou ainda mais.
       -Ai, Lizzie! Sinto muito. -Brianna se aproximou e abraou a sua pequena criada-. Esqueci-o. Espera um minuto e o direi ao senhor Sinclair.
       -Seu pai? -perguntei-- O que lhe passou, perdeu-o?
       A moa assentiu apertando os lbios.
        -foi; quo nico sei,  que veio s colnias do Sul.
       Bom, pensei, isso no serviria de muito, mas no se perdia nada por perguntar ao Sinclair. As notcias nos peridicos eram escassas no Sul. Era mais singelo que corressem de boca em boca, em botequins e negcios, ou atravs de criados e escravos nas plantaes.
       O pensar em peridicos me fez recordar. Sete anos parecia bastante tempo. Alm disso, Brianna tinha razo; sim a casa devia queimar-se em 21 de janeiro ns podamos evitar estar a.
       Brianna retornou com o rosto ruborizado e subiu ao carro tomando as rdeas enquanto nos esperava com gesto impaciente.
       Ian, ao notar o rubor, franziu o sobrecenho e lanou um olhar  loja do tonelero.
       -O que passou, prima? H-te dito algo inconveniente?
       Flexionou as mos, quase to largas como as do Sinclair.
       -No -disse brevemente-. Nenhuma palavra. Estamos preparados para partir?
       Ian levantou o Lizzie e a colocou no carro, logo me deu a mo e me ajudou a subir no assento dianteiro junto  Brianna. Tinha-lhe ensinado a conduzir o carro com as mulas e se mostrava orgulhoso de sua prima. Logo se sentou junto ao Lizzie e partimos. Podia ouvir as histrias que lhe contava  moa e as risitas dela como resposta. Ao ser o menor de sua prpria famlia, Ian estava encantado com o Lizzie, a que tratava como a uma irm pequena. Olhei de esguelha a Brianna.
       -O que  o que fez? -perguntei.
       -Nada. Interrompi-o.
       E se ruborizou de novo.
       -Que diabos estava fazendo?
       -Desenhos em um pedao de madeira. De mulheres nuas.
       Ri-me, porque me fazia graa e me impressionava.
       -Bom, j no tem esposa e no acredito que consiga outra. Nas colnias h poucas mulheres. Suponho que no lhe pode culpar.
       Senti uma inesperada simpatia pelo Sinclair. Sua esposa tinha morrido depois do Culloden e eu sabia o que era sentir-se sozinho. 
       Brianna se sentiu melhor e comeou a assobiar brandamente algo dos Beatles. Uma idia flutuava em minha mente; se Roger no aparecia, no a deixariam sozinha durante muito tempo; nem aqui e agora nem quando retornasse ao futuro. Mas isso era ridculo, Roger ia vir. E se no...
       Sabia que se brigaram, mas Brianna no me tinha explicado o motivo. teria se zangado tanto como para voltar sem ela?          
       Essa possibilidade tambm lhe devia ter ocorrido a Brianna. J no falava tanto do Roger, mas via a ansiedade em seu olhar cada vez que Clarence anunciava um visitante e a decepo ao descobrir que eram colonos do Jamie ou amigos ndios do Ian.
       -Vamos! -gritou Brianna e o carro avanou mais ligeiro pelo estreito atalho que nos levava at casa.
       
       - muito distinto do destilado no Leoch -disse Jamie-. Mas...  uma espcie de usque.
       em que pese a sua aparente humildade, Brianna se dava conta de que estava orgulhoso de sua primitiva destilaria- Estava a uns trs quilmetros da cabana; situada, explicava-lhe, perto da casa do Fergus, assim Marsali podia aproximar-se vrias vezes ao dia para controlar as operaes. Em troca desse servio, Fergus e ela tinham mais quantidade de usque que os outros granjeiros, os quais proporcionavam a cevada e ajudavam na distribuio do licor.
       -No, querido, no deve te comer essa coisa to suja -disse Marsali com firmeza.
       Agarrou a seu filho da boneca e lhe abriu os dedos para que soltasse o inseto que o menino pensava meter-se na boca.
       Marsali atirou a barata ao cho.
       Germaine, um menino gordinho e estico, no chorou pela perda.
       -No lhe teria feito mal -disse Ian, divertido-. Eu as comi com os ndios. Embora sejam melhores as lagostas, sobre tudo as defumadas.
       Marsali e Brianna sopraram pelo asco e Ian riu com nimo zombador.    
       -Disse-te que no! -Marsali sujeitou ao menino--. Quer que ponha a defumar?
       Jamie se aproximou secando-a cara com um leno.
       -vamos acabar de uma vez -disse-. Estou morto de fome.
       Ian e ele levaram a plataforma umas bolsas de cevada fresca.
       -Quanto tempo demora?
       Brianna observou com ateno como Marsali removia o gro fermentado.
       -Bom, isso depende um pouco do tempo. -Marsali olhou ao cu com ar de perita-. Assim como est de claro, diria que... Germaine!
       S se viam os ps do menino, o resto tinha desaparecido baixo um tronco.
       -J vou eu para busc-lo.
       Brianna avanou rapidamente e levantou o menino. Germaine deixou escapar um grito de protesto e comeou a lhe dar patadas.
       -N!
       Brianna o deixou no estou acostumado a esfregando-a perna e Marsali deixou escapar um som de exasperao.
       -O que agarraste agora?
       Gennaine tinha aprendido de sua experincia anterior e se tragou sua ltima aquisio. Imediatamente ficou arroxeado e comeou a tossir.
       Com um grito de alarme Marsali caiu de joelhos e tratou de abrir a boca do menino. Germaine se sacudia com os olhos exagerados.
       Brianna agarrou ao pequeno do brao, apoiou-o de costas contra ela e com as duas mos lhe apertou o estmago. Germaine deixou escapar um gemido e algo pequeno e redondo saiu de sua boca.
       -Est bem? -perguntou ansioso Jamie, olhando ao menino que agora chorava em braos de sua me. Logo olhou agradado a Brianna-. foste muito rpida, moa, bom trabalho.
       -Obrigado. Me alegro de que desse resultado.
       Brianna sentiu que tremia. Segundos. Tudo tinha durado uns segundos. Da vida  morte e de novo volta  vida em um instante. Jamie lhe oprimiu o brao e se sentiu um pouco melhor.
       -O melhor ser que leve a menino a casa -disse ao Marsali-. Lhe d a comida e coloca-o  cama. J terminaremos ns.
       Marsali assentiu sonriendo a Brianna. Tambm ela estava comovida.
       -Muito obrigado, boa irm.
       Brianna sentiu um surpreendente prazer ante aquele ttulo.
       -Me alegro de que esteja bem.
       E lhe sorriu.
       
       -Esteve muito bem, prima. -Ian, depois de terminado o trabalho, tinha saltado da plataforma para felicit-la-. De quem aprendeu a fazer isso?
       -De minha me.
       Ian assentiu impressionado. Jamie se inclinou procurando no cho.
       -O que se tinha tragado o menino?
       -Isto. -Brianna descobriu o objeto mdio escondido entre as folhas e o levantou. Parece um boto.
       -me deixe ver.
       Jamie estendeu a mo e lhe entregou o boto.
       -Voc no perdeste um boto, no, Ian? -perguntou com rosto carrancudo.
       Ian olhou por cima do ombro do Jamie e sacudiu a cabea.
       -Talvez Fergus? -sugeriu.
       -Possivelmente, mas no acredito. Nosso Fergus  muito presumido para usar algo assim. Todos os botes de seu casaco so feitos de corno gentil. -Sorriu a Brianna e torceu a cabea para o atalho-. Vamos, perguntaremos aos Lindsey caminho a casa. Quer terminar de uma vez, Ian?
       Kenny Lindsay no estava em casa.
       -Duncan Innes veio a busc-lo faz menos de uma hora -disse a senhora Lindsey-, Estou segura de que iro a sua casa. Querem entrar, MAC Dubh? Voc e sua filha podem tomar algo.
       -Ah, no, muito obrigado. MIM esposa deve ter o almoo preparado. Mas talvez me possa dizer se este boto  do casaco do Kenny.
       depois de observar o boto sacudiu a cabea.
       -No. Os que leva os fez ele com osso de cervo -declarou com orgulho. Logo olhou especulativamente a Brianna-. Agora est conosco um irmo do Kenny que tem bons terrenos perto do Cross Creek, vinte acres de tabaco. Ir  reunio no Mount Helicn. Talvez lhes possam conhecer ali.
       Jamie sacudiu a cabea sonriendo ante o intento. Havia poucas mulheres na colnia e, embora Jamie havia dito que sua filha estava comprometida, isto no bastava para deter os intentos das casamenteiras.  
       -Temo-me que este ano, no. Talvez o prximo; por agora no posso me afastar.
       despediram-se amavelmente e seguiram caminho de casa deixando o sol a suas costas.
       -Crie que o boto  importante? -perguntou Brianna com curiosidade.
       -No sei. Pode no ser nada, mas tambm pode significar algo. Sua me me contou o que lhe disse Ronnie Sinclair sobre aquele homem que perguntava pelo usque.
       -Hodgepile?
       Brianna riu ante o nome e Jamie lhe devolveu o sorriso, mas logo ficou srio outra vez.
       -Sim. Se o boto pertencer a algum do lugar no h problema j que todos conhecem a destilaria. Mas se for de um desconhecido... -Olhou-a e se encolheu de ombros-. No  to fcil passar inadvertido por aqui, salvo que queria esconder-se. Um homem que se aproximasse com motivos inocentes se deteria ante uma casa para pedir comida e bebida, e eu me inteiraria em seguida. Tampouco pode ser de um ndio, eles no usam estas coisas.
       Quando chegaram, Claire estava no jardim; sua magra figura se recortava contra o sol e seus cabelos formavam uma grande aurola de cachos dourados.
       Os dois ficaram em silncio, observando-a.
       -Papai estava acostumado a dizer que se mame nos deixava, seria por que se teria ido procurar um lugar para viver sozinha com todas seu novelo -disse Brianna, pensando em voz alta.
       -Ah. -A voz do Jamie era tranqila.
       "Mas no est sozinha depois de tudo", pensou Brianna.
       
       Kenny Lindsey tomou um sorvo de usque, fechou os olhos e moveu a lngua como um provador profissional.
       -Mierda -disse com voz rouca-. Esfola as tripas!
       Jamie sorriu ante o completo e serve outro pouco para o Duncan.
       -Sim,  melhor que o ltimo -disse-. No te arranca a lngua.
       Lindsey se secou a boca com a mo e assentiu.
       -Bom, encontrar um bom lar. Woolam quer um barril.
       -Puseram-lhes de acordo no preo?
       Lindsey assentiu outra vez.
       -Um barril para cada uma das casas da Colina, dois para o Fergus -calculou Jamie-. Talvez dois mais para o Nacognaweto, a gente guardado para envelhec-lo..., sim, podemos apartar uma dzia para a reunio, Duncan.
       A chegada do Duncan tinha sido oportuna. Jamie as tinha arrumado durante o primeiro ano para trocar o usque por ferramentas, roupa e outras coisas que necessitava com urgncia, com os moravos de Salem; mas no havia dvida de que os ricos escoceses das pIantaciones de Cape Fear seriam um melhor mercado.
       Ns no podamos fazer a viagem at o Mount Helicn, mas Duncan podia levar o usque e vend-lo... j estava fazendo listas em minha cabea. Todos levavam coisas para vender na reunio: l, tecidos,  ferramentas, mantimentos, animais... Eu necessitava com urgncia uma pequena panela de cobre, musselina Y...
       -Criem que devem lhe dar lcool aos ndios?
       A pergunta da Brianna me arrancou de meus sonhos ambiciosos.
       -por que no? -perguntou Lindsey com certa desaprovao-. depois de tudo, no o damos, moa. Eles o pagam e o pagam bem.
       Brianna me olhou procurando apoio e logo ao Jamie.
       -Mas os ndios no... ouvi que no lhes sinta bem o lcool.
       Os trs homens a olharam sem compreender.
       -Quero dizer que se embebedam com facilidade.
       Lindsey a observou.
       -O que quer dizer, moa? -perguntou mais ou menos amavelmente.
       -O que quero dizer  que me parece mal fazer beber a gente que uma vez comea no pode deixar de faz-lo.
       Olhou-me e sacudi 1a cabea.
       -O alcoolismo no  uma enfermidade ainda.  s uma falta de carter -pinjente.
       -Direi-te uma coisa -disse Jamie-. Vi muitos bbados em minha vida, mas nunca vi que nenhuma garrafa sasse da mesa para meter-se na boca de ningum.
       Todos grunhiram a modo de aprovao e se serve outra ronda para trocar de tema.
       -Hodgepile? No, no o conheo, embora acredite que ouvi o nome. -Duncan apurou o resto de sua bebida e deixou a jarra-. Querem que pergunte na reunio?
       Jamie assentiu. Lizzie estava lhe dando voltas ao guisado para a comida, mas era muito tmida para falar ante tantos homens- Brianna no tinha essas inibies.
       -Eu tambm tenho algo que te pedir, Innes. -Olhou-o aos olhos-. Poderia perguntar por um homem chamado Roger Wakefield?
       -Bom, claro. Farei-o. -Duncan ficou nervoso ante a proximidade da Brianna e se bebeu o usque do Kenny-, H algo mais que possa fazer?
       -Se -pinjente, colocando outra jarra para o Lindsey-. Enquanto pergunta pelo Hodgepile e o jovem do Bri, tambm poderia perguntar por um homem chamado Joseph Wemyss.
       Pude ver como Lizzie suspirava aliviada.
       Duncan assentiu, recuperando a compostura quando Brianna se foi  despensa a procurar manteiga. Kenny Lindsey a olhou interessado.
       -Bri? Assim chama a sua filha? -perguntou.
       -Fui-dije-. Porqu?            
       Um sorriso apareceu na cara do homem. Logo olhou ao Jamie, tossiu e enterrou a cara na jarra.
       - uma palavra escocesa, Sassenach -disse Jamie, com um amplo sorriso-. Uma bree  uma grande comoo.
       
       44
       Uma conversao com trs participantes
       
       Ouctubre de 1769
       
       As vibraes do impacto atravessaram seus braos. Seguindo um ritmo fruto da larga prtica, Jamie liberou a tocha, balanou-a para trs e a deixou cair de novo. Apoiou o p no lenho e golpeou outra vez cravando o afiado metal a um par de centmetros de seus dedos.
       Podia haver dito ao Ian que cortasse a lenha e ir ele a procurar a farinha ao pequeno moinho dos Woolam; mas o moo se merecia a visita s trs jovens solteiras que trabalhavam com seu pai no moinho. Era uma famlia de quaisquer e embora as moas se vestiam com cores escuras como os pardais, seus rostos eram vivazes e inteligentes, mimavam ao Ian e lhe ofereciam cerveja e partes de bolo.
       Era melhor que passasse o tempo com aquelas jovens virtuosas que com ndias de expresso atrevida.
       O tronco j estava quase talhado; outro golpe e dois lenhos mais estariam preparados para o fogo. A verdade era que gostava de cortar lenha. Era um dia caloroso de finais de outubro e a camisa lhe pendurava dos ombros. secou-se a cara com a manga e examinou a mancha mida.
       Se seguia molhando-a, Brianna insistiria em lav-la embora ele protestasse. Enrugaria o nariz e lhe diria "Uf!", para demonstrar seu asco.
       Sua me tinha morrido fazia muito tempo, quando ele era um menino, mas recordava esse gesto quando aparecia tudo sujo.
       Que mistrio o do sangue. Como um pequeno gesto ou um tom de voz podia transmitir-se atravs de geraes?
       encolheu-se de ombros, e se tirou a camisa. depois de tudo, aquela era sua terra e ningum veria as marcas de suas costas.                               
       Amava profundamente aos filhos do Jenny, em especial ao Ian; depois de tudo eram de seu sangue. Mas Brianna... Brianna era algo mais, provinha de sua mesma carne. Uma promessa no falada para seus prprios pais, seu presente para o Claire e dela para ele.
       No pela primeira vez se encontrou pensando no Frank Randall. O que teria pensado ao ter uma criatura de outro homem ao que no tinha nenhum motivo para apreciar?
       Sua mente se concentrava mais em seus pensamentos que em suas aes. Mas, enquanto isso, a tocha formava parte de seu prprio corpo, passava a ser um apndice dos braos que a balanavam. Olhou para o jardim do Claire, ao lado da casa, onde estava o poo que ainda no tinha tido tempo de terminar. encolheu-se de ombros com irritao ao ver que a cabea da tocha se separava da manga.
       Ento se abriu a porta e saiu Claire com uma cesta na mo seguida da Brianna e toda sua irritao desapareceu.
       -O que passou? -perguntou Claire imediatamente.
       Ao v-lo com a folha da tocha na mo pensou que se feito mal.
       -Nada, estou bem -assegurou-. Tenho que arrumar a manga. vais procurar forragem?
       -Acredito que irei pelo arroio.
       -No v muito longe, n? H ndios caando na montanha. Cheirei-os esta manh na colina.
       -Cheirou-os? -perguntou Brianna.
       - outono e esto secando a carne de veado -explicou Claire-. Se o vento soprar na direo correta se pode cheirar a fumaa a grande distancia. No vamos longe -acrescentou-. S at o lago das trutas.
       -Bom, suponho que  um lugar seguro.
       Sentia certo desgosto ao deixar que partissem sozinhas, mas no podia as obrigar a ficar em casa s porque havia ndios perto. Se soubesse com segurana que eram da tribo do Nacognaweto no se preocuparia, mas podiam ser cherokee ou dessa pequena e estranha tribo que se chamavam a si mesmos os Ces. No confiavam nos estrangeiros brancos e tinham boas razes para isso.                           
       Os olhos da Brianna se posaram por um momento sobre seu peito nu e as cicatrizes, mas no manifestou desgosto nem curiosidade. Deu-lhe um beijo na bochecha como despedida.
       Claire devia lhe haver contado, pensou Jamie, o que ocorreu com o Jack Randall nos dias antes do levantamento. Ou talvez no lhe contou tudo. Um leve estremecimento lhe percorreu as costas; deu um passo atrs e seguiu sonriendo.
       -H po na despensa e um guisado na panela. No lhes comam o pudim, que  para o jantar -disse Claire, lhe tirando umas ramitas do cabelo.
       Jamie lhe agarrou a mo e beijou brandamente os ndulos. Olhou-o surpreso e um leve rubor iluminou sua pele. ficou nas pontas dos ps e lhe beijou na boca; logo se apressou a seguir a Brianna, que j estava no bordo do claro.
       -Tomem cuidado! -gritou-lhes.
       Saudaram-no com a mo e desapareceram no bosque lhe deixando seus suaves beijos na cara e um profundo agradecimento no corao.
       
       Estava sentado com um punhado de pregos no cho e os colocava com cuidado de uma em uma na manga da tocha.
       Tinha frio e ficou a camisa; tambm tinha fome mas esperaria aos jovens. Quem com segurana, pensou com cinismo, j deviam estar fartos de comer. Quase podia cheirar o aroma dos bolos do Sarah Woolam.
       Os ndios diziam que o inverno ia ser duro, no como o anterior. Como seria caar com tanta neve? Em Esccia a capa de neve estava acostumada ser muito magra e os rastros do cervo vermelho se distinguiam facilmente nas ladeiras nuas.
       perguntava-se o que lhe teria contado Claire a Brianna. Era estranha, embora agradvel, a forma que tinham de comunicar-se; Brianna e ele se mostravam tmidos entre eles. As coisas mais pessoais as contavam ao Claire, confiando ambos em que ela as transmitiria, atuando como intrprete naquela nova e torpe linguagem do corao.
       Embora estava agradecido pelo milagre de ter ali a sua filha desejava poder fazer o amor com sua esposa e em sua prpria cama. Estava fartando-se de faz-lo no abrigo de ervas ou no bosque, embora admitia que tinha certo encanto.
       Deixou a tocha e foi at a casa para medir com seus passados as dimenses da nova habitao que pretendia construir at que tivessem lista a casa grande. Brianna era uma mulher e necessitava um lugar privado para ela e sua criada. E se isso lhe devolvia a intimidade com o Claire muito melhor.
       Ouviu o rudo das folhas secas no ptio, mas no se deu a volta at que percebeu uma dbil tosse.
       -Lizzie? -pregunt,todava, olhando ao cho-. Desfrutou de do passeio? Espero que tenham encontrado bem aos Woolam.       
       Onde estaria Ian com o carro?, perguntou-se. No os tinha ouvido chegar.           
       A moa no respondeu, antes bem deixou escapar um rudo que lhe obrigou a voltar-se com surpresa.
        -tivestes Um acidente? passou algo com o carro?     
       Sacudiu a cabea sem poder falar.
       -Ian est bem?  
       No queria turv-la mas comeava a assustar-se. Algo tinha acontecido, disso estava seguro.
       -Estou bem e os cavalos tambm.
       Silencioso como os ndios, Ian tinha aparecido por uma esquina da cabana e se aproximou do Lizzie para acalm-la.
       -O que acontece? -perguntou com um tom mais cortante do que desejava.
       - melhor que o diga -disse Ian-. No temos muito tempo.
       Tocou-lhe o ombro para lhe dar valor. Lizzie pareceu recuperar foras e se ergueu.
       -Eu... estava- vi um homem. No moinho, senhor.
       -Ela o conhecia, tio -disse Ian. Parecia turbado mas no de medo, a no ser excitado de uma forma especial- Viu-o antes... com a Brianna.
       -Sim?
       Tratou de lhe dar confiana, mas o plo da nuca lhe arrepiava.
       -No Wilmington -prosseguiu Lizzie-. Seu nome era MacKenzie; ouvi um marinheiro que o chamava assim.
       Jamie lanou um rpido olhar ao Ian, que assentiu.
       -No disse de onde era mas no conheo ningum do Leoch como ele. Vi-o e o ouvi falar; talvez seja um highlander, mas seguro que estudou no sul; eu diria que  um homem educado.
       -E esse senhor MacKenzie conhece minha filha? -perguntou.
       Lizzie assentiu com o rosto carrancudo pela concentrao.
       -Sim, senhor! E ela tambm o conhece... tinha-lhe medo.
       -Medo? por que?
       Jamie falava com dureza, mas Lizzie j no podia deixar de falar.
       -No sei. Mas ficou plida quando o viu e logo vermelha. Estava muito zangada, isso o podia ver qualquer!
       -O que fez ele?
       -Bom... nada. Lhe aproximou, agarrou-a dos braos e lhe disse que se tinha que ir com ele. Tudo no botequim os olhavam. Ela se soltou, branca como meu avental, mas me disse que tudo ia bem e que a esperasse que retornaria. Y... Y... foi com ele.
       -E a deixou ir?
       -Deveria ter ido com ela, sei! -gritou, com o rosto decomposto pela angstia- Mas tinha medo, que Deus me perdoe!
       -Bom, est bem. -Jamie fez um esforo fardo acalmar-se-. E o que aconteceu ento?
       -Subi como ela me disse, deitei-me e me pus a rezar.
       -Bom, estou seguro de que isso deve ter ajudado muito.
       -Tio... -A voz do Ian era suave mas firme e seus olhos castanhos o olhavam sem vacilar-. No  mais que uma menina, tio, fez-o o melhor que pde.
       -Sim -disse-. Sim, perdoa, no quis te falar assim. Mas que mais aconteceu
       -Ela... ela no retornou at o amanhecer. Y... Y...
       Ao Jamie ficava j muito pouca pacincia e, sem dvida, lhe notava no rosto.
       -Pude sentir o aroma dele em seu corpo -sussurrou-. Seu... smen.
       A onda de fria o agarrou por surpresa.
       -deitou-se com ela? Est segura?
       A jovem s pde assentir enquanto se retorcia as mos e olhava ao cho.
       -No o v? Est esperando um menino e tem que ser dele, era virgem quando se foi com ele. Veio a procur-la e agora lhe tem medo.
       de repente pde v-lo tudo e se estremeceu. O olhar da Brianna, seu comportamento: o mesmo estava animada que perdida em seus pensamentos, e estava claro que o brilho de sua cara no era s pelo sol. Conhecia bem a expresso das mulheres grvidas; se a tivesse conhecido antes teria notado a mudana, mas assim...
       Claire. Claire sabia. O pensamento lhe chegou com fria segurana. Conhecia sua filha e era mdica- Tinha que sab-lo e no o tinha contado.
       -Est segura disso?
       A frieza acalmou sua fria.
       Lizzie assentiu e se ruborizou ainda mais, se  que isso era possvel.
       -Sou sua criada -sussurrou com a vista baixa.
       -Quer dizer que Brianna no teve a regra em dois meses -informou Ian com praticamente. O menor de uma famlia com vrias irms maiores no tinha a delicadeza do Lizzie-. Est segura.
       -Eu... eu no ia dizer nada -continuou a moa-, mas quando vi o homem...
       -Crie que vir a reclam-la, tio? -interrompeu Ian-, Temos que det-lo, no?
       Agora era clara o olhar de fria e excitao.
       -No sei -disse, surpreso pela calma de sua voz. Se esse tal MacKenzie o desejava, podia reclamar a Brianna como sua esposa por direito consuetudinrio, com o filho por nascer como prova ante suas pretenses. Seus prprios pais se casaram assim. Um filho era um lao permanente entre um homem e uma mulher.
       -No vir detrs de vs? Os Woolam lhe devem ter indicado o caminho.
       -No -disse Ian, pensativo-.. No acredito. Tiramo-lhe o cavalo, sabe?
       Sorriu sbitamente ao Lizzie, quem lanou uma risita.
       -Sim? E o que o deter na hora de agarrar o carro ou uma das muas?
       O sorriso se aumentou na cara do Ian.
       -Deixei a Cilindro sobre o carro -disse-. Acredito que vir caminhando, tio Jamie.
       Jamie se viu forado a sorrir.
       -Isso foi atuar rpido, Ian.
       O moo se encolheu de ombros com modstia.
       -Bom, no queria que o bastardo nos pilhasse despreparados. E embora faa bastante que a prima Brianna no fala disso... Wakefield, no? -Fez uma pausa-. No acredito que queira ver esse MacKenzie. Em especial se...
       -Eu diria que o senhor Wakefield ficou atrs -disse Jamie- Em especial se...
       No era estranho que Brianna, uma vez que se deu conta, tivesse deixado de esperar a chegada do Wakefield. depois de tudo, como ia explicar o de sua barriga a um homem que a tinha deixado virgem?
       Com lentido afrouxou os punhos crispados. Agora tinha que ocupar-se de tudo.
       -Procura suas pistolas -disse ao Ian-. E voc, moa -tentou um sorriso-, fique aqui e espera a que voltem Claire e Brianna. lhe diga a minha esposa... que tive que ir ajudar ao Fergus com sua chamin. E no lhes diga uma palavra disto ou usarei suas tripas como ligas.
       Esta ltima ameaa foi sorte em brincadeira, mas a jovem ficou plida como se fora certo.
       Lizzie observou afastar-se ao Jamie, to ameaador como um grande lobo vermelho.
       -Me querida -murmurou, obstinada a sua medalha-. Virgem bendita, o que tenho feito?
       
       45
       Metade e metade
       
       
       As folhas de carvalho estavam secas e rangiam ao as pisar; as dos castanhos caam constantemente formando uma lenta chuva amarela sobre a terra seca.
       - certo que os ndios podem mover-se pelo bosque sem fazer rudo, ou  algo que nos diziam quando fomos meninas exploradoras?
       Brianna chutou as folhas e as fez voar. Vestidas com saias largas e anguas, fazamos tanto rudo como uma manada de elefantes.
       -Bom, no podem faz-lo quando o tempo  to seco, salvo que saltem pelas rvores, como os chimpanzs. Mas na primavera, com a umidade,  diferente. At eu posso caminhar sem fazer rudo; a terra  como uma esponja.
       Ao chegar ao bordo de um pequeno arroio nos separamos. Brianna recolheria agries enquanto que eu procuraria cogumelos entre as rvores.
       Vigiava-a continuamente; tinha um olho sobre ela e outro no terreno. Algo no ia bem, notava-o desde fazia uns dias. Ao princpio pensei que era devido aos nervos causados pela nova situao em que se encontrava. Mas durante as ltimas semanas Jamie e ela tinham iniciado uma relao que, embora ainda estava marcada pelo acanhamento de ambos, era cada dia mais clida. Desfrutavam estando juntos e eu desfrutava vendo-os.
       Entretanto algo a preocupava. Em parte tinha preparado esta expedio para ter a oportunidade de poder falar com ela a ss; com o Jamie, Ian e Lizzie em casa, e o constante trfico de colonos e visitantes, era impossvel uma conversao privada. E se o que suspeitava era certo esta ia ser uma conversao que no queria que ouvisse ningum.
       Quando minha cesta j estava quase cheia de grosas cogumelos alaranjadas, Brianna apareceu pelo arroio carregada de agries.
       - do Roger? -disse-lhe, sem prembulos.
       Olhou-me surpreendida e logo vi que a tenso de suas costas se relaxava.
       -Pergunto-me como ainda pode fazer isso -disse.
       -Fazer o que?
       -Ler em minha mente. Em realidade, espero que possa.
       Tratou de sorrir.
       -Acredito que perdi um pouco de prtica -disse-. Mas espera um tempo. -Arrumei-lhe o cabelo da cara-. Est tudo bem, nenm -pinjente com calma- De quanto tempo est?
       -Desde dois meses -disse, exalando um suspiro de alvio.
       Olhamos aos olhos e a senti diferente; j a havia sentido assim desde sua chegada. Antes, seu alvio tivesse vindo provocado pelo medo, quando sabe que vo ajudar a. Mas agora era s o alvio de compartilhar um segredo insuportvel, pois no esperava que eu arrumasse as coisas. O saber que eu no podia solucionar o problema no diminua meu irracional sentimento de perda. 
       Apertou-me a mo como se queria me dar segurana, logo se sentou com as costas apoiada em um tronco e estirando as pernas disse:
       -Sabia?
       Sentei-me perto dela.
       -Isso espero, mas no sabia que soubesse, se isto tiver sentido.
       Ao olh-la agora todo se fazia evidente: o tom de sua pele, as alteraes em sua cor e aquela expresso ensimismada. Tudo adquiria uma nova dimenso.
       -Roger! -Assentiu, plida pela luz amarelada que se filtrava pelas folhas-. passaram quase dois meses. Teria que estar aqui... salvo que lhe tenha passado algo.
       Minha mente estava ocupada calculando. 
       -Dois meses, estamos quase em novembro. -Meu corao deu um salto-. Bri,  tem que retornar.    
       -O que? -Levantou a cabea-. Retornar aonde?.
       -  s pedras -pinjente agitando o ramo-. A Esccia e rpido!               
       Contemplou-me com as sobrancelhas arqueadas.
       -Agora? Para que?
       -Pode passar grvida. Sei porque eu o fiz. Mas no pode levar a um recm-nascido atravs de... de...; no pode. Voc sabe o que .
       Tinham passado trs anos e recordava a experincia com toda claridade.
       Seus olhos se obscureceram e seu rosto ficou branco.
       -No pode levar a uma criatura -repeti. Tratava de me controlar e de pensar com lgica-. Seria como saltar s cataratas do Nigara com um menino nos braos. Tem que retornar antes de que nasa O...
       Interrompi-me, para seguir com meus clculos.
       -Estamos quase em novembro. Os navios no navegam desde finais de novembro at maro. E no pode esperar tanto, isso significaria fazer uma viagem de dois meses pelo Atlntico grvida de seis ou sete meses. Se no nascer no navio, o qual seria uma morte segura para ti, para o menino ou para os dois, ainda teria que cavalgar uns cinqenta quilmetros at o crculo, conseguir passar e procurar ajuda ao outro lado... Brianna, no pode faz-lo! Tem que ir agora, logo que possamos arrum-lo.
       -E se vou agora..., como vou estar segura de que chegarei  poca correta?
       Falava com calma, mas seus dedos se aferravam  saia.
       -Voc... eu acredito... bom, eu o fiz.
       Meu pnico inicial comeava a render-se ante um pensamento lgico.
       -Voc tinha a papai ao outro lado. -Olhou-me com acuidade-, Quisesse ou no retornar com ele, tinha um forte lao afetivo ali; te ia ajudar, ou melhor, nos ia ajudar. Mas j no est. -Seu rosto ficou tenso e logo se relaxou-. Roger sabia... sabe -corrigiu-se-. O caderno do Geillis Duncan diz que se podem usar pedras preciosas para viajar, que servem como amparo e para dirigir a viagem.
       -Mas s lhes apiam em hipteses! -argumentei-. Quo mesmo essa maldita Geiilis Duncan! Pode ser que no se necessitem pedras preciosas nem nenhum outro acrescentado. Nos antigos contos de fadas, quando a gente se mete em uma colina encantada e logo retorna, e! perodo da viagem so sempre duzentos anos- Se essa for a medida habitual, ento...
       -Arriscaria-te a descobrir que pode que no seja assim?
       Geiilis Duncan viajou mais de duzentos anos.
       Me ocorreu, um pouco tarde, que minha filha j tinha pensado todo isso por si mesmo. Nada do que eu dizia a tinha surpreso.
       -H outra forma -pinjente, lutando para recuperar a calma-. Outra porta, quero dizer. Est no Haiti, agora a chamam A Espanhola. Na selva h umas pedras sobre uma colina. A greta, a porta para passar, est clandestinamente dentro de uma cova.
       -Esteve ali? -inclinou-se para diante, interessada.
       -Sim.  um lugar horrvel. Mas as Antilhas esto muito mais perto que Esccia, e h navios entre o Charleston e Jamaica quase todo o ano. -Aspirei profundamente, me sentindo um pouco melhor-. No  fcil atravessar a selva mas ter mais tempo, o suficiente para encontrar ao Roger.
       "Se for possvel encontr-lo", pensei, mas no o disse. Esse temor em particular ficava para logo.
       -Esse lugar funciona como o outro?
       -No sei como funciona! Mas sonha diferente;  um som de sino, em lugar do zumbido. Mas  um caminho, disso estou segura.
       -Esteve ali -disse lentamente, me olhando com as sobrancelhas arqueadas-. por que? Queria retornar? depois de te haver encontrado com... ele?
       Sua voz vacilava, ainda no podia referir-se ao Jaime como "meu pai".
       -No. Foi pelo Geiilis Duncan. Ela o encontrou.
       Os olhos da Brianna se abriram pela surpresa.
       -Ela est aqui?
       -No. Est morta.
       Respirei profundamente. s vezes pensava nela e quando estava sozinha no bosque me parecia ouvir sua voz.
       -Bem morta -disse com firmeza e a seguir troquei de tema-. Como aconteceu?
       -Voc  mdica. Quantas formas h?
       Olhei-a com interesse.
       -Alguma vez pensou em tomar alguma precauo?
       Olhou-me zangada.
       -Eu no planejava ter relaes sexuais aqui!
       -Voc crie que a gente o planeja? Quantas vezes fui a seu colgio e lhes dava bate-papos sobre...?
       -Todos os anos! Minha me, a enciclopdia sexual! Tem idia de quo mortificante era para meu ter a minha prpria me, frente a toda a classe, desenhando frangas?
       Seu rosto avermelhou pela lembrana.
       -No o devi fazer bem -pinjente asperamente-, j que parece que no as reconhece quando as v.
       Olhou-me furiosa, mas se deu conta de que o havia dito em brincadeira, para relaxar a tenso.
       -Bem -disse-. Mas parecem diferentes quando uma est em terceiro grau.
       Agarrou-me por surpresa e ri. Depois de um momento, imitou-me.
       -Voc sabe o que quero dizer. Deixei-te as receitas antes de ir.
       -Sim e nunca me senti to atalho em minha vida! Pensava que ia sair correndo para me deitar com qualquer assim que fosse?
       -Quer dizer que era meu presencia o que te detinha?
       -Bom, no s isso -aceitou-. Mas voc tinha algo que ver, voc e papai. Eu no queria lhes desiludir.
       Tremia-lhe a boca e a abrace com fora.
       -No poderia, nenm -murmurei, embalando-a-. Nunca nos decepcionou, nunca.
       Por ltimo, respirou profundamente e se separou de mim.
       -Talvez a ti no, nem a papai. Mas o que passar...?
       Moveu a cabea por volta da agora invisvel cabana.
       -Ele no... -comecei e me detive.
       A verdade era que no sabia o que faria Jamie. Era um homem de mundo, com uma boa educao, tolerante e compassivo, mas isso no queria dizer que compartilhasse e entendesse a sensibilidade moderna; sabia com segurana que no o fazia. E no podia pensar que sua atitude para o Roger seria tolerante.
       -Bom -pinjente-. No sentiria saudades que queria lhe dar um murro no nariz ao Roger. Mas no se preocupe -disse ao ver o alarme em seu olhar-. Ele te ama e no deixar de faz-lo por isso.
       Pu-me em p.
       -Temos um pouco de tempo, mas no ter que desperdi-lo. Jamie far correr a voz sobre o Roger rio abaixo. Falando do Roger... -vacilei-. Suponho que no sabe nada, no?
       Brianna suspirou profundamente e apertou os punhos.
       -Bom, h um problema. -Olhou-me e outra vez foi minha pequena menina-. No  do Roger.
       -Como? -pinjente estupidamente.
       -No  do Roger, No  filho do Roger.
       Voltei-me a sentar. Sbitamente, a preocupao pelo Roger tomava uma nova dimenso.
       -Quem?-pinjente-. Aqui ou l?
       "No tinha planejado ter relaes sexuais", havia-me dito. No,  obvio que no. No o havia dito ao Roger por medo de que a seguisse; ele era sua ncora, sua chave para o futuro- Mas neste caso...
       -Aqui -disse, confirmando meus clculos.
       Procurou em seu bolso e tirou algo. Deu-me isso e estendi a mo de forma automtica.
       -Cristo bendito. -O anel de ouro brilhava ao sol e minha mo se fechou sobre ele-. Bonnet? Stephen Bonnet?
       -No lhe ia dizer isso, no podia depois de que Ian me explicasse o que tinha passado no rio. Ao princpio no sabia o que faria Jamie, tinha medo de que me culpasse. Mas quando o conheci um pouco melhor soube que trataria de encontrar ao Bonnet, isso  o que tivesse feito. No podia deixar que o fizesse. Voc conheceu esse homem e sabe como .
       -Sei.
       Suas palavras ressonavam em meus ouvidos.
       "No planejava ter relaes sexuais. No podia diz-lo... Tinha medo de que me culpasse..."
       -O que te fez? -perguntei, surpreendida de que minha voz soasse tranqila-. Fez-te mal, nenm?
       -No me chame assim, quer? Agora no.
       -me quer contar isso 
       No queria sab-lo, preferia fingir que no tinha acontecido nada.
       Levantou a vista e me olhou com os lbios rgidos formando uma linha branca.
       -No -respondeu-. No, no quero. Mas acredito que  melhor que o faa.
       
       Tinha subido a bordo do Gloriana a plena luz do dia, com cautela mas sentindo-se segura por causa de toda a gente que havia ali.
       Bonnet estava recm barbeado, com os olhos verdes alea.
       Examinou-a com interesse.
       -Pensava que viria ontem  noite -disse, beijando sua mo-.  muito estranho encontrar uma mulher que seja mais bonita  luz do sol que a da lua.
       Brianna tratou de liberar sua mo com um sorriso amvel.
       -Muito obrigado. Ainda tem o anel?
       Pulsava-lhe o corao. Embora o tivesse perdido no jogo ainda podia lhe falar sobre ele e sobre sua me, mas desejava o ter entre suas mos. Tratou de esquecer o temor que a tinha aoitado durante toda a noite: que o anel fora tudo o que ficava de sua me. No podia ser sim a nota do peridico era certa, mas...
       -Claro, claro. A sorte do Danu esteve comigo e pelo que vejo segue me acompanhando.
       Sorriu sem lhe soltar a mo.
       -Perguntava-me... se me venderia isso.
       -por que?
       Pergunta-a direta a desconcertou.
       -parece-se com um que tinha minha me -respondeu, incapaz de inventar algo melhor que a verdade-. Onde o conseguiu?
       Embora seguia sonriendo, algo trocou em sua expresso.
       -Assim quer o anel? Vem meu camarote, querida, e veremos se chegarmos a um acordo.
       Uma vez abaixo lhe serve brandy. Ela apenas o provou mas Bonnet se tomou uma taa e se serve outra.
       -Onde? -disse em resposta a sua pergunta-. Ah, bom, um cavalheiro no deve contar histrias sobre suas damas, no?-Lhe piscou os olhos o olho-. Uma amostra de amor -sussurrou.
       -A dama que lhe deu est isso bem de sade?
       Olhou-a surpreso, com a boca aberta.
       -Digo-o pela sorte -continuou Brianna apressadamente. Traz m sorte usar jias que tenham pertencido a algum que... que esteja morto.
       -Sim? -Voltou a sorrir-. No posso dizer que tenha notado esse efeito sobre mim. -Deixou a taa e arrotou-. De todos os modos, posso te assegurar que a dama da que obtive o anel estava s e salva quando a deixei.
       -Me alegro de ouvi-lo. Vender-me isso ento?
       -Vend-lo? E o que me oferece em troca?
       -Quinze libras esterlinas.
       Seu corao comeou a pulsar mais ligeiro. Aceitaria? Onde o teria guardado?
       -Eu j tenho suficiente dinheiro, corao -disse-, De que cor  o plo de entre suas pernas?
       soltou-se a mo de um puxo e retrocedeu at a parede da cabine.
       -Est-te equivocando. Eu no queria...
       -Talvez no -disse com um sorriso-. Mas eu sim. E acredito que talvez foi voc a que me confundiu, carinho.
       Deu um passo para ela. Brianna agarrou a garrafa e a agitou para lhe pegar na cabea, mas ele a tirou e lhe deu um forte golpe.
       A jovem se cambaleou cegada pela sbita dor. Agarrou-a dos ombros e a obrigou a ajoelhar-se. Logo a agarrou por cabelo lhe colocando a cabea entre suas pernas enquanto com a outra mo se abria o calo.
       -Sada o Leroi -disse.
       Leroi no estava circuncidado nem lavado e tinha um forte aroma de urina. Brianna sentiu que ia vomitar e tratou de apartar a cabea. A resposta foi um puxo de cabelo que a fez gritar.
       -Saca essa lngua rosadita e nos d um beijo. -Bonnet parecia alegre e despreocupado, mas seguia sujeitando-a com fora-. No est mau, no est mau. Muito bem, agora abre sua boca.
       antes de que pudesse moverlhe deu um forte puxo em uma orelha.
       Se vomitava se afogaria, e sem dvida a deixaria morrer. Assim que se dedicou a sua tarefa, at que Leroi desapareceu. Soltou-a dando um passo atrs. A jovem comeou a tossir apoiada sobre as mos; ento a levantou e a beijou.
       -Mmm -disse com prazer-. Hora de ir  cama, n?.
       Brianna levantou a cabea e lhe golpeou com a frente. O homem deixou escapar um grito de surpresa e a soltou. Brianna correu, mas se encontrou com o resto da tripulao que no a deixava passar.
       -Voc gosta dos jogos, preciosa? -Era a voz do Bonnet em seu ouvido. Um par de mos a levantaram com facilidade-. Est bem, querida. Ao Leroi tambm gosta dos jogos. Verdade, Leroi? -Olhou para baixo e ela seguiu seu olhar.
       Estava mdio nu e Leroi se agitava nervoso contra ela.
       Agarrou-a de um cotovelo e a fez entrar no camarote. Deu um passo cambaleante at que ele ficou detrs, ensinando as brancas ndegas  tripulao.
       -depois disso... no foi to mau. Eu... j no resisti mais.
       No se incomodou em despi-la, s lhe tirou o leno e lhe deixou os seios ao descoberto.
       Dois minutos, talvez trs. Logo tudo terminou e Bonnet se derrubou sobre ela, respirando pesadamente. Permaneceu imvel durante interminveis minutos, contemplando o teto. Finalmente, o homem suspirou e se moveu.
       -No esteve mau, querida, embora haja tido melhores montadas. A prxima vez move mais seu traseiro, n? 
       incorporou-se, bocejou e comeou a vestir-se.
       Brianna se assegurou de que no ia reter a e se dirigiu  porta. Enquanto lutava por lhe abri-la pareceu que lhe dizia algo e se deu a volta surpreendida.
       -O que?
       -Pinjente que o anel est no escritrio. Tambm h dinheiro. Agarra o que queira.
       A parte superior do escritrio estava coberta de tinteiros, jias, moedas de prata, ouro, cobre e bronze, papis e botes de prata.
       -Est-me oferecendo dinheiro?
       Observava-a com gesto zombador.
       -Eu pago por meus prazeres -disse-. Pensava que no o ia fazer?
       -No quero pensar nada -respondeu com voz clara mas distante, como se falasse de longe.
       Recolheu seu leno tratando de no pensar na umidade pegajosa que lhe corria pelas coxas.
       -Sou um homem honrado... para ser pirata -disse renda-se.
       aproximou-se da porta e a abriu com facilidade.
       -te sirva, carinho -disse assinalando o escritrio-. Ganhaste-lhe isso.
       Ouviu seus passos entre as risadas da tripulao. Tremiam-lhe as mos quando tratava de agarrar o anel; ento agarrou o recipiente onde estava guardado, esvaziou-o em seu bolso e saiu sujeitando-lhe como se levasse um talism. Encontrou seus sapatos sobre uma mesa e os ps. Passou entre os marinheiros, muito ocupados para lhe emprestar ateno, subiu pela escada e saiu ao mole.
       -Ao princpio, pensei que podia fazer como se no tivesse acontecido. -Respirou profundamente e me olhou. Tinha as mos cruzadas sobre o estmago, como escondendo-o-. Mas suponho que isso no  possvel, no?
       Fiquei em silncio, pensando. No era momento para delicadezas.
       -Quanto? Quanto tempo depois de... do Roger?
       -Dois dias.
       Arqueei as sobrancelhas.
       -por que est to segura de que no  do Roger?  bvio que no tomou pastilhas e arrumado minha vida a que Roger no usava o que aqui consideram que so camisinhas.
       Sorriu e se ruborizou.
       -No. ELE. mm... ele... ah...
       -Coitus interruptus?
       Assentiu.
       Aspirei ar e o exalei com rudo.
       -H uma palavra -pinjente- para a gente que utiliza esse mtodo de controle da natalidade.
       -E qual ? -perguntou circunspeta.
       -Pais -respondi.
       46
       Chega um forasteiro
       
       Roger inclinou a cabea para beber fazendo uma terrina com as mos. Foi uma sorte que um raio de sol que passou entre as rvores lhe indicasse aquele arroio um pouco afastado do caminho pelo que ia.
       O saber que logo veria a Brianna, possivelmente em menos de uma hora, acalmava seu chateio de forma to efetiva como a gua refrescava sua garganta seca. Tinham-lhe roubado o cavalo e seu nico consolo era que j faltava pouco e podia chegar a p. Alm disso, tinha perdido uma pistola quase to velha como o cavalo e muito menos confivel, um pouco de comida e um cantil com gua. A perda do cantil lhe tinha preocupado no ltimo lance do caminho, cheio de p e com o calor apertando. Mas isso j se solucionou.
       Tinha o aspecto de um malfeitor, pensou com pesadumbre. No era muito apropriado para apresentar-se ante seus sogros. Embora a verdade era que no estava muito preocupado pelo que pudessem pensar Claire e Jamie Fraser. Todos seus pensamentos se centravam na Brianna.
       Retornou ao caminho pensando que tinha sido um estpido ao subestimar a teima da Brianna, um estpido ao no ter sido sincero com ela. E um estpido por hav-la obrigado a atuar em segredo. Tinha tratado de mant-la segura no futuro, e isso no tinha sido uma estupidez, pensou com uma careta ao pensar em tudo o que tinha visto e ouvido durante aqueles meses.
       Mas apesar do perigoso, sujo e incmodo que era tudo, tinha que admitir que lhe fascinava estar ali, poder experimentar coisas sobre as que tinha lido e ver objetos de museu que se utilizavam na vida diria. Se no fora pela Brianna no lamentaria a aventura, em que pese ao Stephen Bonnet e as coisas que aconteceram a bordo do Gloriana.
       Uma vez mais, sua mo se tocou o bolso. Tinha tido mais sorte da que esperava. Bonnet tinha duas pedras preciosas. Serviriam? Caminhou agachado entre os ramos das rvores at que se limpou o atalho. Era difcil pensar que algum vivia ali, mas a jovem do moinho lhe tinha assegurado que no podia perder-se, e agora sabia por que: no havia outro lugar ao que dirigir-se.
       Enquanto caminhava, seus pensamentos seguiam seu curso, tirando rpidas concluses.
       Como teria sido o encontro entre a Brianna e seus pais? O que lhe teria parecido Jamie Fraser? Seria o homem que tinha imaginado durante o ltimo ano, ou s um plido reflexo da imagem construda atravs das histrias de sua me?
       Pelo menos tinha um pai a quem conhecer, pensou com uma estranha pontada ante a lembrana da vspera do solstcio do vero e o estalo de luz do passo atravs das pedras.
       Ali estava! No se encontrou com a colina, como esperava, a no ser com um claro natural, bordeado de carvalhos e arces. Quando olhou procurando a continuao do atalho ouviu um relincho e descobriu a seu cavalo movendo a cabea contra a rvore ao que estava pacote.
       -Como diabos chegaste aqui? -perguntou assombrado.
       -Da mesma forma que voc -respondeu uma voz.
       Um jovem alto surgiu do bosque ao lado do cavalo, lhe apontando com uma pistola que Roger reconheceu como prpria. Depois de uma sensao de ultraje e de apreenso respirou profundamente e fez a um lado seus temores.
       -J tem meu cavalo e minha pistola -disse Roger com frieza-. Que mais quer? Meu chapu?
       tirou-se o maltratado tricornio a modo de convite. O ladro no podia saber o que outras coisas levava; no lhe tinha ensinado as pedras preciosas a ningum.
       O jovem, em que pese a seu tamanho, no era mais que um adolescente, pensou Roger.
       -Algo mais que isso, espero.
       Pela primeira vez, o jovem apartou a vista do Roger para olhar a um lado. Ao seguir a direo de seu olhar, Roger sentiu como uma descarga eltrica.
       No tinha visto o homem que havia no bordo do claro, embora tinha que ter estado ali todo o tempo, imvel. Mais que o inesperado de sua apario foi seu aspecto o que deixou ao Roger mudo de assombro. Uma coisa era que lhe houvessem dito que Jamie Fraser se parecia com sua filha, e outra muito distinta era ver as faces da Brianna em algum to masculino e de aspecto to feroz.
       -Voc deve ser MacKenzie -disse.
       No era uma pergunta. A voz era profunda e baixa.
       -Sou-o -disse, dando um passo adiante-. E voc deve ser... ah... Jamie Fraser?
       Estendeu a mo, mas a deixou cair rapidamente. Dois pares de olhos o contemplavam com frieza.
       -Esse sou eu -disse o homem ruivo-. Conhece-me?
       O tom era evidentemente agressivo.
       -Bom... parece-se um pouco a sua filha.
       O jovem soltou uma gargalhada, mas Fraser no se alterou.
       -E que assuntos tem com minha filha?
       Fraser se moveu pela primeira vez, saindo da sombra das rvores. No, Claire no tinha exagerado. Era imponente, media uns cinco centmetros mais que Roger. Roger sentiu confuso e alarme. Que diabos lhe teria contado Brianna? No podia ter estado to zangada como para... Bom, averiguaria-o quando a visse.
       -vim para reclamar a minha mulher -disse com valentia.
       Algo trocou na expresso do Fraser. Roger no soube que era mas lhe fez atirar o chapu e levantar as mos em um gesto reflito.
       -No, no o far -disse o mais jovem com tom de satisfao.
       Roger lhe olhou e sentiu alarme ao ver a forma em que empunhava a pistola.
       -Tome cuidado! No querer que se dispare por acidente -disse.
       O jovem soprou com desprezo.
       -Se se disparar no ser um acidente.
       -Ian.
       A voz do Fraser era tranqila e o jovem baixou a arma a contra gosto. O homem corpulento deu outro passo adiante. Seus olhos, de um azul profundo e desconcertantemente iguais aos da Brianna, estavam fixos nos do Roger.
       -vou perguntar te isto s uma vez e quero ouvir a verdade. Desvirginou a minha filha?
       Roger sentiu que avermelhava. O que lhe teria contado Brianna a seu pai? E por que? Quo ltimo esperava era encontrar um pai ofendido pela virtude de sua filha.
       -... bom... no  o que pensa -deixou escapar bruscamente-, Quero dizer... ns... isso... ns queramos...
       -Fez-o ou no?
       O rosto do Fraser estava a uns trinta centmetros do dele, inexpressivo salvo pelo fogo que saa de seus olhos.
       -Olhe... eu... maldio, sim! Ela queria...
       Fraser o golpeou justo debaixo das costelas.
       -Detenha-se -disse Roger, tratando de recuperar a respirao-. Detenha-se! Disse-lhe que eu...!
       Fraser lhe golpeou na mandbula. O golpe lhe doeu. Roger retrocedeu enquanto seu temor se convertia em fria. Aquele maldito desgraado queria lhe matar!
       Deu um passo atrs tentando tir-la casaca. Ante sua surpresa, Fraser no o seguiu, mas sim o esperou com os punhos em alto.
       O sangue retumbava nos ouvidos de um Roger que no tinha olhos mais que para o Fraser. Aquele maldito queria brigar, pois teria briga e no voltaria a agarr-lo por surpresa. Comearam a golpear-se. Um olho do Roger ficou fora de combate; embora ele tambm golpeava, Fraser no parecia not-lo.
       -Ela .., minha -disse Roger entre dentes. Estava abraado ao corpo do Fraser e lhe apertava pelas costelas. ia arrebentar a aquele bastardo como a uma noz-. Minha... Oua-me?
       Fraser lhe deu um golpe na nuca e lhe fez afrouxar a presso do brao esquerdo. Roger o empurrou com o ombro, mas Fraser baixou a cabea e arremeteu contra ele atirando-o de costas ao cho. Saa-lhe sangue do nariz e lhe corria pela boca e o queixo. Com uma sensao de, lonjura observou a mancha que se aumentava em sua camisa.
       Rodou tratando de evitar a patada, mas no foi o bastante rpido. Enquanto girava desesperado para o outro lado lhe ocorreu, como se se tratasse de outra pessoa, que embora ele era quinze anos mais jovem que seu competidor. Jamie Fraser devia ter empregado todos aqueles anos em combates corpo a corpo.
       Uma mo lhe atirou do cabelo e lhe torceu a cabea. Viu o brilho dos olhos azuis e sentiu a respirao do homem em sua cara.
       -No  suficiente -disse Fraser e o golpeou na boca.
       deu-se a volta e tratou de ficar em p. Estava lutando por sua vida e o sbia. Fraser lhe agarrou os testculo e os retorceu com toda sua fora. Roger se dobrou como se lhe tivessem partido o espinho dorsal. Durante um segundo, antes de que a dor lhe fizesse perder a conscincia, teve um pensamento claro e frio como o gelo. Pensou: "vou morrer antes de ter nascido!".
       
       
       47
       Uma cano de pai.
       
       Fazia momento que tinha escurecido quando Jamie retornou. Meus nervos estavam tensos pela espera; s podia imaginar como se sentia Brianna. Tnhamos jantado, melhor deveria dizer que tnhamos servido o jantar j que nenhuma tnhamos apetite nem vontades de conversar. At a natural voracidade do Lizzie se aplacou.
       J fazia uma hora que estavam acesas as velas quando ouvi que as cabras baliam. Brianna levantou a vista com o rosto plido pela luz amarela das velas.
       -Tudo vai bem -pinjente.
       A confiana de minha voz a tranqilizou e assentiu. Embora acreditava que tudo sairia bem. Deus sabia que no ia ser uma agradvel velada familiar.
       Nas horas transcorridas desde que Brianna esclarecesse minhas suspeitas, tinha considerado todas as reaes possveis do Jamie, vrias acompanhadas de golpes de punho sobre objetos slidos, uma conduta que sempre considerei molesta. O mesmo ocorria com o Bri e eu sabia, quase melhor que ela, o que podia chegar a fazer quando estava molesta.
       To pouco acostumados a estar juntos e to ansiosos de sentir prazer o um ao outro, comportaram-se com delicadeza at ento, mas no havia forma de levar aquilo com delicadeza. No estava segura de si meu papel ia ser de advogado ou de intrprete.
       lavou-se no arroio e secagem com as abas da camisa.
       -Chega muito tarde, no? -perguntei, me pondo nas pontas dos ps para lhe dar um beijo-. Onde est Ian?
       -Fergus deveu pedir ajuda com as pedras da chamin. Ian ficou ajudando-o a terminar o trabalho.
       Deu-me um beijo distrado na cabea e me aplaudiu no traseiro.
       -Marsali te deu de jantar?
       Observei-o e notei algo diferente que no pude precisar o que era.
       -No. Me caiu uma pedra e talvez me rompeu de novo o dedo. Pensei que era melhor retornar a casa para que me curasse isso.
       Isso era, pensei, tinha-me espalmado com a mo esquerda em lugar de com a direita.
       -Vem a luz e me deixe ver.
       Fiz-o sentar em um dos bancos ao lado do fogo. Brianna se levantou e se aproximou para olhar.
       -Suas pobres mos, P! -disse ao ver os ndulos esfolados.
       -No  grande coisa -disse, lhe tirando importncia-. Salvo pelo maldito dedo.
       Apalpei-lhe o quarto dedo da mo direita, da base at a unha, sem me preocupar com seus grunhidos. Estava vermelho e inchado mas no parecia deslocado. Fechei os olhos para sentir melhor o que apalpava. Podia ver o osso em minha mente e o lugar da fratura.
       -Aqui? -perguntei, abrindo os olhos.
       Assentiu, me olhando com um ligeiro sorriso.
       -Justo. Eu gosto de te olhar quando faz isto, Sassenach.
       -E o que  o que te pareo? -pinjente, um pouco surpreendida.
       -No posso descrev-lo exatamente -disse, torcendo a cabea para me examinar-.  como...
       -Madame Lazonga com sua bola de cristal -disse Brianna com tom divertido. Logo olhou ao Jamie e lhe explicou-: Uma adivinha que te diz o futuro.
       Jamie riu.
       -Sim, acredito que tem razo. Embora eu pensava em um sacerdote quando diz missa e, olhando o po, v o corpo de Cristo. Mas no  que queira comparar meu dedo com o corpo de Nosso Senhor -acrescentou com modstia.
       Brianna no e um sorriso curvou a boca do Jamie. Estava cansado, tinha tido um comprido dia, pensei.
       -Parecem ridculos -pinjente e te toquei brandamente o dedo-. O osso est quebrado justo debaixo da articulao. Mas no  uma m fratura. Porei-te uma tabuleta no caso de. 
       fui procurar o que necessitava. Algo estranho acontecia essa noite, mas no podia descobrir o que era. Quando queria, Jaime sbia ocultar o que acontecia. Que diabos teria acontecido em casa do Fergus?
       Brianna lhe disse algo em voz baixa e sem esperar resposta se aproximou de mim.
       -Tem algum ungento para suas mos? -perguntou.
       E logo disse em voz mais baixa-: O digo esta noite? Est cansado e ferido. No  melhor deix-lo descansar?
       Olhei ao Jamie. No estava depravado, parecia tenso e preocupado.
       -Descansar melhor se no souber, mas voc no -respondi, tambm em voz baixa-. V e diga-lhe Embora deixe que jante antes -acrescentei com praticamente.
       Acreditava que era melhor receber ms notcias com o estmago cheio.
       Enquanto lhe punha a tabuleta, Brianna lhe esfregou a outra emano com o ungento.
       -Tem rota a camisa, deixe-me isso depois de jantar e lhe remendarei isso. Que tal ficou? -pinjente, terminando a vendagem com um n.
       -Muito bonito, Madame Lazonga-disse-. vou jogar me a perder com tantas cuidados.
       -Quando mastigar a comida para ti poder comear a preocupar-se -pinjente asperamente.
       Riu e entregou a outra emano a Brianna para que a curasse.
       -Ciamar a tha voc, mo chridhe -disse sbitamente.
       Era sua forma acostumada de saud-la quando comeavam suas classes de galico, mas sua voz era diferente, mais suave. "Como est, querida?" Suas mos cobriram as dela.
       -Tha meu gle mhach, athair -respondeu com um pouco de surpresa. "Estou bem, pai."
       A lio comeava normalmente depois do jantar.
       Levantou a outra mo lentamente e a colocou no estmago da Brianna.
       -An e'n fhirnn a th'agad? -perguntou. "Dir-me a verdade?"
       Agora sabia a razo de sua atitude; sabia a verdade e embora lhe custasse a aceitaria.
       Brianna no sabia suficiente galico para entend-lo, mas se dava conta do que queria lhe dizer. Olhou-o geada, logo tomou a outra mo e a aproximou da bochecha.
       -P -disse muito devagar-. O sinto.
       -Ah, vamos, m'annsachd- disse brandamente-, tudo ir bem.
       -No -disse com voz clara-. Nunca estar bem. Voc sabe.
       -Tudo o que sei  que eu estou aqui e tambm sua me.
       E no queremos verte envergonhada ou ferida. Alguma vez. Ouve-me?
       Brianna no respondeu e manteve o olhar fixo em sua saia, com o rosto oculto por seu cabelo.
       -Lizzie tinha razo? -perguntou amavelmente-. Foi uma violao?
       -No acreditava que soubesse. No o disse.
       -Adivinhou-o. No  tua culpa, isso no o pense nunca -disse com firmeza- Vem aqui comigo, a leannan.
       E a fez sentar em seus joelhos.
       -Ocuparei-me de que te case e de que seu filho tenha um bom pai -murmurou-. Juro-lhe isso.
       -No quero me casar com ningum -disse molesta-. Isso no estaria bem. No posso procurar a outro quando amo ao Roger. E agora, Roger no me vai querer. Quando descobrir...
       -No haver diferena para ele -disse Jamie, sujeitando-a com mais fora, como se pudesse arrumar as coisas por sua fora de vontade-. Se for um homem decente no lhe importar. E se lhe importa, bom, no te merece e ento o esmagarei, cortarei-o em pedaos e logo procurar um homem melhor.
       Brianna soltou uma gargalhada que se converteu em pranto e escondeu a cabea no ombro de seu pai. Jamie a abraou e a acalmou murmurando como se fora uma criatura. Meus olhos se encontraram com os do Jamie enquanto ele a deixava chorar acariciando seu cabelo.
       Quando Brianna deixou de chorar Jamie me sorriu.
       -Tenho muita fome, Sassenach, -disse-. No nos viria mal beber algo, no?
       -Bem -pinjente e me esclareci garganta- vou procurar leite.
       -No referia a isso! -disse com tom de ultraje.
       Ignorei-o igual  risada da Brianna e abri a porta.
       Fora tudo estava tranqilo e silencioso.
       -O que vamos fazer? -pinjente, dirigindo a pergunta s profundidades do cu.
       Quando retornei, as duas cabeas vermelhas estavam juntas e o aroma do guisado se mesclava com o aroma do pinheiro queimado e o ungento. Sbitamente tive fome.
       Fechei a porta com suavidade, procurei po e manteiga na despensa, logo agarrei algo doce e um pouco de queijo e uma garrafa de vinho para acompanhar a comida.
       Um monge franciscano me tinha ensinado que terei que pr a confiana em Deus e rezar para que nos guiasse.
       E ante a dvida, terei que comer.
       Quando retornei contudo, Jamie falava brandamente com a Brianna.
       -Quando vivia na cova -dizia Jamie- pensava em ti, quando foi pequena. Imaginava que te tinha em braos, que apoiava sua cabea sobre meu peito e te cantava olhando as estrelas.
       -E o que cantava?
       A voz da Brianna tambm era baixa.
       -Velhas canes. Canes de bero que recordava de minha me, quo mesmas minha irm Jenny cantava a seus filhos.
       Brianna suspirou profundamente.
       -Canta agora para mim, por favor, P.
       Vacilou, mas logo voltou a cabea para ela e comeou a cantar uma cano em galico. Jamie desafinava e a cano ia e vinha sem msica, mas o ritmo das palavras era agradvel e consolador.
       -Sabe uma coisa, P? -perguntou Bri.
       -O que? -disse, suspendendo seu canto.
       -No sabe cantar.
       Houve um murmrio de risadas.
       - certo. Deixo-o ento?
       -No. 
       aproximou-se mais, apoiando a cabea em seu ombro.
       Seguiu sua desafinada cano e logo se interrompeu.
       -Sabe uma coisa, a leannan?
       -O que?
       -Pesa tanto como um cervo grande.               
       -Devo me levantar, ento? -perguntou sem mover-se.
       - obvio que no.
       incorporou-se e lhe acariciou a bochecha.        
       -Meu gradhaich a thn, athair -sussurrou. "Meu amor para ti, pai."
       Jaime a beijou na frente. O fogo os iluminou deixando seus rostos em negro e dourado. As faces do Jamie mais duras e marcadas, as da Brianna mais delicadas, mas com os mesmos rasgos. E ambos, graas a Deus, meus.
       
       Brianna ficou dormida depois da comida, esgotada pelas emoes. Eu no queria pensar, s queria deixar a um lado o presente e o futuro e retornar  paz da noite anterior. Mas os problemas estavam em casa essa noite e no havia paz entre ns.
       Jamie se passeava pela casa como um lobo enjaulado, trocando as coisas de site. Desejava falar com o, mas ao mesmo tempo tinha medo. Tinha prometido a Brianna que no lhe falaria do Bonnet, mas era muito malote para mentir e Jaime conhecia muito bem meu rosto.
       Levei-me os pratos para lav-los. Quando retornei, Jamie estava ante a pequena prateleira onde guardava o papel, a tinta e as plumas. No se tinha despido para meter-se na cama e com a mo machucada, no podia escrever.
       -Quer que te escreva algo? -disse ao ver que agarrava uma pluma e a deixava.
       -No, devo lhe escrever ao Jenny mas agora no posso ficar sentado.
       -Sei como se sente -pinjente pormenorizada.
       Olhou-me surpreso.
       -Eu no sei como me sinto, Sassenach -disse com uma estranha risada. Se voc crie que sabe, diga-me isso 
       -Cansado -pinjente e apoiei uma mo em seu brao-. Zangado. Preocupado. -Olhei de esguelha a Brianna, dormida em sua cama-. Com o corao destroado, talvez -acrescentei muito brandamente.
       -Todo isso e bastante mais. -afrouxou-se o pescoo da camisa, como se se afogasse-. No posso ficar aqui. Quer me acompanhar a dar uma volta?
       fui procurar minha capa. Fora estava escuro e no ia poder ver minha cara. Caminhamos comprido momento atravs das rvores em silncio.
       -Jamie -pinjente finalmente-. O que te passou nas mos?
       -Como?
       deu-se a volta surpreso.
       -Suas mos- -Agarrei uma e a sustentei entre as minhas-. No pde te machucar assim com as pedras da chamin.
       -Ah. -Permaneceu imvel-. Brianna... no te disse nada sobre o homem? Disse-te seu nome?
       Vacilei e perdi. Conhecia-me muito bem.
       -Disse-lhe isso, no?
       Sua voz tinha um tom perigoso.
       -Fez-me prometer que no lhe diria isso -deixei escapar-. Disse-lhe que foi dar conta, mas, Jamie, o prometi. No me lhe faa dizer isso por favor!
       -Sim,  verdade, conheo-te bem, Sassenach, no pode manter um segredo frente a ningum que te conhea. At o Ian pode ler em sua cara como em um livro aberto.
       Agarrou-me a mo.
       -No se preocupe. Deixa que ela me diga isso quando queira. Posso esperar.
       -Suas mos -pinjente outra vez.
       -Recorda que uma vez me disse "golpeia algo e se sentir melhor"? Bom, peguei a uma rvore. Doeu-me, mas tinha razo.
       -Ah! -deixei escapar um suspiro, aliviada.
       -Ela te contou... contou-te o que aconteceu? Quero dizer... Esse homem lhe fez mal?
       -No, no fisicamente.
       Vacilei, imaginando que podia ver o anel que tinha no bolso, coisa que,  obvio, era impossvel. Brianna s lhe tinha pedido que no dissesse o nome do Bonnet; tampouco ia lhe dar detalhes, salvo que me perguntasse isso. E no o ia fazer, seria o ltimo que queria escutar.
       -O que est pensando?
       -Estava-me perguntando... sim  algo terrvel o ser; violada... se no haver... dano.
       Sbia muito bem o que estava pensando. A priso do Wentworth e as cicatrizes de suas costas, uma cadeia de aterradoras lembranas.
       - bastante mau, suponho -pinjente-, Mas espero que tenha razo.  mais fcil de suportar se no houve danos fsicos. Mas neste caso, h uma conseqncia fsica -senti-me obrigada a acrescentar-. E um pouco muito aprecivel!
       -Sim, claro -murmurou. Olhou-me inseguro-. Entretanto, que no lhe tenha feito mal j  algo. Se o tivesse feito... mat-lo tivesse sido muito bom para ele -terminou bruscamente.
       -Mas do embarao um no se recupera -disse com sarcasmo-. Se lhe tivesse quebrado um osso, recuperaria-se. Mas assim, alguma vez o esquecer, sabe, no?
       -Sei!
       Fiz a um lado e Jamie fez um gesto de desculpa.
       -No quis gritar.
       Seguimos caminhando sem nos tocar.
       -Sei. Deve me perdoar, Sassenach. Mas eu sei muito mais que voc sobre esse assunto.
       -No estava discutindo contigo. Mas voc no tiveste um filho, no sabe o que se sente. ... 
       -Est discutindo comigo, Sassenach. No o faa. Estou tratando de te dizer o que sei. Tinha afastado de minha mente ao Jack Randall e no quero record-lo agora. Mas est aqui.
       -encolheu-se de ombros e se esfregou a cara-. H um corpo e h uma alma, Sassenach -disse lentamente, ordenando suas idias-. Voc  mdica, conhece bem um. Mas o outro  mais importante.
       Abri a boca para lhe dizer que sabia igual, se no melhor que ele, mas ao final no disse nada.
       -Randall -continuou-. A maioria das coisas que me fez podia as suportar. Podia ter medo, podia me machucar e poderia hav-lo matado por isso, mas depois tivesse vivido sem senti-lo em minha pele, mas queria minha alma e a teve. Sim, bom, voc sabe de todo isso. -Comeou a caminhar mais rpido e tive que me apressar para alcan-lo-. O que quero dizer ... Esse homem era um estranho para ela e s tomou por um momento? Se era s seu corpo o que queria... ento acredito que se curar. Mas se a conhecia, se a que desejava era a ela e no a qualquer mulher, ento, talvez chegou at sua alma e lhe fez mal de verdade...
       -Voc no crie que lhe fez mal de verdade? -minha voz se voltou aguda-. J seja que a conhecesse ou no...
       - diferente. Disse-lhe isso!
       -No, no o - Sei o que quer dizer...
       -No sabe!
       -Sei! Mas porque...
       -Porque no  seu corpo o que importa quando estou contigo-disse-, E voc sabe bem que  assim, Sassenach. 
       voltou-se e me beijou com fria, me agarrando por surpresa. Sabia o que desejava de mim, quo mesmo eu desejava desesperadamente dele: segurana. Mas nenhum dos dois nos podamos dar isso essa noite. Abraou-me com fora e logo me soltou.
       -No posso -disse, respirando agitado-. No posso.
       Deu um passo atrs e se voltou para a perto, aferrando-se como se estivesse cego. Permaneceu ali, com os olhos fechados.
       -Desejo-te, talvez mais que nunca -disse devagar-. Necessito-te, Claire, mas no posso suportar o me sentir como um homem. No posso te tocar e pensar no que ele... no posso.
        Toquei-lhe o brao.
       -Entendo-o -pinjente, e era assim.
       Alegrava-me de que no me perguntasse detalhes, pois eu tambm tivesse desejado no conhec-los. Como tivesse sido fazer o amor com ele, vendo um ato similar em seus movimentos, mas profundamente distinto em sua essncia?
       -Entendo-o, Jamie -pinjente outra vez.
       Abriu os olhos e me olhou.
       -Sim, verdade? Isso  o que quero dizer.
       Agarrou-me do brao e me aproximou dele.
       depois de um momento me apartei e o olhei.
       -Bri  muito forte -pinjente-. Como voc.
       -Como eu? -Deixou escapar um som zombador-. Que Deus a ajude ento.
       Suspirou e comeamos a caminhar lentamente ao lado da perto.
       -Esse homem, esse Roger do que ela fala, ficar com ela? -perguntou bruscamente.
       Respirei profundamente sem saber o que responder. Tinha estado com o Roger uns meses e eu gostava, tinha-lhe carinho. S sabia dele que era muito decente e um jovem honorvel. Mas como ia ou seja o que podia pensar, fazer ou sentir quando se inteirasse de que Brianna tinha sido violada? Ainda pior: que estava grvida do violador?
       -Voc o faria? -disse por fim-. Se fosse eu?
       Olhou-me, abriu a boca para me responder e a fechou.
       -Queria dizer Sim, certamente!" -disse lentamente-. Mas te prometi uma vez que seria sincero contigo, no?
       -Fez-o -pinjente, e me senti culpado.
       Como podia obrig-lo a ser sincero se eu no podia s-lo?
       -Ifrinn! Sim, maldio, faria-o. Voc seria minha embora a criatura no o fora. Aceitaria a ti e  criatura, e ao diabo com o mundo.
       -E alguma vez voltaria a pensar nisso? -perguntei-. Alguma vez voltaria para sua mente quando eu estivesse em sua cama? Alguma vez veria o pai ao olhar ao filho? Alguma vez me reprovaria isso ou marcaria uma diferena entre ambos?
       -Maldita seja -disse-. Frank. No eu.  ao Frank a quem te refere.
       Assenti e me agarrou pelos ombros.
       -O que te fez? -exigiu-. O que? diga-me isso Claire!
       -ficou comigo -disse com voz tremente- Tratei de que me deixasse mas no quis. E quando Brianna nasceu, amou-a, Jamie. No sabia se ia poder faz-lo mas o fez. Sinto muito -acrescentei.
       -No deve senti-lo, Sassenach. O que dizia quando ia a sua cama? Pensava... -se interumpi bruscamente e ficou em silncio.
       -Era minha culpa. Eu no podia esquecer -pinjente finalmente-. Se eu tivesse podido teria sido diferente. -Devi me deter, mas no pude-. Para ele tivesse sido melhor, mais fcil, que me tivessem violado. Isso  o que lhe disseram os mdicos, que me tinham violado e que tinha alucinaes. Isso era o que todos acreditavam, mas eu insistia em lhe dizer que no tinha sido assim, em lhe dizer a verdade. depois de um tempo me acreditou, ao menos em parte. Esse era o problema, no que eu tivesse a filha de outro homem, mas sim te amava e no podia deixar de faz-lo, no queria. Frank era melhor que eu. Podia deixar atrs o passado, ao menos pelo Bri. Mas para mim... -no pude continuar.
       Jamie me olhou durante um momento.
       -E viveu vinte nus com um homem que no podia te perdoar por algo que no era tua culpa?
       Deixei escapar um suspiro.
       -Sinto muito -sussurrou e me abraou com fora.
       -Que te amasse? No lamente isso. Nunca.
       Ficamos em silncio at que finalmente o soltei e dava um passo ira.
       - melhor que retornemos a casa -pinjente, tratando de falar em um tom natural-.  muito tarde.
       -Sim, suponho que sim. -Ofereceu-me o brao e tomei-. Ah, bom, espero que Roger Wakefield seja melhor homem que ns dois, que Frank e que eu. -Me olhou de esguelha-, E se no o  o esmagarei at convert-lo em pur.
       -Isso ser uma grande ajuda para a situao, estou segura-dije rendo.
       Soprou e seguiu caminhando. Justo quando chegamos ao atalho da casa o detive.
       -Jamie -pinjente vacilante-, Crie que te amo?
       -Bom, se no ser assim, Sassenach -disse finalmente-, escolheste um mau momento para me dizer isso 
       Deixei escapar um suspiro que foi quase uma risada.
       -No, no  isso -assegurei-lhe-. Mas... No o digo freqentemente. Talvez porque me criou meu tio, que era afetuoso, mas, bom, no sabia como era a gente casada... o que queria te dizer  como sabe que te amo?
       -Sei porque est aqui, Sassenach -disse com calma-. Isso  o que quer dizer, no? Que ele, Roger, veio a procur-la.
       E que ento talvez a ame o suficiente.
       -No  algo que algum faa por amizade sem mais.
       Assentiu outra vez, mas eu vacilava querendo lhe dizer mais, para que entendesse o significado.
       -No te disse muito sobre isso, porque... no h palavras para explic-lo. Mas h uma coisa que posso te dizer, Jamie.
       -Estremeci-me involuntariamente-. No todos os que acontecem das pedras saem outra vez.
       -Como sabe, Sassenach?
       -Porque os ouvi. Gritavam.
       Agarrou-me as mos entre as suas e me aproximou de seu peito.
       -Faz frio, Sassenach. Vamos dentro.
       voltou-se para a casa mas o detive outra vez.
       -Jamie?
       -Sim?
       -Devo... quereria... necessita que o diga?
       -No o necessito -disse brandamente-, Mas no me importa se quer diz-lo. Agora e quando quiser, mas no muito freqentemente porque no quero perder a satisfao da novidade para ouvi-lo.
       Podia ouvir a risada em sua voz e eu tambm sorri.
       -Mas de vez em quando no viria mau, no?
       -No.
       Aproximei-me mais e apoiei as mos em seus ombros.
       -Amo-te.
       Olhou-me durante um momento.
       -Me alegro, Claire. -E me tocou a cara-. Estou muito contente. Vem a cama, eu te esquentarei.
       
       
       48
       ao longe em um pesebre
       
       O pequeno estbulo se encontrava em uma cova pouco profunda, baixo um saliente rochoso, e a entrada estava protegida por uma paliada de troncos o bastante forte para deter o mais atrevido dos ursos. A luz entrava pela metade superior da porta aberta.
       -por que uma porta dobro? -perguntou.
       Parecia-lhe um trabalho desnecessrio para uma estrutura to rstica.
       -Os animais tm que poder olhar para fora -explicou-lhe seu pai enquanto lhe ensinava como se passavam as tiras de couro ao redor dos madeiros. Com o martelo e sem deixar de sorrir, cravava o couro na madeira-. Assim esto mais contentes, sabe?.
       Brianna no sabia se os animais estavam contentes na quadra, mas ela sim o era. S havia cinco minutos de caminho de casa, mas quando chegou  quadra tremia baixo a capa. A luz que se filtrava vinha no s de um farol pendente, mas tambm tambm do braseiro do rinco.
       Seu pai estava deitado sobre a palha e abafado com a capa, muito perto da pequena vaca salpicada que grunhia de vez em quando. Jamie levantou a cabea bruscamente para ouvir os passos e se levou a mo ao cinturo.
       -Sou eu -disse Brianna, e viu como se relaxava ao v-la aparecer ante a luz. sentou-se e se esfregou a cara.
       -Sua me ainda no tornou?
       Era evidente que estava sozinha, mas olhou por cima do ombro da jovem esperando que Claire se materializasse na escurido.
       -No. Disse-me que se no voltava te trouxesse eu a comida.
       ajoelhou-se e comeou a tirar coisas de uma pequena cesta: fatias de po com queijo e tomate em conserva, um bolo de ma e duas garrafas, uma de cidra e outra de caldo de verduras.
       -Que bem! -Sorriu agarrando uma das garrafas-, comeste j?
       -Sim -assegurou-lhe-. Muito.
       Tinha comido, mas no podia deixar de olhar com desejo os po-doces frescos; o mal-estar dos dias anteriores tinha sido substitudo por um imenso apetite.
       Jamie captou seu olhar e, com um sorriso, tirou a faca e cortou um dos po-doces pela metade para lhe dar a maior.
       No fundo da quadra havia uma perto que formava um curral para uma enorme cerda com sua cria que quase no se viam na escurido; dormiam juntas apresentando o proftico aspecto de umas salsichas.
       O resto do pequeno espao estava divido em trs rsticos pesebres: a gente pertencia  vaca Madalena e a seu bezerro de um ms; o segundo estava vazio, com palha limpa, preparado para receber  vaca salpicada e sua cria tardia, e no terceiro se encontrava a gua do Ian, com os flancos avultados pelo peso da preez.
       -Parece uma sala de maternidade -disse Brianna.
       Jamie sorriu e arqueou as sobrancelhas como fazia cada vez que no entendia algo do que se dizia.
       -Ah, sim?
       - uma parte especial dos hospitais, onde pem s mes com os recm-nascidos -explicou-. Mame me levava com ela s vezes e me deixava olhar aos meninos enquanto fazia sua ronda.
       Recordou quando escolhia o que mais gostava. Rosa ou azul? Pela primeira vez se deu conta de que no sabia qual era a cor que lhe tocaria, e preferiu seguir falando.
       -Pem aos meninos detrs de um vidro, assim um os pode ver sem lhes jogar o flego e encher os de micrbios.
       -Micrbios -disse pensativo-. Sim, ouvi falar deles. So pequenos animais muito perigosos, no?
       -Podem chegar a s-lo.
       E recordou a sua me lhe explicando ao Roger Wakefield todos os perigos dos partos nesta poca: s cinqenta por cento sobrevivia ao parto. Deixou o resto do po-doce e tragou como se tivesse algo na garganta.
       A grande emano de seu pai lhe tocou o joelho.
       -Sua me no deixar que te passe nada; j brigou contra os grmenes antes, eu a vi. No deixou que me vencessem e o mesmo far contigo.  muito cabezota, sabe?
       Riu e desapareceu a sensao de sufoco.
       Jamie ficou em p estirando-se e lanando um grunhido ante um rangido de suas costas.
       -Acompanho-te at casa? Isto vai demorar.
       Contemplou-o duvidando, mas logo se decidiu.
       -No, ficarei um momento contigo. No te importa, no?
       Agora, decidiu-se impulsivamente. O perguntaria agora. Fazia dias que esperava o momento oportuno. Mas qual era para algo como aquilo? Ao menos agora estavam sozinhos e ningum os incomodaria.
       -Como quer- Me alegro de que me faa companhia.
       "No por muito tempo", pensou. Teria preferido a escurido, mas as palavras no eram suficientes, precisava lhe ver a cara para lhe perguntar o que queria saber.
       Aceitou a jarra de cidra porque tinha a boca seca e no esperou a que ele tambm bebesse.
       -P?
       estava-se servindo mais cidra.
       -Preciso te perguntar algo.
       -Mmm?
       -Matou ao Jack Randall?
       -Onde ouviu esse nome? -perguntou olhando-a aos olhos-. De seu pai talvez? Do Frank Randall?
       -Mame me falou dele.
       -Fez-o.
       No era uma pergunta, mas lhe respondeu.
       -Disse-me... disse-me o que tinha acontecido. O que ele te fez. No Wentworth.
       Muito depois, pensou que seu pai deveu sentir-se trado pelo Claire, por haver o contado. Mas estava muito nervosa.
       -No foi agora, fu antes... de que te conhecesse. Ela pensou que nunca te conheceria. Quero dizer... ela no quis... sei que no pensava...
       -te cale, quer?-disse Jamie arqueando uma sobrancelha. 
       Fixou a vista em sua saia. Teria que ter falado com sua me, deixar que lhe perguntasse... mas no. Tinha que ouvir o dele.
       Seus pensamentos se viram interrompidos pela voz tranqila de seu pai.
       -por que me pergunta isso?
       Levantou a cabea de repente, encontrando-se com o olhar de seu pai. No parecia estar molesto.
       -Preciso saber se isso serve de alguma ajuda. Quero mat-lo A... ele. Ao homem que... -Fez um gesto para sua barriga e tragou saliva-, Mas se o fao e logo no ajuda...
       No pde continuar.
       No pareceu impressionado.
       -Mmm. mataste a algum homem antes?
       Disse-o como uma pergunta, mas ela sabia que no era assim.
       -Voc crie que no posso? me acredite, posso faz-lo! E entretanto... O que ganharia matando-o?
       No havia forma se soubesse, salvo que seu pai o dissesse.
       -Dir-me isso? -deixou escapar-. Matou-o? Isso te ajudou?
       Pensou-o enquanto a olhava atentamente.
       -No que me ajudaria cometer um assassinato? -perguntou-. Isso no tiraria a criatura de sua barriga, nem te devolveria a virgindade.
       -Isso j sei! -Sentiu que se ruborizava e se deu a volta, irritada com seu pai e consigo mesma-. Mame me disse que tratou de matar ao Jack Randall em Paris, em um duelo. O que acreditava que foste recuperar?
       -Queria recuperar minha dignidade -respondeu brandamente-. Minha honra.
       -E crie que minha honra no vale a pena? Ou crie que  igual a minha virgindade? -disse com tom irnico.
       Olhou-a com dureza.
       - o mesmo param?
       -No, no o  -disse.
       -Bem.
       -Ento, me responda, maldio! -Deu um murro sobre a palha, sem nenhum resultado satisfatrio-. O te mat-lo devolveu a honra? Ajudou-te? me diga a verdade!
       - A verdade? A verdade  que no sei se o matei ou no.
       Brianna abriu a boca surpreendida.
       -No sabe se o matou?
       -Isso hei dito. -Um movimento de seus ombros revelou sua impacincia- Morreu no Culloden, eu estava ali. Despertei no pramo, depois da batalha, com o cadver do Randall em cima de mim. Isso  o que sei, no muito mais. -Fez uma pausa pensativo e logo, decidido j, estirou um joelho e fez um gesto-. Olhe.
       Era uma velha cicatriz, ainda impressionante, na parte interior da coxa.
       -Uma baioneta, suponho -disse, olhando-a com tranqilidade. Baixou a perna-. Lembrana a sensao da folha golpeando o osso e nada mais. No sei o que aconteceu depois, nem o que tinha acontecido antes.
       Respirou profundamente e Brianna se deu conta, pela primeira vez, do esforo que custava a seu pai manter a calma.
       -Depois... bom, a vingana no parecia importante ento. Havia milhares de homens mortos no campo de batalha e pensava que em pouco tempo eu seria um mais. Jack Randall... -Fez um gesto estranho, de impacincia-. O era um deles. Pensei que naquele momento podia deixar-lhe a Deus.
       Brianna suspirou para ocultar seus sentimentos. A curiosidade e a simpatia lutavam contra a frustrao.
       -Voc est bem? Quero dizer... apesar do que te fez?
       Contemplou-a com exasperao e com uma mescla de fria e diverso.
       -No se est acostumado a morrer por isso, moa. Eu no morri e voc tampouco.
       -Ainda no. -Involuntariamente ps uma mo sobre seu abdmen. Olhou-o-. Suponho que em seis meses saberemos se morrerei ou no por isso.
       Isso o confundiu.                
       -Tudo sair bem.             
       -vou morrer -disse com frieza.
       Seu pai no podia defender a de seu prprio filho.
       -No ser assim! -Agarrou-a dos braos com fora-. No o permitirei!
       Teria dado algo por lhe acreditar.
       -No me pode ajudar -disse com desespero-. No pode fazer nada!
       -Sua me sim que pode -disse, mas no muito convencido.
       Brianna se liberou de suas mos.
       -No, ela no pode, necessita um hospital, com remdios e outras coisas. Se as coisas sarem mau, quo nico poder fazer ... tratar de salvar ao menino.
       Tremiam-lhe os joelhos e teve que sentar-se. Jamie lhe serve um pouco de cidra.
       -Bebe, moa, est muito plida.
       -Sabe o que  o pior? Voc diz que no foi minha culpa, mas sim foi.
       -No  assim!
       Fez um gesto para tranqiliz-lo.
       -Falou de covardia e eu fui covarde, devi lutar. No devi lhe permitir.. mas tinha medo. Se tivesse sido valente isto no teria acontecido, mas no fui, estava assustada! E agora estou mais assustada ainda. No pode me ajudar e tampouco mame, eu no posso fazer nada. E Roger...
       mordeu-se o lbio para evitar chorar.
       -Brianna... a leannan...                   
       Fez um gesto para aproximar-se, mas Brianna se afastou dele com os braos cruzados.
       -No posso deixar de pensar que poderia mat-lo.  o nico que posso fazer. Se... se tiver que morrer, ao menos o levaria comigo e se no, bom talvez possa esquec-lo se ele estiver morto.
       -No o esquecer. Mas isso no importa, buscaremo-lhe um marido e uma vez que nasa o menino no ter muito tempo para preocupar-se.
       -Como? O que quer dizer me buscando um marido?
       -Necessitar um, no? -disse, um pouco surpreso-. A criatura necessita um pai. E se no querer me dizer o nome do que lhe fez isso para fazer que se faa cargo de suas obrigaes, ento...
       -Voc crie que me casaria com o homem que fez isto?
       -Bom, estive pensando. No estar jogando um pouco com a verdade, criatura? Tailands vez no foi exatamente uma violao, possivelmente depois voc no gostou do homem, escapou-te e inventou a histria. depois de tudo, no est ferida.  difcil submeter a uma moa de seu tamanho se ela no o desejar.
       -Crie que estou mentindo?
       Jamie arqueou uma sobrancelha com cinismo. Furiosa, levantou uma mo, mas a agarrou pela boneca.
       -Ah, no -disse com tom de recriminao-: No  a primeira moa que o tem feito. Ou queria ao homem e ele te deixou? Foi isso?    
       Tratou de soltar-se e de lhe golpear com o joelho na entrepierna. S chegou  coxa; Jamie no a soltou. Brianna se retorceu amaldioando suas saias enquanto seu pai ria, como se se estivesse divertindo.
       -Maldito bastardo! -gritou- Mas antes de que pudesse mord-lo-se encontrou chutando no ar-, Quieto! -grunhiu.
       Afrouxou a presso mas sem chegar a solt-la. Sentia-o como uma fora inexorvel.
       -Posso te romper o pescoo -disse com muita calma. Sentiu os dedos que pressionavam suas artrias-. Poderia te matar.
       Sentiu que se sufocava pela fria.
       -Posso fazer o que quiser -continuou-. Poderia me deter, Brianna? me responda.
       -No!
       Deixou-a em liberdade. Foi to repentino que teve que apoiar uma mo para no dar com a cara no cho.
       Seu pai a observava com os braos cruzados.
       -Maldito seja! -ofegou-. Quero te matar!
       Permaneceu imvel, olhando-a.
       -Estraga -disse com calma-. Mas no pode.
       Olhou-o sem entender nada. E se encontrou com um olhar carente de fria e de brincadeira. Seu pai esperava.
       E ento se deu conta.  
       -No -disse-. No posso, no posso. Embora tivesse lutado com ele... no tivesse podido.
       de repente comeou a chorar e a tenso se relaxou.
       -No tivesse podido det-lo -disse, ofegando para poder recuperar o flego-. Eu pensava que se tivesse brigado- mas no teria servido- No tivesse podido det-lo.
       Uma mo grande e afetuosa lhe tocou a cara.
       - uma moa muito valente -sussurrou-. Mas no deixa de ser uma menina. Quer deixar de pensar que  covarde por no lutar contra um leo s com suas mos? Porque  o mesmo.
       Brianna se limpou o nariz com e1 dorso da mo.
       -me podia haver isso dito antes, sabe? -disse-. Que no tinha sido minha culpa.
       Sorriu fracamente.          
       -Fiz-o. Mas devia averigu-lo por ti mesma.
       -Suponho.
       Uma profunda e pacfica debilidade a cobriu como se fora uma manta. Mas esta vez no tinha pressa por recuperar-se.
       Esperou enquanto seu pai lhe limpava a cara e lhe dava de beber.
       -Pde te defender mas no o fez.
       Apertou-lhe a mo e logo a soltou.
       -No, no lutei. Tinha dado minha palavra, pela vida de sua me. E no o lamento.
       Seu olhar era clara como a gua.
       Agarrou-a pelos ombros e a recostou sobre o feno.
       -Descansa um momento, a leannan.
       deitou-se e estirou uma mo para toc-lo.
       - verdade.., que no o esquecerei?
       Estava ajoelhado a seu lado e esperou um momento antes de responder.
       -Sim,  verdade -disse brandamente-, Mas tambm  verdade que com o tempo no te importar.
       -No? -Estava muito cansada para seguir lhe perguntando. sentia-se extraamente longnqua-. Embora no seja o bastante forte para mat-lo?
       - uma mulher muito forte.
       -No o sou. Acaba-me isso de demonstrar, no sou...
       Uma mo no ombro a deteve.
       -No  isso o que queria te dizer -disse pensativo-, Jenny tinha dez anos quando morreu nossa me. -E ao dia seguinte do funeral a encontrei com o avental de minha me.
       Tinha estado chorando como eu. Mas me disse: "v lavar te, Jamie, vou fazer a comida para ti e para papai".
       Fechou os olhos e tragou com fora.
       -Sei o fortes que podem chegar a ser as mulheres. E voc  muito forte, me acredite.
       ficou em p e foi ocupar se da vaca que se movia inquieta. Colocou uma mo na cauda desta e falou em galico para lhe dar nimo. Brianna entendia quase todas suas palavras.
       Tudo podia sair bem, ou no. Mas acontecesse o que acontecesse, Jamie Fraser estaria ali, lutando. E isso era um alvio.
       
       Jamie estava cansado e era tarde, mas sua mente o mantinha acordado. O parto tinha terminado e tinha levado a Brianna at a cabana dormida como um menino em seus braos. Havia tornado a sair para tranqilizar-se na solido da noite.
       Doa-lhe todo o corpo pela briga com sua filha, pois era surpreendentemente forte para ser uma mulher. Isso no lhe incomodava, de fato, mas sim, pelo contrrio, sentia um curioso e inesperado orgulho. "Ela estar bem", pensou. com certeza que sim.
       "Ningum morre por isso. Nem voc, nem eu", havia-lhe dito.
       A voz que fazia muito que no escutava voltou para seus ouvidos. Essas insinuaes que lhe queimavam em sua memria como se estivessem gravadas em sua pele.
       "Suave ao princpio. Suave. Tenro como se fosse meu filho pequeno. Suave e prolongado at que esquea que houve um tempo em que eu no possua seu corpo."
       "E ento -seguia dizendo a voz-, ento farei que lhe aduela muito- E me dar as obrigado e me pedir mais."
       Permaneceu imvel olhando para as estrelas. Respirou uma e outra vez, lutando contra as lembranas. 
       Esperou at que chegou a paz. A viso necessria para acalm-lo: a lembrana do rosto do Jack Randall no Edimburgo, destrudo pela morte de seu irmo. E uma vez mais sentiu o dom da piedade enquanto a calma se apoderava de seu ser.
       Fechou os olhos sentindo que as feridas se fechavam e liberavam seu corao.
       Suspirou, o demnio se partiu. S era um homem, Jack Randall nada mais. E ante o reconhecimento da fragilidade compartilhada pelos seres humanos, todo o poder do medo e a dor passadas se desvaneciam como a fumaa.
       -V em paz -sussurrou, para o homem morto e para si mesmo-. Est perdoado.
       Pensou que talvez deveu dizer todo isso a Brianna... mas no. No tivesse podido entend-lo, tinha que mostrar-lhe 
       Como lhe dizer com palavras o que tinha aprendido atravs da dor e a graa? Que s perdoando poderia esquecer, e que o perdo no era um simples ato, a no ser um assunto de prtica constante?
       Possivelmente ela poderia encontrar essa graa por si mesmo. Talvez aquele desconhecido Roger Wakefield poderia ser seu santurio, como Claire tinha sido o seu. Seu cimes naturais de homem se dissolveram pelo apaixonado desejo de que o tal Roger Wakefield pudesse lhe dar a Brianna o que ele no podia lhe dar. Rogava a Deus que chegasse logo e que fora um homem decente.
       Mas e se Wakefield no chegava? Bom, haveria outras maneiras de proteger a Brianna e sua criatura. Ao menos, sua filha estava a salvo do homem que a tinha prejudicado. a salvo para sempre. esfregou-se a cara com uma mo que ainda cheirava ao sangue do bezerro.
       Sim, o perdo existia e Brianna devia encontrar a forma de perdoar a aquele homem, por seu prprio bem. Mas para ele o assunto era diferente.
       -"A vingana  minha, disse o Senhor" -sussurrou para si mesmo-. O inferno -disse em voz alta, envergonhado mas desafiante. Sabia que estava mau, mas no tinha sentido enganar-se nem mentir a Deus.
       -O inferno -repetiu, mais alto-. E se sou condenado pelo que fiz... Que assim seja!  minha filha.
       Permaneceu imvel por um momento olhando para o cu, mas no recebeu resposta do firmamento. Assentiu, como se lhe respondessem, e seguiu colina abaixo com o vento frio lhe dando nas costas.
       
       49
       Opes
       
       Novembro de 1769
       
       Abri a caixa de instrumentos do doutor Rawlings e contemplei a fila de botellitas; as suaves cores verdes e castanhas pertenciam s razes e s folhas esmagadas e o dourado claro s destilaes. No havia ali nada que me servisse.
       Com muita lentido abri a tampa que guardava as facas. Tirei o escalpelo de folha curva e provei o frio metal sobre meu pescoo. Era um belo instrumento, bem afiado. Deixei-o sobre a mesa e agarrei a raiz larga e grosa. S uma; tinha procurado no bosque durante quase duas semanas para encontr-la.
       As espcies de ervas no eram quo mesmas as europias. Talvez poderia conseguir absinto, que se usava para dar gosto a absenta.
       -Mas quem faz absenta na Carolina do Norte? -perguntei em voz alta, agarrando novamente o escalpelo.
       -Ningum que eu conhea.
       Sobressaltei-me e a folha penetrou profundamente em meu dedo polegar. O sangue se estendeu pela mesa e me cobri o dedo com o avental.
       -Sassenach! Est bem? No quis te assustar.
       -Est bem,  s um corte. De onde vem? Acreditei que estava ainda na destilaria.
       -Ali estava. Mas ainda no est lista o malte. Est sangrando como um porco, Sassenach. Est segura de que est bem?
       -Sim, provavelmente me cortei uma veia. Mas no uma artria, j se deter. me agente a mo levantada, quer?
       Jamie me ajudou a me enfaixar isso 
       -O que fazia com essa faca? -perguntou.
       -Ah... ia cortar essa raiz.
       -Sim? Nunca te tinha visto us-los -disse, assinalando os escalpelos- salvo com a gente.
       Tremeu-me a mo e me olhou intensamente com o cenho franzido.
       -O que acontece, Sassenach? Parece que te tivesse surpreso a ponto de cometer um crime.
       -Estava... decidindo -respondi a contra gosto. No sabia mentir e cedo ou tarde ia ou seja, se Bri...
       -Decidindo o que?
       -Sobre o Bri- Qual  a melhor forma de faz-lo.
       -Fazer o que? Quer dizer...?
       -Se ela quiser que o faa. -Toquei a faca com a pequena folha manchada por meu prprio sangue-. Pode-se fazer com ervas ou com isto. As ervas tm riscos desagradveis: convulses, danos cerebrais, hemorragias; mas agora isso no importa, porque no tenho as necessrias.
       -Claire, tem-no feito alguma vez?
       -Se o tivesse feito seria diferente para ti?
       Contemplou-me por um momento.
       -No o tem feito -disse brandamente-. Sei.
       -No,  certo. -Contemplei sua mo que cobria a minha-. No, nunca o tenho feito.
       -Sabia que no seria capaz de matar -disse.
       -Sou-o. E o fiz. Matei a um homem, um paciente que tinha a meu cargo. Contei-lhe isso.
       -Acredito que no  o mesmo -disse finalmente-. Ajudar a um homem que deseja a morte...  misericrdia, no assassinato. E talvez, tambm seja um dever.
       -Dever?
       Olhei-o surpreendida.
       -Acredito que  o dever do mdico -disse Jamie com doura-. jurou curar, mas se no poder e pode salvar a um homem da dor...
       -Sim -respirei profundamente e apertei o escalpelo-. Jurei, mas isto est por cima do juramento de um mdico, Jamie, ela  minha filha. Eu faria algo por ela, at isto.
       -Olhei-o com os olhos cheios de lgrimas-. Crie que no o pensei? Que no conheo os riscos? Jamie, poderia mat-la! Olhe, no deveria sangrar tanto, mas o faz. Cortei-me uma veia. Poderia fazer o mesmo com a Brianna e no sab-lo at que comeasse a sangrar Y... ento no poderia deter a hemorragia. morreria e no haveria nada que eu pudesse fazer. Nada!
       Olhou-me com os olhos obscurecidos pela impresso.
       -Como pode pensar em fazer isso, sabendo o que pode acontecer?
       Seu tom era de incredulidade.
       -Porque sei outras coisas -disse sem olh-lo-. Sei o que  criar um filho. Sei o que  que lhe troquem o corpo, a mente e a alma sem que a gente queira. Eu sei o que  que ocupem um lugar que acreditava teu, que escolham por ti. Sei o que , ouve-me? E  algo que ningum deve fazer se no querer. -Levantei a vista e o olhei com o punho fechado-. E voc sabe o que eu no sei, sabe o que  viver com a violao. Quer me dizer que se eu tivesse podido te contar isso, antes do Wentworth, no me tivesse deixado faz-lo face aos riscos? Jamie, pode ser o filho do violador!
       -Sim, sei -disse e se deteve, muito transtornado para seguir-. Sei -disse outra vez-. Mas sei outra coisa: se no poder conhecer seu pai, conheo seu av. Claire, essa criatura tem meu sangue!
       -Seu sangue? -repeti. Contemplei-o compreendendo a verdade-, Desejas tanto um neto, para sacrificar a sua filha?
       -Sacrificar? Eu no sou o que pensava mat-la a sangue frio!
       Olhou-me com teima.
       -Se tiver o filho no se poder ir. No poder, salvo que se separe da criatura,
       -Por isso quer separ-la agora?
       -Voc quer que ela fique. No te importa que tenha uma vida em outro lugar, que queira retornar. Se ficar e, melhor ainda, se te der um neto... no te importar o que acontea com ela, no?
       Tocou a ele tornar-se para trs, como se o tivessem golpeado.                    
        -Claro que me importa! Isso no quer dizer que me parea bem que a obrigue A...
       -O que quer dizer com que a obrigue? -O sangue queimava meu rosto-. Crie que quero fazer isso? No! Mas ter a possibilidade de escolher!
       Podia sentir seus olhos fixos em mim. Sbia que estava to afetado como eu. Importava-lhe desesperadamente o que acontecesse com Bri, mas agora que lhe havia dito a verdade os dois tnhamos que assumi-la: privado de sua prpria filha e vivendo tanto tempo no desterro, no havia nada que desejasse mais que uma criatura de seu prprio sangue.
       No podia me deter e sabia. No estava acostumado a sentir-se indefeso e no gostava- Voltou-se bruscamente apoiando-se no bordo do aparador. Nunca me havia sentido to desolada e com tanta necessidade de sua compreenso.
       -Jamie. -Apoiei uma mo sobre suas costas-. Tudo vai sair bem- Estou segura de que ser assim.
       Falava para lhe convencer a ele tanto como a mim. No se moveu e me atrevi a pr minha mo em sua cintura e a apoiar minha bochecha sobre seu ombro. moveu-se bruscamente e apartou minha mo.
       -Confia muito em seu poder, no? -perguntou com frieza, voltando-se para me olhar  cara.
       -O que quer dizer com isso?
       -Crie que  quo nica decide? Que a vida e a morte esto em suas mos?
       -No sou eu quem decide! Mas se ela disser sim, ento  meu poder. E sim, o vou usar. Igual ao faz voc quando tem que faz-lo.
       Fechei os olhos para lutar contra o medo. No me faria mal, impressionada fui consciente de que podia me deter: se me rompia a mo...
       Muito lentamente inclinou a cabea e apoiou sua frente sobre a minha.
       -me olhe, Claire.
       Abri os olhos e o olhei. Soltou-me a mo para me tocar brandamente o peito.
       -Por favor -sussurrou e logo se foi.
       Estava to molesta pela discusso com o Jamie que no podia me concentrar em nada, assim que me pus a capa e sa a caminhar. Teria que levar a Brianna ao Cross Creek? Decidisse ter  criatura ou no, estaria mais segura ali?
       No, decidisse o que decidisse, estaria melhor aqui, comigo. Envolvi-me na capa e tratei de esquentar meus dedos.
       "Por favor", havia-me dito. Por favor, o que? Por favor, no pergunte a ela, por favor, no o faa se lhe pede isso.
       Mas devia faz-lo. Fazia um juramento, mas Hipcrates no tinha sido cirurgio, nem mulher, nem me.
       Nunca tinha praticado um aborto, mas tinha adquirido certa experincia no hospital como residente, no cuidado posterior a uma perda.
       Nunca pude faz-lo. E agora tinha que pensar que ia matar a meu prprio sangue. Sim terei que faz-lo, tinha que ser o mais breve possvel; j tinham acontecido quase trs meses e, alm disso, no podia estar com o Jamie na mesma habitao at que resolvesse isto. No queria sentir sua angstia, acrescentada  minha.
       Brianna tinha levado ao Lizzie a Casa do Fergus para que ficasse ajudando ao Marsali, que tinha que ocupar-se da destilaria, do pequeno Germaine e do trabalho da granja que Fergus no podia realizar com uma s mo. Era muito trabalho para uma moa de dezoito anos, mas as arrumava com empenho e graa. Lizzie podia ajud-la nas tarefas da casa e cuidar de pequeno para que sua me descansasse um pouco.
       Brianna retornaria a comer. Ian estava fora caando com Cilindro. Jamie... embora no houvesse dito nada no retornaria logo. amos ter tempo para ns.
       
       -Pensei-o -disse com um profundo suspiro-. logo que me dava conta. E me perguntei se poderia fazer algo aqui.
       -No ser fcil. Pode ser perigoso e te pode doer. Nem sequer tenho ludano, s usque. Mas sim, posso faz-lo se voc quiser que o faa. O procedimento tem que ser cirrgico, j que no tenho as ervas adequadas e de todos os modos no  to confivel. Ao menos a cirurgia...  segura.
       Tinha deixado o escalpelo sobre a mesa; no queria que se fizesse falsas iluses. Assentiu e seguiu dando voltas. Igual a Jamie pensava melhor caminhando. At que, finalmente, voltou-se e me olhou.
       -Tivesse-o feito? Se tivesse podido?
       -Se tivesse podido...?
       -Uma vez disse que quando estava grvida me odiava. Se tivesse podido...
       -No a ti! Nunca. -Juntei as mos para ocultar o tremor que me sacudia-. No. Nunca.
       -Disse-o -disse, me olhando com intensidade-. Quando me falou sobre P.
       Passei-me uma mo pela cara. Sim, o havia dito. Idiota de mim.
       -Era uma poca terrvel, morramos de fome e estvamos em guerra, o mundo se destrua. Parecia que no havia esperanas; tnia que deixar ao Jamie e o pens-lo apagava todo o resto de minha mente. Mas havia algo mais -pinjente.
       -O que era?
       -No foi produto de uma violao -pinjente brandamente-. Eu amava a seu pai.
       Assentiu com o rosto algo plido.
       -Sim, mas pode ser do Roger. Voc o disse, no?
       -Sim. Pode ser. A possibilidade  suficiente para ti?
       acariciou-se o abdmen.
       -Sim- Bem, no sei, mas... -deteve-se e me olhou envergonhada-. No sei o que te parecer, mas... -encolheu-se de ombros apartando as dvidas-. Poucos dias depois tive de noite uma dor rpida, como se algum me cravasse algo.
       Seus dedos se curvaram no lado direito, justo em cima do osso pbico.
       -Implantao -pinjente brandamente-, quando o zigoto joga razes no tero. Quando se forma o primeiro lao entre a me e a criatura.
       Assentiu.
       -Foi uma sensao estranha. Estava meio dormida, mas de repente soube que no estava sozinha. E pinjente: ah,  voc, e me voltei a ficar dormida. Acreditei que era um sonho. Foi bastante antes de sab-lo. Mas o recordo perfeitamente.
       Eu tambm o recordava.
       -Sim, compreendo -pinjente. E logo acrescentei-: Ai, Bri!
       Observava-me e me dava conta de que podia acreditar que era eu quem lamentava hav-la tido.
       Curvada pela idia de que pudesse acreditar que no a tinha querido, arrojei o escalpelo e me aproximei dela.
       -Bri -disse com temor-. Brianna, quero-te. Crie que te quero?
       Assentiu sem falar e estendeu uma mo para mim. Aferrei a ela como a um salva-vidas, como ao cordo que uma vez nos unisse.
       Fechou os olhos e pela primeira vez vi as lgrimas entre suas grosas pestanas.
       -Isso o soube sempre, mame -sussurrou. Seus dedos apertaram minha mo, enquanto que com a outra se tocava o ventre-. Do comeo.
       
       50
       Quando todo tira o chapu
       
       No fim de novembro, os dias e as noites eram frios e as nuvens de chuva comeavam a aparecer pelas colinas vizinhas. Mas, desgraadamente, o clima no acalmava o temperamento da gente e todos estavam inquietos por razes evidentes: no havia nenhuma s notcia sobre o Roger Wakefield.
       Brianna ainda guardava silncio sobre a causa da briga; em realidade, j quase nunca se referia ao Roger. Tinha tomado sua deciso: s podia esperar e deixar que Roger tomasse a sua se no o tinha feito j. Entretanto, eu podia ver nela o medo misturado com a fria quando acreditava que no a viam. As dvidas rodeavam a todos, como as nuvens s montanhas.
       Onde estava Roger? O que aconteceria quando finalmente aparecesse?
       Saa da despensa com uma parte de queijo e um recipiente de batatas quando ouvi um golpe na porta. antes de que pudesse responder, a porta se abriu e apareceu a cabea do Ian esquadrinhando com precauo.
       -Brianna no est aqui? -perguntou.
       Como era evidente que no estava, entrou tratando de repeinarse o cabelo.
       -Tem um espelho, tia? -perguntou-. E um pente?
       -Sim,  obvio -pinjente.
       Ian levava sua melhor casaca e uma camisa limpa, algo estranho para um dia de trabalho, junto com uma gravata que parecia estrangul-lo.
       -Est muito bonito, Ian -pinjente, me mordendo o lbio para no rir -.Vai a algum lugar especial?
       -Bom, como vou declarar me pensei que devia estar decente.
       -J vejo -pinjente, e pensei "declarar-se?"-. E essa jovem  algum que eu conheo?
       esfregou-se o queixo.
       -Sim, claro.  Brianna.
       ruborizou-se sem me olhar.
       -Como? -pinjente, incrdula, e o olhei-. H dito Brianna?
       Seguia olhando ao cho, mas sua mandbula mostrava determinao.
       -Brianna -repetiu-. vim a lhe propor matrimnio.
       -Ian, no pode diz-lo a srio.
       -Sim. Crie que vir logo? -disse olhando pela janela.
       -Ian? -pinjente, com uma mescla de fria e ternura-. Faz-o pelo menino da Brianna?
       -Sim,  obvio -disse, surpreso por minha pergunta.
       -Ento, no est apaixonado por ela?
       Conhecia a resposta, mas era melhor fal-lo.
       -Bom... no -disse com dificuldade-. Mas no estou comprometido com ningum. Assim no passa nada.
       -No est bem -disse com firmeza-. Ian,  um ato muito honroso por sua parte, mas...
       -No  minha idia -interrompeu-me surpreso- Tio Jamie o pensou.
       -Ele... o que?
       Uma voz forte e com tom de incredulidade ressonou a minhas costas. Voltei-me e descobri a Brianna que olhava fixamente ao Ian e que avanou lentamente enquanto Ian retrocedia.
       -Prima -disse inclinando a cabea; uma mecha lhe tampou a cara e tratou de pentear-se-. Eu... eu... -Ao ver a expresso da Brianna fechou os olhos-. Vim para expressar meu desejo de pedir sua mo em santo matrimnio-disse de um puxo-. Eu...
       -te cale!
       Bri nos olhou furiosa.
       -Sabia algo disto? -perguntou-me.
       - obvio que no! Brianna... -antes de que pudesse terminar minha frase Brianna saiu-. Melhor vou buscar-a-dije.
       -Eu tambm vou -ofereceu-se Ian e no o detive.
       Poderia necessitar reforos.
       -O que crie que far? -perguntou Ian.
       -S Deus sabe -pinjente-, Mas tenho medo do que possamos encontrar.
       Estava muito familiarizada com a expresso de fria dos Fraser. Nem Jamie nem Bri perdiam facilmente o controle, mas quando o faziam era por completo.
       -Me alegro de que no me golpeasse -disse Ian-. Por um momento pensei que o faria.
       apressou-se com suas largas pernas. J podamos ouvir as vozes que saam da quadra.
       -Como diabos obrigou ao pobre Ian a fazer algo assims Nunca pensei que fosse to arrogante e dspota...
       -Pobre Ian? -disse Ian, evidentemente ofendido-., Mas o que se crie...?
       -Como! Sou um dspota? -interrompeu a voz do Jamie.
       Parecia impaciente e irritvel, mas ainda no estava zangado-, E que melhor eleio podia fazer, me quer dizer isso Pensei em todos os solteiros em oitenta milhas  redonda antes de me decidir pelo Ian. Poderia ter pensado em te casar com um homem cruel ou bbado, ou to velho que poderia ser seu av.
       passou-se a mo pelo cabelo., como sinal de sua alterao e de seus desejos de acalmar-se, e baixou a voz tratando de tranqiliz-la.
       -me acredite, Brianna, fiz todo o possvel para verte bem casada.
       -E o que te faz pensar que quero me casar com algum?
       Jamie a olhou com a boca aberta.
       -Como? -disse incrdulo-. E o que tem que ver o que quiser com isto?
       -Tudo!
       Deu uma patada no cho.
       -Nisso est equivocada, moa -advertiu-lhe-. Tem uma criatura que necessita um nome. E j aconteceu muito tempo. Ian  um jovem de bom carter e muito trabalhador, tem suas prprias terras e com o tempo ter as meu Y...
       -no me vou casar com ningum! -gritou Brianna.
       -Bom, ento escolhe voc -disse Jamie cortante-. E te desejo sorte!
       -No... me... est... escutando! -disse Brianna, chiando os dentes-. J escolhi. Pinjente que no vou casar me com ningum!
       E deu outra patada no cho.
       -Ah, bom. Acredito recordar uma opinio similar expressa por sua me a noite antes de nossas bodas. No lhe tornei a perguntar se lamentava haver-se visto forada a casar-se comigo, mas me fao iluses de que no fomos to desgraados os dois juntos. por que no fala com ela?
       -No  o mesmo! -gritou Brianna.
       -No, no o  -esteve de acordo Jamie, contendo-se com energia-. Sua me se casou comigo para salvar sua vida... e a minha. Foi algo muito valente o que fez, e muito generoso. Asseguro-te que isto no  assunto de vida ou morte, mas... tem idia do que  viver marcada como uma prostituta ou como um bastardo sem pai?
       Ao ver que a expresso de sua filha trocava um pouco, Jaime aproveitou a vantagem para lhe estreitar a mo em um gesto de bondade.                                    
       -Vamos, moa. No o faria pelo bem da criatura?
       Seu rosto se endureceu de novo e deu um passo atrs.
       -No -disse com voz estrangulada-. No, no posso.
       -Assim te educou Frank Randall? De maneira que no te importe o que est bem e o que est mau?
       Brianna tremia como um cavalo que correu muito.
       -Mim pai sempre fez o correto para mim! E nunca me tivesse impulsionado a fazer algo semelhante! -disse-. Nunca! Ele se preocupava comigo!
       Ante essa frase Jamie perdeu o controle.
       -E eu no? -gritou-. Eu no estou tratando de fazer o melhor para ti? em que pese a que est...
       -Jamie. -Voltei-me para ele, para ver seus olhos escuros de fria, e logo para minha filha  Bri... eu sei que ele no quis... deve compreender...
       - a forma de comportar-se mais egosta, desconsiderada e imprudente que vi! -disse Jamie.
       - um fariseu, um insensvel bastardo!
       -Bastardo! Voc me chama bastardo e sua barriga cresce como uma cabaa, com uma criatura que est condenada a que a assinalem com o dedo e a insultem durante toda sua vida Y...!                              
       -A qualquer que assinale a meu filho romperei todos os dedos e os farei tragar!
       - uma insensata! Tem a mais mnima idia de como so as coisas? Ser um escndalo e estar na boca de todos! Diro-lhe na cara que  uma puta!
       -Deixa que o tentem!
       -Deixa que o tentem? E suponho que pretender que fique ouvindo-os!
       -No  sua obrigao me defender!
       Estava to furioso que seu rosto ficou branco como um lenol.
       -No  minha obrigao te defender? E quem o far, mulher?
       Ian me agarrou do brao e me fez retroceder.
       -Agora h duas possibilidades, tia -murmurou a meu ouvido-. lhes atirar um balde de gua fria aos dois ou ir. Eu vi a tio Jamie e mame brigando. me acredite, no ter que interpor-se entre dois Fraser que brigam. Meu pai diz que uma vez o tentou e ficaram cicatrizes para record-lo.
       Fiz um balano final da situao e me rendi. Ian tinha razo. Embora tivesse aceso fogo  quadra, nenhum dos dois o teria notado.
       -No se preocupe, tia -disse Ian para me consolar-. Tero fome cedo ou tarde e ento voltaro.
       
       No foi necessrio que morreram de fome. Jamie apareceu uns minutos mais tarde e, sem dizer uma palavra, agarrou seu cavalo, selou-o e partiu para a cabana do Fergus. Enquanto observava como se ia, Brianna saiu da quadra soprando e se aproximou da casa.
       -O que quer dizer nighean no galladh'? -exigiu que lhe dissesse  lombriga na porta.
       -No sei -pinjente. Sabia, mas me pareceu mais prudente no dizer-lhe Mas estou seguro de que no o pensa -acrescentei-. Seja o que seja que queira dizer.
       -Ja! -soprou e entrou na cabana, saindo um momento depois como uma exalao com a cesta para os ovos.
       Sem dizer uma palavra desapareceu entre os arbustos fazendo tanto rudo como se fora um furaco.
       Respirei vrias vezes e entrei em preparar a comida, amaldioando ao Roger Wakefield.
       Durante a comida a conversao se limitou a pedir o sal.
       Depois, Brianna lavou os pratos e foi sentar se para fiar entre rudos desnecessrios. Jamie lhe lanou um olhar furioso, olhou-me e saiu. Esperava-me no atalho que ia  privada.
       -O que tenho que fazer? -quis saber.
       -te desculpar -respondi.
       -me desculpar? -Pareceu que lhe arrepiava o cabelo, embora certamente era pelo vento-. Se eu no fiz nada!
       -E qual  a diferena? -pinjente irritada-. Perguntou-me e eu te respondi.
       Soprou com fora, vacilou um momento e logo se voltou para a casa com ar de mrtir ou de guerreiro.
       -Desculpo-me -disse ante ela.
       -OH! -Brianna se ruborizou.
       -Estava equivocado -disse, com um rpido olhar para mi.
       Assenti para lhe dar nimos e se esclareceu garganta-. No devi...
       -Est bem -falou com rapidez, ansiosa por reconciliar-se-. Voc no... quero dizer, s tratava de me ajudar. Tambm te peo desculpas, no devi me zangar contigo.
       Jamie fechou os olhos e suspirou. Ao me abri-los olhou com a sobrancelha arqueada. Sorri-lhe e voltei para minhas tarefas.
       -Sei que queriam o melhor -continuou Brianna-. Ian e voc. Mas no te d conta? Tenho que esperar ao Roger.
       -Mas se lhe aconteceu algo a esse homem... se teve um acidente...
       -No est morto. Sei. -Falava com o ardor de quem quer fazer realidade seus desejos-. Vir. E o que passaria se chegar e me encontra casada com o Ian?
       Jamie se passou os dedos pelo cabelo em um gesto de frustrao.
       -Enviei ao Ian a que perguntasse no Cross Creek e avisasse no River Run ao capito Freeman, para que passasse a voz aos outros marinheiros. Tambm enviei ao Duncan para que perguntasse pelo vale de Cape Fear e pelo Edemon e New Bern, e nos navios que vo da Virginia ao Charleston.
       Olhou-me pedindo compreenso.
       -Que mais posso fazer? Esse homem no aparece por nenhum lado... -deteve-se mordendo o lbio.
       -J vejo. Obrigado, P.
       ficou imvel; seu aspecto era o da mais completa desolao.
       Jamie a estudou com o rosto carrancudo e logo me olhou . Ento, com ar decidido foi at a prateleira e tirou seus utenslios de escritura e os colocou sobre a mesa.
       -H outra possibilidade -disse com firmeza-. Fazer uma descrio que levarei ao Gilleite, no Wilmington. O pode imprimir e Ian e os jovens Lindsey podero distribuir as cpias pela costa, desde o Charleston at o Jamestown. Talvez haja algum que no saiba seu nome, mas o reconhea por seu aspecto. me diga, como  esse homem?
       A sugesto devolveu um brilho de vida ao olhar da Brianna.
       -Alto -disse-. Quase to alto como voc, P. A gente tem que hav-lo notado, sempre se fixam em ti. Tem o cabelo negro e olhos verdes muito brilhantes,  o primeiro que se v nele. No  verdade, mame?
       Ian deixou escapar um estranho som.
       -Sim -pinjente, me sentando no banco perto da Brianna- Mas pode desenh-lo. Bri tem um talento natural para o desenho-expliqu ao Jamie-. Crie que pode desenhar ao Roger?
       -Sim! -Procurou a pluma, ansiosa por tent-lo-. Sim, claro que posso, j o tenho feito antes.
       -pode-se imprimir um desenho em tinta? -perguntei.
       -Bom, sim, espero que sim, no  difcil se as linhas forem claras.
       Enquanto falava, Jamie tinha os olhos fixos no desenho da Brianna.
       
       Ian empurrou a cabea de Cilindro, que descansava em seus joelhos, e se aproximou para ver melhor, com uma exagerada curiosidade.
       O desenho da Brianna era claro e preciso. Ento, Ian deixou escapar um gemido.
       -Passa-te algo, Ian?
       Olhei-o, mas estava olhando ao Jamie com expresso angustiada. Dava-me a volta e encontrei a mesma expresso nos olhos do Jamie.
       -O que acontece? -perguntei.
       -No... nada.
       -Ao diabo! -Alarmada, aproximei-me para tomar o pulso-. Jamie, o que acontece? Di-te o peito? Sente-se mau?
       -Eu sim -disse Ian, como se fora a vomitar em qualquer momento-. Prima... quer-me dizer que de verdade... este... -e assinalou o desenho-  Roger Wakefield?
       -Sim -disse, olhando-o intrigada-. Ian, passa-te algo? Comeu algo que te sentou mau?
       No respondeu e se deixou cair no banco com a cabea entre as mos. Jamie estava plido.
       -O senhor Wakefield -disse a Brianna- Por acaso... tem outro nome?
       -Sim -dissemos as dois ao mesmo tempo.
       Detive-me e a deixei explicar-se enquanto ia procurar o brandy. Tinha a horrvel sensao de que amos necessit-lo.
       -... foi adotado. MacKenzie  o sobrenome de sua famlia -explicava Brianna-. por que? Algum ouviu falar do Roger MacKenzie?
       Ian e Jamie intercambiaram olhadas e os dois pigarrearam.
       -O que acontece? -Brianna os olhou ansiosa-. Viram-no? Onde?
       -Sim -disse Jamie com muita cautela-. Vimo-lo na montanha.
       -Como? Aqui? Nesta montanha? -ficou em p, com alarme e excitao em seu rosto-- Onde est? O que aconteceu?,
       -Bom -disse Ian  defensiva-, depois de tudo, ele disse que te tinha tirado a virgindade.
       -O disse o que?
       -Bom, seu pai o perguntou para estar seguro e ele o admitiu...
       -Voc fez isso?
       Brianna se voltou para o Jamie com os punhos apertados.
       -Sim, bom, foi um engano.
       -Pode estar seguro! O que  o que fizeram?
       Jamie aspirou e a olhou diretamente aos olhos.
       -A moa- Lizzie. Ela me disse que estava grvida e que o que te tinha violado era um malvado chamado MacKenzie.
       Brianna abriu e fechou a boca sem poder falar.
       -Voc me disse que lhe tinham violado, no?
       Assentiu balanando-se como uma boneca de trapo.
       -Bom, Ian e a moa estavam no moinho quando MacKenzie chegou perguntando por ti. Vieram a me avisar; ento Ian e eu o esperamos no claro.
       -O que lhe fizeram? -perguntou com voz rouca-, O que aconteceu?
       -Foi uma briga limpa -disse Ian, ainda  defensiva-. Eu queria lhe disparar, mas tio Jamie disse que no, que queria lhe pr as mos em cima.
       -Pegou-lhe?
       -Sim, fiz-o! -disse Jamie recuperado-. Maldita seja, o que esperava que fizesse com o homem que te tratou dessa maneira? Voc queria lhe matar, no?
       -Alm disso, tambm pegou a tio Jamie -interveio Ian-. Foi uma luta limpa, asseguro-lhe isso.
       -Fica tranqilo, Ian,  um bom moo -pinjente; servi brandy para o Jamie e o aproximei.
       -Mas ele no foi...
       Brianna parecia a ponto de estalar, at que golpeou a mesa com os punhos.
       -O que fizeram com ele? -gritou.
       Os dois se olharam indecisos.
       Pus uma mo no brao do Jamie apertando-o com fora. No pude evitar o tremor em minha voz ao lhe fazer a pergunta.
       -Jamie... matou-o?
       Olhou-me e a tenso de seu rosto se relaxou.
       -Ah... no -disse-. Entreguei-o aos Iroqueses.
       -Mas, prima, podia ter sido pior. -Ian aplaudiu as costas da Brianna-. depois de tudo no o matamos.
       Brianna deixou escapar um gemido e levantou a cara. Seu rosto estava branco.
       -O amos fazer -continuou Ian, algo nervoso-. Tinha a pistola lhe apontando  cabea e ento pensei que o que tinha direito a lhe voar os miolos era tio Jamie, ento ele...
       Brianna tossiu outra vez; coloquei-lhe um cubo se por acaso queria vomitar.
       -Ian, acredito que no precisa ouvir todo isso agora -pinjente.
       -Sim, quero. Tenho que ouvi-lo. -Voltou a cabea para o Jamie-. por que? por que?
       Olhou-a como se tivesse preferido algo antes que responder, mas o fez.
       -Queria mat-lo. Detive o Ian porque me mat-lo parecia muito fcil, uma morte muito rpida para o que tinha feito. -Respirou profundamente-. Detive-me pensar, mas seguia ouvindo o que me havia dito uma e outra vez.
       -O que  o que te disse?
       At seus lbios estavam brancos. Igual aos do Jaime.
       -Disse... que voc lhe tinha pedido que se deitasse contigo. Que voc...
       mordeu-se o lbio.
       -Disse que o queria.- que lhe tinha pedido que te desvirginasse -disse Ian.
       Falou com frieza, com os olhos fixos na Brianna.
       -Fiz-o -disse, deixando escapar um gemido.
       Lancei um involuntrio olhar para o Jamie. Tinha os olhos fechados.
       Ian deixou escapar um som de assombro e Brianna lhe deu um soco.
       -Como pde fazer uma coisa assim? -gritou zangado-. Eu disse a tio Jamie que voc nunca tinha sido uma puta, alguma vez. Mas no foi asi, no?
       -Quem te deu direito a me chamar puta, maldito fariseu?
       Brianna estava em p, furiosa.
       -Direito? -Ian ficou sem palavras-. Eu... voc... ele...
       antes de que pudesse seguir, Brianna lhe deu um murro no estmago. Com um olhar de assombro ficou sentado no cho, ofegando.
       Movi-me, mas Jamie foi mais rpido e a sujeitou.
       -Fica aquieta -disse com voz muito fria, evitando que pegasse tambm a ele-. No queria lhe acreditar, pensei que o dizia para salvar-se. Mas se era assim... no podia lhe tirar a vida a um homem, sem estar seguro. -Fez uma pausa e a observou.
       O que procurava? Tinha remorsos, estava arrependido? Mas tudo o que encontrou foi fria-. Quando retornei essa noite senti no hav-lo matado e senti vergonha por ter duvidado da virtude de minha filha. E agora descubro que no somente no foi pura, mas sim me mentiu.
       -Que te menti? -Sua voz era um sussurro-. Te mentir?
       -Sim, mentiu-me ! -com sbita violncia se voltou para ela-. Deitou-te com um homem por luxria e o acusou de violao quando descobriu que estava grvida! No te d conta de que s por acaso no tenho em minha alma o pecado do assassinato e que a culpa seria tua?
       Estava muito furiosa para falar e eu tampouco podia faz-lo. Procurei no bolso de meu vestido o anel e o deixei cair sobre a mesa. A aliana de ouro rodou, com a inscrio: "Do F. para o C. com amor. Sempre".
       Jamie o contemplou com rosto inexpressivo.
       -Esse  seu anel, tia -disse Ian. Parecia enjoado e se aproximou para v-lo melhor-. Seu anel de ouro. que te tirou Bonnet no rio.
       -Sim -pinjente, e me sentei sentindo os joelhos frouxos. Jamie me agarrou da boneca.
       -Onde o conseguiu? -perguntou.
       -Eu o traga. -As lgrimas da Brianna se evaporaram pela fria. ficou detrs de mim-, no te atreva a olhar a dessa forma!
       Olhou-a com a mesma dureza que a mim, mas Brianna no retrocedeu.
       -Onde o conseguiu? -perguntou em um sussurro-. Quando?
       -Consegui-o do Stephen Bonnet.-Sua voz tremia de fria, no de medo-. Quando... me... violou...  
       O rosto do Jamie se derrubou como se algo tivesse estalado em seu interior.
       Senti que Brianna se movia, que Ian repetia "Bonnet?". Ouvi o tictac do relgio; era consciente de todo isso, mas s tinha olhos para o Jamie. Teria que ter podido dizer ou fazer algo, me fazer carrego deles. Mas no pude fazer nada. No podia fazer nada sem trai-los aos dois. No havia dito nada procurando a segurana do Jamie e isso tinha cansado sobre o Roger, destruindo a felicidade do Bri.
       Brianna se afastou, caminhou ao redor da mesa e se deteve frente a Jamie olhando-o  cara.
       -Maldito seja! -disse em voz quase inaudvel-, Maldito seja, maldito bastardo! Lamento te haver conhecido.
       
       
       DCIMA PRIMEIRA PARTE
       PS DU TOUT
       
       
       51
       Traio
       
       Outubro de 1769
       
       Roger abriu os olhos e vomitou. O gosto a blis que lhe vinha do nariz e os rastros de vmito em seu cabelo no eram nada comparados com a dor que sentia na cabea e na virilha.
       Uma voz ressonou perto e o pnico o invadiu de novo. Tinha sido apanhado pela tripulao do Gloriana. Estava pacote. Bonnet. Tinham-no apanhado e agora o foram matar. Vomitou outra vez, mas seu estmago estava vazio. No estava em um navio, a no ser sobre um cavalo. Mao de ps e mos sobre um maldito cavalo. O cavalo deu uns passos mais e se deteve. Murmrio de vozes, mos que o moviam e o punham bruscamente em p para desabar-se imediatamente, pois era incapaz de sustentar-se.
       ficou dobrado no cho, concentrando-se em sua respirao. Ningum lhe incomodava; gradualmente comeou a ser consciente do que lhe rodeava. Via o cu de uma profunda cor entre azul e prpura, ouvia o som das folhas das rvores e de um arroio prximo. Tudo lhe dava voltas. Fechou tosse olhos e apertou as mos sobre a terra.
       "Mierda, onde estou?" As vozes soavam perto, mas no podia entender as palavras. Sentiu um momento de pnico quando nem sequer pde identificar o idioma.
       Tinha um golpe debaixo de uma orelha e outro na parte de atrs da cabea, A dor lhe atravessava as tmporas. Tinham-no golpeado com fora, mas quando? Abriu os olhos e com infinita precauo se deu a volta. Uma cara quadrada e escura o olhou sem nenhum interesse especial e logo olhou ao cavalo.
       ndios. A impresso foi to grande que esqueceu, por um momento, sua dor e se sentou de repente. Ofegando apoiou a cara sobre os joelhos sem abrir os olhos.
       "Onde estou?" Lutou para recuperar a memria. Fragmentos de imagens retornavam a sua mente, mas se negavam a juntar-se para adquirir um sentido.
       O rosto do Bonnet e as baleias e o pequeno menino chamado.,. chamado...
       Mos juntas na escurido. "Fao-te minha esposa Y..." 
       Bri. Brianna. Um suor frio escorregou por suas bochechas e as imagens flutuaram em sua mente. O rosto da Brianna! No tinha que perd-lo, no podia deix-lo ir!
       Mas no era um rosto amvel. Um nariz direita e uns frios olhos azuis... no, no eram frios..
       Uma mo sobre suas costas o arrancou da lhe torturem busca de sua memria para lev-lo a presente. Era um ndio com uma faca na mo. Aturdido pela confuso, Roger se limitou a olh-lo.
       O ndio, um homem de mdia idade, agarrou ao Roger do cabelo e lhe moveu a cabea de um lado ao outro com ar crtico. A confuso se evaporou e Roger pensou que lhe arrancaria ali mesmo o couro cabeludo. aferrou-se aos joelhos do ndio e este caiu com um grito de surpresa. Roger ficou em p e correu para salvar sua vida. O fazia como uma aranha bbada, com as pernas atadas procurando o refgio das rvores. Ouvia gritos e o som de passos quando algo lhe golpeou nos ps e caiu de bruces.
       No tinha sentido lutar. Eram quatro, includo o que Roger tinha atirado. Este se aproximou, ainda empunhando a faca.
       -No te ferir! -dueto zangado.
       Deu uma bofetada ao Roger e o agarrou por couro que lhe sujeitava as bonecas, deu-se a volta e se encaminharam para onde estavam os cavalos.
       Roger pensou desconcertado: "Incrvel. No estou morto. Em que maldito inferno estou?". No tinha resposta para isso. passou-se a mo pela cara e descobriu vrias feridas mais. Olhou ao redor.
       Estava em um pequeno claro rodeado por carvalhos e nogueiras. O ar frio e a cor do cu lhe diziam que estavam perto da queda do sol. Os ndios, quatro em total, no lhe faziam o menor caso e se ocupavam do acampamento sem olh-lo. Deu um cauteloso passo para o arroio. Seus lbios estavam secos e bebeu, embora a gua fria o fazia machuco nos dentes. Ento comeou a recordem.
       A Colina do Fraser. Brianna e Claire... e Jamie Fraser. de repente, apareceram as imagens; o rosto da Brianna, seus olhos azuis e seu nariz robusto. Mas o rosto da Brianna se fazia cada vez mais amadurecido, mais duro e masculino e os olhos se voltavam escuros pela fria assassina: Jamie Fraser.
       -Maldito desgraado -disse Roger brandamente-. Maldito asqueroso desgraado. Tratou de me matar,
       O sentimento inicial foi de surpresa, mas a ira no estava longe. Agora recordava tudo: a reunio em e! claro, as folhas de outono como fogo e mel, o jovem de cabelo castanho, quem diabos seria? A briga (tocou-se as costelas, provocando uma careta de dor) e o final, atirado entre as folhas e convencido de que o foram matar.
       Bom, no o tinham feito. Tinha uma ligeira lembrana de uma discusso entre o homem e o moo; a gente queria mat-lo e o outro no. Mas no sabia qual dos dois. Logo, golpearam-no e j no recordava mais. Olhou ao redor. Os ndios tinham aceso o fogo e colocado uma panela. No o olhavam mas estava seguro de que o vigiavam.
       Talvez lhe tinham arrebatado de lhas mos do Fraser e o moo, mas por que? O mais provvel era que Fraser lhe tivesse entregue aos ndios. O homem da faca disse que no queriam lhe fazer danifico. O que queriam fazer com ele? Os ndios no o vigiavam porque sabiam que no tinha onde ir. Deixou a um lado a desagradvel verdade desta observao e ficou em p. Primeiro, o primeiro. Lutou para abri-los cales. A primeira sensao foi de alvio. Doa-lhe, mas no era to mau. E a cor da urina lhe indicou que no havia danos internos.
       Mas quando se voltou para o fogo, o alvio foi superado por um estalo de fria to forte que apagou a dor e o medo. Em sua boneca direita tinha um manchn negro em forma ovalada, o rastro de um polegar, clara e zombadora como uma assinatura.
       -Pelas portas negras do inferno -disse brandamente. A fria ardia em seu interior-. Espera, maldito desgraado. Os dois, esperem a que retorne.
       
       Embora no em seguida, os ndios lhe permitiram compartilhar a comida, um guisado que comiam com as mos, mas seguiam indiferentes. Tratou de lhes falar em ingls, francs, inclusive no pouco de alemo que sabia, mas no recebeu resposta alguma.
       Quando chegou a hora de dormir, ataram-no  boneca de um de seus captores. No acreditava que pudesse dormir, mas o fez esgotado pela dor. Foi um sonho muito agitado, com pesadelos violentos e a constante sensao de que o estrangulavam.
       Pela manh empreenderam o caminho. Esta vez no o ataram ao cavalo, fizeram-no caminhar o mais rpido possvel, com um lao corredio frouxo ao redor do pescoo e uma corda que lhe sujeitava as bonecas  cadeira de um dos cavalos. cambaleou-se vrias vezes, mas as arrumou para continuar em que pese a seus msculos doloridos. Tinha a sensao de que se no o fazia o arrastariam sem compaixo.
       dirigiam-se para o norte. Podia dar-se conta pelo sol. No sabia aonde o levavam, mas no podia estar to longe da Colina do Fraser. Tinha que procurar marcos para recordar o caminho, se  que alguma vez podia retornar.
       A viagem durou dias, sempre para o norte. Seus captores no lhe falavam e ao quarto dia se deu concha de que estava perdendo a noo do tempo e entrando em um estado de transe pela fadiga e o silncio das montanhas. Tirou um largo fio da prega de sua casaca e comeou a marcar os dias com um n para ter uma conexo com a realidade e poder calcular a distncia da viagem.
       ia retornar. No importava como, mas retornaria  Colina do Fraser.
       Ao oitavo dia encontrou sua oportunidade. No dia anterior tinham cruzado um desfiladeiro, onde os cavalos tinham que ir a passo lento. Os ndios tinham desmontado e caminhavam conduzindo os cavalos. Roger no perdia de vista ao ndio que levava o cavalo ao que estava pacote. Com uma mo se sujeitava  corda e com a outra tratava de desat-la.
       Pouco a pouco foi afrouxando a corda at que, finalmente, ficou sujeito a um fio. Esperou, suando pelo temor e o esforo, deixando passar oportunidades e temendo que depois fora muito tarde, j que se se detinham para acampar, o ndio se daria conta de que a corda estava gasta.
       Mas no se detiveram e o ndio no se voltou. "Agora", pensou. Abaixo havia uma ladeira boscosa, ideal para ocultar-se. Atirou da corda e saltou. Correu colina abaixo perdendo os sapatos. Cruzou um arroio e ouviu vozes, logo se fez o silncio, mas soube que o perseguiam.
       Corria enquanto procurava um lugar para esconder-se. Escolheu um bosquecillo de abedules e logo cruzou um prado; ao olhar para trs divisou duas cabeas entre as folhas. Seguiu correndo entre a maleza e baixou por um ravina, aferrando-se s novelo. Chegou ofegante at o fundo.
       Um dos ndios baixava o ravina justo detrs dele. tirou-se a corda que tinha no pescoo e golpeou com fora as mos do ndio, Este escorregou e ento Roger lhe aconteceu a corda pelo pescoo, atirou com fora e fugiu deixando o de joelhos, tossindo e lutando para afroux-la corda.
       rvores. Necessitava amparo. Tropeou, levantou-se e seguiu correndo quase sem flego. meteu-se entre os abetos, passando entre milhes de agulhas com os olhos fechados, at que caiu e rodou enjoado e sangrando. ficou imvel durante um momento, logo se voltou limpando-a sujeira e o sangue do rosto.
       Levantou a cabea com precauo, procurando. Havia dois ndios no topo da ladeira, baixando com cuidado por onde ele tinha cansado.
       arrastou-se sobre mos e joelhos para salvar sua vida. "Inferno" foi seu primeiro pensamento coerente. Logo se deu conta de que era tanto uma descrio como uma maldio.
       Estava em um inferno de rododentros. Ao dar-se conta, j  muito tarde, diminuiu sua carreira, se podia chamar-se assim a arrastar-se trs metros por hora.   
       meteu-se em uma espcie de tnel onde no podia d-la volta, mas as engenhou para colocar a cabea. No havia nada, s terra e escurido. No se via outra coisa que ramos de rododendro.
       Seus membros trementes no resistiram e se desabou. Por um momento, Roger ficou respirando terra e folhas podres.
       -Queria um lugar para te esconder, companheiro -murmurou para si. Tudo lhe doa. Tinha feridas que sangravam em vrias partes do corpo.
       Fez um rpido inventrio dos danos enquanto tratava de detectar a seus perseguidores. No lhe surpreendeu que no estivessem. Tinha ouvido falar do inferno dos rododendros nos botequins do Cross Creek, historia sobre ces que perseguindo uma lebre se colocaram nesse labirinto e se perderam para sempre.
       Roger esperava que fossem exageros, embora o que via no era muito tranqilizador. Olhasse onde olhasse tudo parecia igual. Com uma sensao de pnico, deu-se conta de que no sabia por onde tinha chegado ali. Ps a cabea sobre os joelhos e respirou profundamente tratando de pensar. Muito bem, o primeiro era o primeiro. Seu p direito sangrava e usou uma mdia para enfaixar-lhe No parecia necessitar outra vendagem, salvo no profundo sulco de seu couro cabeludo que ainda lhe sangrava, mido e pegajoso ao tato.
       Tremiam-lhe as mos e lhe resultava difcil at-la mdia ao redor da cabea. Entretanto, essa pequena ao lhe fez sentir-se melhor. Tinha escalado infinidade de munros em Esccia. Se um se perdia em um lugar assim, o habitual era esperar a que algum o encontrasse. Mas isso no servia, pensou, j que as nicas pessoas que o buscavam eram as que no queria que o encontrassem.
       No havia forma de saber que tamanho tinha aquele Inferno. Sabia que estava perto de um dos limites, mas esse conhecimento era intil, j que no tinha idia de qual era a direo.
       deu-se conta de que tema muito frio e as mos lhe tremiam. O que se fazia nesses casos? Bebidas quentes, mantas. Brandy. Sim, claro. Levantar os ps, isso sim podia faz-lo.
       meteu-se em uma pequena depresso, tampou-se com folhas e fechou os olhos tremendo.
       No foram perseguir o. por que foram fazer o? Era muito melhor esper-lo se no tinham pressa. Finalmente ele sairia, se podia.
       Com as mos juntas sobre o peito, ordenou-se descansar e pensar em algo diferente a sua situao atual. Brianna. Podia pensar nela. Sem fria nem confuso, no havia tempo para isso. Tentaria pensar que tudo seguia entre eles como aquela noite, sua noite. Seu calor, suas mos to francas e curiosas, ansiosas por conhecer seu corpo. A generosidade de sua nudez, sua liberdade, e ele, com sua segurana, equivocada, de que tudo estava bem no mundo. Pouco a pouco deixou de tremer e dormiu.
       despertou depois de que sasse a lua. Podia ver o brilho no cu. Estava dolorido e tinha frio, fome e sede.
       Bom, se podia sair daquele matagal ao menos encontraria gua. Nas montanhas havia arroios por todos lados. sentia-se como uma tartaruga sobre sua carapaa, deu-se a volta lentamente.
       Uma direo era to boa como outra. Uma vez mais, sobre mos e joelhos, atravessou os ramos tratando de manter-se em linha reta. Seu principal temor no era encontrar-se com os ndios, a no ser perder o rumo e ficar dando voltas, apanhado para sempre. A histria dos ces j no lhe parecia exagerada.
       Cada vez que se detinha para recuperar o flego, esperava para ver se ouvia algo, mas no ouvia nada, salvo ocasionais pssaros e o som das folhas. secava-se o suor e seguia arrastando-se.
       No sabia quanto tempo tinha passado quando encontrou a rocha. Mais que se encontr-la chocou contra ela. Cego pela dor, tocou-a para sentir contra o que se golpeou. Era uma pedra Lisa e alta.
       A provas a rodeou. Havia um grosso tronco perto e seus ombros se entupiram no estreito espao, at que finalmente pde passar, perdeu o equilbrio e caiu de bruces. 
       De novo se incorporou apoiando-se nas mos e se deu conta de que podia as ver. Olhou ao redor totalmente surpreso. ficou em p e viu que estava em um lugar aberto frente a um penhasco que se levantava um lado do pequeno claro. Sim  que era um claro, porque nada crescia ali. Assombrado, deu-se a volta devagar respirando profundamente o ar puro e fresco.
       -minha me -disse brandamente, em voz alta.
       O claro tinha forma oval, estava rodeado por pedras e pelo penhasco. As pedras estavam separadas por espaos iguais, formando um crculo. Um par delas tinham cansado pela presso das razes do rododendro. Mas nenhuma outra planta crescia ali.
       Caminhou lentamente, sentindo calafrios em todo seu corpo, para o centro do crculo. No podia ser, mas era. E por que no? Se Geillis Duncan tinha razo... voltou-se para ver as marcas  luz da lua.
       aproximou-se para olhar de perto. Havia vos petroglifos, alguns do tamanho de sua mo e outros quase to altos como ele, forma em espiral e o que podia ser um homem inclinado, danando ou movendo-se. Um crculo quase fechado, como uma serpente que se remi a cauda. Sinais de aviso.
       estremeceu-se outra vez e sua mo foi para o bolso do calo. As pedras preciosas estavam ali, por elas tinha arriscado a vida. Eram, ou isso esperava, o passaporte de segurana para ele e para a Brianna.
       No ouvia nada, nem zumbidos, nem murmrios. Mas deviam estar perto da festa do Samhain.
       Aquele crculo seguiria o mesmo ritmo de datas? Supunha que assim era, se as linhas de fora da Terra se regiam pelo movimento ao redor do Sol, ento tudas as passagens deviam abrir-se e fechar-se com essas mudanas. Deu um passo para aproximar-se do penhasco e viu a abertura. Talvez fora uma cova. Um frio sorvete o sobressaltou, e no era devido ao vento da noite. Seus dedos se fecharam sobre as pedras preciosas. No ouvia nada. Estaria aberto? Se era assim...
       "Escapar." Seria isso. Mas escapar onde? E como? Tent-lo seria abandonar a Brianna.. "E ela no te abandonou?"
       -No, que me amaldioem se o fez! -sussurrou.
       Havia uma razo para o que ela tinha feito, sabia. Tinha encontrado a seus pais, estaria segura. "Por esta razo, uma mulher deixar a seus pais e se unir a seu marido". No era a segurana o que importava, era o amor. Se lhe tivesse importado a segundad nunca teria tomado esse caminho.
       Se no penetrava na rocha... ento ficavam dois caminhos. Voltar para os rododendros ou escalar o penhasco. Moveu a cabea e viu um rosto sem faces que o olhava na escurido. No teve tempo de mover-se, nem de pensar antes de que a corda passasse por sua cabea e lhe apertasse os braos contra o corpo.
       
       
       52
       Desero
       
       River Run, dezembro de 1769
       
       Tinha estado chovendo e logo o faria de novo. Gotas de gua penduravam baixo as ptalas de mrmore das rosas jacobitas na tumba do Hctor Cameron. Semper Fidelis, dizia debaixo do nome e a data. Semper Fi. Brianna tinha sado com um cadete da Marinha que levava isso gravado no anel que tentou lhe dar de presente. Sempre fiel. A quem tinha sido fiel Hctor Cameron? A sua esposa? A seu prncipe? 
       No tinha falado com o Jamie Fraser desde aquela noite. Nem ele com ela. No at o momento final, quando ante a fria pelo medo e o ultraje, tinha-lhe gritado: "Meu pai nunca houvesse dito uma coisa semelhante!".
       Ainda podia lhe ver a cara depois de que lhe dissesse isso e desejava poder esquec-lo. deu-se a volta para sair da cabana sem dizer uma palavra. Ian se tinha posto em p e o tinha seguido; nenhum dos dois retornou aquela noite.
       Claire ficou com ela consolando-a e mimando-a enquanto chorava e se enfurecia. Embora sua me a tinha abraada e lhe secava a cara, Brianna podia sentir que uma parte dela sofria por no poder ir busc-lo, sentia que desejava segui-lo e consol-lo, e tambm o culpava por isso.
       Doa-lhe a cabea pelo esforo de permanecer com o rosto inexpressivo. No queria relaxar os msculos da cara at estar segura de que se partiram, se o fazia era possvel que se desmoronasse. No o tinha feito, no desde essa noite. Uma vez recuperada, assegurou a sua me que j estava bem e insistiu em que Claire se fora  cama. ficou sentada at o entardecer, com os olhos brilhando pela fria e com o desenho do Roger sobre a mesa. 
       O tinha retornado ao amanhecer; sem olhar a Brianna tinha chamado a sua me. Tinham murmurado na porta e logo a enviou, com os olhos cheios de preocupao, a que empacotasse suas coisas.
       havia a trazido aqui, baixando pela montanha at o River Run. Brianna tinha querido ir com eles, sair imediatamente a procurar o Roger sem esperar um minuto. Mas ele tinha sido inflexvel, igual a sua me.
       Estavam no fim de dezembro e a neve do inverno se amontoava na ladeira da montanha. Estava de mais de quatro meses e a curva de sua barriga aparecia bem arredondada. No se podia saber quanto duraria a viagem e teve que aceitar, a contra gosto, que no queria dar a luz em meio da montanha. Aceitava a opinio de sua me, mas no a teima dele.
       No podia deixar de ouvi-lo nem de v-lo. Seu rosto, deformado pela ira como uma mscara diablica. Sua voz, cheia de fria e desprezo, lhe reprovando, a ela, a perda de sua maldita honra.
       -Sua honra? -havia-lhe dito incrdula-, Sua honra? Seu maldito sentido da honra  o que causou todos os problemas!
       -No deve usar essa classe de linguagem comigo!
       -Direi o que me d a maldita vontade! -tinha gritado, dando um murro na mesa.
       Sua me tentou det-los, mas nenhum dos dois fez conta, muito ofuscados pela sensao de mtua traio.
       Sua me lhe havia dito, em uma oportunidade, que tinha temperamento escocs. Agora sabia de onde provinha, mas o saber o no a ajudava.
       Dobrou os braos sobre seu abdmen, apoiou a cara neles e aspirou o aroma de l. Isso lhe fez recordar os jersis tecidos  mo que a seu pai, seu verdadeiro pai, pensou com uma rajada de desolao, gostava de usar.
       -por que teve que morrer? -sussurrou-. Mas por que?
       Se Frank Randall no tivesse morrido nada disso teria acontecido. Claire e ele estarian ali, na casa de Boston, e sua famlia e sua vida estariam intactas.
       Mas seu pai se foi e tinha sido substitudo por um violento desconhecido; um homem que tinha seu mesmo rosto, mas no compreendia seu corao; um homem que lhe tinha roubado a famlia e o lar e, no contente com isso, tambm lhe tinha tirado o amor e a segurana, deixando-a sem nada, em uma terra dura e estranha.
       ajustou-se o leno sobre os ombros, estremecendo-se pelo vento. Teria que haver ficado uma capa. Tinha beijado a sua me para despedir-se e logo se voltou e correu pelo jardim sem olh-lo. Esperou at estar segura de que se foram, sem lhe importar o frio.
       Ouviu passos mas no se voltou. Talvez era algum servente ou Yocasta, para persuadir a de que retornasse. Mas eram passos muito compridos e fortes. No queria d-la volta, no devia faz-lo.
       -Brianna -disse uma voz detrs dela.
       Bri no respondeu, nem sequer se moveu.
       Jamie soprou: fria, impacincia?
       -Tenho algo que te dizer.
       -Diga-o -disse e as palavras machucaram sua garganta.
       Tinha comeado a chover outra vez.
       -vou trazer o para casa, contigo -disse Jamie Fraser com voz tranqila-, ou no retornarei jamais.
       No pde d-la volta. Ouviu o som dos passos que se afastavam. Ante seus olhos nublados pelas lgrimas o atalho ficou vazio. A seus ps havia um papel dobrado, molhado pela chuva e sujeito por uma pedra. Levantou-o e o sustentou na mo com medo de abri-lo.
       
       Fevereiro de 1770
       
       face  preocupao e a fria, adaptou-se facilmente  vida diria no River Run. Sua tia av, encantada com sua companhia, animava-a a procurar distraes. Ao saber que tinha facilidade para o desenho, Yocasta lhe deu sua prpria equipe de pintura, insistindo em que Brianna o utilizasse.
       Em comparao com a cabana, a vida no River Run era to luxuosa que quase parecia decadente. Entretanto, por hbito, Brianna seguia despertando ao amanhecer. estirava-se com frouxido, desfrutando de do prazer do colcho de plumas.
       Sempre havia um fogo ardendo no lar e gua quente para lavar-se. Teria que haver-se sentido culpado por deixar-se atender por escravos, pensou. Mais tarde o recordaria. Havia um monto de coisas nas que no queria pensar agora, uma mais no lhe faria mal.
       Estava abrigada e podia ouvir os rudos da casa, uma confortvel sensao caseira. Tema um ritual cada manh, reconhecer seu corpo e aceitar as pequenas mudanas que ocorriam durante a noite para no sentir uma estranha em seu prprio corpo.
       "Um estranho em meu corpo j  suficiente", pensou. Percorreu o abdmen com as mos.
       -Ol -disse brandamente.
       Sentiu um ligeiro movimento em seu interior, logo o ocupante voltou para seus misteriosos sonhos.
       Aquela manh sua pele parecia diferente, tenra e reluzente. Mais tarde, quando se levantasse, pareceria mais forte e resistente. ficou apoiada sobre o travesseiro, observando a luz que entrava na habitao. A casa despertava alm de onde estava ela. Podia ouvir todos os rudos e rumores da gente que trabalhava. Quando era pequena despertava nas manhs do vero para ouvir seu pai conversando com os vizinhos baixo sua janela. sentou-se segura e protegida sabendo que ele estava ali.
       Mais recentemente se despertou ao amanhecer para ouvir a voz do Jamie Fraser falando brandamente em galico com seus cavalos e havia sentido que retornavam esses mesmos sentimentos. Mas no passaria nunca mais. O que sua me havia dito era verdade. Estava trocada e alterada, sem que soubesse ou aceitasse. Apartou as mantas e se levantou. No podia ficar na cama lamentando-se pelo perdido, j no era tarefa de outros o proteg-la. Agora era ela a protetora.
       O beb era uma presena constante e, embora lhe resultasse estranho, uma constante segurana. Pela primeira vez se sentia benta e reconciliada. Seu corpo o tinha sabido antes que sua mente, tal como sua me lhe havia dito freqentemente: "Escuta a seu corpo".
       apoiou-se no marco da janela olhando a neve do jardim. Uma pulseira, com capa e leno, estava ajoelhada no atalho arrancando cenouras.
       Permaneceu imvel escutando a seu corpo. O intruso se estirou um pouco e sentiu as quebras de onda de seus movimentos seguindo o pulso de seu sangue, o sangue dos dois. Nos batimentos do corao de seu corao, Brianna pensou que podia ouvir o eco do outro, desse corao mais pequeno, e nesse som encontrou finalmente o valor para pensar com claridade, com a segurana de que se acontecia o pior no estaria totalmente sozinha.
       
       53
       Culpa
       
       Jamie quase no disse nada desde nossa partida da Colina do Fraser at que chegamos  aldeia tuscarora do Tennago. Tinha falado pouco com o Ian, a Yocasta havia dito o indispensvel no Cross Creek e no me dizia nada. Cavalgava atrs dele me sentindo bastante desgraada e rasgada entre a culpa por ter deixado sozinha a Brianna, o temor pelo Roger e a dor ante o silncio do Jamie. Culpava-me amargamente por no lhe haver contado imediatamente o do Stephen Bonnet e por tudo o que tinha acontecido depois.
       guardou-se o anel de ouro que atirei sobre a mesa e no tinha nem idia do que tinha feito com ele. 
       Vrios ndios que nos conheciam da Anna Ooka nos receberam ao chegar ao Tennago. Os homens olhavam os barris de usque quando descarregvamos as mulas, mas ningum interveio. Levvamos duas mulas carregadas de usque, em total uma dzia de barris pequenos, todos eles da parte que correspondia aos Fraser na partilha anual. Um resgate digno de um rei, que confiava que fora suficiente para o de um jovem escocs.
       Era o melhor e quo nico tnhamos para negociar, mas tambm era perigoso. Jamie entregou um barril ao sachem da aldeia e desapareceu com o Ian para parlamentar na casa comunal. Ian tinha entregue ao Roger a seus amigos tuscarora, mas no sabia onde o tinham levado. Eu esperava, contra toda esperana, que tivesse sido ao Tennago. Se era assim poderamos estar de retorno no River Run em um ms. Era uma dbil esperana, j que em meio da terrvel briga com a Brianna.
       Jamie admitiu que havia dito ao Ian que se assegurasse de que Roger no voltasse nunca. Tennago estava a dez dias de viagem da Colina, muito perto para um pai enfurecido.
       Eu levava o amuleto do Nayawenne e a opala que encontrasse baixo o cedro vermelho com intenes de devolv-lo, embora no sabia a quem. Se era necessrio, estes objetos aumentariam o poder de persuaso do usque. Pela mesma razo Jamie trazia seus pertences mais valiosas, que no eram muitas, s faltava o anel de rubi que tinha sido de seu pai e Brianna havia lhe trazido de Esccia. O tnhamos deixado a esta se por acaso no retornvamos, uma possibilidade que terei que ter em conta, No havia forma de saber se Geillis Duncan tinha ou no razo sobre o uso das pedras preciosas, mas ao menos Brianna teria uma.
       Quando deixamos River Run me abraou e beijou com fora. No queria ir, mas tampouco ficar. Uma vez mais me encontrei apanhada entre dois sentimentos: o desejo de ficar para cuidar da Brianna e a urgente necessidade de ir com o Jamie.
       -Tem que ir -disse Brianna com firmeza-. Estarei bem, voc o h dito: sou forte como um cavalo, e crostas de volta muito antes de que te necessite.
       Tinha olhado de esguelha a seu pai, que fiscalizava os cavalos e as mulas.
       -Tem que ir, mame. Confio em ti para encontrar ao Roger.
       E ps uma incmoda nfase em sua confiana em mim, que esperei que Jamie no tivesse notado.
       -No pensar que Jamie poderia...
       -No sei -interrompeu-me-. No sei o que pode chegar a fazer.
       Endureceu a mandbula em um gesto que j conhecia. Discutir era intil, mas tinha que tent-lo.
       -Bom, eu sim sei. Far algo por ti, Brianna. Algo. E embora no fora por ti, faria todo o possvel por trazer para o Roger. Seu sentido da honra...
       Seu rosto me demonstrou o engano cometido.
       -Sua honra -disse-. Isso  o que lhe importa. Suponho que est bem se isso fizer que encontre ao Roger.
       E me deu as costas.       
       -Brianna!
       Mas no me respondeu.
       -Tia Claire? J estamos preparados.
       Ian apareceu com rosto preocupado.
       -Bri?-repeti.
       Ento se voltou para me abraar.
       -Volta! -suplicou-. Mame, volta!
       -No posso te deixar, Bri, no posso!
       -Tem que ir -sussurrou-. Traz-o, voc  quo nica pode traz-lo.
       depois de me beijar rapidamente saiu correndo. Jamie, com rosto inexpressivo, viu como se ia.
       -No pode deix-la assim -pinjente me secando as lgrimas-. Jamie, por favor, v e te despea.
       ficou imvel, como se no me ouvisse, e logo se deu a volta e se afastou pelo atalho.
       -Tia?
       Ian me ajudou a montar. Pouco mais tarde, Jamie tinha retornado e subido ao cavalo sem dizer uma palavra; nem sequer olhou para trs. Eu sim que o fiz, mas j no havia sinais da Brianna.
       
       Tinha anoitecido e Jamie seguia com o Nacognaweto e o sachem da aldeia. Finalmente, Ian saiu acompanhado de uma figura baixa e gordinha.
       -Tenho uma surpresa para ti, tia -disse sonriendo e, apartando-se, deixou-me ver a cara redonda e sorridente da pulseira Poliyanne.
       Em realidade a ex-pulseira, porque ali era livre. sentou-se a meu lado sonriendo e me ensinou o menino que levava em braos, cujo rosto era idntico ao dele.
       Com o Ian como intrprete, os poucos conhecimentos que tinha de ingls e galico e a linguagem dos gestos, conseguimos manter uma interessante conversao. Tinham-na aceito na tribo dos mascarora e valoravam sua capacidade para curar. casou-se com um homem que ficou vivo depois da epidemia de sarampo, e fazia uns meses que havia trazido um novo membro  famlia.        
       Ento me lembrei e tirei o amuleto do Nayawenne
       -Ian... quer lhe perguntar se souber a quem devo lhe devolver isto?
       Enquanto Ian falava, toquete o amuleto com curiosidade, logo sacudiu a cabea e respondeu com sua voz profunda.
       -Diz que ningum o querer, tia -traduziu Ian-.  perigoso. Teriam que hav-lo enterrado com seu dono; ningum o tocar por temor a atrair ao fantasma do chamn.
       -lhe pergunte, o que acontece no se enterra ao chamn? Se no se encontrar o cadver?
       -Nesse caso o fantasma caminha contigo, tia- Diz que no o ensine a ningum daqui, pois se assustariam.
       -Mas ela no tem medo, no?
       Poliyanne sacudiu a cabea e se tocou o peito.
       -Agora a ndia -disse-. Mas no sempre.
       voltou-se para o Ian e lhe explicou que em seu povo veneravam aos espritos da morte.
       O que me disse no me turvou. De fato, encontrei consoladora a possibilidade de que Nayawenne caminhasse comigo, dadas as circunstncias. Voltei a me colocar o amuleto baixo a camisa; seu tato era como sentir a proximidade de um amigo. Poliyanne duvidava se me dizer algo. Olhou de esguelha ao Jamie e se decidiu. aproximou-se do Ian e lhe murmurou algo ao ouvido, logo me abraou e se foi. Ian a contemplou assombrado.
       -Disse que deveria lhe dizer a tio Jamie que a noite em que morreu a mulher na serraria ela viu um homem.
       -Que homem?
       -No o conhecia. S disse que era um homem branco, corpulento e no to alto como tio Jamie ou eu. Diz que saiu e caminhou rapidamente para o bosque. Ela estava sentada na choa e o viu passar; acredita que ele no a viu. Tinha marcas de varola e cara de porco.
       -Murchison?
       Meu corao se sobressaltou.                   
       -O homem tinha uniforme? -perguntou Jamie com o cenho franzido.
       -No. Mas sentiu curiosidade por saber que fazia ali. Quando foi olhar soube que algo horrvel tinha acontecido, cheirou o sangue e ouviu vozes, por isso no entrou.          
       Tinha sido um assassinato que no pudemos evitar por muito pouco tempo. Jamie apoiou uma mo em meu ombro e, sem pens-lo, aferrei a ela. Ento me dava conta de que fazia um ms que no nos tocvamos.
       -A moa morta era lavadeira do exrcito -disse Jamie-. Murchison tem a sua esposa na Inglaterra; suponho que uma amante grvida lhe resultaria um inconveniente.
       -No  estranho que tenha provocado tanto alvoroo para apanhar ao responsvel e culpar a essa pobre mulher, que nem sequer podia falar para defender-se. -Ian estava vermelho de indignao--. Se tivesse podido fazer que a pendurassem se haveria sentido a salvo.
       -Quando voltarmos, talvez tenha uma conversao privada com o sargento -comentou Jaime.
       -No crie que j tem muitos vinganas pendentes para te manter ocupado?
       Falei com mais dureza da que tivesse querido e Jaime me soltou a mo.
       -Isso espero -disse, sem expresso na voz nem em e! rosto, e se voltou para o Ian-. Wakefield, MacKenzie ou qualquer que seja seu nome, est no norte. Venderam-no aos mohawk de uma pequena aldeia na parte baixa do rio. Seu amigo Onakara aceitou nos levar; sairemos ao amanhecer.
       depois de dizer isto ficou em p e se afastou. Quis segui-lo mas Ian me deteve.
       -Tia -disse vacilante-. No lhe perdoaste?
       -lhe perdoar? -Contemplei-o assombrada-. por que? Pelo Roger?
       Fez uma careta.
       -No, isso foi um lamentvel engano, que se voltar a repetir se seguimos vendo as coisas desta forma. No... pelo Bonnet.
       -Pelo Stephen Bonnet? Como pode acreditar Jamie que lhe culpo por isso? Nunca lhe disse nada semelhante! Estava muito ocupada acreditando que me culpava , para pensar algo assim.
       -Bom... no te d conta, tia? Ele se culpa por isso, faz-o desde que nos roubou no rio, e agora, depois do que lhe tem feito  prima... -encolheu-se de ombros algo molesto-, E ao ver que est zangada com ele...
       -Mas no estou zangada com ele! Eu acreditava que estava zangado comigo por no lhe dizer em seu momento que tinha sido Bonnet.
       -No! -Ian no sabia se rir ou chorar-. Bom, suponho que se o tivesse feito nos teramos economizado alguns problemas, mas estou seguro de que no est zangado por isso, tia. depois de tudo, quando a prima Brianna o disse, j nos tnhamos encontrado com o MacKenzie.
       Respirei profundamente.
       -Crie que pensa que estou zangada?
       -Bom, isso o pode ver qualquer, tia -assegurou com sinceridade-. No o olha e s lhe fala quando no tem mais remdio...e-- -esclareceu-se garganta- e no te vi ir a sua cama h mais de um ms.
       -Bom, ele tampouco o tem feito! -pinjente acalorada, antes de me dar conta de que no era uma conversao adequada para ter com um moo de dezessete anos.
       -Ele tem seu orgulho, no?
       -Deus sabe que o tem. Eu... olhe, Ian, obrigado por me dizer isso 
       Dirigiu-me um de seus estranhos e doces sorrisos que transformavam sua cara alargada.
       -Bom, detesto v-lo sofrer. Eu quero muito ao tio Jamie.
       -Eu tambm -pinjente, tragando para passar o n que tinha na garganta-. boa noite, Ian.
       
       por que no tinha sido capaz de ver o que Ian me dizia? Era fcil responder; no era a fria a no ser sua prpria culpa o que me tinha cegado. Tinha calado o que sabia do Bonnet, tanto pelo anel de ouro, como porque Brianna me tinha pedido isso, mas pude tratar de convenc-la, at sabendo que ela tinha razo: cedo ou tarde tivesse ido detrs o Bonnet. Embora eu tinha mais confiana que Brianna no triunfo do Jamie, no tinha sido o anel o que me tinha feito guardar silncio.
       por que me sentia culpado? No havia uma razo lgica. Tinha escondido o anel por instinto, porque no queria acostumar-lhe ao Jamie nem voltar a me pr isso no dedo. E entretanto, queria, precisava guard-lo.
       Vi-o deitado, imvel mas sem dormir. Entrei na loja e me tirei a roupa. Meus olhos se acostumaram  escurido e senti seu olhar fixo em mim. Deslizei-me baixo a manta e, sem pens-lo, apertei meu corpo nu contra o seu, ocultando a cara em seu ombro.
       -Jamie -sussurrei-. Tenho frio- Te aproxime e me esquente, por favor.
       voltou-se em silncio, com uma ferocidade que podia ter sido desejo contido, mas eu sabia que era desespero. No desejava prazer, quo nico queria era lhe dar consolo. Mas ao me abrir a ele senti uma sbita necessidade, to cega e se desesperada como a sua.
       Permanecemos abraados, tremendo, incapazes de nos olhar, mas sem poder nos separar.
       -Jamie, sinto muito -pinjente finalmente-. No foi tua culpa.
       -E de quem, se no? -disse com tom sombrio.
       -De todos. De ningum. Do Stephen Bonnet, principalmente. Mas no tua.
       -Bonnet?-perguntou surpreso-. O que tem que ver?
       -Bom... tudo -pinjente confundida.
       separou-se e apartou o cabelo de sua cara.
       -Stephen Bonnet  uma criatura perversa e o matarei  primeira oportunidade que tenha. Mas no acredito que possa culp-lo por minhas faltas como homem.
       -Do que est falando? Que faltas?
       -No acreditei que pudesse sentir tanto cimes de um morto -sussurrou-. No acreditei que fora possvel.
       -De um morto? -Minha voz subiu de tom pelo assombro-. Do Frank?
       -Perseguiu-me estes dias de viagem e posso ver seu rosto em minha mente. Disse que se parecia com o Jack Randall, no?
       Abracei-o com fora e aproximei minha boca a seu ouvido. Graas a Deus que no lhe tinha mencionado o anel, mas me teria trado a expresso?                         
       -Como? -sussurrei-- Como pde pensar isso?
       liberou-se apoiando-se em um cotovelo e deixando cair o arbusto de cabelo avermelhado sobre sua cara.
       -E como no pens-lo? Ouviu-a, Claire, sabia o que me dizia!
       -Brianna?
       -Disse que gostaria de lombriga no inferno e que venderia sua alma por recuperar a seu pai, seu verdadeiro pai. -Ouvi o rudo de sua garganta ao tragar para continuar-. Estive pensando que ele nunca tivesse cometido esse engano, teria crdulo nela, teria sabido que ela... Pensei que Frank Randall era melhor homem que eu. Ela o pensa. E pensei que... talvez voc acreditava o mesmo, Sassenach.
       -Tolo -sussurrei-. Tolo, vem aqui -pinjente acariciando suas costas.
       -Sim, sou tolo. Mas no te importa muito, no?
       -No -pinjente. Seu cabelo cheirava a fumaa e a pinheiro-. Ela no quis dizer isso.
       -Sim, disse-o. Ouvi-a.
       -E eu lhes ouvi os dois. -Esfreguei-lhe as costas sentindo todas suas cicatrizes-. Brianna  igual a voc, diz coisas que no sente quando est zangada. Ou voc queria lhe dizer tudo o que disse?
       -No. -Seu corpo ficou rgido-. No, no quis diz-lo. No tudo o que pinjente.
       -lhe aconteceu o mesmo, me acredite -sussurrei-. Quero-lhes aos dois.
       Suspirou profundamente e ficou quieto um momento.
       -Se posso encontrar ao homem e levar-lhe crie que me perdoar algum dia?
       -Sim. Sei que o far.
       Brianna me havia dito: "Tem que ir.  a nica que o pode trazer de volta".
       Pela primeira vez me ocorreu que possivelmente Brianna no se referiu ao Roger.
       
       Era um comprido trajeto atravs das montanhas que se complicava ainda mais no inverno. Uma vez que chegamos s montanhas, a viagem se fez mas fcil, embora as temperaturas baixavam  medida que nos dirigamos ao norte. Tinham passado seis semanas e Brianna j estaria de seis meses. Se encontrvamos logo ao Roger (e se era capaz de viajar, pensei com ironia) possivelmente poderamos retornar antes de que nascesse a criatura. Mas se Roger no estava ali, se os mohawk o tinham vendido a outros... ou se estava morto, dizia uma fria vocecita em minha cabea, ento poderamos retornar sem atrasos.
       Onakara no aceitou nos acompanhar at a aldeia, o que no ajudou a aumentar minha confiana. Jamie o despediu lhe entregando um dos cavalos, uma boa faca e uma garrafa de usque como pagamento por seus servios.
       Enterramos o resto do usque a certa distncia da aldeia.
       -Entendero-nos? -perguntei enquanto voltvamos a montar-. O tuscarora  como o mohawk.
       -No  o mesmo mas se parece, tia -disse Ian. Nevava brandamente e os flocos se derretiam em suas pestanas-. Como o espanhol e o italiano. Mas Onakara disse que o sachem e alguns ndios sabem algo de ingls, embora no o usam. Lutaram com os ingleses contra os franceses, assim que alguns tm que saber ingls.
       -Vamos e provemos sorte -disse Jamie; sorriu e cruzou o rifle sobre a cadeira de montar.
       
       54
       Cautividad I
       
       Fevereiro de 1770
       
       Tinha estado na aldeia mohawk uns trs meses, conforme podia comprovar nos ns do fio. Ao princpio no sabia quem eram, s que eram ndios diferentes a seus captores e que estes lhes temiam. Tinha permanecido aturdido pelo cansao. Os ndios novos eram diferentes; foram vestidos com peles e couros para o frio e a maioria dos homens levavam o rosto tatuado.
       Um deles lhe ameaou com a ponta da faca e o fez despir-se. Obrigaram-lhe a permanecer nu em meio de uma cabana de madeira, onde vrios homens e mulheres o golpearam e se burlaram dele. Seu p direito estava inflamado por um profundo corte infectado. Ainda podia caminhar, mas cada passo que dava lhe produzia fortes dores e a febre o fazia tremer.
       Empurraram-no at a porta da cabana. Fora se escutava o rudo provocado por duas filas de selvagens formando um corredor e que gritavam armados com paus. Algum lhe cravou a ndega com uma faca e sentiu como corria o sangue por sua perna. "Cours.", disseram-lhe. Corre. No havia forma de evitar tosse golpes. Tudo o que podia fazer era correr o mais rpido possvel entre as duas filas de ndios.
       Perto do final, um pau lhe golpeou no estmago; dobrou-se e sentiu outro golpe detrs da orelha que lhe fez rodar sobre a neve, quase sem sentir o frio. Sentiu uma chicotada nas pernas e outro debaixo dos testculo; seguiu rodando at que pde apoiar-se sobre mos e joelhos. O sangue que emanava de seu nariz e de sua boca se mesclava com o barro gelado.
       Chegou at o final da fila. Com os ltimos golpes ainda ardendo em suas costas, ficou em p e se voltou apoiando-se nas varas para olh-los. Isso gostaram e riram com gargalhadas que pareciam latidos. Roger fez uma inclinao de cabea e se ergueu. Riram com mais fora. Sempre tinha sabido agradar  multido.
       Ento o levaram dentro e lhe deram gua para lavar-se e comida. Devolveram-lhe sua camisa esfarrapada e seus cales imundos, mas no a casaca e os sapatos. Fazia calor dentro da cabana j que tinham vrios fogos acesos. arrastou-se at um rinco e ficou dormido.
       Depois do recebimento, os mohawk o trataram com indiferena mas sem crueldade. Era o escravo daquela moradia comunitria e o podiam usar rodos os habitantes. Se no entendia uma ordem a repetiam uma vez; se se negava ou pretendia no entender lhe golpeavam. Davam-lhe comida suficiente e um lugar decente para dormir em um rinco da cabana.
       Com grande precauo, preocupou-se com aprender algumas palavras, para o qual escolheu uma menina, que lhe pareceu menos perigoso. Esta o contemplava assombrada, como se ouvisse falar com um sapo, e ria. Mas com o passo dos dias, a menina acabou chamando a seus amigas e entre todas lhe faziam repetir palavras. Assim soube que eram mohawks. Guardies da Porta do Leste da liga Iroquesa. O, em troca, era algo assim como um "cara de co".
       -Obrigado -disse-lhes, tocando sua barba enchente e lhes ensinando os dentes entre grunhidos.
       As meninas riram muito.
       Uma das mes das meninas se interessou por ele e lhe curou o p infectado. As mulheres comearam a lhe falar quando lhes levava lenhos ou gua.
       
       Quando apareceu o jesuta, a borda do rio ainda estava geada. Roger estava fora e ouviu ladrar a tosse ces. A gente se juntou e ele se aproximou com curiosidade.
       Os recm chegados eram um grupo de homens e mulheres mohawk que foram a p, carregados com os habituais vultos de viagem. Roger se aproximava, ansioso por inteirar-se, at que um dos ndios da aldeia lhe empurrou para trs. Alcanou a ver que o homem era um sacerdote. No atuava como um prisioneiro, mas teve a impresso de que no ia por prpria vontade.
       O sacerdote, com gesto de preocupao em sua jovem cara, entrou com vrios ndios na casa do Conselho. Roger nunca tinha entrado ali, mas conhecia sua existncia por suas conversaes com as mulheres.
       Algo acontecia na aldeia, podia senti-lo mas no o compreendia. Os homens falavam ao redor do fogo e as mulheres murmuravam entre elas enquanto trabalhavam, mas a discusso ultrapassava os rudimentares conhecimentos do idioma mohawk que tinha Roger. Perguntou a uma das pequenas e s pde lhe dizer que os visitantes provinham de uma aldeia do norte, que desconhecia o motivo e que s sabia que tinha algo que ver com o Roupa Negra, como chamavam o jesuta.
       Uma semana depois, Roger saiu com uma partida de caa; carregaram-no com toda a carne para lev-la  aldeia. A sua chegada surpreendeu encontrar a vrios ndios lhe esperando. Liberaram-no de sua carga e o empurraram para uma pequena choa.
       No sabia suficiente mohawk para fazer perguntas e, de todos os modos, no lhe tivessem respondido. Havia um pequeno fogo que no lhe permitia ver nada em contraste com a luz do dia.
       -Quem  voc? -disse uma voz assombrada em francs.
       Roger piscou vrias vezes, at poder divisar a figura sentada frente ao fogo. Era o sacerdote.
       -Roger MacKenzie. Et vous?
       E experimentou uma inesperada alegria pelo simples feito de dizer seu nome.
       -Alexandre. -O sacerdote se aproximou agradado e incrdulo-, Pai Alexandre Ferigault. Vous tes anglis?
       -Escocs -disse Roger; teve que sentar-se porque a perna ferida no lhe sustentava.
       -Um escocs? Como chegou voc at aqui?  um soldado? 
       -Um prisioneiro.
       -Quer comer comigo?
       Era um homem jovem. O poder falar o mesmo idioma foi um alvio para ambos.
       -por que me trouxeram aqui com voc? -perguntou Roger depois de comer.
       No acreditava que fora para lhe proporcionar companhia ao sacerdote, pois a considerao no estava entre as qualidades daqueles ndios.
       -No sei. Em realidade, surpreendeu-me ver outro homem branco.
       Roger olhou de esguelha para a porta. Havia algum fora.
       -Voc  um prisioneiro? -perguntou assombrado.
       O sacerdote vacilou e logo se encolheu de ombros com um ligeiro sorriso.
       -No saberia dizer. Com os mohawk, a linha que divide  hspede do prisioneiro  muito tnue e pode trocar em qualquer momento. Vivi vrios anos com eles, mas sigo sendo "o outro"-, no um deles. E voc, como caiu prisioneiro?
       Roger vacilou, sem saber como explicar-lhe 
       -Traram-me -disse ao fim-. Venderam-me.
       O sacerdote assentiu pormenorizado.
       -H algum que possa pagar um resgate por voc? Mantero-o com vida se tiverem esperanas de cobrar algum resgate.
       Roger negou desesperado com a cabea.
       -No, no h ningum.
       A conversao cessou; foram ficando s escuras e j no havia mais lenha.
       -Leva muito tempo nesta choa? -perguntou finalmente Roger para romper o silncio.
       Quase no podia ver o sacerdote.
       -No. Trouxeram-me hoje, pouco antes de que voc chegasse.
       O sacerdote tossiu.
       Roger pensou que era melhor no dizer nada. Era evidente para ambos que a linha entre hspede e prisioneiro j tinha sido cruzada.  O que teria feito aquele homem?
       -Voc  cristo? -perguntou bruscamente Alexandre.
       -Sim. Meu pai era ministro.
       -Ah. Se me levarem, posso lhe pedir que reze por mim? 
       Roger sentiu um frio que no tinha nada que ver com a temperatura lhe reinem.
       -Sim -disse com estupidez-.  obvio. Se assim o desejar.
       O sacerdote ficou em p e comeou a caminhar inquieto.
       -Talvez tudo saia bem -disse, como se queria convencer-se-. Ainda esto decidindo.
       -Decidindo o que?
       -Se viverei -disse, encolhendo-se de ombros.
       No havia resposta para isso e outra vez reinou o silncio. Roger dormitava quando despertou um rudo na porta. incorporou-se e viu quatro guerreiros mohawk; um deles atirou lenhos no fogo quase apagado enquanto os outros trs, sem emprestar ateno ao Roger, levantaram o pai Ferigault e lhe arrancaram a roupa.
       Roger se moveu instintivamente mas o atiraram ao cho de um golpe. O sacerdote o olhou, implorando que no interviesse.
       Um dos guerreiros aproximou da cara do sacerdote um tio aceso e disse algo que pareceu uma pergunta. Logo o passou por seu corpo, to perto de quo genitais o rosto do Alexandre se cobriu de suor. A choa se encheu de aroma de cabelo queimado e os ndios riram. Dois dos guerreiros o arrastaram pelos braos fora da choa.
       "Sim me levam, reze por mim."
       As roupas do sacerdote estavam atiradas no cho; Roger as recolheu e as dobrou com mos trementes. Tratou de rezar, mas lhe resultava difcil concentrar-se. Seguia ouvindo a voz do sacerdote lhe pedindo que rezasse por ele.
       
       Tinham-lhe deixado o fogo aceso. At que dormiu, tratou de convencer-se de que isso significava que no o matariam.
       O rudo de vrias vozes despertou de um sonho intranqilo. abriu-se a porta e o corpo nu do sacerdote caiu ao cho. O rudo de passos se afastou enquanto Alexandre se estirava e gemia. Roger se aproximou de joelhos. Podia cheirar o sangue fresca.
       -Est ferido? O que lhe tm feito?
       Encontrou a resposta ao dar a volta ao corpo semiconsciente do sacerdote e ver o sangue na cara e o pescoo. Tratou de limpar a ferida e descobriu que lhe tinham talhado uma orelha e parte do couro cabeludo.
       O homem se queixava. Roger lhe molhou a cara e lhe deu de beber.
       -Tudo ir bem -murmurava Roger uma e outra vez, sem saber se te ouvia-. Tudo vai bem, no lhe mataram. 
       perguntou-se a si mesmo se isto terminaria aqui ou seria uma antecipao de majores tortura.
       O fogo se consumou e a luz avermelhada dava uma cor escura ao sangue.
       O pai Alexandre se retorcia constantemente entre gemidos. No podia dormir e Roger tampouco. Pela primeira vez compreendeu os motivos do Claire Randall para curar feridos. Acalmar a dor e o medo  morte servia para atenuar os prprios temores. Para acalmar seu medo teria feito algo.
       Ao final, incapaz de suportar os gemidos e as rezas, deitou-se ao lado do sacerdote e o agarrou entre os braos.
       -Tranqilo -sussurrou-. Descanse.
       O corpo do sacerdote se agitou com os msculos duros pela dor e o frio.
       -ficar bem -disse Roger, dando-se conta de que no importava o que dissesse, sempre que seguisse lhe falando-. Poderia ser um co e te cuidaria igual, no, chamaria um veterinrio. -Acariciou-lhe a cabea com cuidado de no lhe fazer danifico-. Ningum trata assim a um co, selvagens de mierda. Queixarei-me  polcia e publicaro sua foto no Teme.
       uma espcie de risada espantosa saiu de seus lbios. aferrou-se ao corpo do sacerdote e o embalou na escurido.
       -Reposez-vous, mon ami. C'est bem, a, c'est bem.
       
       
       55
       Cautividad II
       
       River Run, maro de 1770
       
       Brianna passou o pincel mido pelo bordo da paleta para tirar o excesso de pintura e acrescentou uma fina sombra no bordo do rio.
       ouviram-se passos pelo atalho que vinha da casa. Reconheceu o duplo passo sem ritmo e ficou tensa, lutando com a necessidade de esconder-se atrs do mausolu do Hctor Cameron. No lhe importava que fora Yocasta, quem freqentemente a visitava pelas manhs para falar de tcnicas de pintura e mesclas de cores. De fato, gostava da companhia de sua tia av e valorava as histrias da mulher sobre sua infncia em Esccia, junto  av da Brianna e aos outros MacKenzie do Leoch. Mas o assunto era diferente quando Yocasta aparecia com o Co que Via por Ela.
       -bom dia, sobrinha! No faz muito frio para ti?
       Yocasta, envolta em sua capa, deteve-se e sorriu a Brianna. Se no a tivesse conhecido no se teria dado conta de que era cega.
       -Estou bem; a... a tumba me protege do vento. Mas por hoje j  o bastante.
       No era certo, mas colocou os pincis no frasco de terebintina e comeou a limpar a paleta. No pensava pintar com o Ulises descrevendo cada pincelada a Yocasta.
       -Sim? Bom, deixa suas coisas; Ulises lhe levar isso. Deixou-as a contra gosto, no sem antes ficar o caderno de desenho baixo o brao e lhe oferecer o outro a sua tia av. No ia deixar lhe isso ao senhor Todo o V e Todo o Conta.
       -Temos companhia hoje -disse Yocasta, dirigindo-se para a casa-. O juiz Alderdyce, do Cross-Creek, e sua me. Pensei que talvez quereria ter tempo para te trocar antes do almoo.
       Brianna se mordeu as bochechas para no dizer nada. Mais visitantes.
       A vida social da Yocasta era assombrosa. Mas Brianna tinha notado que ultimamente os visitantes eram homens. Homens solteiros.
       Fedra, enquanto lhe buscava um vestido limpo para trocar-se, confirmou as suspeitas da Brianna.
       -No h muitas mulheres solteiras na colnia -observou Fedra quando Brianna mencionou a peculiar coincidncia de que a maioria dos visitantes fossem homens solteiros. Fedra observou o ventre volumoso da Brianna-. Em especial jovens. E menos ainda que vo ser proprietrias do River Run.
       -Proprietria do que...?
       Fedra se tampou a boca e a olhou com os olhos muito abertos.
       -No lhe h dito nada a senhorita Eu? Estava segura de que sabia; se no, tivesse-me calado.
       -Bom, agora que comeaste termina de me contar isso O que quer dizer com isso?
       Fedra, fofoqueira por natureza, deixou-se convencer com facilidade.
       -Assim que seu pai e outros se foram, a senhorita Eu mandou chamar o advogado Forbes e trocou seu testamento. Quando a senhorita Eu mora, deixar um pouco de dinheiro a seu pai e alguns objetos pessoais ao senhor Farquard e outros amigos, mas todo o resto ser para voc. A plantao, a serraria...
       -Mas eu no quero nada!
       As sobrancelhas arqueadas da Fedra expressaram profunda dvida.
       -Bom, no se trata do que queira. Com a senhorita Eu est acostumado a ser o que ela quer.
       -E exatamente, o que  o que quer? Esse tambm sabe?
       -No  nenhum secreto- Quer que River Run dure mais que ela e que pertena a algum de seu sangue. Para mim, tem sentido pois ela no tem filhos, nem netos. Quem fica ento?
       -Bom... est meu pai.
       Fedra deixou o vestido sobre a cama e franziu o sobrecenho lhe olhando a cintura.  
       -Do modo em que cresce sua barriga, este vestido s lhe valer durante um par de semanas. OH, sim, est seu pai. Ela tratou de lhe nomear seu herdeiro, mas pelo que ouvi ele se negou. -Franziu os lbios divertida-. Esse sim que  um homem cabeudo. foi s montanhas para viver como os ndios, s para evitar que a senhorita Eu lhe deixasse tudo. O senhor Ulises acredita que seu pai tem feito bem, porque se se tivesse ficado a senhorita Eu no o teria deixado tranqilo.
       Brianna tratou de arrumar o cabelo, mas lhe caiu a forquilha.
       -Venha, deixe me fazer isso .
       Fedra se colocou a suas costas e comeou a pente-la.
       -E todos esses visitantes, esses homens...
       -A senhorita Eu escolher o melhor -assegurou Fedra-. Voc no poderia levar River Run sozinha, nem sequer ela pode. O senhor Duncan  algum cansado do cu; no sei o que faria ela sem ele.
       O assombro ia deixando passo ao ultraje.
       -Ela est tratando de me buscar um marido? Est-me oferecendo como uma noiva com dote?
       -Estraga.
       Fedra no parecia encontrar nada mau nisso.
       -Mas ela sabe o do Roger... o senhor Wakefield! Como pode tratar de me casar, se.,.?
       Fedra suspirou com simpatia.
       -Para falar a verdade, no acredito que a senhorita Eu pense que vo encontrar ao homem... Ela conhece bem aos ndios; todos ouvimos o senhor Myers falando dos iroqueses. 
       Fazia bastante frio na habitao, mas Brianna comeou a suar.
       -Alm disso -continuou Fedra-, a senhorita Eu no conhece esse Wakefield. Poderia no ser um bom administrador. Ela acredita que seria melhor que se casasse com um homem que pudesse cuidar bem da propriedade e faz-la prosperar.
       -Eu no quero este lugar!
       Agora o ultraje dava passo ao pnico. Fedra lhe atou a cinta ao redor de um pequeno coque.  
       -Bom, como j disse, no importa o que voc queira, a no ser o que queira a senhorita Eu. Agora, vamos provar lhe o vestido.
       
       Brianna ouviu uns passos no corredor e girou a pgina de seu desenho do rio e as rvores. Passaram de comprimento e se tranqilizou, voltando de novo para a pgina. Estava olhando seus desenhos anteriores: tinha esboos do Jamie Fraser, de sua me e do Ian. Tinha-os comeado a desenhar porque sentia nostalgia e agora os contemplava com medo, confiando contra toda esperana que aqueles pedaos de papel no fossem os nicos restos da famlia que conheceu durante to pouco tempo.
       "Para falar a verdade, no acredito que a senhorita Eu pense que vo encontrar ao homem... Ela conhece os ndios."
       Lhe umedeceram as mos. Uns suaves passos chegaram at a porta e fechou o caderno.
       Entrou Ulises e comeou a acender o grande candelabro.
       -No faz falta que o acenda por mim. No me importa estar s escuras.  
       O mordomo sorriu amavelmente e continuou com sua tarefa.              
       -A senhorita Eu vir logo -disse-. Ela pode ver as luzes e o fogo, assim sabe onde est.
       Brianna o observou enquanto colocava o recipiente com usque e os copos. Toda uma vida dedicada s necessidades de outra pessoa. Ulises sabia ler e escrever em ingls e francs, sabia aritmtica, cantava e tocava o clavicordio. Tudo o que tinha aprendido era utilizado s para entreter a uma anci autocrtica que dava ordens que ele obedecia. Era a forma de ser da Yocasta.
       E se Yocasta conseguia o que queria.., era porque aquele homem era de sua propriedade.
       O pensamento era ridculo.
       -Ulises -disse de repente-, quer ser livre? -No momento em que falou, mordeu-se a lngua e se ruborizou-. Sinto muito -acrescentou imediatamente-. foi uma pergunta muito grosseira. Por favor, me perdoe.
       O alto criado a olhou intrigado.
       -Nasci livre -disse finalmente em voz muito baixa-. Meu pai tinha uma pequena granja, no muito longe daqui. Quando eu tinha seis anos morreu pela picada de uma serpente. Minha me no podia encarregar-se de tudo, no tinha fora suficiente para trabalhar na granja, assim que se vendeu a si mesmo e entregou o dinheiro a um carpinteiro para que me tirasse de aprendiz  idade adequada.
       Ps a caixa de marfim na mesita de jogo.
       -Mas ela morreu -continuou com tom prtico-, E o carpinteiro, em lugar de me ensinar, declarou que eu era filho de uma pulseira e que por lei tambm era um escravo. Assim que me vendeu.
       -Mas no era verdade!
       Olhou-a com paciente diverso e seus olhos pareciam lhe dizer: E o que tem que ver a verdade com tudo isto?
       -Tive sorte -contnuo-. Venderam-me barato, porque era pequeno e fraco, a um professor que ensinava aos filhos dos donos das plantaes de Cape Fear. amos de uma casa a outra e eu me ocupava do cavalo e de outras tarefas. Como as viagens eram largas, falava-me e me ensinava a cantar. Tinha uma voz preciosa.
       A Brianna a surpreendia o ar nostlgico daquele homem, mas se reps rapidamente.
       -O foi quem me deu o nome do Ulises. Sabia grego e latim e, para entreter-se, ensinou-me a ler e a escrever. Quando morreu eu era um jovem de vinte anos; ento me comprou Hctor Cameron e descobriu minhas habilidades. No todos os senhores valorariam esses conhecimentos em um escravo, mas o senhor Cameron no era um homem comum. -Ulises sorriu fracamente-. Ensinou-me a jogar xadrez e me fazia jogar contra seus amigos. Tambm me ensinou a tocar o clavicordio e a cantar para entreter a seus convidados. Quando a senhorita Eu comeou a perder a vista, entregou a ela para que fora seus olhos.
       -Qual era seu nome? Seu verdadeiro nome?
       Fez uma pausa pensativo e logo sorriu, mas s com os lbios.
       -No estou seguro de record-lo -disse amavelmente, enquanto se retirava.
       
       56
       Confisses da carne
       
       despertou pouco antes do amanhecer. Alexandre no estava.
       -Alexandre? -sussurrou com voz rouca-. Pai Ferigault?
       -Estou aqui.
       A voz do jovem sacerdote era suave e longnqua, embora estava a um metro de distncia.
       Roger se apoiou em um cotovelo; j mais acordado comeou a ver. Alexandre estava sentado com as pernas cruzadas, as costas reta e a cabea erguida.
       -Est bem?
       Um lado do pescoo do sacerdote estava manchado de sangue, embora seu rosto parecia sereno.
       -Me vo matar logo. Talvez hoje.
       -No -disse Roger levantando-se-. No, no o faro.
       -Quer ouvir minha confisso?
       -No sou sacerdote. -Roger se aproximou com a pele de veado com a que se cobria-. Tenha, est gelado.
       -No tem importncia.
       Roger no sabia se se referia ao frio ou a que Roger no era sacerdote. Mas o homem estava gelado.
       -Seu pai... -disse Alexandre-. Disse-me que era sacerdote.
       -Ministro. Sim, mas eu no.
       -Em momentos de necessidade qualquer homem pode oficiar como sacerdote -disse Alexandre, e lhe tocou com seus dedos frios-, Quer ouvir minha confisso?
       -Se for o que quer.
       sentia-se torpe, mas se isso lhe ajudava... esclareceu-se garganta. Como se esse som tivesse sido o sinal, o francs baixou a cabea.
       -me benza, irmo, porque pequei -disse Alexandre em voz baixa.
       E com a cabea inclinada e as mos juntas se confessou. Tinham-no enviado de Detroit com uma escolta de fures. aventurou-se rio abaixo, at o assentamento da Santa Berta do Ronvalle para substituir ao ancio sacerdote encarregado da misso, que estava muito doente.
       -Fui feliz ali -disse Alexandre com voz sonhadora-. Era um lugar selvagem, mas eu era muito jovem e minha f ardente. 
       Jovem? O sacerdote no podia ser maior que Roger.
       -Passei dois anos com os fures e converti a muitos. Ento fui com um grupo ao Fort Stanwix, onde havia uma grande reunio de tribos da regio. Ali conheci um chefe guerreiro dos mohawk. Ouviu-me pregar e, por inspirao do Esprito Santo, convidou-me a ir com o a sua aldeia. Esse foi meu primeiro pecado -disse com calma-. O orgulho. Mas Deus ainda estava comigo. -Tinha aprendido o idioma dos mohawk para que no desconfiassem.
       Teve xito e converteu a muitos ndios da aldeia, em especial ao Chefe guerreiro que o protegia. Mas desgraadamente, o sachem se opunha a sua influncia e havia contnuos problemas entre cristos e no cristos
       -E ento -disse com um grande suspiro- cometi meu segundo pecado.
       apaixonou-se por uma de suas conversas.
       -Tinha tido alguma mulher... antes?
       -No, nunca -deixou escapar uma risada amarga e zombadora-. Acreditei que era imune a essa tentao. Mas o homem  frgil ante as tentaes da carne.
       Tinha vivido em casa da moa durante vrios meses. At que uma manh que se levantou cedo e foi ao arroio a banhar-se, viu seu prprio reflexo na gua e sentiu que era um sinal de Deus para que cuidasse sua alma.
       foi se viver sozinho a uma choa, mas j tinha deixado grvida a seu amante.
       -E por isso o trouxeram aqui? -perguntou Roger.
       -No, eles no vem as coisas do matrimnio e a moralidade como ns -explicou Alexandre-, As mulheres vo aos homens quando querem, casam-se por acordo e o matrimnio dura enquanto se levam bem. A mulher pode jogar ao homem ou ele pode ir-se. Os filhos, se os houver, ficam com a me.
       -Mas ento...
       -A dificuldade foi que, como sacerdote, sempre me neguei a batizar a meninos cujos pais no fossem cristos e estivessem em estado de graa, e  obvio no pude batizar a essa criatura. Isso ofendeu ao chefe, por isso ordenou que me torturassem. A moa intercedeu por mim com o apoio de sua me e de ves pessoas influentes. Ento me trouxeram aqui para que tivesse um julgamento imparcial.
       -Temo-me que no compreendo -disse Roger com cuidado-. Voc se negou a batizar a seu prprio filho porque a me no era uma boa crist?
       Alexandre pareceu surpreso.
       -Ah, non! Ela no perdeu a f, embora tinha todos os motivos para faz-lo. -Suspirou-- No, no podia batizar  criatura porque eu, seu pai, no estava em estado de graa.
       -Ah. Por isso quer que lhe oua em confisso? Ento recuperar o estado de graa e poder...
       O sacerdote o deteve com um gesto.
       -Perdo. No devi pedir-lhe Estava to contente de poder falar em meu prprio idioma que no pude resistir a tentao de aliviar minha alma. Mas no est bem, no h absolvio possvel para mim.
       O desespero do homem era to evidente que Roger lhe apoiou a mo no brao para tranqiliz-lo.
       -Est seguro? Disse-me que em tempos de necessidade...
       -No  assim. Embora me confessasse, no tenho perdo. Faz falta arrependimento para obter a absolvio, devo rechaar meu pecado, e isso no posso faz-lo.
       ficou em silncio. Roger no sabia o que dizer. Um sacerdote houvesse dito algo como "Sim, meu filho?", mas ele no podia faz-lo. Em troca, agarrou a mo do Alexandre e a apertou com fora.
       -Meu pecado foi am-la -disse com muita suavidade- e isso no posso evit-lo.
       
       57
       Um sorriso frustrado
       
       -"Duas Lanas" est conforme. O assunto ter que fal-lo ante o Conselho e tem que ser aceito, mas no acredito que haja problemas.
       Jamie se apoiou no pinheiro com gesto de esgotamento. Fazia uma semana que estvamos na aldeia; ele tinha estado com o sachem da aldeia os ltimos trs dias. Quase no o tinha visto e tampouco ao Ian. Tinha estado com as mulheres; estas eram amveis mas distantes. Eu mantinha meu amuleto cuidadosamente escondido.
       -Ento, tm-no? -perguntei, e senti o n de ansiedade que no conseguia afrouxar-. Roger est aqui?
       At o momento, os mohawks no tinham querido admitir se tinham ao Roger ali ou no.
       -Bom, o velho descarado no quer admiti-lo por medo de que o libere. Mas o tm aqui ou no muito longe da aldeia. Se o Conselho aprovar o trato, intercambiaremos o usque pelo homem em trs dias e iremos. -Lanou um olhar s nuvens que cobriam as distantes montanhas-. Espero que isso que vem seja chuva e no neve.
       -Crie que h alguma possibilidade de que o Conselho no aceite?
       Suspirou profundamente e se passou uma mo pelo cabelo. Tinha-o solto sobre os ombros; era evidente que a negociao tinha sido difcil.
       -Se, h-a. Querem o usque, mas so cautelosos. Alguns dos ancies esto em contra do negcio, por medo ao dano que o licor pode causar na tribo. Em troca os jovens esto todos de acordo. H outros partidrios de ficar o usque e, embora no o bebam por seus efeitos nocivos, utiliz-lo para negociar.
       -Todo isso lhe disse isso Wakatihsnore?
       Estava surpreendida. O sachem Atos Rpidos parecia muito frio e matreiro para tanta franqueza.
       -No, foi Ian. -Jamie sorriu ligeiramente-. O moo tem grandes condicione como espio. conquistou todos os coraes da aldeia e encontrado uma jovem a que gosta de muito. Lhe explicou o que opina o Conselho das Mes.
       Abriguei-me com minha capa. Nossa posio entre as rochas nos isolava de toda interrupo, mas fazia frio.
       -E o que  o que diz o Conselho das Mes?.
       Uma semana com elas me tinha dado uma idia da importncia da opinio das mulheres na vida da aldeia. Embora no tomavam decises diretas em assuntos gerais, muito poucas coisas se faziam sem sua aprovao.
       -Querem que oferea algum resgate distinto ao usque e no esto seguras de querer ceder ao homem; mais de uma est encamada com ele. No lhes importaria adot-lo.
       Jamie torceu a boca e eu, em que pese a minha preocupao, no pude evitar uma gargalhada.
       -Roger  um moo muito arrumado -pinjente.
       -J o vi -disse cortante-. A maioria dos homens pensa que  um horrvel bastardo peludo.  obvio, pensam o mesmo sobre mim. -Como conhecia o desgosto dos ndios pelas barbas, barbeava-se todas as manhs.-E sendo assim, isso pode ser o que marcar a diferena.
       -O que, o aspecto do Roger? Ou o teu?
       -O fato de que mais de uma dama queira ao sujeito. A amiga do Ian lhe h dito que sua tia acredita que podia ser perigoso ficar com o Roger, e que seria melhor devolv-lo antes de que haja problemas entre as mulheres.
       Esfreguei-me os lbios tratando de evitar a risada.
       -E os homens do Conselho sabem que h mulheres interessadas nele?.
       -No acredito. por que?
       -Porque se se inteirem-se o daro grtis.
       Jamie soprou, mas me olhou dbio.
       -Sim, talvez. Farei que Ian o mencione entre os jovens.
       -Disse-me que as mulheres querem que ofereamos outra coisa em lugar de usque. Mencionou-lhe a opala a Atos Rpidos?
       Jamie se mostrou interessado.
       -Sim, fiz-o. No se teria surpreso mais se tivesse tirado uma serpente do focinha!. ficaram muito nervosos, tanto pelo aborrecimento como pelo medo. Acredito que me teriam atacado se no fora porque j tinha mencionado o usque.
       Procurou em sua casaca e tirou a opala deixando-o cair em minha mo.
       -Melhor que o voc tenha, Sassenach, e que no o ensine a ningum.
       -Que estranho -pinjente, olhando a pedra com seu petroglifo em forma de espiral- Ento para eles tem algum significado.
       -OH, sim -afirmou-. No posso te dizer qual, mas sim que no gostam de nada. O chefe guerreiro ordenou que lhe dissesse de onde a tinha tirado e lhe disse que lhe tinha encontrado isso. Isso os acalmou um pouco, mas estavam agitados.
       -por que quer que a eu tenha?
       A pedra estava quente.
       -Como te disse, quando a viram se turvaram e se zangaram. Um par deles fizeram um gesto para me golpear mas retrocederam. Observei-os com a pedra na mo e me dava conta de que tinham medo, de que no me tocariam enquanto a tivesse comigo.
       Fechou meu punho sobre a pedra.
       -Guarda-a. Se houvesse algum perigo a sacas.
       -Voc enfrentar a mais perigos que eu -protestei, tratando de lhe devolver a pedra.
       -No, agora que sabem que h usque no me faro mal sem saber onde est.
       -Mas por que vou estar eu em perigo?
       A idia me turvava. As mulheres tinham sido cautelosas mas no hostis e os homens da aldeia me desdenhavam totalmente.
       Jamie franziu o sobrecenho e olhou para a aldeia. De onde estvamos se via muito pouco.
       -No lhe posso dizer isso Sassenach. S que fui caador e tambm caado. Sabe o que se sente quando h algo estranho perto? Os pssaros deixam de cantar e o ar fica imvel. H algo semelhante aqui. Acontece algo que no posso ver. No acredito que esteja relacionado conosco... e entretanto-.- sinto-me incmodo -disse bruscamente-. E vivi muito para deixar a um lado essa sensao.
       
       Ian se reuniu conosco e reforou a opinio do Jamie.
       -Sim,  como sustentar o bordo de uma rede que est inundada na gua. A gente pode sentir os movimentos sem ver o pescado, mas sabe que est ali, embora no onde. -O vento despenteou seu cabelo castanho e as mechas lhe tamparam a cara. O apartou com ar distrado-. Algo acontece entre a gente, algum desacordo. E algo aconteceu ontem  noite na Casa do Conselho; Emily no me quis responder quando lhe perguntei, s olhou para outro lado e me disse que no tinha nada que ver conosco. Mas eu acredito que, de algum modo, est relacionado conosco.
       -Emily?
       Jamie arqueou uma sobrancelha e Ian sorriu.
       -Chamo-a assim porque  mais curto -disse-. Seu nome  Wakyo'teyensnonhsa, que significa "A que trabalha com as mos". A pequena Emily tem habilidade para esculpir. Olhem o que fez para mi.
       Com orgulho, tirou de! bolso uma pequena lontra esculpida em talco branco. O animal estava alerta, com a cabea levantada; deu-me risada.
       -Muito bonito. -Jamie o examinou com aprovao-. Deve lhe gostar de muito a essa moa, Ian.
       -Sim, bom, tambm eu gosto dela, tio -disse Ian com tom despreocupado, mas suas bochechas se ruborizaram. Tossiu e trocou de lema-. Diz que acredita que o Conselho poderia inclinar-se um pouco a nosso favor se lhes dermos a provar o usque. Se estiver de acordo, procurarei um barril e esta noite faremos um pequeno ceilidh. Emily se encarregar de tudo.
       Jamie arqueou as sobrancelhas e depois de um momento assentiu,
       -vou confiar em seu julgamento, Ian -disse-- Na Casa do Conselho?
       Ian sacudiu a cabea.
       -No. Emily diz que ser melhor faz-lo na casa comunitria de sua tia, a anci Tewaktenyonh, a Mulher Bonita.
       -Ao que...? -perguntei surpreendida.
       -A Mulher Bonita -explicou, limpando-a nariz com a manga-  uma mulher com influencia sobre a aldeia que tem poder para decidir o que se faz com os cativos, e a chamam assim tenha o aspecto que tenha. Poderemos tratar de convencer a de que aceite nosso trato.
       -Suponho que o cativo liberado a deve ver formosa -disse Jamie com ironia-. Bom, adiante ento. Pode ir voc sozinho a procurar o usque?
       Ian assentiu e se voltou para partir.
       -Espera um minuto, Ian -pinjente, e lhe mostrei a opala-. Pode lhe perguntar ao Emily se souber algo sobre esta pedra?
       -Sim, tia Claire, o perguntarei. Vamos, Cilindro!.
       Assobiou e Cilindro, que tinha estado farejando entre as rochas, saiu detrs de seu amo. Jamie os observou com certa preocupao.
       -Sabe onde passa as noites Ian, Sassenach?
       -Se te referir  casa, sim. Se quer saber na cama de quem, no. Mas posso imaginar o 
       -Mmm. -endireitou-se e sacudiu a cabea-. Vamos, Sassenach, quero que retorne  aldeia.
       
       O ceilidh do Ian comeou pouco depois do anoitecer. Os convidados eram os membros mais proeminentes do Conselho, quem foi chegando de um em um para oferecer seus respeitos ao sachem Duas Lanas, que estava sentado na fogueira principal com o Ian e Jaime. Uma jovem bonita e magra, que supus era a Emily do Ian, estava detrs com o barril de usque.
       Com a exceo do Emily, as mulheres no intervinham na prova do usque. No obstante, aproximei-me de observar e me sentei ante uma das pequenas fogueiras para ajudar a duas mulheres com as cebolas, enquanto intercambiava ocasionais frases amveis em uma mescla de tuscarora, ingls e francs.
       A mulher ante cujo fogo me sentei me ofereceu cerveja e um preparado com farinha de milho que aceitei com amabilidade, embora meu estmago estava fechado pelos nervos.
       Jogvamo-nos muito naquela festa improvisada. Roger estava ali, em algum lugar da aldeia. Isso sabia. Estava vivo e esperava que estivesse bem, ao menos o suficiente para viajar.
       depois de que Duas Lanas dissesse algumas palavras, deu comeo a festa. A moa media as pores de usque, no servindo-o em taas, a no ser tomando um gole e cuspindo-o em cada jarra antes das entregar aos homens.
       Olhei de esguelha ao Jamie, quem por um momento pareceu surpreso, mas logo aceitou e bebeu sem vacilar.
       Algo distraiu minha ateno, a chegada de um menino que se sentou ao lado de sua me. A mulher o observou com preocupao. Pude ver que o menino tinha o ombro esquerdo deslocado e por isso se sentava torcido, fazendo gestos de dor.
       Fiz-lhe um gesto  me, quem vacilou com o rosto carrancudo. O menino deixou escapar um gemido e ela o abraou. Por uma inspirao repentina tirei o amuleto do Nayawenne.
       A mulher no podia saber de quem era, mas sim o que era. E o fez, porque seus olhos se abriram ao ver a bolsita de couro.
       -Je sais une sorciere. C'est medique, a -pinjente docemente.
       "Confia em mim -pensei-. No tenha medo".
       O menino me olhou com os olhos muito abertos pelo assombro. As mulheres intercambiaram olhadas para fixar-se finalmente na anci.
       Enquanto seguia olhando ao menino, sorria-lhe e lhe apertava a mo com a pedra, esperando a permisso da me. Uma vez que foi autorizada pela anci, a me me entregou o menino.
       Foi muito fcil colocar de novo a articulao. Era pequeno e o dano no era grave; era uma operao muito satisfatria pois a dor se aliviava imediatamente. Moveu o ombro, sorriu-me timidamente e me devolveu a pedra que lhe tinha colocado na mo.
       Enquanto isso a festa avanava. Ian cantava em galico, desafinando enquanto um par de ndios lhe faziam coro.
       Senti um olhar nas costas e me dava a volta para ver que Tewaktenyonh me observava desde seu site. Assenti e ela se inclinou para falar com uma de quo jovens a rodeavam.
       A moa se levantou e se aproximou.
       -Minha av pergunta se quer ir at onde est ela.
       Surpreendi-me para ouvi-la falar em ingls, embora Onakara nos havia dito que alguns dos mohawk conheciam esta lngua, mas que s o utilizavam por necessidade.
       Pu-me em p e a acompanhei, me perguntando o que necessitaria a Mulher Bonita. Eu j tinha minhas prprias necessidades, pensar no Roger e Brianna.
       A anci me saudou, fez um gesto para que me sentasse e, sem me tirar os olhos de cima, falou com sua neta.
       -Minha av pergunta se pode ver sua medicina.
       - obvio.
       - a esposa de Arbusto Ursos?.
       -Sim. Os tuscarora me chamam Corvo Branco -pinjente.
       A moa se sobressaltou e traduziu rapidamente  anci.
       A mulher me devolveu a pedra rapidamente. Logo falou com sua neta sem deixar de me olhar.
       -Minha av tinha ouvido que seu homem tambm tem uma pedra brilhante. Quer saber mais sobre isso, como  e de onde a tirou.
       -Pode v-la -pinjente e, ante os olhos surpreendidos da moa, tirei a opala e o tendi  anci que o observou sem toc-lo.
       "Ela o viu antes. Ou ao menos, sabe o que ", pensei. No necessitei que a moa fizesse de intrprete pois os olhos da anci me fizeram claramente a pergunta.
       -Como chegou a suas mos? -era a pergunta que a jovem repetiu.
       -Chegou-me em um sonho -pinjente, sem saber como explic-lo melhor.
       A anci suspirou. O medo no abandonava seu olhar, mas havia algo mais: curiosidade, talvez? Disse algo e outra das mulheres se levantou e foi procurar um canasto que deixou ante ela. Esta comeou a cantar com voz quebrada pela idade, mas ainda forte. esfregou-se as mos ante o fogo e delas caram umas partculas de cor castanha que se converteram em fumaa que cheirava a tabaco.
       Tewaktenyonh falou com os olhos cravados em mim e a moa me traduziu.
       -me conte esse sonho.
       Era verdadeiramente um sonho o que lhe ia contar, ou uma lembrana que revivia com a fumaa de um tronco ardendo? No importava; tudas minhas lembranas eram sonhos. Disse-lhe o que pude. A tormenta, meu refgio no cedro avermelhado, a caveira enterrada com a pedra e o sonho, a luz na montanha e o homem com o rosto pintado de negro.
       A anci a ndia se inclinou com ar to assombrado como sua neta.
       -Viu ao Portador do Fogo? -deixou escapar a moa-. Viu seu rosto?
       Olhou-me como se eu pudesse ser perigosa.
       A anci disse algo imperativo, com gesto de interesse.
       -Minha av diz: pode dizer como era ele, que roupa levava?
       -Nada. Um tanga. E ia pintado.
       -Pintado. Como? -perguntou a moa em resposta ao que disse sua av.
       Descrevi o corpo pintado do homem com todo o cuidado que pude. No foi difcil; se fechava os olhos ainda podia v-lo.
       -E seu rosto era negro, da frente at a mandbula -terminei, abrindo os olhos.
       Enquanto descrevia ao homem, meu intrprete se mostrou visivelmente turvada e olhava com medo a sua av. Quando terminei, a anci permaneceu em silncio, com os olhos cravados em mim. Finalmente assentiu e agarrou o colar de contas que lhe pendurava das costas, que era sua rvore de famlia, o smbolo de sua funo. Myers me tinha falado disso.
       -Na festa do Milho Verde, faz muitos anos, um homem chegou do norte. Podamos entend-lo, mas falava de forma estranha e s nos disse que seu cl era o da Tartaruga. Era um homem selvagem mas valente. Um bom caador e um guerreiro. A todas as mulheres gostava, mas no se atreviam a aproximar-se muito. Os homens no eram to cuidadosos, os homens nunca o so. Falavam, bebiam e fumavam com ele. Falava-lhes desde meio-dia at a noite e logo, ante as fogueiras, falava da guerra e seu rosto era sempre feroz. Sempre a guerra. No contra os da aldeia do lado, no. Terei que matar a todos os ou'seroni antes de que fora muito tarde, dizia. Muito tarde para que?, perguntavam os homens. E para que a guerra, se no necessitarmos nada? Isso era antes dos franceses, sabe?  a ltima oportunidade, dizia-lhes. Eles seduziro com o metal, com suas facas e rifles, e nos destruiro. Matem agora ou eles lhes comero. Meu irmo, que era o sachem, e meu outro irmo, que era Chefe guerreiro, disseram que eram loucuras. Os brancos no comiam os coraes de seus inimigos, nem sequer na batalha.
       "Os jovens lhe escutavam. Eles escutam a qualquer que fale forte, mas os ancies o olhavam com desconfiana e no diziam nada. Ele sabia -continuou a jovem e a anci assentiu com firmeza-, sabia o que aconteceria, que os ingleses e os franceses foram lutar entre eles e pedir nossa ajuda. Tawineonawira, Dente de Nutria, era seu nome, disse-me: voc vive no momento. Conhece o passado, mas no olha ao futuro. Seus homens dizem: no necessitamos nada e no querem mover-se. No se do conta de nada pela cobia e a ociosidade.
       -No  verdade, disse-lhe. No somos ociosos, trabalhamos. E riu de mim, mas seus olhos eram tristes. No pode ver o bastante longe, disse-me. Perguntei-lhe at onde podia ver e no me respondeu.
       Eu conhecia a resposta e me ps a pele de galinha. Sabia muito bem at onde podia ter visto e quo perigoso isso era.
       -Mas nada do que eu dizia servia. Dente de Nutria se zangava cada vez mais. Um dia veio tudo pintado e danou a dana da guerra e muitos Jovens o seguiram. Meu irmo se reuniu na loja com o Conselho e decidiu que Dentes de Lontra devia deixar a aldeia. Que fizesse o que tivesse que fazer, mas que no amos deixar que nos trouxesse a destruio. Causava problemas entre a gente e devia partir. zangou-se mais que nunca e gritou coisas terrveis. Depois ficou muito quieto e nos assustamos. Sem comer e sem dormir seguiu falando durante dois dias, logo se foi. Mas retornou outra vez. escondia-se no bosque e retornava de noite, magro e faminto, com os olhos brilhantes como uma raposa e no nos deixava dormir. Comeamos a acreditar que tema em seu interior um esprito maligno, at que meu irmo, o Chefe guerreiro, disse-lhe que devia ir-se ou o matariam.
       A anci fez uma pausa em sua histria.
       -Era um estrangeiro, mas nunca soube. Acredito que nunca o entendeu.
       Um calafrio percorreu minhas costas. Um estrangeiro. Um ndio por seu rosto, por sua linguagem. Um ndio com empastelamentos nos dentes. No, ele no tinha entendido, ele tinha acreditado que eles eram seu povo. Sabendo o que trazia o futuro, tinha tratado de salv-los. Como ia pensar que lhe fariam mal? Mas o fizeram. Ataram-no a um poste no centro da aldeia e pintaram sua cara com carvo.
       -O negro  para a morte; aos prisioneiros que vo matar sempre tosse pintam assim. Sabia isso quando te encontrou com o homem na montanha?
       Neguei com a cabea, muda.
       Torturaram-lhe com paus afiados e com ties acesos. Suportou-o sem gritar e o deixaram pacote ao poste.
       -Pela manh se foi.
       O rosto da anci era indecifrvel. Se lhe tinha gostado que aquele homem escapasse ou no, era seu segredo.
       -Pinjente que no o seguissem, mas meu irmo disse que no era bom e que retornaria. Uma partida de guerreiros saiu para busc-lo; no foi difcil seguir o rastro de sangue. Perseguiram-no para o sul. Mas era forte e escapava. Durante quatro dias o seguiram e, finalmente, apanharam-no.
       Viu a pergunta em meus olhos e assentiu.
       -Meu irmo, o chefe guerreiro, esteve ali e me contou isso.
       Estava sozinho e desarmado, no tinha possibilidades e sabia. Um homem lhe golpeou a boca com uma lana mas seguiu falando, sangrando e com os dentes quebrados. Dizia que seramos esquecidos, que no existiria a nao dos iroqueses e que ningum contaria nossas histrias. Que tudo o que tnhamos sido se perderia. Retornaram  aldeia, mas sua voz os seguia. De noite no podiam dormir e pelo dia ouviam gritos e gemidos. At que, finalmente, meu irmo disse que o homem era um bruxo.
       A anci me olhou: eu havia dito que era uma bruxa. Traguei saliva e apertei o amuleto que levava no pescoo.
       -Meu irmo disse que terei que lhe cortar a cabea para que no falasse mais. Um homem valente o faria e o enterraria longe. -Sorriu ligeiramente-. Esse homem era meu marido.
       Enterrou a cabea baixo as razes do cedro vermelho e j no se ouviu a voz. Meu marido retornou  aldeia e ningum mais nomeou a Dentes de Lontra at o dia de hoje.
       Traguei saliva e tratei de respirar profundamente. O crculo de bebedores se tranqilizou. Dois homens j estavam mdio dormidos e outro se levantou cambaleando-se.
       -E isto? -pinjente, mostrando a opala-. Tinha-o visto? Era dele?.
       A anci se inclinou para tocar a pedra mas no o fez.
       -H uma lenda -disse a moa sem deixar de olhar a pedra-. As serpentes mgicas levam pedras em suas cabeas. Se um arbusto uma e agarra a pedra, ter grande poder.
       A anci falou sbitamente assinalando a pedra. A moa repetiu.
       -Era dela, chamava-a bill-buelt.
       Olhei a intrprete e sacudiu a cabea.
       -Bill-bueltd -disse com claridade-. No  uma palavra inglesa?
       Neguei com a cabea.
       A anci me olhou com ar pensativo.
       -por que te falou? por que te deu isso?
       -No sei -respondi, mas no pude dissimular minha expresso. Soube que mentia, mas como lhe podia dizer a verdade? Podia lhe dizer acaso quem tinha sido Dentes de Lontra? Que suas profecias eram verdadeiras?
       -Acredito que talvez era parte de mi... famlia -pinjente finalmente, pensando no que Poliyanne me havia dito sobre os fantasmas dos antepassados de cada um. No sabia se era antepassado ou descendente. Se no o era meu, era-o de algum como eu.
       -Ele te enviou para mim para ouvir isto. Estava equivocado -declarou com confiana- Meu irmo diz que no devemos falar dele, devemos esquec-lo. Mas um homem no  esquecido enquanto fiquem outros dois baixo o cu. Um para contar a histria e outro para ouvi-la.
       Tocou minha mo, guardando-se de tocar a pedra.
       -Eu sou uma. Voc  a outra. Ele no foi esquecido.
       Fez um gesto  moa para que fora a procurar comida e bebida.
       Quando me levantei para retornar  moradia onde nos alojvamos, olhei para a festa. O terreno estava talher de corpos que roncavam. Jamie, Ian e a moa j no estavam ali.
       Jamie me esperava fora. Seu flego cheirava fortemente a usque e a tabaco.
       -Parece que te divertiu -pinjente, agarrando seu brao-. houve algum progresso ?
       -Isso acredito. Saiu bem, Ian tinha razo; Deus lhe benza-disse, enquanto caminhvamos-. Acredito que estaro dispostos a fazer o trato. E voc, Sassenach? Esteve falando com a anci. Sabia algo sobre a pedra?
       -Sim, vamos dentro e lhe contarei isso.
       Entramos. Eu tinha a opala bem apertada em minha mo. Eles no sabiam por que o chamava bill-bueha, mas eu sim. O homem com empastelamentos nos dentes, chamado Dentes de Lontra, tinha vindo a lev-los a guerra para salvar a nao. Eu sabia o que queria dizer bill-bueha. Era seu bilhete de volta sem usar. Minha herana.
       
       
       58
       LordJohn retorna
       
       River Run, maro de 1770
       
       Fedra me trouxe um vestido de seda amarela, com a saia muito ampla, que tinha sido da Yocasta.
       -Esta noite a companhia  melhor que a do velho senhor Cooper ou a do advogado Forbes -disse a pulseira com satisfao-. Vem um lorde de verdade. Que lhe parece?
       -Que lorde? No necessito que me ponha todo isso para ocultar minha barriga.
       Fedra se endireitou para contemplar a Brianna entre as dobras de seda amarela.
       -No o necessita, n? -disse com tom reprobador-. Com uma barriga de seis meses? No que est pensando? Acredita que vou deixar que se presente assim?
       -E que mais d? Todo o condado sabe que vou ter um filho. No me surpreenderia que esse tal senhor Urmstone dissesse um sermo contra ma.
       Fedra deixou escapar uma breve gargalhada.
       -J o fez -disse-. Faz dois domingos. Mickey e Drusus estavam ali v lhes pareceu divertido, mas sua tia no pensou o mesmo e enviou ao advogado Forbes para acusar o de calnia; mas o ancio reverendo Urmstone lhe disse que no podia ser calunia o que era verdade.
       Brianna contemplou  criada.
       -O que  o que disse sobre mim?
       -No queira sab-lo -disse sombria-. Que todos saibam no  o mesmo a que ande exibindo a barriga, assim me deixe arrum-la.
       Brianna permitiu que a mulher a enfaixasse, prometendo-se a si mesmo que se tiraria todo aquilo assim que partir. Ao diabo com aquele lorde, quem quer que fosse.
       -Quem  esse lorde que deve jantar? -perguntou pela terceira vez.
       - lorde John William Grei, da plantao do Mount Josiah, na Virginia.  um amigo de seu pai, ou ao menos, isso  o que diz a senhorita Eu. Bom, j est. Por sorte tem um bonito peito; este vestido  especial para real-lo.
       Brianna confiou em que isso no significasse que o vestido no lhe cobriria os seios que a vendagem lhe tinha levantado e pareciam apontar ao teto. Mas no foi essa preocupao o que lhe distraiu do bate-papo da Fedra, a no ser a frase casual: " um amigo de seu pai".
       
       Yocasta nunca convidava a muita gente, mas aquela noite havia mais convidados que de costume: o advogado Forbes com sua irm solteira; o senhor MacNeil e seu filho; o Juiz Alderdyce, sua me e um par de filhos solteiros do Farquard Campbell- Nenhum era o lorde do que Fedra tinha falado.
       Brianna sorriu para si com amargura. "Deixa-os que olhem", pensou, endireitando as costas.
       Sua apario foi recebida com tanta cordialidade que se envergonhou de seu cinismo. Eram homens e mulheres bondosos, includa Yocasta, e a situao, depois de tudo, no era culpa dela.
       No obstante, desfrutou da expresso que o juiz tratou de ocultar ao ver seu ventre. Yocasta poderia propor mas a me do juiz disporia, disso no cabia dvida. Brianna saudou a senhora Alderdyce com um doce sorriso.
       O senhor MacNeill ocultou uma careta de diverso e a saudou com uma inclinao, perguntando por sua sade sem amostras de desconforto. Quanto ao advogado Forbes, recebeu-a com sua acostumada suavidade e discreta profesionalidad.
       -Ah, senhorita Fraser! -disse- Estvamo-la esperando. A senhora Alderdyce e eu discutamos amigavelmente sobre um tema de esttica. Voc, com seu instinto para a beleza, poder me dar sua valiosa opinio.
       Agarrou-a do brao, afastando a do MacNeill, que arqueou uma sobrancelha, para conduzi-la at a chamin. Em uma mesa havia quatro caixas de madeira, cada uma com uma pedra preciosa colocada sobre veludo azul.
       -Estou pensando em comprar uma destas pedras -explicou Forbes- para engast-la em um anel. Enviaram-nas de Boston. -Sorriu a Brianna com evidente satisfao por ter tirado um ponto na competncia com o MacNeill-. Me diga, querida, qual delas prefere? A safira, a esmeralda, o topzio ou o diamante?
       Pela primeira vez desde seu embarao, Brianna sentiu nuseas. Sua cabea parecia flutuar e lhe adormeciam os dedos. Safira, esmeralda, topzio, diamante. O anel de seu pai tinha um rubi. Cinco pedras de poder, os pontos do pentagrama do viajante, a garantia de uma passagem segura. Para quantos? Sem pens-lo ps uma mo protetora sobre seu ventre.
       deu-se conta da armadilha do Forbes. Deixava-a escolher e dava de presente a pedra em pblico, forando-a, acreditava ele, a aceit-lo ou a recha-lo protagonizando uma desagradvel cena. Geraid Forbes no sabia nada sobre mulheres, pensou Brianna.
       -Ah... no queria aventurar uma opinio sem ouvir antes a da senhora Alderdyce -disse, obrigando-se a sorrir cordialmente  me do juiz, quem a olhava entre surpreendida e agradecida pela deferncia.
       A senhora Alderdyce estendeu seu dedo artrtico para a esmeralda e explicou os motivos de sua eleio, mas Brianna no emprestava ateno. Um sbito impulso selvagem se apoderou dela.
       Se dizia sim, agora, essa noite, enquanto ele ainda tnia as quatro pedras... poderia engan-lo, beij-lo e roubar-lhe Sim, podia... E logo, o que? Escapar s montanhas com as pedras? Deixar a Yocasta com a desonra e fugir como uma benjamima? E como ia chegar s Antilhas antes de que nascesse o menino? Contou os meses mentalmente sabendo que era uma loucura, mas... podia faz-lo.
       As pedras brilhavam: tentao e salvao. Todos as olhavam entre murmrios de admirao.
       Embora no o quisesse, o plano se desenvolvia ante seus olhos. Podia roubar um cavalo e dirigir-se ao vale Yadkin. face  proximidade do fogo sentiu um calafrio. Podia esconder-se nas montanhas e esperar a que retornassem com o Roger. Estaria sacrificando sua nica possibilidade de retornar, esperando a um homem que podia estar morto e que, se no o estava, podia rechaar a seu filho?.
       -Senhorita Fraser?      
       Forbes esperava ansioso. 
       -So todas muito formosas -disse, surpreendida por sua prpria frieza-, Mas no posso escolher nenhuma porque no sinto uma preferncia especial pelas pedras preciosas. Temo-me que meus gostos so muito simples.
       Captou um brilho de sorriso no rosto do MacNeill e o rubor no do Forbes.
       -Acredito que no devemos esperar mais para o jantar -murmurou Yocasta em seu ouvido-. Se se atrasou lorde...
       Ulises apareceu naquele instante na porta, com. seu elegante librea. Com voz melflua disse:
       -Lorde John Grei, senhora.
       E se retirou a um lado.
       Yocasta suspirou com satisfao e empurrou a Brianna para a figura esbelta que aguardava.
       -Ser sua companheira para o jantar, querida.
       Brianna olhou para a mesa, mas as pedras preciosas j tinham desaparecido.
       
       Lorde John Grei a surpreendeu. Tinha ouvido sua me falar dele: soldado, diplomtico e nobre; assim esperava um homem alto e imponente. Em lugar disso se encontrou com um homem bastante mais baixo que ela, de compleio magra, com olhos grandes e belos e um rosto e uma pele que como nicos rasgos masculinos tinham a firmeza da boca e a mandbula.
       Pareceu assombrado ao v-la; muita gente se surpreendia ante sua altura; mas logo desdobrou seu encanto e falou sobre viagens, admirou os quadros que Yocasta tinha no comilo e lhes transmitiu as notcias que tinha sobre a situao poltica da Virginia. Mas no mencionou a seu pai e Brianna se sentiu agradecida por isso.
       Brianna os ouvia falar e pensava que eram todos escoceses, bons mas prticos. Yocasta a queria, mas era evidente que pensava que seguir esperando era uma loucura. por que sacrificar a possibilidade de um bom matrimnio slido e respeitvel pela esperana do amor?
       O mais terrvel era que ela tambm sabia que era uma loucura. Se seus pais voltavam Y... e Roger no vinha com eles... Possivelmente no encontrassem aos ndios que o tinham levado. Ou o faziam e resultava que Roger tinha morrido pelas torturas infligidas ou por alguma enfermidade. Ou se negava a retornar porque no desejava voltar a v-la. Ou retornava pelo absurdo sentido da honra escocesa, decidido a aceit-la, mas odiando-a durante o resto de sua vida. Ou retornava, via o menino Y... Ou no retornava nenhum deles e ela viveria ali, para sempre, s com sua culpa, atada por um cordo umbilical podre pelo peso morto daquele menino.
       -Senhorita Fraser? Senhorita Fraser, encontra-se bem?
       -No muito -respondeu-. Acredito que me vou deprimir.
       E o fez, arrastando porcelana e toalhas em sua queda.
       
       Tudo tinha trocado outra vez, pensou, rodeada do afeto e a preocupao da gente. Quando finalmente a deixaram sozinha, a verdade apareceu em sua mente. Era o momento de chorar por todas suas perdas: por seu pai e seu apaixonado, por sua famlia e sua me, pela perda do tempo, do lugar e de tudo o que deveu ser e nunca seria.
       Mas no podia chorar. Tentava-o sem consegui-lo. Bom, ela tambm era meio escocesa, murmurou para se. E tambm era teimosa. Eles retornariam, todos, sua me, seu pai e Roger.
       A porta se abriu e apareceu a silhueta da Yocasta.
       -Brianna?
       -Estou aqui, tia.
       Yocasta entrou na habitao, seguida por lorde John e Ulises, com uma bandeja com o ch.
       -Como est, criatura? Fao chamar o doutor Fentiman?
       Passou uma mo pela frente da Brianna.          
       -No! -Conhecia-o e no gostava-. N... no, obrigado. J estou bem. Foi s um enjo
       -Ah, bom. -Yocasta se voltou para lorde John-. Lorde John parte amanh ao Wilmington e queria despedir-se, se se sentir bem.
       -Sim,  obvio.
       sentou-se e apoiou os ps no cho. Sua tia devia estar desiludida, mas podia ser amvel.
       Ulises deixou a bandeja e saiu detrs de seu Yocasta deixando-os sozinhos.
       Sem esperar convite, agarrou uma banqueta e se sentou.
       -Est bem, senhorita Fraser? No queria v-la desabar-se entre as taas de ch.
       Sorriu e Brianna se ruborizou.     
       -Estou bem -disse cortante-. Tinha algo que me dizer?
       No lhe surpreendeu sua brutalidade.
       -Sim, mas pensei que talvez preferiria que no o fizesse diante de todos. Tenho entendido que est interessada no paradeiro de um homem chamado Roger Wakefield.
       -Se. Como sabe-.? Sabe onde est?
       -No. -Viu que o rosto da jovem trocava e lhe agarrou uma mo-. No, sinto muito. Seu pai me escreveu faz uns trs meses me pedindo ajuda para encontrar a esse homem. Lhe ocorreu que podia haver-se embarcado e me ocupei de averigu-lo.
       Sentiu uma onda de remorso ao dar-se conta de tudo o que tinha feito seu pai para encontrar ao Roger.
       -No est em nenhum navio.
       surpreendeu-se ante a segurana da Brianna.
       -No encontrei provas de que estivesse entre o Jamestown e Charleston. Mas amanh viajo ao Wilmington; cabe a possibilidade de que tenha subido a bordo sem que o registrassem at chegar a porto.
       -No  necessrio que v- Sei onde est.
       Em poucas palavras lhe narrou os fatos.
       -Jamie, seu pai, quer dizer, seus pais foram resgatar a esse homem dos iroqueses?
       Sem perguntar serve duas taas de ch e lhe entregou uma
       -Sim, eu queria ir com eles, mas...
       -Sim, j vejo -disse com delicadeza. Olhou de esguelha seu ventre e tossiu-. Suponho que h certa urgncia em encontrar ao senhor Wakefield.  
       Brianna riu sem nenhuma alegria.
       -Posso esperar. Pode me dizer algo, lorde John? ouviu falar alguma vez de um matrimnio de palavra?
       -Sim -disse lentamente-. Um costume escocs: um matrimnio temporrio, no  assim?
       -Sim. O que quero saber  se aqui  legal.
       Lorde John se esfregou o queixo com gesto pensativo.
       -No sei -disse finalmente-. Nunca o considerei do ponto de vista da lei. Mas a qualquer casal que convive como marido e mulher lhes pode considerar um matrimnio, segundo o direito consuetudinrio. Acredito que o matrimnio de palavra pode ser um caso similar.
       -Poderia ser, salvo que ns, obviamente, no vivemos juntos -disse suspirando-. Eu acredito que estou casada, mas minha tia no. Segue insistindo em que Roger no retornar, ou que embora o faa, no estou legalmente unida a ele. Inclusive para o costume escocs, no estou ligada a ele mais que por um ano e um dia. Quer me escolher um marido e a f que o est tentando. Quando me anunciaram sua chegada, pensei que se tratava de outro candidato.
       Lorde John pareceu divertir-se ante a idia.
       -Ah, isso explica os convidados ao jantar. Esse Juiz, Alderdyce, parecia muito interessado em voc.
       -No lhe servir de muito -disse Brianna com desprezo-. Teria que ter visto as olhadas que me lanava a senhora Alderdyce. Ela no permitir que seu corderito, que deve ter como quarenta anos, perca-se com a rameira local. Acredito que no lhe deixar voltar.
       Grei sorriu zombador e se levantou para servir uma taa de xerez.
       -Ah! Bom, embora admire sua estratgia, senhorita Fraser, lamento lhe informar de que suas tticas no servem para o terreno que escolheu.
       -O que quer dizer com isso?
       -A senhora Alderdyce- Eu tambm me fixei em como a observava durante a velada. Mas me temo que voc entendeu mal suas intenes. No a olhava com ultrajada respeitabilidade, a no ser com cobia.
       Brianna se endireitou em seu assento.
       -Como?
       -Cobia de abuelita. J sabe, o desejo de uma mulher maior de ter um neto em suas saias. -levou-se a taa at o nariz e cheirou-. Que delcia. Faz dois anos que no provo um xerez decente.
       -Ento, a senhora Alderdyce pensa que... que como posso ter filhos poderei lhe dar netos? Mas isso  ridculo! O juiz pode escolher qualquer moa s e de bom carter -acrescentou com ironia- e estar seguro de que ter filhos.
       -Bom, no. Acredito que ela sabe que seu filho no pode, ou no quer, que para o caso  o mesmo. -Olhou-a com seus olhos celestes sem pestanejar-. Voc mesma o disse, tem quarenta anos e  solteiro.
       -Quer dizer...? Mas  um juiz!
       deu-se conta da tolice de sua exclamao e Grei riu.
       - o mais provvel. Voc tem razo, poderia escolher a qualquer moa. Mas no o fez... Acredito que a senhora Alderdyce se deu conta de que casar a seu filho com voc  a melhor e talvez a nica possibilidade de ter o neto que tanto deseja.
       -Maldio! Estou condenada. Casaro-me com qualquer, faa o que faa!
       -me permita duvidar disso -disse com um sorriso-. Por isso vi, voc tem a brutalidade de sua me e o sentido da honra de seu pai. E todo isso ser suficiente para preserv-la.
       -No me fale do sentido da honra de meu pai -disse cortante-. O me meteu nesta confuso!
       -Impressiona-me -disse com amabilidade e muita calma.
       -Sabe perfeitamente que no  isso o que queria dizer!
       -Minhas desculpas, senhorita Fraser -disse, escondendo um sorriso-. Ento, o que queria dizer?
       -Referia a este problema em especial, que me ofeream como se fora um gatinho para que algum me recolha. E a que me tenha deixado sozinha aqui -terminou, com voz inesperadamente tremente.
       -por que est sozinha aqui? Pensei que sua me poderia haver...
       -Ela queria, mas no a deixei. Porque ela,.. o que passa  que ele... Isto  uma confuso!
       Deixou cair a cabea entre as mos, a ponto de chorar.
       -J vejo.  muito tarde e, se me perdoar a observao, precisa descansar.
       levantou-se e lhe ps uma mo nas costas. Foi um gesto amistoso e no condescendente, como o tivesse sido de outro homem.
       -Como parece que minha viagem ao Wilmington  desnecessrio, acredito que vou aceitar o amvel convite de sua tia e ficarei aqui uns dias. Voltaremos a falar e talvez encontremos algum paliativo a sua situao.
       
       59
       Chantagem
       
       A poltrona-privada era um magnfico mvel de mogno, muito adequado para uma fria noite de chuva como aquela. Brianna se levantou meio dormida e se sentou aliviando sua bexiga com prazer.
       antes de voltar-se para deitar, deteve-se ante a cama enrugada para olhar a beleza das colinas. Os cristais da janela estavam gelados; no nevava, mas era uma noite terrvel. O que fariam nas montanhas? Teriam encontrado ao Roger? estremeceu-se e sentiu o irresistvel desejo de voltar para a cama quente, mas se dirigiu para a porta e agarrou sua capa.
       As urgncias do embarao faziam necessrio que usasse a poltrona em sua habitao, mas tinha decidido que enquanto ela pudesse caminhar nenhuma criada tiraria seu bacinilla. abrigou-se com a capa, tirou o recipiente da poltrona e saiu ao corredor. A chuva geada castigou seu rosto e a fez ofegar. Uma vez passado o primeiro impacto do frio comeou a desfrutar; o vento era lhe vivifique e a fez sentir liviana pela primeira vez desde fazia meses. Esvaziou a bacinilla no privada e deixou que se limpasse com a chuva. sacudiu-se o cabelo molhado como se fora um co, at que um brilho de luz a fez deter-se.
       Uma porta da quadra dos escravos se abriu um momento e logo se fechou. Vinha algum? Pde ouvir passos sobre o cascalho e se escondeu entre as sombras. Quo ltimo queria era ter que explicar sua presena ali.
       A luz o iluminou ao passar. Era lorde John Grei, em mangas de camisa e sem chapu, com o cabelo revolto pelo vento, sem preocupar-se com o frio passou sem v-la e desapareceu pela entrada da cozinha. Ao dar-se conta de que corria perigo de ficar fora, correu atrs dele. Estava fechando a porta quando ela a empurrou e entrou precipitadamente na cozinha. Lorde John a contemplou com incredulidade.
       -Bonita noite para passear -disse Brianna sem flego. E com uma cordial saudao, passou por diante de Grei e subiu a escada, deixando os rastros de seus ps descalos no cho de madeira lustrada.
       J em seu dormitrio se secou o cabelo e a cara e se deitou nua na cama. Repassou todo o ocorrido, at que os pensamentos que flutuavam em sua mente durante aqueles dias adquiriram uma forma racional. Tinha que haver-se dado conta antes, pensou. J se tinha encontrado com essa indiferena em uma oportunidade, em um companheiro de quarto de um noivo ocasional. Mas lorde John sabia ocult-lo muito bem. Nunca o tivesse adivinhado de no hav-lo visto aquela noite saindo to entusiasmado das dependncias dos serventes.
       perguntou-se se seu pai saberia, mas rechaou tal possibilidade. depois de sua experincia na priso do Wentworth, no era possvel que fora amigo de lorde John sabendo a verdade.
       Caminhou nua pela habitao e se deteve ante a janela acariciando seu volumoso ventre. Logo seria muito tarde. Quando eles se foram, sabia que j era muito tarde, e sua me tambm. No tinham querido admiti-lo e fingiram que Roger chegaria a tempo para viajar juntos at A Espanhola e encontrar o passo atravs das pedras. Estavam a princpios de maro. Talvez lhe faltavam trs meses, possivelmente menos. A viagem at a costa lhes levaria uma ou duas semanas. E quanto demorariam at as Antilhas? Duas semanas, trs? Estariam no fim de abril e ainda teriam que encontrar a cova, o que supunha uma viagem lenta e perigosa atravs da selva, grvida de mais de oito meses. Isso se estivesse Roger. Mas no estava. Estava convencida de que se no pensava nas diferentes forma em que teria podido morrer Roger, este no estaria morto. Esse era um artigo de sua teimosa f; os outros eram que Roger no morreria e sua me chegaria a tempo, antes de que nascesse o menino. Quanto a seu pai, a ira a invadia cada vez que pensava nele; nele ou no Bonnet; assim tentava pensar o menos possvel neles.
        obvio que rezava, mas seu carter no era apropriado para rezar e esperar, estava feita para a ao. Se tivesse podido ir com eles em busca do Roger... mas no a tinham deixado escolher. S tinha tomado uma deciso, tinha eleito ficar com seu filho e agora deveria viver com as conseqncias. estremeceu-se pelo frio e se aproximou da chamin. O calor a acariciou como uma mo, e centrou sua mente na lembrana do Roger e a ternura de suas carcias. ("Desejaria ver seu rosto para saber o que sente e se o fizer bem. Voc gosta assim? me diga, Bri, me fale...") Ela tambm o tinha acariciado, explorando seu corpo, e havia sentido toda a fora do poder do Roger e o temor  penetrao se transformou em aceitao e recebimento para romper a ltima membrana que os separava, unindo-os para sempre em uma corrente de suor, sangue e smen.
       levantou-se e se dirigiu  cama. deixou-se cair como um animal ferido, tampou-se e ficou com as mos sobre o ventre, protegendo ao menino. Sim, era muito tarde. Devia deixar a um lado sensaes e desejos, amor e fria. Tema que tomar decises.
       
       Demorou trs dias em convencer-se das virtudes de seu plano, sobrepor-se a seus prprios escrpulos e encontrar o momento e o lugar para lhe falar a ss.
       Quando chegou sua oportunidade, levava um vestido azul que fazia jogo com seus olhos. Com o corao palpitante se dirigiu para sua vtima. Encontrou-o na biblioteca, lendo as Meditaes de Marco Aurelio. Levantou a vista ao v-la entrar e se aproximou para saud-la. "Um hipoptamo o faria com mais graa", pensou Brianna recolhendo-a saia para no se chocar contra uma mesita.
       -No, obrigado, no quero me sentar- Perguntava-me se no quereria me acompanhar a dar um passeio.
       Fazia muito frio, mas lorde John era um cavalheiro.
       -Nada eu gostaria mais -assegurou com galanteria e abandonou a Marco Aurelio sem vacilao.
       Era um dia radiante mas muito frio. Bem abrigados com as capas se dirigiram  horta, onde a perto os protegia do vento.
       -Tenho uma proposio que lhe fazer -disse finalmente Brianna.
       -Estou seguro de que, provindo de voc, ser algo encantado.
       -Bom, no sei. Mas l vai. Quero que se case comigo.
        Lorde John seguiu sonriendo. Era evidente que acreditava que se tratava de uma brincadeira.
       -Digo-o a srio -disse Brianna.
       O sorriso se alterou. Brianna suspeitou que tratava de reprimir uma gargalhada.
       -No quero seu dinheiro -lhe assegurou-. Estou disposta a assin-lo e no  necessrio que vivamos juntos, embora acredite que seria uma boa idia que v a Virginia com voc, ao menos durante um tempo. Quanto ao que posso fazer por voc... -Vacilou, porque sabia que essa era a parte mais fraco do trato-. Sou forte, mas isso no significa nada para voc, porque tem suficientes serventes. Sou uma boa administradora, posso levar as contas e acredito que posso me fazer carrego da propriedade que tem na Virginia enquanto voc est na Inglaterra. Y... voc tem um filho, no? Eu lhe cuidaria e seria uma boa me para ele.
       Lorde John se ficou imvel durante o discurso.
       -Deus dos cus. O que ter que ouvir! -Olhou-a diretamente aos olhos-. Est voc louca ou  o embarao?
       -No -respondeu, tentando conservar a compostura- Me escute, lorde John. No estou louca, no sou uma frvola e no quero lhe causar nenhum inconveniente, mas falo muito a srio.
       sentia-se mau, mas tinha que faz-lo. Tivesse desejado evit-lo, mas era impossvel.
       -Se no aceitar casar-se comigo, verei-me obrigada a lhe delatar.
       -Que far o que?.
       Sua mscara de urbanidade tinha desaparecido e a olhou intrigado.
       -Sei o que fazia a outra noite nas dependncias dos escravos. O contarei a todos: a minha tia, ao senhor Campbell e ao delegado. Escreverei cartas ao governador, e ao da Virginia tambm. Aqui levam aos p... pederastas  armadilha, o senhor Campbell me contou isso.
       As sobrancelhas de Grei se juntaram em uma s linha muito magra.
       -Deixe de me ameaar, por favor.
       Agarrou-a do cotovelo com firmeza e a obrigou a afastar-se da casa.                         
       No falou at que estiveram em um rinco protegido.
       -Estou um pouco tentado de aceitar sua ultrajante proposio-disse finalmente, com uma careta-. Com segurana agradaria a sua tia. Mas ultrajaria a sua me. E ensinaria a voc a no jogar com fogo, isso o asseguro.
       O brilho dos olhos de lorde John a fez duvidar de suas concluses sobre suas preferncias. apartou-se um pouco dele.
       -Pois no tinha pensado que,.. que voc podia... homens e mulheres, quero dizer.
       -Estive casado -assinalou com certo sarcasmo.
       -Sim, mas pensei que tinha sido um matrimnio como o que lhe estou propondo. Um acerto formal. Isso  o que pensei quando me dava conta de que voc... -interrompeu-se com um gesto de impacincia-. Est-me dizendo que gosta de deitar-se com mulheres?
       Lorde John arqueou uma sobrancelha.
       -Isso trocaria seus planos?
       -Bom... -disse insegura-. Sim, trocaria-os. De hav-lo sabido, no o tivesse sugerido.
       -Diz sugerido -murmuro-. Denncias pblicas? A armadilha? Sugerido?
       -Sinto muito, no o teria feito. Quando riu, no sei, mas nunca lhe houvesse dito uma palavra a ningum. Se queria deitar-se comigo no poderia me casar com voc, no estaria bem.
       Grei fechou os olhos e esperou um instante. Logo a olhou.
       -Porqu no?
       -Pelo Roger. -E lhe quebrou a voz- Maldio! Nem sequer queria pensar nele! -secou-se uma lgrima com fria-. Alm disso, agora choro por algo.
       -Eu no diria que isto  algo -disse secamente. 
       Respirou profundamente. Ficava uma ltima carta que jogar.
       -Se lhe gostarem das mulheres-, eu no posso, no quero me deitar com voc. E no me importaria que o fizesse com outros homens ou mulheres.
       -O agradeo -murmurou, mas Brianna fez caso omisso e seguiu falando,
       -Mas pode querer ter um filho prprio, no estaria bem privar o desse direito. Eu poderia lhe dar um filho, todos dizem que estou feita para a maternidade. Poderamos pr isso no contrato, o senhor Campbell pode faz-lo.
       Lorde John se esfregou a nuca como se lhe doesse a cabea. Logo a agarrou do brao.
       -Venha a sentar-se, criatura -disse com calma-.  melhor que me diga o que  o que quer.
       -No sou uma criatura -disse.
       -No, no o . Deus ajude a ambos. Mas antes de que faa que Campbell tenha um ataque de apoplexia com sua idia do contrato matrimonial, rogo-lhe que se sente comigo e pensemos juntos.
       sentaram-se, mas Brianna no podia ficar quieta, assim comearam a caminhar de novo, um ao lado do outro, sem tocar-se.
       -Estive pensando e pensando e no me ocorria nada. d-se conta? Minha me e P esto longe. Pode-lhes ocorrer algo e ao Roger pde ocorrer de tudo. E eu estou aqui, engordando cada dia mais. E no h nada que possa fazer!
       Olhou-o e se secou o nariz.
       -No estou chorando -assegurou, embora o estava.
       - obvio que no. -Agarrou-lhe a mo e a apoiou em seu brao-O cria ou no, esperar  tudo o que pode fazer em seu estado. por que no pode esperar at ver se a busca de seu pai tem xito?  seu sentido da honra o que lhe impede de ter um filho sem pai?
       -No  minha honra.  o seu, o do Roger. O me seguiu; deixando-o tudo, quando devi buscar a meu pai. Mas quando souber isto -tocou-se o vientre,se- querer casar comigo e no posso deixar que o faa.
       -por que no?      
       -Porque lhe amo- No quero que se case comigo por obrigao. Tenho-o decidido.
       -J vejo. Bom, estou de acordo com sua tia quanto a que necessita um marido. Mas por que eu?  por meu ttulo, ou por minha riqueza?
       -Por nenhuma das duas coisas. Era porque estava segura de que no gostava das mulheres -disse, olhando-o com ingenuidade.                                    
       -Eu gosto das mulheres -disse irritado-. Admiro-as e as respeito, e por vrias tenho um considervel afeto, entre elas, sua me, embora duvide que seja um sentimento recproco. Entretanto, no encontro prazer na cama com elas. fui bastante claro?
       -Se.  o que pensei. d-se conta de que no seria correto me casar com o MacNeill ou com qualquer desses homens? Teria que prometer algo que no posso dar. Mas voc no o quer, assim no vejo razo para que no possa me casar com voc.
       -Entretanto a h, e muitos.
       -Quais?
       -Por nomear alguma, seu pai me romperia o pescoo.
       -por que? -quis saber com rosto carrancudo-. Diz que voc  um de seus melhores amigos.
       -Sinto-me honrado por sua estima. Entretanto, essa estima desapareceria assim que Jamie Fraser descobrisse que sua filha serve de algema a um degenerado sodomita.
       -E como ia descobrir o? Eu no o diria. -encontrou-se com o olhar ofendido de Grei e de repente comeou a rir. O no pde menos que imit-la-. Bom, sinto muito, mas voc o disse.
       -Se, claro, eu o disse. -Tratou de sec-la nariz, mas no tinha leno-. Maldio, onde est meu leno? Disse-o porque  verdade. E quanto a seu pai, sabe muito bem.
       -Sabe? -Pareceu muito surpreendida-. Mas eu pensei que ele nunca...
       Uma das criadas da cozinha apareceu no pomar. Lorde John ficou em p e lhe deu a mo. Seguiram caminhando at um banco de pedra mais afastado.
       -O que era isso de me ensinar a no jogar com fogo? O que queria dizer com isso?
       -Nada.
       Agora lhe tocou ruborizar-se a ele.
       -Nada, n? Se alguma vez ouvi uma ameaa, foi essa. Suspirou e se secou com o leno que Brianna lhe tinha dado.
       -Foi sincera comigo, muito franco, assim que lhe responderei. Sim, suponho que era uma ameaa. Voc  igual a seu pai, no se d conta?
       Olhou-o com as sobrancelhas franzidas, sem entender. At que o contemplou assombrada.
       -Voc no... P no! Ele no!
       -No -disse, com secura lorde John-. Ele no. E no posso me aproveitar de seu parecido com ele, a ameaa foi semelhante a que voc me fez ao dizer que o contaria a todos.
       -Onde conheceu meu pai? -perguntou com curiosidade.
       -Na priso. Sabia que esteve na priso depois do levantamento?
       Brianna assentiu.
       -Bom, digamos que senti um afeto especial pelo Jaime Fraser durante vrios anos. -Suspirou-. E voc vem com seu inocente corpo, um reflexo de sua carne, e me oferece um filho que mesclaria meu sangue com a do Jamie. E tudo porque sua honra no a deixa casar-se com o homem que ama nem amar ao homem com o que se case. -agarrou-se a cabea com as mos e continuou-. Criatura, voc faria chorar a um anjo e Deus sabe que eu no sou um anjo.
       -Minha me pensa que sim.
       Contemplou-a assombrado.
       -Que pensa o que?
       -Bom, talvez exagere, mas diz que voc  um homem bom. Acredito que a seu pesar voc gosta, agora a entendo. Ela deve conhecer seus... sentimentos sobre...
       ruborizou-se e tossiu.
       -Diabos -murmurou-. Maldio. Sim, ela sabe. Embora no estou seguro de por que me olhe com suspicacia. Cimes no podem ser.
       -Acredito que  porque tem medo de que voc lhe faa mal -disse Brianna-. Tem medo por ele.
       Observou-a atnito.
       -lhe fazer danifico? Como? Acredita que o vou submeter e lhe fazer cometer depravaes indignas?
       -Alguma vez viu meu pai sem camisa?
       -refere-se s cicatrizes das costas?
       Brianna assentiu.
       -Sim, vi-as. As fiz eu.         
       ficou plida e o olhou com os olhos muito abertos.
       -No todas. Tinham-no aoitado antes, o que fazia que tudo fora pior, porque ele sabia o que fazia.
       -Fez... o que?
       -Eu era o comandante da priso do Ardsmuir. O disse? No, suponho que no. Ele era um oficial, um cavalheiro. O nico oficial que havia ali. Comamos juntos em meu escritrio. Jogvamos xadrez, falvamos de livros, tnhamos interesses comuns e nos fizemos amigos. E logo... deixamos de s-lo.
       ficou em silncio.
       -Quer dizer... que o fez aoitar porque no quis...
       -No, maldio, no! Como se atreve a pensar algo assim?
       -Mas voc disse que o tinha feito!
       -Ele o fez.
       -Mas a gente no pode aoitar-se a si mesmo.
       -Ao diabo com que no se pode. Por isso me contou, voc o vem fazendo h meses.
       -No estamos falando de mim.
       - obvio que sim.
       -No, no  assim! Que diabos quer dizer com que ele o fez?
       -O que estou fazendo aqui? Devo estar louco para falar com voc disto.
       -No me importa se estiver louco ou no. me diga o que aconteceu!
       Apertou os lbios e, por um momento, Brianna acreditou que no ia falar.
       -Fomos amigos. Ento... descobriu o que sentia por ele e por sua eleio deixamos de s-lo. Mas isso no foi suficiente para ele e deliberadamente procurou um final drstico. Mentiu durante uma requisio na quadra dos prisioneiros: declarou que uma parte de tartn era dele. Ia contra a lei, ainda est proibido em Esccia.
       Suspirou profundamente e seguiu falando sem olh-la.
       -Eu era o comandante, o encarregado de fazer cumprir a lei. Estava obrigado a aoit-lo e ele o sbia. Podia perdoar que no me quisesse -disse com amargura-, Mas no podia lhe perdoar por me obrigar a lhe fazer isso. No s me forou a machuc-lo, mas tambm tambm a humilh-lo. No se limitou a no aceitar meus sentimentos, mas sim os destruiu. Era muito para mim.
       -Havia uma razo. No era por voc, mas deve contar-lhe ele. Entretanto, voc o perdoou. por que?
       -Tive que faz-lo. Odiei-lhe todo o tempo que pude. Mas ento me dava conta de que quer-lo formava parte de mim e era uma de meus melhores parte. No importava que ele no pudesse me amar, isso no tinha nada que ver. Mas se no o perdoava no poderia am-lo, e isso me fazia falta. -Sorriu fracamente-. Assim j v, foi por egosmo. 
       Oprimiu-lhe a mo, ficou em p e a ajudou a levantar-se.
       -Vamos, querida Nos congelaremos se ficamos mais tempo aqui.
       Caminharam muito juntos e em silencio para a casa. Quando chegaram  horta Grei comeou bruscamente a falar.
       -Acredito que tem razo. Viver com algum ao que se ama, sabendo que tolera a relao por obrigao..., no, eu tampouco o faria. Mas se for um assunto de convenincia e respeito por ambas as partes, ento sim, um matrimnio assim  honorvel. Sempre e quando ambas as partes sejam sinceras e no haja motivo de vergonha.
       -Ento, aceita minha proposta?
       No sentiu o alvio esperado.
       -No. Pude perdoar ao Jamie Fraser no passado, mas ele nunca me perdoar se me caso com voc. -Sorriu e lhe apertou a mo-. Mas acredito que posso lhe dar uma pausa com seus pretendentes e com sua tia.
       Olhou para a casa e continuou:
       -Acredita que algum nos est observando?
       -Eu apostaria a que fui-dijo Brianna.
       -Bem. -tirou-se o anel de safira que levava e lhe agarrou a mo. Logo o colocou ceremoniosamente no dedo mindinho da jovem, o nico no que lhe entrava, ergueu-se e a beijou nos lbios. Sem lhe dar tempo a recuperar-se da surpresa, agarrou-a da mo e se voltou para a casa-. Vamos, querida -disse-. Anunciemos a todos nosso compromisso.
       
       60
       Julgamento pelo fogo
       
       Deixaram-nos sotos durante todo o dia. O fogo se apagou e no ficava comida. No importava, nenhum dos dois tinha fome e nenhum fogo poderia esquentar a alma geada do Roger.
       Os ndios retornaram ao entardecer. Vrios guerreiros escoltavam a um ancio com o rosto pintado de vermelho e vestido com uma capa; o sachem levava um recipiente com lquido negro.
       Alexandre estava vestido e ficou em p, sem falar. O sachen comeou a cantar enquanto pintava de negro a cara do sacerdote. Os ndios se retiraram e o sacerdote se sentou com os olhos fechados. Roger tratou de lhe falar, de lhe oferecer gua ou companhia, mas Alexandre no respondeu. At que, finalmente, falou.
       -No fica muito tempo -disse brandamente-. Antes lhe pedi que rezasse por mim, no sabia se por minha alma ou por meu corpo. Agora sei que nada disso  possvel. S h uma coisa que quero lhe pedir. Reze por mim, irmo, para que possa morrer em silncio. No quero envergonh-la a ela gritando.
       Pouco depois de obscurecer, os tambores comearam a soar. Roger no os tinha ouvido antes na aldeia. Era impossvel dizer quantos eram; o som parecia vir de todas partes. Os mohawk retornaram. Quando entraram, o sacerdote ficou em p imediatamente. despiu-se ele mesmo e saiu, nu e sem olhar atrs.           
       Roger ficou rezando e escutando. Sabia o que podia fazer um tambor, ele mesmo o tinha feito: evocar o temor reverente e a fria com os golpes, chegando aos mais profundos e ocultos instintos dos que escutavam. Entretanto, o saber o que acontecia no o fazia menos terrorfico.
       de repente os tambores se detiveram. Logo comearam outra vez; uns poucos golpes e cessaram. Houve gritos e uivos. Roger tentou espiar atravs da porta, mas o guarda que estava ali levantou a lona e lhe fez gestos ameaadores com a lana.
       Ento pareceu como se todos os demnios do inferno estivessem soltos. O que acontecia? Uma luta terrvel, isso era evidente. Mas entre os quais e por que? Depois da primeira gritaria baixou o nvel dos uivos; ouviam-se chiados individuais e toda classe de rudos e gemidos que indicavam um combate violento. Algo golpeou a choa, abrindo uma fissura. Roger olhou para a porta. O guarda no o observava, assim alargou o buraco com os dedos para poder olhar.
       O nico visvel era um estreito espao no claro central, onde destacava a enorme fogueira. Umas sombras avermelhadas e amareladas lutavam contra outras negras como se fossem demnios ferozes. Alguns dos demnios eram reais; duas figuras escuras passaram lutando abraadas. Mais figura cruzaram sua linha de viso correndo para o fogo. ficou rgido em meio dos incompreensveis uivos; podia jurar que algum tinha gritado em galico. "Caisteal DhunU", gritou algum nas imediaes, e depois ouviu um guincho. Escoceses, homens brancos! Tinha que chegar at eles! Roger golpeou a parede de madeira tentando abrir-se passo com os punhos.
       Outra voz em galico. E outra. E logo a primeira, que lhe respondia: "Dou meu! Dou meu!". A mim! A mim! Logo ouviu uma srie de gritos dos ndios e vozes de mulheres, pois eram mulheres quem gritava agora. Suas vozes eram mais force que as dos homens.
       Roger tentou vrias vezes romper a parede sem resultado. No havia nada ali que pudesse usar como arma, nada. Em seu desespero, atirou de uma das madeiras da cama, at conseguir um madeiro de quase dois metros com a ponta afiada. lanou-se para a porta e saiu  escurido e s chamas, ao ar frio e  fumaa. Viu uma figura e carregou contra ela. O homem se fez a um lado e levantou seu pau. Roger no podia deter-se nem voltar-se atrs, esmagou-se contra o cho e o pau se estrelou a poucos centmetros de sua cabea.
       Rodou e agitou seu madeiro, golpeando na cabea do ndio, que caiu sobre o Roger.
       Usque. O homem cheirava a usque. Sem deter-se fazer averiguaes, conseguiu ficar em p sustentando o madeiro na mo.
       Um grito lhe chegou desde atrs e se voltou. O homem ao que tinha golpeado tratava de lhe tirar o pau. Conseguiu liberar-se e o homem voltou a cair.
       Roger se cambaleou e se voltou para o fogo. Era uma imensa fogueira cujas chamas se elevavam contra a escurido da noite. Entre as cabeas dos observadores divisou a figura negra, atada a um poste no centro da pira, com os braos abertos em sinal de bno. Ento algo golpeou sua cabea e o fez cair.
       No perdeu do todo o conhecimento. No podia ver nem mover-se, mas ainda podia ouvir. Havia vozes prximas e os gritos soavam como o rugido do oceano. Sentiu que o levantavam no ar e o som do fogo se fez mais prximo. Mierda, foram atirar o  fogueira! Estirou a cabea, mas seu corpo no se podia mover. O rudo do fogo diminuiu, mas, paradoxalmente, sentiu o ar quente em seu rosto. Depois de um golpe tocou a terra com os dedos. Respirou mecnica e lentamente enquanto a sensao de enjo ia desaparecendo.
       Abriu os olhos e se deu conta de que estava outra vez na choa. Tratou de conter a respirao e no pde. Ouvia uma respirao pesada e ofegante que no era a sua. Soava debaixo dele. Com grande esforo, ficou a quatro patas, com os olhos fechados pela imensa dor na cabea.
       -minha me -murmurou, passou-se a mo pela cara e piscou, mas o homem seguia ali, a menos de dois metros de distncia. 
       Jamie Fraser. Estava atirado a seu lado com a metade da cara obscurecida pelo sangue, mas era inconfundvel. Roger o olhou sem alterar-se. Durante meses se imaginou um encontro com aquele homem. Agora tinha acontecido e parecia simplesmente impossvel. No podia sentir outra coisa que assombro.
       voltou-se a esfregar a cara. O que... o que estava fazendo Fraser ali? Quando seus pensamentos e sentimentos se conectaram outra vez, o primeiro que sentiu no foi fria nem temor, a no ser um absurdo alvio.
       -Ela no o fez -murmurou, e sua voz soou estranha a seus ouvidos-. No foi ela!
       Jamie Fraser estava ali por uma nica razo: resgat-lo. E se era assim, era porque Brianna lhe tinha obrigado. Todos os mal-entendidos ou a malevolncia que lhe tinha feito acontecer aquele inferno, no eram obra dela. Acreditava que ia viver para sempre com esse vazio, mas agora havia algo slido em seu corao. Brianna. Tinha-a de novo.
       Morrer sabendo que Brianna o amava ainda era melhor que morrer sem sab-lo, mas no desejava morrer. Recordou o que tinha visto fora e vomitou.
       Com mo tremente comeou a fazer o sinal da cruz-se. arrastou-se at o corpo do Fraser, confiando em que o homem estivesse vivo. E assim era. Saa-lhe sangue de uma ferida na nuca, mas quando lhe buscou o pulso no pescoo, pde senti-lo. Encontrou um recipiente com gua. Molhou o bordo da capa e comeou a lhe lavar a cara. Ao pouco momento, Jamie comeou a piscar. Logo tossiu, moveu a cabea a um lado e vomitou. Ento abriu os olhos e, antes de que Roger pudesse falar ou mover-se, apoiou-se sobre um joelho, com a mo na faca que tinha na mdia.
       Os olhos azuis o olharam furiosos e Roger levantou um brao para defender-se. Ento Fraser piscou, sacudiu a cabea, grunhiu e se sentou pesadamente no cho.
       -Ah,  voc -disse.
       Fechou os olhos e voltou a gemer. Depois levantou a cabea e abriu os olhos, mas esta vez com um olhar de alarme.
       -Claire! -exclamou-. Minha esposa, onde est?
       Roger o olhou boquiaberto.
       -Claire? Trouxe-a aqui? trouxe para uma mulher a isto?.
       Fraser o olhou com profundo desgosto, mas no gastou palavras. Tocando a faca olhou fazia a porta. A lona estava baixada e no se via ningum. Os rudos se acalmaram, embora chegava o murmrio de vozes.
       -H um guarda -disse Roger.
       Fraser o olhou de esguelha e ficou em p. O sangue ainda corria por sua cara mas parecia no lhe importar. Em silncio se aproximou da porta e levantou uma esquina para olhar. Fez uma careta ante o que via, retornou, sentou-se e guardou a faca em seu lugar.
       -H uma dzia fora. Isso  gua?
       Estendeu a mo e Roger a alcanou. Bebeu e logo se atirou gua na cara e a cabea, secou-se e olhou ao Roger.
       -Wakefield, no?
       -Agora uso meu prprio sobrenome. MacKenzie.
       Fraser deixou escapar um bufo zombador.
       -Isso me ho dito. -Tinha uma boca larga e expressiva, como a do Bri-, Equivoquei-me contigo, MacKenzie, como j deve saber. Vim para arrumar as coisas, mas talvez no tenha a possibilidade. -Fez um gesto para a porta-. por agora, tem minhas desculpas. Para qualquer outra satisfao que queira, e suponho que ser assim, devo te pedir que esperemos at sair daqui.
       Roger o contemplou durante um momento e assentiu.
       -Feito-disse.
       Permaneceram sentados em silencio durante um momento.
       -O que acontece a fora? -perguntou Roger, assinalando para a porta.
       Fraser respirou profundamente e suspirou. Pela primeira vez, Roger se deu conta de que se sustentava o cotovelo direito com a mo esquerda e se sujeitava o brao contra o corpo.
       -Maldita seja se sei.
       -queimaram ao sacerdote? Est morto?
       No tinha dvidas depois do que tinha visto, mas Roger sentiu a necessidade de perguntar.
       -Era um sacerdote? -Arqueou as sobrancelhas com surpresa-. Sim, est morto. E no s ele.
       estremeceu-se involuntariamente.
       Fraser no sabia o que foram fazer quando comearam a tocar os tambores e se reuniram ao redor da grande fogueira. Falavam muito, mas seu conhecimento da lngua era insuficiente para compreend-los e seu sobrinho, que falava mohawk, no aparecia por nenhum lado.
       Os brancos no estavam convidados mas ningum os apartou. Assim foi como Claire e ele ficaram no bordo da multido quando chegou o sachem e os membros do Conselho. O ancio comeou a falar e tambm o fez outro homem, muito zangado.
       -Ento levaram a homem nu e o ataram a uma estaca. -Fez uma pausa e olhou de esguelha ao Roger-, Vi aos verdugos franceses manter com vida a um homem que tivesse preferido estar morto. Isto no foi pior, mas tampouco melhor.
       Fraser, sedento, bebeu outra vez.
       -Tratei de afastar ao Claire, porque no sabia o que fariam depois.
       Mas a gente no os deixava mover-se e no ficou mais remedeio que seguir olhando.
       Roger sentiu que lhe secava a boca. No queria perguntar, mas tinha a perversa necessidade de saber, tanto pelo Alexandre como por ele mesmo.
       -Ele... ele gritou?
       Fraser o contemplou surpreso, logo pareceu compreender.
       -No -disse muito lentamente-. Morreu bem. Conhecia-o?.
       Roger assentiu sem palavras. Era difcil acreditar que Alexandre se foi. Onde se tinha ido? "No serei perdoado." Certamente no.
       -Quantos homens trouxe com voc?
       Os olhos azuis resplandeceram de assombro.
       -A meu sobrinho Ian.
       -Isso  tudo?
       Roger no pde evitar que se notasse sua incredulidade.
       -Esperava aos 78 Regimento Highland? -perguntou Fraser com sarcasmo. ficou em p com cuidado sustentando o brao-. Traje usque.
       -Usque? Teve que ver com a briga?.
       -Pode ser.
       Fraser se aproximou do buraco da choa, apoiou um olho e ficou olhando durante um momento. Fora as coisas se acalmaram. O enorme escocs tinha muito mau aspecto. A cara branca e suarenta estava cheia de marcas de sangue seca. Roger serve mais gua e a deu. Mas sabia que as feridas no eram sua preocupao.
       -Quando a viu por ltima vez?
       -Quando comeou a briga. -Incapaz de ficar sentado, Fraser ficou em p e comeou a passear-se como um urso inquieto-. Tem idia do que acontecia?
       -Posso sup-lo. -Informou ao Fraser sobre a histria do sacerdote e sentiu certo alvio ao faz-lo-. No tm por que lhe fazer danifico. No tem nada que ver com isto.
       Fraser deixou escapar um grunhido de desgosto.
       -Sim. Maldita mulher!
       E pegou um murro no cho.
       -Estar bem -repetiu com teima Roger- Ouvi seu sobrinho durante a briga. Ouvi-o quando lhe chamava e parecia estar bem.
       Roger sabia que essa informao no era suficiente para tranqilizar ao Fraser.
       - um bom moo -murmurou Fraser com a cabea inclinada sobre os joelhos-. E tem amigos entre os mohawk. Deus queira que o tenham protegido.
       Roger voltou a sentir curiosidade.
       -Sua esposa -disse-. O que  o que fez? Como pde envolver-se nisto?
       Fraser suspirou.
       -No devi dizer isso. Em realidade, no foi culpa dela. Mas se a ferem...
       -No o faro-disse Roger com firmeza- O que aconteceu?
       Fraser se encolheu de ombros e fechou os olhos.
       -No vi a moa em meio de toda essa gente. Nem sequer sei que aspecto tnia, at o final no a vi. Claire estava a seu lado. Quando os ndios quase tinham terminado com o sacerdote, desataram-no do poste, ataram-lhe as mos a um comprido pau pendurado sobre sua cabea e o suspenderam sobre as chamas.                        
       Fraser o olhou e se secou os lbios com a mo.
       -Em uma ocasio vi como lhe arrancavam o corao a um homem -disse-. Mas no que o comessem ante seus olhos. Falava quase com acanhamento, como sim se desculpasse por ser afetado. Impressionado, tinha cuidadoso ao Claire. Foi ento quando viu a jovem a ndia a seu lado, com o bero entre os braos. Com muita calma, a moa a entregou ao Claire e se deslizou entre a multido.   
       -No olhou nem a direita nem a esquerda, caminhou diretamente para o fogo.
       -Como?
       Roger sentiu que lhe fechava a garganta.
       -As chamas a envolveram; quando chegou at ele era como uma tocha e se converteram em uma nica figura negra entre as chamas que subiam. Ento foi quando todos enlouqueceram. Tudo o que sei  que uma mulher uivou e se desatou o inferno, e todos comearam a brigar. 
       Tratou de proteger ao Claire e abrir-se passo. Incapaz de escapar, empurrou ao Claire contra uma choa e agarrou um madeiro para defender-se, gritando e chamando o Ian.
       -Algum me golpeou, dava-me a volta para brigar e outros trs me jogaram em cima. -Algo lhe golpeou na nuca e no soube nada mais at que despertou na choa com o Roger.-Aps no sei nada do Claire, nem tampouco do Ian.
       
       O fogo se consumia e fazia frio na choa. Jamie se cobriu com a capa como pde e se apoiou em um lado. Seu brao direito devia estar quebrado pela forma em que lhe doa, mas nada disso tinha importncia comparado com sua preocupao pelo Claire e Ian.
       Era muito tarde. Se Claire no tinha sido ferida estaria a salvo, disse-se. A anci no deixaria que lhe fizessem mal. E quanto ao Ian, sentiu uma onda de orgulho em que pese a seu medo; era uma boa lutadora e uma honra para ele, Jamie, que lhe tinha ensinado a defender-se.  
       Roger estava sentado frente ao fogo com os braos sobre os joelhos e a cabea inclinada, sem notar que Jamie o observava.
       No teve mais remedeio que admitir que o homem tinha um bom corpo. Pernas largas e costas largas. Era alto como todos os MacKenzie do Leoch e descendente do Dougal, pensou sbitamente, embora umas quantas geraes mais adiante. Dougal tinha sido seu padrasto e, para ser sinceros, tinha que reconhecer que uma parte dele tinha amado a aquele homem. Se teve que mat-lo foi porque no ficava eleio: era matar ou que lhe matassem.
       Sim, dava-lhe certo consolo o saber que ficava uma parte do Dougal. A outra parte da herana MacKenzie era um pouco mais preocupem-se. O primeiro que viu o recuperar o conhecimento foram os olhos daquele homem, de um verde brilhante e intenso que, por um momento, fizeram-lhe pensar no Geillis Duncan. Queria que sua filha se unisse com o feto de uma bruxa? Olhou-o disimuladamente. Talvez fora melhor que a criatura da Brianna no fora do sangue daquele homem.
       -Brianna -disse MacKenzie, levantando sbitamente a cabea-. Onde est?.
       Jamie fez um movimento brusco e sentiu uma dor no brao, como se lhe dessem uma navalhada.
       -Onde? -repetiu Fraser-. No River Run, com sua tia. Est a salvo.
       O corao lhe palpitava. Podia ler seus pensamentos? Tinha poderes?
       -por que trouxe para o Claire e no a Brianna? por que no veio com voc?
       Jamie lhe devolveu um olhar frio. Se no podia ler sua mente, quo ltimo queria era dizer a verdade ao MacKenzie, j teriam tempo quando estivessem a salvo.
       -Tambm tivesse deixado ao Claire de ter podido. Mas ela  muito teimosa e nem atando a de ps e mos o teria conseguido.
       Algo escuro cruzou os olhos do MacKenzie. Dvida ou pena?
       -No acreditava que Brianna fora a classe de moa que obedecesse tanto a seu pai -disse.
       Jamie se relaxou ao ver que no podia ler sua mente.
       -No crie? Bom, ento talvez no a conhece to bem -respondeu com um tom que tivesse feito enfurecer a qualquer outro homem.
       Mas no ao MacKenzie, quem se endireitou e deixou escapar um profundo suspiro.
       -Conheo-a bem.  minha esposa.
       -Ao inferno com isso -disse, endireitando-se a sua vez e apertando os dentes pela dor.
       -Casamo-nos de palavra. No o disse?
       No o tinha feito, mas invadido pela fria no lhe tinha dado tempo de nada. Enfurecido ao saber que tinha querido deitar-se com um homem, que no era perfeita, a no ser to humana como ele, no a tinha deixado explicar-se.
       -Quando? -perguntou.
       -A princpios de setembro, no Wilmington. Quando eu... justo antes de deix-la.
       Admitiu-o a contra gosto e com uma culpa que era o reflexo da que sentia Jamie. Mas pensou que o covarde o merecia. Se no tivesse abandonado a Brianna..
       -No me disse isso.
       Viu a dvida e a dor nos olhos do MacKenzie. O homem se preocupava porque ela no o houvesse dito, de hav-lo feito estaria ali. Sabia bem que no existia poder na terra para reter o Claire se pensasse que ele estava em perigo. Ento sentiu uma pontada de medo. Onde estava Claire?
       -Suponho que ela pensou que voc no considerava que casar-se de palavra era uma forma legal de matrimnio -disse MacKenzie.
       -Ou talvez era ela a que no o considerava assim -sugeriu com crueldade Jamie.
       Poderia ter aliviado ao Roger lhe dizendo parte da verdade: que Brianna no tinha vindo porque estava grvida, mas no se sentia caridoso. Fechou os olhos e no disse nada mais.
       
       61
       O ofcio de um sacerdote
       
       O aroma de queimado invadia o ar- Passamos perto da fogueira e no pude evitar olhar com a extremidade do olho, no me atrevia a faz-lo diretamente.
       Tropecei na terra geada e minha escolta me agarrou por brao. Conduziu-me para uma choa em que dois homens faziam guarda.
       No tinha dormido nem provado a comida que me tinham devotado. Tinha os ps e as mos geladas. De longe se ouvia o canto pela morte. Cantavam pela moa ou talvez por algum mais? Estremeci-me. Os guardas me olharam de esguelha e se fizeram a um lado. Levantei o tecido e entrei.
       Estava escuro e o fogo se apagou. A mancha vermelha que vi naquela capa me fez sentir um sbito alvio.
       -Jamie!
       Jamie levantou a cabea, a seu lado havia outra figura, a de um homem que me resultava curiosamente familiar. Ento se moveu e captei o brilho de seus olhos verdes.
       -Roger! -exclamei.
       levantou-se sem dizer uma palavra e me abraou. Apertou-me com tanta fora que no me deixava respirar.
       -Roger, est bem?
       Soltou-me e o olhei de cima abaixo, procurando feridas.
       -Sim -disse com voz rouca-. E Br? Est bem?
       -Est bem -assegurei-lhe-. O que te passou no p?
       -Nada,  s um corte. Onde est Brianna?
       Apertou-me o brao com ansiedade.
       -Em um lugar chamado River Run, com sua tia av. No lhe h isso dito Jamie? Ela...
       Jamie me interrompeu me agarrando do outro brao.
       -Est bem, Sassenach?
       -Sim,  obvio. Eu... O que te passou?
       Minha ateno se separou do Roger para centrar-se no Jamie. Chamou-me a ateno, mais que a ferida da nuca, a forma em que se sustentava o brao.
       -Acredito que me tenho quebrado o brao -disse-. Me di muito. Quer vir a me curar?
       Sem esperar resposta se voltou e se dirigiu para a cama rota. Dava- uma palmada ao Roger e segui a um Jamie incapaz de admitir sua dor ante o Roger.
       -O que te acontece? -murmurei enquanto lhe tocava o brao.
       No havia fratura.
       -No lhe hei dito nada sobre a Brianna -disse muito devagar-. E acredito que  melhor no faz-lo.
       Olhei-lhe fixamente.
       -No podemos fazer isso! Tem que sab-lo.
       -Baixa a voz. Sim, possivelmente devamos lhe dizer algo sobre a criatura, mas no sobre o outro, sobre o Bonnet.
       Mordi-me o lbio e toquei seu brao. Tinham-lhe dado um terrvel golpe, embora estava segura de que no havia fratura. Mas no estava to segura sobre sua sugesto. 
       Pde ver a dvida em meus olhos porque me apertou a mo.
       -Agora no, ao menos no aqui. Espera at que estejamos a salvo.
       Refleti enquanto rasgava a manga de sua camisa para fazer um tipia. O inteirar do embarao da Brianna lhe ia impressionar. Talvez Jamie tivesse razo, no podamos saber como ia reagir Roger ao conhecer a violao e faltava bastante tempo para poder voltar livres a casa. Assenti a contra gosto.
       -Muito bem -disse em voz alta-. No acredito que esteja quebrado; de todas formas o lev-lo em tipia te ajudar.
       Deixei ao Jamie e me aproximei do Roger, me sentindo como uma bola do PING-pong.
       -Como est seu p?
       Ajoelhei-me para lhe tirar os trapos que faziam de atadura, mas me deteve me agarrando do ombro.
       -Brianna. Sei que algo no est bem. Ela est .......?
       -Est grvida.                      
       Essa possibilidade no tinha passado por sua mente. Sua surpresa foi inconfundvel. Piscou como se lhe tivessem golpeado a cabea com uma tocha.
       -Est segura?.
       -Est de sete meses, lhe nota.
       Jamie se tinha aproximado to rpido que no o notamos. Falou com frieza mas Roger no estava para sutilezas. A excitao iluminava seus olhos.
       -Grvida. Mas como pode ser?
       Jamie deixou escapar um bufido de brincadeira e desprezo. Roger o olhou.
       -Quero dizer, que nunca pensei...
       -Como? Deixou a minha filha para que pagasse o preo de seu prazer!
       Roger levantou a cabea e olhou com fria ao Jaime
       -No a deixei! Disse-lhe que  minha esposa!
       - assim? -perguntei.
       -casaram-se de palavra -disse Jamie muito zangado- por que no nos disse isso?
       Pensei que podia lhe responder de mais de uma maneira. Mas a segunda resposta no podia diz-la diante do Roger: no nos disse isso porque acreditava que era do Bonnet. Assim, deixava ao Roger a possibilidade de escapar, se  que desejava faz-lo.
       -Certamente porque pensou que no o consideraria como um verdadeiro matrimnio -pinjente-. Tinha-lhe falado sobre nossas bodas e como tinha insistido em te casar em uma igreja, com um sacerdote. No queria te dizer nada que pensasse que no foste passar. Desejava tanto te agradar...
       Jamie teve a graa de parecer envergonhado, mas Roger passou por cima o argumento.
       -Est bem? -perguntou.
       -Sim, est muito bem -assegurei, esperando que fora verdade-. Queria vir conosco, mas no podamos deixar que o fizesse.
       -Queria vir? -O alvio e a felicidade Invadiu sua cara. Ento ela no... -deteve-se bruscamente e nos olhou-. Quando conheci senhor Fraser na ladeira da montanha parecia pensar que... disse-me...
       -Um terrvel mal-entendido -apressei-me a esclarecer-. No nos havia dito nada sobre o matrimnio de palavra... e quando nos demos conta de que estava grvida, supusemos ....
       Jamie olhava ao Roger com chateio, mas se conteve ante meu olhar severo.
       -Sim -disse-. Um mal-entendido. J me desculpei e lhe disse que faria todo o possvel por reparar o engano. Mas agora temos outras coisas em que pensar. Viu ao Ian, Sassenach?
       -No.
       No me tinha dado conta de que Ian no estava com eles e senti medo.
       -Onde estiveste toda a noite?
       -Estive com... Ai, Meu deus!
       Esqueci-me de sua pergunta ao ver o p do Roger. Estava inflamado e infectado, tinha uma lcera na planta do p e ao apertar senti o pus baixo a pele.
       -O que te passou?
       -Cortei-me quando tratava de escapar. Enfaixaram-me isso mas se infectou. Ao princpio melhorou, mas logo... encolheu-se de ombros; sua mente no estava no p. Olhou ao Jamie. Era evidente que tinha chegado a uma concluso.
       -Ento, Brianna no lhe enviou para me buscar? No lhe pediu que... que se livrasse de mim?
       -No -disse Jamie surpreso. Sorriu com um repentino encanto. Essa deciso foi minha.
       Roger deixou escapar um suspiro e fechou os olhos.
       -Graas a Deus -disse e os abriu-. Pensei que ela, talvez-tivemos uma terrvel briga justo antes de que me fora e pensei que possivelmente por isso no lhe havia dito nada sobre o matrimnio. -Suava-lhe a frente, mas sorria fracamente-. Mas fazer que me dessem uma surra e me vender como escravo me parecia uma medida excessiva, inclusive para uma mulher de seu temperamento.
       -Mmm -disse Jamie, um pouco acalorado-. J te disse que o sentia.
       -Sei.
       Roger o olhou e decidiu algo. Suspirou e apartou gentilmente minha mo de seu p. endireitou-se e olhou ao Jamie  cara.
       -Tenho algo que lhe dizer. O motivo da briga. Ela lhes disse por que veio at aqui?
       -A notcia de nossa morte? Sim, disse-nos isso. Crie que, de no sab-lo, tivesse permitido que Claire me acompanhasse?
       -O que?
       Roger o olhou intrigado.
       -Se formos morrer na Colina do Fraser dentro de seis anos, no podemos morrer agora,  mos dos ndios, no crie?
       Contemplei-o. Eu no tinha chegado a essa concluso: uma imortalidade temporria. Mas isso significava assumir que...
       -Isso significa supor que no se pode trocar o passado. Crie isso?
       Roger se inclinou com intensidade.
       -Que me condenem se sei. Voc o crie?
       -Sim -disse Roger-. Acredito que o passado no pode trocar-se. Por isso o fiz.
       -Fez o que?
       umedeceu-se os lbios mas no se deteve.
       -Encontrei a notcia muito antes que Brianna e pensei que era intil tentar trocar as coisas, assim que o ocultei.-Olhou-nos-. No queria que ela viesse; fiz tudo o que pude para evit-lo. Pensava que era muito perigoso. Y... tinha medo de perd-la -terminou com simplicidade.
       Surpreendida vi como Jamie o olhava com sbita aprovao.
       -Ento, tratou de mant-la a salvo? Para proteg-la?
       Roger assentiu com certo alvio.
       -Entende-me?
       -Sim.  a primeira coisa que ouo que me faz ter uma boa opinio de t, senhor.
       Eu no compartilhava essa opinio.
       -Encontrou a notcia e no o disse?
       Roger viu meu olhar e arrumou a vista.
       -No. E me temo que ela pensa como voc. Acredita que a tra Y...
       -E o fez! A ela e a ns! Roger, como pde fazer algo semelhante?.
       -Fez bem -afirmou Jamie-. depois de tudo...
       -No! -interrompi com ferocidade-. Deliberadamente o ocultou. No te d conta de que, se tivesse tido xito, alguma vez a teria conhecido?
       -Sim, dou-me conta. E tambm de que o que lhe aconteceu, no lhe teria acontecido.
       Olhava-me fixamente com seus olhos azuis. Traguei saliva para acalmar minha fria e minha dor.
       -No acredito que ela pense assim. Alm disso,  ela quem deve diz-lo.
       Roger interveio antes de que Jamie pudesse falar.
       -H dito que o que lhe aconteceu no lhe teria acontecido? refere-se ao embarao?
       No esperou a resposta. Sua mente o levou a mesma desagradvel concluso a que Brianna tinha chegado fazia meses. Olhou-me com os olhos muito abertos.
       -Disse que est de sete meses! Maldio! No pode retornar!
       -Agora no -disse com amargura-. Tivesse podido faz-lo quando nos encontrou. Tratei de que retornasse a Esccia, ou ao menos s Antilhas, onde h outra... porta. Mas no quis faz-lo. No queria ir-se saber o que te tinha acontecido.
       -O que me tinha acontecido -repetiu e olhou de esguelha ao Jamie.
       -Sim -disse Jamie, com gesto tenso-.  por minha culpa e no posso remedi-lo. Est apanhada aqui e no posso fazer nada, salvo te levar com ela.
       Dava-me conta ento de que por isso no queria dizer nada ao Roger, por medo de que se negasse a retornar conosco. Uma coisa era hav-la seguido atravs do passado e outra ficar ali para sempre.
       Roger o observou sem encontrar as palavras. Ento se ouviram uns passos e entraram vrios ndios. Olhamo-los surpreendidos. Eram quinze mohawk, homens, mulheres e meninos preparados para uma viagem. Uma das ancis levava o bero. Sem vacilar se aproximou do Roger e disse umas palavras em mohawk.
       Roger franziu o cenho sem compreender. Jamie, sbitamente alerta, aproximou-se da mulher. Esta, impaciente, repetiu-lhe as palavras fazendo um gesto para um jovem.
       -Voc ... sacerdote -disse, assinalando ao Roger e mostrando o bero-. gua.  
       -No sou sacerdote. 
       Roger tratou de lhe devolver o bero, mas a mulher se negou a agarr-la.
       -Sacerdote -disse decidida-. Batismo.
       Assinalou a uma das jovens, que se adiantou com um recipiente cheio de gua.
       -Pai Alexandre disse voc sacerdote, filho de sacerdote -disse o homem jovem.
       Vi que Roger empalidecia.
       Jamie se tinha afastado murmurando em francs a um homem que tinha reconhecido no grupo.
       -So os que ficam da congregao do sacerdote-disse Jamie brandamente-. O Conselho lhes disse que se fossem. Querem ir  misso da Santa Berta, mas antes desejam ter batizado ao menino, se por acaso morre na travessia. -Olhou ao Roger-. Acreditam que  sacerdote?
       -Evidentemente.
       Roger olhou ao menino que tinha em braos.
       Jamie vacilou, olhando a quo ndios aguardavam com expresso tranqila. Podia tratar de adivinhar o que ocultavam atrs dela: fogo, morte, desterro, que mais? Havia rastros de dor na da anci. O menino devia ser seu neto.
       -Em caso de necessidade -disse Jamie ao Roger-, qualquer homem pode exercer de sacerdote.
       No tivesse acreditado que Roger pudesse empalidecer mais, mas o fez. cambaleou-se e a anci, alarmada, estirou uma mo para sujeitar o bero.
       Roger se reps e fez um gesto a quo jovem tinha a gua.
       -Parlez-vous franis? -perguntou e as cabeas assentiram.
       -C'est bem -disse. Levantou o menino e o ensinou  congregao-. Ouam as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo -disse em francs-. Obedecendo essas palavras e seguros de sua presena entre ns, vamos batizar ao que chamou para ser parte de sua igreja.
       Deixou que passassem o menino de mo em mo e logo fez as perguntas do ritual em voz alta. Finalmente, estendeu a criatura para o Jamie.
       -Quem  seu Senhor e Salvador?
       -Jesucristo -respondeu sem vacilar e me entregaram ao menino.
       -Confia nele?
       -Fao-o -respondi pela criatura.
       Roger agarrou gua e lhe molhou a cabea.
       -Eu te batizo -comeou e se deteve, me olhando de reojo.
       - uma menina -murmurei e Roger assentiu.
       -Eu te batizo, Alexandra, no nome do Pai e do Filho e do Esprito Santo. Amm.
       
       depois de que o pequeno grupo de cristos partisse no tivemos mais visitantes. Um guerreiro nos trouxe lenha para o fogo e comida, mas fez caso omisso s perguntas do Jamie.
       -Criem que nos mataro? -perguntou sbitamente Roger depois de um momento de silncio. Sua boca se curvou em um intento de sorriso-. Em realidade, suponho que me mataro . Vs dois esto presumivelmente a salvo.
       No parecia preocupado, a no ser muito cansado para ter medo.
       -No vo matar nos -disse mesndome o cabelo. Dava-me conta de que eu tambm estava exausta. Fazia mais de trinta e seis horas que no dormia.
       -lhe ia dizer isso disse ao Jamie-- Passei a noite em casa do Tewaktenyonh. O Conselho de Mes se rene ali.
       No me tinham contado isso tudo, nunca o faziam. Mas detrs largas horas de cerimnias e discusses, quo jovem falava ingls me havia dito tudo o que queriam que soubesse antes de me enviar com o Jamie.
       -Alguns jovens encontraram o esconderijo do usque-continuei-O trouxeram para a aldeia e comearam a beber. As mulheres acreditaram que no faziam nada desonesto, porque o trato j parecia. Mas logo comearam a discutir entre eles, justo antes de que acendessem o fogo para executar ao sacerdote. E comearam a brigar e uma coisa levou a outra.
       -Esfreguei-me a cara, tratando de manter as idias claras-. Morreu um homem na briga -pinjente olhando ao Roger-, Acreditam que o fez voc, foi assim?
       Sacudiu a cabea.
       -No sei. Eu.,,  provvel. O que pensam fazer a respeito?
       -Bom, estiveram muito tempo discutindo e ainda no se decidiram. Mandaram uma mensagem ao Conselho, mas ainda no tinham a resposta do sachem. No vo matar te porque agarraram o usque e isso era o preo de sua vida. E como decidiram no nos matar, em revanche pela morte desse homem, o que habitualmente fazem em troca  adotar a um inimigo na tribo e substituir assim ao morto.
       Isso alterou ao Roger.
       -me adotar a mim? Querem ficar comigo?
       -Um de ns. No acredito que eu sirva porque sou uma mulher.
       Tratei de sorrir sem consegui-lo.
       -Ento tenho que ser eu -disse Jamie com calma. Roger moveu a cabea, assombrado-. Voc o disse: se o passado no pode trocar-se, nada poder me acontecer. me deixem, conseguirei escapar e retornarei a casa.
       Agarrou-me o brao antes de que pudesse protestar.-Ian e voc levaro ao MacKenzie jumo a Brianna. depois de tudo,  a vs dois aos que necessita.
       Roger quis discutir, mas o impedi.
       -Deus me libere da teima dos escoceses! -Olhei-os zangada-. Ainda no o decidiram; s lhes hei dito a opinio do Conselho das Mes. Assim no tem sentido discutir at que no estejamos seguros. E a tudo isto -pinjente, tratando de distrai-los-, onde est Ian?
       Jamie me olhou.
       -No sei -disse e vi que tragava saliva antes de falar-.Mas confio em que esteja a salvo na cama dessa moa.
       
       No chegou ningum. A noite transcorreu tranqila, embora nenhum pudemos dormir bem. Ao meio dia ouvimos o som de vozes que se aproximavam. Meu corao deu um tombo ao reconhecer uma das vozes. Jamie se tinha levantado antes de que abrissem a porta.
       -Ian?  voc?
       -Sim, tio. Sou eu.
       Sua voz soava estranha, sem flego e insegura. Entrou e se aproximou da luz. Quando o vi tive a sensao de que me golpeavam o estmago. Tinham-lhe talhado o cabelo dos lados lhe deixando uma crista e uma larga cauda sobre as costas; alm disso lhe tinham perfurado uma orelha da que agora pendurava um aro de prata.
       Seu rosto estava tatuado.
       -Eu... no posso ficar muito momento, tio -disse Ian. Estava plido, mas se mantinha erguido-. Disse-lhes que deviam deixar que me despedisse.
       Jamie tambm estava plido.
       -Ian -sussurrou.
       -A cerimnia do nome  esta noite -disse Ian, tratando de no nos olhar-. Dizem que depois serei ndio e no poderei falar nem em ingls nem em galico. -Sorriu com pesar-. E vs no sabem muito mohawk.
       -Ian, no pode faz-lo!
       -J o tenho feito, tio Jamie -disse brandamente. Ento me olhou-. Tia, dir a minha me que alguma vez a esquecerei?
       -OH, Ian! -pinjente, abraando-o com fora.
       -Podero ir pela manh -disse ao Jamie.
       Quando o soltei se aproximou do Roger, quem o olhava assombrado. Ian lhe ofereceu a mo.
       -Lamento o que lhe fizemos -disse com calma-. Encarregar-te de minha prima e da criatura?
       Roger lhe estreitou a mo e se esclareceu garganta.
       -Farei-o -disse-. Prometo-o.
       Ento Ian se voltou fazia Jamie.
       -No, Ian -disse-. Deixa que eu seja!
       Ian sorriu, embora seus olhos estavam cheios de lagrimas.
       -Uma vez me disse que minha vida no era para esbanj-la. No o ser. Eu tampouco vou esquecer te, tio Jamie.
       Levaram ao Ian  borda do rio pouco antes do pr-do-sol. meteu-se na gua geada acompanhado por trs mulheres que riam enquanto o esfregavam com areia. Cilindro corria e ladrava enlouquecido, somando-se ao que acreditava um jogo divertido.
       Todos os espectadores o encontraram gracioso, salvo as trs pessoas brancas.
       Uma vez acabada a cerimnia de lavar o corpo para tirar seu sangue de homem branco, as mulheres o secaram e o vestiram com roupa limpa para lev-lo ante o Conselho, onde teria lugar a cerimnia do nome.
       Toda a aldeia estava ali. Jamie, Roger e eu permanecemos silenciosamente em um rinco, observando ao sachem que cantava e falava enquanto os tambores soavam e a pipa passava de emano em mo. A moa que Ian chamava Emily permanecia a seu lado e seus olhos brilhavam ao olh-lo. O ver como a olhava Ian dissipou algo minha amargura. Chamaram-no Irmo do Lobo. Seu irmo lobo estava aos ps do Jamie, observando a cerimnia com interesse. Ao finalizar a cerimnia, Jamie saiu do rinco. Todas as cabeas se voltaram enquanto ia para o Ian e vi que mais de um guerreiro desaprovava sua atitude. desabotoou-se o tratam escocs e o colocou sobre os ombros de seu sobrinho.
       -Cmmhnich -disse brandamente, e deu um passo atrs. "Recorda."
       
        manh seguinte guardvamos silncio quando enfiamos o estreito atalho que nos afastava da aldeia. Ian nos tinha despedido formalmente com sua nova famlia. Ao ver minhas lgrimas se mordeu o lbio ocultando sua emoo. Jamie o abraou, beijou-o na boca e se foi dizer uma palavra.
       De noite, Jamie se ocupou de montar o acampamento com sua habitual eficcia, mas me dava conta de que sua mente estava em outro lugar. No era estranho; tambm eu dividia minhas preocupaes entre o Ian e Brianna, deixando pouco tempo para as atuais circunstncias. Roger deixou a lenha ante o fogo e se sentou a meu lado.
       -estive pensando -disse-. Na Brianna.
       -Eu tambm.
       Estava to cansada que tinha medo de dormir antes de que a gua fervesse.
       -Disse que h outro crculo..., abertura, ou o que seja, nas Antilhas ?
       -Sim. -Pensei em lhe falar do Geillis Duncan e a cova do Abandawe, mas desprezei a idia. No tinha fora. Em outro momento possivelmente; ento me dava conta do que me estava dizendo-. Outro crculo? Aqui?
       -No aqui -disse Roger-. Em algum lugar entre a aldeia e a Colina do Fraser.
       -Sim, sei que existe, mas... -Ento entendi e o agarrei do brao-- Quer dizer que sabe onde est?
       -Voc sabia?
       Contemplou-me assombrado.
       -Sim, eu... olhe...
       E saque a opala. Agarrou-o antes de que pudesse lhe explicar nada.
       - o mesmo smbolo! Est gravado em uma rocha do crculo. De onde diabos o tirou?
       - uma larga histria -pinjente-. Contarei-lhe isso mais tarde. Mas sabe onde est esse crculo? Viu-o?
       Jamie, atrado por nossas exclamaes, aproximou-se.
       -Um crculo?
       -Um crculo do tempo, uma abertura, uma...
       -Eu estive ali -interrompeu Roger-. Encontrei-o por acaso quando tratava de escapar.
       -Poderia encontr-lo de novo? A que distncia est do River Run?
       Minha mente fazia clculos frenticos. Poderamos levar a Brianna a tempo? E se o fazamos, o que seria mais perigoso, passar atravs do tnel do tempo a ponto de dar a luz ou ficar no passado para sempre?
       Roger tirou o fio com os ns.
       -Aqui -disse-. Tinham passado oito dias desde que me capturaram. Oito dias da Colina do Fraser.
       -E uma semana mais desde o River Run at a Colina -calculei-. No o conseguiramos.
       -Mas o tempo est trocando -disse Jamie-. A viagem ser mais fcil se podemos faz-lo com melhor tempo.
       -Ou no. -Sacudi a cabea a contra gosto-. Sabe to bem como eu que a primavera significa barro. E o barro  pior que a neve para viajar. No,  muito tarde, muito arriscado. Ela ter que ficar.
       Jamie observava ao Roger.
       -Ele no o far.
       Roger o olhou assombrado.
       -Eu... -comeou, logo afirmou sua mandbula -e comeou de novo-. Farei-o. No pensar que a vou deixar? A ela e a meu filho?
       Abri a boca e senti que Jamie ficava rgido, tentando me advertir.                   
       -No -pinjente lhe cortando-. No. Devemos dizer-lhe Brianna assim o quereria.  melhor que saiba agora; se isso trocar as coisas para ele  melhor que saiba antes de v-la.
       Jamie franziu os lbios mas assentiu.
       -Est bem -disse-, Diga-lhe ento.
       -me dizer o que?
       Roger parecia mais alarmado e excitado que nunca.
       -Poderia no ser seu filho -pinjente.
       Por um momento sua expresso no trocou, logo me agarrou dos braos to sbitamente que me fez gritar.
       -O que quer dizer? O que aconteceu?
       Jamie se moveu como uma serpente e golpeou ao Roger para que me soltasse.
       -Quer dizer que quando deixou sozinha a minha filha a violaram-dijo bruscamente-. Dois dias depois de que estivesse com ela- Assim que talvez a criatura seja tua ou talvez no. Olhou furioso ao Roger.
       -Ento, ficar ou no?
       Roger sacudiu a cabea tratando de esclarecer suas idias e se levantou.
       -Violada. Quem? Onde?
       -No Wilmington. Um homem chamado Stephen Bonnet.
       O...
       -Bonnet? -Pela expresso do Roger era evidente que o nome lhe era familiar-. Stephen Bonnet violou a Brianna?
       - o que hei dito.
       Sbitamente toda a fria do Jamie se liberou. Agarrou ao Roger do pescoo e o atirou contra um tronco.
       -E onde estava voc quando isso acontecia, covarde? Ela estava zangada contigo e a deixa sozinha? Se tinha que ir, por que no a deixou a salvo comigo?
       Agarrei ao Jamie do brao.
       -Solta-o!
       Fez-o e se apartou ofegando. Roger, to furioso como Jamie, sacudiu-se.
       -No a deixei porque discutssemos! Deixei-a para ir em busca disto! -Procurou no bolso de seu calo e tirou algo que brilhou na palma de sua mo-. Arrisquei minha vida para as conseguir, para que pudesse passar segura atravs das pedras! Sabe onde fui e a quem as tirei? Ao Stephen Bonnet! Por isso demorei tanto em chegar  Colina do Fraser. Bonnet no estava onde eu acreditava e tive que percorrer toda a costa para encontr-lo.
       Jamie ficou gelado ante as pedras preciosas. O mesmo me aconteceu .
       -Viajei com o Bonnet desde Esccia. -Roger ia recuperando a calma-. O ... ...
       -J sei o que . -Jamie saiu de seu transe-. E tambm pode ser o pai da criatura que leva minha filha. -Olhou ao Roger com frieza-. Assim que lhe pergunto isso de novo, MacKenzie: retornar e viver com eles sabendo que talvez seja o filho do Bonnet? Se no for fazer diga-o agora. Porque te juro que se o trficos mau... matarei-te sem me pensar isso duas vezes.
       -Por todos tosse Santos! -estalei-, Lhe d um minuto para pensar, Jamie! No te d conta de que ainda no o assimilou?
       Roger fechou e abriu os punhos deixando cair a pedra.
       -No sei-disse-. No sei!
       Jamie se aproximou, recolheu a pedra e a atirou aos ps.
       -Ento vete! -disse-. Agarra sua pedra e busca esse maldito crculo. Vete, porque minha filha no necessita a um covarde!
       No havia desensillado os cavalos, assim dessalgou os nossos e montou de um salto.
       -Vem-me disse.
       Olhei ao Roger com desconsolo, este olhava ao Jamie com os olhos brilhantes como esmeraldas.
       -V -disse brandamente Roger sem deixar de olhar ao Jamie-. Se puder... irei.
       Minhas mos e meus ps pareciam mover-se por sua conta, levaram-me at o cavalo e montei.
       Quando olhei atrs tinha desaparecido at a luz do rogo. S havia escurido.
       
       62
       Trs teros de um fantasma
       
       River Run, abril de 1770
       
       -capturaram ao Stephen Bonnet.
       Brianna deixou cair a caixa do xadrez e as peas de marfim se pulverizaram pelo cho. Sem dizer uma palavra ficou olhando a lorde John; este deixou sua taa de brandy e se aproximou rapidamente a ela.
       -Est bem? Quer te sentar? Sinto-o de todo corao. No devi...
       -Sim, deveu. No, no sof no ou nunca poderei me levantar.
       Rechaou sua mo e se dirigiu at uma cadeira de couro, perto da janela. Uma vez sentada o olhou airadamente.
       -Quando?-disse-. Como?
       Lorde John fu at a porta e olhou o escuro corredor, como era de esperar, uma das criadas aguardava na escada se por acaso necessitavam algo.
       -Vete  cama -disse-. No vamos necessitar nada mais esta noite.
       A pulseira assentiu aliviada; estava acordada do amanhecer e era perto de meia-noite. O tambm estava esgotado depois da larga cavalgada desde o Edenton, mas as notcias no podiam esperar. Tinha chegado ao anoitecer e ainda no tinha tido oportunidade de estar a sotas com a Brianna.
       Fechou as portas para evitar interrupes.
       -Capturaram-no aqui, no Cross Creek -disse sem prembulos, sentando-se a seu lado-. Quanto a como, no sei. A acusao era de contrabando, mas uma vez que descobriram sua  identidade se somaram outros delitos.
       -Contrabando do que?
       -Ch e brandy. Ao menos, esta vez. Inteirei-me no Edentoo,  evidente que  um homem muito conhecido, sua reputao se estende desde o Charleston ao Jamestown.
       Observou-a de perto; estava plida mas no gasta.
       -Condenaram-no -continuou-. Penduraro-o a semana prxima no Wilmington. Pensei que quereria sab-lo. 
       Brianna respirou profundamente e deixou sair o ar sem dizer nada. Olhou-a assombrado; Brianna estava enorme. S fazia dois meses desde seu compromisso e tinha engordado notavelmente.
       -Muito obrigado -disse olhando-o com desconcertante firmeza-. Quando o penduraro?
       -na sexta-feira que vem.
       -Est no Wilmington?.
       J mais tranqilo foi procurar sua taa e bebeu um gole.
       -No. Ainda est aqui, no faz falta julgamento porque j tinha sido condenado anteriormente.
       -Ento, levaro-o ao Wilmington para a execuo? Quando?
       -No tenho nem idia.
       O olhar da Brianna tinha um brilho que reconheceu: no era abstrao, era clculo.
       -Quero v-lo.
       Com determinao bebeu o resto do brandy.
       -No, disse cortante, enquanto deixava a taa.- Embora seu  estado te permitisse viajar ao Witmington, que com toda segurana no  assim -acrescentou, olhando o volumoso ventre-, assistir a uma execuo no seria bom para seu filho. Agora bem, eu simpatizo totalmente com seus sentimentos, querida, mas...
       -No, no me entende, no tem nem idia de quais so meus sentimentos -disse com total convico.
       Contemplou-a, ficou em p e foi procurar o botelln. Brianna observou a lquida cor mbar e esperou a que lhe servisse antes de seguir falando.
       -No quero v-lo morrer.
       -Graas a Deus -murmurou Grei, bebendo de sua taa.
       -Quero falar com ele.
       engasgou-se e tossiu cuspindo o brandy.
       -Talvez deveria te sentar -disse Brianna-. No tem bom aspecto.  
       -No o entendo.
       sentou-se e se secou a cara.
       -Sei o que me vais dizer -disse Brianna com firmeza-, assim no te incomode. Pode conseguir que o veja antes de que o levem ao Wilmington? E antes de dizer "no, claro que no", te pergunte o que  o que farei se me responde isso.
       Tinha a boca aberta para dizer "no", mas a fechou contemplando-a em silncio.
       -Suponho que no tentar me ameaar outra vez, no? Porque se o faz...
       - obvio que no.
       Teve a delicadeza de ruborizar-se.
       -Bom, ento, confesso que no sei o que pensa...
       -Direi a minha tia que Stephen Bonnet  o pai de meu filho. E tambm ao Farquard Campbell, ao Geraid Forbes, ao juiz Alderdyce; e logo irei  guarnio e o direi ao sargento Murchison e se no me deixa entrar lhe pedirei ao senhor Campbell uma ordem para v-lo- Tenho direito.
       Observou-a e se deu conta de que no era uma ameaa ociosa. Estava ali, firme e slida como uma esttua, impossvel de convencer.
       -No te importa provocar um escndalo?
       -No -respondeu com calma-. O que tenho que perder? Suponho que teremos que romper nosso compromisso. Mas se todo o condado sabe quem  o pai do menino ter o mesmo efeito que o compromisso: evitar que outros homens queiram casar-se comigo.
       -Sua reputao... -comeou, sabendo que era intil.
       -Ser pior que saibam que estou grvida porque me violou um pirata, que por ter sido uma licenciosa, como assinalou encantadoramente meu pai?
       Havia uma nota de amargura que impediu a lorde John dizer nada.
       -De todos os modos, a tia Yocasta no me jogar pelo escndalo. No morrerei de fome e o menino tampouco. 
       Lorde John voltou a beber; sentia curiosidade pelo que tinha ocorrido entre a jovem e seu pai, mas no queria falar agora. Em troca lhe perguntou.
       -por que? por que quer falar com o Bonnet? Disse que no conhecia seus sentimentos, o qual  verdade. Mas devem ser exigentes para fazer que queira empreender to drstica expedio.
       Um sorriso iluminou sua cara.
       -Realmente eu gosto de sua forma de falar.
       -Sinto-me muito adulado. Entretanto, se queria responder a minha pergunta..
       Brianna suspirou, ficou em p e tirou um papel dobrado de um bolso de seu vestido.
       -L isto -disse entregando-lhe 
       Logo se voltou e foi at a outra ponta da habitao, onde tinha suas pinturas. A letra lhe resultou conhecida. Tinha visto a letra do Jaime Fraser em outra ocasio e isso era suficiente, era inconfundvel.
       
       Filha:
       No sei se voltarei a verte. Meu fervente esperana  poder faz-lo e que todo se arrume entre ns, mas isso est em mos de Deus. Escrevo-te agora se por acaso Ele dispe de outra maneira.
       Uma vez me perguntou se estava bem matar como vingana pelo grande mal que lhe fizeram. Disse-te que no devia faz-lo.
       Pela bem de minha alma, pelo bem de minha prpria vida deve encontrar a graa do perdo. A liberdade  difcil de conseguir, mas nunca  fruto do assassinato.
       No tenha medo de que ele escape  vingana. Um homem assim leva a semente de sua prpria destruio. Se no morrer por minha mo ser pela de outro. Mas no deve ser seu emano a que o castigue.
       me escute, pelo amor que te tenho.
       Abaixo tinha escrito: "Seu mais afetuoso e amante pai, Jamie Fraser". E logo, simplesmente, P.     
             
       -No me despedi dele.
       Lorde John levantou a vista surpreso. Brianna estava de costas a ele, contemplando o tecido de uma paisagem ao meio pintar como se estivesse olhando pela janela. aproximou-se dela e se voltou para olh-lo  cara.       
       -Quero ser livre -disse com calma-. Tanto se retornar Roger como se no. No importa o que acontea.       
       A criatura estava inquieta. Podia ver os movimentos em seu ventre como se fora um gato dentro de uma bolsa.
       -Est segura de que tem que ver o Bonnet?
       -P diz que tenho que encontrar uma maneira de perdo-lo. Tento-o desde que eles se foram, mas no posso faz-lo. Talvez se o vejo possa consegui-lo. Tenho que tent-lo.
       -Muito bem.
       Baixou os ombros em sinal de rendio.
       Uma luz iluminou os olhos da Brianna. Alvio? Grei tratou de sorrir.
       -Far-o?
       -Sim. Deus saber como, mas o farei.
       Apagou todas as velas, salvo uma para iluminar o caminho. Ofereceu-lhe o brao e caminharam pelo vazio salo. Ao p da escada se deteve para deixar que fora diante.
       -Brianna.
       voltou-se intrigada. Grei vacilou, no sabia como lhe pedir o que sbitamente desejava tanto. Levantou a mo.
       -Posso...?
       Sem falar, Brianna lhe agarrou a mo e a apoiou em seu ventre. Ento sentiu um empurro que o estremeceu de emoo.
       -minha me -disse encantado-.  de verdade.
       Contemplou-o risonha.
       -Sim -disse-. J sei.
       
       Fazia muito que tinha escurecido quando se detiveram ante a guarnio. Era um edifcio pequeno que o depsito de atrs diminua ainda mais.
       - Tm-no a?
       -No.
       Lorde John olhou ao redor enquanto atava os cavalos. Uma luz brilhava na janela, mas a rua estava silenciosa e vazia. Ajudou-a a baixar do carro sustentando-a com as duas mos.
       -Est no poro, debaixo do depsito -respondeu em voz baixa-. Subornei ao soldado de guarda para que nos deixasse entrar.
       -Deixar-nos, no -disse, tambm em voz baixa mas com firmeza-. A mim. Quero v-lo a ss.
       Apertou os lbios por um momento e logo assentiu.
       -Asseguraram-me que est encadeado. De outra forma no tivesse aceito.
       abriu-se a porta iluminando a entrada
       - voc, senhor? -O soldado se surpreendeu ao ver a Brianna-. No me tinha dado conta...
       -No  necessrio. -A voz de lorde John era iria-. Nos mostre o caminho, por favor.
       Depois de olhar com preocupao o ventre volumoso da Brianna, fez-os passar por uma pequena porta que dava ao depsito.
       As noites de abril eram fritem, mas ali o ar era pesado e cheirava a terebintina. Brianna se sentia sufocada. O depsito estava quase cheio de caixas de madeira e barris de brandy e rum, preparados para rodar pelas rampas que levavam at o mole onde aguardavam as barcadas.
       -Devem tomar cuidado com o fogo do abajur -indicou o guarda-. Embora no h perigo aqui embaixo...
       O depsito estava construdo frente ao rio para facilitar a carga. O cho da parte dianteira era de madeira. Entretanto, na parte de atrs tinha sido substituda por tijolo. Brianna sentiu a mudana do eco dos passos ao cruzar o limite.
       -No demoraro muito, verdade, senhor?
       -S o necessrio -respondeu lorde John.
       Agarrou o abajur e esperou a que o soldado levantasse a trampilla. Ante eles apareceu uma escada de tijolo.
       - uma sorte que as tenham feito o bastante largas para que passem os barris -murmurou Brianna, apoiando-se no brao de lorde John para baixar.
       deu-se conta de por que o guarda no se preocupava com o fogo naquela parte. O ar era to mido que no lhe tivesse sentido saudades ver cogumelos pelas paredes. Podia ouvir o som da gua gotejando e ver as baratas fugindo da luz.
       Enquanto o guarda lutava com a chave, Brianna sentiu uma quebra de onda de pnico. No tinha nem idia do que dizer ou fazer. .O que estava fazendo ali?, perguntava-se.
       Quando finalmente a porta se abriu, lorde John lhe apertou o brao para lhe dar valor. Respirou profundamente, inclinou a cabea e entrou. Estava sentado em um banco, com os olhos fixos na porta. Era evidente que esperava a algum, mas no a ela. agitou-se surpreso e o verde de seus olhos brilhou ante a luz. Ouviu um rudo metlico e recordou que estava encadeado, o que lhe deu um pouco de confiana. Brianna agarrou o farol que lhe dava o soldado e fechou atrs dela. apoiou-se na porta de madeira, examinando-o em silncio. Parecia menos corpulento. Talvez fora porque agora ela estava enorme.
       -Sabe quem sou?
       Sacudiu a cabea e a percorreu com o olhar.
       -No acredito que saiba embora me diga seu nome, carinho.
       -No me chame assim!
       A rajada de fria que sentiu a agarrou por surpresa. Tinha ido com a inteno de perdo-lo e esse no era um bom comeo.
       -Como quer -disse, com frieza mas sem aborrecimento-. no, no sei quem . Conheo seu rosto... e outras coisas -seus dentes brilharam sobre sua loira barba-, mas no seu nome. Suponho que me dir isso, no?
       -Reconhece-me?
       -Claro que se.
       Parecia divertido e teve vontades de cruzar a cela para esbofete-lo. Em lugar disso respirou profundamente. Foi um engano, porque aspirar o aroma do homem lhe provocou uma arcada sbita e violenta. No se tinha chateado antes, mas o aroma do Bonnet lhe trouxe para a memria tudas as lembranas. deu-se a volta e vomitou blis e comida sem digerir. Apoiou a frente na parede, secou-se a boca e se voltou. Seguia sentado, observando-a como um animal encadeado em sua jaula. Seus olhos, de um verde plido, s mostravam cautela.
       -Meu nome  Brianna Fraser.
       Assentiu repetindo.
       -Brianna Fraser. Um bonito nome. E?.
       -Meus pais so James e Claire Fraser. Salvaram-lhe a vida e voc lhes roubou.
       -Sim.
       Disse-o com total naturalidade. Sentiu uma imperiosa necessidade de rir, to inesperada como as nuseas. O que esperava? Remorsos? Desculpas de um homem que tomava as coisas porque as desejava?
       -Se vier com a esperana de recuperar as jias me temo que chega tarde -disse com amabilidade-. Vendi uma para comprar um navio e as outras dois me roubaram isso. Talvez cria que foi justo.
       -Roubadas? Quando?
       Roger lhe havia dito: "No se preocupe pelo homem que as tem, seguro que as roubou a outro".
       Bonnet se encolheu de ombros.
       -Faz uns quatro meses. por que?
       -Por nada.
       Se tinha sido Roger, eram as pedras que lhes tivessem permitido cruzar a salvo. Um pobre consolo.
       -Tambm havia um anel, no? Mas esse lhe levou isso voc.
       Sorriu mostrando os dentes.
       -Paguei por esse anel.
       -Que negcios h entre ns ento, carinho?
       Olhou-a com curiosidade.
       Esta vez respirou profundamente pela boca.
       -Ho-me dito que lhe vo pendurar.
       -me ho dito o mesmo. No ter vindo por lstima. No, no acredito.
       -No -disse, olhando-o pensativa-. Para ser sincera te direi que vou descansar muito mais tranqila uma vez esteja morto.
       Contemplou-a por um instante e comeou a rir a gargalhadas enquanto caam as lgrimas pelas bochechas.
       -O que quer de mim ento?
       Abriu a boca para responder e, de repente, a unio entre eles desapareceu. Era como se tivesse dado um passo mas cruzado um abismo. Agora estava a salvo e sozinha, em uma bendita solido. J no podia chegar at ela. 
       -Nada -disse-. No queira nada teu, vim para te dar algo.
       abriu-se a capa e se passou as mos pelo ventre.
       - teu.
       Bonnet passou a vista pelo ventre e logo a olhou a ela.
       -J houve outras prostitutas que trataram de que carregasse com seus filhos -disse sem maldade, mas seu olhar era distinto.
       -Crie que sou uma prostituta? -No lhe importava se acreditava ou no, embora duvidava que acreditasse-. No tenho motivos para mentir. J lhe disse isso, no quero nada teu.
       Fechou a capa em um gesto de amparo. J o tinha feito. Podia ir-se.
       -vais morrer. -Surpreendeu-lhe descobrir que sentia certa piedade por aquele homem-. Se o saber que deixar a algum na terra lhe faz isso mais fcil, voc gostar de hav-lo sabido. Mas eu j terminei contigo.
       Ao voltar-se para agarrar o farol lhe surpreendeu ver a porta entreabierta. No teve tempo de zangar-se com lorde John por espi-la, porque a porta se abriu de tudo.
       -Bom, foi um bonito discurso -disse o sargento Murchison levantando a culatra do mosquete-. Mas eu no posso dizer que tenha terminado contigo.
       Brianna deu um passo atrs e agitou o farol ante a cabea do homem, em um gesto defensivo. O sargento agachou a cabea com um grito de alarme e a agarrou pela boneca.
       -Diabos, esteve perto!  rpida, moa, embora no tanto como um bom sargento.
       Bonnet agarrou o abajur e lhe soltou a boneca.
       -No estava encadeado -disse estupidamente Brianna enquanto se dava a volta para tratar de chegar at a porta.
       Murchison a ameaou com o mosquete lhe fechando o caminho, mas no antes de que pudesse ver o corredor, no que havia uma figura atirada de barriga para baixo.
       -Matou-o -sussurrou-. Mierda, matou-o.
       -A quem mataram? -Bonnet levantou o abajur para poder ver uma cabea loira manchada de sangue-, Quem diabos  esse?
       -Um intrometido -respondeu Murchison bruscamente-, Vamos! No h tempo que perder. J me encarreguei do guarda e as mechas esto acesas.
       -Espera! -Bonnet olhava ao sargento e a Brianna com o rosto pensativo.
       -No h tempo. -O sargento levantou sua arma- No se preocupe, ningum os encontrar.
       Brianna podia cheirar a plvora. O sargento se voltou para ela mas no havia espao para apontar a arma. Grunhiu irritado e levantou o mosquete para lhe pegar com a culatra. Brianna aferrou o canho sem dar-se conta do que fazia. Tudo pareceu mover-se com lentido. Murchison e Bonnet permaneceram petrificados e ela sentiu como se visse a cena desde fora. Arrebatou- o mosquete ao Murchison como se fora um pau de vassoura, levantou-o e o deixou cair. Ante seus olhos viu trocar o rosto daquele homem, passando de uma expresso de assombro a outra de horror e finalmente a de inconscincia, to lentamente que pde ver as mudanas e as manchas de sangue que foram aparecendo em sua nuca.
       Estava totalmente tranqila. olhou-se as mos e sentiu o poder que percorria seu corpo. O homem ainda no tinha chegado ao cho quando o golpeou outra vez.
       Uma voz repetia incesantemente seu nome.
       -Detenha! Mulher... Brianna... detenha!
       Umas mos a agarraram pelos ombros sacudindo-a. liberou-se delas ainda com a arma na mo.
       -No me toque! -disse.
       O homem retrocedeu olhando-a com surpresa, e talvez com medo. Medo dela? por que ia ter medo dela? Estava-lhe falando, podia ver como movia os lbios, mas no ouvia as palavras, estava enjoada. Ento o tempo comeou a correr de novo; Apoiou o canho para sujeitar-se.
       -O que h dito?
       -Pinjente que no podemos perder o tempo! No lhe ouviste dizer que as mechas estavam acesas? -perguntou com impacincia.
       -Que mechas?
       Viu seu olhar e se colocou ante a porta lhe impedindo o passo. O homem deu um passo atrs e se chocou com o banco.
       -No pensar me matar?
       Bonnet tratou de sorrir, mas o pnico apareceu em seus olhos. Ela havia dito que descansaria mais tranqila depois de sua morte.
       "A liberdade  difcil de conseguir, mas no  fruto do assassinato." Agora tinha a liberdade em suas mos e no ia perd-la por ele.
       -No -disse, sujeitando a arma firmemente-, Mas te dispararei nos joelhos e te deixarei aqui se no me disser agora mesmo que diabos passa.
       Bonnet observou a arma. Se apertava o gatilho no faltaria. encolheu-se de ombros.
       -O depsito de acima est cheio de plvora -disse, falando rapidamente-. No sei quando, mas estalar. Saiamos daqui!
       -por que? -Suavam-lhe as mos, mas sujeitava a arma com fora. O menino se movia para lhe recordar que ela tampouco tinha muito tempo. Mas podia arriscar um minuto para saber a verdade, pela memria do John Grei, que estava atirado no corredor-. Matou a um bom homem e quero saber por que!
       -Contrabando! O sargento e eu fomos scios. Eu lhe trazia produtos de contrabando muito mais baratos e ele lhes punha o selo da Coroa. Quase danava de impacincia.
       -Segue falando.
       -Um soldado, o guarda, estava fazendo muitas perguntas. Murchison no sabia se o tinha contado a algum, mas no era prudente esperar, menos ainda depois de que me capturassem. O sargento tirou os barris de licor e os substituiu por lhes ouvir de terebintina. Ao incendiar-se, ningum poder dizer que no era brandy. Isso  tudo. Agora, me deixe sair!
       -Muito bem. -Baixou a arma sem deixar de lhe apontar-. E o que passa com ele?
       Fez um gesto para o sargento Murchison que comeava a despertar.
       -O que acontece ele?
       Olhou-a inexpressivo.
       -No o vais levar contigo?
       -No. Mulher, deixe ir e voc vete tambm. vai estalar tudo!
       -Mas est vivo! No podemos deix-lo aqui!
       Bonnet a olhou com exasperao; cruzou a habitao com grande rapidez, inclinou-se, tirou a adaga do cinturo do sargento e lhe cortou a garganta.
       -J est -disse, endireitando-se-. J est morto. Deixa-o. 
       Brianna comeou a tremer. Ouvia afast-los passos do Bonnet enquanto contemplava o corpo do John Grei. Seu ventre se contraiu e ficou sem respirao.
       "No. -Pensou no menino que tinha em seu interior-. No posso dar a luz. No so contraes. Agora no tenho tempo." Deu uns passos pelo corredor e se deteve. No, devia estar segura. voltou-se e se ajoelhou ante o corpo de Grei. Estava imvel e parecia morto. Tratou de lhe dar a volta mas era muito pesado. Procurou o pulso na garganta. Onde diabos estava? Tinha visto sua me faz-lo em urgncias; era mais fcil de encontrar que na boneca, dizia, mas no podia encontr-lo. Quanto tempo faltaria para que todo aquilo estalasse?
       Tentou-o uma vez mais e encontrou um fraco pulsado. Podia estar morrendo, mas ainda vivia. Estava muito assustada para sentir alvio. Agora tinha que tir-lo tambm a ele. Ento recordou o que tinha visto. Sim, podia ter razo. O teto era de tijolo. Bonnet havia dito que estalaria... mas seria assim? A terebintina ardia e, se estava baixo presso, podia estalar, mas no como uma bomba. Havia plvora, mas no explosivos de grande potencializa. Esta podia estalar em vrios lugares e incendiar os barris prximos que arderiam devagar. Tinha visto o Sinclair fazer barris como aqueles.
       Os barris se queimariam mas sem explorar e, se o faziam, no seria ao mesmo tempo. Sua respirao se tranqilizou e ficou as mos sobre o ventre- Logo se sentou no cho.
       -Acredito que toda ir bem -sussurrou, no muito segura de se lhe falava com o John, ao menino ou a ela mesma.
       Ento se dedicou a atender a Grei. Ouviu passos, mas no vinham da escada, mas sim do outro lado. Depois dela apareceu Stephen Bonnet na escurido.
       -Corre! -gritou-. por que no sai?
       -Aqui  mais seguro. -Levantou o mosquete que tinha deixado no cho-. Vete.         
       Contemplou-a boquiaberto.
       -Seguro? Mulher, est louca! No ouviste o que h dito...?
       -Sim, mas estava equivocado. No explorar e, se acontecer, aqui estaremos mais seguros.
       -Ao diabo! Embora no caia o poro, o que passar quando o fogo incendeie o teto?
       -No pode,  de tijolo.
       Olhou-o com o queixo erguido.
       -Aqui sim, mas na parte dianteira  de madeira. Queimar-se e logo se desabar. E o que passar quando entre a fumaa?
       -No est aberto? O poro no est fechado? A outra porta do corredor no est aberta?
       J sabia a resposta. Tinha deslocado para aquele lado, no fazia as escadas.
       -Sim!Agora vem!
       Tratou de agarr-la do brao, mas se apartou apontando-o com a arma.
       -No vou sem ele.
       -Esse homem est morto!
       -No! Levanta-o!
       A fria e o assombro cruzaram pelo rosto do Bonnet.
       -Levanta-o! -repetiu com fria.
       Muito lentamente, Bonnet levantou o John Grei e o carregou sobre os ombros.
       -Vamos, ento.
       E sem dizer nada avanou pela escurido levando a Brianna atrs dele. 
       Bonnet se movia bastante mais rpido que ela; quase no podia lhe seguir.
       -Mulher! Brianna!
       -J vou! -respondeu, e se apressou cambaleante.
       Podia cheirar a fumaa.
       Estavam debaixo do mole, pensou Brianna ao ver a gua brilhando sobre suas cabeas. Bonnet no se deteve nem a soltou, empurrou-a para a erva e o barro da borda at que se deteve baixo umas rvores. Se, inclinou, deslizou o corpo de Grei na terra e ficou naquela posio at recuperar o flego.
       Brianna se deu conta de que podia ver claramente aos dois homens. deu-se a volta e viu o depsito ardendo e as chamas subindo pelas paredes. Sentiu uma mo no ombro; ao d-la volta se encontrou com a cara do Bonnet.
       -Tenho um navio me esperando rio acima. Quer vir comigo?
       Brianna negou com a cabea. Ainda tnia a arma, mas j no a necessitava. Ele j no era uma ameaa para ela.
       - verdade? -perguntou bruscamente Bonnet.
       Sem pedir permisso ps as mos sobre seu ventre. Brianna se fez a um lado e se cobriu com a capa. Assentiu sem poder falar.
       Levantou-lhe o queixo e a olhou  cara. Possivelmente para assegurar-se de sua sinceridade. Ento a soltou e se meteu um dedo na boca para procurar algo.
       Agarrou-lhe a mo e lhe deixou algo mido e duro sobre a palma.
       -Para que o mantenha -disse, e sorriu zombador-, Cuida-o, carinho!
       E desapareceu como um demnio no meio do fogo. Levantou o mosquete com o dedo no gatilho. No estava a mais de vinte metros, um branco perfeito. "No por sua mo."
       Baixou a arma e o deixou partir.
       O depsito estava em chamas e o calor lhe coloria as bochechas e lhe frisava o cabelo. Ainda tinha o punho fechado com o objeto que lhe tinha dado. Abriu a mo e olhou o mido diamante negro que o fogo iluminava, fazendo brilhar suas caras com tons avermelhados.
       
       
       DCIMA SEGUNDA PARTE
       JE TAIME
       
       63
       Perdo
       
       River Run, maio de 1770
       
       - a mulher mais teimosa que conheci em minha vida!.
        Brianna entrou na habitao como um navio a toda vela e se deixou cair no sof, ao lado da cama.
       Lorde John Grei abriu um olho baixo o turbante de vendagens.
       -Sua tia?
       -Quem, se no?
       -Tem um espelho em seu dormitrio, no?.
       Sua boca se curvou formando um sorriso e ela acabou imitando-o. 
       - por seu maldito testamento. Disse-lhe que no queria River Run, que no vou ser a proprietria de nenhum escravo, mas ela no quer troc-lo. Simplesmente sorri como se eu fora uma menina de seis anos que tivesse um manha de criana, e logo me diz que com o tempo me alegrarei. me alegrar! -Soprou e se acomodou na poltrona-. O que posso fazer?
       -Nada.
       -Nada? -Derrubou seu desgosto sobre ele- Como no vou fazer nada? 
       -Para comear, surpreenderia-me muito que sua tia no fora imortal. Muitos membros dessa particular raa de escoceses parecem s-lo. Entretanto -agitou a mo para descartar a idia-, sim no o  e ela persiste em sua idia de que pode ser uma boa proprietria do River Run...
       -O que te faz pensar que no posso s-lo? -disse com seu orgulho ferido.
       -No pode dirigir uma plantao deste tamanho sem escravos e no quer os ter por questes de conscincia. Voltando para tema, se for a proprietria dos escravos sempre poder fazer algum tipo de acerto para liber-los.
       -No na Carolina do Norte. A Assemblia...
       -No, no na Carolina do Norte -disse e continuou pacientemente-. Mas se surgir a ocasio e te encontra em posse dos escravos, me pode vender isso a mi.
       -Mas isso...
       -Eu os levaria a Virginia, onde a emancipao est muito menos controlada. Quando forem livres, devolve-me o dinheiro. Por ento no ficar nada, o que parece ser seu principal desejo, alm de te acautelar contra toda possibilidade de ser feliz, te esforando por no te casar com o homem que amas, por exemplo.
       -Prometi que primeiro o escutaria. -Olhou a lorde John-. Embora siga dizendo que  uma chantagem sentimental.
       -Muito mais efetivo que outros. Quase vale a pena romp-la cabea para poder dominar a uma Fraser.
       Brianna passou por cima o comentrio.
       -S disse que escutaria ao Roger. Ainda penso que quando o souber tudo no querer..., no poder. -Ps uma mo sobre seu enorme ventre-. Voc no poderia, no? Refiro-me a te fazer carrego de um filho que no  teu.  
       Lorde John fez uma careta e se acomodou na cama.
       -Pelo bem de seus pais? Suponho que sim. -Abriu os olhos e a olhou sonriendo-. Em realidade,  o que estive fazendo.
       -Refere-te para mim? Bom, se, mas... quero dizer... eu no sou uma menina e no tem que me reclamar como prpria; e espero que no o faa, sobre tudo por meu pai.
       ficou quieto um instante e lhe apertou a mo.
       -No, no  isso. -E deixou escapar um grunhido.
       -Encontra-te mau? -perguntou ansiosa-. Quer que te traga algo? Ch? Um cataplasma?
       -No,  a maldita dor de cabea -disse-. A luz me incomoda.
       Fechou os olhos de novo.
       -me diga -disse, com os olhos fechados-, por que est to convencida de que um homem no pode querer a um menino, salvo que seja de seu sangue? Quando disse que o tinha feito, no referia a t. Meu filho, meu enteado,  o filho da irm de meu difunta algema. Por um trgico acidente, seus pais morreram com um dia de diferena. Minha esposa Isobel e seus pais o criaram desde recm-nascido. Eu me casei com o Isobel quando Willie tinha seis anos. Como v, no h laos de sangue entre ns, entretanto, ningum pode duvidar de meu afeto para ele, nem dizer que no  meu filho, porque lhe pediria contas por isso.
       -J vejo -disse-. No sabia. -Pensativa, jogava com seu anel-. Acredito... acredito que no estou to preocupada com o Roger e o menino. Para ser sincera...
       -No poderia ser de outra maneira -murmurou.
       -Para ser sincera -continuou- acredito que me preocupa mais o que acontecer ns, entre o Roger e eu. -Vacilou e seguiu falando-. Eu no sabia que Jamie Fraser era meu pai, no soube at que fui maior. Depois do levantamento, meus pais se separaram, cada um pensou que o outro tinha morrido e por isso minha me se casou de novo. Acreditava que Frank Randall era meu pai e no descobri a verdade at depois de sua morte.
       -Ah! -Observou-a com crescente interesse-, E esse Randall foi cruel contigo?.
       -No! O foi... maravilhoso. -Lhe quebrou a voz e tossiu-, No, foi o melhor pai que pude ter tido. Pensava que meus pais eram um matrimnio feliz. preocupavam-se o um pelo outro e se respeitavam; bom eu acreditava que tudo ia bem.
       Lorde John se arranhou as vendagens. O mdico lhe tinha barbeado a cabea, o qual, alm de ferir sua vaidade, produzia-lhe picores.
       -No vejo a diferena com sua situao atual.
       Brianna suspirou.
       -Ento meu pai morreu Y... descobrimos que Jamie Fraser ainda vivia. Minha me veio a reunir-se com ele e atrs dela cheguei eu. Y... era diferente, notei-o quando vi como se olhavam o um ao outro. Nunca tinha visto um olhar assim entre o Frank Randall e ela.       
       -Ah, sim.
       Ele tinha visto aquele olhar um par de vezes. A primeira vez desejou desesperadamente cravar uma faca no corao do Claire.               
       -Sabe o estranho que ? -perguntou Grei-, Essa paixo mtua?
       -Sim. O que passa  que... acredito que a senti. Por muito pouco tempo, muito pouco. -Voltou a cabea e o olhou, deixando que visse atravs de seus olhos-. Se a perdi, quer dizer que a tive. Poderei viver com ela ou sem ela. Mas no vou viver com uma imitao. No o poderia suportar.
       
       Brianna lhe colocou a bandeja do caf da manh e se desabou na poltrona.
       -Drusus chegou correndo  cozinha avisando da chegada de dois cavaleiros. Diz que algum  meu pai: um homem grande com o cabelo avermelhado. Deus sabe que no h muitos como ele.
       -No, no muitos. -Grei sorriu-. Assim dois cavaleiros?
       -Tm que ser P e minha me. No encontrariam ao Roger. Ou o fizeram e no quis vir -disse jogando com o anel-,Que sorte que tenho este refgio!
       Lorde John piscou e tratou de tragar o bocado de torrada.
       -Sim com essa extraordinria metfora quer dizer que tenta te casar comigo, asseguro-te que.,.
       -No. -Dirigiu-lhe um sorriso indiferente-. Era uma brincadeira.
       -Ah, bom. -Tomou um sorvo de ch, fechando os olhos para desfrutar de melhor o aroma-. Dois cavaleiros. No foi com eles sua primo?.
       -Sim. Espero que no lhe tenha acontecido nada ao Ian.
       -Podem ter ocorrido muitas coisas que obrigassem a sua me e a sua primo a empreender a viagem depois que seu pai e MacKenzie. Ou para que sua primo e MacKenzie venham detrs de seus pais.
       -Suponho que tem razo.
       Grei apartou a bandeja.
       -me diga..., at onde chegam seus remorsos por ter provocado o incidente que quase me custa a vida?
       -O que quer dizer?
       ruborizou-se incmoda.
       -Se te pedir que faa algo que no deseja fazer... Seu sentido de culpa e obrigao te empurrar a faz-lo?
       -Uma chantagem. Do que se trata? -perguntou cautelosa.
       -Perdoa a seu pai. No importa o que tenha acontecido. O embarao a tinha feito mais sensvel e as emoes lhe notavam na pele. Grei lhe acariciou a bochecha. -Por seu bem, tanto como pelo dele.
       -J o tenho feito.
       Baixou o olhar, com as mos quietas sobre o regao. O som dos cascos dos cavalos chegou do exterior.
       -Ento, acredito que ser melhor que v e o diga, querida.
       mordeu-se os lbios e assentiu. Sem dizer uma palavra mais ficou em p e desapareceu como uma nuvem de tormenta no horizonte.
       
       -Quando ouvimos que vinham dois cavaleiros e um deles era Jamie, tememos que lhe tivesse passado algo a seu sobrinho ou ao MacKenzie. Seja como for, a nenhum nos ocorreu que te pudesse ter acontecido algo a ti.
       -Sou imortal -murmurou, olhando alternativamente a seus olhos- No sabia? -Afrouxou a presso de seus polegares sobre as plpebras de Grei e este piscou-- Tem um ligeiro alongamento de uma pupila, mas  muito pequeno. Oprime meus dedos o mais forte que possa.
       Obedeceu, assombrado de sua pouca fora.
       -Encontraram ao MacKenzie?
       Incomodava-lhe no poder controlar sua curiosidade.
       Claire lhe lanou um olhar rpido e voltou a fixar sua ateno nas mos de lorde John.
       -Sim. J vir. um pouco mais tarde.
       -Far-o?
       Captou o tom da pergunta e vacilou, logo o olhou diretamente.
       -O que  o que sabe?
       -Tudo -disse, e teve a momentnea satisfao de v-la assombrada.
       -Tudo?
       -O suficiente -corrigiu com sarcasmo-. O suficiente para perguntar se a afirmao de que MacKenzie retornar  algo que sabe ou s seu desejo de que ocorra.
       -Chama-o f.
       Abriu-lhe a camisa de dormir lhe deixando o peito ao descoberto. Apoiou uma ponta do tubo sobre o peito e colocou o ouvido no outro extremo.
       -Por favor, senhora!
       -Cala, no posso ouvir -disse fazendo gestos com uma mo..
       Foi colocando o tubo em diferentes parte e lhe apalpou o fgado.                                                
       -Fez de ventre hoje? -perguntou, lhe tocando com familiaridade o abdmen.
       -Nego-me a responder -disse, fechando-a camisa com dignidade.
       Parecia mais extravagante do habitual. A mulher devia ter mais de quarenta anos, mas no mostrava signos de envelhecimento salvo umas pequenas linhas junto aos olhos e mechas chapeadas nesse ridculo arbusto de cabelo. Estava mais magra do que recordava, embora era difcil julgar sua figura vestida com a camisa e os cales de couro. notava-se que tinha estado exposta ao sol, pois tanto seu rosto como suas mos estavam bronzeados. Isso fazia que seus grandes olhos dourados parecessem mais assombrosos quando olhavam do modo em que o fazia nesse momento.
       -Brianna me disse que o doutor Fentiman lhe trepan o crnio.
       -Isso me ho dito. Ento no me dava conta.
       -Melhor. Importaria-te que o olhasse?  por curiosidade-disse com uma delicadeza desacostumada-. Nunca vi uma trepanao.
       Lorde John fechou os olhos em sinal de rendio.
       -Deixando a um lado o estado de minhas tripas, no tenho secretos para voc, senhora.
       Torceu a cabea indicando a localizao do orifcio baixo as ataduras.                   
       -Brianna est com seu pai? -perguntou, ainda com os olhos fechados.
       -Sim. -Sua voz se suavizou-. Disse-me... disse-nos- algo do que fez por ela. Muito obrigado.
       -Foi um prazer estar a seu servio. Inclusive com o crnio perfurado.
       Sorriu fracamente.
       -Jamie vir a verte depois. Agora est falando com a Brianna no jardim.
       -Esto.,, de acordo? -perguntou com um toque de ansiedade.
       -Voc mesmo o pode ver. -Passou-lhe um brao pelas costas e com uma fora surpreendente para uma mulher de seu tamanho, endireitou-o. Viu as duas figuras ao fundo do jardim, com as cabeas juntas, rendo e abraando-se.
       -Acredito que chegamos bem a tempo -murmurou Claire, observando a sua filha-. No lhe falta muito.
       -Confesso que me alegro de sua chegada -disse, deixando que o voltasse a deitar sobre o travesseiro- Logo que sobrevivi  experincia de ser a bab de sua filha, e me temo que ter que fazer de parteira tivesse terminado comigo.
       -Quase me esquecimento. -Claire procurou na bolsita de couro que lhe pendurava do pescoo-. Brianna me disse que lhe devolvesse isso... j no o necessitar.
       Levantou a mo e o brilhante azul caiu sobre sua palma.
       -Cabaas! -disse com um sorriso zombador.
       
       64
       O final do nono ms
       
       - como no beisebol -assegurei-lhe-. Largos perodos de aborrecimento, seguidos de tempos curtos de intensa atividade. Brianna riu e logo se deteve bruscamente.
       -Ah. Intensos. Sim, ah... Ao menos nos partidos de beisebol pode beber cerveja e comer perritos quentes quando te aborrece.
       Jamie, fazendo caso s  parte da conversao que podia entender, interveio.
       -H cerveja fresca na despensa. Quer que te traga? - E olhou ansioso a Brianna.
       -No -pinjente-, o lcool no  bom para o menino.
       -Ah. E o co quente?
       Parecia preparado para caar um.
       - uma espcie de salsicha metida em po -pinjente, fazendo esforos para no rir -.No acredito que queira comer agora.
       -No -disse Brianna fracamente.
       Jamie lhe limpou o suor da cara e do pescoo.
       -Ponha sua cabea entre os joelhos.
       Brianna o olhou indignada.
       -No posso pr... a cabea... entre os joelhos -disse com os dentes apertados.
       O espasmo passou e a cor voltou para suas bochechas.
       Jamie franzia o cenho com preocupao. Deu um passo fazia a porta.
       -Acredito que ser melhor que v, assim...
       -No me deixe!
       -Mas  que... quero dizer, tem a sua me Y...
       -No me deixe! -repetiu e o agarrou por brao,-sacudindo-o com desespero-. No pode faz-lo! Disse que no morreria. Se fica estarei bem e no morrerei.        
       Era forte e saudvel, Eu tinha perdido um filho e quase morro por culpa da febre. Senti medo. Eu podia proteger a da febre mas ante uma hemorragia no tinha defesas, salvo tratar de salvar  criatura com uma cesrea. Como medida de preveno tinha esterilizado meu bisturi.
       -No morrer, Bri -pinjente; com calma pus uma mo sobre seu ombro, mas deveu sentir meu temor detrs de meu aspecto de profissional.
       -P, no me deixe.
       apoiou-se no Jamie.
       -No tenha medo, no te deixarei. Fico aqui.
       Sustentou-a com um brao e me olhou desesperado.
       -Caminha com ela -disse-lhe-. Como se fora um cavalo com um clica -acrescentei.
       Isso fez rir a Brianna.
       -Est bem? -perguntou ansioso, depois de dar vrias voltas.
       -J lhe direi isso quando no o estiver -assegurou.
       depois de quase uma hora de caminhar, Brianna se deteve em meio da habitao respirando como um cavalo depois de uma carreira.
       -Quero me deitar -disse.
       Fedra e eu lhe tiramos o vestido e a deitamos. Pus as mos sobre seu ventre e senti, depois de uma contrao, os movimentos da criatura.
       -Pai!
       Jamie a agarrou da mo.
       -Estou aqui, a bheanachd, estou aqui.
       Respirou pesadamente, relaxou-se e tragou.
       -Quanto falta? -perguntou.
       -No sei. Mas acredito que no muito.
       As contraes eram a cada cinco minutos mais ou menos, isso podia durar ou terminar bruscamente.
       -Est-o fazendo bem, carinho -murmurei-. Muito bem.
       -Olhei ao Jamie e sorri-. Voc tambm.
       Tentou me devolver o sorriso.
       -me fale, P -disse sbitamente Briannna.
       -N? -Me. olhou desesperado-, O que devo dizer?
       -No importa. o conte histrias, algo que distraia sua mente.
       -Bom. ouviste falar do Habetrot a solteirona?.
       Brianna respondeu com um grunhido.
       -Pois resulta que em uma antiga granja, perto do rio, vivia uma mulher chamada Maisie, com cabelo avermelhado e olhos azuis. No tinha marido... -deteve-se e o olhei lhe avisando.
       Brianna deixou escapar um gemido terrvel. Jamie lhe sujeitou as mos e seguiu falando. de repente, Brianna se incorporou soltando ao Jamie e agarrando-as joelhos com o rosto congestionado pelo esforo.
       -Agora, vamos -pinjente.
       Pu-lhe travesseiros detrs, fiz-a apoiar-se na cabeceira e chamei a Fedra para que me iluminasse com o candelabro. Lubrifiquei-me os dedos com azeite e toquei aquela carne que no tocava desde que Brianna era uma menina. Senti fora, relaxao, logo outra contrao e o lquido amnitico que se derramava pela cama e gotejava no cho. Rezei para que no chegasse muito rpido e no a machucasse. O anel de carne se abriu sbitamente e meus dedos tocaram algo mido e duro. Brianna empurrava, at que de repente apareceu uma cabecita manchada com sangue e lquido amnitico. Encontrei-me frente a frente com uma cabea branca e uma cara enrugada como um punho que fazia caretas de fria.
       -O que ? Um menino? -perguntou Jamie com voz rouca.
       -Isso espero.  a coisa mais horrvel que vi. Que Deus a ajude se for uma menina.
       Brianna deixou escapar um rudo que podia ser uma risada. Quase no tive tempo de recolher a larga forma molhada. Envolvi-o em uma toalha de linho: era um menino, com o escroto redondo e prpura entre suas gordas coxas; controlei os signos do Apgar: respirao, cor, atividade... tudo bem. Fazia ruiditos de aborrecimento e golpeava o ar com seus punhos. Apoiei-o na cama enquanto me ocupava da Brianna. No havia sinais de hemorragia e o cordo pulsava; era a conexo entre eles.
       Brianna ofegava na cama, com o cabelo pego pelo suor e um enorme sorriso de alvio e triunfo em seu rosto. Toquei a placenta.
       -Uma vez mais, querida -pinjente brandamente.
       A ltima contrao expulsou a placenta e ento cortei o cordo e depositei o menino em seus braos.
       - precioso -sussurrei.
       Deixei-o com ela e dediquei ao que ficava por fazer. Apertei-lhe o abdmen com o punho, com o fim de que o tero se contrara e deixasse de sangrar. Podia ouvir a rajada de excitao que invadia a casa depois dos passos da Fedra, que corria dando a notcia.
       Jamie sorria com as bochechas molhadas pelas lgrimas. Disse algo a Brianna em galico e a beijou detrs da orelha.
       -Ter fome? -A voz da Brianna era rouca-. Devo lhe dar de mamar?.
       -Prova. Algumas vezes esto dormidos, mas outras querem comer.
       abriu-se a camisola deixando ao descoberto seu volumoso peito. A criatura fez uns rudos e sua boca se prendeu do mamilo com ferocidade.
       - forte, n? -pinjente, e me dava conta de que estava chorando.
       Mais tarde, depois de deixar a Brianna e ao menino acomodados e lhes fazer um ltimo controle para me assegurar de que tudo seguia bem, sa  galeria.
       Jamie tinha ido contar se o ao John e me esperava ao p da escada. Agarrou-me entre seus braos e me beijou.
       -Voc tambm o fez muito bem -sussurrou. Logo seus olhos brilharam de alegria e sorriu-. Abuelita!
       
       - branco ou moreno? -perguntou sbitamente Jamie, apoiando um cotovelo na cama-. Contei seus dedos, mas no emprestei ateno a nada mais.
       -No se pode saber ainda. -Eu tinha contado seus dedos e tambm o pensei-. por agora  avermelhado e est talher por esse lquido branco.  provvel que passe um dia ou dois antes de que sua pele tenha a cor natural. Tem um pouco de cabelo escuro, mas lhe cair. Alm disso a cor de sua pele no provar nada, j que Brianna  branca de pele.
       -Sim... mas se fosse moreno teramos a segurana.
       -Talvez no. Seu pai tinha a pele escura, como o meu. Podem ser gens recessivos Y...
       -Podem ser o que?
       Tratei, sem xito, de explicar-lhe mas estava muito cansada para tanto esforo.
       -Pode ser de qualquer cor e nunca teremos a segurana -pinjente bocejando-. No saberemos at que seja o bastante major para lhe encontrar algum parecido. Mas importa quem seja seu pai? A fim de contas, no vai ter nenhum.
       Jamie me abraou. Dormia nu e senti o plo de seu corpo contra minha pele. Beijou-me brandamente no pescoo e suspirou.
       -Ah, bom -disse pouco depois com tom desafiante-. Embora no conhea seu pai, ao menos estou seguro de quem  seu av.
       -Agora, durma, av. J tivemos suficiente por um dia.
       Ao momento estava dormido. Fiquei com os olhos bem abertos olhando as estrelas atravs da janela. Havia dito a frase favorita do Frank, a que utilizava quando Brianna ou eu nos preocupvamos com algo: "Foi suficiente por um dia". O ar da habitao tinha vida, movia as cortinas e acariciava minhas bochechas.
       -Sabe? -sussurrei-- Sabe que j tem um filho?
       No houve resposta, mas a paz se apoderou gradualmente de mim na quietude da noite, at que finalmente o sonho chegou.
       
       65
       Retorno  Colina do Fraser
       
       Yocasta se mostrava pouco disposto a separar-se de seu novo parente, mas a semeia da primavera j ia com atraso e tnhamos nosso lar abandonado; precisvamos retornar  Colina quanto antes e Brianna no queria nem ouvir falar de ficar. O que nos facilitou as coisas, porque tivssemos necessitado dinamite para separar ao Jamie de seu neto.
       Lorde John j estava em condies de viajar e veio conosco at a rota do Great Bufa-o, onde beijou a Brianna e ao menino, abraou ao Jamie e, para minha surpresa, a mim tambm; e se dirigiu para o norte, fazia Virginia e haciaWillie.
       -Confio em que te ocupar deles -disse-me brandamente, assinalando o carro onde duas cabeas avermelhadas se inclinavam sobre o menino.
       -Farei-o -respondi apertando sua mo-. Eu tambm confio em ti.
       Levou minha mo brevemente at seus lbios e me sorriu. afastou-se sem olhar para trs.
       Uma semana mais tarde chegamos ao caminho onde cresciam os morangos silvestres: verde, branco e vermelho juntos, perseverana e valor, doura e amargura mescladas  sombra das rvores.
       A cabana estava suja, o jardim descuidado e a estrutura da nova casa era como um esqueleto negro. Pareciam umas runas. Nunca senti tanta alegria ao chegar a casa. Nunca.
       "Nome", escrevi e me detive. Seu sobrenome estava aberto a discusso e seu nome de pilha ainda no tinha sido decidido. Eu o chamava "tesouro" ou "querido". Lizzie o chamava "querido moo" e Jamie lhe falava em galico, lhe dizendo "neto" ou ao Rnaidh, "o Vermelho", j que seu penugem negro e sua pele escura se converteram em uma espcie de incendeio sobre sua pele branca, o que deixava bem claro quem era seu av,  margem de quem fora seu pai.
       Brianna no precisava cham-lo de maneira nenhuma. Sempre o tinha com ela. No queria lhe dar um nome ainda.
       -Quando? -tinha perguntado Lizzie, mas Brianna no respondeu.
       Eu sabia quando, quando retornasse Roger.
       -E se no vir? -disse-me Jamie em privado-. A pobre criatura no pode viver sem nome. Essa moa  muito teimosa!.
       -Ela confia no Roger -disse com imparcialidade-. Voc deveria tentar fazer o mesmo.
       Olhou-me de forma cortante.
       -H uma diferena entre confiana e esperana, Sassenach, e voc sabe to bem como eu.
       -Ento, por que no tem esperana?.
       Dava-lhe as costas.
       Jamie me rodeou e se sentou frente a mim. 
       -Farei-o -disse com uma fasca de humor em seus olhos-. Se posso decidir entre se tiver esperana de que venha ou de que no venha.
       Sorri.
       -O que est fazendo, Sassenach?
       -Fao um certido de nascimento para nosso pequeno Gizmo, o melhor que posso -acrescentei.
       -Gizmo? -disse duvidando-.  o nome de um santo?
       -No acredito, mas nunca se sabe com gente chamada Pantalen e Onuphrius. Ou Ferreolus.
       -Ferreolus? Acredito que no o conheo.
       - um de meus favoritos -pinjente, anotando com cuidado a data e a hora do nascimento, embora isso era estimativo. S havia duas informaes exatas em meu certificado, a data e o nome do mdico.
       Jamie se deu a volta no banco, olhando atravs da porta aberta. Brianna e Lizzie estavam sentadas no prado, observando ao menino nu, de barriga para baixo sobre um xale e com as ndegas tintas como um macaco.
       "Brianna Ellen", escrevi e me detive.
       -Brianna Ellen Randall, parece-te bem? -perguntei-. Ou Fraser? Ou ambos?.
       Jamie no se voltou, mas se encolheu de ombros.
       -Importa isso?
       -Pode. Se Roger retornar, fique ou no, se escolhe reconhecer ao pequeno Annimo, suponho que seu sobrenome ser MacKenzie. Se no o fizer ou no quer, ento imagino que o menino ter o sobrenome da me.
       Permaneceu em silncio, olhando s duas moas.
       -Ela se chama a si mesmo Fraser. Ou assim o fazia. 
       Estendi a mo para lhe tocar o brao.
       -Perdoou-te -pinjente-. Sabe que o fez.
       -por agora. Mas e se esse homem no vier?.
       Vacilei. Tinha razo; Brianna o tinha perdoado pelo equvoco anterior. Mas se Roger no aparecia logo culparia ao Jamie, e no sem razo, devia admiti-lo.
       -Ponha os dois -disse bruscamente-. Deixa que ela escolha.
       -Ele voltar -disse com firmeza- e tudo ir bem. E acrescentei em um murmrio-: Confio em que assim seja.
       deteve-se para beber. Era um dia caloroso da primavera. Sua lembrana de uma navalha de barbear era muito longnquo; sua barba era espessa e seus cabelos caam por debaixo dos ombros. A noite anterior se banhou em um arroio e tinha lavado sua roupa, mas no se fazia iluda sobre seu aspecto. Tampouco lhe importava, disse-se. Seu aspecto no tinha importncia. 
       Foi coxeando at onde tinha deixado seu cavalo. Doa-lhe o p, mas isso tampouco lhe importava. Montou e percorreu lentamente o claro onde encontrasse pela primeira vez ao Jamie Fraser. Agora as folhas eram novas e verdes. Conduziu seu cavalo para o topo da Colina, apurando-o com seu p so. No tinha nem idia de como o receberiam, mas isso era o de menos. Nada importava, salvo o fato de que estava ali.
       
       66
       Filho de meu sangue
       
       Os coelhos tinham estado de novo no pomar. Havia trazido brotos e sementes desde o River Run e, apesar de ter estado tanto tempo sem cuidados, a maioria tinham sobrevivido.
       Fiquei pensando a forma de afugentar aos coelhos. Nayawenne me havia dito que o aroma da urina dos carnvoros os espantava. Decidi que Jamie seria o melhor repelente. Ento captei um movimento no limite do claro. Acreditando que era ele, voltei-me para lhe informar de sua nova tarefa, mas me detive quando vi de quem se tratava.
       Estava pior que a ltima vez que o tinha visto. No tinha chapu, e o cabelo e a barba se uniam formando um arbusto escuro. Sua roupa se converteu em farrapos. Ia descalo, com um p envolto em trapos, e coxeava.
       Viu-me imediatamente e se deteve enquanto eu me aproximava.
       -Me alegro de que voc seja -disse-. Perguntava a quem veria primeiro.
       -Seu p, Roger..
       -No importa. -Agarrou-me do brao-, Esto bem? O menino e Brianna?
       -Esto muito bem. Todos na casa esto bem. -Sua cabea se voltou para a cabana-. Tem um filho.
       Olhou-me assombrado.
       - meu? Tenho um filho?
       -Suponho que assim . Est aqui, verdade?
       A esperana e o assombro se atenuaram, mas sorriu.
       -Estou aqui-disse e se voltou para a cabana.
       Jamie estava sentado frente  mesa junto  Brianna, fazendo desenhos de planos da casa enquanto o menino dormia plcidamente em seu bero e Brianna o balanava com um p. Lizzie fiava junto  janela, cantarolando brandamente uma cano.
       -Uma cena muito caseira -disse Roger-. Parece-me uma vergonha turv-los.
       -Pode escolher?
       -Sim, j o fiz.
       E entrou decidido pela porta aberta.
       Jamie reagiu ante o desconhecido apartando a Brianna e agarrando a pistola da parede. J estava apontando-o quando se deu conta de quem era e baixou a arma com uma exclamao de desgosto.
       - voc -disse.
       O menino, sobressaltado pelos rudos, despertou gritando. Brianna o tirou do bero e o apertou contra seu peito, olhando com os olhos muito abertos o que para ela era uma apario.
       Tinha-me esquecido de que no o via desde o Wilmington. Roger deu um passo para ela; instintivamente, Brianna retrocedeu. Roger permaneceu imvel, olhando ao menino, e Brianna se sentou para lhe dar de mamar, mas se tampou os peitos com o xale.
       Vi os olhos do Roger ir do menino para o Jamie, quem permanecia ao lado da Brianna com essa rigidez que tanto me assustava. Nunca tinha encontrado parecido entre eles. Agora eram como o dia e a noite, imagens de fogo e escurido.
       "MacKenzie", pensei sbitamente: animais, vikingos, grandes e sanguinrios. E vi o terceiro eco dessa herana brilhando nos olhos da Brianna. Queria dizer ou fazer algo para romper a tenso, mas era intil.
       Roger estendeu sua mo para o Jamie com a palma para cima. O gesto no era de splica.
       -No acredito que eu voc goste mais do que voc eu gosto  -disse com sua voz rouca-, mas  meu parente mais prximo: me faa um corte. vim para fazer um juramento com nosso sangue compartilhado.
       No sei se Jamie vacilou ou no. O tempo se deteve e o ar se cristalizou quando a faca do Jamie cortou a magra boneca do Roger e o sangue brotou. Para minha surpresa, Roger no olhava a Brianna, nem to sequer agarrou sua mo. passou-se o polegar pelo corte e deu um passo para o menino. Brianna o apartou instintivamente, mas Jamie lhe ps uma mo no ombro.
       Roger se ajoelhou, apartou o xale e riscou uma cruz com o polegar manchado de sangre na frente da criatura.
       -Voc  sangue de meu sangue -disse brandamente- e carne de minha carne. Proclamo-te meu filho ante todos os homens, desde hoje e para sempre.
       Olhou desafiante ao Jamie, o qual, depois de um comprido momento, fez um ligeiro gesto de assentimento e retrocedeu.
       Roger olhou a Brianna.
       -Que nome lhe pusestes?.
       -Ainda... nenhum.
       Olhou-o. Era evidente que o homem que tinha retornado no era o mesmo que a tinha deixado. Tinha os olhos cravados nos dela. Quando ficou em p o sangue lhe jorrava pela boneca. Com certa impresso, dava-me conta de que ela estava to trocada para ele como ele para ela-
       - meu filho -disse Roger, assinalando ao menino-, E voc  minha esposa?.
       Brianna empalideceu.
       -No sei.
       -Este homem diz que lhes casaram de palavra. -Jamie deu um passo adiante-,  certo?
       -Ns... fizemo-lo.
       -Ainda estamos casados.
       -Roger respirou profundamente e me dava conta de que ia desabar se. Agarrei-o do brao e o ajudei a sentar-se; depois mandei ao Lizzie a procurar leite enquanto lhe curava a boneca.
       Servi brandy ao Jamie e o mesclei com o leite ao Roger. A tenso pareceu relaxar-se um pouco.  
       -Muito bem -disse Jaime-. Se est casada de palavra, Brianna,  seu marido.
       Brianna se ruborizou, mas olhava ao Roger, no ao Jamie.
       -Disse que o matrimnio de palavra durava um ano e um dia.
       -E voc disse que no queria nada temporal.
       Brianna vacilou, mas logo juntou os lbios com firmeza.
       -E no o quero, mas no sei o que acontecer. -Olhou a todos-. Disseram-lhe... que o menino no  teu?.
       Roger arqueou as sobrancelhas.
       -Mas  meu, no?
       Levantou a boneca enfaixada para prov-lo.
       -Sabe o que quero dizer.
       Olhou-a aos olhos.
       -Sei o que quer dizer. E o sinto.
       -No foi tua culpa.
       Roger olhou de esguelha ao Jamie.
       -Sim, foi. Devi ficar contigo, me assegurar de que estava a salvo.
       -Disse-te que fosse e era a srio. -Brianna moveu os ombros com impacincia-. Mas isso no importa agora. Quero saber uma coisa -disse com voz tremente-. Quero saber por que tornaste.
       Deixou sua jarra sobre a mesa.
       -No queria que voltasse?
       -No importa o que eu queria. O que agora quero saber  se veio porque queria ou porque pensou que devia faz-lo.
       Olhou-a durante um momento.
       -Talvez por ambas as coisas. Talvez por nenhuma. No sei. Tal  a verdade ante Deus: que no sei.
       -Foi ao crculo de pedras? -perguntou.
       Assentiu sem olh-la e tirou a grande opala de seu bolso.
       -Estive ali. Por isso demorei para voltar. Levou-me tempo encontrar o crculo de novo.
       -No foi. Mas pde faz-lo. Talvez deveu faz-lo. -Olhou-o com firmeza-. No quero viver contigo se o fizer por obrigao. Vi um matrimnio por obrigao e um por amor. Se no houvesse visto ambos teria podido viver com o primeiro. Mas os vi e no quero.
       Senti como se me golpeassem: estava falando de meu matrimnio. Olhei ao Jamie e vi em seu rosto a mesma expresso que devia ter o meu.
       Jamie tossiu e se dirigiu ao Roger.
       -Quando lhes casaram?
       -Em 2 de setembro -respondeu Roger.
       -E agora estamos em meados de junho. -Olhou-os aos dois com o cenho franzido-. Bom, se est casada de palavra com este homem, ento est unida a ele, no h discusso.
       -voltou-se para o Roger-. Viver aqui como seu mando. E em 3 de setembro ela escolher se vos casa um sacerdote ou se deve deix-la e no incomod-la nunca mais. Tem esse tempo para averiguar por que est aqui e convenc-la a ela.
       Roger e Brianna foram protestar, mas Jamie os deteve.
       -Pinjente que viver aqui como seu marido. Mas se a toucas sem que ela queira te arrancarei o corao e o darei aos porcos. Entende-me?
       Roger lhe olhou fixamente.
       -Acredita que me aproveitaria de uma mulher que no me quisesse?
       Uma pergunta inconveniente, tendo em conta que Jamie quase o mata por supor que o tinha feito.
       Roger saiu bruscamente e Jamie foi atrs dele. Brianna me olhou.
       -O que crie que...?
       Interromperam-na uma srie de rudos e grunhidos.
       -Trata-a mau e te arrancarei as Pelotas e lhe farei tragar isso. Jamie falava em galico. Brianna o entendeu e ficou com a boca aberta, sem poder falar.
       -Volta a me pr as mos em cima -disse Roger- e te colocarei a cabea no culo, que  de onde provm.
       Houve um momento de silncio e logo um rudo de passos que se afastavam.
       -Excesso de testosterona -disse a Brianna.
       -No pode fazer algo?.
       No sei se queria rir ou estava histrica.
       -Bom -pinjente finalmente-, s h duas coisas que podem fazer, algum  matar o um ao outro.
       Brianna se esfregou o nariz.
       -Ah! E a outra...
       Nossos olhos se encontraram com perfeito entendimento.
       -Eu me ocupo de seu pai. Mas Roger  teu problema.
       
       A vida na montanha transcorria cheia de tenso pela conduta da Brianna e do Roger, que Jamie olhava com desaprovao; pela do Lizzie, que tratava de fazer-se perdoar por tudo e o menino, que tinha decidido ter clicas noturnos.
       Talvez os clicas impulsionaram ao Jamie a terminar a nova casa. Fergus e outros vizinhos tinham semeado nossas terras e, embora no teramos trigo para vender, ao menos poderamos comer.
       Roger fazia o que podia para ajudar nas tarefas da granja, mas seu p lhe incomodava. Rechaava meus intentos de cur-lo, mas no quis esperar mais, assim fiz meus preparativos e lhe informei que o curaria ao dia seguinte.
       Tirei-lhe as ataduras e lhe limpei a ferida infectada.
       -Tem abscessos muito profundos. -Apertei tas bolsas de pus; Roger empalideceu e se agarrou aos barrotes da cama, mas no disse nada-. Tem sorte, os abscessos se abriram e drenaram bem sem chegar a te infectar o osso.
       -Bom -disse fracamente.
       -Bri, necessito sua ajuda -pinjente, me dirigindo para onde as duas moas estavam com o menino.
       -J vou eu, me deixe faz-lo -disse Lizzie, ansiosa por ajudar.
       Seus remorsos por sua parte de culpa nas desgraas do Roger a impulsionavam a lhe oferecer sua ajuda, a lhe levar comida e a ocupar-se de sua roupa.
       Sorri-lhe.
       -Sim pode ajudar. Agarra ao menino, asi Brianna poder vir aqui. por que no o leva fora, para que tome o ar.?.
       Com gesto de dvida, Lizzie obedeceu e Brianna se colocou a meu lado evitando olhar ao Roger.
       -vou abrir isto, limp-lo e dren-lo o melhor que possa -expliquei-lhes-. Logo tenho que retirar a malha morta. No se preocupe, acredito que por sorte o osso no est infectado. O arrancar a malha morta no di.
       -No? .
       -No. O que di  a drenagem e a desinfeco. -Olhei a Brianna-. Por favor, sujeita o pelas mos.
       Vacilou um instante, foi at a cabeceira e lhe agarrou as mos. Ele as apertou sem lhe tirar os olhos de cima. Era a primeira vez que se tocavam em quase um ano.
       -lhes agarre com fora -indiquei-lhes-. Esta  a pior parte. Trabalhei rpido e sem levantar a vista.
       -Quer algo para morder, Roger? -perguntei, tirando meu botellita de lcool diludo-. Queimar-te um pouco.
       Brianna respondeu por ele.
       -Est bem. Continua.
       Quando levantei a vista, Brianna estava sentada na cama com seus braos ao redor das costas do Roger, que tinha a cara na saia da Brianna e se aferrava a suas bonecas.
       -terminaste?
       Brianna tinha o rosto plido, mas me sorriu.
       -A pior parte. S fica um pouco -assegurei. Fazia meus preparativos dois dias antes. Sa, agarrei a pequena fonte que estava fora e a meti em casa.
       -Puf! -Brianna franziu o nariz-, O que  isso? Cheira a carne podre.
       - o que .
       Brianna ainda te sustentava as mos. Sorri para meus adentros.
       -Mame! O que est fazendo?
       -No lhe doer -pinjente.
       Tirei um verme branco da carne podre e o coloquei em uma das incises que tinha feito.
       Roger tinha os olhos fechados e a frente cheia de suor.
       -O que? -Levantou a cabea em um esforo por ver o que acontecia-. O que est fazendo?
       -te pondo uns vermes na ferida. Aprendi-o de uma anci a ndia que conheci. Chegaram-me os sons de asco e nuseas, mas segui trabalhando.
       -Funciona -pinjente enquanto abria outra inciso e depositava trs larvas brancas-. Nossos pequenos amigos vo se comer a malha morta e chegaro a lugares que eu no posso chegar.
       -Nossos amigos os vermes -murmurou Brianna-. Mas, mame!
       -O que os deter para que no se comam toda minha perna?-perguntou Roger, tratando de mostrar indiferena-. Eles... vo avanando, no?
       -No! -assegurei alegremente-. So larvas e no comem tecido so, s o morto. Se houver muito alimento, convertem-se em pequenas moscas e voam; do contrrio, quando se acaba a comida, vo em busca de mais.
       Suas caras se haviam posto verdes. Terminei meu trabalho, enfaixei o p e dava uma palmada ao Roger.
       -J est. No se preocupe, j o vi antes. Um guerreiro ndio me disse que no doa, s picava.
       Ao sair me encontrei com o Jaime, que vinha da nova casa com o menino em braos.
       -Esta  a abuelita -informou  criatura-. No  uma mulher muito bonita?
       -GA -disse o menino e tratou de chupar o boto da camisa de seu av.
       -No lhe deixe chupar isto -pinjente, beijando primeiro ao Jamie e logo ao menino-. Onde est Lizzie?
       -Encontrei-a sentada chorando. Por isso me traga para o menino e lhe disse que se fora a passear um pouco.
       -Estava chorando? O que lhe passa?
       Uma sombra cruzou a cara do Jamie.
       -Deve sentido pelo Ian, no crie? -Agarrou-me do brao-. Vem comigo, Sassenach, ver o que tenho feito hoje. terminei o cho de seu gabinete; tudo o que se necessita agora  um teto provisrio e j se poder dormir ali. Estava pensando que, por agora, poderia ir Mackenzie.
       -Boa idia.
       At com o pequeno quarto adicional que tinha construdo na cabana para a Brianna e Lizzie, estvamos muito apertados. E se Roger ia ter que ficar em cama vrios dias era melhor no o ter ali no meio.
       -Como andam? -perguntou, pretendendo demonstrar certa despreocupao.
       -Quais? Refere a Brianna e Roger?.
       -A que outros, se no? -disse, deixando a um lado suas pretenses-. Vai tudo bem entre eles?.
       -Acredito que sim. esto-se acostumando de novo o um ao outro.
       - Fazem-no?.
       -Sim -pinjente, olhando de esguelha  cabana-- Roger acaba de vomitar na saia da Brianna.
       
       67
       Jogar no ar uma moeda
       
       Roger se deu a volta e se sentou. Ainda no havia cristais nas janelas, mas no eram necessrios enquanto o tempo veraniego se mantivera. O gabinete se encontrava na parte frontal da casa. Se torcia a cabea podia ver a Brianna no caminho de volta  cabana, antes de que a nogueira a ocultasse.
       Essa noite tinha ido sem o menino, mas no sbia se interpret-lo como um avano ou no. Tinham podido falar sem as interrupes ocasionadas pelas mudanas de fraldas, a alimentao, os choros e os arrotos, o que tinha sido um luxo inesperado.
       Mas Brianna no se ficou tanto tempo como de costume. O menino a reclamava como se fora uma cinta de borracha que atirasse dela. No  que no gostasse daquele pequeno patife, mas se sentia relegado.
       Ainda no tinha comido; no tinha querido esbanjar esses momentos em que podia estar a ss com ela. Desentupiu a cesta e aspirou o delicioso aroma do guisado e do po com manteiga, aos que seguiria o bolo de ma. 
       O p ainda lhe doa e tinha que fazer esforos para no pensar nos vermes, mas tinha recuperado o apetite. Fraser sabia o que fazia quando escolheu o lugar para a casa. Era um dos espaos mais solitrios, magnficos e romnticos que tinha visto. E Brianna se dedicava a alimentar a um pequeno parasita descascado enquanto ele estava ali, sozinho.
       por que diabos lhe havia dito que no sabia o motivo, quando lhe perguntou por que havia tornado? Bom, porque ento no sabia. Depois de vrios meses de fome, solido e dor, sentou-se durante trs dias, sem comer nem beber, no crculo de pedras. Finalmente se levantou e comeou a andar, sabendo que era sua nica eleio possvel. Obrigao? Amor? Como diabos se podia amar sem obrigaes?
       O problema de recuperar a sade era que certas partes de seu corpo estavam muito saudveis. No podia nem sugerir-lhe a Brianna. Em primeiro lugar ia acreditar que tinha vindo s por isso. E em segundo, aquele maldito gigante escocs no brincava com o do porco.
       Agora j sabia a resposta; havia tornado porque no poderia viver no outro lado. Sabia tudo o que deixava e nada disso lhe importava; tinha que estar ali, isso era tudo. Como poderia dizer-lhe para que lhe acreditasse? Se quase no deixava que a tocasse... Salvo o dia em que o sustentou enquanto Claire torturava seu p. Ento esteve realmente com ele, com toda sua fora. Ainda podia sentir seus braos. Isso lhe fez pensar que Claire o tinha feito a propsito. Tinha-lhe dado ao Bri a possibilidade de toc-lo sem sentir presses. E a ele, a possibilidade de recordar quo forte era a unio entre eles.
       sentia-se disposto a deixar-se cortar o outro p se Brianna ia estar a seu lado.
       
       Claire o via uma ou duas vezes ao dia, mas esperou ao fim de semana, quando foi tirar lhe as vendagens.
       -Precioso. Quase no h inflamao e a cicatrizao  perfeita.
       -Estupendo. J se foram?
       -Os vermes?  Sim. Fizeram um bom trabalho.
       -Aceito sua palavra. J posso comear a andar?
       -Sim. No ponha o sapato durante uns dias.
       Claire comeou a reunir suas coisas. Estava contente, mas cansada.
       -O menino ainda chora de noite? -perguntou.
       -Sim, pobrecito. Pode ouvi-lo daqui?
       -No.  que parece cansada.
       -No me surpreende. Ningum dormiu bem em toda a semana, em especial a pobre Bri.  a nica que pode aliment-lo. -Bocejou e sacudiu a cabea-. Jamie quer que nos translademos aqui logo que esteja preparado o cho. Bri e o menino tero mais espao e ns um pouco de paz e tranqilidade.
       -Boa idia. Ah... falando do Bri...
       -Mmm?
       -Olhe -era melhor diz-lo diretamente-, estou tentando-o tudo. A amo e quero demonstrar-lhe mas me escapa. Vem e conversamos e ento tudo  estupendo, mas quando vou passar lhe o brao pelos ombros ou a beij-la, ela, de repente, vai  outra ponta. H algo que no vai bem, algo que eu deva saber?
       Dirigiu-lhe um de seus olhares desconcertantes, direta como a de um falco.
       -Voc foi o primeiro, no? O primeiro em deitar-se com ela.
       Roger sentiu que o sangue enchia suas bochechas.
       -Eu... ah... sim.
       -Bom, ento sua experincia do que podemos chamar as delcias do sexo consiste em ser desflorada. E por muito considerado que tenha sido, est acostumado a doer. Dois dias mais tarde a violaram e logo deu a luz ao menino. Crie que todo isso a far cair em seus braos quando pretender reclamar seus direitos matrimoniais?
       -Nunca o interpretei assim-murmurou.
       -Naturalmente -disse com um tom que mesclava a exasperao e a risada-.  um homem. Por isso lhe estou dizendo isso.
       Roger respirou profundamente e a contra gosto a olhou aos olhos.
       -Exatamente, o que  o que me est dizendo?
       -Que ela tem medo -disse-. Embora no  de ti de quem tem medo.
       -No?
       -No -disse bruscamente-. Pode haver-se convencido a si mesmo de que tem que saber o motivo de sua volta, mas no  isso; um regimento de cegos poderia v-lo. Seu temor  o de no ser capaz de... mmm.
       Arqueou uma sobrancelha para marcar a pouco delicada sugesto.
       -J vejo -disse com um suspiro-. E o que me sugere que faa?
       Claire levantou a cesta e a colocou no brao.
       -No sei -disse lhe olhando intensamente com seus olhos dourados-. Mas acredito que deve ser muito cuidadoso.
       
       Tinha terminado de recuperar a equanimidade depois de seu inquietante consulta, quando chegou outro inesperado visitante. Jamie Fraser, que lhe trazia alguns pressente.
       -Trouxe-te uma navalha -disse Fraser, olhando-o com olho crtico-, E um pouco de gua quente.
       Claire lhe tinha recortado a barba com suas tesouras de cirurgio poucos dias antes, mas se havia sentido muito fraco para tentar barbear-se com isso que chamavam navalha cortagargantas", por razes bvias.
       -Obrigado.
       Fraser havia trazido um pequeno espelho e um recipiente com sabo para barbear-se. Teria preferido que partisse em lugar de ficar apoiado na porta, observando-o com frieza, mas naquelas circunstncias Roger no podia lhe pedir que o deixasse sozinho. A pesar do indeseado espectador, a sensao de alvio que sentiu ao tir-la barba foi maravilhosa. Picava-lhe e no tinha visto seu prprio rosto desde fazia meses.
       -O trabalho vai bem? -Tratou de lhe dar conversao enquanto se barbeava-. Esta manh te ouvi trabalhar.
       -Sim. -Fraser seguia seus movimentos com interesse-. J tenho o estou acostumado a acabado e uma parte do teto. Acredito que Claire e eu j poderemos dormir a esta noite.
       -Ah! -Roger torceu a cabea-, Claire me disse que j posso comear a andar, assim me diga do que me posso encarregar.
       Jamie assentiu com os braos cruzados sobre o peito.
       -Sabe utilizar ferramentas?
       -No tenho muita experincia na construo -admitiu.
       "Uma casa para pssaros feita no colgio no deve contar", suspeitou. 
       -Suponho que no saber o que fazer com um arado ou com uma piara de porcos.
       Havia um evidente brilho de diverso nos olhos do Fraser. Roger levantou o queixo para tir-los restos de sabo do pescoo. Nos ltimos dias tinha estado pensando nisso. Em uma granja do sculo XVIII, seus dotes de historiador ou cantante folclrico no lhe seriam muito teis.
       -No -disse com tranqilidade, deixando a navalha- Nem tampouco sei ordenhar uma vaca, nem construir uma chamin, nem matar ursos, nem esquartejar cervos ou atravessar a algum com uma espada.
       -No?
       A diverso foi evidente.
       Roger se tornou gua na cara, a secou e logo se voltou fazia Fraser.
       -No. S tenho as costas forte. Isso serve?
       -Sim! No poderia pedir mais.  capaz de distinguir em uma p uma ponta da outra, no?
       -Isso sim.
       -Ento o far bem. O pomar do Claire necessita que lhe revolvam a terra; h muito abono na quadra. Depois te ensinarei a ordenhar uma vaca.
       -Obrigado.
       Limpou a navalha, guardou-a na caixa e a entregou.
       -Claire e eu vamos esta noite a casa do Fergus -disse Fraser com indiferena enquanto agarrava a caixa-. Lizzy vir conosco para ajudar ao Marsali.
       -Ah? Bom..., que o passem bem.
       -Espero que seja assim. -Fraser se deteve na porta- Brianna decidiu ficar; a criatura est um pouco melhor e no quer incomod-lo com a caminhada.
       Roger olhou fixamente ao outro homem. podia-se ler tudo, ou nada, em seus olhos azuis.
       -Sim? Ento, est-me avisando de que ficaro sozinhos? Cuidarei deles.
       Arqueou uma sobrancelha. -Estou seguro de que o far. -Fraser abriu a mo sobre o recipiente vazio. Houve um rudo metlico e uma fasca vermelha que brilhou contra o estanho-. J lhe disse isso, MacKenzie, minha filha no necessita um covarde.
       antes de que pudesse responder, Fraser baixou a sobrancelha e o olhou com calma.
       -Por ti perdi um sobrinho ao que quero muito e no estou muito predisposto a que eu goste. -Olhou o p do Roger e levantou a vista-. Mas talvez voc perdeu mais que isso. Considerarei que estamos em paz, ou no, segundo o que diga.
       Atnito, Roger assentiu antes de poder falar.
       -De acordo.
       Fraser tambm assentiu e se foi to rpido como tinha chegado, deixando ao Roger olhando a porta vazia.
       
       Tentou abrir a porta da cabana, mas tnia o ferrolho jogado. depois de desprezar a idia de despertar com um beijo  Bela Adormecido, levantou o punho para golpear e se deteve. A autntica Bela Adormecido no tinha a um ano irascvel em sua cama, preparado para uivar ante qualquer molstia.
       Deu a volta  pequena cabana, controlando as janelas enquanto os nomes dos sete enanitos apareciam em sua mente. Como chamaria a este? Ruidoso? Cheiroso?.
       A casa estava fechada por toda parte. Com lentido, voltou a dar a volta. O mais razovel seria retornar a sua habitao e esperar  manh seguinte. Ento poderia falar com ela. Era melhor isso que despertar a de um sonho profundo, e com ela ao pequeno.
       Sim, isso era o que tinha que fazer. Claire se faria cargo do pequeno bs... do menino, se o pedia. Poderiam falar com calma, sem medo a interrupes, caminhar pelo bosque e esclarecer coisas entre eles. Bem, isso  o que faria. 
       Dez minutos mais tarde, depois de sua dcima volta  casa, ficou olhando um dbil brilho que saa de uma janela.
       -Quem diabos te crie que ? -murmurou para si mesmo-, Uma maldita traa?
       Um rudo o fez voltar-se e viu uma figura branca, como um fantasma, que ia para o privada.
       -Brianna?                     :
       A figura soltou um pequeno grito pelo susto.
       -Sou eu -disse, e viu que se levava uma mo ao peito.
       -O que faz me espiando assim? -perguntou furiosa.
       -Quero falar contigo.
       No respondeu e seguiu seu caminho.
       -Hei dito que quero falar contigo.
       -E eu quero ir ao banho. Vete.
       Fechou a porta do privada com gesto decidido.
       retirou-se a certa distncia e esperou. Quando Brianna saiu se deteve o v-lo.
       -No deveria caminhar com esse p -disse.
       -O p j est bem.
       -Deveria ir  cama.
       -Muito bem -disse, colocando-se frente a ela no meio do atalho-. A qual?
       -A qual?
       ficou imvel, mas no fingiu no entender.
       -Vamos? -Assinalou para a colina-. Ou aqui?
       -Eu... ah...
       "Deve ser cuidadoso", havia dito sua me; "minha filha no necessita um covarde", tinha-lhe recordado o pai. Podia atirar uma moeda ao ar, mas por agora aceitaria o conselho do Jamie Fraser.
       -Disse que conheceu um matrimnio por obrigao e outro por amor. Crie que algum elimina ao outro? Olhe, passei trs dias nesse crculo, pensando. Pensei em ficar, pensei em ir. E fiquei.
       -Mas nunca saber o que deixa se fica para sempre.
       -Sim sei! E embora no soubesse saberia muito bem o que perco se vou. -Agarrou-a do ombro sentindo sua pele quente-. No posso ir e viver pensando que deixei um menino que poderia ser meu, que  meu. -Lhe quebrou a voz-. Nem posso ir e viver sem ti.
       Brianna vacilou tentando soltar-se.
       -Meu pai... meus pais...
       -Olhe, eu no sou nenhum de seus malditos pais! Ao menos me julgue por meus prprios pecados!
       -Voc no cometeste nenhum pecado!
       -No, nem voc tampouco.
       Olhou-o e captou o brilho de seus olhos.
       -Se eu no houvesse... -comeou.
       -E se eu no houvesse- interrompeu-a com brutalidade-. Deixa-o j, quer? No importa o que fez ou o que fiz. Pinjente que no sou nenhum de seus pais e  assim- Mas conheceste bem aos dois, muito melhor que eu. Frank Randall no te amou como se fosse sua filha? Tomou como a filha de seu corao, sabendo que foi do sangue de outro homem, de um que tinha boas razes para odiar.
       Agarrou-a do outro ombro e a sacudiu ligeiramente.
       -E esse bastardo ruivo no quer a sua me mais que a sua vida? E no te quis tanto como para sacrificar esse amor por te salvar?
       Brianna deixou escapar um gemido e Roger sentiu sua dor, mas no a soltou.
       -Se crie neles -disse, quase em um sussurro-, ento deve acreditar em mim. Porque eu sou um homem como eles. Juro-te pelo mais sagrado que te quero!
       Brianna levantou a cabea com lentido e Roger sentiu seu flego quente no rosto.
       -Temos tempo -disse brandamente e, nesse momento, soube por que tinha sido to importante falar agora, ali, na escurido. Agarrou sua mo e a apoiou sobre seu peito-. Sente-o? Pode sentir os batimentos do corao de meu corao?
       -Sim -sussurrou Brianna, e com suavidade lhe agarrou as mos e as apoiou sobre seu peito.
       -Este  nosso tempo. At que deixem de pulsar  nosso tempo. Agora. vais desperdiar o, Brianna, porque tem medo?
       -No -respondeu com voz clara-. No o farei.
       Um suave pranto lhes chegou da cabana.
       -Tenho que ir -disse, apartando-se. Deu dois passos e se voltou-. Vem -disse correndo pelo atalho, veloz e branca como o fantasma de um cervo.
       Quando chegou  porta, Brianna tinha pego ao menino e lhe estava dando de mamar.
       -De noite lhe dou de mamar na cama -explicou-, Dorme mais se o tiver ao lado.
       Roger murmurou uma espcie de aceitao. Fazia muito calor na habitao e cheirava a fraldas usados, comida e a Brianna. Embora aqueles dias tema um novo matiz, um aroma doce que devia vir do leite. Tinha a cabea inclinada, o cabelo avermelhado solto em uma cascata brilhante e a camisola aberta, com a cabea do menino apoiado em seu peito arredondado. Como se sentisse seu olhar, Brianna levantou a cabea.
       -Sinto muito -disse brandamente Roger para no lhes incomodar-. No posso pretender dizer que no estava olhando.
       -Segue -disse-. No h muito para olhar.
       Sem uma palavra, Roger comeou a despir-se.
       -O que est fazendo?
       Sua voz era baixa, mas estava assombrada.
       -No  justo que fique sentado, te olhando, no? Tampouco h muito que valha a pena olhar, mas... -Lutou com o n do lao dos cales-. Mas ao menos, no acreditar que te est exibindo.
       -Ah!
       No a olhou, mas lhe pareceu que a tinha feito sorrir. endireitou-se e deixou cair os cales antes de tirar-lhe de tudo.
       - um espetculo de desentupa?.
       Brianna se conteve para no deixar escapar uma gargalhada.
       -No me dito a ficar de frente ou de costas. Tem alguma preferncia?
        -Fica de costas -disse brandamente-. por agora. Fez-o.
       -Fique assim um minuto -disse Brianna-. Por favor. Eu gosto de te olhar.
       Permaneceu erguido, olhando o fogo. O calor lhe fez recordar ao pai Alexandre e deu um passo atrs. por que recordava isso agora?.
       -Tem marcas nas costas, Roger -disse com voz muito suave-. Quem lhe fez isso?
       -Os ndios- No tem importncia. J no.
       No se tinha talhado o cabelo e lhe caa sobre os ombros. Podia sentir o olhar da Brianna percorrendo seu corpo.
       -Vou me dar a volta. Vale?
       -No me vou impressionar -assegurou-lhe. Vi fotos.
       Tinha a mesma qualidade que seu pai; podiam manter a mesma expresso quando o desejavam. Estava assustada, impressionada ou divertida? E por que tinha que ser assim? Havia meio doido e acariciado tudo o que agora via a luz. Mas tinha passado toda uma vida aps. Agora estava nu e ela tinha um menino nos braos. Qual dos dois tinha trocado mais desde sua noite de bodas? No podia ficar assim muito tempo e se sentou, observando-a.                                           
       -O que se sente? -perguntou, em parte por curiosidade e em parte por romper o silncio.
       - agradvel. Quando comea a chupar acontece algo, como se todo fora de mim para ele.
       -No  como se lhe esvaziassem? Como se lhe tirassem algo teu?
       -No, nada disso. Olhe. -Ps um dedo na boca do menino e o apartou.
       Roger viu o mamilo e o leite que saa com uma fora incrvel. Brianna colocou de novo ao menino, antes de que comeasse a chorar.
       -meu deus -disse, assombrado-, No sabia que fora assim!
       -Eu tampouco. -Sorriu-. H um monto de coisas que no tivesse imaginado.
       E seu sorriso se apagou.
       -Bri. -inclinou-se para ela, esquecendo sua nudez ante a necessidade de toc-la-. Bri, sei que est assustada. Eu tambm, e no quero que tenha medo de mim mas... Bri, desejo-te. Deixou as mos apoiadas sobre os joelhos da Brianna e ela, ao pouco momento, apoiou sua mo livre sobre as suas.
       -Eu tambm te desejo -sussurrou.
       Permaneceram assim durante o que lhes pareceu muito tempo. Roger no sabia o que faria depois, mas sim que no se apressaria, que no a assustaria.
       -Est dormido -sussurrou Brianna-
       ficou em p com o cuidado de quem leva uma carga de nitroglicerina. 
       ia pr ao menino no bero, mas Roger levantou os braos instintivamente. Ela vacilou um segundo e o entregou. O menino era surpreendentemente pesado e estava muito quente. Roger o aproximou com cuidado. Suas pequenas ndegas cabiam na palma de sua mo. depois de tudo, no estava totalmente calvo. Tinha um penugem avermelhado por toda a cabea. As orelhas eram pequenas, quase transparentes.
       -No pode sab-lo s olhando-o. Eu o tentei.
       A voz da Brianna o arrancou de sua contemplao.
       -No  isso o que estava procurando.  que...  a primeira vez que posso olhar a gosto a meu filho.
       -Ah, bom.
       Havia uma pequena nota de orgulho que lhe chegou ao corao. Agarrou-lhe o punho e o abriu brandamente com o polegar at poder colocar seu dedo indicador. O puito se fechou outra vez, com uma fora assombrosa. Pde ouvir um rtmico som e se deu conta de que ela se estava escovando o cabelo. Tivesse-lhe gostado de olh-la, mas estava muito fascinado com seu filho.
       "Meu filho", pensou, e no soube bem o que sentia. Teria que passar um tempo at acostumar-se. "Mas pode s-lo", foi o seguinte pensamento. No s o filho da Brianna, mas tambm tambm o fruto de sua prpria carne. Esse pensamento era inclusive mais remoto. Tratou de apartar o de sua mente, mas voltava. Aquela unio na escurido, aquela mescla de dor e gozo, teria sido o comeo disto? No queria faz-lo, mas esperava sobre todas as coisas que fora assim.
       Com curiosidade, abriu-lhe o fralda para olhar.
       -Disse-te que o tem tudo.
       Brianna estava a seu lado.
       -Bom, sim -disse-. Mas no ... um pouco pequeno?
       -Crescer -assegurou rendo-. por agora, parece no necessitar mais.
       Seu prprio pnis caa flccido entre suas coxas.
       -me quer dar isso Sacudiu a cabea.
       -Ainda no. Cheira a leite e a um pouco docemente podre, no?
       -Mame o chama colnia de beb. Dce que  um aroma protetor que os recm-nascidos usam para impedir que seus pais os matem.
       -Mat-lo? Mas sim  uma criatura preciosa -protestou Roger.
       -No estiveste vivendo com ele este ltimo ms.  a primeira noite em trs semanas que no tem clicas. Sim no fora meu, o teria deixado na ladeira da montanha.
       "Se no fora meu." Essa segurana, supunha, era o prmio das mes. Sempre o tinha sabido, sempre saberia. Durante um instante a invejou. O menino se agitou e emitiu um dbil som. antes de que pudesse mover-se, Brianna o agarrou e aplaudiu as costas da criatura. Um suave arroto e ficou dormido de novo; colocou-o no bero com muito cuidado. Quando se voltou, Roger estava preparado.
       -Pde retornar quando se inteirou. Teve tempo. -Sustentou-lhe o olhar, sem deix-la olhar para outro lado-. Assim agora toca a meu perguntar. O que te fez me esperar? Amor ou obrigao?
       -Ambos -disse com os olhos obscurecidos-. Nenhum dos dois. Eu... no me podia ir sem ti.
       Respirou, sentindo que o abandonava a ltima dvida.
       -Ento sabe.
       -Sim.
       Levantou os ombros e deixou que sua camisola casse, ficando to nua como ele.
       Deus bendito, era vermelho, e mais que vermelho, ouro e mbar. Desejava-a com um anseia que ia alm da carne.
       -Disse que me amava por tudo o que considera sagrado -sussurrou-. O que  sagrado para ti, Roger?
       Abraou-a com cuidado e a manteve contra seu corao, recordando aquela jovem magra do Gloriana que cheirava a leite. Tambm recordava o fogo, os tambores, o sangue e a uma rf batizada com o nome do pai, que se tinha sacrificado a si mesmo por temor ao poder do amor.
       -Voc -disse-. Ele. Ns. No h nada mais, verdade?
       
       68
       Felicidade domstica
       
       Agosto de 1770
       
       Era uma manh tranqila. O menino tinha dormido toda a noite, por isso merecia a aprovao geral; duas galinhas tinham deixado seus ovos no galinheiro, sem me obrigar para busc-los entre os arbustos; o po se cozeu bem e o presunto e o peru deixavam escapar deliciosos aromas.
       Todas essas coisas ajudavam, mas a atmosfera geral de bem-estar se devia mais de noite anterior que aos acontecimentos da manh. Foi uma noite perfeita. Jamie tinha apagado a vela e me tinha chamado para que fora a olhar da porta.
       -O que acontece? -perguntei.
       -Nada. Vem e olhe.
       Tudo parecia flutuar em uma luz misteriosa. Na lonjura, quebrada-las pareciam congeladas, como suspensas no ar de no ser pelo vento que nos trazia o som da gua que caa. O ar da noite tinha aroma de erva, de gua v de pinheiro.
       Jamie estava nu a meu lado e estendeu a mo. Deixei cair minha camisola e o segui me agarrando de sua mo. Despertamos na escurido depois de que se ocultou a lua. No nos dissemos uma palavra, mas nos rimos e retornamos cambaleantes at chegar a nossa cama para dormir uma hora antes de que amanhecesse.
       Para tomar o caf da manh lhe pus um recipiente com cereais e lhe limpei um rastro de aveia da orelha. Voltou a cabea. Com um sorriso brilhando em seus olhos me agarrou a mo e a beijou. Toquei-lhe a nuca e o vi sorrir.
       Levantei a vista e me encontrei com o olhar da Brianna. Seus olhos eram quentes e pormenorizados. Logo vi que estava olhando ao Roger, quem comia com o olhar cravado nela.
       A cena de felicidade domstica foi rota pelos escandalosos avisos do Clarence anunciando visita. Sentia saudades a Cilindro, pensei enquanto ia para a porta para olhar. Enfim, ao menos Clarence no saltava sobre os visitantes nem os atirava ao cho.
       O visitante era Duncan Innes. Devia trazer um convite.
       -Sua tia pergunta se forem assistir  reunio do Mount Helicn, em outono. Diz que lhe deu sua palavra faz dois anos. 
       Jaime ps um prato com ovos ante o Duncan.
       -Ainda no 1o pensei -disse-. H muito que fazer e tenho que terminar o teto antes de que comece a nevar.
       -Vir um sacerdote de Baltimore -disse Duncan, evitando olhar ao Roger e Brianna-. A senhorita Eu pensa que talvez queiram batizar  criatura.
       -Aaah! -Jamie se tornou para trs pensativo-. Sim, talvez deveramos ir, Duncan.
       -Isso est bem, sua tia estar muito contente.
       Algo passou na garganta do Duncan que lhe fez ficar vermelho. Jamie lhe aconteceu a jarra de cidra.
       -Tem algo na garganta?
       -Ah... no.
       Todos deixaram de comer, olhando com certa fascinao as mudanas na cara do Duncan.
       -Eu... n... desejo pedir seu consentimento, an fhearr MAC Dubh, para o matrimnio da senhora Yocasta Cameron com... com...
       -Com quem? -perguntou Jamie-. Com o governador da colnia?
       -Comigo!
       Duncan levantou a jarra e enterrou a cara nela, com o alvio do homem que se est afogando e v chegar um navio.
       Jamie lanou uma gargalhada, o que no pareceu acalmar o desconforto do Duncan.
       -Meu consentimento? No lhe parece que minha tia j tem idade para decidir? Ou voc?            
       Duncan respirava melhor, embora ainda tinha as bochechas rosadas.                          
       -Pareceu-me o adequado --disse com certa cerimnia- Considerando que  seu parente mais prximo -tragou antes de seguir falando-. Y... e no me parece correto, MAC Dubh, que eu agarre o que deveria ser teu.
       Jamie sorriu e sacudiu a cabea.
       -Eu no vou reclamar nenhuma das propriedades de minha tia, Duncan, no as agarrei quando me ofereceu isso. Casaro-lhes durante o encontro? Ento, lhe diga que iremos e danaremos nas bodas.
       
       69
       Jeremiah
       
       Outubro de 1770
       
       Roger cavalgava com o Claire e Fergus perto do carro. Jamie no confiava na Brianna como condutora de um veculo se ia seu neto nele e tinha insistido em lev-lo ele, com o Lizzie e Marsali detrs e Brianna a seu lado. Da arreios, Roger ouvia parte da discusso que tinham comeado desde sua chegada.
       -John, seguro -dizia Brianna, olhando carrancuda a seu filho envolto no xale-. Mas no sei se deveria ser seu primeiro nome. No deveria ser Ian?  John em galico e eu gostaria de cham-lo assim. Mas no ser uma fonte de confuses entre tio Ian e nosso Ian?
       -Como nenhum dos dois est aqui, no acredito que haja problemas -assinalou Marsali, olhando a seu padrasto-, No disse que queria lhe pr um dos nomes de P?
       -Sim, mas qual? -Brianna deu meia volta para falar com o Marsali-. James no, isso sim que daria lugar a confuses. E Malcoml eu no gosto de muito. J tem o MacKenzie,  obvio, assim que talvez...
       Viu o olhar do Roger e lhe sorrio.
       -O que te parece Jeremiah?
       -John Jeremiah Alexander Fraser MacKenzie.
       Marsali pronunciou os nomes para prov-los.
       -eu gosto de Jeremiah -interveio Claire-. Jeremas.  do Antigo Testamento.  um de seus nomes, verdade, Roger?
       Sorriu-lhe e se inclinou para falar com a Brianna.
       -Por outra parte, se Jeremiah te parecer muito formal pode cham-lo Jemmy -disse-. Embora se parece muito ao Jamie, no?
       Roger sentiu um calafrio ao recordar sbitamente a outro menino ao que sua me chamava Jemmy, um menino cujo pai tinha o cabelo loiro e os olhos to verdes como os do Roger. Esperou a que Brianna estivesse ocupada trocando fraldas e se aproximou da gua que montava Claire.
       -Recorda a primeira vez que foi ao Inverness com a Brianna? Voc conhecia de antemo minha rvore genealgica.
       -Sim?
       -Faz tempo e talvez no o tenha notado... -Vacilou, mas tinha que sab-lo, se  que se podia-. Assinalou o lugar da rvore onde se fez a substituio, quando o filho do Geillis Duncan e Dougal foi adotado em lugar de um que tinha morrido e lhe deram seu nome.
       -William Bucdeigh MacKenzie -pinjente rapidamente, e sorri ante sua surpresa-. Tenho lido muitas vezes sua rvore genealgica;  provvel que pudesse te dizer todos os nomes.
       Respirou profundamente, com insegurana.
       -Poder? O que queria saber... sabe o nome da esposa da criatura suplantada, minhas seis vezes bisav? Seu nome no figura em minha rvore familiar; s figura William Bucdeigh.
       Fiz memria franzindo os lbios.
       -Sim -pinjente finalmente-. Morag. Seu nome era Morag Gunn. Porqu?
       Sacudiu a cabea, muito impressionado para responder. Olhou fazia Brianna. Tinha ao menino semidesnudo nos joelhos e o fralda sujo a um lado. Ento recordou a roupa empapada do menino chamado Jemmy.
       -O nome de seu filho era Jeremiah -disse ao fim,, to devagar que Claire teve que inclinar-se para ouvi-lo.
       -Sim.                     .        .           .
       Observei com curiosidade, olhando o caminho que se perdia entre os escuros pinheiros.   
       -Perguntei ao Geiilis -disse sbitamente-. Perguntei-lhe o porqu. por que podamos faz-lo?
       -E tinha uma resposta?
       -Ela disse: "Para trocar coisas". -Sorri com uma careta de ironia-. No sei se for uma resposta ou no. 
       
       
       70
       O encontro
       
       Tinham passado quase trinta anos do ltimo encontro que tinha visto. Tinha sido no Leoch, quando o Cl MacKenzie fez seu juramento. Colum MacKenzie e seu irmo Dougal tinham morrido, e com eles o resto dos Cls. Leoch estava em runas e no haveria mais encontros em Esccia.
       Mas aqui estavam as capas e as gaitas de fole, levadas pelos que ficavam daqueles highlanders, reclamando com orgulho essas novas montanhas. MacNeill e Campbell, Buchanan e Lindsey, MacLeod e MacDonald; famlias, escravos e serventes, homens contratados e latifundirios.
       Tratava de encontrar ao Jamie entre o tumulto quando descobri uma figura familiar.
       -Myers!
       John Quincy Myers me viu e se aproximou de nosso acampamento sonriendo.
       -Senhora Claire! -exclamou, inclinando-se para me saudar-. Me alegro muito de voltar a v-la.
       -O sentimento  mtuo -assegurei sonriendo-. No esperava v-lo aqui.
       -Bom, trato de vir sempre, se posso baixar das montanhas a tempo.  um bom lugar para minhas vendas, para me liberar das coisas que trago. Falando disso...
       Comeou a rebuscar em sua bolsa.
       -Esteve no norte, senhor Myers?
       -Sim, no rio Mohawk, em um lugar que chamam Upper Castle.
       -O Mohawk?
       Meu corao pulsou com fora.
       -Mmm. -Seguiu procurando em sua bolsa-. Imagine minha surpresa, senhora Claire, quando me detive na aldeia mohawk e vi um rosto conhecido.
       Ian! Viu ao Ian? Est bem?.
       Estava to excitada que o agarrei do brao.
       -Sim! -assegurou-.  um menino muito simptico, embora me custou reconhec-lo convertido em todo um guerreiro de rosto escuro, mas quando me chamou por meu nome...
       Ao fim encontrou o que procurava. Entregou um pequeno pacote envolto em couro, pacote com uma tira e com uma pluma de pssaro carpinteiro no n.
       -Confiou-me isto para que o entregasse a voc e a seu marido. -Sorriu com bondade-. Estou seguro de que quer ler agora a carta, assim que me retiro; j a verei depois.
       Fez uma solene reverencia e se afastou.
       No ia ler a sem o Jamie. Felizmente, apareceu em seguida.
       A nota comeava: "Ian salutat avunculus Jacobus". Jamie sorriu.
       Ave! Com isto terminam minhas lembranas da lngua latina, por isso contino na lngua inglesa, de lembrana mais fresca. Estou bem, tio, e contente, me acredite. Case-me segundo os costumes dos mohawk e vivo na casa tic minha esposa. Recordar ao Emily, a que fazia aquelas rala de madeira to bonitas. Cilindro  pai de muitos cachorrinhos e a aldeia est cheia de pequenas rplicas do lobo. No posso dizer que minha descendncia tenha prosperado da mesma forma, mas espero que escreva a minha me para lhe dizer que poder acrescentar um neto a sua lista. Nascer na primavera, avisarei-lhes co logo como posso. Enquanto isso, me recordem no Lallybroch, no River Run e na Colina do Fraser. Eu lhes recordo a todos com afeto e o farei enquanto viva. Meu carinho para tia Claire, para a prima Brianna e para ti. Seu mais afetuoso sobrinho, Ian Murray. Vale, avunculus.
       Jamie piscou um par de vezes, dobrou com cuidado a carta e a guardou em seu embornal.
       - avnculo, pequeno idiota -disse brandamente-. Com a saudao se usa o vocativo.
       O segundo dia, enquanto Lizzie, Brianna e eu comparvamos meninos com duas das filhas do Farquard Campbell, Jamie se abriu passo, com um amplo sorriso no rosto, entre a massa de mulheres e meninos.
       -Lizzie -disse-. Tenho uma pequena surpresa para ti- Fergus!                    
       Fergus, igual de contente, apareceu acompanhado de um homem de cabelo loiro.
       -Papai! -gritou Lizzie, correndo a seus braos.
       Jamie se meteu um dedo no ouvido com ar zombador.
       -Acreditei que nunca a ouviria gritar assim -disse.
       Sorriu-me e me deu duas partes de uma folha que originalmente tinha sido um documento.
       - o contrato de trabalho do senhor Wemyss -explicou-. Guarda-o, queimaremo-lo esta noite na fogueira.
       E voltou a perder-se entre a multido, onde todos lhe saudavam gritando MAC Dubh.
       
       O terceiro dia estive a par de notcias, intrigas e diversas conversaes em galico. Os que no falavam, cantavam; Roger estava em seu elemento, ronco j por tudo o que tinha cantado.
       -Faz-o bem? -tinha-me perguntado Jamie, olhando com dvidas a seu genro suposto.
       -Melhor -assegurei.
       Arqueou uma sobrancelha encolhendo-se de ombros e logo me pediu ao menino.
       -Bom, aceito sua palavra. Acredito que o pequeno Ruaidh e eu vamos jogar aos jogo de dados.
       -vais levar te a menino a jogar aos jogo de dados?
       - obvio -disse, sonrindome zombador-. Nunca se  muito jovem para aprender uma ocupao honrada. Ir bem em caso de que no possa ganh-la comida cantando como seu pai.
       Tinha improvisado uma clnica e atendia a uma mulher com dois meninos talheres de ampolas, causadas pela hera venenosa, quando me dava conta de que passava algo entre a gente e sa a ver. Os reflexos do sol sobre o metal se viam o bordo do claro. Jamie no foi o nico que procurou sua faca.
       Apareceram partindo, mas seus tambores no soavam. Fui contando. Eram quarenta, com os mosquetes apontando para o cu como manchas escarlates e com as saias verdes ondulando sobre seus joelhos. Todos os grupos vigiavam aos intrusos e olhavam a seus chefes esperando indicaes.
       Procurei a Brianna e me surpreendeu encontr-la detrs de mim com o menino em braos, observando por cima de meu ombro.
       -Quais so?-perguntou em voz baixa.
       -Um regimento highland -pinjente.
       -Isso j o vejo -disse asperamente-, Amigo ou inimigo?
       Era toda uma pergunta. Estavam ali como escoceses ou como soldados? Mas, a julgar pelos murmrios, nem eu nem ningum tnhamos resposta. Estvamos em uma reunio pacfica, sem propsitos polticos, mas a simples presencia de muitos escoceses juntos tinha sido sempre uma declarao poltica. Muitos dos pressente recordavam aqueles tempos. Os murmrios se fizeram mais fortes.
       Eram quarenta soldados com mosquetes e espadas, e ali haveria uns duzentos escoceses, a maioria armados e muitos com escravos e serventes. Mas tambm com suas mulheres e filhos.
       -Se algo passar -disse a Brianna- leva a menino para as rochas.
       Roger apareceu sbitamente frente a mim com a ateno posta nos soldados. No olhou ao Jamie, mas se pegou a ele formando uma parede protetora frente a ns. O mesmo acontecia por todo o claro.
       Ento o oficial deu uma ordem e os soldados passaram  posio de descanso. Este dirigiu o cavalo para ns. Seus olhos estavam fixos no Jamie, que ressaltava sobre outros por sua altura e seu cabelo. O homem se tirou o casco com plumas, baixou do cavalo, deu dois passos para ele e o saudou com uma inclinao de cabea. Ao ver o de perto distingui um broche de metal aceso de seu casaco vermelho.
       -Meu nome  Archie Hayes -disse com os olhos fixos no Jamie e cheios de esperana-. Dizem que voc conhecia meu pai.
       
       71
       fecha-se o crculo
       
       -Tenho algo que dizer -disse Roger.
       Tinha estado esperando a oportunidade de encontrar-se a ss com o Jamie Fraser. Todos queriam falar com ele, mas naquele momento estava sozinho, sentado sobre um tronco. 
       Roger se sentou com o menino em braos, Brianna e Lizzie estavam preparando a comida e Claire tinha ido visitar os Cameron do Isle Fleur, cuja fogueira estava perto. Jamie levantou os braos ao ver o Jemmy e, com uma pequena vacilao, Roger lhe entregou ao menino dormido. Murmurou-lhe algo em galico e logo olhou ao Roger.
       -Disse que tinha algo que me dizer.
       Roger assentiu.
       -Sim,  uma mensagem que devo transmitir. Quando Brianna se foi pelas pedras do Craigh na Dun me vi obrigado a esperar umas semanas anees de poder segui-la.
       -Sim?
       Jamie o olhou com cautela, como cada vez que mencionava as pedras.
       -Fui ao Inverness -continuou Roger sem deixar de lhe olhar-, Fiquei na casa onde tinha vivido com meu pai e estive revisando seus papis. Guardava muitas cartas. 
       Jamie assentiu, sem saber onde queria chegar, mas sua educao lhe impedia de interromp-lo.
       -Encontrei uma carta e me aprendi isso de cor pensando no momento em que encontrasse ao Claire. Mas agora no estou seguro de se devo dizer-lhe a ela ou a Brianna.
       -E me pergunta sim deve dizer-lhe 
       Olhou-o intrigado.                
       -Talvez. Embora, pensando-o bem, acredito que a carta se refere mais a ti que a elas.     
       Nesse momento, Roger sentiu simpatia pelo Fraser.
       -Sabia que meu pai era ministro? A carta era para ele. Suponho que foi escrita a modo de confisso, mas imagino que a morte anula esse segredo.
       Roger respirou profundamente e fechou os olhos. Estava seguro de cada palavra.
       A carta dizia:
       Querido Reg:
       Algo acontece a meu corao, alm da presena do Claire (dito com ironia). O mdico diz que posso viver durante anos com cuidados, mas que pode acontecer algo. As monjas do colgio do Bri assustavam aos meninos com o terrvel destino que esperava aos que morriam com pecados sem confessar e sem perdoar. Que me condenem (perdoa a expresso) se tiver medo do que me passar depois, se  que passa algo. Tudo pode ser,no?
       Nada de tudo isto lhe posso contar ao padre de minha parquia por bvias razes. No acredito que veja pecado nisto, mas certamente chamaria para pedir ajuda a um psiquiatra.
       Voc  um sacerdote, Reg, embora no seja catlico e, o mas importante,  meu amigo. No precisa me responder nem acredito que te seja possvel faz-lo. Mas pode me escutar. Um de seus grandes dons  saber escutar. Havia-lhe isso dito antes? Estou-me entretendo, no sei por que. Melhor comeo. Recorda o favor que te pedi faz uns anos, sobre as lpides no St. Kilda? Como bom amigo que , nunca me perguntou nada, mas  o momento de lhe explicar isso 
       Deus saber por que o velho Jack Randall foi enterrado em uma colina de Esccia e no no Sussex. Talvez a ningum importava o bastante para lev-lo a casa. Algo triste, espero que no fora assim. Se alguma vez Bri se interessar por sua histria (por minha histria) procurar e o encontrar ali. A localizao de sua tumba est mencionada nos documentos da famlia. Por isso te pedi que fizesse pr perto a outra lpide, a do James Fraser. Claire a levar a Esccia algum dia. Estou seguro. Se for ao St. Kilda a ver, ningum vai a um velho cemitrio sem dar uma volta entre as tumbas. Se o fizer, se a encontrar e pergunta ao Claire... eu no posso fazer mais, o que acontea o deixo para quando eu no esteja.
       Seu conhece todas as loucuras que Claire contava a sua volta. Fiz tudo o que pude para que o esquecesse, mas no quis. Que mulher mais teimosa! Talvez no cria isto, mas quando fui visitar te aluguei um carro e fui a essa maldita colina, ao Craigh na Dun. Contei-te o das bruxas que danavam no crculo pouco antes de que Claire desaparecesse. Quando estive ali quase acreditei. Toque uma pedra e,  obvio, no aconteceu nada.
       E entretanto, investiguei. Procurei o homem, ao Fraser, E talvez o encontrei. Ao menos, encontrei uma pessoa com esse nome e o que pude averiguar coincidia com o que Claire me tinha contado. J seja porque haja dito a verdade, ou porque convertesse uma iluso em uma experincia real... bom, havia um homem. Disso estou seguro!
       No poder acredit-lo, mas estive ali e pus a mo sobre a maldita lpide, desejando que se abrisse para ver cara a cara a esse James Fraser. Seja quem for e esteja onde esteja, no desejo na vida mais que o ter diante para mat-lo.
       Nunca o vi e no sei se existir, entretanto, odeio a esse homem como nunca odiei a ningum. Se o que Claire disser e o que eu descobri  lama, ento a tirei e a tive comigo graas a uma mentira. Talvez uma mentira por omisso. Suponho que posso cham-lo vingana. Os sacerdotes e os poetas dizem que a vingana  uma espada de dobro fio, e o outro fio  que alguma vez saberei o que tivesse feito se tivesse podido escolher, teria ficado comigo se lhe houvesse dito que Jamie tinha sobrevivido ao Culloden ou teria sado para Esccia como uma flecha?
       No posso pensar que Claire deixaria a sua filha. Confio em que no me deixe tampouco... mas... se tivesse a segundad, juro que o houvesse dito, mas no o fiz e essa  a verdade. Fraser. Devo amaldio-lo por me roubar a mim esposa, ou benz-lo por me dar a minha filha? Penso essas coisas e logo me detenho, assustado por acreditar nessa teoria absurda. E entretanto- tenho uma estranha sensao sobre o James Fraser, quase uma lembrana, como se o tivesse visto em alguma parte. Embora isso  o produto do cimes e a imaginao. Eu sei muito bem como  esse bastardo, vejo seu rosto em minha filha todos os dias.
       Esta  a parte estranha, um sentido da obrigao. No s para o Bri, embora acredite que tem direito ou seja o. Algumas vezes, quase posso sentir ao bastardo olhando por cima de meu ombro.
       No o tinha pensado antes- Crie que me encontrarei com ele alguma vez? Encontraremo-nos como amigos, pergunto-me, com os pecados da carne detrs de ns? Ou terminaremos encerrados para sempre em algum inferno celta, com as mos obstinadas  garganta do outro?
       Eu tratei mal ao Claire; bem, dependendo de como se olhe. No vou entrar em detalhes srdidos, digamos que o sinto. De modo que  assim, Reg. dio, cimes, mentiras, roubos, infidelidade, tudo completo. Salvo o amor, no h muito para equilibrar. Amei-a. Talvez no  a forma correta de amor, ou no  suficiente. Mas  tudo o que tive. 
       No quero morrer sem confessar e confio em ti para uma absolvio condicional. Eduquei ao Bri como catlica, crie que haver alguma esperana de que ela reze por mim?
       -Estava assinada "Frank",  obvio -disse Roger.
       - obvio -repetiu Jamie.
       Permaneceu imvel, com o rosto inescrutvel. Roger no precisava ler seu rosto; conhecia bem os pensamentos que passavam pela memore do outro homem. Os mesmos pensamentos que tinha tido nas semanas transcorridas entre o Beltane e a vspera do solstcio do vero, durante a busca da Brianna pelo oceano, durante seu cautividad, e ao final no crculo de pedras e no inferno de rododendros, ouvindo a cano que saa das pedras.
       Se Frank Randall tivesse eleito manter em segredo o que tinha descoberto e nunca tivesse feito colocar essa lpide no St. Kilda... Claire teria sabido a verdade? Talvez sim, talvez no. Mas tinha sido essa lpide a que fez que Claire contasse a sua filha a histria do James Fraser e a que ps ao Roger no caminho do descobrimento que os levou at esse lugar, at esse tempo.
       Foi a lpide a que enviou ao Claire de volta aos braos de seu amante escocs e lhe deu a possibilidade de poder morrer neles. A que lhe tinha dado  filha do Frank Randall a possibilidade de voltar com seu outro pai e, ao mesmo tempo, condenava-a a viver em um tempo que no era o seu, como resultado; o nascimento de um menino ruivo, que representava a continuao do sangue do Jamie Fraser. "Os interesses pela dvida?", pensou Roger.
       E logo estavam os pensamentos privados do Roger, outro menino que pde no ser, salvo pela crptica lpide deixada pelo Frank Randall para obter o perdo. Morag e William MacKenzie no estavam na reunio; Roger no sabia se estava desiludido ou aliviado.
       Jamie Fraser se moveu ao fim, embora seguia olhando ao fogo.
       -Ingls -disse brandamente, como um conjuro.
       Roger sentiu que lhe arrepiava o plo da nuca e acreditou ver algo movendo-se entre as chamas.
       Jamie estendeu suas grandes mos embalando a seu neto.
       -Ingls -repetiu, falando com o que fora que via entre as chamas-. Poderia desejar que nos encontrssemos algum dia, mas espero que no o faamos.
       Roger esperou com as mos sobre seus joelhos. Os olhos do Fraser estavam sombrios. Ao fim, algo sacudiu o fogo; Fraser moveu a cabea e pareceu que se dava conta ento de que Roger estava ali.
       -O digo a ela? Ao Claire? -perguntou Roger.
       -O disse a Brianna?
       -Ainda no, mas o farei -disse olhando fixamente ao Fraser-. Ela  minha esposa.
       -por agora.
       -para sempre..., se assim o quiser.
       Fraser olhou para a fogueira dos Cameron. A pequena silhueta do Claire se recortava escura contra o fogo.
       -Eu lhe prometi sinceridade -disse por fim muito devagar-. Sim, diga-lhe 
       Ao quarto dia, as ladeiras das montanhas estavam cheias de escoceses que tinham chegado. Cada famlia tinha sua fogueira, mas estava o grande fogo ao redor do qual se reuniam todas as noites para ver quem tinha chegado durante o dia.
       Tive a viso da insgnia do cl dos MacKenzie, "uma montanha ardendo", e de repente me dava conta do que significava. No se referia a um vulco, como tinha pensado.
       No, era uma imagem como a de agora: os fogos familiares brilhando na escurido, um sinal de que cada cl estava presente e unido. Pela primeira vez, entendi o lema que acompanhava  imagem: Lnceo non uro; ".Brilho, no queimo".
        Muito em breve as ladeiras pareciam vivas por causa das fogueiras. Uma dzia de famlias se apresentou antes de que Jamie terminasse sua conversao com o Geraid Forbes e se levantasse. Entregou-me ao menino e acendeu um tio com nosso fogo. Os gritos chegavam de longe.
       -Os MacNeill de Barra esto aqui!
        -Os Lachlan do Glen Linnhe esto aqui!
       E ao cabo de um momento, a voz do Jamie, forte e clara.
       -Os Fraser da Colina esto aqui!
       Houve um breve aplauso a nossos redor e gritos e vivas de outros.
       Permaneci quieta, desfrutando de do pequeno corpo dormido em meus braos.
       Jamie retornou cheirando a fumaa e a usque e se sentou no tronco, detrs de mim. Agarrou-me dos ombros e me apio contra ele. Ao outro lado do fogo, Brianna e Roger falavam com as cabeas juntas. Seus rostos brilhavam pelo fogo, cada um refletindo-se no outro.
       -No pensar que vo trocar seu nome de novo, no? -disse Jamie, olhando-os com o cenho franzido.
       -No acredito -respondi-. Os ministros fazem outras coisas alm de batizar, voc sabe.
       -Ah, se?
       -J passou em 3 de setembro. Voc te disse que ento devia escolher.
       -Isso pinjente.
       inclinou-se e me beijou na frente.
       Logo ps minha mo na sua.
       -E voc, quer escolher? -perguntou brandamente. Abriu-me a mo e vi o brilho do ouro-. Qu-lo de novo?
       Observei-o, procurando dvidas em seu olhar mas no as encontrei; havia algo mais: curiosidade pelo que eu ia dizer.
       -Foi faz muito tempo -pinjente.
       -Um comprido tempo. Sou um homem ciumento, mas no vingativo. Separei-te de seu lado, mas no vou apartar o de ti.
       Fez uma pausa com o anel brilhando em sua mo.
       -Foi sua vida, no?
       E perguntou outra vez.
       -Qu-lo de novo?
       Em resposta estendi a mo e me deslizou o anel no dedo.
       "Do F. para o C. com amor. Sempre."
       -O que h dito? -perguntei.
       Tinha murmurado algo em galico, muito baixo, como para que o entendesse.
       -Pinjente: "V em paz" -respondeu-. Mas no estava falando contigo, Sassenach.
       Ao outro lado do fogo algo vermelho cintilou. Olhei a tempo para ver que Roger se levava a mo da Brianna aos lbios, o rubi do Jamie brilhava em seu dedo, apanhando a luz do fogo e da lua.
       -Acredito que ela j escolheu -disse brandamente Jamie.
       Brianna sorriu com os olhos posados no rosto do Roger e se inclinou para beij-lo. Ento ficou em p, limpou-se a saia e foi acender um tio. O entregou falando em voz alta para que a ouvssemos.
       -V -disse- e lhes diga que os MacKenzie esto aqui. 
       




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